Tropicalismo

12/05/2015 05:51

ORFEU SPAM APOSTILAS

[Volta à Página Principal]

Caetano Veloso

(Santo Amaro da Purificação BA, 1942)

Ingressou na Faculdade de Filosofia da UFB, em 1963, mas não chegou a concluir o curso. No ano seguinte, estreou o show Nós, Por Exemplo, em Salvador, com Gal Costa, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Tom Zé. Em 1967 sua canção Alegria, Alegria ganhou o quarto lugar no III Festival de MPB da TV Record e ele gravou seu primeiro disco, Domingo. Em 1968 ocorreu o lançamento do LP Tropicália ou Panis et Circensis, com Gal Costa, Gilberto Gil, Nara Leão, Rogério Duprat, Tom Zé e Os Mutantes, disco-manifesto do Tropicalismo. A oposição ao regime militar custou-lhe dois meses de prisão e o exílio na Inglaterra, em 1969. De volta ao Brasil, prosseguiu compondo e realizando shows; fez trilhas sonoras para filmes e lançou diversos álbuns, entre os quais Doces Bárbaros (1976), Estrangeiro (1989) e Circuladô (1991). Publicou Verdade Tropical, livro de memórias, em 1997. Um dos criadores do Tropicalismo, Caetano Veloso está entre os principais compositores da Música Popular Brasileira do século XX. Músico inovador, introduziu em suas canções elementos do pop e do rock, entre outros gêneros, criando obras que modificaram o panorama da música popular no país.

 

Acrilírico
Caetano Veloso
Rogério Duprat

Olhar colírico
Lirios plásticos do campo e do contracampo
Telástico cinemascope teu sorriso tudo isso
Tudo ido e lido e lindo e vindo do vivido
Na minha adolescidade
Idade de pedra e paz

Teu sorriso quieto no meu canto

Ainda canto o ido o tido o dito
O dado o consumido
O consumado
Ato
Do amor morto motor da saudade

Diluído na grandicidade
Idade de pedra ainda
Canto quieto o que conheço
Quero o que não mereço
O começo
Quero canto de vinda
Divindade do duro totem futuro total
Tal qual quero canto
Por enquanto apenas mino o campo ver-te
Acre e lírico o sorvete
Acrilíco Santo Amargo da Putrificação

A rã
Caetano Veloso
João Donato

Coro de cor
Sombra de som de cor
De mal-me-quer
De mal-me-quer de bem
De bem-me-diz
De me dizendo assim
Serei feliz
Serei feliz de flor
De flor em flor
De samba em samba em som
De vai e vem
De ver de verde ver
Pé de capim
Bico de pena pio
De bem-te-vi
Amanhecendo sim
Perto de mim
Perto da claridade
Da manhã
A grama a lama tudo
É minha irmã
A rama o sapo o salto
De uma rã

Alegria, alegria
Caetano Veloso

Caminhando contra o vento
Sem lenço sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou

O sol se reparte em crimes
Espaçonaves, guerrilhas
Em Cardinales bonitas
Eu vou

Em caras de presidentes
Em grandes beijos de amor
Em dentes pernas bandeiras
Bomba e Brigitte Bardot

O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia?
Eu vou

Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou

Por que não? Por que não?

Ela pensa em casamento
E eu nunca mais fui à escola
Sem lenço sem documento
Eu vou

Eu tomo uma coca-cola
Ela pensa em casamento
E uma canção me consola
Eu vou

Por entre fotos e nomes
Sem livros e sem fuzil
Sem fome sem telefone
No coração do Brasil

Ela nem sabe até pensei
Em cantar na televisão
O sol é tão bonito
Eu vou

Sem lenço sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo amor
Eu vou

Por que não? Por que não?

Cá já
Caetano Veloso

Vejo que areia linda
Brilhando cada grão
Graças do sol ainda
Vibram pelo chão

Vejo que a água deixa
As cores de outra cor
Volta pra si sem queixa
Tudo é tanto amor

Esteja cá já
Pedra vida flor
Seja cá já
Esteja cá já
Tempo bicho dor
Seja cá já
Doce jaca já
Jandaia aqui agora

Ouço que tempo imenso
Dentro de cada som
Música que não penso
Pássaro tão bom

Ouço que vento, vento
Ondas asas capim
Momento movimento
Sempre agora em mim

Esteja cá já
Pedra vida flor
Seja cá já
Esteja cá já
Tempo bicho dor
Seja cá já
Doce jaca já
Jandaia aqui agora

Deus e o diabo
Caetano Veloso

Você tenha ou não tenha medo
Nego, nega, o carnaval chegou
Mais cedo ou mais tarde acabo
De cabo a rabo com essa transação de pavor
O carnaval é invenção do diabo
Que Deus abençoou
Deus e o diabo no Rio de Janeiro
Cidade de São Salvador
Não se grile
A rua Chile sempre chega pra quem quer
Qual é! qual é! qual é!
Qual é! Qual é!...
Quem pode, pode
Quem não pode vira bode
Foge pra Praça da Sé
Cidades maravilhosas
Cheias de encantos mil
Cidades maravilhosas
Os pulmões do meu Brasil

Divino maravilhoso
Caetano Veloso
Gilberto Gil

Atenção
Ao dobrar uma esquina
Uma alegria

Atenção, menina
Você vem
Quantos anos você tem?

Atenção
Precisa ter olhos firmes
Pra este sol, para esta escuridão

Atenção
Tudo é perigoso
Tudo é divino maravilhoso

Atenção para o refrão
É preciso estar atento e forte
Não temos tempo de temer a morte

Atenção
Para a estrofe e pra o refrão
Pra o palavrão, para a palavra de ordem

Atenção
Para o samba exaltação

Atenção
Tudo é perigoso
Tudo é divino maravilhoso

Atenção para o refrão
É preciso estar atento e forte
Não temos tempo de temer a morte

Atenção
Para as janelas no alto

Atenção
Ao pisar o asfalto mangue

Atenção
Para o sangue sobre o chão

É preciso estar atento e forte
Não temos tempo de temer a morte

É proibido proibir
Caetano Veloso

A mãe da virgem diz que não
E o anúncio da televisão
E estava escrito no portão
E o maestro ergueu o dedo
E além da porta há o porteiro, sim
Eu digo não
Eu digo não ao não
Eu digo
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir

Me dê um beijo, meu amor
Eles estão nos esperando
Os automóveis ardem em chamas
Derrubar as prateleiras
As estantes, as estátuas
As vidraças, louças, livros, sim
Eu digo sim
Eu digo não ao não
Eu digo
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir

Épico
Caetano Veloso

ê, saudade

Todo mundo protestando contra a poluição
Até as revistas de Walt Disney
Contra a poluição

ê, Hermeto

Smetak, Smetak & Musak & Smetak
& Musak & Smetak & Musak
& Razão

ê, cidade

Sinto calor, sinto frio
Nor-destino no Brasil?
Vivo entre São Paulo e Rio
Porque não posso chorar

ê, começo

Destino eu faço não peço
Tenho direito ao avesso
Botei todos os fracassos
Nas paradas de sucessos

ê, João

Genipapo absoluto
Caetano Veloso

Como será pois se ardiam fogueiras
Com olhos de areia quem viu
Praias, paixões fevereiras
Não dizem o que junhos de fumaça e frio
Onde e quando é genipapo absoluto
Meu pai, seu tanino, seu mel
Prensa, esperança, sofrer prazeria
Promessa, poesia, Mabel

Cantar é mais do que lembrar
É mais do que ter tido aquilo então
Mais do que viver do que sonhar
É ter o coração daquilo

Tudo são trechos que escuto – vêm dela
Pois minha mãe é minha voz
Como será que isso era este som
Que hoje sim, gera sóis, dói em dós
"Aquele que considera"
A saudade de uma mera contraluz que vem
Do que deixou pra trás
Não, esse só desfaz o signo
E a "rosa também"

Haiti
Caetano Veloso
Gilberto Gil

Quando você for convidado pra subir no adro
Da Fundação Casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos
E outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
E aos quase brancos, pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
E não importa se olhos do mundo inteiro
Possam estar por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados
E hoje um batuque, um batuque
Com a pureza de meninos uniformizados
De escola secundária em dia de parada
E a grandeza épica de um povo em formação
Nos atrai, nos deslumbra e estimula
Não importa nada
Nem o traço do sobrado, nem a lente do Fantástico
Nem o disco de Paul Simon
Ninguém, ninguém é cidadão
Se você for ver a festa do Pelô
E se você não for
Pense no Haiti
Reze pelo Haiti

O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui

E na TV se você vir um deputado
Em pânico mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo
Qualquer qualquer
Plano de educação que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização
Do ensino de primeiro grau
E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital
E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
E nenhum no marginal
E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual
Notar um homem mijando na esquina da rua
Sobre um saco brilhante de lixo do Leblon
E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo
Diante da chacina: 111 presos indefesos
Mas presos são quase todos pretos
Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres
E todos sabem como se tratam os pretos
E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba
Pense no Haiti
Reze pelo Haiti

O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui.

Jóia
Caetano Veloso

Beira de mar
Beira de mar
Beira de mar na América do Sul
Um selvagem levanta o braço
Abre a mão e tira um caju
Um momento de grande amor
De grande amor

Copacabana
Copacabana
Louca total e completamente louca
A menina muito contente
Toca a coca-cola na boca
Um momento de puro amor
De puro amor

Livros
Caetano Veloso

Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo

Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura

Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou – o que é muito pior – por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:
Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras

Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas.

London, London
Caetano Veloso

I’m wandering round and round nowhere to go
I’m lonely in London London is lovely so
I cross the streets without fear
Everybody keeps the way clear
I know, I know no one here to say hello
I know they keep the way clear
I am lonely in London without fear
I’m wandering round and round here nowhere to go

While my eyes
Go looking for flying saucers in the sky

Oh Sunday, Monday, Autumm pass by me
And people hurry on so peacefully
A group approaches a policeman
He seems so pleased to pleace them
It’s good at least to live and I agree
He seems so pleased at least
And it’s so good to live in peace and
Sunday, Monday, years and I agree

While my eyes
Go looking for flying saucers in the sky

I choose no face to look at
Choose no way
I just happen to be here
And it’s ok
Green grass, blue eyes, gray sky, God bless
Silent pain and happiness
I came around to say yes, and I say

But my eyes
Go looking for flying saucers in the sky.

Lost in the paradise
Caetano Veloso

My little grasshopper
Airplane cannot fly very high
I find you so far from my side
I’m lost in my old in my own green light

Don’t help me, my love
My brother, my girl
Just tell her name
Just let me say who am I

Her big white plastic finger
Surrounds my dark green hair,
But it’s not your unknown right hand
But it’s not your unknown right hand

Oh, don’t help me, my love
My brother, my girl
Just tell her name
Just let me say who am I

I am the sun, the darkness,
My name is green wave death, salt
South America’s my name
World is my name, my size
And honor my name
Hear my

My little grasshopper airplane
Cannot fly very high

Oh, don’t help me, my love
My brother, my girl
Just tell her name
Just let me say who am I.

O conteúdo
Caetano Veloso

Deita numa cama de prego e cria fama de faquir
Não tentes fugir ao sossêgo, meu nêgo
Tu és fraco como um anjo
E sabes voar
Teu gênio alegre, não fujas daqui
Todos os anos, passar pela casa dos Novos Baianos
Manos, jogar capitão
Como é bonito o Pão de Açucar visto daquele ângulo
E aquele cara falou que é pra ver se eu não brinco
Com o ano de mil novecentos e setenta e cinco
Aquele cara na Bahia me falou que eu morreria dentro de três anos
Minha alma e meu corpo disseram: não!
E por isso eu canto essa canção – Jorge
E por isso eu canto essa canção – Jorge Ben
E por isso eu canto essa canção – Jorge Mautner
E por isso eu canto essa canção – Jorge Salomão
Roge, Roge, Roge, Roge
Cadê vocês, oh Mãe de Deus?
Jorge, cadê vocês? Ninguém
Tudo vai bem, Jorge?
Tudo vai bem, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo
E o divino conteúdo
A íris do olho de Deus tem muitos arcos
E há muitos barcos no mar
Se fugires – não fujas – te perderás
Pra onde, pra onde, pra onde, para onde, para onde, para onde
Vais, aliás?
Tire o pé da lama
Tendo somente a quem te ama
Pela insistência com que chama
Pela exuberância da chama
É proibido pisar na grama
Pela insistiencia das folhas na rama
E pela insistência da rima
Cria fama e deita-te na cama
Cria fama e deita-te na cama

O cu do mundo
Caetano Veloso

O furto, o estupro, o rapto pútrido
O fétido seqüestro
O adjetivo esdrúxulo em U
Onde o cujo faz a curva
(O cu do mundo, esse nosso sítio)
O crime estúpido, o criminoso só
Substantivo, comum
O fruto espúrio reluz
À subsombra desumana dos linchadores

A mais triste nação
Na época mais podre
Compõe-se de possíveis
Grupos de linchadores.

Peixe
Caetano Veloso

Peixe
Deixa eu te ver, peixe
Verde
Deixa eu ver o peixe
Vi o brilho verde
Peixe prata.

Pássaro proibido
Caetano Veloso
Maria Bethânia

Solto está o pássaro proibido
Perigo, cuidado, sinal nas ruas
Plumagem clara, brilhante
Ao sol e à lua transparente
Ao corisco e à maré
Ao corisco e à maré

Eu canto o sonho na cama
Do jeito doce e moreno
Eu canto pássaro proibido de sonhar
O canto macio, olhos molhados
Sem medo do erro maldito
De ser um pássaro proibido
Mas com o poder de voar

Voar até a mais alta árvore
Sem medo, tranqüilo, iluminado
Cantando o que quer dizer
Perguntando o que quer dizer
Que quer dizer meu cantar
Que quer dizer meu cantar.

Peter Gast
Caetano Veloso

Sou um homem comum
Qualquer um
Enganando entre a dor e o prazer
Hei de viver e morrer
Como um homem comum
Mas o meu coração de poeta
Projeta-me em tal solidão
Que às vezes assisto a guerras
E festas imensas
Sei voar e tenho as fibras tensas
E sou um

Ninguém é comum
E eu sou ninguém
No meio de tanta gente
De repente vem
Mesmo eu no meu automóvel
No trânsito vem
O profundo silêncio
Da música límpida de Peter Gast

Escuto a música silenciosa de Peter Gast
Peter Gast, o hóspede do profeta sem morada
O menino bonito, Peter Gast
Rosa do crepúsculo de Veneza
Mesmo aqui no samba-canção do meu rock’n’roll
Escuto a música silenciosa de Peter Gast

Sou um homem comum.

Qualquer coisa
Caetano Veloso

Esse papo já tá qualquer coisa
Você já tá pra lá de Marrakesh
Mexe qualquer coisa dentro, doida
Já qualquer coisa doida, dentro, mexe

Não se avexe não, baião de dois
Deixe de manha, deixe de manha
Pois, sem essa aranha, sem essa aranha, sem essa aranha
Nem a sanha arranha o carro
Nem o sarro arranha a Espanha
Meça tamanha, meça tamanha
Esse papo seu já tá de manhã

Berro pelo aterro, pelo desterro
Berro por seu berro, pelo seu erro
Quero que você ganhe, que você me apanhe
Sou o seu bezerro gritando mamãe
Esse papo meu tá qualquer coisa e você tá pra lá de Teerã.

Rapte-me camaleoa
Caetano Veloso

Rapte-me camaleoa
Adapte-me a uma cama boa
Capte-me uma mensagem à-toa
De um quasar pulsando loa
Interestelar canoa

Leitos perfeitos
Seus peitos direitos me olham assim
Fino menino me inclino pro lado do sim
Rapte-me, adapte-me, capte-me, it’s up to me, coração
Ser querer, ser merecer, ser um camaleão

Rapte-me camaleoa
Adapte-me ao seu ne me quitte pás.

Samba da cabeça
Caetano Veloso

A cabeça samba
A cabeça blusa
A cabeça rumba
A cabeça reggae

A cabeça agora
A cabeça fora
A cabeça adora
A cabeça nova

A cabeça pouca
A cabeça oca
A cabeça louca
A cabeça rouca

A cabeça ovo
A cabeça olho
A cabeça pouca
A cabeça todo

A cabeça lúdica
A cabeça América
A cabeça África
A cabeça música

A cabeça à toa
A cabeça boa
A cabeça voa
A cabeça.

