Simbolismo

10/05/2015 08:53

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Simbolismo:

Características do Simbolismo:
- Linguagem sugestiva e abstrata, que prefere sugerir a nomear;
- Presença abundante de metáforas (sugestão), comparações, aliterações, assonâncias, paronomássias (musicalidade) e sinestesia;
- Subjetivismo;
- Antimaterialismo e anti-racionalismo: a razão é incapaz de explicar o espírito;
- Misticismo e religiosidade;
- Pessimismo e dor de existir - A dor leva ao prazer - Elevação de espírito;
- Desejo de transcendência, de integração cósmica;
- Interesse pelo noturno (trevas da vida material), pelo mistério e pela morte;
- Interesse pela exploração das zonas desconhecidas da mente humana (emoção e espírito) e pela loucura;
- Sinestesia: Naturalismo - Criar um ambiente real ; Simbolismo - abrir o sentido;

Influências:
- Bérgson: intuição;
- Freud: o sonho - subconsciente;
- Schopenhauer: Karma - Nirvana;
- Baudelaire: Teoria da correspondência entre os sentidos. Uso de sinestesia;
- Mallarmé: Sugestão. Quebra a letargia (preguiça mental);
- Paul Verlaire: a musicalidade;
- Verlaire: Musicalidade;
- Rimbaud: A linguagem denotativa é incapaz de captar o universo espiritual - Psicologia do ser;

O símbolo sempre existiu na Literatura, mas somente no século XIX é que seu emprego se difundiu e se tornou moda com a denominação de Simbolismo.

Restringindo-nos a um ciclo histórico mais próximo, verificamos que o Simbolismo deita raízes no Romantismo e que alguns ideais românticos, sobretudo os mais vagos, tiveram que aguardar o Simbolismo para realizar-se de forma mais ampla. Nesse sentido, o Simbolismo para realizar-se de forma mais ampla. Neste sentido, esse movimento pode ser considerado um prolongamento ou uma etapa mais avançada da concepção do mundo e dos homens inaugurada pelos românticos, transfigurando-a e levando-a às últimas conseqüências. Em suma, o Simbolismo só se compreende quando inscrito no contexto sócio-cultural decorrente da Revolução Francesa e da implantação das doutrinas romântico-liberais.

Contrariamente aos românticos, os simbolistas propuseram que "a poesia não é somente emoção, amor, mas a tomada de consciência desta emoção; que a atitude poética não é unicamente afetiva, mas ao mesmo tempo afetiva e cognitiva". Por outras palavras, a poesia carrega em si uma certa maneira de conhecer.

Na busca do "eu profundo", os Simbolistas iniciam uma viagem interior de imprevisíveis resultados, ultrapassando os níveis de razoabilidade em que, afinal de contas, se colocavam os românticos, mesmo os mais descabelados e furiosos.

Imergindo nas esferas inconscientes, acabaram por atingir os estratos mentais anteriores à fala e à lógica, tocando o universo íntimo de cada um, onde reina o caos e a anarquia, em decorrência de ali vegetar e as vivências vagas e fluídas, pré-lógicas e inefáveis, e que não se revelam ao homem comum senão por recursos indiretos como o sonho, a alucinação ou a psicanálise.

Mais do que tocar os desvãos do inconsciente, pretendiam sentí-los, examiná-los.

O problema mais difícil era o de como transportar as vivências abissais para o plano no consciente a fim de comunicá-las a outrem. Como proceder? Como exprimi-las? Como representá-las sem esvaziá-las ou destruí-las? A gramática tradicional, a sintaxe lógica, o vocabulário comum, petrificado nas várias denotações de dicionário, enfim o material lingüístico e gramatical corriqueiro eram insuficientes para comunicar os achados insólitos da sensibilidade, antes desconhecidos ou apenas inexpressivos.

Era necessário inventar uma linguagem nova, recuperando expressões consideradas obsoletas, vivificando outras cujo lastro semântico ia sofrendo desgaste ou cristalização. Essa nova linguagem estaria fundamentada numa sintaxe e gramática "psicológicas", num vocabulário adequado à comunicação de novidades estéticas, pela recorrência a neologismos, inesperadas combinações vocabulares, emprego de arcaísmos e de termos exóticos ou litúrgicos, e ainda de recursos gráficos de várias ordens (o uso de maiúsculas alegorizantes, das cores na impressão dos poemas ou partes de livros, de formas arcaicas, etc...)

Trata-se pois de uma revolução da expressão literária e, não obstante conectado com as outras artes, o Simbolismo é antes e acima de tudo Literatura e nenhuma escola foi mais literária, no sentido de "uma estética que se aproximou de pura, vacinada contra todo o contato não estético, ou que, sendo estético, atentasse contra suas prerrogativas literárias. (Massaud Moisés, "O Simbolismo", A literatura Brasileira, vol. IV, Cultrix, SP, 1973).

Características da Poesia Simbolista

Como movimento antimaterialista e anti-racionalista, o Simbolismo buscou uma linguagem que fosse capaz de sugerir a realidade, e não retratá-la objetivamente, como queriam os realistas. Para isso, faz uso de símbolos, imagens, metáforas, sinestesias, além de recursos sonoros e cromáticos, tudo com a finalidade de exprimir o mundo interior, intuitivo, antilógico e anti-racional. Podem ser encontrados esses traços em poetas e pensadores pré-Simbolistas, que acabaram por dar as origens dessa escola. São eles:

  • Charles Baudelaire: poeta francês pós-romântico e precursor do movimento simbolista, para quem a poesia é a expressão da correspondência que a linguagem é capaz de estabelecer entre o concreto e o abstrato, o material e o ideal. Coube a ele desmistificar a poesia, trazendo-a para o plano do homem já então angustiado por uma existência sem deuses ou mitos válidos. Sua poesia satânica, irreverente e cáustica, impulsionada por uma ânsia trágica de libertação e narcisamento, influenciou não só o âmbito ético-literário, mas revolucionou o próprio campo da expressão, graças à sua Teoria das Correspondências, expressa no trecho abaixo.

Como longos ecos que de longe se confundem
numa tenebrosa e profunda unidade.
Vasta como a noite e como a claridade,
os perfumes, as cores e os sons se correspondem.

A Teoria das Correspondências propõe um processo cósmico de aproximação entre as realidades físicas e as metafísicas, entre os seres, as cores, os perfumes e o pensamento ou a emoção, que se expressa através da Sinestesia, um tipo de metáfora, que consiste na transferência (ou "cruzamento") de percepção de um sentido para outro, ou seja, a fusão, num só ato de percepção, de dois sentidos ou mais. É o que ocorre em "ruído áspero" (audição e tato); "música doce" (audição e gustação); "som colorido" (audição e visão); "noite de veludo" (visão e tato).

Essas correspondências entre os campos sensorial e espiritual envolvem obrigatoriamente a sinestesia. Sinestesia é o cruzamento de campos sensoriais diferentes: por exemplo, tato e visão, como nas imagens "noite de veludo", "amarelo quente", "cinza frio".

Em termos de ideologia, o Parnasianismo e o Simbolismo são movimentos diametralmente opostos, já que aquele pregava uma poesia objetiva, racionalista, e voltada a temas universais. Apesar disso, ambos apresentam em comum uma preocupação intensa com a linguagem e certo refinamento formal. Isso talvez possa ser explicado pelo fato de ambas as tendências terem nascido juntas, na França, na revista Parnasse Contemporain, em 1866. Cruz e Souza, o principal simbolista brasileiro, apresenta influências parnasianas em alguns de seus poemas.

Características da linguagem simbolista

As características da linguagem simbolista podem ser assim esquematizadas:

Linguagem vaga, fluida, que prefere sugerir a nomear. Utilização de substantivos abstratos, efêmeros, vagos e imprecisos;

Presença abundante de metáforas, comparações, aliterações, assonâncias, paronomásias, sinestesias;

Subjetivismo e teorias que voltam-se ao mundo interior;

Antimaterialismo, anti-racionalismo em oposição ao positivismo;

Misticismo, religiosidade, valorização do espiritual para se chegar à paz interior;

Pessimismo, dor de existir;

Desejo de transcendência, de integração cósmica, deixando a matéria e libertando o espírito;

Interesse pelo noturno, pelo mistério e pela morte, assim como momentos de transição como o amanhecer e o crepúsculo;

Interesse pela exploração das zonas desconhecidas da mente humana (o inconsciente e o subconsciente) e pela loucura.

Observação: Na concepção Simbolista o louco era um ser completamente livre por não obedecer às regras. Teoricamente o poeta simbolista é o ser feliz.
 

Contexto histórico

O movimento simbolista surge no último quarto do século XIX, na França, e representa a reação artística à onda de materialismo e cientificismo que envolvia Europa desde a metade do século.

Tal qual o Romantismo, que reagiria contra o racionalismo burguês do século XVIII (o Iluminismo), o Simbolismo rejeita as soluções racionalistas, empíricas e mecânicas trazidas pela ciência da época e busca valores ou ideais de outra ordem, ignorados ou desprezados por ela: o espírito, a transcendência cósmica, o sonho, o absoluto, o nada, o bem, o belo, o sagrado dentre outros.

A origem dessa tendência espiritualista e até mística situa-se nas camadas ou grupos da sociedade que ficaram à margem do processo de avanço tecnológico e científico do capitalismo do século XIX e da solidificação da burguesia no poder. São setores da aristocracia decadente e da classe média que, não vivendo a euforia do progresso material, da mercadoria e do objeto, reagem contra ela. Propõem a volta da supremacia do sujeito sobre o objeto, rejeitando desse modo o desmedido valor dado às coisas materiais.

Assim, os simbolistas procuraram resgatar a relação do homem com o sagrado, com a liturgia e com os símbolos. Buscam o sentimento de totalidade, que se daria numa integração da poesia com a vida cósmica, como se ela, a poesia, fosse uma religião.

Sua forma de tratar a realidade é radicalmente diferente da dos realistas. Não aceitam a separação entre sujeito e objeto ou entre objetivo e subjetivo. Partem do princípio de que é impossível o retrato fiel do objeto; o papel do artista, no caso seria o de sugeri-lo, por meio de tentativas, sem querer esgotá-lo. Desses modo, a obra de arte nunca é perfeita ou acabada, mas aberta, podendo sempre ser modificada ou refeita.

Os malditos

Essa concepção da realidade e da arte trazida pelos Simbolistas suscita reações entre setores positivistas da sociedade. Chamados de malditos ou decadentes, os simbolistas ignoram a opinião pública, desprezam o prestígio social e literário, fechando-se numa quase religião da palavra e suas capacidades expressivas.

O Simbolismo - com as propostas de inovação, oposição e pesquisa trazidas pela geração de Verlaine, Rimbaud e Mallarmé - não sobrevive muito. O mundo presencia a euforia capitalista, o avanço científico e tecnológico. A burguesia vive a belle époque, um período de prosperidade, de acumulação e de prazeres materiais que só terminaria com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914.

Nesse contexto, o Simbolismo desaparece. Mas deixa ao mundo um alerta sobre o mal-estar trazido pela civilização moderna e industrializada, além de códigos literários novos, que abrirão campo para as correntes artísticas do século XX, principalmente o Expressionismo e o Surrealismo, também preocupados com a expressão e com as zonas inexploradas da mente humana, como o inconsciente e a loucura

 

 

 

 

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SIMBOLISMO FRANCÊS

AS LITANIAS DE SATÃ

Ó tu, o Anjo mais belo e o mais sábio Senhor,
Deus que a sorte traiu e privou do louvor,

Tem piedade, Satã, desta longa miséria!

Tu, que és o condenado, ó Príncipe do Exílio,
E que, vencido, sempre emerges com mais brilho,

Tem piedade, Satã, desta longa miséria!

Tu, sábio e grande rei do abismo mais profundo,
Médico familiar dos males deste mundo,

Tem piedade, Satã, desta longa miséria!

Tu, cujas graças ao leproso e ao paria cedem
Com a lição do amor o próprio gosto do Éden,

Tem piedade, Satã, desta longa miséria!

Ó tu, o que da Morte, a tua velha amante,
Engendraste a Esperança - a louca fascinante!

Tem piedade, Satã, desta longa miséria!

Tu, que dás ao proscrito a fronte soberana,
Que em torno de uma forca um povo inteiro dana,

Tem piedade, Satã, desta longa miséria!

Tu, que bem sabes onde, nas terras mais zelosas,
Cioso Deus guardou as pedras mais preciosas,

Tem piedade, Satã, desta longa miséria!

Tu, cujo olhar conhece os fundos arsenais,
Em que dorme sepulto o povo dos metais,

Tem piedade, Satã, desta longa miséria!

Ao sonâmbulo a errar à borda de edifícios,
Tu, cuja larga mão esconde os precipícios

Tem piedade, Satã, desta longa miséria!

Tu, que magicamente abranda ossos ralos,
Do ébrio retardatário a quem pisam cavalos,

Tem piedade, Satã, desta longa miséria!

Tu, que ao homem - nas mãos da desventura um títere -
Ensinaste a juntar enxofre com salitre,

Tem piedade, Satã, desta longa miséria!

Tu que impões tua marca, ó cúmplice sutil,
Sobre a fronte de Creso, que é impiedoso e vil,

Tem piedade, Satã, desta longa miséria!

Tu, que na alma e no olhar destas mulheres pões,
O culto da ferida e o amor dos farrapões,

Tem piedade, Satã, desta longa miséria!

Do exilado bastão, lâmpada do inventor,
Confessor do enforcado e do conspirador,

Tem piedade, Satã, desta longa miséria!

Pai adotivo dos que, em sua ira sombria,
Deus Pai pode expulsar do paraíso um dia,

Tem piedade, Satã, desta longa miséria!

ORAÇÃO

Charles Baudelaire

Glória e louvor a ti, Satã, nas amplidões

Do céu, em que reinaste, e nas escuridões

Do inferno, em que vencido, sonhas com prudência!

Deixa que eu, junto a ti, sob a Árvore da Ciência,

Repouse, na hora em que, sobre a fronte, hás de ver

Seus ramos como um Templo novo se estender!

CORRESPONDÊNCIAS

Charles Baudelaire.

A natureza é um templo onde vivos pilares

Deixam às vezes sair confusas palavras;

O homem aí passa através das florestas de símbolos

Que o observam com olhares familiares.

Como os longos ecos que de longe se confundem

Numa tenebrosa e profunda unidade,

Vasta como a noite e a claridade,

Os perfumes, as cores e os sons se correspondem.

Há perfumes frescos como carnes de crianças,

Doces como os oboés, verdes como as pradarias,

-E outros corrompidos, ricos e triunfantes,

Tendo a expansão das coisas infinitas,

Como o âmbar, o almíscar, o benjoim e o incenso,

Que cantam os transportes do espírito e dos sentidos.

O ALBATROZ

Às vezes, por prazer, os homens da equipagem
Pegam um albatroz, imensa ave dos mares,
Que acompanha, indolente parceiro de viagem,
O navio a singrar por glaucos patamares.

Tão logo o estendem sobre as tábuas do convés,
O monarca do azul, canhestro e envergonhado,
Deixa pender, qual par de remos junto aos pés,
As asas em que fulge um branco imaculado.

Antes tão belo, como é feio na desgraça
Esse viajante agora flácido e acanhado!
Um, com cachimbo, lhe enche o bico de fumaça,
Outro, a coxear, imita o enfermo outrora alado!

O Poeta se compara ao príncipe da altura
Que enfrenta os vendavais e ri da seta no ar;
Exilado ao chão, em meio à turba obscura,
As asas de gigante impedem-no de andar.

DANÇA MACABRA

A Ernest Christophe

Emproada como viva, orgulhosa a estatura,
Com seu grande buquê, mais as luvas e o lenço,
Possui a languidez como a desenvoltura
De uma coquete magra e de ar de sonho imenso.

Viu-se um dia num baile um porte assim delgado?
O vestido abundante e de real esplendor
Tão excessivo rui sobre um pé apertado
Por escarpim galante e lindo como flor.

Estes fofos que tem aos bordos das clavículas,
Como um lascivo arroio a ir de encontro ao rochedo,
Vedam pudicamente, e das vistas ridículas,
O fúnebre fulgor que ela guarda em segredo.

Tem o vazio e a treva a morar na pupila,
E seu crânio, de flor sabiamente toucado,
Sobre as vértebras tão molemente vacila,
- Ó fascínio do nada em loucura ataviado!

Alguns te fitarão como a caricatura.
Nunca há de compreender amante material,
O garbo singular desta humana armadura.
Tu, meu grande esqueleto, és meu único ideal.

Vens agora turbar, com feição zombeteira,
A festa desta Vida? Algo em ti deve arder
Para esporear assim tua viva caveira,
Levando-a ingenuamente ao sabá do Prazer?

Ao canto do violino, às candeias tão frias,
Esperas expulsar teu pesadelo então?
Para após suplicar à torrente de orgias
Que este inferno refresque a arder no coração?

Inesgotável poço e de culpa e defeito!
Da sempiterna dor eternal alambique!
As costelas, que são as grades de teu peito,
O insaciável réptil deixam que eu verifique.

Vivo sempre a temer que os teus airados ares
Não encontrem jamais um preço ao seu valor;
Que coração mortal te entende se zombares?
Só embriagam quem é forte os encantos do horror!

- Do fundo deste olhar, cheio de horríveis vôos,
Nasce a vertigem: e os dançarinos prudentes
Nunca irão contemplar, sem amargos enjôos,
O sorriso eternal dos seus trinta e dois dentes.

Mas quem nunca abraçou um esqueleto, em suma,
E quem não se nutriu de ares de campo santo?
O que importa o que veste, orna, pinta ou perfuma?
Como posso pensar que te olhem com espanto?

Cortesã sem nariz, baiadeira patética,
Dizes a estes que a dançar te miram ofuscados:
- “Casquilhos, apesar de toda a arte cosmética
Cheirais a Morte, ó Esqueletos perfumados!

Mirrados Antinoés, dândis de face glabra,
Defuntos de verniz, D. Joãos encanecidos,
O abalo universal desta dança macabra
Vos atrai a outros sóis sempre desconhecidos!

Do cais frio do Sena ao do Ganges inquieto,
Salta e desmaia agora o rebanho mortal
Ignorando a trombeta do anjo que, do teto,
Soa, sinistra e aberta, um trabuco fatal.

E sob todos os céus sempre a Morte te admira
Em tuas contorções, atroz humanidade,
E às vezes como tu, perfumada de mirra,
Sua ironia junta à tua insanidade”.

O VAMPIRO

Tu que, como uma punhalada,
Em meu coração penetraste
Tu que, qual furiosa manada
De demônios, ardente, ousaste,

De meu espírito humilhado,
Fazer teu leito e possessão
- Infame à qual estou atado
Como o galé ao seu grilhão,

Como ao baralho ao jogador,
Como à carniça o parasita,
Como à garrafa o bebedor
- Maldita sejas tu, maldita!

Supliquei ao gládio veloz
Que a liberdade me alcançasse,
E ao vento, pérfido algoz,
Que a covardia me amparasse.

Ai de mim! Com mofa e desdém,
Ambos me disseram então:
"Digno não és de que ninguém
Jamais te arranque à escravidão,

Imbecil! - se de teu retiro
Te libertássemos um dia,
Teu beijo ressuscitaria
O cadáver de teu vampiro!"

A ALMA DO VINHO

Cantava a alma do vinho à tarde nas botelhas:
"Homem, eu ergo a ti, que és deserdado e triste,
De minha prisão vítrea e de ceras vermelhas,
Um canto fraternal que só de luz consiste!

Sei de quanto precisa a colina acendida
De amargura, de suor e do sol mais ardente
Para que esta alma seja e que eu palpite em vida;
Mas eu nunca serei ingrato ou inclemente,

Sempre sinto prazer imenso quando desço
Uma garganta humana usada de refregas,
Sempre um cálido peito é um sepulcro sem preço
Em que eu vivo melhor que nas frias adegas.

Ouves dominicais refrões bem como a Graça
Da esperança que vibra em meu seio fremente?
Apóia as mãos à mesa, as mangas arregaça,
Glorifica-me após e serás mais contente.

