Pré modernismo

10/05/2015 09:00

ORFEU SPAM APOSTILAS

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AUGUSTO DOS ANJOS

Idealismo

Falas de amor, e eu ouço tudo e calo
O amor na Humanidade é uma mentira.
É. E é por isto que na minha lira
De amores fúteis poucas vezes falo.

O amor! Quando virei por fim a amá-lo?!
Quando, se o amor que a Humanidade inspira
É o amor do sibarita e da hetaíra,
De Messalina e de Sardanapalo?

Pois é mister que, para o amor sagrado,
O mundo fique imaterializado
— Alavanca desviada do seu fulcro —

E haja só amizade verdadeira
Duma caveira para outra caveira,
Do meu sepulcro para o teu sepulcro?!

O deus-verme

Factor universal do transformismo.
Filho da teleológica matéria,
Na superabundância ou na miséria,
Verme — é o seu nome obscuro de batismo.

Jamais emprega o acérrimo exorcismo
Em sua diária ocupação funérea,
E vive em contubérnio com a bactéria,
Livre das roupas do antropomorfismo.

Almoça a podridão das drupas agras,
Janta hidrópicos, rói vísceras magras
E dos defuntos novos incha a mão...

Ah! Para ele é que a carne podre fica,
E no inventário da matéria rica
Cabe aos seus filhos a maior porção!

O morcego

Meia noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vêde:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

"Vou mandar levantar outra parede..."
— Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o tecto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!

Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh'alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!


A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!

Plenilunio

Desmaia o plenilúnio. A gaze pálida
Que lhe serve de alvíssimo sudário
Respira essências raras, toda a cálida
Mística essência desse alampadário.

E a lua é como um pálido sacrário,
Onde as almas das virgens em crisálida
De seios alvos e de fronte pálida,
Derramam a urna dum perfume vário.

Voga a lua na etérea imensidade!
Ela, eterna noctâmbula do Amor,
Eu, noctâmbulo da Dor e da Saudade.

Ah! como a branca e merencórea lua,
Também envolta num sudário — a Dor,
Minh'alma triste pelos céus flutua!

Versos a um cão

Que força pode, adstricta a ambriões informes,
Tua garganta estúpida arrancar
Do segredo da célula ovular
Para latir nas solidões enormes?!

Esta obnóxia inconsciência, em que tu dormes,
Suficientíssima é, para provar
A incógnita alma, avoenga e elementar
Dos teus antepassados vermiformes.

Cão! — Alma de inferior rapsodo errante!
Resigna-a, ampara-a, arrima-a, afaga-a, acode-a
A escala dos latidos ancestrais. . .

E irá assim, pelos séculos, adiante,
Latindo a esquisitíssima prosódia
Da angústia hereditária dos seus pais!

Budismo moderno

Tome, Dr., esta tesoura, e... corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo o meu coração, depois da morte?!

Ah! Um urubu pousou na minha sorte!
Também, das diatomáceas da lagoa
A criptógama cápsula se esbroa
Ao contato de bronca destra forte!

Dissolva-se, portanto, minha vida
Igualmente a uma célula caída
Na aberração de um óvulo infecundo;

Mas o agregado abstrato das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do último verso que eu fizer no mundo!

Agonia de um filósofo

Consulto o Phtah-Hotep. Leio o obsoleto
Rig-Veda. E, ante obras tais, me não consolo...
O Inconsciente me assombra e eu nêle tolo
Com a eólica fúria do harmatã inquieto!

Assisto agora à morte de um inseto!...
Ah! todos os fenômenos do solo
Parecem realizar de pólo a pólo
O ideal de Anaximandro de Mileto!

No hierático areopago heterogêneo
Das idéas, percorro como um gênio
Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!...

Rasgo dos mundos o velário espesso;
E em tudo, igual a Goethe, reconheço
O império da substância universal!

Insânia de um simples

Em cismas patológicas insanas,

É-me grato adstringir-me, na hierarquia

Das formas vivas, à categoria

Das organizações liliputianas;

Ser semelhante aos zoófitos e às lianas,

Ter o destino de uma larva fria,

Deixar enfim na cloaca mais sombria

Este feixe de células humanas!

E enquanto arremedando Éolo iracundo,

Na orgia heliogabálica do mundo,

Ganem todos os vícios de uma vez,

Apraz-me, adstrito ao triângulo mesquinho

De um delta humilde, apodrecer sozinho

No silêncio de minha pequenez!