Santa Clara, padroeira da televisão
Caetano Veloso

Santa Clara, padroeira da televisão
Que o menino de olho esperto saiba ver tudo
Entender certo o sinal certo se perto do encoberto
Falar certo desse perto e do distante porto aberto
Mas calar
Saber lançar-se num claro instante

Santa Clara, padroeira da televisão
Que a televisão não seja o inferno, interno, ermo
Um ver no excesso o eterno quase nada (quase nada)
Que a televisão não seja sempre vista
Como a montra condenada, a fenestra sinistra
Mas tomada pelo que ela é
De poesia

Quando a tarde cai onde o meu pai
Me fez e me criou
Ninguém vai saber que cor me dói
E foi e aqui ficou
Santa Clara

Saber calar, saber conduzir a oração
Possa o vídeo ser a cobra de outro éden
Porque a queda é uma conquista
E as miríades de imagens suicídio
Possa o vídeo ser o lago onde Narciso
Seja um deus que saberá também
Ressuscitar

Possa o mundo ser como aquela ialorixá
A ialorixá que reconhece o orixá no anúncio
Puxa o canto pra o orixá que vê no anúncio
No caubói, no samurai, no moço nu, na moça nua
No animal, na cor, na pedra, vê na lua, vê na lua
Tantos níveis de sinais que lê
E segue inteira

Lua clara, trilha, sina
Brilha, ensina-me a te ver
Lua, lua, continua em mim
Luar, no ar, na TV
São Francisco.

Sampa
Caetano Veloso

Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e Av. São João
É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas
Ainda não havia para mim Rita Lee
A tua mais completa tradução
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e avenida São João

Quando eu te encarei frente a frente e não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos mutantes
E foste um difícil começo
Afasto o que não conheço
E quem vem de outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso

Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva
Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba
Mas possível novo quilombo de Zumbi
E os Novos Baianos passeiam na tua garoa
E novos baianos te podem curtir numa boa.

Terra
Caetano Veloso
Quando eu me encontrava preso
Nas celas de uma cadeia
Foi que eu vi pela primeira vez
As tais fotografias
Em que apareces inteira
Porém lá não estavas nua
E sim coberta de nuvens

Terra, Terra
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria?

Ninguém supõe a morena
Dentro da estrela azulada
Na vertigem do cinema
Manda um abraço pra ti, pequenina
Como se eu fosse o saudoso poeta
E fosses a Paraíba

Terra, Terra
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria?

Eu estou apaixonado
Por uma menina terra
Signo do elemento terra
Do mar se diz terra à vista
Terra para o pé, firmeza
Terra para a mão, carícia
Outros astros lhe são guia

Terra, Terra
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria?

Eu sou um leão de fogo
Sem ti me consumiria
A mim mesmo eternamente
E de nada valeria
Acontecer de eu ser gente
E gente é outra alegria
Diferente das estrelas

Terra, Terra
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria?

De onde nem tempo nem espaço
Que a força mande coragem
Pra gente te dar carinho
Durante toda a viagem
Que realizas no nada
Através do qual carregas
O nome da tua carne

Terra, Terra
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria?

"Nas sacadas dos sobrados
Da velha São Salvador
Há lembranças de donzelas
Do tempo do imperador
Tudo, tudo na Bahia
Faz a gente querer bem
A Bahia tem um jeito"

Terra,Terra
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria?

Um índio
Caetano Veloso

Um índio descerá de uma estrela colorida, brilhante
De uma estrela que virá numa velocidade estonteante
E pousará no coração do hemisfério sul
Na América, num claro instante
Depois de exterminada a última nação indígena
E o espírito dos pássaros das fontes de água límpida
Mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias

Virá
Impávido que nem Muhammad Ali
Virá que eu vi
Apaixonadamente como Peri
Virá que eu vi
Tranqüilo e infálivel como Bruce Lee
Virá que eu vi
O axé do afoxé Filhos de Gandhi
Virá

Um índio preservado em pleno corpo físico
Em todo sólido, todo gás e todo líquido
Em átomos, palavras, alma, cor
Em gesto, em cheiro, em sombra, em luz, em som magnífico
Num ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico
Do objeto-sim resplandecente descerá o índio
E as coisas que eu sei que ele dirá, fará
Não sei dizer assim de um modo explícito

Virá
Impávido que nem Muhammad Ali
Virá que eu vi
Apaixonadamente como Peri
Virá que eu vi
Tranqüilo e infálivel como Bruce Lee
Virá que eu vi
O axé do afoxé Filhos de Gandhi
Virá

E aquilo que nesse momento se revelará aos povos
Surpreenderá a todos não por ser exótico
Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
Quando terá sido o óbvio.

Uns
Caetano Veloso

Uns vão
Uns tão
Uns são
Uns dão
Uns não
Uns hão de
Uns pés
Uns mãos
Uns cabeça
Uns só coração
Uns amam
Uns andam
Uns avançam
Uns também
Uns cem
Uns sem
Uns vêm
Uns têm
Uns nada têm
Uns mal
Uns bem
Uns nada além
Nunca estão todos

Uns bichos
Uns deuses
Uns azuis
Uns quase iguais
Uns menos
Uns mais
Uns médios
Uns por demais
Uns masculinos
Uns femininos
Uns assim
Uns meus
Uns teus
Uns ateus
Uns filhos de Deus
Uns dizem fim
Uns dizem sim
E não há outros.

Pipoca moderna
Caetano Veloso
Sebastião Biano

E era nada de nem noite de negro não
E era nê de nunca mais
E era noite de nê nunca de nada mais
E era nem de negro não
Porém parece que hágolpes de pê, de pé, de pão
De parecer poder
(E era não de nada nem)
Pipoca ali, aqui, pipoca além
Desanoitece a manhã
Tudo mudou.

Podres poderes
Caetano Veloso

Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Motos e fuscas avançam os sinais vermelhos
E perdem os verdes
Somos uns boçais

Queria querer gritar setecentas mil vezes
Como são lindos, como são lindos os burgueses
E os japoneses
Mas tudo é muito mais

Será que nunca faremos senão confirmar
A incompetência da América católica
Que sempre precisará de ridículos tiranos?

Será, será que será que será que será
Será que essa minha estúpida retórica
Terá que soar, terá que se ouvir
Por mais zil anos?

Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Índios e padres e bichas, negros e mulheres
E adolescentes fazem o carnaval

Queria querer cantar afinado com eles
Silenciar em respeito ao seu transe, num êxtase
Ser indecente
Mas tudo é muito mau

Ou então cada paisano e cada capataz
Com sua burrice fará jorrar sangue demais
Nos pantanais, nas cidades, caatingas
E nos Gerais?

Será que apenas os hermetismos pascoais
Os tons, os mil tons, seus sons e seus dons geniais
Nos salvam, nos salvarão dessas trevas
E nada mais?

Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Morrer e matar de fome, de raiva e de sede
São tantas vezes gestos naturais

Eu quero aproximar o meu cantar vagabundo
Daqueles que velam pela alegria do mundo
Indo mais fundo
Tins e bens e tais.

 

ORFEU SPAM APOSTILAS

[Volta à Página Principal]

Capinan

José Carlos Capinan

(Esplanada BA, 1941)

Iniciou os cursos de Direito e Artes Cênicas na Universidade Federal da Bahia, mas não chegou a conclui-los. Em 1962, trabalhava como jornalista no Jornal da Bahia, quando teve poemas publicados na antologia Violão de Rua, organizada pelo Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes. Em 1965 ocorreu a apresentação, no Rio de Janeiro, de sua peça Pois É, com Torquato Neto e Caetano Veloso, interpretada por Gilberto Gil, Vinicius de Moraes e Maria Bethânia, no Teatro Opinião. No ano seguinte, sairia seu livro de poemas Inquisitorial. Em 1967 e 1968 integrou o movimento tropicalista, e compôs com Gilberto Gil a canção Soy Loco por Ti, América. Foi vencedor do Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record, em 1967, com a canção Ponteio, parceria com Edu Lobo. Poeta, compositor, roteirista, produtor, Capinan foi um dos criadores do Tropicalismo, e em sua obra estão presentes as preocupações sociais e políticas características do movimento.

 

Bandeira de Brasil

Terra
Vê a cana verde,
o nascer do céu, ô.

Verde mar,
Maracanã,
onde há progresso
fica o mato em paz.

Campo
Verde, bananeira,
amarela fruta
do Brasil azul, ô.

Ouro
Vê em cada estrela
brilha a nossa terra,
terra brasileira.

Canção de Minha Descoberta

Eis-me resignado.
Fugi de tudo que fui
E pelo caminho de minha renúncia
Venho buscar banceiras novas.

Agora persigo a palavra nova
Por eles que esperam com o coração amargo
E o grito dentro do coração.

Não poderei aceitar o silêncio
E ficar em paz com a morte dos desgraçados
Caídos sem voz em nossa porta.

As crianças minhas morreram todas.
Possuo cada vontade, cada medo, cada ternura morta
Agitados de dor pela mão dos homens.

No Coração da Saideira

Hoje não tem dança
Não tem mais menina de trança
Nem cheiro de lança no ar
Hoje não tem frevo
Tem gente que passa com medo
E na praça, ninguém pra cantar
Me lembro tanto
É tão grande a saudade
Que até parece verdade que o tempo
Ainda pode voltar
Tempo de praia
De ponta de pedra
Das noites de lua
Dos blocos de rua
Do susto e a carreira
Da caramboleia
Do bumba-meu-boi
Que tempo que foi
Agulha frita, mugunzá cravo e canela (BIS)
Serenata eu fiz pra ela
Cada noite de luar
Tempo do corso
Na rua da Aurora
Moço na praça
Menina e senhora
No bonde de Olinda
Pra baixo e pra cima do caramanchão
Esqueço mais não
E frevo ainda
Apesar da quarta-feira
No coração da saideira
Vendo a vida se enfeitar

O Poeta

O poeta não mente. Dificulta.
Como ser falso o caminho?
A mensagem é luminosa, flui, a mensagem é líquida.

Mentira que o poema sublime
O medo e o sofrimento.
O poema é trabalhado, dói, o poema é amargo.

O poeta não fugiu ao poema.
O verso amadurece como fruto:
Revela-se a semente quando a fome o parte.

O poeta não idealiza.
Seu caminho é humano
(Mas que pode o poeta se não lhe alcançam o símbolo?)

O poeta é gago.
Se não o amam, se não o esperam,
Não se elucida a palavra e o vôo cai.

A ponte ou às vezes o rio:
O poeta não está sobre as coisas,
O poeta depende, o poeta as sofre.

É homem o poeta.
Sofre o tempo, a fome e o corpo
Da mulher amada, como chora e morre e chora.

O poeta é livre para danificar a ave.
O poeta não danifica a ave,
Executa sem matar, porque o poema é propriamente e não ave.

Ponteio

Era um, era dois, era cem
era o mundo chegando e ninguém
que soubesse que eu sou violeiro
que me desse amor ou dinheiro
era um, era dois, era cem
e vieram pra me perguntar
ô você de onde vai, de onde vem
diga logo o que tem pra contar
parado no meio do mundo
pensei chegar meu momento
olhei pro mundo e nem via
nem sombra, nem sol, nem vento
quem me dera agora
eu tivesse a viola pra cantar, ponteio

(refrão)

Era um dia, era claro, quase meio
era um canto calado, sem ponteio
violência, viola, violeiro
era noite em redor, mundo inteiro
era um que jurou me quebrar
mas não me lembro de dor ou receio
só sabia das ondas do mar
jogaram a viola no mundo
mas fui lá no fundo buscar
se tomo a viola eu ponteio
meu canto não posso parar, não

(refrão)

Era um, era dois, era cem
era um dia, era claro, quase meio
encerrar meu canto já convém
prometendo um novo ponteio
certo dia que sei por inteiro
eu espero não vai demorar
este dia estou certo que vem
digo logo que vim pra buscar
correndo no meio do mundo
não deixo a viola de lado
vou ver o tempo mudado
e um novo lugar pra cantar
(refrão)

Soy Loco Por Ti, America

Soy loco por ti, America
Yo voy traer una mujer playera
Que su nombre sea amarte
Que su nombre sea amarte
Soy loco por ti de amores
Tenga como colores
La espuma blanca de Latino America
Y el cielo como bandera
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Sorriso de quase nuvem
Os rios, canções, o medo
O corpo cheio de estrelas
O corpo cheio de estrelas
Como se chama a amante
Desse país sem nome
Esse tango, esse rancho
Esse povo, dizei-me
Arde o fogo de conhecê-la
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
El nombre del hombre muerto
Ya no se puede decirlo
Quem sabe
Antes que o dia arrebente
Antes que o dia arrebente
El nombre del hombre muerto
Antes que a definitiva noite
Se espalhe em Latino America
El nombre del hombre es pueblo
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Espero a manhã que cante
El nombre del hombre muerto
Não sejam palavras tristes
Soy loco por ti de amores
Um poema ainda existe
Com palmeiras, com trincheiras
Canções de guerra, quem sabe
Canções de mar, ay hasta te conmover
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Sou loco por ti de amores
Estou aqui de passagem
Sei que adiante
Um dia vou morrer
De susto, de bala ou vício
De susto, de bala ou vício
No precipício de luzes
Entre saudades, soluços
Eu vou morrer de bruços
Nos braços, nos olhos
Nos braços de uma mulher
Mais apaixonado ainda
Dentro dos braços da camponesa
Guerrilheira, manequim
Ai de mim
Nos braços de quem me queira

 

ORFEU SPAM APOSTILAS

[Volta à Página Principal]

Duda Machado

POEMA 1922

o maluco irrompeu

nu na igreja

tirou o santo do altar

se aninhou no nicho

e entrou em êxtase

foi um auê geral

mas uma das beatas

não notou nada

[sem título]

cachê

michê

clichê

Doente, morena
letra: Duda Machado
música: Gilberto Gil
1972


De manhã cedo ela sai
Leva a chave
Me deixa trancado
O dia inteiro
Não ligo
Deito sobre os trilhos
E vejo o trem passar
Entre brinquedos, cigarros
O Tesouro da Juventude
Em não sei quantos volumes
E quando canto
Deixo a imaginação voar
Mas ontem à noite
A mão sobre meus cabelos
Ela me disse:
"Meu bem, não tenha medo
No verão que vem
Nós vamos à praia"

 

 

 

 

 

 

ORFEU SPAM APOSTILAS

[Volta à Página Principal]

Gilberto Gil

(Salvador BA 1942)

Gravou em 1963 seu disco de estréia, Gilberto Gil - Sua Música, Sua Interpretação. No ano seguinte terminou curso de Administração de Empresas na Universidade Federal da Bahia e participou do show Nós, Por Exemplo, em Salvador, com Caetano Veloso, Gal Costa, Maria Bethânia e Tom Zé. Em 1967 lançou seu primeiro LP, Louvação, e conquistou o segundo lugar no III Festival de MPB da TV Record, com a música Domingo no Parque. Em 1968 participou do lançamento do LP Tropicália ou Panis et Circensis, com Caetano Veloso, Gal Costa, Nara Leão, Rogério Duprat, Tom Zé e Os Mutantes, disco-manifesto do Tropicalismo. Ainda em 1968, foi preso pela ditadura militar e, em 1969, exilou-se na Inglaterra. Nas décadas de 1970 e 1980 realizou vários shows no Brasil e no exterior, fez trilhas sonoras para filmes e lançou diversos álbuns. Ganhou o 10º Prêmio Shell para a Música Brasileira, pelo conjunto de sua obra, em 1990. Em 1993 lançou o cd Tropicália 2, com Caetano Veloso, em comemoração aos 26 anos de Tropicalismo e 30 anos de amizade. Gil é um dos principais compositores da Música Popular Brasileira contemporânea.