Acenderei o olhar de tua bem-querida;
Ao teu filho darei os músculos e as cores,
Serei para este fraco atleta desta vida
Óleo a robustecer bíceps de lutadores.

Eu tombarei em ti, vegetal ambrósia,
Precioso grão que atira o eterno Semeador,
Para que nosso amor desemprenhe a Poesia,
Brotando para Deus como uma rara flor!"

VOGAIS Artur Rimbaud

A negro, E branco, I rubro, U verde, O azul, vogais,

Ainda desvendarei seus mistérios latentes:

A, velado voar de moscas reluzentes

Que zumbem ao redor dos acres lodaçais;

E, nívea candidez de tendas e areais,

Lanças de gelo, reis brancos, flores trementes;

I, escarro carmim, rubis a rir nos dentes

Da ira ou da ilusão em tristes bacanais;

U, curvas, vibrações verdes de oceanos,

Paz de verduras, paz dos pastos, paz dos anos

Que as rugas vão urdindo entre brumas e escolhos;

O, supremo Clamor cheio de estranhos versos,

Silêncios assombrados de anjos e universos;

-Ó! Ômega, o sol violeta dos Seus olhos!

(trad. de Augusto de Campos)

Canção da Torre Mais Alta

 

Ociosa juventude

De tudo pervertida

Por minha virtude

Eu perdi a vida.

Ah! Que venha a hora

Que as almas enamora.

 

Eu disse a mim: cessa,

Que eu não te veja:

Nenhuma promessa

De rara beleza.

E vá sem martírio

Ao doce exílio.

 

Foi tão longa a espera

Que eu não olvido.

O terror, fera,

Aos céus dedico.

E uma sede estranha

Corrói-me as entranhas.

 

Assim os Prados

Vastos, floridos

De mirra e nardo

Vão esquecidos

Na viagem tosca

De cem feias moscas.

 

Ah! A viuvagem

Sem quem as ame

Só têm a imagem

Da Notre-Dame!

Será a prece pia

À Virgem Maria?

 

Ociosa juventude

De tudo pervertida

Por minha virtude

Eu perdi a vida.

Ah! Que venha a hora

Que as almas enamora!

No Cabaré-Verde
às cinco horas da tarde

 

Depois de oito dias, larguei as botinas

Pelo caminho. Eu entrei em Charleroi.

— No Cabaré-Verde: pedi torradas finas,

Manteiga e presunto, que é frio o lugar.

 

Feliz, estiquei as pernas sob a mesa

Verde: e contemplei os toscos motivos

Da tapeçaria. — E foi uma beleza

Quando a vi, enormes tetas, olhos vivos,

 

É ela! Não é um beijo que a apavora!

Risonha, trouxe a refeição na hora,

O presunto tostado, num belo prato,

 

O presunto róseo e branco perfumado

Pelo alho — e encheu-me o copo ávido

De espuma brilhante como um raio de sol.

 

 

Outubro de 1870

Minha Boemia
(fantasia)

 

Eu caminhava, as mãos soltas nos bolsos gastos;

O meu paletó não era bem o ideal;

Ia sob o céu, Musa! Teu amante leal;

Ah! E sonhava mil amores insensatos

 

Minha única calça tinha um largo furo.

Pequeno Polegar, eu tecia no percurso

Um rosário de rimas. A Grande Ursa,

O meu albergue, brilhava no céu escuro.

 

Sentado na sargeta, só, eu a ouvia

Nessa noite de setembro em que sentia

O odor das rosas, que vinho vigoroso!

 

Ali, entre inúmeros ombros fantásticos,

Rimava com a débil lira dos elásticos

De meus sapatos, e o coração doloroso!

(traduções de Rimbaud por Claudio Daniel).

A ANGÚSTIA – Paul Verlaine

Nada em ti me comove, Natureza, nem

Faustos das madrugadas, nem campos fecundos,

Nem pastorais do Sul, com o seu eco tão rubro,

A solene dolência dos poentes, alem.

Eu rio-me da Arte, do Homem, das canções,

Da poesia, dos templos e das espirais

Lançados para o céu vazio pelas catedrais.

Vejo com os mesmos olhos os maus e os bons.

Não creio em Deus, abjuro e renego qualquer

Pensamento, e nem posso ouvir sequer falar

Dessa velha ironia a que chamam Amor.

Já farta de existir com medo de morrer,

Como um brigue perdido entre as ondas do mar,

A minha alma persegue um naufrágio maior.

Arte poética

 

A Charles Morice

 

Antes de qualquer coisa, música

e, para isso, prefere o Ímpar

mais vago e mais solúvel no ar,

sem nada que pese ou que pouse.

E preciso também que não vás nunca

escolher tuas palavras em ambigüidade:

nada mais caro que a canção cinzenta

onde o Indeciso se junta ao Preciso.

São belos olhos atrás dos véus,

é o grande dia trêmulo de meio-dia,

é, através do céu morno de outono,

o azul desordenado das claras estrelas!

Porque nós ainda queremos o Matiz,

nada de Cor, nada a não ser o matiz!

Oh! O matiz único que liga

o sonho ao sonho e a flauta à trompa.

Foge para longe da Piada assassina,

do Espírito cruel e do Riso impuro

que fazem chorar os olhos do Azul

e todo esse alho de baixa cozinha!

Toma a eloqüência e torce-lhe o pescoço!

Tu farás bem, já que começaste,

em tornar a rima um pouco razoável.

Se não a vigiarmos, até onde ela irá?

Oh! Quem dirá os malefícios da Rima?

Que criança surda ou que negro louco

nos forjou esta jóia barata

que soa oca e falsa sob a lima?

Ainda e sempre, música!

Que teu verso seja um bom acontecimento

esparso no vento crispado da manhã

que vai florindo a hortelã e o timo...

E tudo o mais é só literatura.

 

De Verlaine para Arthur Rimbaud

Mortal, anjo e demônio, ou melhor, Rimbaud,
Teu lugar no meu livro é o primeiro, como um prêmio;
Tu que um bobo escritor um dia esculhambou
Achando-te um debochado imberbe, um verme, boêmio.

As espirais de incenso e os acordes do alaúde,
Saúdam tua chegada ao templo da memória,
Onde teu nome esplêndido soará em glória,
Pois me amavas, se preciso, até a plenitude.

Serás para as mulheres, sempre, belo e forte,
De uma beleza assim, agreste e sedutora,
Tão cobiçada quanto desvanecedora!

E a história te erguerá triunfante da morte,
P'ra que, apesar de toda a lama, o mundo veja
Teus pés intactos sobre a cabeça da Inveja!

Tradução de José Machado Sobrinho.

 

PEQUENA ÁRIAMallarmé

Alguém uma solitude

Sem o cisne e sem o cais

Mira sua dessuetude

No olhar que já não é mais

Aqui onde a glória finge

Alta que ninguém a tange

Da qual muito céu se tinge

Nos ouros que o sono abrange

Mas languidamente linda

Como livre de alva anágua

Vôo fugaz de ave na água

Exultadora deslinda

Na onda em que te insinua

Tua jubilação nua.

BRINDE - Stéphane Mallarmé.

Nada, esta espuma, virgem verso

A não designar mais que a copa;

Ao longe se afoga uma tropa

De sereias vária ao inverso.

Navegamos, ó meus fraternos

Amigos, eu já sobre a popa

Vós a proa em pompa que topa

A onda de raios e de invernos;

Uma embriaguez me faz arauto,

Sem medo ao jogo do mar alto,

Para erguer, de pé, este brinde

Solitude, recife, estrela

A não importa o que há no fim de

Um branco afã de nossa vela.

UN COUP DE DÉS JAMAIS N'ABOLIRA LE HASARD (fragmento, página dupla 8)

 

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Alceu Wamosy

(Uruguaiana RS, 1895 - Livramento, atual Santana do Livramento RS, 1923)

Publicou seu primeiro livro de poesia, Flâmulas, em 1913. Na época já trabalhava como colaborador no jornal A Cidade, fundado por seu pai, em Alegrete, RS. A partir de 1917 tornou-se proprietário do jornal O Republicano, apoiando o Partido Republicano. Continuou colaborando para diversos periódicos, como os jornais A Notícia, A Federação, O Diário e a revista A Máscara. Publicou as obras poéticas Na Terra Virgem (1914) e Coroa de Sonho (1923). Postumamente foram publicados Poesias Completas (1925) e Poesia Completa (1994). Poeta simbolista, Alceu Wamosy escreveu poemas cheios de desencanto, em uma produção que se destacou no sul do país e é uma das mais significativas do Simbolismo brasileiro.

Cítara

Firo-te as cordas, cítara dormente,

Velha cítara poenta, abandonada,

Que um régio artista fez vibrar, pulsada

Pela divina mão, antigamente.

E assim, por um instante despertada,

Na mesma vibração profunda e ardente

De outrora freme, cítara dolente,

Toda a tua alma, trêmula, acordada.

Nessa maviosa música embebido,

Escuto as notas, múrmuras, chegando

Como um coro celeste, ao meu ouvido.

E eu julgo, então, sentir, no derradeiro,

No último som que morre, a alma, chorando,

Desse que as cordas te tangeu primeiro...

Duas Almas

A Coelho da Costa

Ó tu, que vens de longe, ó tu, que vens cansada,
entra, e, sob este teto encontrarás carinho:
Eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho,
vives sozinha sempre, e nunca foste amada...

A neve anda a branquear, lividamente, a estrada,
e a minha alcova tem a tepidez de um ninho.
Entra, ao menos até que as curvas do caminho
se banhem no esplendor nascente da alvorada.

E amanhã, quando a luz do sol dourar, radiosa,
essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua,
podes partir de novo, ó nômade formosa!

Já não serei tão só, nem irás tão sozinha:
Há de ficar comigo uma saudade tua...
Hás de levar contigo uma saudade minha...

Eterna Tarde

A tarde vai morrer, calma como uma santa,
num êxtase de luz infinito e divino.
Há nas luzes do céu qualquer coisa que canta,
com músicas de cor, a tristeza de um hino.

Tudo, em torno de nós, se esbate e se quebranta.
Em nossos corações, como um dobre de sino,
e esperança agoniza; e a alma, triste, levanta
suas trêmulas mãos para o altar do destino.

Não é somente a tarde, a eterna moribunda,
que vai morrer, e espalha esta mágoa profunda
no nosso olhar, nas nossas mãos, na nossa voz...

É uma outra tarde — que nunca há de ser aurora
como a do céu será amanhã — que morre agora,
triste, dentro de nós...

Noturno

Tu pensarás em mim, por esta noite imensa
e erma, em que tudo é um frio e um silêncio profundo?
Tu pensarás em mim? Por esta noite, enfermo,
tendo os olhos em febre e a voz cheia de sustos,
eu penso em ti, no teu amor e na promessa
muda que o teu olhar me fez e que eu espero.

(Que dor de não saber se tu pensas em mim!)

Sob a tenda da noite estrelada de outono,
que eu contemplo através os cristais da janela,
junto ao manso tepor da lâmpada que escuta
— antiga confidente — os meus sonhos e as minhas
vigílias de tormento, eu penso em ti, divina.

(E tu talvez nem te recordes deste ausente!)

Penso em ti. Penso e evoco o teu vulto adorado.
Penso nas tuas mãos — um lis de cinco pétalas —
que, em vez de sangue, têm luar dentro das veias;
nos teus olhos, que são Noturnos de Chopin
agonizando à luz de uma tarde de sonho;
na tua voz, que lembra um beijo que se esfolha.
Penso.

(E nem sei se tu também pensas em mim!)

Talvez não. No tranquilo altar da tua alcova,
onde se extingue a luz de um velho candelabro
como uma lâmpada votiva, tu adormeces
sorrindo ao Anjo fiel que as tuas pálpebras fecha
para que tu não tenhas sonhos maus.

E eu penso
em ti, sem sono, a sós, angustiado e febril,
em ti, que nem eu sei se te lembras de mim...

Claude Debussy

Maintenant tout est gris sur lande nocturne...
F. Viellé-Griffin.


Chove cinza do céu. Todo o rosal ajoelha,
balbuciando uma suave oração de perfume.
Não há, no firmamento, uma sombra vermelha:
— Tudo é ausente de cor — tudo é viúvo de lume.

A tristeza do instante em teus olhos se espelha,
minha estranha Quimera, ó sacrossanto Nume,
que acendeste em meu sonho a radiosa centelha
na qual todo o esplendor deste amor se resume...

Sob a chuva do espaço o jardim adormece.
E, sobre nós os dois, como um mistério, desce
a carícia da tarde, essa divina viúva.

Andam lábios errando, invisíveis, no ambiente;
e, morrendo de amor, dentro da luz morrente,
os nossos corações são Jardins sob a Chuva.

Diverso Amor

Não quero o teu amor! O teu amor parece
Que feito deve ser de magnólias e luares!
Amor espiritual, casto como uma prece,
De uma pureza ideal de alvas toalhas de altares!

E o meu amor, mulher, é um amor que estremece
De desejos fatais, vagos, crepusculares...
Amor, ânsia de posse! Amor que vibra e cresce,
Ardente como o fogo e fundo como os mares!

Tu virás para mim, deslumbrada e inocente,
Com teu beijo primeiro a fremir castamente!
Nos teus lábios de flor, virgens de todo mal...

E há de fugir, ó luz, de ambas as nossas bocas
Palpitantes, febris, desvairadas e loucas,
Um arrulho de pomba e um uivo de chacal...

O Grande Sonho

... e eu sonho que hás de vir. Sonho que um dia
mais ardente e mais bela do que eras,
virás encher de graça e de harmonia
meu jardim de tristíssimas quimeras.

Sonho que hás de trazer toda a alegria,
todo o encanto das tuas primaveras,
ou que em um reino antigo de poesia,
o meu amor, entre rosais, esperas.

E fico na ilusão de que tu vieste
E nesse sonho de ouro mergulhado,
o teu vulto alvoral surgindo vejo
sobre as próprias feridas que fizeste...

E fico na ilusão de que tu vieste
o bálsamo estendendo do teu beijo,
sobre as próprias feridas que fizeste...

Sonho Humilde

Assim te quero amar; quero adorar-te assim,
sempre de joelhos, sempre, ó mármore sagrado;
e que teu corpo ideal não seja, para mim,
mais que um horto de sonho, ou que um jardim fechado.

Em todo amor defeso há um encanto sem fim,
que o faz extreme e leal, lúcido e iluminado:
A mulher que se adora é a Torre de Marfim,
mais alta do que o mal, para além do pecado.

O amor deve viver perpetuado no sonho!
Só desejar é bom: Possuir é renunciar
à ilusão, que nos torna o desejo risonho.

Ter só teu corpo é ter um tesouro maldito;
mas, possuir-te na alma e adorar-te no olhar,
é ter o céu inteiro, é ter todo o infinito!

(Apostila 1 de Simbolismo - Literatura Brasileira)

 

 

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ALPHONSUS GUIMARAENS

Ossa Mea

II

Mãos de finada, aquelas mãos de neve,

De tons marfíneos, de ossatura rica,

Pairando no ar, num gesto brando e leve,

Que parece ordenar mas que suplica.

Erguem-se ao longe como se as eleve

Alguém que ante os altares sacrifica:

Mãos que consagram, mãos que partem breve,

Mas cuja sombra nos meus olhos fica...

Mãos de esperança para as almas loucas,

Brumosas mãos que vêm brancas, distantes,

Fechar ao mesmo tempo tantas bocas...

Sinto-as agora, ao luar, descendo juntas,

Grandes, magoadas, pálidas, tateantes,

Cerrando os olhos das visões defuntas...

Pulchra Ut Luna

II

Celeste... É assim, divina, que te chamas.

Belo nome tu tens, Dona Celeste...

Que outro terias entre humanas damas,

Tu que embora na terra do céu vieste?

Celeste... E como tu és do céu não amas:

Forma imortal que o espírito reveste

De luz, não temes sol, não temes chamas,

Porque és sol, porque és luar, sendo celeste.

Incoercível como a melancolia,

Andas em tudo: o sol no poente vasto

Pede-te a mágoa do findar do dia.

E a lua, em meio à noite constelada,

Pede-te o luar indefinido e casto

Da tua palidez de hóstia sagrada.

Árias e Canções

II

A suave castelã das horas mortas

Assoma à torre do castelo. As portas,

Que o rubro ocaso em onda ensangüentara,

Brilham do luar à luz celeste e clara.

Como em órbitas de fatias caveiras

Olhos que fossem de defuntas freiras,

Os astros morrem pelo céu pressago...

São como círios a tombar num lago.

E o céu, diante de mim, todo escurece...

E eu que nem sei de cor uma só prece!

Pobre alma, que me queres, que me queres?

São assim todas, todas as mulheres.

Terceira Dor

VI

É Sião que dorme ao luar. Vozes diletas

Modulam salmos de visões contritas...

E a sombra sacrossanta dos Profetas

Melancoliza o canto dos levitas.

As torres brancas, terminando em setas,

Onde velam, nas noites infinitas,

Mil guerreiros sombrios como ascetas,

Erguem ao Céu as cúpulas benditas.

As virgens de Israel as negras comas

Aromalizam com os ungüentos brancos

Dos nigromantes de mortais aromas...

Jerusalém, em meio às Doze Portas,

Dorme: e o luar que lhe vem beijar os flancos

Evoca ruínas de cidades mortas.

A Catedral

Entre brumas ao longe surge a aurora,

O hialino orvalho aos poucos se evapora,

Agoniza o arrebol.

A catedral eburnea do meu sonho

Aparece na paz do ceu risonho

Toda branca de sol.

E o sino canta em lugebres responsos:

"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

O astro glorioso segue a eterna estrada.

Uma aurea seta lhe cintila em cada

Refulgente raio de luz.

A catedral eburnea do meu sonho,

Onde os meus olhos tao cansados ponho,

Recebe a bencao de Jesus.

E o sino clama em lugebres responsos:

"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

Por entre lirios e lilases desce

A tarde esquiva: amargurada prece

Poe-se a luz a rezar.

A catedral eburnea do meu sonho

Aparece na paz do ceu tristonho

Toda branca de luar.

E o sino chora em lugebres responsos:

"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

O ceu e todo trevas: o vento uiva.

Do relampago a cabeleira ruiva

Vem acoitar o rosto meu.

A catedral eburnea do meu sonho

Afunda-se no caos do ceu medonho

Como um astro que ja morreu.

E o sino chora em lugebres responsos:

"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

Ismália

Quando Ismália enlouqueceu,

Pôs-se na torre a sonhar...

Viu uma lua no céu,

Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,

Banhou-se toda em luar...

Queria subir ao céu,

Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,

Na torre pôs-se a cantar...

Estava longe do céu...

Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu

As asas para voar. . .

Queria a lua do céu,

Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu

Ruflaram de par em par...

Sua alma, subiu ao céu,

Seu corpo desceu ao mar...

Hão de Chorar por Ela os Cinamomos...

Hão de chorar por ela os cinamomos,

Murchando as flores ao tombar do dia.

Dos laranjais hão de cair os pomos,

Lembrando-se daquela que os colhia.

As estrelas dirão — "Ai! nada somos,

Pois ela se morreu silente e fria.. . "

E pondo os olhos nela como pomos,

Hão de chorar a irmã que lhes sorria.

A lua, que lhe foi mãe carinhosa,

Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la

Entre lírios e pétalas de rosa.

Os meus sonhos de amor serão defuntos...

E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,

Pensando em mim: — "Por que não vieram juntos?"

A Cláudio Manuel da Costa

Às margens destas águas silenciosas

Quantas vezes berçaste a alma dorida,

Esfolhando por elas, como rosas,

As suaves ilusões da vida!

Vias o doce olhar das amorosas

Refletido na linfa entristecida,

E, ao pôr-do-sol das vésperas lutuosas,

Erguer-se o vulto da mulher querida...

Se é tão dolente o Ribeirão do Carmo,

Onde com as mãos proféticas armaste

Os castelos de amor que ora desarmo!

O teu sonho deixaste-o nestas águas...

E hoje, revendo tudo que sonhaste,

Por elas também deixo minhas mágoas.