Asa de corvo

Asa de corvos carniceiros, asa

De mau agouro que, nos doze meses,

Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes

O telhado de nossa própria casa...

Perseguido por todos os reveses,

É meu destino viver junto a esa asa,

Como a cinza que vive junto à brasa,

Como os Goncourts, como os irmãos siameses!

É com essa asa que eu faço este soneto

E a indústria humana faz o pano preto

Que as famílias de luto martiriza...

É ainda com essa asa extraordinária

Que a Morte -- a costureira funerária --

Cose para o homem a última camisa!

Uma noite no Cairo

Noite no Egito. O céu claro e produndo

Fulgura. A rua é triste. A Lua cheia

Está sinistra, e sobre a paz do mundo

A alma dos Faraós anda e vagueia.

Os mastins negros vão ladrando à lua...

O Cairo é de uma formosura arcaica.
No ângulo mais recôndito da rua

Passa cantando uma mulher hebraica.

O Egito é sempre assim quando anoitece!

Às vezes, das pirâmides o quedo

E atro perfil, exposto ao luar, parece

Uma sombria interjeição de medo!

Como um contraste àqueles mesereres,

Num quiosque em festa alegre turba grita,

E dentro dançam homens e mulheres

Numa aglomeração cosmopolita.

Tonto do vinho, um saltimbanco da Ásia,

Convulso e roto, no apogeu da fúria,

Executando evoluções de razzia

Solta um brado epilético de injúria!

Em derredor duma ampla mesa preta

-- Última nota do conúbio infando --

Vêem-se dez jogadores de roleta

Fumando, discutindo, conversando.

Resplandece a celeste superfície.

Dorme soturna a natureza sábia...

Embaixo, na mais próxima planície,

Pasta um cavalo esplêndido da Arábia.

Vaga no espaço um silfo solitário.

Troam kinnors! Depois tudo é tranqüilo...

Apenas como um velho stradivário,

Soluça toda a noite a água do Nilo!

O Martírio do artista

Arte ingrata! E conquanto, em desalento,

A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda,

Busca exteriorizar o pensamento

Que em suas fronetais células guarda!

Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda!

E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento,

Como o soldado que rasgou a farda

No desespero do último momento!

Tenta chorar e os olhos sente enxutos!...

É como o paralítico que, à míngua

Da própria voz e na que ardente o lavra

Febre de em vão falar, com os dedos brutos

Para falar, puxa e repuxa a língua,

E não lhe vem à boca uma palavra!

Monólogo de uma sombra

“Sou uma Sombra! Venho de outras eras,

Do cosmopolitismo das moneras...

Pólipo de recônditas reentrâncias,

Larva de caos telúrico, procedo

Da escuridão do cósmico segredo,

Da substância de todas as substâncias!

A simbiose das coisas me equilibra.

Em minha ignota mônada, ampla, vibra

A alma dos movimentos rotatórios...

E é de mim que decorrem, simultâneas,

A saúde das forças subterrâneas

E a morbidez dos seres ilusórios!

Pairando acima dos mundanos tetos,

Não conheço o acidente da Senectus

-- Esta universitária sanguessuga

Que produz, sem dispêndio algum de vírus,

O amarelecimento do papirus

E a miséria anatômica da ruga!

Na existência social, possuo uma arma

-- O metafisicismo de Abidarma --

E trago, sem bramânicas tesouras,

Como um dorso de azêmola passiva,

A solidariedade subjetiva

De todas as espécies sofredoras.

Como um pouco de saliva quotidiana

Mostro meu nojo à Natureza Humana.

A podridão me serve de Evangelho...

Amo o esterco, os resíduos ruins dos quiosques

E o animal inferior que urra nos bosques

É com certeza meu irmão mais velho!

Tal qual quem para o próprio túmulo olha,

Amarguradamente se me antolha,

À luz do americano plenilúnio,

Na alma crepuscular de minha raça

Como uma vocação para a Desgraça

E um tropismo ancestral para o Infortúnio.

Aí vem sujo, a coçar chagas plebéias,

Trazendo no deserto das idéias

O desespero endêmico do inferno,

Com a cara hirta, tatuada de fuligens

Esse mineiro doido das origens,

Que se chama o Filósofo Moderno!

Quis compreender, quebrando estéreis normas,

A vida fenomênica das Formas,

Que, iguais a fogos passageiros, luzem.

E apenas encontrou na idéia gasta,

O horror dessa mecânica nefasta,

A que todas as coisas se reduzem!

