Trovadorismo

10/05/2015 07:58

trovadorismo

história da literatura

Agostina Akemi Sasaoka

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CONTEXTO HISTÓRICO.:

Trovadorismo foi a primeira escola literária portuguesa. Esse movimento literário

compreende o período que vai, aproximadamente do século XII ao século XIV.

As atividades literárias em Portugal durante a transição da Alta para Baixa Idade Média,

nascem quase que simultaneamente com a consolidação da nação portuguesa como

reino independente, num período marcado principalmente pelo Feudalismo (plano político-

econômico) e pelo Teocentrismo (poder espiritual do clero).

O Feudalismo foi um sistema político-econômico medieval descentralizado na qual o

poder estava diretamente relacionado à posse da terra. A economia era

fundamentalmente agrária (subsistência), sem comércio e, portanto, sem intercâmbio

cultural. Praticamente todas as mercadorias negociadas nessa época vinham da terra e

por isso, a quantidade de terra possuída era a chave da fortuna e do poder, que estava

nas mãos da nobreza, representada por senhores feudais ou suseranos. Estes faziam a

concessão de pequenos lotes de terra (feudo) a um servo ou vassalo, para que este a

cultivasse em troca de proteção. Além da obrigação de cultivar esses lotes, os vassalos

tinham que pagar inúmeras taxas impostas pelos donos das terras. Os valores dessas

taxas eram tão altos que o dinheiro que restava era apenas o suficiente para a sua

subsistência e para o plantio de uma nova safra. Essa relação de dependência entre

suserano e vassalo nessa sociedade fortemente hierarquizada era chamada de

vassalagem.

Havia ainda uma outra classe social política e economicamente poderosa, detentora de

grandes extensões de terras: o clero. A Igreja era a maior Instituição feudal da época,

determinando o modo de pensar e viver de uma sociedade fortemente marcada pela

idéia de Deus como centro do universo. A própria produção artística vai estar impregnada

por esse espírito teocêntrico, numa época em que religião e profano se confundem. Tanto

a pintura quanto a escultura procuravam retratar cenas da vida de santos ou episódios

bíblicos. A vida do povo lusitano estava voltada para os valores espirituais e a salvação

da alma. Emoção e fé regiam as ações, determinando uma visão mais subjetiva do mundo,

caracterizando certo irracionalismo. Surge a Escolástica, filosofia medieval que tentava

justificar a fé pela lógica. A Igreja pregava a renúncia aos bens materiais e aos prazeres

terrenos como condição para salvação eterna. Nessa época, eram freqüentes procissões,

romarias, construção de templos religiosos, missas etc.

A influência do clero evidenciou-se principalmente durante as Cruzadas, expedições e

batalhas de cunho religioso, entre cristãos e muçulmanos, que tinham como principal

objetivo a libertação dos lugares santos, situados na Palestina e venerados pelos cristãos,

além da expulsão dos árabes da Península Ibérica.

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Tais aspectos sócio-culturais são importantes para entendermos certas características

das manifestações literárias desse período. O feudalismo terá reflexos até mesmo na

linguagem da poesia lírica. Ademais, as cortes dos reis e dos grandes senhores feudais

são os centros de produção cultural e literária. O teocentrismo, por sua vez, vai se refletir

tanto nas novelas de cavalaria como na poesia de temática religiosa, nas hagiografias e

obras de devoção. Devido às cruzadas, a maioria dos textos líricos demonstrava a

saudade da amada pelo amado que foi para lutar em favor da igreja, contra os mouros.

Os outros textos líricos demonstravam o amor platônico, amor impossível de se consumar

(o que nesse caso é com o casamento), pois o sujeito-lírico desses poemas é um amante

de uma escala mais baixa na hierarquia feudal, sempre era um camponês morrendo de

amores por uma nobre.

O Trovadorismo vai entrar em declínio durante a crise do feudalismo e as conseqüentes

modificações na maneira de governar de Portugal, incluindo o contexto de conflitos com

a Espanha que culminam com a decadência do mecenantismo real.

Muitos marcam o fim do Trovadorismo em 1385, com o fim da dinastia de Borgonha,

quando D. João I é aclamado rei de Portugal e inicia-se a dinastia de Avis. Para outros,

seu fim é marcado com a nomeação de Fernão Lopes para cronista-mor da torre do

Tombo em 1418.