(Apostila 2 de Simbolismo - Literatura Brasileira)

 

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CRUZ E SOUSA - poesia

CRISTAIS
Mais claro e fino do que as finas pratas
O som da tua voz deliciava...
Na dolência velada das sonatas
Como um perfume a tudo perfumava.

Era um som feito luz, eram volatas
Em lânguida espiral que iluminava,
Brancas sonoridades de cascatas...
Tanta harmonia melancolizava.

Filtros sutis de melodias, de ondas
De cantos volutuosos como rondas
De silfos leves, sensuais, lascivos...

Como que anseios invisíveis, mudos,
Da brancura das sedas e veludos,

virgindades, dos pudores vivos.

Das SINFONIAS DO OCASO
Musselinosas como brumas diurnas
Descem do acaso as sombras harmoniosas,
Sombras veladas e musselinosas
Para as profundas solidões noturnas.

Sacrários virgens, sacrossantas urnas,
Os céus resplendem de sidéreas rosas,
Da lua e das Estrelas majestosas
Iluminando a escuridão das furnas.

Ah! por estes sinfônicos ocasos
A terra exala aromas de áureos vasos,
Incensos de turíbulos divinos.

Os plenilúnios mórbidos vaporam...
E como que no Azul plangem e choram
Cítaras, harpas, bandolins, violinos...

MUSICA MISTERIOSA...
Tenda de Estrelas níveas, refulgentes,
Que abris a doce luz de alampadários,
As harmonias dos Estradivarius
Erram da Lua nos clarões dormentes...

Pelos raios fluídicos, diluentes
Dos Astros, pelos trêmulos velários,
Cantam Sonhos de místicos templários,
De ermitões e de ascetas reverentes...

Cânticos vagos, infinitos, aéreos
Fluir parecem dos Azuis etéreos,
Dentre os nevoeiros do luar fluindo...

E vai, de Estrela a Estrela, a luz da Lua,
Na láctea claridade que flutua,
A surdina das lágrimas subindo...

ACROBATA DA DOR
Gargalha, ri, num riso de tormenta,
Como um palhaço, que desengonçado,
Nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
De uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
Agita os guizos, e convulsionado
Salta, gavroche, salta clown, varado
Pelo estertor dessa agonia lenta...

Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
Nessas macabras piruetas d'aço...

E embora caias sobre o chão, fremente,
Afogado em teu sangue estuoso e quente
Ri! Coração, tristíssimo palhaço.

SONATA
I
Do imenso Mar maravilhoso, amargos,
Marulhosos murmurem compungentes
Cânticos virgens de emoçÓes latentes,
Do sol nos mornos, mórbidos letargos...
II
Canções, leves canções de gondoleiros,
Canções do Amor, nostálgicas baladas,
Cantai com o Mar, com as ondas esverdeadas,
De lânguidos e trêmulos nevoeiros!
III
Tritões marinhos, belos deuses rudes,
Divindades dos tártaros abismos,
Vibrai, com os verdes e acres eletrismos
Das vagas, flautas e harpas e alaúdes!
IV
O Mar supremo, de flagrância crua,
De pomposas e de ásperas realezas,
Cantai, cantai os tédios e as tristezas
Que erram nas frias solidões da Lua...

ANTÍFONA
Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
De luares, de neves, de neblinas!...
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...
Incensos dos turíbulos das aras...

Formas do Amor, constelarmente puras,
De Virgens e de Santas vaporosas...
Brilhos errantes, mádidas frescuras
E dolências de lírios e de rosas...

Indefiníveis músicas supremas,
Harmonias da Cor e do Perfume...
Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,
Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume...

Visões, salmos e cânticos serenos,
Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes...
Dormências de volúpicos venenos
Sutis e suaves, mórbidos, radiantes...

Infinitos espíritos dispersos,
Inefáveis, edênicos, aéreos,
Fecundai o Mistério destes versos
Com a chama ideal de todos os mistérios.

Do Sonho as mais azuis diafaneidades
Que fuljam, que na Estrofe se levantem
E as emoções, sodas as castidades
Da alma do Verso, pelos versos cantem.

Que o pólen de ouro dos mais finos astros
Fecunde e inflame a rime clara e ardente...
Que brilhe a correção dos alabastros
Sonoramente, luminosamente.

Forças originais, essência, graça
De carnes de mulher, delicadezas...
Todo esse eflúvio que por ondas passe
Do Éter nas róseas e áureas correntezas...

Cristais diluídos de clarões alacres,
Desejos, vibrações, ânsias, alentos,
Fulvas vitórias, triunfamentos acres,
Os mais estranhos estremecimentos...

Flores negras do tédio e flores vagas
De amores vãos, tantálicos, doentios...
Fundas vermelhidões de velhas chagas
Em sangue, abertas, escorrendo em rios.....

Tudo! vivo e nervoso e quente e forte,
Nos turbilhões quiméricos do Sonho,
Passe, cantando, ante o perfil medonho
E o tropel cabalístico da Morte...

SATÃ
Capro e revel, com os fabulosos cornos
Na fronte real de rei dos reis vetustos,
Com bizarros e lúbricos contornos,
Ei-lo Satã dentre os Satãs augustos.

Por verdes e por báquicos adornos
Vai c'roado de pâmpanos venustos
O deus pagão dos Vinhos acres, mornos,
Deus triunfador dos triunfadores justos.

Arcangélico e audaz, nos sóis radiantes,
A púrpura das glórias flamejantes,
Alarga as asas de relevos bravos...

O Sonho agita-lhe a imortal cabeça...
E solta aos sóis e estranha e ondeada e espessa
Canta-lhe a juba dos cabelos flavos!

LUA
Clâmides frescas, de brancuras frias,
Finíssimas dalmáticas de neve
Vestem as longas arvores sombrias,
Surgindo a Lua nebulosa e leve...

Névoas e névoas frígidas ondulam...
Alagam lácteos e fulgentes rios
Que na enluarada refração tremulam
Dentre fosforescências, calafrios...

E ondulam névoas, cetinosas rendas
De virginais, de prônubas alvuras...
Vagam baladas e visões e lendas
No flórido noivado das Alturas...

E fria, fluente, frouxa claridade
Flutua como as brumas de um letargo...
E erra no espaço, em toda a imensidade,
Um sonho doente, cilicioso, amargo...

Da vastidão dos páramos serenos,
Das siderais abóbadas cerúleas
Cai a luz em antífonas, em trenos,
Em misticismos, orações e dúlias...

E entre os marfins e as pratas diluídas
Dos lânguidos clarões tristes e enfermos,
Com grinaldas de roxas margaridas
Vagam as Virgens de cismares ermos...

Cabelos torrenciais e dolorosos
Bóiam nas ondas dos etéreos gelos.
E os corpos passam níveos, luminosos,
Nas ondas do luar e dos cabelos...

Vagam sombras gentis de mortas, vagam
Em grandes procissões, em grandes alas,
Dentre as auréolas, os clarões que alagam,
Opulências de pérolas e opalas

E a Lua vai clorótica fulgindo
Nos seus alperces etereais e brancos,
A luz gelada e pálida diluindo
Das serranias pelos largos flancos...

Ó Lua das magnólias e dos lírios!
Geleira sideral entre as geleiras!
Tens a tristeza mórbida dos círios
E a lividez da chama das poncheiras!

Quando ressurges, quando brilhas e amas,
Quando de luzes a amplidão constelas,
Com os fulgores glaciais que tu derramas
Das febre e frio, dás nevrose, gelas...

A tua dor cristalizou-se outrora
Na dor profunda mais dilacerada
E das cores estranhas, ó Astro, agora,
És a suprema Dor cristalizada!...

VIOLÕES QUE CHORAM...

Ah! plangentes violões dormentes, mornos,

Soluços ao luar, choros ao vento...

Tristes perfis, os mais vagos contornos,

Bocas murmurejantes de lamento.

Noites de além, remotas, que eu recordo,

Noites da solidão, noites remotas

Que nos azuis da Fantasia bordo,

Vou constelando de visões ignotas.

Sutis palpitações à luz da lua,

Anseio dos momentos mais saudosos,

Quando lá choram na deserta rua

As cordas vivas dos violões chorosos.

Quando os sons dos violões vão soluçando,

Quando os sons dos violões nas cordas gemem,

E vão dilacerando e deliciando,

Rasgando as almas que nas sombras tremem.

Harmonias que pungem, que laceram,

Dedos nervosos e ágeis que percorrem

Cordas e um mundo de dolências geram

Gemidos, prantos, que no espaço morrem...

E sons soturnos, suspiradas mágoas,

Mágoas amargas e melancolias,

No sussurro monótono das águas,

Noturnamente, entre ramagens frias.

Vozes veladas, veludosas vozes,

Volúpias dos violões, vozes veladas,

Vagam nos velhos vórtices velozes

Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.

Tudo nas cordas dos violões ecoa

E vibra e se contorce no ar, convulso...

Tudo na noite, tudo clama e voa

Sob a febril agitação de um pulso.

Que esses violões nevoentos e tristonhos

São ilhas de degredo atroz, funéreo,

Para onde vão, fatigadas do sonho,

Almas que se abismaram no mistério.

Sons perdidos, nostálgicos, secretos,

Finas, diluídas, vaporosas brumas,

Longo desolamento dos inquietos

Navios a vagar à flor de espumas.

Oh! languidez, languidez infinita,

Nebulosas de sons e de queixumes,

Vibrado coração de ânsia esquisita

E de gritos felinos de ciúmes!

Que encantos acres nos vadios rotos

Quando em toscos violões, por lentas horas

Vibram, com a graça virgem dos garotos,

Um concerto de lágrimas sonoras!

Quando uma voz, em trêmulos, incerta,

Palpitando no espaço, ondula, ondeia,

E o canto sobe para a flor deserta,

Soturna e singular da lua cheia.

Quando as estrelas mágicas florescem,

E no silêncio astral da Imensidade

Por lagos encantados adormecem

As pálidas ninféias da Saudade!

Como me embala toda essa pungência,

Essas lacerações como me embalam,

Como abrem asas brancas de clemência

As harmonias dos violões que falam!

Que graça ideal, amargamente triste,

Nos lânguidos bordões plangendo passa.

Quanta melancolia de anjo existe

Nas visões melodiosas dessa graça...

Que céu, que inferno, que profundo inferno,

Que ouros, que azuis, que lágrimas, que risos,

Quanto magoado sentimento eterno

Nesses ritmos trêmulos e indecisos...

Que anelos sexuais de monjas belas

Nas ciliciadas carnes tentadoras,

Vagando no recôndito das celas,

Por entre as ânsias dilaceradoras...

Quanta plebéia castidade obscura

Vegetando e morrendo sobre a lama,

Proliferando sobre a lama impura,

Como em perpétuos turbilhões de chama.

Que procissão sinistra de caveiras,

De espetros, pelas sombras mortas, mudas...

Que montanhas de dor, que cordilheiras

De agonias aspérrimas e agudas.

Véus neblinosos, longos, véus de viúvas

Enclausuradas nos ferais desterros,

Errando aos sóis, aos vendavais e às chuvas,

Sob abóbadas lúgubres de enterros:

Velhinhas quedas e velhinhos quedos,

Cegas, cegos, velhinhas e velhinhos,

Sepulcros vivos de senis segredos,

Eternamente a caminhar sozinhos;

E na expressão de quem se vai sorrindo,

Com as mãos bem juntas e com os pés bem juntos

E um lenço preto o queixo comprimindo,

Passam todos os lívidos defuntos...

E como que há histéricos espasmos

Na mão que esses violões agita, largos...

E o som sombrio é feito de sarcasmos

E de sonambulismos e letargos.

Fantasmas de galés de anos profundos

Na prisão celular atormentados,

Sentindo nos violões os velhos mundos

Da lembrança fiel de áureos passados;

Meigos perfis de tísicos dolentes

Que eu vi dentre os violões errar gemendo,

Prostituídos de outrora, nas serpentes

Dos vícios infernais desfalecendo;

Tipos intensos, esgrouviados, tortos,

Das luas tardas sob o beijo níveo,

Para os enterros dos seus sonhos mortos

Nas queixas dos violões buscando alívio;

Corpos frágeis, quebrados, doloridos,

Frouxos, dormentes, adormidos, langues,

Na degenerescência dos vencidos

De toda a geração, todos os sangues;

Marinheiros que o mar tornou mais fortes,

Como que feitos de um poder extremo

Para vencer a convulsão das mortes,

Dos temporais o temporal supremo;

Veteranos de todas as campanhas,

Enrugados por fundas cicatrizes,

Procuram nos violões horas estranhas,

Vagos aromas, cândidos, felizes.

Ébrios antigos, vagabundos velhos,

Torvos despojos da miséria humana,

Têm nos violões secretos Evangelhos,

Toda a Bíblia fatal da dor insana.

Enxovalhados, tábidos palhaços

De carapuças, máscaras e gestos

Lentos e lassos, lúbricos, devassos,

Lembrando a florescência dos incestos;

Todas as ironias suspirantes

Que ondulam no ridículo das vidas,

Caricaturas tétricas e errantes

Dos malditos, dos réus, dos suicidas;

Toda essa labiríntica nevrose

Das virgens nos românticos enleios,

Os ocasos do Amor, toda a clorose

Que ocultamente lhes lacera os seios;

Toda a mórbida música plebéia

De requebros de fauno e ondas lascivas;

A langue, mole e morna melopéia

Das valsas alanceadas, convulsivas;

Tudo isso, num grotesco desconforme,

Em ais de dor, em contorções de açoites,

Revive nos violões, acorda e dorme

Através do luar das meias-noites!

(Apostila 3 de Simbolismo - Literatura Brasileira)

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DA COSTA E SILVA

Antônio Francisco da Costa e Silva

(Amarante PI 1885 - Rio de Janeiro RJ 1950)

Começou a compor versos por volta de 1896, para procissões em Amarante (ainda cantados, com modificações, nas festas religiosas do Piauí). Em 1901 foram publicados seus primeiros poemas na Revista do Grêmio Literário Amarantino. Seu primeiro livro de poesia, Sangue, foi lançado em 1909. Nas décadas seguintes exerceu vários cargos como funcionário do Tesouro Nacional e colaborou nos periódicos Diário de Minas, Estado do Amazonas, Ilustração Brasileira e O Malho. Em 1927 ocorreu a publicação do livro Verônica, escrito sob o impacto da perda de sua mulher, Alice, em 1919. Em 1931 foi afastado do Tesouro Nacional; dois anos depois, foi indicado como candidato à Assembléia Nacional Constituinte pelo Partido Republicano Liberal do Piauí, mas não disputou eleições. Entre 1931 e 1945 esteve à disposição da Presidência da República, a pedido de Getúlio Vargas. Sua obra poética inclui os livros Zodíaco (1917), Pandora (1919), Antologia (1934) e os póstumos Poesias Completas (1950) e Saudades (1956). Da Costa e Silva foi poeta simbolista; segundo Alberto da Costa e Silva, seus poemas apresentam "fluente e rica musicalidade de uma linguagem em que existe exata correspondência entre som e sentido e em que cada palavra possui um preciso valor no cantar do verso.".

Lady Macbeth

Não na posso entender, senhora, amante ou serva:

Amo-a; não sei dizer se ama, desdenha ou finge.

Embora! Meu amor todo a ela se reserva,

Porque meu nobre ideal só a ela se restringe.

Conto-lhe a minha dor, mas a voz não atinge

Seu coração pueril; e imóvel se conserva,

Na impassível mudez dolorosa de esfinge,

Nessa atitude real de estátua de Minera.

Fixo nos olhos seus os meus olhos de lince,

E um vago e estranho encanto o alvor das formas lhe unge

De uma graça imortal, que não há quem destrince...

Lembra Nossa Senhora aureolada num nicho;

E fulge em seu olhar, de um brilho que compunge,

Toda a revelação de um bizarro capricho...

As Horas

As Horas cismam no ar parado:
— Passado.

As Horas bailam no ar fremente:
— Presente.

As Horas sonham no ar obscuro:
— Futuro.

 

Madrigal de um Louco

L u a !
Camélia
Que flutua
No azul. Ofélia
Serena e dolente,
Fria, vagando pelas
Alturas, serenamente,
Por entre os lírios das estrelas;
Santelmo aceso para a Saudade;
Luz etérea, simbólica, perdida
Entre os astros de ouro pela imensidade;
Esfinge da Ilusão no deserto da Vida!
Lâmpada do Sonho, lívida, suspensa...
Vaso espiritual dos meus cismares,
Custódia argêntea da minha crença,
Ó Rosa Mística dos ares!
Unge o meu ser, na apoteose
Da tua luz, e eu frua,
Cismando, a pureza
Da luz e goze
Toda a tua
Tristeza,
L u a !

O Carrossel Fantasma

Ganhei o dia a meditar na minha vida,
porque a saudade me levou à longínqua Amarante
que cisma, talvez por mim, debruçada sobre as águas
lentas e sonolentas do Parnaíba
a rolar para o mar como eu para o mistério...
Então, num sonho de criança convalescente,
vem-me à memória o carrossel que fascinava,
no seu giro constante, os meninos de minha idade:
Cesário, Luís, Holanda... meus irmãos Nica e Joca,
na vertigem do carrossel arrebatados tão cedo!

Tal qual o largo da matriz em noites de novena,
meu pensamento se ilumina de uma luz ardente e doce
como a dos balõezinhos pendentes dos arcos verdes,
festonados de folhagens e frementes de bandeirolas...
E vejo, com os olhos de hoje, ao fundo do largo em festa,
o mesmo carrossel ruidoso da minha ruidosa infância,
rodando... rodando... rodando continuadamente...

Eu fui o mais feliz dos meninos do meu tempo:
gastava todas as moedas das imagens que fazia
(já tinha o dom divino de um criador de imagens)
a dar voltas e voltas nos cavalos de madeira,
que galopavam automaticamente, feito cavalos
[árabes...
Era arrogante e destemido que nem os vaqueiros da
[minha terra,
quando galgava o lombo de um desses pégasos sem asas,
mas nem por sombra imaginava o meu destino de
[poeta...

O carrossel parou no largo... mas não pagou na vida...
Continua em meu sonho, rodando... rodando sempre...
E andando e desandando, num ritmo contraditório,
ainda me dá a alegria inevitável de dar voltas...
de girar, de rolar como os astros no espaço,
de elevar-me a um destino superior ao do planeta,
que em torno da sua órbita, como um símbolo, roda...

— Upa! upa! meu pensamento!

O Sapo

Feio e fátuo a fingir de grande, gordo e guapo;
Hediondo e humilde a inchar de empáfia e ocioso orgulho,
Viscoso de vaidade, entronado no entulho,
Cisma na solidão, sorno e soturno, o sapo.

Os bugalhos em brasa, a palpitar o papo,
Acocorado, absorto, ao mínimo barulho
Que o sossego lhe suste, em súbito mergulho
Se atasca no atascal; e ei-lo escondido e escapo.

Patriarca do paul, pelo pântano parco
De água, a arfar e a imergir no lodo liso e imundo,
O batráquio bubuia, o corpo curvo em arco...

E sobe à superfície o rei das rãs, rotundo,
Glabro e inchado, a coaxar no lamaçal do charco,
Como o ser mais soberbo e singular do mundo.

Refrão do Trem Noturno

Corre o trem dentro do túnel estrelado da noite
tonto de velocidade
ávido de espaço
a arrastar uma rua ruidosa de carros
e lá vai
acelerando mais e mais as rodas rápidas
da máquina que marcha
— Muita força pouca terra
muita força pouca terra

Andam, resfolegam, sopram, bufam
os cavalos-vapor a galopar invisíveis
nitrindo aflitos
silva a locomotiva
a pupila alucinada reverberando na treva
— compasso de relâmpago
tomando a distância
perdida na noite
— Muita força pouca terra
muita força pouca terra

Em disparada o comboio foge trepidando
ao vaivém dos vagões entrechocados na carreira
como elefantes perseguidos no deserto

É um pesadelo sob o silêncio o trem que passa
o trem que desfila como um sonho rumoroso
o trem que leva oscilando na perspectiva fugidia
árvores
campos
montes
repentinamente em movimento
o trem que se lança no espaço como a vida no tempo
— Muita força pouca terra
muita força pouca terra

Hino do Piauí

(Letra: Antonio Francisco Da Costa e Silva/ Música: Firmina Sobreira Cardoso)

Salve! terra que aos céus arrebatas

Nossas almas nos dons que possuis:

A esperança nos verdes das matas,

A saudade nas serras azuis.