E hão de achá-lo, amanhã, bestas agrestes,

Sobre a esteira sarcófaga das pestes

A mosrtrar, já nos últimos momentos,

Como quem se submete a uma charqueada,

Ao clarão tropical da luz danada,

O espólio dos seus dedos peçonhentos.

Tal a finalidade dos estames!

Mas ele viverá, rotos os liames

Dessa estranguladora lei que aperta

Todos os agregados perecíveis,

Nas eterizações indefiníveis

Da energia intra-atômica liberta!

Será calor, causa ubíqua de gozo,

Raio X, magnetismo misterioso,

Quimiotaxia, ondulação aérea,

Fonte de repulsões e de prazeres,

Sonoridade potencial dos seres,

Estrangulada dentro da matéria!

E o que ele foi: clavículas, abdômen,

O coração, a boca, em síntese, o Homem,

-- Engrenagem de vísceras vulgares --

Os dedos carregados de peçonha,

Tudo coube na lógica medonha

Dos apodrecimentos musculares.

A desarrumação dos intestinos

Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos

Dentro daquela massa que o húmus come,

Numa glutoneria hedionda, brincam,

Como as cadelas que as dentuças trincam

No espasmo fisiológico da fome.

É uma trágica festa emocionante!

A bacteriologia inventariante

Toma conta do corpo que apodrece...

E até os membros da família engulham,

Vendo as larvas malignas que se embrulham

No cadáver malsão, fazendo um s.

E foi então para isto que esse doudo

Estragou o vibrátil plasma todo,

À guisa de um faquir, pelos cenóbios?!...

Num suicídio graduado, consumir-se,

E após tantas vigílias, reduzir-se

À herança miserável dos micróbios!

Estoutro agora é o sátiro peralta

Que o sensualismo sodomita exalta,

Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo...

Como que, em suas clélulas vilíssimas,

Há estratificações requintadíssimas

De uma animalidade sem castigo.

Brancas bacantes bêbadas o beijam.

Suas artérias hírcicas latejam,

Sentindo o odor das carnações abstêmias,

E à noite, vai gozar, ébrio de vício,

No sombrio bazer domeretrício,

O cuspo afrodisíaco das fêmeas.

No horror de sua anômala nevrose,

Toda a sensualidade da simbiose,

Uivando, à noite, em lúbricos arroubos,

Como no babilônico sansara,

Lembra a fome incoercível que escancara

A mucosa carnívora dos lobos.

Sôfrego, o monstro as vítimas aguarda.

Negra paixão congênita, bastarda,

Do seu zooplasma ofídico resulta...

E explode, igual à luz que o ar acomete,

Com a veemência mavórtica do aríete

E os arremessos de uma catapulta.

Mas muitas vezes, quando a noite avança,

Hirto, observa através a tênue trança

Dos filamentos fluídicos de um halo

A destra descarnada de um duende,

Que tateando nas tênebras, se estende

Dentro da noite má, para agarrá-lo!

Cresce-lhe a intracefálica tortura,

E de su’alma na caverna escura,

Fazendo ultra-epiléticos esforços,

Acorda, com os candeeiros apagados,

Numa coreografia de danados,

A família alarmada dos remorsos.

É o despertar de um povo subterrâneo!

É a fauna cavernícola do crânio

-- Macbeths da patológica vigília,

Mostrando, em rembrandtescas telas várias,

As incestuosidades sangüinárias

Que ele tem praticado na família.

As alucinações tácteis pululam.

Sente que megatérios o estrangulam...

A asa negra das moscas o horroriza;

E autopsiando a amaríssima existência

Encontra um cancro assíduo na consciência

E três manchas de sangue na camisa!

Míngua-se o combustível da lanterna

E a consciência do sátiro se inferna,

Reconhecendo, bêbedo de sono,

Na própria ânsia dionísica do gozo,

Essa necessidade de horroroso,

Que é talvez propriedade do carbono!

Ah! Dentro de toda a alma existe a prova

De que a dor como um dartro se renova,

Quando o prazer barbaramente a ataca...

Assim também, observa a ciência crua,

Dentro da elipse ignívoma da lua

A realidade de uma esfera opaca.

Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa,

Abranda as rochas rígidas, torna água

Todo o fogo telúrico profundo

E reduz, sem que, entanto, a desintegre,

À condição de uma planície alegre,

A aspereza orográfica do mundo!

Provo desta maneira ao mundo odiento

Pelas grandes razões do sentimento,

Sem os métodos da abstrusa ciência fria

E os trovões gritadores da dialética,

Que a mais alta expressãoda dor estética

Consiste essencialmente na alegria.