 

Banda Um
letra e música: Gilberto Gil
1982


BandaUmBandaUmBandaUmBanda - ô-iê
Iê-iê-iê-iê
BandaUmBandaUmBandaUmBanda - ô-ô
(Iô-iô-iô-iô)

Banda Um que toca um balanço parecendo polka
UmBandaUmBandaUm
Banda Um que toca um balanço parecendo rumba
UmBandaUmBandaUm

Banda Um que é África, que é Báltica, que é Céltica
UmBanda América do Sul
Banda Um que evoca um bailado de todo planeta
UmBandaUm, Banda Um

BandaUmBandaUmBandaUmBanda - ô-iê
Iê-iê-iê-iê
BandaUmBandaUmBandaUmBanda - ô-ô
(Iô-iô-iô-iô)

Banda pra tocar por aí
No Zanzibar
Pro negro zanzibárbaro dançar
Pra agitar o Baixo Leblon
O Cariri
Pra loura blumenáutica dançar
(Hum...) Banda Um, Banda Um

BandaUmBandaUmBandaUmBanda - ô-iê
Iê-iê-iê-iê
BandaUmBandaUmBandaUmBanda - ô, ô

Banda Um que soa um barato pra qualquer pessoa
UmBanda pessoa afins
Banda Um que voa, uma asa delta sobre o mundo
UmBanda sobre patins

Banda Um surfística nas ondas da manhã nascente
UmBanda, banda feliz
Banda Um que ecoa uma cachoeira desabando
UmBandaUm, bandas mis

BandaUmBandaUmBandaUmBanda - ô-iê
Iê-iê-iê-iê
BandaUmBandaUmBandaUmBanda - ô-ô
(Iô-iô-iô-iô)

Bat-staka
letra e música: Gilberto Gil
1984

Pego e ligo o rádio
Busco algum remédio para o tédio
A música soa
Como o som da construção de um prédio

Zoada de serra
Onde eu deveria ouvir guitarra
Como numa obra
Vozes que sugerem uma algazarra

Mexo no ponteiro
Corro atrás de nova sintonia
A música soa
E com ela a mesma fantasia

Mais um movimento
Tudo igual na próxima estação
Tijolo, cimento
Pedra, areia e muito vergalhão

De onde viria, oh, de onde viria
Toda essa engenharia civil?
Rock maçom, funk de alvenaria
Disconcreto, deus, onde já se viu!?

Fico mais atento
Tento achar nessa alucinação
Qual o elemento
Que por trás faz toda a ligação

Súbito o estalo
O abalo no meu coração
Nítido badalo
Lá está o bat-staka
Está lá o bat-bat-stakato
Bat-bat-batidão

Não adianta mudar
Não adianta mudar de estação
O bat-staka estala
O bat-staka está lá de plantão

Batmakumba
letra e música: Gilberto Gil, Caetano Veloso
1968


Batmakumbayêyê batmakumbaoba
Batmakumbayêyê batmakumbao
Batmakumbayêyê batmakumba
Batmakumbayêyê batmakum
Batmakumbayêyê batman
Batmakumbayêyê bat
Batmakumbayêyê ba
Batmakumbayêyê
Batmakumbayê
Batmakumba
Batmakum
Batman
Bat
Ba
Bat
Batman
Batmakum
Batmakumba
Batmakumbayê
Batmakumbayêyê
Batmakumbayêyê ba
Batmakumbayêyê bat
Batmakumbayêyê batman
Batmakumbayêyê batmakum
Batmakumbayêyê batmakumbao
Batmakumbayêyê batmakumbaoba.

Cérebro eletrônico
letra e música: Gilberto Gil
1969


O cérebro eletrônico faz tudo
Faz quase tudo
Quase tudo
Mas ele é mudo

O cérebro eletrônico comanda
Manda e desmanda
Ele é quem manda
Mas ele não anda

Só eu posso pensar se Deus existe
Só eu
Só eu posso chorar quando estou triste
Só eu
Eu cá com meus botões de carne e osso
Hum, hum
Eu falo e ouço
Hum, hum
Eu penso e posso

Eu posso decidir se vivo ou morro
Porque
Porque sou vivo, vivo pra cachorro
E sei
Que cérebro eletrônico nenhum me dá socorro
Em meu caminho inevitável para a morte

Porque sou vivo, ah, sou muito vivo
E sei
Que a morte é nosso impulso primitivo
E sei
Que cérebro eletrônico nenhum me dá socorro
Com seus botões de ferro e seus olhos de vidro.

Cibernética
letra e música: Gilberto Gil
1974


Lá na alfândega Celestino era o Humphrey Bogart
Solino sempre estava lá
Escrevendo: "Dai a César o que é de César"
César costumava dar

Me falou de cibernética
Achando que eu ia me interessar
Que eu já estava interessado
Pelo jeito de falar
Que eu já estivera estado interessado nela

Cibernética
Eu não sei quando será
Cibernética
Eu não sei quando será

Mas será quando a ciência
Estiver livre do poder
A consciência, livre do saber
E a paciência, morta de esperar

Aí então tudo todo o tempo
Será dado e dedicado a Deus
E a César dar adeus às armas caberá

Que a luta pela acumulação de bens materiais
Já não será preciso continuar
A luta pela acumulação de bens materiais
Já não será preciso continuar

Onde lia-se alfândega leia-se pândega
Onde lia-se lei leia-se lá-lá-lá

Cibernética
Eu não sei quando será
Cibernética
Eu não sei quando será.

Copo vazio
letra e música: Gilberto Gil
1974


É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar

É sempre bom lembrar
Que o ar sombrio de um rosto
Está cheio de um ar vazio
Vazio daquilo que no ar do copo
Ocupa um lugar

É sempre bom lembrar
Guardar de cor
Que o ar vazio de um rosto sombrio
Está cheio de dor

É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar

Que o ar no copo ocupa o lugar do vinho
Que o vinho busca ocupar o lugar da dor
Que a dor ocupa a metade da verdade
A verdadeira natureza interior
Uma metade cheia, uma metade vazia
Uma metade tristeza, uma metade alegria
A magia da verdade inteira, todo poderoso amor
A magia da verdade inteira, todo poderoso amor

É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar.

Cultura e civilização
letra e música: Gilberto Gil
1969


A cultura, a civilização
Elas que se danem
Ou não

Somente me interessam
Contanto que me deixem meu licor de genipapo
O papo
Das noites de São João
Somente me interessam
Contanto que me deixem meu cabelo belo
Meu cabelo belo
Como a juba de um leão
Contanto que me deixem
Ficar na minha
Contanto que me deixem
Ficar com minha vida na mão
Minha vida na mão
Minha vida

A cultura, a civilização
Elas que se danem
Ou não

Eu gosto mesmo
É de comer com coentro
Eu gosto mesmo
É de ficar por dentro
Como eu estive algum tempo
Na barriga de Claudina
Uma velha baiana
Cem por cento.

Dança de Shiva
letra e música: Gilberto Gil
1995


Dança de Shiva
Repare a dança de Shiva
Enquanto a reta se curva
Cai chuva da nuvem de pó
Fraude do Thomas
Repare a fraude do Thomas
Os deuses todos em coma
Enquanto Exu não dá o nó

Nó se dá um só
Se dói de dó
Se mói na mó
Pulverizar
Se foi na avó
No neto irá

Não, não irá
Quiçá morrerão
Deuses em coma
Homens em vão
Pela ciência
Pela canção
Deuses do sim
Deuses do não

Quem me vir dançar
Verá que quem dança é Shiva
Quem dança, quem dança é Shiva
Quem me vir já não me verá
Verá no Thomas
Por trás da fraude do Thomas
Alguns verazes sintomas
De um passageiro mal-estar.

De Bob Dylan a Bob Marley - um samba-provocação
letra e música: Gilberto Gil
1989


Quando Bob Dylan se tornou cristão
Fez um disco de reggae por compensação
Abandonava o povo de Israel
E a ele retornava pela contramão

Quando os povos d'África chegaram aqui
Não tinham liberdade de religião
Adotaram Senhor do Bonfim:
Tanto resistência, quanto rendição

Quando, hoje, alguns preferem condenar
O sincretismo e a miscigenação
Parece que o fazem por ignorar
Os modos caprichosos da paixão

Paixão, que habita o coração da natureza-mãe
E que desloca a história em suas mutações
Que explica o fato da Branca de Neve amar
Não a um, mas a todos os sete anões

Eu cá me ponho a meditar
Pela mania da compreensão
Ainda hoje andei tentando decifrar
Algo que li que estava escrito numa pichação
Que agora eu resolvi cantar
Neste samba em forma de refrão:

"Bob Marley morreu
Porque além de negro era judeu
Michael Jackson ainda resiste
Porque além de branco ficou triste".

Domingo no parque
letra e música: Gilberto Gil
1967


O rei da brincadeira - ê, José
O rei da confusão - ê, João
Um trabalhava na feira - ê, José
Outro na construção - ê, João

A semana passada, no fim da semana
João resolveu não brigar
No domingo de tarde saiu apressado
E não foi pra Ribeira jogar
Capoeira
Não foi pra lá pra Ribeira
Foi namorar

O José como sempre no fim da semana
Guardou a barraca e sumiu
Foi fazer no domingo um passeio no parque
Lá perto da Boca do Rio
Foi no parque que ele avistou
Juliana
Foi que ele viu

Juliana na roda com João
Uma rosa e um sorvete na mão
Juliana, seu sonho, uma ilusão
Juliana e o amigo João
O espinho da rosa feriu Zé
E o sorvete gelou seu coração

O sorvete e a rosa - ô, José
A rosa e o sorvete - ô, José
Oi, dançando no peito - ô, José
Do José brincalhão - ô, José

O sorvete e a rosa - ô, José
A rosa e o sorvete - ô, José
Oi, girando na mente - ô, José
Do José brincalhão - ô, José

Juliana girando - oi, girando
Oi, na roda gigante - oi, girando
Oi, na roda gigante - oi, girando
O amigo João - João

O sorvete é morango - é vermelho
Oi, girando, e a rosa - é vermelha
Oi, girando, girando - é vermelha
Oi, girando, girando - olha a faca!

Olha o sangue na mão - ê, José
Juliana no chão - ê, José
Outro corpo caído - ê, José
Seu amigo, João - ê, José

Amanhã não tem feira - ê, José
Não tem mais construção - ê, João
Não tem mais brincadeira - ê, José
Não tem mais confusão - ê, João.

Drão
letra e música: Gilberto Gil
1982


Drão
O amor da gente é como um grão
Uma semente de ilusão
Tem que morrer pra germinar
Plantar nalgum lugar
Ressuscitar no chão
Nossa semeadura
Quem poderá fazer
Aquele amor morrer!
Nossa caminhadura
Dura caminhada
Pela estrada escura

Drão
Não pense na separação
Não despedace o coração
O verdadeiro amor é vão
Estende-se, infinito
Imenso monolito
Nossa arquitetura
Quem poderá fazer
Aquele amor morrer!
Nossa caminha dura
Cama de tatame
Pela vida afora

Drão
Os meninos são todos sãos
Os pecados são todos meus
Deus sabe a minha confissão
Não há o que perdoar
Por isso mesmo é que há
De haver mais compaixão
Quem poderá fazer
Aquele amor morrer
Se o amor é como um grão!
Morrenasce, trigo
Vivemorre, pão

Drão.

Entre os ateus
letra e música: Gilberto Gil
1978

Jogo Batalha Naval
Também brinco o carnaval
Rezo, medito, me irrito
Dou grito por dentro
Esperando por Deus
Não tenho muito de bom
Tampouco muito de mal
Não acredito em crenças
Não temo doenças
E vivo contente entre os ateus

Penso que tudo dá nada
E que nada dá tudo que a gente quiser
E se alma não é pequena vai saber
Que vale a pena viver
Pena e mais pena
O tribunal condena
Julgando ensinar a lição
Eu só me condeno a mim
Quando me esqueço o perdão.

Esotérico
letra e música: Gilberto Gil
1976


Não adianta nem me abandonar
Porque mistério sempre há de pintar por aí
Pessoas até muito mais vão lhe amar
Até muito mais difíceis que eu pra você
Que eu, que dois, que dez, que dez milhões
Todos iguais

Até que nem tanto esotérico assim
Se eu sou algo incompreensível
Meu Deus é mais
Mistério sempre há de pintar por aí

Não adianta nem me abandonar
Nem ficar tão apaixonada, que nada!
Que não sabe nadar
Que morre afogada por mim.

Expresso 2222
letra e música: Gilberto Gil
1971


Começou a circular o Expresso 2222
Que parte direto de Bonsucesso pra depois
Começou a circular o Expresso 2222
Da Central do Brasil
Que parte direto de Bonsucesso
Pra depois do ano 2000

Dizem que tem muita gente de agora
Se adiantando, partindo pra lá
Pra 2001 e 2 e tempo afora
Até onde essa estrada do tempo vai dar
Do tempo vai dar
Do tempo vai dar, menina, do tempo vai

Segundo quem já andou no Expresso
Lá pelo ano 2000 fica a tal
Estação final do percurso-vida
Na terra-mãe concebida
De vento, de fogo, de água e sal
De água e sal
De água e sal
Ô, menina, de água e sal

Dizem que parece o bonde do morro
Do Corcovado daqui
Só que não se pega e entra e senta e anda
O trilho é feito um brilho que não tem fim
Oi, que não tem fim
Que não tem fim
Ô, menina, que não tem fim

Nunca se chega no Cristo concreto
De matéria ou qualquer coisa real
Depois de 2001 e 2 e tempo afora
O Cristo é como quem foi visto subindo ao céu
Subindo ao céu
Num véu de nuvem brilhante subindo ao céu.

Figura de retórica
letra e música: Gilberto Gil
1971

Eu sou uma figura de retórica
Eu sou a frase de um discurso de paraninfia
Da turma de bacharelandos
Da Universidade da Bahia
A popular figura metafórica
Eu sou a beca preta que o doutor vestia
Na tarde daquele memorável samba
No salão nobre da reitoria

Beca preta, doutor de anedotas, normalista linda
Nossas fantasias não têm igual
Aos Fantasmas de Hamilton, Coemo, Rubinho e Mutinha
Nossas simpatias neste carnaval.

Futurível
letra e música: Gilberto Gil
1969


Você foi chamado, vai ser transmutado em energia
Seu segundo estágio de humanóide hoje se inicia
Fique calmo, vamos começar a transmissão
Meu sistema vai mudar
Sua dimensão
Seu corpo vai se transformar
Num raio, vai se transportar
No espaço, vai se recompor
Muitos anos-luz além
Além daqui
A nova coesão
Lhe dará de novo um coração mortal

Pode ser que o novo movimento lhe pareça estranho
Seus olhos talvez sejam de cobre, seus braços de estanho
Não se preocupe, meu sistema manterá
A consciência do ser
Você pensará
Seu corpo será mais brilhante
A mente, mais inteligente
Tudo em superdimensão
O mutante é mais feliz
Feliz porque
Na nova mutação
A felicidade é feita de metal.

Jeca total
letra e música: Gilberto Gil
1975


Jeca Total deve ser Jeca Tatu
Presente, passado
Representante da gente no senado
Em plena sessão
Defendendo um projeto
Que eleva o teto
Salarial no sertão

Jeca Total deve ser Jeca Tatu
Doente curado
Representante da gente na sala
Defronte da televisão
Assistindo Gabriela
Viver tantas cores
Dores da emancipação

Jeca Total deve ser Jeca Tatu
Um ente querido
Representante da gente no olimpo
Da imaginação
Imaginacionando o que seria a criação
De um ditado
Dito popular
Mito da mitologia brasileira
Jeca Total

Jeca Total deve ser Jeca Tatu
Um tempo perdido
Interessante a maneira do tempo
Ter perdição
Quer dizer, se perder no correr
Decorrer da história
Glória, decadência, memória
Era de Aquarius
Ou mera ilusão

Jeca Total deve ser Jeca Tatu
Jorge Salomão

Jeca Total Jeca Tatu Jeca Total Jeca Tatu
Jeca Tatu Jeca Total Jeca Tatu Jeca Total.

Jubiabá
letra e música: Gilberto Gil
1986


Negro Balduíno, belo negro baldo
Filho malcriado de uma velha tia
Via com seus olhos de menino esperto
Luzes onde luzes não havia

Cresce, vira um forte, evita a morte breve
Leve, gira o pé na capoeira, luta
Bruta como a pedra, sua vida inteira
Cheira a manga-espada e maresia

Tinha a guia que lhe deu Jubiabá
Que lhe deu Jubiabá
A guia

Trava com o destino uma batalha cega
Pega da navalha e retalha a barriga
Fofa, tão inchada e cheia de lombriga
Da monstra miséria da Bahia

Leva uma trombada do amor cigano
Entra pelo cano do esgoto e pula
Chula na quadrilha da festa junina
Todo santo de vida vadia

Tinha a guia que lhe deu Jubiabá
Que lhe deu Jubiabá
A guia

Alva como algodão e tão macia
Como algo bom pra lhe estancar o sangue
Como álcool pra desinfetar-lhe o corte
Como cura para a hemorragia

Moça Lindinalva, morta, vira fardo
Carga para os ombros, suor para o rosto
Luta no labor, novo sabor, labuta
Feito a mão e não mais por magia

Tinha a guia que lhe deu Jubiabá
Que lhe deu Jubiabá
A guia

Negro Balduíno, belo negro baldo
Saldo de uma conta da história crua
Rua, pé descalço, liberdade nua
Um rei para o reino da alegria

Tinha a guia que lhe deu Jubiabá
Que lhe deu Jubiabá
A guia.