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POESIA TROVADORESCA.:

Na literatura, o Trovadorismo foi a primeira escola literária portuguesa. Esse movimento

compreende o período que vai, aproximadamente, do século XII ao século XIV.

Convencionou-se que o marco inicial do Trovadorismo data da primeira cantiga feita por

Paio Soares Taveirós, provavelmente em 1189 (ou 1198?), intitulada Cantiga de Guarvaia,

mais conhecida como Cantiga da Ribeirinha. Essa cantiga, originalmente em galego-

português, um romanço (língua de origem latina falada na costa da Península Ibérica) -

visto que ainda não havia uma unidade lingüística entre Portugal e a Galiza - foi endereçada

a Maria Pais Ribeiro (a ribeirinha), uma mulher muito cobiçada na corte portuguesa e

que foi amante de D. Sanho I, o segundo rei de Portugal.

A poesia trovadoresca era cantada na língua galego-portuguesa e acompanhada por

instrumentos musicais, caracterizando-se pela tradição oral e coletiva.

Numa época em que a população era quase toda analfabeta, a cultura era transmitida

essencialmente por via oral, o que estabelecia um dualismo lingüístico entre a cultura

monástica (escrita e erudita, inicialmente só expressa em latim) e a cultura laica ou profana,

transmitida oralmente, em língua galego-portuguesa, onde se inclui a poesia trovadoresca.

A poesia trovadoresca tem origem em duas tradições poéticas fundamentais: a tradição

popular da região e a influência direta do "

troubadours

" provençais. Compreende um

conjunto de cerca de 1600 cantigas de caráter profano, com temática pagã, erótica e

satírica, a que poderemos acrescentar cerca de 400 poemas de conteúdo religioso. Há

um predomínio da literatura oral, associada à música e à dança. A poesia não era escrita

para ser lida por um leitor solitário. Os poemas eram cantados e acompanhados de

instrumentos musicais, recebendo o nome de cantigas (ou ainda de canções ou cantos),

e eram próprias para apresentações coletivas. Seu público não era, portanto, constituído

de leitores, mas de ouvintes. Infelizmente, as partituras das músicas se perderam quase

todas, sobrando nos dias de hoje apenas cinco, escritas por Martim Codax.

-

Trovador:

Aquele que escreve as cantigas (geralmente nobres). Cabe lembrar que são

sempre homens.

-

Menestréis:

músicos-poetas sedentários; viviam nas casas de fidalgos.

-

Segréis:

trovadores profissionais, fidalgos desqualificados que iam de corte em corte,

acompanhados por um jogral.

-

Jograis:

do provençal: joglar = brincar. Cantores e tangedores ambulantes, geralmente

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de origem plebéia (espécie de bobos da corte, que apenas executavam ou interpretavam

as composições alheias).

-

Soldadeira ou Jogralesca

; moça que dançava e tocava castanholas ou pandeiro.

Esses artistas eram a "alma" das trovas, porque eles as interpretavam e tinham que

transmitir todo sentimento passado por seus personagens, suas decepções, saudades,

ilusões, sofrimentos e a dor de um amor impossível.

Devido ao fato de serem poesias cantadas, são de tradição popular e são menos

sofisticadas em relação à poesia escrita, apresentando simplicidade temática e formal.

Quanto à forma, as cantigas dividem-se em:

Cantigas de Maestria:

sete versos em cada estrofe, sem refrão, mais difíceis e

sofisticadas.

Cantigas de Refrão:

quatro versos em cada estrofe, com repetição de um deles (refrão)

no final, mais populares.

Cantigas Paralelísticas:

há versos encadeados que repetem a mesma estrutura, com

pequenas variações, em pares de estrofes consecutivos, com rimas.

Quanto a temática, as cantigas podem ser divididas em dois grandes grupos: cantigas

líricas (cantigas de amor e cantigas de amigo) e cantigas satíricas (cantigas de escárnio

e cantigas de maldizer). Do ponto de vista literário, as cantigas líricas, nas quais o amor

é temática constante, apresentam maior potencial pois formam a base da poesia lírica

portuguesa e até brasileira. Já as cantigas satíricas, geralmente, tratavam de

personalidades da época, numa linguagem popular e muitas vezes obscena.