Piauí, terra querida,

Filha do sol do equador,

Pertencem-te a nossa vida,

Nosso sonho, nosso amor!

As águas do Parnaíba,

Rio abaixo, rio arriba,

Espalhem pelo sertão

E levem pelas quebradas,

Pelas várzeas e chapadas,

Teu canto de exaltação!

Desbravando-te os campos distantes

Na missão do trabalho e da paz,

A aventura de dois bandeirantes

A semente da Pátria nos traz.

Piauí, terra querida,

Filha do sol do equador,

Pertencem-te a nossa vida,

Nosso sonho, nosso amor!

As águas do Parnaíba,

Rio abaixo, rio arriba,

Espalhem pelo sertão

E levem pelas quebradas,

Pelas várzeas e chapadas,

Teu canto de exaltação

Sob o céu de imortal claridade,

Nosso sangue vertemos por ti,

Vendo a Pátria pedir liberdade,

O primeiro que luta é o Piauí.

Piauí, terra querida,

Filha do sol do equador,

Pertencem-te a nossa vida,

Nosso sonho, nosso amor!

As águas do Parnaíba,

Rio abaixo, rio arriba,

Espalhem pelo sertão

E levem pelas quebradas,

Pelas várzeas e chapadas,

Teu canto de exaltação

Possas tu, no trabalho fecundo

E com fé, fazer sempre melhor,

Para que, no concerto do mundo,

O Brasil seja ainda maior.

Piauí, terra querida,

Filha do sol do equador,

Pertencem-te a nossa vida,

Nosso sonho, nosso amor!

As águas do Parnaíba,

Rio abaixo, rio arriba,

Espalhem pelo sertão

E levem pelas quebradas,

Pelas várzeas e chapadas,

Teu canto de exaltação

Possas Tu, conservando a pureza

Do teu povo leal, progredir,

Envolvendo na mesma grandeza

O passado, o presente e o porvir.

(Apostila 4 de Simbolismo - Literatura Brasileira)

 

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Dario Vellozo (Rio de Janeiro, 1869 - Curitiba,1937)

Dario Vellozo mudou-se para Curitiba em 1886, cidade em que vem a desenvolver praticamente toda sua obra. Trabalhou no jornal Dezenove de Dezembro, cursou o Partenon Paranaense e o Inst. Paranaense. Em 1909 fundou o Instituto Neo-Pitagórico, baseado em sua filosofia helênica que buscava revivências da festa da primavera. Editava ele mesmo seus livros e os anais do Instituto. Discípulo de doutrinas ocultistas, lia e divulgava as obras de Swedenborg, Saint-Martin, Papus, Stanislas de Guaita, Fabre d’Olivet, além do satanismo de Huysmans, a poesia simbolista em geral e Dante Alighieri.

Tinha sempre em alta conta a poesia de Verlaine, Mallarmé, Baudelaire, Eugênio de Castro e Cruz e Sousa.

Fundou a revista O Cenáculo (1895-1897) e participou de várias outras: Revista Azul, Esfinge, Ramo de Acácia, Pitágoras, Brasil Cívico.

Obras: Poesia: Efêmeros (1890); Esquifes (1986); Alma Penitente (1897); Hélicon (1908); Rudel (1912); Cinerário (1929); Atlântida (1938).

Argonauta

A João Itiberê

I

Flambelantes leões de áurea juba inflamada

Rugem na carne em flor - sol de ouro a rutilar...

Soam trompas, flamejam púrpuras, fanfarras

Troam.

Asas abrindo, a galera entra a vogar...

(Galeras! Frota do Amor, da quimera passada!)

Vai-se! Levando as amarras,

Soltas no mar as amarras

Leão de asas sobre o mar!

Carne! Flama do Irã! Jarra de Babilônia,

De fragrâncias fidalgas!

Astartéia, domando os ciclopes da Iônia!...

Nostalgia das algas!

Saudades de Ísis morta, entre lótus, boiando!

Quem esgotou do Amor as fragrâncias fidalgas?

Babilônia, eu te vejo, entre flamas brilhando!

Flambelantes leões! - desejos que rugiam

Na trirreme do Sonho, em meu sangue levada,

E para o Coração, entre flamas, subiam...

Argonauta! - que importa a loucura passada?

Soam trompas de novo, e de novo fanfarras

Ouço troar...

Solta às frotas do Amor as brilhantes amarras!

Ah! Mas que nostalgia há nas vagas do mar!...

Ísis, talvez, que vai passando...

Ísis que vai recordando

Velho idílio de amor sob a luz do luar!...

...............................................................

II

Ai, sortilégio! Ai, malefício!

Alma, onde vai, triste e perâmbula?

A que suplício,

Argonauta do amor, de minha alma sonâmbula?

Ísis,, que Gênio as minhas frotas guia

Para esse Além misterioso?

Frotas de opala... da nostalgia...

Frotas de um sonho delicioso.

Sei que me levas, Argonauta!...

A que regiões do Além sidéreo?

Frotas de opala!... Ai, Nauta, Nauta!

Vamos vogando para o Mistério!...

Cruz e Sousa

(19-3-98)

A Leôncio Correia

Passa no Azul, cantando, uma trirreme de ouro...

Velas pandas... No Azul... Que levita inspirado

Reza o ebúrneo Missal, de um requinte ignorando,

Entre astros monacais e iatagãs de mouro?!...

Rutilam brocatéis de púrpura e de prata...

Fulgem Broqueis, à popa... A trirreme estremece...

Ísis! - quem te acompanha a estranha serenata

E para o Além da Morte entre os teus braços desce?!...

A morte é a eternidade; é um poente de Outono...

Mago! - tu vais dormir o glorioso sono

Entre Broqueis de ônix, e iatagãs de mouro...

Vais dormir!... Vais sonhar!... (Nobre e celeste oblata!)

Segue no Azul, cantando, uma trirreme de ouro...

Rutilam brocatéis de púrpura e de prata.

No Reino das Sombras

Plenilúnio. O luar molha as colunas dóricas...

Junto ao pronau medito, evocando o teu rosto.

Que saudade de ti, dessa tarde de Agosto,

De tintas outonais e visões alegóricas!

Saudade!... O coração lembra idades históricas...

Na Atlântida eras tu pitonisa... Ao sol posto,

Dizias da alma irmã os arcanos... Teu rosto

Banhava-se na luz das estrelas simbólicas...

Tantas vezes perdida! Imerso em luz ou treva,

De vida em vida, à flor do céu, te procurava,

Na dor da solidão... e, quando a lua eleva

A lâmpada votiva, eu te procuro ainda,

-Alma branca,alma irmã,alma em flor, alma eslava-,

Na poeira de sóis da solitude infinda.

Palingenesia

Ocaso! Opalas e amaranto,

Jalne e opala;

Curva azul de horizontes,

Montes...

Além, o Sol trescala

Ânforas de óleo-santo,

Lírio e nenúfar...

Unção da Noite, prece.

Voguemos!

O Ocaso é mar

De violetas e crisântemos...

Ceifeiro a messe

De meu amor vai ceifar!

O Sol mergulha,

E a Noite crepes negros estende,

Crepes da alma,

Luto da alma,

Crepes sobre o mar!

Esperança! Esquife de hulha!

Impiedade,

Crueldade,

Esperança - Flor dos Lírios - vão te incinerar!

Carregam traves...

Fumega a pira!

Lira,

Entra a cantar!

Ó Torre do Ideal, fechada a sete chaves,

Torres de ametista e de luar!

Abri-vos!

Quero subir, subir mui alto,

Sobre a Terra, no Azul, além! - no Astral...

(Lázaros! Sonhos, meus! Espectros redivivos!)

As tuas sete chaves, Torres do Ideal!

No asfalto

Esporas tinem, de caveleiro...

(Quem abrira?)

Esporas de ouro de cavaleiro!

Cavaleiro ou coveiro?

Alguém... do Au délà...

Velas ao Oriente...

O Oriente é mar.

Ave, Istar!

Morro de frio em minha ermida branca,

Alva de luar...

Urzes crescem na ermida,

Urzes da vida,

Urzes da ermida branca...

Que mão de piedade arranca

Urzes de bruma de meu tédio, Istar?

Mendigo

Cego e morto de fome...

Dá-me a luz de teu nome,

O sol de teu olhar!

-Amigo!

-Istar!

Alto e longe!

Minhas vestes de monge

São de chumbo, Istar;

Prendem-me à Terra,

Vestes de húmus: corpo, algar!

-Benze-me! Asperge-me com um ramo de alecrim!

Mirífica, eleva-me!

Eterífica, eleva-me!

Sete chaves! Torre de Marfim!

Arcano da Harmonia,

Harpa ceciliana,

Soberana!

Horto de Anael!

Tens a meiguice de Maria,

Rachel!

Tens a meiguice de olhar de monja,

Istar.

Meu olhar é uma esponja

Que bebe a luz de teu olhar,

Vais tão alto e tão longe!

Cego! Que serei eu?

Monge

Que nos reps da noite se envolveu.

Atanor,

Terra,

Em teu cálix de húmus e de amor

Encerra

Meu corpo, ó Mãe misericordiosa!

E meu astral

No seio de uma rosa

Irá brilhar...

Lírio escultural,

Istar,

No cálix de esperança de teu olhar.

Vais alto longe e distante...

Para o Levante?

Para o Poente?

Onde quer que tua alma se ausente,

Minha ermida levanto,

À luz de ocasos de amaranto,

Saudosamente,

Discretamente,

Nos sete palmos de um campo-santo.

Paredra

Vênus pagã, olhos de sete-estrelo,

A cabeleira rútila fulgindo...

Amei-te!... amor, nos olhos teus fulgindo,

Volúpia; luz do sol de teu cabelo.

A luxúria findou. Astro maldito,

Rolei do azul aos pélagos hiantes...

Procurava a minha alma... além, distantes,

Lótus colhi nos edens do Infinito.

Morreste. Ao val da Sombra, compungido,

Boa que foras para meus delírios,

Levei teu nobre coração partido.

Só então, osculando o altar de pedra,

À luz morrente de funéreos círios,

Tua alma ouvi... - a minha Irmã, Paredra.

ATLÂNTIDA - poema épico

[do Prelúdio]

Íon, no Espaço

Poeira komica na amplidão,

-Terra!-

Num círculo de aço,

Na órbita que o Destino retraçou;

Terra de servidão!...

Terra de expiação!...

Terra de redempção!...

Dominínio de Mayá, - a encantadora,

Que vida e morte encerra,

De philtros cheia a ânfora sonora;

-TERRA!-

Um mundo para o Homem,

Cujo corpo o teu limo formou;

Um nada do Infinito;

Penumbra das almas, cuja essência

A Essência Eterna irradiou;

Caçoula em que Formas se consomem,

Quando a alma revoa,

Livre à Carne, ao Desejo, que agrilhoa!...

-Terra!

[Canto I: A Morte de Poseidonis]

(...)

Inquire o Mago:

-Á proa, à proa... A onda esconde

Neste momento, Mestre, o cimo que rebrilha...

Olhai-o agora!... Vede!... aumenta e maravilha.

-É, Runá, de Tupã Boiera, a serra imensa,

A terra dos palmais que das ondas se adensa.

Pindorama, o país das tribos temerosas,

-A taba hospitaleira, as almas valorosas.

Sumakê, tu serás o íris da esperança;

A redourar na rede o sonho de criança;

Runá, - de Paititi a cidade fulgor

Levantarás, - e ireis com denodo e labor

Edificando o Reino, Atlântida futura,

De beleza moral e sublime cultura.

Servidores leais dos Santuários Brancos,

Dos Goécios contereis os terríveis arrancos.

A Magia do Bem vencerá a do Mal:

O Amor expungirá o culto de Baal.

Os templos do deus LUZ a Concórdia, a Amizade

Ao país levarão, de cidade em cidade.

A Flama brilhará na altiva Cordilheira,

Fanal - esclarecendo a Humanidade inteira.

Os pósteros virão das lindas do Planeta,

Pés roxos, a sangrar, do arrocho da calceta.

E a todos abrireis as plagas e os palmares,

E ditosas sereis na paz de vossos lares.

[Canto II: O Reino de Paititi]

(...)

-Tu conheces, Aztlan, a Ciência dos Magos,

Sabes a LEI, o termo a que a Razão atinge,

Os arcanos da ESTRELLA, a visão dos oragos,

A voz do Teocallis, o sigilo da Esfinge;

Sabes que o coração é o casulo da vida,

Onde murmura a alma a perene lembrança

Do passado, do além, da forma esvanecida,

De uns olhos de mulher, de um riso de criança;

Tu sabes que a MATÉRIA é maga e feiticeira,

Faz e desfaz; - é Água, é Ar, é Fogo, é Terra;

É onda que marulha, estrela condoreira,

É favônio que ameiga, é tormenta que aterra.

Eterno - o TEMPO. Os Kalpas se sucedem...

Os astros se compõem e decompõem;

Da Terra, os continentes que antecedem,

Continentes futuros pressupõem...

Algo os Antis possuem dos Lemúrios;

Mas, todo o seu saber dos Atlantes vem;

Seus costumes, ciência, aras e augúrios

Da Atlântida longínqua sobrevem.

[Canto III: O Roteiro Sagrado]

(...)

Maviosa manhã. Os pássaros e as flores

A alma da Natureza irradiavam;

As flores - eram asas multicores,

Os passarinhos - flores que cantavam.

Caricia a Guanabara: as ondas mansas,

-Guanumbis voejantes, - rutilavam;

Era o céu breviário de esperanças

Que às montanhas as brisas confiavam.

Junto a frondoso ipê o chefe e a filha.

De Miriti o lábio lhe dizia

A dor de Sumakê: - Era uma ilha

O seu olhar que o pranto submergia...

E falou-lhe o Pagé:

-Cacique forte,

Entre os fortes da terra, Sumakê

Asa precisa, mais veloz que a morte,

Que a leve junto ao Pai... O Mestre vê

Descendo já da Noite a rampa... Crê,

Não regresse jamais do extremo Norte.

-E que pensas, Pagé?

-A lei cumpramos

Da hospitalidade, obedeçamos

Ao ESPÍRITO SUPREMO. 9;

-Dizes bem!... - Sumakê, a onda leve

Quando queres cortar?...

&#-Breve, o mais breve!

-Hoje mesmo. Verás que o duro remo

Ao rijo punho do Tamoio verga;

A costa e a mata a vista mal enxerga

Na rápida passagem... Teu gemido

Cala no peito; lava de alegria

Os olhos tristes e a alma... Antes que o dia

Suba ao meio do céu, terás partido.

[Canto IV: No limiar dos Mistérios]

(...)

-Mestre, - inquire o Piaga, -

Se eu quisesse aprender da Atlântida a Ciência,

Onde a iria encontrar?

Poseidonis ruiu... A sombra vaga

Na memória dos homens... A demência

Do Mar afogou-a no mar!...

Nenhum vestígio!... Templos e muralhas,

Os papiros sagrados, - Runá disse, -

Perderam-se também;

Velam a terra líquida mortalhas;

Chocam-se as ondas, como quem carpisse...

E a voz dos Ecos: -Nada mais!... Ninguém...

Nos olhos do Piaga o olhar do Mago

Lento cruzou, fixou-se... Perscrutava

O pensamento íntimo que o afago

Das palavras do jovem revelava.

Intenso e terno o olhar de Aztlan,

Nostálgico e profundo,

Tons da saudade e piedade vã,

Nos ocasos de um mundo.

Nos esmaltes do olhar, de estranho magnetismo,

A renúncia da vida, o êxtase divino,

A força de atrair dos abismos do Abysmo

A vítima do Amor, o exausto Peregrino.

A renúncia da vida!...

A morte do Desejo!...

O almejo

Da grande Solitude!...

O almejo do Silêncio, o almejo imenso

De subir para DEUS numa espiral de incenso,

De encontrar no INFINITO a vereda perdida,

De imergir no NIRVANA em toda plenitude!

DEUS!

A ESSÊNCIA ETERNA, a Eviterna Substância,

UMA e infinita;

O sorriso da Infância,

O ósculo da LUZ, a asa, o adeus...

A alma que volve aos céus e nos astros palpita.

DEUS: A Causa sem Causa, o mistério da ESFINGE...

[Canto V: Céltida Druidica]

(...)

Sacrifícios humanos! Sangue a rodo,

Sangue que as Larvas bibulas absorvem,

Do alto monte de Morven

Baixando,

Tumultuando,

Negrejando

O horizonte...

Lodo!

Sacrifícios humanos!... Rubra fonte

De sortilégios e de malefícios!...

Do alto monte

Que Ossian celebrou,

A luz das madrugadas

Foge... Edifício de ossadas

Que a Morte acumulou,

Monte de sacrifícios

Onde a lâmpada antiga se esgotou.

[Canto VI: Athene]

(...)

ATHENAS!

Um prelúdio de sol na ânfora da noite...

Um prelúdio de sol!...

Prelúdio!... - Dilúculo nascente,

Áureo-purpúreo arrebol

De uma aurora que surge a aclarar o OCIDENTE!...

Ouro-carmíneo, ouro-lilás, ouro de opala,

Ouro de asas de falenas,

Íons de luz, de aroma...

Íons que exala

A Flor de Lótus da alvorada

No constelado manto de Urânia.

[Canto VII: Terra Universal]

(...)

Que o Destino se cumpra!

Que da ATLÂNTIDA o Gênio a mente forme

Do homem fraternal!

E seja a Terra dos Palmares,

Na UNIDADE - intangível,

A Pátria Universal,

A TERRA UNIVERSAL!

Aeronaves da PAZ, - por sobre a Terra

Abre as asas da FRATERNIDADE!

Ma suprema Cultura a PAZ se encerra,

É o Estado civil;

Chave de um ciclo - a ATLÂNTIDA descerra

As Portas de Ouro do Brasil.

O povo do BRASIL: - um hino à LIBERDADE,

O ouro do BRASIL: - o amor à HUMANIDADE!

Do passado remoto ergue-se a voz da ATLÂNTIDA,

Na aurora que desponta,

Linda voz matinal

De arauto e de adail:

- A exaltação da Pátria Universal,

A exaltação da TERRA UNIVERSAL!

E na abóbada azul a luz que monta,

O canto rosicler da inspirada Profântida,

Asa espiritual,

Asa branca e sutil,

A legenda da História,

O lema da vitória:

ATLÂNTIDA: - BRASIL!

(Apostila 5 de Simbolismo - Literatura Brasileira)

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Emiliano Perneta

(Curitiba PR 1866 - idem 1921)

Publicou seus primeiros poemas em O Dilúculo, de Curitiba PR, em 1883. Mudou-se para São Paulo SP em 1885, onde fundou a Folha Literária, com Afonso de Carvalho, Carvalho Mourão e Edmundo Lins, em 1888. No mesmo ano publicou as obras poéticas Músicas, de versos parnasianos, e Carta à Condessa d'Eu. Foi também diretor da Vida Semanária, com Olavo Bilac, e colaborador do Diário Popular e da Gazeta de São Paulo. Formou-se bacharel em Direito em 1889, e mudou-se para o Rio de Janeiro no ano seguinte. Lá, colaborou em vários periódicos e, em 1891, foi secretário da Folha Popular, na qual foram publicadas as manifestações iniciais do movimento simbolista, assinadas pelos poetas B. Lopes, Cruz e Sousa e Oscar Rosas. De volta ao Paraná, criou a revista simbolista Victrix, em 1902. Em 1913 publicou o poema-livreto Papilio Innocentia, para a ópera do compositor suíço Léo Kessler, sobre o romance Inocência, de Visconde de Taunay. Sua obra poética inclui Ilusão (1911), no qual se faz presente a estética simbolista, Pena de Talião (1914) e os póstumos Setembro (1934) e Poesias Completas (1945). A poesia de Emiliano Perneta costuma ser vinculada ao Simbolismo. Segundo o crítico Péricles Eugênio da Silva Ramos, "Emiliano Perneta, dentro de sua corrente literária, tem personalidade e merecimento, podendo figurar, sem favor, entre os nosso mais típicos e notáveis poetas decadentes e simbolistas".