Logos versus logo
letra e música: Gilberto Gil
1985


Trocar o logos da posteridade
Pelo logo da prosperidade

Celebra-se, poeta que se é
Durante um tempo a idéia radical
De tudo importar, se para o supremo ser
De nada importar, se para o homem mortal

Abarrotam-se os cofres do saber
Um saber que se torne capital
Um capital que faça o futuro render
Os juros da condição de imortal

(Mas a morte é certa!)

Trocar o logos da posteridade
Pelo logo da prosperidade

E assim por muito tempo busca-se
O cuidadoso esculpir da estátua
Que possa atravessar os séculos intacta
Tornar perpétua a lembrança do poeta

Mas chega-se ao cruzamento da vida
O ser pra um lado, pra outro lado o mundo
Sujeita-se o poeta à servidão da lida
Quando a voz da razão fala mais fundo

E essa voz comanda:

Trocar o logos da posteridade
Pelo logo da prosperidade

E o bom poeta, sólido afinal
Apossa-se da foice ou do martelo
Para investir do aqui e agora o capital
No produzir real de um mundo justo e belo

Celebra assim, mortal que já se crê
O afazer como bem ritual
Cessar da obsessão pelo supremo ser
Nascer do prazer pelo social

E o poeta grita:

Trocar o logos da posteridade
Pelo logo da prosperidade

Eis o papel da grande cidade
Eis a função da modernidade.

Lunik 9
letra e música: Gilberto Gil
1966


Poetas, seresteiros, namorados, correi
É chegada a hora de escrever e cantar
Talvez as derradeiras noites de luar

Momento histórico
Simples resultado
Do desenvolvimento da ciência viva
Afirmação do homem
Normal, gradativa
Sobre o universo natural
Sei lá que mais

Ah, sim!
Os místicos também
Profetizando em tudo o fim do mundo
E em tudo o início dos tempos do além
Em cada consciência
Em todos os confins
Da nova guerra ouvem-se os clarins

Guerra diferente das tradicionais
Guerra de astronautas nos espaços siderais
E tudo isso em meio às discussões
Muitos palpites, mil opiniões
Um fato só já existe
Que ninguém pode negar
7, 6, 5, 4, 3, 2, 1, já!

Lá se foi o homem
Conquistar os mundos
Lá se foi
Lá se foi buscando
A esperança que aqui já se foi
Nos jornais, manchetes, sensação
Reportagens, fotos, conclusão:
A lua foi alcançada afinal
Muito bem
Confesso que estou contente também

A mim me resta disso tudo uma tristeza só
Talvez não tenha mais luar
Pra clarear minha canção
O que será do verso sem luar?
O que será do mar
Da flor, do violão?
Tenho pensado tanto, mas nem sei

Poetas, seresteiros, namorados, correi
É chegada a hora de escrever e cantar
Talvez as derradeiras noites de luar.

Maracujá
letra e música: Gilberto Gil
1972

Mara
Maracu
Maracujá
Maracujá agora
Maracujá a qualquer hora
Maracujá em qualquer lugar.

Meu amigo, meu herói
letra e música: Gilberto Gil
1980

Ó, meu amigo, meu herói
Ó, como dói
Saber que a ti também corrói
A dor da solidão

Ó, meu amado, minha luz
Descansa a tua mão cansada sobre a minha
Sobre a minha mão

A força do universo não te deixará
O lume das estrelas te alumiará
Na casa do meu coração pequeno
No quarto do meu coração menino
No canto do meu coração espero
Agasalhar-te a ilusão

Ó, meu amigo, meu herói
Ó, como dói
Ó, como dói
Ó, como dói.

Metáfora
letra e música: Gilberto Gil
1982


Uma lata existe para conter algo
Mas quando o poeta diz: "Lata"
Pode estar querendo dizer o incontível

Uma meta existe para ser um alvo
Mas quando o poeta diz: "Meta"
Pode estar querendo dizer o inatingível

Por isso, não se meta a exigir do poeta
Que determine o conteúdo em sua lata
Na lata do poeta tudonada cabe
Pois ao poeta cabe fazer
Com que na lata venha caber
O incabível

Deixe a meta do poeta, não discuta
Deixe a sua meta fora da disputa
Meta dentro e fora, lata absoluta
Deixe-a simplesmente metáfora.

Meteorum
letra e música: Gilberto Gil
1995


(
oio
oio cum
oio cuma
oio cuma eí
oio cuma eio auma
oio cuma eio auma auma oio
)

oio cuma eio
auma auma
oio cuma eio
auma auma
(
meteorum
)
meteorum aieô
meteô
meteorum aieô
meteô
eô eô eô ê
(
eô eô eô eô
)

Nos barracos da cidade (Barracos)
letra: Gilberto Gil
música: Liminha
1985


Nos barracos da cidade
Ninguém mais tem ilusão
No poder da autoridade
De tomar a decisão
E o poder da autoridade
Se pode, não fez questão
Se faz questão, não consegue
Enfrentar o tubarão

Ô-ô-ô, ô-ô
Gente estúpida
Ô-ô-ô, ô-ô
Gente hipócrita

O governador promete
Mas o sistema diz não
Os lucros são muito grandes
Mas ninguém quer abrir mão
Mesmo uma pequena parte
Já seria a solução
Mas a usura dessa gente
Já virou um aleijão

Ô-ô-ô, ô-ô
Gente estúpida
Ô-ô-ô, ô-ô
Gente hipócrita.

O eterno deus Mu dança!
letra e música: Gilberto Gil
1989


Sente-se a moçada descontente onde quer que se vá
Sente-se que a coisa já não pode ficar como está
Sente-se a decisão dessa gente em se manifestar
Sente-se o que a massa sente, a massa quer gritar:
"A gente quer mu-dança
O dia da mu-dança
A hora da mu-dança
O gesto da mu-dança"

Sente-se tranqüilamente e ponha-se a raciocinar
Sente-se na arquibancada ou sente-se à mesa de um bar
Sente-se onde haja gente, logo você vai notar
Sente-se algo diferente: a massa quer se levantar
Pra ver mu-dança
O time da mu-dança
O jogo da mu-dança
O lance da mu-dança

Sente-se - e não é somente aqui, mas em qualquer lugar:
Terras, povos diferentes - outros sonhos pra sonhar
Mesmo e até principalmente onde menos queixas há
Mesmo lá, no inconsciente, alguma coisa está
Clamando por mu-dança
O tempo da mu-dança
O sinal da mu-dança
O ponto da mu-dança

Sente-se, o que chamou-se Ocidente tende a arrebentar
Todas as correntes do presente para enveredar
Já pelas veredas do futuro ciclo do ar
Sente-se! Levante-se! Prepare-se para celebrar
O deus Mu dança!
O eterno deus Mu dança!
Talvez em paz Mu dança!
Talvez com sua lança.

O veado
letra e música: Gilberto Gil
1983


O veado
Como é lindo
Escapulindo pulando
Evoluindo
Correndo evasivo
Ei-lo do outro lado
Quase parado um instante
Evanescente
Quase que olhando pra gente
Evaporante
Eva pirante

O veado
Greta Garbo
Garbo, a palavra mais justa
Que me gusta
Que me ocorre
Para explicar um veado
Quando corre
Garbo esplendor de uma dama
Das camélias
Garbo vertiqualidade
Animália
Anamélia

Ó, veado
Quanto tato
Preciso pra chegar perto
Ando tanto
Querendo o teu pulo certo
Teu encanto
Teu porte esperto, delgado

Ser veado
Ser veado
Ter as costelas à mostra
E uma delas
Tê-la extraída das costas
Tê-la Eva bem exposta
Tê-la Eva bem à vista.

Parabolicamará
letra e música: Gilberto Gil
1991


Antes mundo era pequeno
Porque Terra era grande
Hoje mundo é muito grande
Porque Terra é pequena
Do tamanho da antena parabolicamará
Ê, volta do mundo, camará
Ê, ê, mundo dá volta, camará

Antes longe era distante
Perto, só quando dava
Quando muito, ali defronte
E o horizonte acabava
Hoje lá trás dos montes, den de casa, camará
Ê, volta do mundo, camará
Ê, ê, mundo dá volta, camará

De jangada leva uma eternidade
De saveiro leva uma encarnação

Pela onda luminosa
Leva o tempo de um raio
Tempo que levava Rosa
Pra aprumar o balaio
Quando sentia que o balaio ia escorregar
Ê, volta do mundo, camará
Ê, ê, mundo dá volta, camará

Esse tempo nunca passa
Não é de ontem nem de hoje
Mora no som da cabaça
Nem tá preso nem foge
No instante que tange o berimbau, meu camará
Ê, volta do mundo, camará
Ê, ê, mundo da volta, camará

De jangada leva uma eternidade
De saveiro leva uma encarnação
De avião, o tempo de uma saudade

Esse tempo não tem rédea
Vem nas asas do vento
O momento da tragédia
Chico, Ferreira e Bento
Só souberam na hora do destino apresentar
Ê, volta do mundo, camará
Ê, ê, mundo dá volta, câmara.

Patumbalacundê
letra: Gilberto Gil
música: João Donato, Durval Ferreira, Orlandivo
1975

Patumbalacundê - um dá
Patumbalacundê - um pé
Patumbalacundê - um lá

Patumbalacundê - um sol
Patumbalacundê - um faz
Patumbalacundê - um diz

Patumbalacundê - um dez
Patumbalacundê - um ás
Patumbalacundê - um giz

Patumbalacundê - um tom
Patumbalacundê - talvez
Patumbalacundê - um gás.

Pela Internet
letra e música: Gilberto Gil
1996


Criar meu web site
Fazer minha home-page
Com quantos gigabytes
Se faz uma jangada
Um barco que veleje

Que veleje nesse infomar
Que aproveite a vazante da infomaré
Que leve um oriki do meu velho orixá
Ao porto de um disquete de um micro em Taipé

Um barco que veleje nesse infomar
Que aproveite a vazante da infomaré
Que leve meu e-mail até Calcutá
Depois de um hot-link
Num site de Helsinque
Para abastecer

Eu quero entrar na rede
Promover um debate
Juntar via Internet
Um grupo de tietes de Connecticut

De Connecticut acessar
O chefe da Macmilícia de Milão
Um hacker mafioso acaba de soltar
Um vírus pra atacar programas no Japão

Eu quero entrar na rede pra contactar
Os lares do Nepal, os bares do Gabão
Que o chefe da polícia carioca avisa pelo celular
Que lá na praça Onze tem um vídeopôquer para se jogar.

Pega a voga, cabeludo
adaptação: Gilberto Gil
recolhida e adaptada por: Juan Arcon
1967


Pega a voga, cabeludo
Que eu não sou cascudo
Tenho muito estudo
Pra fazer minha embolada
Cá na batucada não me falta nada
Eu tenho tudo

Tenho uma tinta
Que no dia que não pinta fica feia
Tenho uma barca
Que no dia de fuzarca fica cheia
E a mulata que tem ouro
Que tem prata, que tem tudo
É quem grita: "Pega a voga
Pega a voga, cabeludo!"

Pílula de alho
letra e música: Gilberto Gil
1982


Você já ouviu falar
Da pílula de alho?
É uma pílula amarela
Cê toma uma daquela
Nem sabe o que é que sente
Mas a infecção já era

Eu tive dor de dente
Tomei algumas delas
As bichinhas logo agiram
Depois de certo (pouco) tempo
Senti-me melhorado
E os sintomas maus sumiram

A pílula de alho
Feita de alho e calor
É puro óleo de alho
É como a flor de dendê
É mel da planta isenta
De qualquer outro fator
A pílula de alho
Feita de alho e calor

A luminosidade
É de bola de gude
A transparência é cristalina
Vê-se que é coisa pura
Sente-se que é coisa nova
Sabe-se que é coisa fina

A pílula de alho
Da planta antibiótica
Da velha medicina
Que desenvolvimento!
Que belo (lindo) ensinamento
A pílula de alho ensina!

A pílula de alho
Feita de alho e calor

É puro óleo de alho
É como a flor de dendê
É mel da planta isenta
De qualquer outro fator
A pílula de alho
Feita de alho e calor.

Punk da periferia
letra e música: Gilberto Gil
1983


Das feridas que a pobreza cria
Sou o pus
Sou o que de resto restaria
Aos urubus
Pus por isso mesmo este blusão carniça
Fiz no rosto este make-up pó caliça
Quis trazer assim nossa desgraça à luz

Sou um punk da periferia
Sou da Freguesia do Ó
Ó
Ó, aqui pra vocês!
Sou da Freguesia

Ter cabelo tipo índio moicano
Me apraz
Saber que entraremos pelo cano
Satisfaz
Vós tereis um padre pra rezar a missa
Dez minutos antes de virar fumaça
Nós ocuparemos a Praça da Paz

Sou um punk da periferia
Sou da Freguesia do Ó
Ó
Ó, aqui pra vocês!
Sou da Freguesia

Transo lixo, curto porcaria
Tenho dó
Da esperança vã da minha tia
Da vovó
Esgotados os poderes da ciência
Esgotada toda a nossa paciência
Eis que esta cidade é um esgoto só

Sou um punk da periferia
Sou da Freguesia do Ó
Ó
Ó, aqui pra vocês!
Sou da Freguesia.

Procissão
letra e música: Gilberto Gil
1964


Olha lá vai passando a procissão
Se arrastando que nem cobra pelo chão
As pessoas que nela vão passando
Acreditam nas coisas lá do céu
As mulheres cantando tiram versos
Os homens escutando tiram o chapéu
Eles vivem penando aqui na terra
Esperando o que Jesus prometeu

E Jesus prometeu vida melhor
Pra quem vive nesse mundo sem amor
Só depois de entregar o corpo ao chão
Só depois de morrer neste sertão
Eu também tô do lado de Jesus
Só que acho que ele se esqueceu
De dizer que na terra a gente tem
De arranjar um jeitinho pra viver

Muita gente se arvora a ser Deus
E promete tanta coisa pro sertão
Que vai dar um vestido pra Maria
E promete um roçado pro João
Entra ano, sai ano, e nada vem
Meu sertão continua ao deus-dará
Mas se existe Jesus no firmamento
Cá na terra isto tem que se acabar.

Quanta
letra e música: Gilberto Gil
1995


Quanta do latim
Plural de quantum
Quando quase não há
Quantidade que se medir
Qualidade que se expressar

Fragmento infinitésimo
Quase que apenas mental
Quantum granulado no mel
Quantum ondulado no sal
Mel de urânio, sal de rádio
Qualquer coisa quase ideal

Cântico dos cânticos
Quântico dos quânticos

Canto de louvor
De amor ao vento
Vento, arte do ar
Balançando o corpo da flor
Levando o veleiro pro mar
Vento de calor
De pensamento em chamas
Inspiração
Arte de criar o saber
Arte, descoberta, invenção
Theoría em grego quer dizer
O ser em contemplação

Cântico dos cânticos
Quântico dos quânticos

Sei que a arte é irmã da ciência
Ambas filhas de um deus fugaz
Que faz num momento e no mesmo momento desfaz
Esse vago deus por trás do mundo
Por detrás do detrás

Cântico dos cânticos
Quântico dos quânticos.