Só tardiamente (a partir do final do século XIII) as cantigas foram compiladas em

manuscritos chamados cancioneiros. Três desses livros, contendo aproximadamente 1

680 cantigas, chegaram até nós:

• Cancioneiro da Ajuda (310 Cantigas).

• Cancioneiro da Vaticana (1205 Cantigas).

• Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa (1647 Cantigas), também conhecido por

Cancioneiro Colocci-Brancutti.

Gêneros:

- lírico (cantigas de amigo e cantigas de amor): o amor é a temática constante

- satírico (cantigas de escárnio e de mal dizer): crítica social.

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GÊNERO LÍRICO.:

Cantigas de Amigo.:

As Cantigas de Amigo têm origem galego-lusitana e autóctone, isto é, originam-se da

tradição popular e do folclore da própria Península Ibérica. Cronologicamente, são

anteriores às cantigas de amor, mas inicialmente não eram escritas. Só com a chegada

das cantigas provençais e o desenvolvimento da arte poética é que se registraram em

textos.

Retratam o cotidiano, a vida rural e o ambiente urbano das aldeias medievais. A mulher

que encontramos aqui é real, concreta. É uma camponesa, uma mulher do povo, que fala

de seus problemas amorosos.

Apesar de ser compostas e cantadas por homens, o sujeito-lírico das Cantigas de Amigo

é sempre feminino. O trovador enfoca o ponto de vista feminino, colocando-se no lugar

da mulher que sofre pelo amado distante, por ciúmes, pelo amor não correspondido.

A temática é o amor pelo "amigo" (namorado, amante, marido) e a "coita" (sofrimento

amoroso, geralmente causado pela ausência do amado). O amor é infeliz, mas também

natural e espontâneo. Ademais, trata-se de um amor concreto, realizável. O tom pode ser

de frustração, mas o "amigo" é real.

Há uma forte presença do campo, da natureza e de pessoas do ambiente familiar.

As situações de diálogo são bastante freqüentes, principalmente em tom de confissão.

É comum enfocar as confissões da mulher a sua mãe e suas amigas, e até mesmo em

conversas com a natureza, em confissões aos pássaros, fontes, riachos, flores. Todavia,

cabe ressaltar que a mulher nunca fala diretamente com seu interlocutor (o "amigo").

A linguagem é mais simples do que as das cantigas de amor, tendo em vista seu caráter

popularesco, visto que não se ambientam em palácios, abordando pequenos quadros

sentimentais.

Possuem estrutura de cantigas de refrão e paralelísticas. É comum a repetição do mesmo

verso (= refrão) ao final de todas as estrofes, o que mantém o ritmo cadenciado e reforça

uma mesma idéia, valorizando-a. Daí sua musicalidade, que vai de encontro à tradição

oral ibérica.

Há vários tipos de cantigas, conforme a maneira como o assunto é tratado ou o cenário

onde se dá o encontro amoroso:

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- albas ou alvas (ao amanhecer);

- bailias ou bailadas (convite à dança);

- marinas, marinhas ou barcarolas (temas relacionados a mar, rios, barcos);

- pastorelas (temas campesinos);

- plang (canto de lamentação).

- de romaria (peregrinações a santuários);

- serranilhas (nas montanhas);

Cantigas de amor.:

As Cantigas de Amor têm origem provençal, com os poetas do sul da França, e foram

levadas a Portugal através de eventos religiosos e contatos entre as cortes. Todavia, as

cantigas de amor em Portugal são mais sinceras e mais autênticas na expressão dos

sentimentos do que as que lhes deram origem.

O sujeito-lírico das Cantigas de Amor é sempre masculino: o trovador faz a corte a uma

dama (interlocutor), dentro das convenções do amor cortês traduzidas na "vassalagem

amorosa" - reflexo da estrutura social da época - e na idealização da mulher.

A temática continua sendo a "coita" agregada à distância absurda entre o homem e a

mulher objeto de seu amor: é a coita amorosa do trovador perante uma mulher inatingível.

O amor é impossível, irrealizável, idealizado, fantasiado. O sofrimento amoroso é, na

maioria das vezes, causado por um amor proibido ou não-correspondido.

A mulher amada está em posição de superioridade, até por sua condição social, sendo

tratada como "mia senhor". Seu nome jamais é revelado, por mesura ou para não

comprometê-la (devido às diferenças de posição social ou pelo fato de ser casada). O

trovador coloca-se humildemente a seu serviço, como seu vassalo, rogando para que ela

aceite sua dedicação e submissão, refletindo a relação social de servidão da época.