Vencidos

Nós ficaremos, como os menestréis da rua,
Uns infames reais, mendigos por incúria,
Agoureiros da Treva, adivinhos da Lua,
Desferindo ao luar cantigas de penúria?

Nossa cantiga irá conduzir-nos à tua
Maldição, ó Roland?... E, mortos pela injúria,
Mortos, bem mortos, e, mudos, a fronte nua,
Dormiremos ouvindo uma estranha lamúria?

Seja. Os grandes um dia hão de cair de bruço...
Hão de os grandes rolar dos palácios infectos!
E glória à fome dos vermes concupiscentes!

Embora, nós também, nós, num rouco soluço,
Corda a corda, o violão dos nervos inquietos
Partamos! inquietando as estrelas dormentes!

Corre Mais Que Uma Vela...

Corre mais que uma vela, mais depressa,

Ainda mais depressa do que o vento,

Corre como se fosse a treva espessa

Do tenebroso véu do esquecimento.

Eu não sei de corrida igual a essa:

São anos e parece que é um momento;

Corre, não cessa de correr, não cessa,

Corre mais do que a luz e o pensamento...

É uma corrida doida essa corrida,

Mais furiosa do que a própria vida,

Mais veloz que as notícias infernais...

Corre mais fatalmente do que a sorte,

Corre para a desgraça e para a morte...

Mas que queria que corresse mais!

Borboleta

Ao José Gelbcke.

Hoje, uma borboleta, assim, toda amarela,
Veio bater aqui junto à minha janela.
Olhei. Ela passou. Eu comecei a olhar.
De novo ela passou e tornou a passar,
Tão veludosa e ao mesmo tempo tão inquieta...
Que quereria pois aquela borboleta?
Ia e vinha outra vez, doida, a se debater,
Com ademanes, com trejeitos de mulher...
Era um dia de sol, fino e voluptuoso,
De um grande beijo ideal, de um infinito gozo,
De um lindo céu azul, esplêndido verão,
E ela a roçar em mim, como uma tentação...
E ela a passar aqui, dentro do seu corpete,
Tão leve, tão sensual, no seu andar coquete,
A subir, a descer de tal modo, Senhor,
Que a mim me pareceu, mas sem tirar nem pôr,
Essas que andam de lá p'ra cá, coquetemente,
À noite, nos jardins, a seduzir a gente...

Canção

Pára um negro cavaleiro
Ao pé de antigo solar:
O seu cavalo é de crina
Cor da lua, cor do luar.

Vem de longe o cavaleiro,
Vem das guerras de Além-mar...
Com a ponta da sua adaga
Bate à porta do solar.

— Quem bate na minha porta,
A esta hora de dormir? —
"É teu esposo, Guiomar,
A porta lhe vem abrir."

— O meu esposo morreu
Lá nas guerras d'El-rei,
Tenho o punhal que o feriu,
Gravado em ouro de lei. —

Com a ponta da sua adaga
Torna de novo a ferir:
— Quem bate na minha porta,
A esta hora de dormir?

— Se fores meu D. Rodrigo,
A porta te irei abrir,
Mas se não fores Rodrigo,
Dize: que queres de mim?

"Eu sou D. Rodrigo, a porta,
A porta me vem abrir"
— Perdão, senhor! piedade!
Tem piedade de mim!
..............................
Parte um negro cavaleiro
Para as guerras de Além-mar,
O seu cavalo é de crina
Cor de sangue, — cor de luar.

Canção do Diabo

Aqui, um dia, neste quarto

Estava eu a ruminar,

Mas como um ruminante farto,

O tédio amargo, o atroz pesar...

O vento fora pela noite,

Demônio que blasfema em vão,

Cortava rijo como o açoite,

Uivava como um cão.

Eu meditava quanto a vida

Me foi cruel, me foi cruel:

Supus que fosse uma bebida

Doce, mas foi veneno e fel!

E, sobretudo, que ato breve

Dessa tragédia para rir...

Quando de leve, pois, de leve,

Senti a porta se entreabrir...

O quarto todo iluminou-se,

Mas de uma claridade tal,

Como se fosse dia, e fosse

Dia de festa nupcial.

E um vulto, bem como um segredo,

Mais belo do que uma mulher,

Sorriu-me assim: “Não tenhas medo,

Eu sou o arcanjo Lúcifer.

Trêmulo de um pavor covarde,

Fugiste-me sempre, porém

Sabia eu que, cedo ou tarde,

Serias meu, de mais ninguém.

Que, ó meu querido, e pobre artista,

Todo a fazer teu próprio mel,

Tu sempre foste um diabolista,

Um anjo mau, anjo revel.

Ora, fugiu-te a primavera,

E os derradeiros sonhos teus:

O céu, a mais banal quimera,

Teu próprio Deus, teu próprio Deus.

A sorte, mesmo, a prostituta,

Inda mais nua que Lais,

Funambulesco ser, escuta,

Quis todo o mundo; e a ti não quis.

O seio abriu, que tanto exala,

Ao proxeneta, e ao ladrão;

A ti, porém, indo beijá-la,

A fêmea torpe riu-se: não!

Teu coração, alma ansiada,

Teu coração, como um Romeu.

De tanto se bater por nada,

Não sei como inda não morreu.

Teu coração, um cata-vento,

De cá pra lá sempre a bater,

Só encontrou o enervamento,

E a máscara do falso prazer.

As damas, bem como um cavalo,

Sobre esse coração d’abril,

Passaram, quase sem olhá-lo,

Nem abraçá-lo, poeta sutil.

Ninguém te amou, nem pode amar-te,

Nem te entendeu, ser infeliz,

Mas eu, ó triste lírio d’arte,

Sempre te amei, sempre te quis.

O teu furor pela beleza,

Indiferente ao bem e ao mal,

Desoladora guerra acesa,

E, sobretudo, ódio infernal;

A tua esfaimação de oiro,

A sede de subir, subir,

Além daquele sorvedoiro

D’astros e pérolas d’Ofir;

O orgulho teu, furioso grito,

Luxuriosamente cruel,

Crescendo para o infinito,

Como uma torre de Babel.

Orgulho infindo, orgulho santo,

E diabólico, bem sei,

Que tanto horror tem feito, tanto,

Ah! Eu somente o escutei.

E disse: aquele é meu, aquelas

Mágoas cruéis são minhas, eu

Vou levantá-lo até as estrelas,

Até a luz, até o céu...

Vou lhe mostrar reinos de opalas,

Tantas cidades ideais,

Que há de querer talvez contá-las,

Sem as poder contar jamais.

Vou lhe mostrar torres tão grandes,

Torres de ouro e de marfim,

Cem vezes mais altas que os Andes,

Tantas, tantas que não têm fim.

E toda a glória minha, toda,

A ele, cuja imaginação

Inda é mais rica e inda é mais douda

Do que a do próprio Salomão.

Vendo-o descer a encosta rude

Dos anos maus, o elixir

Eu lhe darei da juventude,

Que o faça rir, que o faça rir...

Que é só bebê-lo, e embora exausto,

Embora quase morto já,

O triste e magro doutor Fausto

Reflorirá, reflorirá!

E há de subir comigo, um dia,

Há de subir comigo, a pé,

Por essa longa escadaria,

Que sobem só os que têm fé.

E eu, o flagelo, eu, o açoite,

Eu, o morcego, o diabo, cruz!

Estranho príncipe da noite,

Hei de inundá-lo só de luz!

Hei de lhe dar uma tão rara

Virtude, que baste ele olhar,

Basta querer somente, para

Que o vento acalme e a voz do mar.

E hei de fazê-lo de tal modo,

De tal fluidez, que ele por fim,

O ser humano, o limo, o lodo,

Se torne bem igual a mim.

E tudo só para ofuscá-lo,

Para encantá-lo, tenho, e lhe dou:

A minha espada e o meu cavalo,

A minha glória... E aqui estou.”

Olhei. Brilhava-lhe na fronte

A estrela d’oiro da manhã,

Como num límpido horizonte:

-Eu serei teu irmão, Satã!

Esse Perfume

Esse perfume — sândalo e verbenas —
De tua pele de maçã madura,
Sorvi-o quando, ó deusa das morenas!
Por mim roçaste a cabeleira escura.

Mas é perfídia negra das hienas!
Sabes que o teu perfume é uma loucura:
— E o concedes; que é um tóxico: e envenenas
Com uma tão rara e singular doçura!

Quando o aspirei — as minhas mãos nas tuas —
Bateu-me o coração como se fora
Fundir-se, lírio das espáduas nuas!

Foi-me um gozo cruel, áspero e curto...
Ó requintada, ó sábia pecadora,
Mestra no amor das sensações de um furto!

Metamorfoses

A Mme. Georgine Mongruel.

Sei que há muita nudez e sei que há muito frio,
E uma voracidade horrível, um furor
Tão desmedido que, quando eu acaso rio,
Quantos não estarão torcendo-se de dor.

Conheço tudo, sim, apalpo, indago, espio...
Tenho a certeza que vá eu para onde for,
Como o escaravelho, hei de o ódio sombrio
Ver enodoar até o seio de uma flor.

Mas sei também que há mil aspirações estranhas,
Que havemos de subir montanhas e montanhas,
Que a Natureza avança e o Homem faz-se luz...

Que a Vida, como o sol, um alquimista louro,
Tem o dom de poder mudar a lama em ouro,
E em límpidos cristais esses rochedos nus!

Mors

Nesse risonho lar,
A dor caiu neste momento,
Como se fosse a chuva, o vento,
O raio, e bate sem cessar...
Bate e estala,
Como uma louca,
De boca em boca,
De sala em sala...
Somente tu, flor delicada,
Como quem veio
Fatigada
De um passeio,
Tombaste ali, silenciosa,
Sobre o sofá,
No abandono,
Pálido rosa,
De um longo sono,
De que ninguém te acordará!

Ovídio

O exílio foi cruel e aspérrimo, de fome.
Foi o tédio brutal, a miséria. Curtiste
Toda a espécie de fel, o horror que não tem nome,
E ninguém acabou mais feio nem mais triste.

Homem algum jamais sentiu, como sentiste,
Ovídio, ó coração que a cólera consome,
Quão perigoso enfim é ter esse renome,
A glória, que é a ilusão mais louca que inda existe.

Mas, que importa afinal! A mocidade toda,
Quando entravas no Circo, ó Mestre, quase douda,
Recitava de cor a tua arte de amor...

E o orgulho de beijar, que nem o exílio doma,
O corpo mais gentil do lupanar de Roma,
Júlia, e basta, Nazão, filha do Imperador!...

(Apostila 6 de Simbolismo - Literatura Brasileira)

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Ernâni Rosas

Ernâni Salomão Rosas Ribeiro de Almeida nasceu no Desterro (Florianópolis) em 31 de março de 1886. Filho do também poeta Oscar Rosas. Trabalhou em cargos modestos e variadas e humildes atividades profissionais. Viveu muito tempo no Rio de Janeiro em Encantado e Nova Iguaçu. Dentre suas principais influências estão Eugênio de Castro e Cruz e Sousa. Como observa Andrade Muricy: "O fato de ter ficado quase completamente desconhecido e não haver, por isso, tido influência histórica, não lhe invalida a precedência". O poeta faleceu em 1954.

Salomé

Ó Bailarina, oh! mariposa inquieta!

Aljofrada da gema de uma tarde.

És nume, Salomé, ágil goleta...

dentre o incenso da sombra que oura e arde...

Espectro errante de um cometa absorto

após a bacanal "saturniana"!...

(onde os nardos têm ócio do "Mar-Morto"!)

e ergue-se a lua irial, sibariana...

Chovem do céu os raios da nova aurora

sobre seu corpo d'âmbar colmado

da via Láctea que su'alma olora...

Numa auréola de Luz e alegoria

Esvaindo-Te em Sonho musicado,

para a glória do "Mal" que a irradia...

Hora da Insônia
Noite sem termo! A Lua erra em delírio,
Balbucío palavras sem querer...
Cismo no olor vernal d'alma de um lírio,
E sou memória d'algo a transcender...

Sofro-lhe a ausência. A carne é meu martírio,
Ressurjo... Amo a visão do meu Não-Ser!
Todo meu corpo é amorfa névoa--círio...
Volúpia de um perfume a se perder.

Cismo na errante estrela, que deslumbra
O vaso de teu ser dentre o relento
Num murmúrio de fonte que ressumbra!

Sou o olfato! Amo as horas de um jardim...
Sou uma vaga sonora em pensamento:
Eflúvio lirial que vens a mim!...

Rimas à Lua:
Dorme em lascivo leito, reclinada...
Repontando de Astros e fogueiras,
Ateias a coivara prateada
Dos caminhos desertos, pegureira...

Lua! Da meia noite, solitária,
Urna errante p'la nave do infinito...
Cravas o lácteo incêndio funerária,
Às montanhas geladas de granito...

Peregrinando em tua marcha hiante
E exausta de fadiga em água amara
Buscas o mar, o oceano o teu amante...

Artista, cuja tela, ao ver-Te aclara!
N'esse sonambulismo inebriante...
Em suas vagas verdes Te enlaçara...

Lúcifer

No espelho encantado do destino

Mais de uma vez me vi transfigurado:

As horas tinham timbre cristalino

E erravam opalizadas no passado...

Não me fato de olha-las, no mistério

Tênues e loiras como a corda flébil

Do violino outonal do poente aéreo,

Que amortece em lilás num corpo débil...

Não me farto de olhar, erro inconsciente...

O solo é de diamante e o espaço um astro...

Vivem mármores d’alma no poente!

Foge-me a luz e se antecipam as horas,

No lago azul há cisnes de alabastro,

E o espelho em que me vi é tudo auroras!...

Perdi-me... Toda uma Ânsia...

"Perdi-me... toda uma ânsia me revela

sombra de Luz em corpo de olor vago,

a saudade é um passado que cinzela

em presente, a legenda desse orago".

"Errasse em densa noite de beleza,

pisasse incerto, um falso solo de umbra...

sonho-me Orfeu... o Luar, que me deslumbra...

é marulho de luz na profundeza!..."

Toda a alma do azul esvai-se em lua...

nimba-lhe a face um crepe de Elegia...

É alvor do dia numa rosa nua,

que as minhas mãos cruéis sonham colher...

mas ao tocar desfolha-se mais fria,

que a sombra de meus dedos a tremer...

O Sonho-Interior

O Sonho-Interior que renasceste

era o Poema dum Lírio do Deserto,

o vinho de Outras-Almas que bebeste

fatalizou o meu destino incerto...

Depois por Ti em Sombras de degredo

encerrei a minha alma desolada,

tive a tua visão crepusculada

na Beleza fugaz do meu segredo...

Perdeu-se-me ao Sol-Pôr teu rastro amado!

qual Cipreste, no Poente agonizado, —

na demência autunal duma Alameda...

Velaram-se Sudários teus Espelhos...

ante o cerrar do teu Olhar de seda,

que era um descer de lua em cedros velhos

Depois de te Sonhar...

Depois de Te sonhar Mistério ido

e .seguir-Te e ouvir-Te em Hora leda,

de vesti teu Ser a raios de Astro e Olvido,

de Antigüidade o teu perfil de Moeda.

Parei depois de haver corrido tanto

e amado e urdido Horas de Sonho-Asa?

constelada de azul fulgor de brasa

por Tardes enlaivadas de quebranto...

Sonho em Cristal teu corpo de Champagne?

mansa luz que morrendo sem alarde,

não há sol de crepúsculo, que a estranhe...

Acordas do teu Sono, para Mim!

nos meus olhos à sombra, para a Tarde...

por que surges em Sonhos num jardim?

Noite de Valpurgis
Náufrago brigue do Éter e do Sonho,
Derramando um clarão tíbio e suicida...
O sol acena um áureo Adeus à Vida
E doura a imensa estrada ante-sonho!

Âmbito argivo em mármore de estranha
Visão de torres e cruzes brancas,
Onde passaram adejos de asas francas
Das aves, se o Luar neva à montanha...

Gotas nitentes pela luz douradas
São pérolas que um mar verteu um dia,
Junto às areias gris das alvoradas!

Exaurindo-se à Luz dentre a agonia,
Difunde-se qual tule em nuvem alada...

Para voar a tua fantasia!...

Penumbra do Luar
Noite de lua e noveiro, argente
Difunde-se o luar pela folhagem...
Com a mesma languidez vaga e dormente
Da chuva, quando cai sobre a ramagem...

Como a música ao longe e som dolente
Recorda todo esse abandono... E a aragem
Que passa, agita o olor suave e florente
Vindo das messes, da vernal paisagem...

E o luar cresce através de ermo arvoredo,
Noite chuvosa e triste a Lua ateia...
Fluida névoa de luz... Sonho... Segredo...

Ao ressurgir das coisas na saudade
Que o silêncio evocou... E à luz ondeia
Erra na morta e fria claridade...

Soneto
Vai alta a lua lírica e silente,
Toda paisagem em sonho se embebeu!
Narra a si-mesmo o eco, vagamente...
Paira a auréola da luz dentre os céus...

Parece madrugada! Um galo canta...
Uivam de tédio os cães, não chega o dia!
[pois] se o Luar turvou minha alegria...
E a noite toda de uma mágoa santa!

Outono! Vão-se as horas... E lacrimosa
É tão triste a vereda e a própria casa...
Traz saudades da vida religiosa!

Cada vez mais o luar neva e cintila...
Seixos em pranto à flux o areal abrasa,
E a água por ser ceguinha erra e vacila...

(Apostila 7 de Simbolismo - Literatura Brasileira)

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Gilka Machado

(Rio de Janeiro RJ 1893 - idem 1980)

Publicou seu primeiro livro de poesia, Cristais Partidos, em 1915. Na época, já era casada com o poeta Rodolfo de Melo Machado. No ano seguinte, ocorreu a publicação de sua conferência A Revelação dos Perfumes, no Rio de Janeiro. Em 1917 saiu Estados de Alma; seguiram-se Poesias, 1915/1917 (1918); Mulher Nua (1922), O Grande Amor (1928), Meu Glorioso Pecado (1928), Carne e Alma (1931). Em 1932 foi publicada em Cochabamba, na Bolívia, a antologia Sonetos y Poemas de Gilka Machado, prefaciada por Antonio Capdeville. Em 1933, Gilka foi eleita "a maior poetisa do Brasil", por concurso da revista O Malho, do Rio de Janeiro. Foram lançadas, nas décadas seguintes, suas obras poéticas Sublimação (1938), Meu Rosto (1947), Velha Poesia (1968). Suas Poesias Completas foram editadas em 1978, com reedição em 1991. Poeta simbolista, Gilka Machado produziu versos considerados escandalosos no começo do século XX, por seu marcante erotismo. Para o crítico Péricles Eugênio da Silva Ramos, ela “foi a maior figura feminina de nosso Simbolismo, em cuja ortodoxia se encaixa com seus dois livros capitais, Cristais Partidos e Estados de Alma”.

Incenso

A Olavo Bilac

Quando, dentro de um templo, a corola de prata
do turíbulo oscila e todo o ambiente incensa,
fica pairando no ar, intangível e densa,
uma escada espiral que aos poucos se desata.

Enquanto bamboleia essa escada e suspensa
paira, uma ânsia de céus o meu ser arrebata,
e por ela a subir numa fuga insensata,
vai minha alma ganhando o rumo azul da crença.

O turíbulo é uma ave a esvoaçar, quando em quando
arde o incenso ... Um rumor ondula, no ar se espalma,
sinto no meu olfato asas brancas roçando.

E, sempre que de um templo o largo umbral transponho,
logo o incenso me enleva e transporta minha alma
à presença de Deus na atmosfera do sonho.

Ser Mulher ...

Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada
para os gozos da vida; a liberdade e o amor;
tentar da glória a etérea e altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior...

Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor;
sentir a vida triste, insípida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um senhor...

Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
no ascenso espiritual aos perfeitos ideais...

Ser mulher, e, oh! atroz, tantálica tristeza!
ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!

Emotividade da Cor

A Dolores Marques Caplonch
e a Miguel Caplonch


Sete cores — sete notas erradias,
sete notas da música do olhar,
sete notas de etéreas melodias,
de sons encantadores
que se compõem entre si,
formando outras tantas cores,
do cinzento que cisma ao jade que sorri.

Há momentos
em que a cor nos modifica os sentimentos,
ora fazendo bem, ora fazendo mal;
em tons calmos ou violentos,
a cor é sempre comunicativa,
amortece, reaviva,
tal a sua expressão emocional.

Lançai olhares investigadores
para a mancha dos poentes:
há cores que são ecos de outras cores,
cores sem vibrações, cores esfalecentes,
melodias que o olhar somente escuta,
na quietude absoluta,
ao Sol se pôr...
Quem há que inda não tenha percebido
o subjetivo ruído
da harmonia da cor?

(...)

— A Cor é o aroma em corpo e embriaga pelo olhar.
Cor é soluço, cor é gargalhada,
cor é lamento, é suspiro,
e grito de alma desesperada!
Muitas vezes a cor ao som prefiro
porque a minha emoção é igual à sua:
— parada, estatelada
dizendo tudo, sem que diga nada,
no prazer ou na dor.

Olhar a cor
é ouvi-la,
numa expressão tranquila,
falar de todas as sensações
caladas, dos corações;
no entanto, a cor tem brados,
mas brados estrangulados,
mágoas contidas,
mudo querer,
ânsia, fervor, emotividade
de desconhecidas
vidas,
que se ficaram na vontade,
que não conseguiram ser...

Cores são vagas, sugestivas toadas...

Cores são emoções paralisadas...

(...)

Impressões do Gesto

(A uma bailadeira)

A tua dança indefinida,
que me retém extática, surpresa,
guarda em si resumida
a harmonia orquestral da natureza,
a euritmia da Vida.

(...)

Danças, os membros novamente agitas,
todo teu ser parece-me tomado
por convulsões de dores infinitas...
E desse trágico crescendo
de gestos que enchem o silêncio de ais,
vais
smorzando, descendo,
como que por encanto,
presa de um místico quebranto...
Danças e cuido estar em ti me vendo.

Os teus meneios
são
cheios
de meus anseios;
a tua dança é a exteriorização
de tudo quanto sinto:
minha imaginação
e meu instinto
movem-se nela alternadamente;
minha volúpia, vejo-a torça, no ar,
quando teu corpo lânguido, indolente,
sensibiliza a quietação do ambiente,
ora a crescer, ora a minguar
numa flexuosidade de serpente
a se enroscar
e a se desenroscar.
Em tua dança agitada ou calma,
de adejos cheia e cheia de elastérios,
materializa-se minha alma,
pois nos teus membros leves, quase etéreos,
eu contemplo os meus gestos interiores,
meus prazeres, meus tédios, minhas dores!

(...)

Aos Heróis do Futebol Brasileiro

Eu vos saúdo
heróis do dia
que vos fizestes compreender
numa linguagem muda,
escrevendo com os pés
magnéticos e alados
uma epopéia internacional!

As almas dos brasileiros
distantes
vencem os espaços,
misturam-se com as vossas,
caminham nos vossos passos
para o arremesso da pelota
para o chute decisivo
da glória da Pátria.

Que obra de arte ou de ciência,
de sentimento ou de imaginação
teve a penetração
dos gols de Leônidas
que, transpondo balizas
e antipatias,
souberam se insinuar
no coração
do Mundo!

Que obra de arte ou de ciência
conteve a idéia e a emotividade
de vossos improvisos
em vôos e saltos,
ó bailarinos espontâneos
ó poetas repentistas
que sorrindo oferecestes vosso sangue
à sede de glória
de um povo
novo?

Ha milhões de pensamentos
impulsionando vossos movimentos.

Na esportiva expressão
que qualquer raça entende
longe de nossa decantada natureza
os Leônidas e os Domingos
fixaram na retina do estrangeiro
a milagrosa realidade
que é o homem do Brasil.

Eia
atletas franzinos
gigantes débeis
que com astúcia e audácia,
tenacidade e energia
transfigurai-vos,
traçando aos olhos surpresos
da Europa
um debuxo maravilhoso
do nosso desconhecido pai

Verão

A Primavera veio
e se foi, mas deixou tremendo em cada seio
um rebento de amor. O Verão se acentua,
e, de manhã, bem cedo,
vêm dos silêncios amplos e sombrios
dos versudos moitais,
vêm do arvoredo,
murmúrios
macios
de cicios...
Há um mistério, um segredo
que sai dos íntimos refolhos
da alma dos animais,
das plantas, do minério,
– amoroso mistério
que as mulheres relatam pelos olhos.

Parece mais redonda
a curva da montanha, a curva da onda...
Por onde quer que a luz dos olhos entre
estranha tumescência encontra em cada ventre;
o claro e escampo céu, sobre as coisas aberto
da terra está mais perto
e está mais lindo,
como que pesado, como que caindo,
das entranhas contendo nos profundos
desvãos a gravidez de novos mundos.

Verão!
Que maravilha!
– a luz fervilha
em tudo:
nota-se do silêncio no veludo
uma palpitação
de existência no embrião;
partículas de Sol a água envolve, rolando,
partículas de Sol tremem, de quando em quando,
na fronderia, no ar;
partículas de Sol pululam pela estrada
que trilho, iluminada...
Creio que a luz esteja a desovar,
sinto-a vivendo, sinto-a vibrando
na minha pele, em cada membro, a cada
instante, e vago contaminada,
pelo gérmens vitais da procriação solar.

O dia lembra uma exaustão de amor...
Verão! Que acídia, que langor!...
Quem me dera também me desdobrar assim
como esse azul etéreo
que paira sobre mim
num lírico elastério!...
Por ti, Verão, todo meu corpo sente
ânsia de se expandir indefinidamente,
ânsia de se esticar, de se esticar
como as montanhas, como o mar,
em curvas lentas, no semiústo ambiente;
ânsia de distender
uma serpente
que carrego enroscada no meu ser.

Quero amor, quero ardência! A ti me exponho.
Verão, sou toda fecundidade!
– O calor me penetra, o Sol me invade
o senso,
e tudo em torno a mim se torna mais extenso,
tudo em que os olhos ponho:
o céu, o oceano, a mata...
E enquanto em gestação a Terra se dilata,
Dilata-se minha alma à gestação do Sonho.

Lembranças

Teus retratos — figuras esmaecidas;
mostram pouco, muito pouco do que foste.
Tuas cartas — palavras em desgaste,
dizem menos, muito menos
do que outrora me diziam
teus silêncios afagantes...
Só o espelho da minha memória
conserva nítida, imutável
a projeção de tua formosura,
só nos folhos dos meus sentidos
pairam vívidas
em relevo
as frases que teu carinho
soube nelas imprimir.

Sou a urna funerária de tua beleza
que a saudade
embalsamou.

Quando chegar o meu instante derradeiro
só então, mais do que eu,
tu morrerás
em mim.

Encantamento

A Francisco Alves
- O perfeito intérprete da canção brasileira


Canta,
que tua voz
ardente e moça
faz com que eu sinta a meiguice
das palavras que a vida não me disse.

Para te ouvir melhor
abro as janelas
e fico a sós
com tua voz
sonhando
que a noite está cantando
pelos lábios de fogo das estrelas.

Canta,
boca febril que não conheço,
que nunca me falaste e que me dizes tudo!...

Ave estranha
de garras de veludo,
entoa para mim
uma canção sem fim!

Canta,
que ao teu canto vejo
em tudo
quietude atroz
de insatisfeito desejo
Canta,
— em cada ouvido há um beijo
para tua linda voz.

(...)

Pelo Telefone

Ignoro quem tu és,
de onde vens,
aonde irás;
amo-te pelo enigma pertinaz
que em ti me atrai e me intimida,
por essa música mendaz
de tua voz
que alvoroçou minha audição
e me vem desviando a vida
de seu destino de solidão.

Ignoro quem tu és,
de onde vens,
aonde irás...
Fala-me sempre,
mente mais;
não te posso exprimir o pavor que me invade,
as aflições que me consomem,
ao meditar na triste realidade
de que deve ser feita
essa tua alma de homem.

Ignoro quem tu és,
de onde vens,
aonde irás,
audaz
desconhecido;
tua palavra mente ao meu ouvido,
mas não mente essa voz que me treslouca!
— Ela é o amor que me chama por tua boca,
num apelo tristonho,
de saudade;
é a exortação do sonho
à minha rara sensibilidade.
Ignoro quem tu és,
de onde vens,
aonde irás:
amo a ilusão que tua voz me traz.
a falsidade em que procuro crer.

Fala-me sempre, mente mais,
que de mim só mereces tanto apreço,
ó nebuloso, porque desconheço
as humanas misérias de teu ser!

Mas nesta solidão a que me imponho,
quando quedo em silêncio
a te aguardar a voz,
como se torna teu enigma atroz,
que ânsia de estrangular este formoso sonho,
de transpor os espaços,
de bem te conhecer,
de me atirar depressa,
inteira,
nos teus braços,
de te possuir só para te esquecer!...

(Apostila 8 de Simbolismo - Literatura Brasileira)

 

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Martins Fontes (1884-1937)

SALOMÉ

Paráfrase de Catulle Mendès

Ora, em Makéros, perto da

terra sagrada de Judá,

num dia do mês de Schebat,

o tetrarca da Galiléia,

filho de Herodes da Iduméia,

reúne, em fúlgida assembléia,

Vitélio e vários dentre os seus

homens e amigos galileus,

e os sacerdotes do seu Deus,

e honra o procônsul dos romanos,

dando um banquete aos soberanos,

no dia egrégio dos seus anos.

A sala imensa do festim

é toda feita de algumim,

tauxiado de ouro e de marfim.

A mesa augusta ergue-se ao lado,

e assenta sobre um largo estrado,

que é de sicômoro lavrado.

Turbando as chamas e os metais,

sobem as fúmeas espirais

dos incensários aromais.

Brilham os sifos dos convivas,

e altas crisêndetas festivas,

cheias de figos e de olivas.

Vêem-se amêndoas de Belém,

e as áureas ânforas contém

os vinhos róseos de Sichém.

Pela extensão da mesa nobre,

por entre palmas, se descobre

a neve em cíatos de cobre.

Servem-se polmes de açafrol,

romãs e tâmaras de Esquol,

bolos de melro e rouxinol.

Em cismas lúgubres absorto,

Antipas vê, de longe, o porto,

tranquilo e triste, do mar Mar Morto.

E ao cismar enche-se de

sombras horríficas, porque

a morte próxima prevê.

Contudo, às vezes conversando,

disfarça as mágoas; porém, quando

vai o banquete terminando,

o velário de um pavilhão

se abre; Herodias, no salão,

surge, entre anêmonas, então,

e erguendo a patera florida,

diante da sala comovida,

declama: -"A César, longa vida!"

É nesse instante triunfal,

exatamente no final

do ágape esplêndido e fatal,

que, do fundo das galerias,

num incêndio de pedrarias,

desponta a filha de Herodias

e ao som de mandora e cinor,

num flavescente resplendor

de gemas de Sirinagor,

entre os aplausos do delírio

virgem e leve, como um lírio,

entra dançando ao modo assírio.

Fascinadora, Salomé

levanta o véu, que desce até

à asa recurva do seu pé.

E em torcicolos coleantes,

e, na volúpia das Bacantes,

tine as crotálias ressoantes.

Ri-se, e, na dança, tem o dom

de deslumbrar, variando com

a ondulação de cada som.

Gira em volteios colubrinos,

lentos, elásticos, felinos,

ao retumbar dos tamborins,

Em tentadora inebriez,

mostra a morena calidez,

doirada e bíblica, da tez.

A Antipas chega-se, e recua...

Ascende aos poucos, e flutua,

maravilhosa e seminua.

Avança e foge, e vem e vai,

ondula, e ala-se, e recai

em posição de quem atrai.

Seu corpo nimba-se envolvido

por um translúcido tecido,

que é como um fluido colorido.

No desvario que a seduz,

as mil imagens reproduz

da flor, dos pássaros, da luz!

Arfam na graça dos coleios,

nos rodopios e meneios,

os pomos pulcros dos seus seios.

Ante o seu mágico poder,

diz-lhe o tetrarca, sem conter

o entusiasmo do prazer:

-"Pede-me tudo o que quiseres!

Qual a província que preferes,

flor luminosa entre as mulheres?

-"Tu és tão bela que nenhum

prêmio te paga! E só por um

beijo, eu te dou Cafarnaum!"

E ela, infantil, em voz que freme,

assim lhe diz: -"Dá-me em estreme..."

Murmura um nome... E Herodes treme!

Pede que não, e exora... Mas

a sala ordena, pertinaz:

-"Tu prometeste, - e tu darás."

Depois, num grande prato de ouro,

entre as aclamações em coro,

com os olhos úmidos de choro,

nas mãos de um fâmulo idumeu,

diante do povo galileu,

de Iaokanaã apareceu,

bruta, a cabeça ensanguentada,

que, pelo gume de uma espada,

fora do tronco separada.

Da sua pápebra, a fulgir,

como uma hidrófana de Ofir,

vê-se uma lágrima a cair.

Ante essa lágrima tristonha,

Herodes julga a voz medonha

ainda escutar, como quem sonha...

Ouve dizer-lhe Iaokanaã:

-"Tetrarca impuro, avida é vã,

e a tua amante é tua irmã!"

Serena a lágrima resvala,

tremula e cai. E toda a sala,

cheia de espanto e horror, se cala.

Mas Salomé, flor de Engadi,

ao Precursor, num frenesi,

diz -"Por que choras?" - E sorri.

E ele responde: -" A causa desta

última lágrima funesta,

é ter chegado tarde à festa...

"Pois me fizeste, a meu pesar,

por tanto tempo demorar,

Que não te pude ver dançar..."

A Água Toda Secou até nos Olhos

— Meu culto ao Ceará, Coração do Brasil.

O rio vai morrer, sem que nada o socorra,
sem que ninguém, jamais, bendiga o moribundo.
Morre na solidão, no silêncio profundo,
e o malárico mal o mantém em modorra.

A enfermidade faz que da boca lhe escorra
o limo, feito fel, viscoso e nauseabundo.
E o terror se lhe vê das órbitas ao fundo.
Paralítico jaz na estreitez da masmorra.

Tu só, tu, meu Irmão, que a miséria não vence.
Que suportando a sede, a fome, a febre, o frio,
sem que prêmio nenhum teu martírio compense.

Poeta, herói, semideus, sabes o desvario,
a sobre-humana dor, a bravura, cearense,
de quem se suicidou, vendo morrer o rio.

Balada Madrigalesca

À moda clássica, ao sabor
da antiga métrica francesa,
venha brindar um rimador
a uma princesa portuguesa.
Fulgure a pedraria acesa
das rimas rútilas do ideal,
para eu cantar em Sua Alteza
a flor-de-lis de Portugal.

Há nos seus olhos o negror
das noites cheias de tristeza,
e o vivo e cálido esplendor
do sol de Nice ou de Veneza.
E a sua mão tem, com certeza,
o alvor da neve boreal:
É o lírio branco da nobreza,
a flor-de-lis de Portugal.

Pajem galante e trovador,
cumpro, encantado, a doce empresa
de demonstrar que numa flor
se espelha a sua gentileza.
E, com sutil delicadeza,
digo, ao findar o madrigal:
Dona Leonor é, na pureza,
a flor-de-lis de Portugal.

OFERTA

Cheia de graça e de beleza,
Dona Leonor é lirial.
Era uma vez uma princesa,
a flor-de-lis de Portugal...

Inocência

Criança ingênua, o dia inteiro,
com os meus caniços de taquara,
ficava eu, ao sol de então,
junto dos tanques, no terreiro,
soprando a espuma, leve e clara,
fazendo bolhas de sabão.

Corando a roupa, entre cantigas,
as lavadeiras, que passavam,
interrompiam a canção...
Riam-se as pobres raparigas,
vendo as imagens que brilhavam,
nas minhas bolhas de sabão.

Cresci. Sofri. Sonhando vivo.
E, homem e artista, ainda agora,
me apraz aquela distração...
E fico, às vezes, pensativo,
fazendo versos, como outrora
fazia bolhas de sabão.

E velho, um dia, de repente,
sem ter, de fato, sido nada,
pois tudo é apenas ilusão,
há de extinguir-se a alma inocente
que em mim fulgura, evaporada
como uma bolha de sabão.

Monotonia Rítmica

BORODIN

Era uma noite negra, horrendamente negra,
Horrendamente negra,
como o corvo do Poe, horrendamente negra.

Eu tremia, a gelar, na solidão goiesca,
na solidão goiesca,
inteiramente só, na solidão goiesca.

Nisto, vejo surgir um lívido fantasma.
um lívido fantasma,
um hamlético e longo e lívido fantasma.

Retransido, sem voz, perguntei com os olhos,
perguntei com os olhos,
quem és tu, quem és tu! — perguntei com os olhos —

E o avejão respondeu: — Eu simbolizo o Nada!
— Eu simbolizo o Nada!
E desapareceu... — Eu simbolizo o Nada!

Na Medida Velha da Ensinança Galante e da Gaia Ciência de Bem Trovar

Menina Briolanja
das vestes tafuis,
parecem-me a hidranja
teus olhos azuis.

És moça e formosa,
tra, li, la, la, ra...
Que linda esta rosa!
Colhamo-la já.

À tarde, querida,
a flor vai murchar...
Não percas, na vida,
o tempo de amar.

Meu Deus, que desgosto
seria essa dor
de ver o teu rosto
murchar como a flor.

É o tempo da hidranja.
És moça e gentil:
a hidranja, Briolanja,
se colhe em abril.

Otelo

Quem minha angústia suportar, prefira
a morte, redentora, à desventura
de não poder, nas vascas da loucura,
distinguir a verdade da mentira.

Infrene dúvida, implacável ira,
esta que me alucina e me tortura!
— Ter ciúmes da luz, formosa e pura,
do chão, da sombra e do ar que se respira!

Invejo a veste que te esconde! a espuma
que, beijando teu corpo, linha a linha,
toda do teu aroma se perfuma!

Amo! E o delírio desta dor mesquinha,
faz que eu deseje ser tu mesma, em suma,
para ter a certeza de que és minha!

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MARANHÃO SOBRINHO

Mártir

Das cinco chagas de pesar, que exangue,

Trago no triste coração magoado,

Descem rosários de rubi de sangue

Como do corpo do Crucificado...

Pende-me a fronte sobre o peito, langue,

De infinitas Traições alanceado...

E, na noite da Mágoa, expiro exangue

Na Cruz de Pedra da Paixão pregado...

Subi, de joelhos, expirando, o adusto

Desfiladeiro enorme do Calvário...

Sob o madeiro da Saudade, a custo!

Sem consumar meus sonhos adorados,

Oiço, no meio do Martírio vário,

O chocalhar sacrílego dos Dados...

Satã

Nas margens de cristal do Danúbio do sonho,

cromadas de rubis, de pérolas purpúreas,

vê-se o imenso solar sonolento e medonho

do dragão infernal das Princesas espúrias...

Guarda o nobre portal de alabastro tristonho

desse antigo solar, de malditas luxúrias,

em que fulge o brasão heráldico do sonho

não sei quantas legiões de duendes e fúrias!

Sobre o mármore azul das colunas austeras,

que, em noivados de luz, o luar engrinalda

brilha o vivo cristal de alígeras quimeras...

Velam desse dragão o oriental tesoiro,

sobre um trono de rei, de maciça esmeralda,

dois soberbos leões, de grandes patas de oiro...

Interlunar

Entre nuvens cruéis de púrpura e gerânio,

rubro como, de sangue, um hoplita messênio

o Sol, vencido, desce o planalto de urânio

do ocaso, na mudez de uni recolhido essênio...