Refavela
letra e música: Gilberto Gil
1977


Iaiá, kiriê, kiriê, iaiá

A refavela
Revela aquela
Que desce o morro e vem transar
O ambiente
Efervescente
De uma cidade a cintilar

A refavela
Revela o salto
Que o preto pobre tenta dar
Quando se arranca
Do seu barraco
Prum bloco do BNH

A refavela, a refavela, ó
Como é tão bela, como é tão bela, ó

A refavela
Revela a escola
De samba paradoxal
Brasileirinho
Pelo sotaque
Mas de língua internacional

A refavela
Revela o passo
Com que caminha a geração
Do black jovem
Do black-Rio
Da nova dança no salão

Iaiá, kiriê, kiriê, iáiá

A refavela
Revela o choque
Entre a favela-inferno e o céu
Baby-blue-rock
Sobre a cabeça
De um povo-chocolate-e-mel

A refavela
Revela o sonho
De minha alma, meu coração
De minha gente
Minha semente
Preta Maria, Zé, João

A refavela, a refavela, ó
Como é tão bela, como é tão bela, ó

A refavela
Alegoria
Elegia, alegria e dor
Rico brinquedo
De samba-enredo
Sobre medo, segredo e amor

A refavela
Batuque puro
De samba duro de marfim
Marfim da costa
De uma Nigéria
Miséria, roupa de cetim

Iaiá, kiriê, kiriê, iáiá.

Refazenda
letra e música: Gilberto Gil
1975


Abacateiro
Acataremos teu ato
Nós também somos do mato
Como o pato e o leão
Aguardaremos
Brincaremos no regato
Até que nos tragam frutos
Teu amor, teu coração

Abacateiro
Teu recolhimento é justamente
O significado
Da palavra temporão
Enquanto o tempo
Não trouxer teu abacate
Amanhecerá tomate
E anoitecerá mamão

Abacateiro
Sabes ao que estou me referindo
Porque todo tamarindo tem
O seu agosto azedo
Cedo, antes que o janeiro
Doce manga venha ser também

Abacateiro
Serás meu parceiro solitário
Nesse itinerário
Da leveza pelo ar
Abacateiro
Saiba que na refazenda
Tu me ensina a fazer renda
Que eu te ensino a namorar

Refazendo tudo
Refazenda
Refazenda toda
Guariroba.

Sítio do Pica-Pau-Amarelo
letra e música: Gilberto Gil
1976


Marmelada de banana
Bananada de goiaba
Goiabada de marmelo
Sítio do Pica-Pau-Amarelo

Boneca de pano é gente
Sabugo de milho é gente
O sol nascente é tão belo
Sítio do Pica-Pau-Amarelo

Rios de prata piratas
Vôo sideral na mata
Universo paralelo
Sítio do Pica-Pau-Amarelo

No país da fantasia
Num estado de euforia
Cidade Polichinelo
Sítio do Pica-Pau-Amarelo.

 

 

 

 

ORFEU SPAM APOSTILAS

[Volta à Página Principal]

Jorge Mautner

Henrique George Mautner, o Jorge Mautner, nasceu na cidade do Rio de Janeiro, no dia 17 de Janeiro de 1941. Filho de pai judeu vienense, foi descoberto em 1958 pelo poeta Paulo Bonfim e o filósofo Vicente Ferreira da Silva, que publicaram um texto seu na revista Diálogo.

Mautner é multimídia. Além de conhecido compositor e cantor, com sucessos gravados por vários nomes da MPB, entre eles: ("O Vampiro" com Caetano Veloso); ("Maracatu Atômico" com Gilberto Gil); ("Filho Predileto de Xangô" com Celson Sim); ("Lágrimas Negras" com Gal Costa); ("Samba dos Animas" com Lulu Santos); ("Rock Comendo Cereja" e "Samba Jambo" com Jongê); ("Orquídia Negra" com Zé Ramalho), Jorge Mautner é interprete, tendo participações em songsbooks e shows em homenagem a Ismael Silva, Wilson Batista e Noel Rosa.

Como se não bastasse, Jorge Mautner é também conhecido e conceituado escritor, tendo recebido o prêmio Jabuti de literatura na ocasião de seu primeiro livro, chamado "Deus da Chuva e da Morte".

O Jorge não fica só aqui, ele também é diretor de cinema, como no filme, longa metragem, "O Demiurgo" de 1970.

Tarado
Caetano Veloso / Jorge Mautner

Gosto de ficar na praia deitado
Com a cabeça no travesseiro de areia
Olhando coxas gostosas por todo lado
Das mais lindas garotas, também das mais feias
Porque são todas gostosas e sereias
Pro meu olhar de supremo tarado
Tarado.

Maracatú Atômico
Nelson Jacobina / Jorge Mautner

Atrás do arranha-céu, tem o céu, tem o céu
E depois tem outro céu sem estrelas
Em cima do guarda-chuva , tem a chuva, tem a chuva
Que tem gotas tão lindas que até dá vontade de comê-las

No meio da couve-flor, tem a flor, tem a flor
Que além de ser uma flor tem sabor
Dentro do porta-luva, tem a luva, tem a luva
Que alguém de unhas negras e tão afiadas esqueceu de pôr

No fundo do para-raio, tem o raio, tem o raio
Caiu da nuvem negra do temporal
Todo quadro-negro, é todo negro, é todo negro
E eu escrevo o seu nome nele só pra demonstrar o meu apego

O bico do beija-flor, beija a flor, beija a flor
E toda a fauna a flora grita de amor
Quem segura o porta-estandarte, tem arte, tem arte
E aqui passa com raça eletrônico, maracatu atômico

O bico do beija-flor, beija a flor, beija a flor
E toda a fauna a flora grita de amor
Quem segura o porta-estandarte, tem arte, tem arte
E aqui passa com raça eletrônico, maracatu atômico

Urge Dracon
Jorge Mautner

Urge dracon
Ave cesar
Urge dracon
Ave cesar

Magnificus, supremus, augustus
Divinus, superbus, vitalicius
Professor, diktator, imperator
Professor, diktator, imperator
Evoé colofé

Salve o nosso guia
Pro que der e o que vier
Salve o nosso guia
Jorge mautner

Ou o mundo se brasilifica
Ou vira nazista
Jesus de nazaré
E os tambores do candomblé

Homem Bomba
Jorge Mautner / Caetano veloso

Lá vem o homem bomba
Que não tem medo algum
Porque daqui a pouco
Vai virar egun

Lá vem o homem bomba
Que não tem medo algum
Porque daqui a pouco
Vai virar egun

Mas até lá, mata um, mata dois
Mata mais de um milhão
Não vai deixar sobrar nenhum
Mas eu sou contra essa ideologia da agonia
Sou a favor do investimento
Pra acabar com a pobreza
Sou pelo estudo e o trabalho em harmonia
O amor e o cristo redentor
Poesia na democracia

Conde Drácula (Blue Chinês)

(Jorge Mautner)

Na noite mais sombria

Das sombras da lua morna

Saio do castelo na hora mais tardia

E vagueio no meio do som de veludo

Do conteúdo sem forma

No buraco negro da noite mais escura

Se esconde sem mácula

A figura da criatura do Conde Drácula

Sou um rei que canta no meu retiro

Tenho cabelos ruivos da cor do fogo mais insano

Por isso sei, sou vampiro

E canto feito lobo bo.....bo

Porque aaaa...moooo

Encantador de Serpentes

(Jorge Mautner)

Sobe cobra, a cobra tem que subir

Sobe cobra, mas ela não quer subir

Lá na Índia todo mundo sabe é mandinga do faquir

Saber tocar a flauta e fazer a cobra subir

Por isso eu toco essa guitarra e tento conseguir

Um jeito, uma manobra de fazer subir a cobra

Um jeito, uma manobra de ver subir a cobra

O Relógio Quebrou

(Jorge Mautner)

O relógio quebrou

E o ponteiro parou

Em cima da meia-noite, em cima do meio-dia

Tanto faz porque depois de um vem dois, e vem três e vem quatro

E eu fico olhando o rato

Saindo do buraco do meu quarto

E você de bonezinho caiu de lado

Fazendo cena de cinema, cena de teatro

Com seu charme de Wanderléa (Gal Costa, Greta Garbo)

Seu jeitinho de Babyvit

Sacou o meu recado?

Samba dos Animais

(Jorge Mautner)

O homem antigamente falava com a cobra, o jabuti e o leão

Olha o macaco na selva. Aonde? Alí, no coqueiro

Não é macaco baby! É o meu irmão!

Porém durou pouquíssimo tempo esta incrível curtição

Pois o homem rei do planeta logo fez sua careta

E começou a sua civilização. Agora já é tarde

Ninguém nunca volta jamais, o jeito é tomar esse foguete

É comer desse banquete para obter a paz-aquela paz

Que a gente tinha quando falava com os animais

Quém, Quém, Quém, que a gente tinha quando falava com os animais

Oinc, oinc, oinc, que a gente tinha quando falava com os animais

Miau, miau, miau, que a gente tinha quando falava com os animais

Mu, mu, mu, que a gente tinha quando falava com os animais

Vampiro

(Jorge Mautner)

Eu uso óculos escuros pras minhas lágrimas esconder

E quando você vem para o meu lado, ai, as lágrimas começam a correr

E eu sinto aquela coisa no meu peito

Eu sinto aquela grande confusão

Eu sei que eu sou um vampiro que nunca vai ter paz no coração

Às vezes eu fico pensando porque é que eu faço as coisas assim

E a noite de verão ela vai passando, com aquele seu cheiro louco de jasmim

E eu fico embriagado de você

Eu fico embriagado de paixão

No meu corpo o sangue não corre, não, corre fogo e lava de vulcão

Eu fiz uma canação cantando todo o amor que eu sinto por você

Você ficava escutando impassível e eu cantando do teu lado a morrer

E ainda teve a cara de pau

De dizer naquele tom tão educado

"Oh! pero que letra más hermosa, que habla de un corazón apasionado"

Por isso é que eu sou um vampiro e com meu cavalo negro eu apronto

E vou sugando o sangue dos meninos e das meninas que eu encontro

Por isso é bom não se aproximar

Muito perto dos meus olhos

Senão eu te dou uma mordida que deixa na sua carne aquela ferida

Na minha boca eu sinto a saliva que já secou

De tanto esperar aquele beijo, ai, aquele beijo que nunca chegou

Você é uma loucura em minha vida

Você é uma navalha para os meus olhos

Você é o estandarte da agonia que tem a lua e o sol do meio-dia

Prosa:

(trechos de livros)

Fundamentos do Kaos
"Kaos = tensão dramática, enlouquecedora, purificadora, da existência. Tensão que aumenta sempre, tensão contraditória com estados de alma os mais opostos e diversos, convergindo sempre para uma tensão maior e para uma ampliação maior dos opostos em intensidade e fúria, aumentando assim a intensidade da tensão. Sado-masoquismo, depois um supra sado-masoquismo, e depois um supra-supra sado-masoquismo, e assim por diante, cosciência-intuição, razão-irracional, triste-alegre, luz-escuridão, Yang-yin, tudo aumentando sem cessar, em intensidade e fúria, aumentando assim a tensão que une os opostos em crescimento contínuo, crescimento que inclui recuos, mortes, não-crescimentos, assassinatos."

Miséria Dourada
"Sim, desde 1958, ano que estreei como escritor e compositor, poeta e pensador, nesta terra de Pindorama, que as lágrimas me vêm aos olhos, e quase me afogam e só param de rolar da minha face quando, como agora, consigo comunicar este escândalo de sofrimento e proclamá-lo aos quatro cantos do universo, para que alguém me ouça, quem sabe outros seres humanos que comigo e conosco decidam modificar para sempre este horror."

Fragmentos de Sabonete e Outros Fragmentos
"Quem não presta são as desilusões do tédio sem remédio! O resto, nem tem bosta nem resposta! Você gosta? De levitar? Ou apenas zanzar em Zanzibar? Vieram aqui de mil lugares e a triste-tristeza uivou e urrou! Despedaçam-se os lares. Milenares e totais. Eu sou o teu ardor. De tardes e alardes de alardeador! A liberdade completa é um eterno curtir nas centrais do coração. É preciso ter coragem para realizar e perceber que em Persépolis e em Bagdá a torre de Babel era o papai-noel do pobres."

Mitologia do Kaos - Obras Completas (comentário acerca da obra)
Obra literária completa de Jorge Mautner. Não é à toa que o autor, desde seu primeiro livro, em 1962, afirmava que só uma leitura global da obra possibilitaria sua correta compreensão. Ao contrario de escritores cujos livros são independentes, Jorge mautner pertence à gama de autores que, na recorrência e dissonância, na síntese e no paradoxo, criam uma obra contínua, una e interligada. mais que proteus, o deus capaz de se transformar em qualquer forma, a quem é recorrentemente comparado pela sua capacidade e facilidade de uso de diversas mídias, jorge assemelha-se ao carvalho de Heidegger, permanecendo em suas transformações. Essas obras completas são um documento no sentido mais rico do termo. Não só pelo seu valor poético e artístico, mas pelo valor histórico, de relato pessoal de momentos e personagens marcantes destes últimos 50 anos, feitos por um artista sempre atento e perspicaz

 

 

 

 

 

 

ORFEU SPAM APOSTILAS

[Volta à Página Principal]

Tom Zé

(Irará BA, 1936)

Fez curso de Música na Universidade Federal da Bahia entre 1963 e 1967. Na época, já trabalhava como cronista dos jornais O Estado de S. Paulo e Jornal da Bahia, nos quais colaborou até 1988. Em 1965 participou como ator, compositor e cantor nas peças Arena Canta Bahia, com direção de Augusto Boal, no Teatro Arena (SP), e Rock Horror Show, dirigido por Rubens Correia, no Teatro da Praia (RJ). Entre 1967 e 1969 integrou o movimento Tropicalista, com Caetano Veloso, Torquato Neto, Gilberto Gil e Gal Costa, entre outros. Em 1968 ganhou o Prêmio Viola de Ouro no Festival de Música da TV Record, com a canção “São São Paulo, Meu Amor”, e o quarto lugar com a canção “2001”, parceria com Rita Lee. Nos anos seguintes dedicou-se à intensa produção cultural, lançando álbuns e realizando shows pelo país. Em 1993 fez os shows de abertura do Festival Internacional de Teatro de Londres (Inglaterra) e da exposição de Hélio Oiticica no Walker Art Centers de Minneapolis (EUA), além de show no Museu de Arte Moderna de Nova York (EUA), onde foi convidado do evento Artistas Século XX. O cancionista Tom Zé absorveu em sua obra influências da Literatura de Cordel e do Movimento Concretista; participante do Tropicalismo, criou uma das obras mais originais da canção popular brasileira.

 

IDENTIFICAÇÃO
(Tom Zé) Ed. Irara (Trama)
Produzido por Tom Zé
Gravado ao Vivo no Campus da USP - 2003

Identificação
Identificação
RG 1231232 São Paulo
CIC 743748747-00
ISS 1231558-06
INPS 452749-748
Ordem dos Músicos do Brasil 0840 Bahia
CGC 958.74210000-001
Títulos protestados, 7
Impulsos de medo, 1.106
Sintomas neuróticos, 36
Horas semanais de catequização pela TV, 16
Ôô, 16, êê, 16, ôô, 16, êê, 16
Impulsos de amor, de amor, 3
Propaganda consumida, 1.106
Alegrias, alegriazinhas espontâneas, 2
Idas ao banheiro para atividades diversas, 36
Ôô, 36, êê, 36, êê, 36, êê, 36
Tempo de vida previsto para o cidadão
Tempo de vida previsto para o cidadão
600 mil horas de vida, de vida, de vida
Abatimento pelo consumo de alimentos envenenados
Refrigerantes, remédios e enlatados, 1.125 horas
Abatimento pelo desgosto que se padece
Naquela filado INPS, 1.125 horas
Abatimento por ficar só no desejo
Daquela mulher bonita que aparece na propaganda
de cigarro, 1.125 horas
Pelo medo de doenças incuráveis
Como cólera, câncer e meningite, ê ê ê
1.125 horas
Abate aqui
Abate ali
Abate isto
Abate aquilo
E jaz pela cidade
Um zumbi sem sepultura
Classificado, numerado
É o cidadão bem-comportado

A BRIGA DO EDIFÍCIO ITÁLIA E DO HILTON HOTEL
(TOM ZÉ)

O Edifício Itália
era o rei da Avenida Ipiranga:
alto, majestoso e belo,
ninguém chegava perto
da sua grandeza.
Mas apareceu agora
o prédio do Hilton Hotel
gracioso, moderno e charmoso
roubando as atenções pra sua beleza.