A mulher inacessível é exaltada e sacralizada, refletindo um erotismo disfarçado,

deturpado, sublimado pela opressão religiosa e pela sociedade machista, sem a

possibilidade de uma sensualidade explícita.

Há uma contemplação platônica e a aparência física da mulher amada é tratada como

extensão das qualidades morais.

A linguagem é refinada e bem mais trabalhada do que a das cantigas de amigo, tendo

em vista seu ambiente cortesão, retratando a vida da nobreza nos palácios.

Possuem estrutura de cantigas de refrão ou de maestria (mais complexas).

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GÊNERO SATÍRICO.:

As cantigas satíricas (cantigas de escárnio e cantigas de maldizer) apresentam interesse

sobretudo histórico, reunindo cantigas autóctones maliciosa da época. São verdadeiros

documentos dos costumes e da vida social e política, principalmente da corte, trazendo

até nós os mexericos e os vícios ocultos da fidalguia medieval portuguesa, sem a

idealização da cantiga de amor.

Seu objetivo é a crítica social, com intuito humorístico, ridicularizando pessoas de forma

sutil ou grosseira, denunciando os falsos valores morais vigentes e atingindo todas as

classes sociais: senhores feudais, clérigos, povo e até eles próprios.

Seus principais temas são: a covardia dos cavaleiros, traições, as chacotas e deboches,

escândalos das amas e tecedeiras, pederastia (homossexualismo) e pedofilia (relações

sexuais com crianças), adultério e amores interesseiros e ilícitos, disputas políticas,

mulheres feias.

Tanto nas cantigas de escárnio quanto nas de maldizer, pode ocorrer diálogo. Quando

isso acontece, a cantiga é denominada tensão (ou tenção). Pode mostrar a conversa

entre a mãe a moça, uma moça e uma amiga, a moça e a natureza, ou ainda, a discussão

entre um trovador e um jogral, ambos tentando provar que são mais competentes em sua

arte.

É verdade que seu valor poético é pequeno, mas seu aspecto documental torna

imprescindível seu estudo. Ademais, são importantes uma vez que apresentam um

considerável vocabulário, observando-se, muitas vezes o uso de trocadilhos; e fogem às

normas rígidas das cantigas de amor oferecendo novos recursos poéticos.

A diferenças entre as cantigas de escárnio e de maldizer é sutil.

Cantigas de Escárnio.:

Sátira social ou individual. Crítica indireta, sarcástica, zombeteira e de linguagem ambígua.

Presença de menosprezo, desprezo e desdém. Não se nomeia a pessoa criticada, mas

esta é facilmente reconhecível pelos demais elementos da sociedade.Uso da ironia, do

equívoco e da sutileza, com intuito humorístico.

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Cantigas de Maldizer.:

Sátira direta, maledicente, com linguagem objetiva e inequívoca. Neste tipo de cantiga é

feita uma crítica pesada, com intenção de ofender e difamar, citando-se o nome da pessoa

ridicularizada. Presença de agressividade e uso de termos vulgares, grosseiros e

obscenos, inclusive palavrões. Há uma abordagem mais desabusada dos vícios sexuais

atribuídos aos satirizados.

A PROSA TROVADORESCA.:

A prosa medieval tem caráter documental, retratando com mais detalhes o ambiente

histórico-social desta época.

Há quatro gêneros em prosa do período medieval:

Hagiografias.:

Relatos bibliográficos dos santos da Igreja, escritos em latim.

Cronicões.:

Relatam, de forma romanceada, acontecimentos históricos/sociais do século XIV, através

de anotações em seqüência cronológica.

Livros de Linhagem ou Nobiliários.:

Árvores genealógicas das famílias nobres, elaboradas com o intuito de resolver problemas

de heranças e de evitar "casamentos em pecado".

Novelas de Cavalaria.:

As novelas de cavalaria são narrativas ficcionais de acontecimentos históricos, originárias

da prosificação de poemas épicos e das canções de gesta (guerra) francesas e inglesas.

Refletiam, de modo geral, os ideais da nobreza feudal: o espírito cavalheiresco, a

fidelidade, a coragem, o amor servil. Geralmente não apresentavam autoria e sua temática