Veloz como um corcel, voando num mito hircânio,

tremente, esvai-se a luz no leve oxigênio

da tarde, que me evoca os olhos de Estefânio

Mallarmé, sob a unção da tristeza e do gênio!

O ônix das sombras cresce ao trágico declínio

do dia em que, a lembrar piratas do mar Jônio,

põe, no ocaso, clarões vermelhos de assassínio...

Vem a noite e, lembrando os Montes do Infortúnio,

vara o estranho solar da Morte e do Demônio

com as torres medievais as sombras do Interlúnio...

Tela do Norte

No estirão, percutindo os chifres, a boiada

monótona desliza; ondulando, a poeira,

em fulvas espirais, cobre toda a chapada

em cujos poentes o sol põe uns tons de fogueira.

Baba de sede e muge a leva; triturada

sob as patas dos bois a relva toda cheira!

Boiando, corta o ar a mórbida toada

do guia que, de pé, palmilha à cabeceira...

Nos flancos da boiada, aos recurvos galões

das éguas, vão tocando a reses fugitivas

o vaqueiros, com o sol nas pontas dos ferrões...

E, do gado o tropel, com as asas derreadas

quase riscando o chão, que o sol calcina, esquivas,

arrancam coleando as emas assustadas...

Equatorial

Bóiam verdes lodões no lago quieto em frissos

de topázio. Flechando as ralas talagarças

dos ramos vibram, no ar, os vírides caniços

dos juncos. Funde a luz as nuvens de oiro esgarças.

Sobre o lodo escorrega o musgo a renda. Em viços

soberbos, o esplendor das aquáticas sarças

beira o líquido espelho em que, de espantadiços

olhos, banham-se, ao sol, as branquicentas garças.

Trapejam no horizonte uns trêmulos farrapos

de púrpura. Banando, entre os juncos, disformes

de luxúria, a coaxar, pulam, glabros, os sapos.

E, na lama, que a lesma azul meandra de rugas,

rojando-se em espirais de gelatina, enormes

arrastam-se, pulsando, as moles sanguessugas...

(Apostila 9 de Simbolismo - Literatura Brasileira)

 

 

 

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Onestaldo de Pennafort

(Rio de Janeiro RJ, 1902 - idem 1987)

Cursou Direito, no Rio de Janeiro, por volta de 1918, mas precisou interrompê-lo. Seu primeiro livro de poesia, Escombros Floridos, foi publicado em 1921. Nos anos de 1920 a 1950 colaborou nos periódicos Fon-Fon, Careta, Autores e Livros, Para Todos e O Malho. No período, traduziu diversas obras, entre elas Festas Galantes, de Paul Verlaine (1934) e Romeu e Julieta, de Shakespeare, publicada pelo Ministério de Educação e Saúde em 1940. Foi homenageado, em 1955, com o prêmio Machado de Assis, concedido pela Academia Brasileira de Letras para o conjunto de sua obra. Em 1960 publicou o livro de ensaio O Festim, a Dança e a Degolação. Fazem parte de sua obra poética, de tendência simbolista, os livros Perfume e Outros Poemas (1924), Interior e Outros Poemas (1927), Espelho D’água. Jogos da Noite (1931), Poesias (1957) e Poesia (1987). Para Andrade Muricy, "A obra de Onestaldo de Pennafort é de apurado requinte e característica do período já limítrofe com a arrancada modernista, demarcada pela busca de acabamento, possibilitado pelo adestramento da técnica do verso, que apresenta conotações evidentes com as de Eduardo Guimaraens, Cecília Meireles e ainda os gaúchos Reynaldo Moura, Athos Damasceno Ferreira e Teodemiro Tostes, e foi representativo do final do movimento simbolista, que, aliás, não vedou o caminho para as aventuras de vanguarda.".

Cópia

Pelo jeito de andar, modo de olhar,

Como quem olha longamente o mar;

Pelo sorriso que, ao abrir, semelha

Uma rosa entreabrindo-se, vermelha;

Pela boca infantil, quando ela fala,

E quase desdenhosa, quando cala;

Por tudo, enfim, pelos silêncios, gesto,

Ações e pensamentos, a alma e o resto...

Pelo mais que eu não sei, nem saberei,

Meu Deus, ela é a mulher com que eu sonhei!

Salomé

[tradução do poema de Guillaume Apollinaire]

Para que uma vez mais João Batista sorria,

Senhor, eu dançarei melhor que um Serafim.

Mãe, porque estais imersa em tal melancolia,

Vestida de condessa e ao lado do delfim?

Meu coração, só de escutá-lo, quando eu vinha

Dançar junto ao funchal, batia angustiado.

Eu lhe bordara lírios numa bandeirinha

Destinada a flutuar no alto do seu cajado.

E agora, para quem farei lírios bordados?

Seu bordão refloresce às margens do Jordão.

Vieram prendê-o, ó Rei Herodes, teus soldados,

E em meu jardim murcharam lírios deste então.

Vinde todos comigo, além, sob os quincôncios...

Não chores mais, lindo bufão de reis;

Em ver do tirso, empunha esta cabeça e dança!

Mãe, sua fronte frita está. Não lhe toqueis.

Senhor, ide na frente, e que a guarda nos siga.

Abriremos um fosso e nele a enterraremos

Entre flores, e, em roda, em torno dançaremos,

Dançaremos até que eu perca a minha liga,

O rei a tabaqueira,

A infanta o seu rosário,

O cura o seu breviário.

Canção

Quando murmuro teu nome,

A minha voz se consome

Em ternura e adoração.

Quando teus olhos me olham,

Parece que se desfolham

As rosas de algum jardim.

Ó meu amor, se é preciso

Eu direi que o teu sorriso

É doce como um olhar.

Mas é preciso que eu diga,

Ó minha suave amiga,

Isso que sinto e tu vês,

Mas é preciso que eu diga?

Cabaret

Naquela noite

Quando eu entrei

Havia a um canto da sala

Uma mesa

Uns olhos

E a mulher

Eu procurei afogar no copo

A tristeza de não ser como qualquer

Desses que vão para se distrair

E se distraem

Dos que no meio da alegria coletiva

Não se entristecem

Dos que não procuram deliberadamente o prazer

E o encontram

Dos que nasceram simplesmente para viver

Do que não detêm diante de um espelho

A olhar com piedade a triste figura

Procurando debalde acordar a criança

Que chorava se lhe batiam

Dos que olham para um copo vazio

Indiferentes como se olhassem

Para um copo cheio

E com o mesmo olhar

Do que vêem as nuvens se avolumarem

Tragicamente

E pensam somente que vai chover

Dos que dançam

Porque não sabem

Como é terrível

Sem ouvir música

Ver dançar de longe

A música vinho entornado

Do trombone tombou no chão

Esborrachada

As notas escorregavam

Pelos decotes abaixo

Como sorvete

E as pernas se abriam

Esvaziaram-se todos os copos

O vinho foi todo para os olhos

Os olhos contaram

Os corpos

Os trocos

E os copos

As bocas espiavam

Chamando

Eu por mim fui

O dia que a lua velava

Tinha nascido morto

Cavaleiro Andante

Se vais em busca da Fortuna, pára:

Nem dês um passo de onde estás... Mais certo

É que ela venha ter ao teu deserto,

Que vás achá-la em sua verde seara.

Se em busca mais do Amor, volta e repara

Como é enganoso aquele céu aberto:

Mais longe está, quando parece perto,

E faz a noite da manhã mais clara.

Deixa a Fortuna, que te está distante,

E deixa o Amor, que teu olhar persegue

Como perdido pássaro sem ninho.

Mas, ó sombrio cavaleiro andante,

Se vais em busca da Tristeza, segue,

Que hás de encontrá-la pelo teu caminho!

 

 

 

 

 

 

 

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NESTOR VÍTOR

O Poeta Negro

Cruz e Sousa, negro sem mescla, foi uma cerebração de primitivo genial, foi como que a revivescência de um núbio contemporâneo de Davi ou ao menos de Salomão, senão já educado à luz franca dos princípios mazdianos, mas que houvesse renascido no Ocidente e se desenvolvesse num meio cuja civilização é toda de empréstimo, já capaz de inspirar grandes requintes a um artista, porém no fundo ainda por modo muito falseado e ingênuo.

A visão de Cruz e Sousa, no que ele oferece de mais característico, é sem medida, sem precisão, chega a ser muitas vezes desconforme, - é oriental, - entretanto que a língua por ele para si criada dentro do idioma português é dúctil, é musical como até então não fora, é colorida, e, - o que mais admira, - é matizada, é nuançada como ainda se não manifestara. Não há nisso, porém contradição, porque ela assim é principalmente no que afeta os cinco sentidos. Cruz e Sousa revela-se, como artista, sobretudo um sensual, na acepção lata da palavra, o que é tão lógico tratando-se de uma natureza de primitivo, ainda mais se africano.

Emiliano Perneta

Emiliano Perneta é verdadeiramente um extraordinário causer. Mas o que há de mais raro naquele talento de causerie, que lhe é próprio, é capacidade que ele tem de levantar momentaneamente à altura da atmosfera em que se libra seu espírito quem quer que o escute, a não ser um completo bolônio. E mais, é ele interessar - não importa quem - pelos objetos do seu interesse, dele, que é sempre um fino intelectual, curioso por todas as coisas, é certo, com uma visão segura como todos os grandes talentos possuem, mas incapaz de apartar-se dos pontos de vista que não são os seus, para falar de uma flor, como para discorrer sobre política, para queixar-se do frio que está fazendo ou do estado dos negócios no momento presente. O que nunca mais vi, sobretudo, foi outrem realizar o milagre que ele realiza, despertando, não importa em que natureza de qualquer dos seus interlocutores, as afinidades latentes que existam entre eles e a sua individualidade, dando-lhes com isso, não raro, pela primeira vez, o sentimento de uma superioridade que eles ignoravam existir em si, até de certa aristocracia intelectual, - mero reflexo, comumente, da que nele se revela, mas que, enquanto a ilusão não passa, soergue os mais modestos e despretensiosos dos seus companheiros de ocasião, nascendo desse fenômeno singular a simpatia única e inevitável que aquele homem infunde em quem quer que com ele assim se relacione. Não é apenas simpatia, mas também um sentimento de admiração que, como aquela, é capaz de resistir depois às provas e embates acaso opostos aos impulsos do começo.

Luís Delfino

Luís Delfino não é apenas um bom poeta; tem a grande lira. Ele já nos dá o êxtase. Ás vezes faz-nos a ilusão da própria Natureza a cantar; em sua voz, como nas rapsódias de Homero, entreouve-se Pã.

É um Lecomte de Liste tropicalizado, americanizado, abrasileirado, quer dizer monstruoso - disformado, inferiorizado em muitos pontos, como nós somos inferiores ao francês - mas, por outros aspectos, mais vasto, mais curioso, mais homem, superior, portanto, pelo cálido destas zonas, pela virgindade desta natureza, pelo tenro desta nossa civilização, pelo ainda incomensurável do nosso horizonte.

Ele oferece o flagrante da gestação do nosso gênio: é um pouco caos, é aurora um pouco, é feito de inconsciência em parte, e tem algo daquele alvoroço ingênuo de quem subitamente se surpreendesse a viver.

F. Nietzsche

Nietzsche é o sentimento da probidade intelectual levada à loucura. Depois de nos havermos encontrado com ele, qual de nós que não se sente mais ou menos cabotino?

Mas não é a cabotinagem, quer dizer, o sentimento verbal, o característico destes quatro últimos séculos da nossa civilização? Não é o irreligiosismo que teme reconhecer-se como tal, o decrescimento do entusiasmo organicamente vital, o caminhar lento, preguiçoco mas positivo para um niilismo a que aspiramos sem nele pensar, de um modo inteiramente instintivo, - não é isto que resume a história do mundo ocidental, da Renascença para cá?

(...)

O próprio Nietzsche o reconhece: ele próprio ri de si mesmo, “com as pernas para cima da cabeça”, e aconselha os outros a rirem-se assim. Apenas, nele este riso é convulsivo, é de louco: é justamente o que o separa do cabotino. O cabotino é um idiota que anda fazendo de louco; Nietzsche é um louco que às vezes quer fazer de idiota.

(...)

E essa necessidade do niil, que de cada vez mais se acentua que poder ser senão a súmula, a conseqüência geral dessa boêmia em que andam os nossos mais profundos sentimentos humanos?

(...)

Nietzsche, por outro lado, tem a consciência da grandeza humana; mas sistematicamente não quer lembrar-se da relatividade dessa grandeza, ou, pelo menos, do nada que ela representa em face do universo, ou se dela se lembra é pra que o sentimento disso ainda msi estimule o ardor, dando-lhe como que a volúpia do risco, levando-o a constituir-se o realizador do mais supremo heroísmo intelectual de que reze, talvez, a história até hoje.

Morte Póstuma

Et vraiment quand la mort viendra que reste-t-il?
P. Verlaine

D'esses nós vemos: lá se vão na vida,
Olhos vagos, sonâmbulos, calados;
O passo é a inconstância repetida,
E os sons que têm são como que emprestados.

— Dia de luz. – Respiração contida
Para encontrá-los despreocupados,
Aí vem a morte, estúpida e bandida,
Rangendo em seco os dentes descarnados.

Mas embalde ela chega, embalde os chama:
Ali não acha nem de longe aqueles
Grandes assombros que aonde vai derrama!

E abre espantada os cavos olhos tortos:
Vê que se eles têm os olhos vítreos, que eles...

Eles já estão há muito tempo mortos!

A Cruz e Sousa+

Não gemem na minh’alma árias langue de morte,

Antes vibram clarins e há alvoroços de guerra;

Somente, um tal tremor faz-me vibrar tão forte

Que sou, todo, um soluço a ansiar sobre a Terra!

Não! Os que, como tu, morrem sacramentados

Com a Estrema-Unção da glória, e andaram impolutos,

No casulo do Sonho, esperando, calados,

A Vida após a Morte, a Pompa Real nos Lutos,

Não nos fazem pensar na frialdade ao peito

De uma laje medonha, ao cair exausto:

Vê-se neles o gesto augusto de um Eleito...

Ouvem hosanas no ar, abrem-se céus em faustos!

(...)

(Apostila 10 de Simbolismo - Literatura Brasileira)

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Pedro Kilkerry

(Salvador BA, 1885 - 1917)

Formou-se bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais na Faculdade de Direito da Bahia, em 1913. Na época, já atuava como colaborador das revistas Nova Cruzada, Os Anais, Via Láctea, A Voz do Povo e de vários jornais, entre os quais A Tarde, A Gazeta do Povo e Jornal Moderno, onde publicou a série de crônicas Quotidianas - Kodaks. Foi advogado e escriturário da Repartição de Contabilidade do Tribunal de Contas de Salvador. Poeta simbolista, Kilkerry não publicou livro em vida. Apenas em 1971 ocorreria a publicação póstuma de 36 de seus poemas, no livro ReVisão de Kilkerry, de Augusto de Campos. Para Campos, “Kilkerry não só compreendeu mais conscientemente que outros simbolistas o papel desempenhado na criação pelo subconsciente - mais tarde supervalorizado pelo Surrealismo - como soube levar mais longe a liberdade de associação imagética. Por outro lado, a capacidade de síntese, assim como a consciência das limitações da sintaxe ordinária, são mais agudas em Kilkerry do que em qualquer outro poeta do nosso Simbolismo”.

Sob os Ramos

É no Estio. A alma, aqui, vai-me sonora,
No meu cavalo — sob a loira poeira
Que chove o sol — e vai-me a vida inteira
No meu cavalo, pela estrada afora.

Ai! desta em que te escrevo alta mangueira
Sob a copada verde a gente mora.
E em vindo a noite, acende-se a fogueira
Que se fez cinza de fogueira agora.

Passa-me a vida pelo campo... E a vida
Levo-a cantando, pássaros no seio,
Qual se os levasse a minha mocidade...

Cada ilusão floresce renascida;
Flora, renasces ao primeiro anseio
Do teu amor... nas asas da Saudade!

[Essa, que paira em meus sonhos]

Essa, que paira em meus sonhos,
Em meus sonhos a brilhar,
E tem nos lábios risonhos
O nácar do Iônio — Mar —
Numa fantasia estranha,
Estranhamente a sonhei
E de beleza tamanha,
Enlouqueci. É o que sei.
Ela era, em plaustro dourado
Levado de urcos azuis,
De Paros nevirrosado,
Ombros nus, os seios nus...
E que de esteiras de estrelas,
De prásio, opala e rubim!
Na praia perto, por vê-las
Vi que saltava um delfim
Que longamente as fitando
Alçou a cauda, a tremer
E outros delfins, senão quando
Aparecer.

Cetáceo

Fuma. É cobre o zenite. E, chagosos do flanco,
Fuga e pó, são corcéis de anca na atropelada.
E tesos no horizonte, a muda cavalgada.
Coalha bebendo o azul um largo vôo branco.

Quando e quando esbagoa ao longe uma enfiada
De barcos em betume indo as proas de arranco.
Perto uma janga embala um marujo no banco
Brunindo ao sol brunida a pele atijolada.

Tine em cobre o zenite e o vento arqueja e o oceano
Longo enfroca-se a vez e vez e arrufa,
Como se a asa que o roce ao côncavo de um pano.

E na verde ironia ondulosa de espelho
Úmida raiva iriando a pedraria. Bufa
O cetáceo a escorrer d'água ou do sol vermelho.

Ritmo Eterno

Abro as asas da Vida à Vida que há lá fora.
Olha... Um sorriso da alma! — Um sorriso da aurora!
E Deus — ou Bem! ou Mal — é Deus cantando em mim,
Que Deus és tu, sou eu — a Natureza assim.

Árvore! boa ou má, os frutos que darás
Sinto-os sabendo em nós, em mim, árvore, estás.
E o Sol, de cujo olhar meu pensamento inundo,
Casa multiplicando as asas deste mundo...

Oh, braços para a Vida! Oh, vida para amar!
Sendo uma onda do mar, dou-me ilusões de um mar...
Alvor, turquesa, ondula a matéria... É veludo,

É minh'alma, é teu seio, e um firmamento mudo.
Mas, aos ritmos da Terra, és um ritmo do Amor?
Homem! ouve a teus pés a Natureza em flor!

É o Silêncio...

É o silêncio, é o cigarro e a vela acesa.
Olha-me a estante em cada livro que olha.
E a luz nalgum volume sobre a mesa...
Mas o sangue da luz em cada folha.

Não sei se é mesmo a minha mão que molha
A pena, ou mesmo o instinto que a tem presa.
Penso um presente, num passado. E enfolha
A natureza tua natureza.
Mas é um bulir das cousas... Comovido
Pego da pena, iludo-me que traço
A ilusão de um sentido e outro sentido.
Tão longe vai!
Tão longe se aveluda esse teu passo,
Asa que o ouvido anima...
E a câmara muda. E a sala muda, muda...
Afonamente rufa. A asa da rima
Paira-me no ar. Quedo-me como um Buda
Novo, um fantasma ao som que se aproxima.
Cresce-me a estante como quem sacuda
Um pesadelo de papéis acima...

..........................................

E abro a janela. Ainda a lua esfia
Últimas notas trêmulas... O dia
Tarde florescerá pela montanha.

E oh! minha amada, o sentimento é cego...
Vês? Colaboram na saudade a aranha,
Patas de um gato e as asas de um morcego.

Vinho

Alma presa da Grécia, em prisão de turquesa!
Vibre a Vida a cantar nessas taças à Vida,
Como, dentro do Sangue, a Alma da Natureza
— Num seio nu, num ventre nu, — ferve incendida!

Vinho de Cós! e quente! a escorrer sobre a mesa
Como um rio de fogo, onde vela perdida,
Braço branco, embalada à flor da correnteza,
Floresce ao sol, floresce à luz, floresce à Vida!

Oh! benvinda; benvinda essa vela que chega!
Nau de rastro que traz a ilusão de uma grega
Descerrando à Volúpia a clâmida aquecida...

Vinho de Cós! vinho de Cós! e os nossos olhos
De Virgílios a errar entre vagas e escolhos,
Argonautas de Amor sobre os mares da Vida!