O Edifício Itália ficou enciumado
e declarou a reportagem de amiga:
que o Hilton, pra ficar todo branquinho
toma chá de pó-de-arroz.
Só anda na moda, se veste direitinho
e se ele subir de branco pela Consolação
até no cemitério vai fazer assombração
o Hilton logo logo respondeu em cima:
a mania de grandeza não te dá vantagem
veja só, posso até ser requintado
mas não dou o que falar
Contigo é diferente,
porque na vizinhança
apesar da tua pose de rapina
já andam te chamando
Zé-Boboca da esquina

E o Hilton sorridente
disse que o Edifício Itália
tem um jeito de Sansão descabelado
e ainda mais, só pensa em dinheiro
não sabe o que é amor
tem corpo de aço,
alma de robô,
porque coração ele não tem pra mostrar
Pois o que bate no seu peito
é máquina de somar.

O Edifício Itália sapateou de raiva
rogou praga e
até insinuou que o Hilton
tinha nascido redondo
pra chamar a atenção
abusava das curvas
pra fazer sensação
e até parecia uma menina louca
Ou a torre de Pisa
vestida de noiva

A CHEGADA DE RAUL SEIXAS E LAMPIÃO NO FMI
(Tom Zé)
Gênero: baiãolenda
ARRASTÃO DE CANÇÃO FOLCLÓRICA E DO ESTILO TROVADOR NORDESTINO
Ed. Irará (Trama) 70274730

É Raul, Raul, Raul,
É Raul Seixas, é Lampião
Chegaram no FMI
Que nem tentou resistir

É Raú, Raú, Raú,
Lampião não anda só
Trouxe Deus e o diabo
Raul, a terra do sol

Lampião com o clavinote
Raul trouxe o Ylê Ai Ê
Tiraram os colhões do rock
Enrabaram o iê-iê-iê.

Chegaram na Casa Branca
Os dois de carro-de-boi
Tio Sam fugiu de tamanca
Ninguém viu para onde foi

Wall Street fechou
E a ONU não deixou pista
O presidente jurou
Que sempre foi comunista

Mano Brown disse a Raul
O dinheiro a gente investe
No Banco Carandiru
Xingu, favela e Nordeste

Todo-poderoso e rico
O grande senhor dali
Cagou-se, pediu pinico
Aflito, fora de si

Pois o FMI
Viu que não tinha mais jeito
E entregou todo o dinheiro
Para o pobre dividir

E o mundo se viu diante
De grande felicidade:
Trabalho pra todo o dia
Comida pra toda a tarde

Mas entre os países pobres
Não houve fazer acordo
Para dividir os cobres
E a guerra pegou fogo

TRECHOS DE LETRA INCOMPLETA: SUGESTÃO PARCERIA

Mas chegou Renato Russo
De Belém trouxe Fafá
E ela só trouxe um busto
Pra Ásia toda mamar

Nesse dia moribundo
O FMI se fechou
E o povo inteiro do mundo
Sofrido comemorou

AUGUSTA, ANGÉLICA E CONSOLAÇÃO

Augusta, graças a Deus,

graças a Deus,

entre você e a Angélica

eu encontrei a Consolação

que veio olhar por mim

e me deu a mão.

Augusta, que saudade,

você era vaidosa,

que saudade,

e gastava o meu dinheiro,

que saudade,

com roupas importadas

e outras bobagens.

Angélica, que maldade,

você sempre me deu bolo,

que maldade,

e até andava com a roupa,

que maldade,

cheirando a consultório médico,

Angélica.

Quando eu vi

que o Largo dos Aflitos

não era bastante largo

ora caber minha aflição,

eu fui morar na Estação da Luz,

porque estava tudo escuro

dentro do meu coração.

BOTARAM TANTA FUMAÇA

Botaram tanto lixo,

botaram tanta fumaça,

Botaram tanto lixo

por baixo da consciência da cidade,

que a cidade

tá, tá tá tá tá

com a consciência podre,

com a consciência podre.

Botaram tanto lixo,

botaram tanta fumaça,

Botaram tanta fumaça

por cima dos olhos dessa cidade,

que essa cidade

tá, tá tá tá tá

está com os olhos ardendo,

está com os olhos ardendo.

Botaram tanto lixo,

botaram tanta fumaça,

botaram tanto metrô e minhocão

nos ombros da cidade,

que a cidade

tá, tá tá tá ta.

Está cansada,

sufocada,

está doente,

tá gemendo

de dor de cabeça,

de tuberculose,

tá com o pé doendo,

está de bronquite,

de laringite,

de hepatite,

de faringite,

de sinusite,

de meningite.

Está, se...

ta tá tá tá tá

com a consciência podre.

Botaram tanto lixo,

botaram tanta fumaça,

botaram tanta preocupação

nos miolos da cidade

que a cidade

tá, tá tá tá tá

está de cuca quente.

Marcha Partido
(TOM ZÉ)

Com um beijo na vanguarda
e uma palmada na retaguarda
do bebê bumbum de anjo
e a política
petife patifo patifa patifa patifafafá

E o PMDB padece patifa patifa fafá
no colo do PDS patifa patifa fafafá
o PTB percebeu patifa patifa fafafá
mas o PDT quer deter
se apetece ao PT ter poder
pode ser, pode não ser

Segura o pé, neném
porque na política do amor
só tem sufrágio direto
aqui também quem decide a eleição
é o voto do analfabeto.

Catecismo, Creme Dental e Eu
(Tom Zé)


Vou morrer nos braços da asa branca,
No lampejo do trovão
De um lado ladainha,
Sem soluço e solução.

Nasci no dia do medo
Na hora de ter coragem
Fui lançado no degredo
Diplomado em malandragem

Caminho, luz e risco,
Aflito,
Xingo, minto, arrisco, tisco,
E por onde andei
Eu encontrei o bendito fruto em vosso dente,
Catecismo de fuzil
E creme dental em toda a frente.

Pois um anjo do cinema
Já revelou que o futuro
Da família brasileira
Será um hálito puro.

Nasci no dia do medo, etc. etc.

Pinta -la - inha
Da cana vintinha
Mandei dizer pro meu amor
Faça a cama na varanda
E não esqueça o cobertor

Não quero ser cantador
Só fazer valentia
Também gasto heroísmo
Nos braços de uma Maria.
Nos braços de uma Maria.

Classe Operária
(TOM ZÉ)

Sobe no palco o cantor engajado Tom Zé,

que vai defender a classe operária,

salvar a classe operária

e cantar o que é bom para a classe operária.

Nenhum operário foi consultado

não há nenhum operário no palco

talvez nem mesmo na platéia,

mas Tom Zé sabe o que é bom para os operários.

Os operários que se calem,

que procurem seu lugar, com sua ignorância,

porque Tom Zé e seus amigos

estão falando do dia que virá

e na felicidade dos operários.

Se continuarem assim,

todos os operários vão ser demitidos,

talvez até presos,

porque ficam atrapalhando

Tom Zé e o seu público, que estão cuidando

do paraíso da classe operária.

Distante e bondoso, Deus cuida de suas ovelhas,

mesmo que elas não entendam seus desígnios.

E assim,, depois de determinar

qual é a política conveniente para a classe operária,

Tom Zé e o seu público se sentem reconfortados e felizes

e com o sentimento de culpa aliviado.

Fliperama
(by Tom Zé )

Flip, flip, flip
Filip, flip, filip, filip, flip
Flipé - pépé - pépé - pépé

Rará - rará - rará - rará
Rará - rará - rará - rá
Râ - mamá - mâma - mamá - mamá
Fliperama

O louco comandante Flip
com a sua moedinha
quer fazer uma guerra na Terra

Oferece um caminhão e o seu cinturão
Que para a batalha não falha.
E no quarto faz com ela
A terceira arruela
Do amor que tem a violência,
Com o pirulito da ciência - á - á - á
Com o pirulito da ciência - á - á
Pelo pirulito da ciência - â - â
Pelo pirulito da ciência - â
Apelo.

Jimmy, Renda-se

Guta me look mi look love me

Tac sutaque destaque tac she

Tique butique que tique te gamou

Toque-se rock se rock rock me

Bob Dica, diga,

Jimi renda-se!

Cai cigano, cai, camóni bói

Jarrangil century fox

Galve me a cigarrete

Billy Halley Roleiflex

Jâni chope chope chope chope

Ô Jâni chope chope

Ie relê reiê relê

LÍNGUA BRASILEIRA
(Tom Zé) Ed. lrara (Trama)
Produzido por Jair Oliveira

Quando me sorris,
Visigoda e celta,
Dama culta e bela,
Língua de Aviz...

Fado de punhais,
Inês e desventuras,
Lá onde costuras,
Multidão de ais.

Mel e amargura,
Fatias de medo,
Vinho muito azedo,
Tudo com fartura.

Cravos da paixão,
Com dores me serves,
Com riso me pedes
Vida e coração,
Vida e coração.

Babel das línguas em pleno cio,
Seduz a África, cede ao gentio,
Substantivos, verbos, alfaias de ouro,
Os seus olhares conquistam do mouro.

Mares-algarismos,
Onde um seu piloto
Rouba do ignoto
Almas e abismos.

Verbo das correntes
Com seu candeeiro
Todo marinheiro
Caça continentes.

E o gajeiro real,
Ao cantar matinas,
Acha três meninas
Sob um laranjal.

Última das filhas,
Ventre onde os mapas
Bordam suas cartas
Linhas Tordesilhas,
Linhas Tordesilhas.

Em nossas terras continentais
A cartomante abre o baralho,
Abismada vê, entre o sim e o não,
Nosso destino ou um samba-canção.

O ABACAXI DE IRARÁ
(RIBEIRO -TOM ZÉ - PERNA)

Minha terra é boa,
plantando dá
o famoso abacaxi de Irará.
Minha terra é boa,
plantando dá
o famoso abacaxi de Irará.

Moça emperrada namora
e o noivo não quer casar
se apega ao bom Santo Antônio
e o noivo este ano ainda vai pensar...

Falou véio
dá um chá de abacaxi
de Irará
que é pro noivo se animar.

Minha terra é boa
plantando dá
o famoso abacaxi de Irará.

Véio viúvo com setenta anos
ainda quer casar
Pergunto pra ele o segredo
e peço pra me contar.

Falou o veio:
Vá comendo abacaxi
de Irará
que você vai se animar.

Parque Industrial
(Tom Zé)

Retocai o céu de anil
Bandeirolas no cordão
Grande festa em toda a nação.

Despertai com orações
O avanço industrial
Vem trazer nossa redenção.

Tem garota-propaganda
Aeromoça e ternura no cartaz,
Basta olhar na parede,
Minha alegria
Num instante se refaz

Pois temos o sorriso engarrafado
Já vem pronto e tabelado
É somente requentar
E usar,
É somente requentar
E usar,
Porque é made, made, made, made in Brazil.
Porque é made, made, made, made in Brazil.

Retocai o céu de anil, ... ... ... etc.

A revista moralista
Traz uma lista dos pecados da vedete
E tem jornal popular que
Nunca se espreme
Porque pode derramar.

É um banco de sangue encadernado
Já vem pronto e tabelado,
É somente folhear e usar,
É somente folhear e usar.

São São Paulo
(Tom Zé)

São São Paulo quanta dor
São São Paulo meu amor

São oito milhões de habitantes
De todo canto e nação
Que se agridem cortesmente
Correndo a todo vapor
E amando com todo ódio
Se odeiam com todo amor
São oito milhões de habitantes
Aglomerada solidão
Por mil chaminés e carros
Gaseados a prestação
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito

São São Paulo quanta dor
São São Paulo meu amor

Salvai-nos por caridade
Pecadoras invadiram
Todo o centro da cidade
Armadas de ruge e batom
Dando vivas ao bom humor
Num atentado contra o pudor
A família protegida
O palavrão reprimido
Um pregador que condena
Um festival por quinzena
porém com todo defeito
Te carrego no meu peito

São São Paulo quanta dor
São São Paulo meu amor

Santo Antonio foi demitido
E os ministros de Cupido
Armados da eletrônica
Casam pela tevê
Crescem flores de concreto
Céu aberto ninguém vê
Em Brasília é veraneio
No Rio é banho de mar
O país todo de férias
E aqui é só trabalhar
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito

São São Paulo quanta dor
São São Paulo meu amor.

 

 

 

 

 

 

ORFEU SPAM APOSTILAS

[Volta à Página Principal]

Torquato Neto

(Teresina PI, 1944 - Rio de Janeiro RJ, 1972)

Cursou Jornalismo no Rio de Janeiro, por volta de 1966, mas não chegou a concluir a faculdade. Nos anos seguintes compôs letras musicadas por Gilberto Gil ("Geléia Geral", "Louvação"), Caetano Veloso ("Deus Vos Salve a Casa Santa", "Ai de Mim", "Copacabana", "Mamãe, Coragem") e Edu Lobo ("Lua Nova", "Pra Dizer Adeus"). Entre 1970 e 1972 atuou nos filmes Nosferatu no Brasil e A Múmia Volta a Atacar, de Ivan Cardoso, e Helô e Dirce, de Luiz Otávio Pimentel. No período também criou e redigiu a coluna Geléia Geral no jornal carioca Última Hora. Em 1973 ocorreu a publicação póstuma de seu livro de poesia Os Últimos Dias de Paupéria, organizado por Ana Maria S. de Coraújo Duarte e Waly Salomão. Três anos depois, foram incluídos alguns de seus poemas na antologia 26 Poetas Hoje, organizada por Heloísa Buarque de Hollanda em 1976. Em 1997 foram publicados quatro de seus poemas na antologia bilíngüe Nothing the Sun Could Not Explain, organizada por Michael Palmer, Régis Bonvicino e Nelson Ascher. Torquato Neto foi um dos compositores mais inovadores da canção popular dos anos de 1970.

 

A Rua

toda rua tem seu curso
tem seu leito de água clara
por onde passa a memória
lembrando histórias de um tempo
que não acaba

de uma rua de uma rua
eu lembro agora
que o tempo ninguém mais
ninguém mais canta
muito embora de cirandas
(oi de cirandas)
e de meninos correndo
atrás de bandas

atrás de bandas que passavam
como o rio parnaíba
rio manso
passava no fim da rua
e molhava seu lajedos
onde a noite refletia
o brilho manso
o tempo claro da lua

ê são joão ê pacatuba
ê rua do barrocão
ê parnaíba passando
separando a minha rua
das outras, do maranhão

de longe pensando nela
meu coração de menino
bate forte como um sino
que anuncia procissão

ê minha rua meu povo
ê gente que mal nasceu
das dores que morreu cedo
luzia que se perdeu
macapreto zé velhinho
esse menino crescido
que tem o peito ferido
anda vivo, não morreu

ê pacatuba
meu tempo de brincar
já foi-se embora
ê parnaíba
passando pela rua
até agora
agora por aqui estou
com vontade
e eu vou volto pra matar
essa saudade

ê são joão ê pacatuba
ê rua do barrocão.

Coisa Mais Linda que Existe

coisa linda nesse mundo
é sair por um segundo
e te encontrar por aí
pra fazer festa ou comício
com você perto de mim
na cidade em que me perco
na praça em que me resolvo
na noite da noite escura
é lindo ter junto ao corpo
ternura de um corpo manso
na noite da noite escura
a coisa mais linda que existe
é ter você perto de mim
o apartamento, o jornal
o pensamento, a navalha
a sorte que o vento espalha
essa alegria, o perigo
eu quero tudo contigo
com você perto de mim
coisa linda nesse mundo
é sair por um segundo
e te encontrar por aí
e ficar sem compromisso
pra fazer festa ou comício
com você perto de mim
a coisa mais linda que existe
é ter você perto de mim

Geléia Geral

um poeta desfolha a bandeira
e a manhã tropical se inicia
resplandente cadente fagueira
num calor girassol com alegria
na geléia geral brasileira
que o jornal do brasil anuncia

ê bumba iê, iê boi
ano que vem mês que foi
ê bumba iê, iê iê
é a mesma dança, meu boi

"a alegria é a prova dos nove"
e a tristeza é teu porto seguro
minha terra é onde o sol é mais limpo
e mangueira é onde o samba é mais puro
tumbadora na selva-selvagem
pindorama, país do futuro

ê bumba iê, iê boi
ano que vem mê que foi
ê bumba iê, iê iê
é a mesma dança, meu boi

é a mesma dança na sala
no canecão na TV
e quem não dança não fala
assiste a tudo e se cala
não vê no meio da sala
as relíquias do brasil:
doce mulata malvada
um elepê da sinatra
maracujá mês de abril
santo barroco baiano
superpoder de paisano
formiplac e céu de anil
três destaques da portela

carne seca na janela
alguém que chora por mim
um carnaval de verdade
hospitaleira amizade
brutalidade jardim

ê bumba iê, iê boi
ano que vem mês que foi
ê bumba iê, iê iê
é a mesma dança, meu boi

plurialva contente e brejeira
miss linda brasil diz bom dia
e outra moça também carolina
da janela examina a folia
salve o lindo pendão dos seus olhos
e a saúde que o olhar irradia

ê bumba iê, iê boi
ano que vem mês que foi
ê bumba iê, iê iê
é a mesma dança, meu boi

um poeta desfolha a bandeira
e eu me sinto melhor colorido
pego um jato viajo arrebento
como roteiro do sexto sentido
foz do morro, pilão de concreto
tropicália, bananas ao vento

ê bumba iê, iê boi
ano que vem mês que foi
ê bumba iê, iê iê
é a mesma dança meu boi

Hoje Tem Espetáculo

Vá ao cinema: presta?
Vá ao teatro: presta?
Esses filmes servem a quê?
Servem a quem?
Essas peças: servem? Pra quê?
Divirta-se: teu programa é esse,
bicho: vá ao cinema
vá ao teatro, vá ao concerto
disco é cultura, vá para o inferno:
o paraíso na tela no palco na boca
do som
e nas palavras todas
na ferrugem dos gestos e nas trancas
da porta da rua
no movimento das imagens: violência
e frescura: montagem.
Divirta-se. O inferno
é perto é longe, o paraíso
custa muito pouco.
Pra que serve este filme, serve a
quem?
Pra que serve esse tema, serve a
quem?
De churrasco em churrasco encha
o seu caco,
amizade. Cante seresta na churrascaria
e arrote filmes-teatros-marchas-ranchos
alegrias e tal: volte (como sempre)
atrás,
fique na sua
bons tempos são para sempre — jamais
bata no peito, bata no prato, é
assim que se faz
a festa. Reclame isso: esse filme
não presta
o diretor é fraco e essa história eu
conheço
esse papo é pesado demais pras
crianças na sala
é macio, é demais: serve a quem,
amizade?
Teu roteiro hoje é esse, meu bicho: cante
tudo na churrascaria
não saia nunca mais da frente fria
sirva, serve, bicho, criança, bonecão
sirva sirva sirva mais
churrasco churrasquinho churrascão.
Sirva um samba de Noel, uma ciranda
uma toada do Gonzaga (o pai),
aquele samba
aquela exaltação de um iê-iê-iê
romanticosuavespuma
bem macio
um filme de mocinho e de bandidos
uma peça qualquer com muito
drama:
encha o caco, amizade, tudo é
porta
e vá entrando à vontade, a casa
é sua, entre
pelos filmes em cartaz, pelas peças
sobre os palcos
vá entrando pelo papo, entrando
pelo cano
geral; coma churrasco, sirva, vá
entrando
e servindo (a quê a quem?)
encha o seu caco. Divirta-se, bata
no prato
e peça bis, reclame, cante o quanto
queira
afaste o lixo, nem pense:
teu programa é esse mesmo, bicho.

Louvação

Vou fazer a louvação, louvação, louvação
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado.
Meu povo, preste atenção, atenção, atenção.
Repare se estou errado.
Louvando o que bem merece,
Deixo o que é ruim de lado.
E louvo, pra começar,
Da vida o que é bem maior:
Louvo a esperança da gente
Na vida, pra ser melhor.
Quem espera sempre alcança,
Três vezes salve a esperança!
Louvo quem espera sabendo
Que, pra melhor esperar,
Procede bem quem não pára
De sempre, mais, trabalhar.
Que só espera sentado
Quem se acha conformado.

Vou fazendo a louvação, louvação, louvação
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado.
Quem 'tiver me escutando, atenção, atenção,
Que me escute com cuidado,
Louvando o que bem merece,
Deixo o que é ruim de lado.
Louvo agora e louvo sempre
O que grande sempre é:
Louvo a força do homem
E a beleza da mulher,
Louvo a paz pra haver na Terra,
Louvo o amor que espanta a guerra,
Louvo a amizade do amigo
Que comigo há de morrer,
Louvo a vida merecida
De quem morre pra viver,
Louvo a luta repetida
Da vida, pra não morrer.

Vou fazendo a louvação, louvação, louvação
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado.
De todos peço atenção, atenção, atenção,
Falo de peito lavado.
Louvando o que bem merece,
Deixo o que é ruim de lado.
Louvo a casa onde se mora
De junto da companheira,
Louvo o jardim que se planta
Pra ver crescer a roseira,
Louvo a canção que se canta
Pra chamar a primavera,
Louvo quem canta e não canta
Porque não sabe cantar,
Mas que cantará na certa
Quando, enfim, se apresentar
O dia certo e preciso
De toda a gente cantar.
E assim fiz a louvação, louvação, louvação
Do que vi pra ser louvado, ser louvado, ser louvado.
Se me ouviram com atenção, atenção, atenção,
Saberão se estive errado
Louvando o que bem merece,
Deixando o ruim de lado.

Marginália II

eu, brasileiro, confesso

minha culpa meu pecado

meu sonho desesperado

meu bem guardado segredo

minha aflição

eu, brasileiro, confesso

minha culpa meu degredo

pão seco de cada dia

tropical melancolia

negra solidão:

aqui é o fim do mundo

aqui é o fim do mundo

ou lá

aqui o terceiro mundo

pede a bênção e vai dormir

entre cascatas palmeiras

araçás e bananeiras

ao canto da juriti

aqui meu pânico e glória

aqui meu laço e cadeia

conheço bem minha história

começa na lua cheia

e termina antes do fim

aqui é o fim do mundo

aqui é o fim do mundo

ou lá

minha terra tem palmeiras

onde sopra o vento forte

da fome do medo e muito

principalmente

da morte

o-lelê, lalá

a bomba explode lá fora

e agora, o que vou temer?

yes: nós temos banana

até pra dar,

e vender

aqui é o fim do mundo

aqui é o fim do mundo

ou lá

Zabelê

minha sabiá
minha zabelê
toda meia noite
eu sonho com você
se você duvida
eu vou sonhar pra você ver

minha sabiá
vem me dizer por favor
o quanto que eu devo amar
pra nunca morrer de amor
minha zabelê
vem correndo me dizer
porque eu sonho toda noite
e sonho só com você
se você não me acredita
vem pra cá
vou lhe mostrar
que riso largo é o meu sonho
quando eu sonho
com você
mas anda logo
vem que a noite
já não tarda a chegar
vem correndo
pro meu sonho escutar
que eu sonho falando alto
com você no meu sonhar

Cogito

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.

O Poeta é a Mãe das Armas

O Poeta é a mãe das armas
& das Artes em geral —
alô, poetas: poesia
no país do carnaval;
Alô, malucos: poesia
não tem nada a ver com os versos
dessa estação muito fria.

O Poeta é a mãe das Artes
& das armas em geral:
quem não inventa as maneiras
do corte no carnaval
(alô, malucos), é traidor
da poesia: não vale nada, lodal.

A poesia é o pai da ar-
timanha de sempre: quent
ura no forno quente
do lado de cá, no lar
das coisas malditíssimas;
alô poetas: poesia!
poesia poesia poesia poesia!
O poeta não se cuida ao ponto
de não se cuidar: quem for cortar meu cabelo
já sabe: não está cortando nada
além da MINHA bandeira ////////// =
sem aura nem baúra, sem nada mais pra contar.
Isso: ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. a
r: em primeiríssimo, o lugar.

poetemos pois

torquato neto /8/11/71 & sempre.

Go Back

Você me chama
Eu quero ir pro cinema
Você reclama
Meu coração não contenta
Você me ama

Mas de repente
A madrugada mudou
E certamente
Aquele trem já passou
E se passou, passou
Daqui pra melhor, foi!

Só quero saber
do que pode dar certo
Nao tenho tempo a perder

 

 

 

 

 

ORFEU SPAM APOSTILAS

[Volta à Página Principal]

Waly Salomão

Filho de pai sírio e mãe baiana, Waly Salomão nasceu em Jequié, na Bahia, e nos anos 60 aproximou-se de artistas que se identificaram com o movimento tropicalista, como Torquato Neto, Gal Costa, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gil e Jards Macalé. No entanto, Salomão nunca se identificou como integrante do movimento estético tropicalista. Poeta e letrista — além de produtor cultural e diretor artístico —, é co-autor de músicas como "Mel" e "Talismã", ambas com Caetano e que viraram título dos discos de Maria Bethânia de 1979 (ultrapassando a marca de 1 milhão de cópias) e 1980, "Anjo Exterminado" (com Macalé, também título do disco de Bethânia de 72), "Mal Secreto" (com Macalé), "Assaltaram a Gramática" (com Lulu Santos, grande sucesso dos Paralamas), "Balada de um Vagabundo" (com Roberto Frejat, gravada por Cazuza), "Pista de Dança" (com Adriana Calcanhotto, gravada pela própria em "Marítimo") e "Vapor Barato" (com Jards Macalé), composta em 1968 e gravada por Gal Costa no disco "Fa-tal" em 1972, que voltou a fazer sucesso em 1995 na trilha sonora do filme "Terra Estrangeira". Ainda na década de 70 desenvolveu a "Morbeza (morbidez + beleza) Romântica", linha pela qual Jards Macalé lançou o disco "Aprender a Nadar". O espetáculo "Fa-tal", marco na carreira de Gal, foi dirigido por Waly. Lançou seu primeiro livro do poemas em 1971, "Me Segura que Eu Vou Dar um Troço", com textos escritos durante uma temporada passada na prisão, paginados e diagramados pelo artista plástico Hélio Oiticica, amigo de toda a vida e de quem escreveu a biografia, "Qual É o Parangolé". No ano seguinte participou da organização e edição de "Os Últimos Dias de Paupéria", coletânea de artigos do poeta e amigo Torquato Neto, morto em 1972. Junto com Torquato fez a revista "Navilouca", que só teve um número mas fez história. Nessa época, passou a assinar como Wally Sailormoon, pseudônimo que logo abandonou. Outros de seus livros foram "Gigolô de Bibelôs", "Surrupiador de Souvenirs", "Algaravias", "Lábia" e "Tarifa de Embarque", lançado em 2000.

A morte de Waly Salomão, poeta da Tropicália

O baiano, co-autor de Vapor Barato, tinha 59 anos e tratava-se de um câncer no Rio de Janeiro

Marco Antônio Barbosa

6/05/2003

"(...) Estou tão cansado / Mas não pra dizer / Que estou indo embora". Impossível não se recordar dos versos do clássico Vapor Barato ao se tomar conhecimento da morte, na manhã de ontem (dia 5), de Waly Salomão, poeta, letrista, ator e Secretário Nacional do Livro e da Leitura. Baiano, 58 anos, Salomão estava internado há 12 dias na Clínica São Vicente (RJ), tratando-se de um câncer no intestino. A causa mortis oficial foi a falência múltipla de órgãos, depois que a doença causou metástase para o fígado. Depois do velório, ocorrido na tarde de ontem, no Cemitério São João Baptista, também no Rio de Janeiro, o corpo de Waly será cremado na manhã de hoje (dia 6). À parte sua intensa atuação em vários meios de expressão artística ao longo de mais de três décadas, Waly também foi peça-chave - ainda que não uma figura de proa - no movimento tropicalista, e assinou versos em parceria com compositores como Caetano Veloso, Antônio Cicero, Lulu Santos, Jards Macalé e Adriana Calcanhoto.
Verborrágico, por vezes polêmico e até contraditório, Waly por mais de uma vez negou fazer parte de qualquer movimento - até mesmo da Tropicália, responsável por sua projeção inicial na mídia. Baiano (de Jequié, nascido em 3 de setembro de 1944) como o núcleo dos tropicalistas, sempre foi um homem de letras, escrevendo sob influência da geração concretista de Décio Pignatari e dos irmãos Campos. A conexão com a turma de Gil, Gal, Caetano e Bethânia se deu através de Hélio Oiticica, cuja instalação Tropicália inspirou Caetano a compor a canção de título homônimo. Amigo e biógrafo de Oiticica (é autor de Qual É o Parangolé, sobre a vida do artista plástico), Waly aproximou-se dos tropicalistas e logo estava tendo poemas seus musicados pela turma.
Sua atuação junto aos tropicalistas foi sendo construída em dupla com sua carreira como escritor. Em 1971 assumiu posto-chave na trajetória de Gal Costa, dirigindo o clássico show Fa-Tal, que tinha como pontos altos duas de suas parcerias com Jards Macalé (Vapor Barato e Mal Secreto), além de Luz do Sol (composta com Carlos Pinto). O show virou disco ao vivo e trilha sonora oficial do hippieismo pós-tropicalista. À essa altura, Waly já tinha uma recheada lista de canções compostas com Caetano, Torquato Neto e outros. No mesmo ano de 71, lançou seu primeiro livro de poesias, Me Segura que eu Vou Dar um Troço.
Nunca assumindo posição clara em relação à sua influência na Tropicália ("Não me sinto atrelado a qualquer movimento, como se fosse um figurino de época", disse ele certa vez), Waly Salomão atravessou os anos 70 fornecendo canções para os remanescentes da turma baiana. Os Doces Bárbaros (que reunia Caetano, Gil, Gal e Bethânia) gravaram sua Tarasca Guidon; solo, Bethânia transformou várias de suas parcerias com Caetano em sucessos (A Voz de uma Pessoa Vitoriosa, Mel, Talismã). A inquietação artística o levou a buscar desafios em pólos opostos. Também pode ser creditada à Salomão a revelação de Luiz Melodia - foi por sua sugestão que Gal lançou Pérola Negra, primeiro sucesso de Melodia como autor. Nos anos 80, podia tanto trabalhar com Lulu Santos (é deles Assaltaram a Gramática, gravada pelos Paralamas do Sucesso) quanto com Itamar Assumpção (Zé Pelintra), ou então escrever todo um disco, em parceria com Antonio Cícero, para João Bosco gravar (Zona de Fronteira ).
Fechando um ciclo geracional, Salomão aproximou-se mais recentemente das vozes femininas dos anos 90. Trabalhou com Cássia Eller no show e disco Veneno Antimonotonia, como produtor. Adriana Calcanhoto musicou dois de seus poemas (Pista de Dança e A Fábrica do Poema). Desde janeiro deste ano, tinha nas mãos um novo desafio: a pedido do eterno amigo Gilberto Gil, hoje Ministro da Cultura, aceitou o cargo de Secretário Nacional do Livro e Leitura. Waly queria popularizar e baratear o hábito de leitura do brasileiro. Casado, pai de dois filhos, Salomão preparava-se para lançar em breve mais um volume de poesias.

(Fonte: Clic Music - http://cliquemusic.uol.com.br/br/Acontecendo/Acontecendo.asp?Nu_materia=3985)

Entrevista:

O poeta Waly Salomão, novo secretário nacional do livro, expõe suas metas de trabalho

Heloísa Buarque de Hollanda
Professora e editora

O poeta Waly Salomão é o novo secretário nacional do livro, integrando a nova equipe do Ministério da Cultura. Sem dúvida, essa equipe, que tomou posse cantando, pega-nos de surpresa e sugere uma gestão promissora pautada pela bandeira da ''Imaginação no poder''. Segundo o poeta, que inicia a nova missão com o espírito cheio de gás e otimismo, seu maior sonho é trabalhar para a divulgação da leitura no sentido da libertação - ''Sonho com um povo mais bem alimentado, letrado, gostando de livro mas sem estar oprimido pela leitura. Minha meta é transformar o livro numa carta de alforria'', falou em entrevista ao Jornal do Brasil. Aqui ele contou sua história desde as primeiras leituras, na casa dos pais, onde livros eram saboreados com entusiasmo e idealismo.

- Qual é o espaço da leitura na sua vida?