Evoé

Primavera! — versos, vinhos...
Nós, primaveras em flor.
E ai! corações, cavaquinhos
Com quatro cordas de Amor!

Requebrem árvores — ufa! —
Como as mulheres, ligeiro!
Como um pandeiro que rufa
O Sol, no monte, é um pandeiro!

E o campo de ouro transborda...
Ó Primavera, um vintém!
Onde é que se compra a corda
Da desventura, também?

Agora, um rio, água esparsa...
Nas águas claras de um rio,
Lavem-se penas à garça
Do riso, branco e sadio!

E o dedo estale, na prima...
Que primaveras, e em flor!
Ai! corações, uma rima
Por quatro versos de Amor!

Floresta Morta

Por que, à luz de um sol de primavera
Uma floresta morta? Um passarinho
Cruzou, fugindo-a, o seio que lhe dera
Abrigo e pouso e que lhe guarda o ninho.

Nem vale, agora, a mesma vida, que era
Como a doçura quente de um carinho,
E onde flores abriam, vai a fera
— Vidrado o olhar — lá vai pelo caminho.

Ah! quanto dói o vê-la, aqui, Setembro,
Inda banhada pela mesma vida!
Floresta morta a mesma coisa lembro;

Sob outro céu assim, que pouco importa,
Abrigo à fera, mas, da ave fugida,
Há no peito uma floresta morta.

O Verme e a Estrela

Agora sabes que sou verme.
Agora, sei da tua luz.
Se não notei minha epiderme...
É, nunca estrela eu te supus
Mas, se cantar pudesse um verme,
Eu cantaria a tua luz!

E eras assim... Por que não deste
Um raio, brando, ao teu viver?
Não te lembrava. Azul-celeste
O céu, talvez, não pôde ser...
Mas, ora! enfim, por que não deste
Somente um raio ao teu viver?

Olho, examino-me a epiderme,
Olho e não vejo a tua luz!
Vamos que sou, talvez, um verme...
Estrela nunca eu te supus!
Olho, examino-me a epiderme...
Ceguei! ceguei da tua luz?

Horas Ígneas

I
Eu sorvo o haxixe do estio...
E evolve um cheiro, bestial,
Ao solo quente, como o cio
De um chacal.

Distensas, rebrilham sobre
Um verdor, flamâncias de asa...
Circula um vapor de cobre
Os montes — de cinza e brasa.

Sombras de voz hei no ouvido
— De amores ruivos, protervos —
E anda no céu, sacudido,
Um pó vibrante de nervos.

O mar faz medo... que espanca
A redondez sensual
Da praia, como uma anca
De animal.
II
O Sol, de bárbaro, estangue,
Olho, em volúpia de cisma,
Por uma cor só do prisma,
Veleiras, as naus — de sangue...
III
Tão longe levadas, pelas
Mãos de fluido ou braços de ar!
Cinge uma flora solar
— Grandes Rainhas — as velas.
Onda por onda ébria, erguida,
As ondas — povo do mar —
Tremem, nest'hora a sangrar,
Morrem — desejos da Vida!
IV
Nem ondas de sangue... e sangue
Nem de uma nau — Morre a cisma.
Doiram-me as faces do prisma
Mulheres — flores — num mangue...

(Apostila 12 de Simbolismo - Literatura Brasileira)

 

 

 

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PÉTHION DE VILLAR

Pethion de Villar, pseudônimo de Egas Moniz Barreto de Aragão, nascido a 4 de Setembro de 1870, no Solar de seus pais e antepassados, no Largo S.Pedro Velho 36 (Hoje Avenida Sete 64).Filho de Francisco Moniz Barreto de Aragão ( 1846-1922 ) e Ana de Lacerda Moniz de Aragão (1850 - 1946). Faleceu no mesmo Solar em 18 de Novembro de 1924. No ano de 1895 doutoro-se na mais antiga escola superior do Brasil., a celebre Faculdade De Medicina da Bahia, hoje integrada à UFBA, defendendo a Tese Síntese da Medicina. Passou a vida lecionando e clinicando e acima de tudo sendo Poeta. Foi um dos fundadores da Academia de Letras da Bahia, ocupando a Cadeira numero 13 tendo como patrono Francisco Moniz Barreto, repentista baiano do inicio do Século XIX .Deixou extensa bibliografia cientifica, literária e filosófica, hoje relacionada num livro “Breve Introdução Sobre Pethion de Villar” editado pelo neto João Augusto Didier, Juiz Federal, já falecido. Entretanto de referência a ars poetica, em vida publicou apenas um folheto com 39 páginas sob o titulo “Suprema Epopéia”.

A Radiofonia

(aos bons amigos da SPE, Praia-Vermelha)

Salve! Bem mereceis os versos que irradia

O Broadcasting ideal da eterna Poesia,

Dessa que se não dobra às modas nem às leis

E pelo coração, só, pode ser sintonizada...

Salve! Patrícios meus, denodados pioneiros

Da Radiofonia,

Salve! Bem mereceis, amigos meus, bem mereceis,

Pela vossa tarefa abençoada,

Os aplausos e a gratidão de tantos Brasileiros!

Alô! Alô! Alô! Praia-Vermelha

Que, só pelo poder de uma centelha

Elétrica, através do céu profundo,

Vais levando, a trezentos mil quilômetros,

Todas as vibrações da voz humana.

A orquestração de toda a natureza!

Que formidável força soberana,

Que inaudita grandeza

Não encerra

Essa onda hertziana,

Noite e dia a espalhar mais veloz do que o vento,

De alma em alma, de lar em lar, de terra em terra,

A semente ideal do Pensamento!

É o símbolo real da Liberdade:

Nada lhe impede as triunfais viagens...

Zomba da tempestade,

As cerrações mais negras desafia,

E entre duas voragens,

-A voragem dos céus e a voragem dos mares, -

E quanto mais sombria

Desdobra o manto, quanto mais

O tempo se enfarrusca, o céu se irrita,

A vaga desembesta,

E mais rugem no espaço os vendavais,

Estupenda, a vibrar na abóbada infinita,

Possante tanto mais se manifesta

A onda paradoxal, filha do raio,

Irmã gêmea da Luz!

O gênio de Hertz, Branly, Marconi, celebrai-o

Poetas do Universo,

Celebrai-o no verso que traduz,

Muito melhor do que a rasteira prosa,

Do nosso coração a voz misteriosa,

As irradiações supremas de nossa alma!

Da paz na quadra harmoniosa e calma,

Na escuridão mais trágica da guerra,

No vale, na montanha,

Na mata, no deserto, em pleno mar,

No remanso do lar, essa onda fiel nos acompanha,

-Inefável viático do amor!-

E sentimos, então,

Que outros corações repetem, solidários

Na alegria e na dor,

O mesmo palpitar do nosso coração,

Na aspérrima subida,

A subida perpétua aos perpétuos calvários

Da vida!...

Salve! Bem mereceis os versos que irradia

O Broadcasting ideal da eterna Poesia

Dessa que não se dobra às modas nem às leis

E pelo coração, só, pode ser sintonizada...

Salve! Patrícios meus, denotados pioneiros

Da Radiofonia,

Salve! Bem mereceis, amigos meus, bem mereceis,

Pela vossa tarefa abençoada,

O aplauso e a gratidão de tantos brasileiros!

Soneto Para o Século XX

Dizem que a arte de Goethe é uma arte anacrônica

Coeva do mamute e das larvas primárias;

Que Homero não passou de uma abantesma trágica

Vislumbrada através de névoas milenárias;

Dizem que todos nós lembramos uns ridículos

Idólatras senis de coisas funerárias,

E andamos a colher - incuráveis maníacos -

Em cinzas hibernais, flores imaginárias;

Dizem que a Poesia há muito está cadáver;

Que a Rima faz cismar num guiso de funâmbulo

Monótono, a tinir no trampolim do Verso...

Que importa? Se a bendita, essa loucura mística

Entorna em nossa Mágoa o leite do papáver

E abre à nossa volúpia o azul de outro Universo?

A Eterna Incógnita


Donde venho? Quem sou? Que faço aqui no mundo?
Por que vivo na Terra e não em Sírio ou Marte?
Talvez sou de algum deus a monstruosa parte?
Ou o Antropóide vil, filho do lodo imundo?

Sei tudo e nada sei; vazio o Céu profundo!
- “Ama”; - pede Jesus; - “Pensa, ” manda Descarte
Do formidável X tentando ver o fundo,
Noite e dia a Ciência às descobertas parte!...

Interrogo ansioso à Natureza inteira
E indiferente e má, cala-se a Natureza...
Nem um raio de luz dentro desta caveira!...

Existência fatal que me abate e me eleva,
Não passar de uma torva e estúpida surpresa,
E da Treva sair para voltar à Treva!...

Homenagem

Ao talento musical da jovem e eximia

pianista, a Exma Sra. Dona MARIA

ROMANA MONIZ DE ARAGÃO.

IMPROVISO


Tocas - vibra em o piano uma alma, fala e pensa!
Tocas - quanta expressão, meu Deus!...que sentimento
Palpita em cada nota !...o mágico instrumento
Soluça - voz de poeta a gaguejar imensa

Tocas - como um casal de garças que, fugindo,
Das plumas soltas a voar mil pérolas.....assim
Ruflam-te as alvas mãos no lago de marfim,
Pe’o teclado em fóra - acordes sacudindo.

Tocas - mochos revoam, espalham-se assustados,
Da harmonia ao açoite, os meus negros cuidados!...
Tocas - brilha o luar, desfaz-se a escuridão

Que a vida.........................
Oh!... toca mais !...ouvindo-te suave
Esqueço-me do mundo, ergo-me, torno-me ave,
Abro as asas e, vôo bem longe...na amplidão...

Um laço de Fita

.
Preso em negra madeixas perfumosa,
Provocante mimoso , ontem eu via,
Refreando do cacho a rebeldia
Um lacinho de fita cor de rosa

A lirial criança que o trazia
Valsando, cair deixa-o descuidadosa;
Apanhei-o veloz - Coisa espantosa ! -
Laçou-me o laço a alma ! ... quem o diria !

Laçou-me o coração e já o elo queima...
Em vão partí-lo tento; a minha teima
Mais aperta a laçada. Coitadinho !

Desde então, réu de amor, vivo amarrado
Sem vontade sem forças condenado
A ser galé perpétuo de um lacinho !

A Alma Verde

Às vezes, alta noite, à boca da floresta
Cheia de uivos de amor e de berros ferozes,
Como a voz do oceano aterradora e mesta,
Levanta-se uma voz feita de cem mil vozes;

E essa voz que amedronta o coração mais forte
E como harpas de ouro ao mesmo tempo enleva,
De galho em galho vai, como um grito de morte,
Espalhando o terror atávico da Terra !...

Desembesta o tapir que o pânico escorraça;
Enrosca-se a jibóia, o jaguar sente medo,
Na escuridão da loca o Índio acuado espia...

Tudo se encolhe, treme, espera, silencia,
Da pluma dos bambus à aresta do rochedo...
É a alma da floresta - a Alma Verde que passa !

No Reverso de um Cromo

.

A UMA SENHORA

Em dia de aniversário

Fosse meu verso aroma e a frase fosse flor,
Tivesse o verso meu mil formas peregrinas,
E a minha tosca rima o brilho, a tinta, o odor
Das rosas, dos jasmins dos cravos, das boninas;

Então Senhora, então formosa, um ramo cheio
De essências tropicais, de um gosto transcendente,.
Com a devida vênia e sem nenhum receio,
Eu vos daria hoje, ufano e alegremente.

Mas como do poeta as vozes langorosas,
Não podem transforma-se em flores, em perfumes
E a rima não possui o trescalar das rosas,
E a estrofe não contém da natureza os lumes;

Aceitai entretanto estas linhas sem cor,
Tal como esse buquê de violetas...Cai-me
Do lábio um riso - é pobre o mimo e sem valor, -
Mas é de coração, Senhora ! Desculpai-me

Bilhete Postal

( A ELA )

Tudo trai a paixão quando se ama...
E tu não me amas, sim! Posso-o jurar !
Não, a santa loucura não te inflama.
Não, tu não sabes o que seja amar.

Tu não me tens amor, pra que o negar ?
Em vão teu lábio fala - não exclama ;
Falas-me, e não radia o teu olhar
O fogo interno que o amor derrama.

Por que me foges ? dize-me , não sentes
Pulsar-te um coração ? mas que receio
Assim te faz gestos indiferentes ?

És bela, vem eu morro de desejos,
Por que negar-me o ninho de teu seio ?
Por que fechar-me a porta de teus beijos ?

Ilusões Perdidas

IMPROVISO

Ao Dr. Cruz Abreu

.
Eu sonhava ! eu sonhava ! Assim como falenas
Que o sopro da tormenta espanta em revoadas
As minhas ilusões tão puras, tão serenas.
Fugiram-me uma a uma, à toa dispersadas...

Eu sonhava ! eu sonhava ! Adeus risos doirados
Devaneios de amor, suaves pensamentos !...
Adeus ! no meu passado eu vejo-vos tombados,
Murchos como os rosais dos fortes ventos !..

Ilusões ! Ilusões ! oh ! borboletas da alma !
Voltai de novo ! Sim ! trazei-me a calma
De meus sonhos!...Tornai oh ! loucas peregrinas !...

Mas não ! É tarde ! Adeus...Na minha fonte pensa
Cai-me um crepe sombrio, essa tristeza imensa
De um amor que se esb’roa em lúgubres ruínas !

Os Conquistadores

(EM VERSOS BRASILEIROS)

Sobre o dorso indomável dos vagalhões titânicos,
Ao rugir das borrascas que o vendaval assanha,
As velhas naus bojudas vão, de quilhas sonâmbulas,
Arrastadas na treva por uma força estranha

Ao glauco reverbero do vasto mar dos trópicos
Homens vestidos de aço que a vitoria acompanha,
Se debruçam na amura, serenos e nostálgicos,
Do horizonte, sem medo, sondando a verde entranha.

Desce a noite funérea : longínquas vozes épicas
Ouvem eles, cantando, seguindo na ardentia
Das treze caravelas perdidas e fantásticas...

Dentro do grande sonho dos loucos e dos místicos,
Que lhes importa a Morte; de rota noite e dia
Para o Desconhecido que além dorme nas tênebras ?!

A Floresta

Paira em roda, o terror, do abismo de folhagem,
Que do monte ultrapassa a majestosa espalda.
Onde ronca o tapir como um trovão selvagem
E dorme o beija-flor lhamado de esmeralda;

As verdes catedrais das espargem
Um cheiro agreste e bom, que os corações escalda,
Canta-lhe dentro à orquestra invisível d’aragem,
Anda-lhe dentro a luz que assombros mil sofralda.

Falenas douro e ônix, catadupas de flores,
Serpentes colossais, asas versicolores...
Que mistérios sem conta a mata não encobre !

Homens rudes e nus, de pele cor de cobre,
De olhar mal assombrado e de pemas na testa,
Lento, saindo vão da boca da floresta.

O Autóctone

“Pa xé tan tan ajuca atupave !”

( Língua tupi )

Mata virgem. O sol, teimoso e ardente, em balde,
Como um gavião de fogo, as ramagens belisca;
Num pau d’arco por entre as flores cor de jalde
O caboclo vislumbra alva araponga arisca.

Como um topázio vivo um beija-flor corisca,
Muito embora a “cauã” bravia asas desfralde ;
E um casal de “sofrês” beijos num falho arrisca,
Sem que dest’almo idílio o bom selvagem malde...

Súbito o Índio bem perto ouve espantosa bulha ;
Da capoeira , a rugir, salta enorme onça negra,
De pelo de cetim, com manchas d’ouro fosco.

Do brasileiro o sangue indômito borbulha :
Encara a fera, e a rir, - tão bela presa o alegra -
Rapidamente verga o arco emplumado e tosco

O Último Pajé

Cheio de angústia e de rancor, calado,
Solene só, a fronte carrancuda,
Morre o velho Pajé crucificado
Na sua dor tragicamente muda.

Vê-se-lhe aos pés, disperso e profanado,
O troféu dos avós : a flecha aguda,
O terrível tacape ensangüentado,
Que outrora erguia aquela mão sanhuda.

Vencida a sua raça tão valente,
Errante, perseguida cruelmente,
Ao estertor das matas derrubadas !

“Tupã mentiu” e erguendo as mãos sagradas,
Dobra o joelho e a calva sobranceira
Para beijar a terra brasileira.

O Paraguaçu

Ao Pacheco de Miranda Filho

Depois de ínvios sertões, broncos atravessar,
Refletindo , fugaz, paisagens encantadas,
Duas pérolas, vem, murmurando, beijar,
Perto de sua foz face a face cravadas.

Ora deixa cobrir as costas alentadas
Com púrpuras de sol e caminhos de luar;
Negro como o ciúme, ora à voz das lufadas,
Assanha vagalhões como se fosse um mar...

Faz lembrar este rio, entre verdes fileiras
De bambuais sem fim, de altíssimos palmares
Solenes farfalhando os trêmulos cocares,

Cacique triunfal das tribos brasileiras,
Que entre caboclos vai com as mãos de troféus plenas,
Rojando um manto real de conchas e de penas.

Feitiço

Dizem que há rezas pr’as feitiçarias,
Que em roda viva põem os corações
Raminhos d’alecrim, cruzes, figões,
E outras e outras muitas bruxarias...

Ensinou-me uma velha que deitado,
Alta noite, na estrada, eu me benzesse
Treze vezes, remédio estúpido esse
Que me expõe por maluco a ser pegado !

O Mal existe, existe o tal feitiço,
Porque bem claro em mim o sinto vivo;
O que não acho é quem me livre disso,

Toda ciência pra salvar-me é pouca...
Só conheço um remédio decisivo :
Um beijo ! um beijo só de sua boca !

Lebewohl

Noct. Fis. Moll . Opus 48

CHOPIN

Riu-me, e no entanto a dor me abrolha a alma
Pulsa-me o coração e sinto o corpo exangue :
Há gritos de agonia em minha voz tão calma ;
Em meu olhar tão puro há lágrimas de sangue.

Venho dizer-te adeus ! Como me olhas serena !...
Sempre a mesma ! Tranqüila, indiferente e fria !...
Vai findar-se a comédia , é a última cena ...
Mas antes de partir , ouve bem ! Se algum dia,

Domar-te enfim o amor num veemente anseio
Quebrando aos pés de um homem o teu busto heril de aço
Pede a Deus que ele te ame e também de abra o seio .

Tu que fostes pr’a mim, tão cruel, pede a Deus
Que nunca junto a ele , apoiada a seu braço,
Sofras o que sofro ao dizer-te este adeus !

Lira Moderna - Diário de Notícias

COVAS

Morreu meu coração !... Dobram finados
As Rimas e a Quimera e a Poesia,
Lenços batem nos olhos ensopados,
De uma enorme saudade na Agonia...

Coitado ! era tão bom, tão meigo !...e o pranto
Dos Versos cresce, o Poema se debruça
Sobre o leve caixão e abraça-o, enquanto
A Musa ajoelhada ora e soluça.

Lá sai o enterro... a um canto do teu rosto,
Naquela cova desce ; foi seu gosto
Repousar onde achara a perdição.

Ri agora baixinho ! o riso acorda
Os mortos e o teu riso me recorda
Que ali dorme meu pobre coração...

Lira Moderna 2 - Diário de Notícias

RESPOSTA

Não te conheço, sim, mas, no entretanto,
Há um pressentimento que me diz
Que és aquela Mulher por quem eu tanto
Chamei outrora para ser feliz...

Feliz ...Ah ! que ironia ! Se soubesses
Toda a história fatal de minha vida :
É tarde ! a soluçar talvez dissesses,
Minha doce e gentil desconhecida !

Vê se me esqueces pois ! As infernais,
Mágoas que vela a custo o meu segredo
Quando as souberes hão de te afastar.

Oh ! eu já amei e já sofri demais !
De sofrer ainda mais não tenho medo,
Mas tenho medo de outra vez amar

(Apostila 13 de Simbolismo - Literatura Brasileira)