- Desde que me entendo por gente, o livro tem uma posição central, como se fosse um ícone dentro de casa. Lembro-me de minha mãe discutindo com meus irmãos e irmãs os dois volumes da velha edição da Editora Globo de Guerra e paz, de Tolstoi. Eles discutiam, com grande entusiasmo, como se estivessem discutindo uma novela mexicana. A personagem da Ana Karenina, por exemplo, era centro de conversa como se ela fosse uma personagem da Glória Perez. Minha tia Etelvina, mulher de Tio Bento, lia sem parar. E eu, que já freqüentava a Biblioteca Pública de Jequié, onde morávamos, tirei para ela a edição de D. Quixote numa tradução bem rococó, de Antônio Feliciano de Castilho. Adorava aquele português rebuscado, com palavras difíceis e decorava trechos enormes do texto. Quando saiu Gabriela Cravo e Canela, compramos logo três volumes, porque todo mundo queria ler e não dava tempo. Minha irmã tinha Os sertões em capa dura e me obrigou a ler. Eu lia tudo o que me caía nas mãos e me fundia com aquelas páginas que me faziam transcender a coisa tacanha, acanhada, da vida em cidade do interior.

- Como se insere o livro na luta pela diversidade cultural?

- No respeito a todos os falares, por exemplo. Não podemos ter um falar único regido por leis gramaticais rígidas. Na Bahia, muitas vezes eu parava e ficava ouvindo um camelô e uma mulher falarem na Ladeira de São Bento. Ficava horas absorvendo aquela verve. Eu detesto é salazarismo, galinha verde de Plínio Salgado, fascismo, generalíssimo Franco. É evidente que você pode ver percepções inusitadas em pessoas carentes da ''sabença'' oficial. Não perceber isso é agir como no leito de Procusto, onde ou você corta a cabeça ou corta o pé porque ele é curto, não cabe o corpo todo. Temos que fazer o corpo inteiro da cultura esplender.

- Vem daí a invenção de seu programa Fome de Livro?

- É claro. Estamos vivendo um momento fecundo com essa capacidade de liderança do Lula, de aglutinar as vontades de um povo na sua diversidade. Aí, com o Fome Zero, um programa justíssimo do Lula, fui percebendo que no Brasil, ao lado da música popular, do pagode, do futebol, que são responsáveis pela ascensão social de setores sem saída, o livro também pode ser, e tem sido, essa alavanca de modificação da posição subalterna das pessoas na sociedade. O Fome de Livro é um projeto complementar, que considera a leitura ferramenta social.

- Você já teve uma experiência com o trabalho em comunidades no Rio, não é mesmo?

- Tive. Sou diretor de Comunicação da ONG Vigário Geral, Afroreggae cultural há muitos anos. O Júnior e o Zé Renato, há quase 10 anos, me viram no Jô Soares uma vez e me procuraram. Vi aquilo como uma coisa muito forte, me integrei logo, sem hesitação. Gosto desses cruzamentos, dessas misturas, intercâmbios.

- Como tais experiências, aliadas à sua militância, relacionam-se com a paixão pela revolução do livro na Secretaria?

- Eu vi em grupos culturais como o Afroreggae de Vigário Geral garotos anêmicos ficando mais alimentados, estimulados, aprendendo coisas, ascendendo socialmente. É por isso que aprendi a ser otimista no meio de um país encalacrado como o Brasil. Por isso não tive medo. Preferi a esperança.

- Você nem hesitou quando o Gil te chamou?

- Nem hesitei. Fui chamado na realidade por João Santana, ligado ao Pallocci, que tinha visto meu desempenho administrativo em Salvador. Essas coisas ou você não topa. Tem de dar total dedicação. É sempre uma experiência enriquecedora.

- Como foi o primeiro dia de trabalho?

- Fui chegando com bastante cautela, precaução, visitando cada setor, tentando apagar até um lado público meu espalhafatoso. Eu obedeço fielmente à liturgia do poder. Ando de paletó, gravata, tudo. Como sou barroco sei que a vida é um teatro. Não adianta ir com a roupa errada, não fazer os usos de tratamento. Entrei querendo entender em minúcia aquele espaço, querendo distinguir quem é o servidor qualificado para formar equipe. Entrei procurando uma conjunção interministerial com os outros poderes.

- E tem muita briga por lá?

- Eu acho muita graça em ver tanta briga pelo Ministério da Cultura, um ministério paupérrimo. Por que será que mesmo assim pessoas brigam por cargos, tiram os tapetes, mandam flechas venenosas para todo lado? Para a chefia da Biblioteca Nacional foi uma guerra de foice como eu nunca tinha visto. De repente, um amigo me soprou o nome do Pedro Corrêa do Lago e essa indicação caiu pra mim como uma perfeição. A gente precisa ouvir muito. É assim que pretendo agir, de uma forma pausada e com o travesseiro me servindo de sibila. Se eu errar, sei que é apenas como parte do percurso para acertar. No caso da Biblioteca Nacional, quero garantir que aquele acervo, além de ser preservado e exposto, tenha a mesma acessibilidade de padrão internacional que você encontra, por exemplo, na Biblioteca do Congresso, em Washington. Pensar a Biblioteca Nacional não como espaço imperial, mas um espaço de utilidade pública, que possa servir à população .

- Você se formou em direito no calor dos anos 60. Nessa época, já era de esquerda? Conhecia os baianos que iam arrasar depois no Rio e em SP?

- Eu convivia com eles todos. O Gil eu conheci ainda no Colégio Central, no clássico. Uma colega de classe, Vânia Bastos, fez uma reunião na casa dela e apareceu um garoto gorducho, tocando violão. Era o Gilberto Gil. Isso era em 1961, 62. Éramos uma esquerda marxista-existencialista, porque líamos Marx, Camus, Sartre e Merleau Ponty, quer dizer, essa encruzilhada de paradoxos. Assisti aos primeiros shows deles, da Bethânia, do Tom Zé. Era uma época de grande fermentação na Bahia.

- E a militância mais diretamente política?

- Participei do CPC baiano, com Geraldo Sarno, Capinan, Tom Zé. A gente levava as peças ou na Concha Acústica do Teatro Castro Alves de Salvador, ou nas favelas nascentes da cidade, como no Nordeste de Amaralina. Eu dava aula sobre Feuerbach de Marx, fazia palestras na faculdade de Medicina. Organizei também um centro de estudos chamado Antônio Gramsci, bem antes de Carlos Nelson Coutinho e Leandro Konder traduzirem Gramsci na capital.

- E depois de 1964?

- Em 1964, o corte foi o mais abrupto possível. Mas foi também nessa época que li Tremor e temor, de Kiekergaard, genial protestante existencialista que contava de repetidos ângulos a história de Abrahão, incumbido por Deus de matar Isaac. Um livro de perspectiva cinética. Fiquei com isso na cabeça. Em volta, as pessoas andavam assombradas, amedrontadas, perdidas. Comecei a olhar outros caminhos. Na vida, se a via fica estreita, você tem de descobrir como seguir. Busquei uma sofrida vereda: a de ultrapassar a província.

- E qual vereda foi essa?

- Decidi vir para o Rio de Janeiro. Era a época em que Caetano já estava explodindo com Alegria alegria e a gente ficava conversando, lendo Clarice Lispector, discutindo Guimarães Rosa, Cinema Novo. Depois Dedé e Caetano me convidaram para ir a SP, e acabei indo morar com eles na Rua São Luiz. Era o auge do tropicalismo, e vivi lá até eles serem presos. Depois ficava entre Rio e SP. Eu escrevia coisas que eu mostrava a todo mundo, mas que ninguém lia. Teve até um texto escrito no Carandiru chamado Apontamentos do Pav 2, que parece um hip hop avant la lettre. Ali representou um momento de deflagração da aventura de escrever. Foi ali que eu me concentrei e me liberei como escritor. Mostrei esse texto para diferentes pessoas, mas ninguém dava retorno. Aí é que entra a figura do Hélio Oiticica, que levou o texto a sério e que, por conta própria, sentou na prancheta e fez uma diagramação especialíssima para o texto, que mais tarde foi apreendida pela polícia, na casa de Rogério Duarte.

- Bem, 40 anos depois de uma história enviesada, com direito a prisões, repressão, milagres brasileiros, e à onda neoliberal, essa mesma geração que você estava descrevendo toma o poder, cantando o sonho como se tivesse sido apenas casualmente interrompida por alguns minutos. Como você vê essa mágica?

- No dia da posse, senti que era a primeira vez no Brasil que acontecia um tipo de posse tão alegre e diversificada. Ali estavam diferentes ângulos, picadas, perspectivas, possibilidades fecundas da cultura brasileira. Nunca acreditei em ''the dream is over''. Sinto-me mais próximo da frase de Shakespeare: ''Somos feitos do mesmo material de que são feitos os sonhos.'' O sonho não pode acabar.

- O sonho é uma metodologia desejável para o bom administrador?

- Eu sou de Virgem. Então muitas vezes a cabeça está nas nuvens e os pés no chão. Quando fui nomeado diretor da Fundação Gregório de Matos, de Salvador, trabalhei pesado. Na minha gestão eu me pautei antes de tudo por um modo de pensar desconfiado da relação do artista com o poder. E em algum tempo minhas habilidades administrativas e de flexibilidade política foram reconhecidas e fui designado Coordenador do carnaval da Bahia. Minha luta foi toda em cima de defender o carnaval não como um fato turístico e pitoresco, mas fundamentalmente como um fato cultural. Nasci e briguei muito na Bahia naquele momento para dar valor aos blocos afros que estavam nascendo, como o afro de Itapuã, Male Debale - esse nome ajudei a dar que significava a Revolução Islâmica do século 19 em Salvador. Ajudei o Olodum, ajudei o Ilê Ayê. Sabia que estava ajudando a representação da maior cidade negra fora da Africa, que é Salvador. Eu digo que tenho experiência administrativa porque o carnaval demandava 7 mil pessoas trabalhando diretamente sob meu comando, e eu chegava mais cedo do que todo mundo, enfrentando os pelegos do carnaval, que me chamavam de estrangeiro, não baiano. Mas fui provando não só que era de Jequié, mas que tinha muito conhecimento da cultura baiana, das populações mais pobres, da população negro-mestiça, intimidade nas festas e nas agruras dos pescadores, das feiras, com o candomblé.

- A idéia da leitura é fundamental. Mas fazer livro no Brasil é muito caro. É aventura economicamente quase inviável. A secretaria vai ter algum projeto nesse sentido?

- Eu já fui um pequeno editor, junto a minha mulher Marta. Tivemos a Editora Pedra Que Ronca. Lançamos o primeiro livro do Caetano, Alegria alegria, e outro livro chamado Baticum de Sônia Lins, a irmã da Ligia Clark. Aí tivemos que fechar. Hoje estou vendo com muito gosto a multiplicação de boas pequenas e médias editoras. Vai chegar o momento em que esse quadro de dificuldades vai ser superado. Vou trabalhar para isso.

- Qual seria o grande gol de sua gestão na secretaria?

- Penso agir com muita dedicação, sonho e catimba, que é uma palavra que vem da África. Sonho com um povo mais bem alimentado, letrado, gostando de livro, mas sem estar oprimido pela leitura. Sonho com o Brasil, nesta gestão Lula, assumindo sua face original e diversificada perante o mundo. O livro pode ajudar nisso. Minha meta é transformar o livro numa carta de alforria.

[01/FEV/2003]

Fonte: Jornal de Poesia (http://secrel.com.br/jpoesia/wsalomao.html#heloisa)

Devenir, Devir

Término de leitura
de um livro de poemas
não pode ser o ponto final.

Também não pode ser
a pacatez burguesa do
ponto seguimento.

Meta desejável:
alcançar o
ponto de ebulição.

Morro e transformo-me.

Leitor, eu te reproponho
a legenda de Goethe:
Morre e devém

Morre e transforma-te.

Nova Cozinha Poética

Pegue uma fatia de Theodor Adorno
Adicione uma posta de Paul Celan
Limpe antes os laivos de forno crematório
Até torná-la magra-enigmática
Cozinhe em banho-maria
Fogo bem baixo
E depois leve ao Departamento de Letras
Para o douto Professor dourar.

Hoje

O que menos quero pro meu dia
polidez,boas maneiras.
Por certo,
um Professor de Etiquetas
não presenciou o ato em que fui concebido.
Quando nasci, nasci nu,
ignaro da colocação correta dos dois pontos,
do ponto e vírgula,
e, principalmente, das reticências.
(Como toda gente, aliás...)

Hoje só quero ritmo.
Ritmo no falado e no escrito.
Ritmo, veio-central da mina.
Ritmo, espinha-dorsal do corpo e da mente.
Ritmo na espiral da fala e do poema.

Não está prevista a emissão
de nenhuma “Ordem do dia”.
Está prescrito o protocolo da diplomacia.
AGITPROP – Agitação e propaganda:
Ritmo é o que mais quero pro meu dia-a-dia.
Ápice do ápice.

Alguém acha que ritmo jorra fácil,
pronto rebento do espontaneísmo?
Meu ritmo só é ritmo
quando temperado com ironia.
Respingos de modernidade tardia?
E os pingos d’água
dão saltos bruscos do cano da torneira
e
passam de um ritmo regular
para uma turbulência
aleatória.

Hoje...

ARTE ANTI-HIPNÓTICA

Espia a flor da aurora que já vem raiando !
Mal a barra do dia rompia
saía pra rua
a caçar trabalho.
Lavrador desempregado
morador de casebre de pau-a-pique
3 cômodos
em Araçatuba
cumpre pena de prisão domiciliar
por furto de luz
do programa de energia rural
para a população de baixa-renda.
4 lâmpadas
sendo que duas queimadas
e uma geladeira imprestável.
Sem dinheiro para pagar a conta
teve o marcador de quilowatts arrancado.
Um compadre compadecido armou o "Gato".
70 anos incompletos.
Não compareceu ao fórum
pois só possuía chinelo
despossuía sapato e roupa decente.


Aqui firma e dá fé um Bertold Brecht de arrabalde:
o sumo do real extraído da notícia do jornal:
....................................................................a arte ilusória
..............................................................................idílica
..............................................................................hipnótica
..............................................................................do fait divers.

JARDIM DE ALÁ
 

EMBRIAGUEZ/cesto de caju/ claro de luna/ olor de jasmin/ teto de estrelas.
Recostado nas almofadas, ouve leitura da ata de reunião da célula

Tupinambá guerreiro
Rei da Turquia
Pisa no chão devagar
Que a noite está
que é um dia

OUTROS QUINHENTOS

Abr’olhos !
Apuro juízo e vista :
em matéria de previsão eu deixo furo
futuro, eu juro, é dimensão
que não consigo ver
nem sequer rever
isto porque no lusco-fusco
ora pitombas!
minha bola de cristal fica fosca
mando bala no escuro
acerto tiro na boca da mosca
outras tantas giro a terra toda às tontas
dobro o Cabo das Tormentas
rebatizo-o de Boa-Esperança
e nessa espécie de caça ao vento leviano
vou pegando pelo rabo
a lebre de vidro do acaso.
Por acaso,
em matéria de previsão só deixo furo
- o juízo e a vista apuro -
futuro, juro, d’imensidão q ignoro
abr’olhos
vejo bem no claro
turvo no escuro
minha vida afinal navega taliqual
caravela de Cabral
um marinheiro enfia a cara na escotilha
um grumete na gávea ziguezagueia e berra
sinal
de terra, terra ignota à vista !
tanto faz Brasil, Índia Ocidental Índia Oriental,

ó sina, toucinho do céu e tormento,
ó fado, amo e odeio
o vira, a volta e o volteio
da sinuca
da sempre mesma
d
a
n
ç
a
-
l
e
s
m
a
da sinuca-de-bico vital.
Açorda !
Vatapá !

VAPOR BARATO
( WALLY SALOMÃO / JARDS MACALÉ )

Oh Sim, Eu Estou Tão Cansado
Mas Não Pra Dizer Que Eu Não Acredito Mais Em Você
Com Minhas Calças Vermelhas, Meu Casaco De General
Cheio De Anéis, Eu Vou Descendo Por Todas As Ruas
Eu Vou Tomar Aquele Velho Navio
Eu Não Preciso De Muito Dinheiro
E Não Me Importa Honey
Baby, Baby, Honey Baby

Oh Sim, Eu Estou Tão Cansado
Mas Não Pra Dizer Que Estou Indo Embora
Talvez Eu Volte, Um Dia Eu Volto
Mas Eu Quero Esquecê-La, Eu Preciso
Oh! Minha Grande Oh! Minha Pequena
Oh! Minha Grande, Minha Pequena Obsessão
Eu Embora Naquele Velho Navio
E Não Me Importa, Honey
Baby, Baby, Honey Baby...