Continua o martírio das criaturas:

-- O homicídio nas vielas mais escuras,

-- O ferido que a hostil gleba atra escarva,

-- O último solilóquio dos suicidas --

E eu sinto a dor de todas essas vidas

Em minha vida anônima de larva!”

Disse isto a Sombra. E, ouvindo estes vocábulos,

Da luz da lua aos pálidos venábulos,

Na ânsa de um nervosíssimo entusiasmo,

Julgava ouvir monótonas corujas,

Executando, entre daveiras sujas,

A orquestra arrepiadora do sarcasmo!

Era a elegia panteísta do Universo,

Na produção do sangue humano imenso,

Prostituído talvez, em suas bases...

Era a canção da Natureza exausta,

Chorando e rindo na ironia infausta

Da incoerência infernal daquelas frases.

E o turbilhão de tais fonemas acres

Trovejando grandíloquos massacres,

Há-de ferir-me as auditivas portas,

até que minha efêmera cabeça,

Reverta à quietação datrava espessa

E à palidez das fotosferas mortas!

(Apostila 1 de Pré-Modernismo - Literatura Brasileira)

 

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“OS SERTÕES”

Dr. Oswaldo Galotti

O livro apresenta 646 páginas e está, pelo índice, dividido em 10 capítulos.

A TERRA (58 páginas)

O HOMEM (149 páginas)

A LUTA (preliminares - 30 páginas)

TRAVESSIA DO CAMBAIO (36 páginas)

EXPEDIÇÃO MOREIRA CÉSAR (65 páginas)

QUARTA EXPEDIÇÃO (45 páginas)

COLUNA SAVAGET (42 páginas)

O ASSALTO (67 páginas)

NOVA FASE DE LUTA (37 páginas)

ULTIMOS DIAS (55 páginas)

A TERRA (58 páginas)

O autor começa descrevendo, geograficamente, o grande maciço central brasileiro para chegar à região do Vaza-Barris, ao norte da Bahia, onde se passou a Campanha de Canudos. Demarca-a, e descreve sua flora, sua formação geológica e a influência do clima. Procura interpretar sua evolução geológica. Estuda-lhe a hidrografia e a conformação orográfica.

Volta a considerar o clima da região expondo uma teoria sobre as secas. Descreve geograficamente as caatingas com toda sua flora específica e a influência que elas sofrem dos climas. Então chega ao “agente geológico notável – o homem que, reagindo brutalmente contra a terra madrasta, vem, historicamente desnudando-o, fazendo desertos.

Considera as maneiras de combater os desertos com açudes, etc. Só assim combateria o martírio que ali sofre o homem e que é conseqüência do “martírio secular da Terra”.

Com a descrição do sertão de Canudos sumaria toda a fisiografia do Nordeste.

O HOMEM (149 páginas)

Inicia, expondo o autoctonismo do “homo americanus”. Depois considera a influência da variabilidade mesológica nos três elementos essenciais de nossa formação étnica, dando a gênesis das sub-raças, mestiças, do Brasil. Daí a heterogeneidade racial brasileira e a impossibilidade de futura unidade de raça entre nós, devido a particularidades específicas de cada elemento formador, tão díspar. Para confirmar sua teoria cita exemplos em nossa História.

Mostra o jagunço em sua gênesis, esparramando-se do Maranhão a Bahia, passando pela gênesis do mulato. Expõe a função histórica do Rio São Francisco na dinâmica social dos jagunços, descendentes de paulistas, e no aparecimento dos vaqueiros que se insularam nas regiões do interior. Nesse ponto surge Canudos, aglomerado de alimentos de uma subcategoria étnica já constituída: o sertanejo do norte. Mas a mistura de várias raças dá o tipo desequilibrado, possuidor da moralidade rudimentar das raças inferiores. Insulados, ficaram porém livres de uma adaptação, penosíssima, a um estágio social superior. Faz análises desses nossos patrocínios: o sertanejo, o gaúcho, estabelecendo comparações entre eles. Fala sobre o jagunço, as vaquejadas, a arribada.

Descreve as tradições dos vaqueiros, o estouro da boiada, o folclore, a influência das secas, a religiosidade mestiça. Conclui que as agitações sertanejas são baseadas no fanatismo. Canudos, por exemplo, é uma agitação nordestina, baseada no fanatismo. Monte Santo já era um lugar lendário. Daquela complexidade étnica e sob aquelas influências ecológicas e sociológicas era inevitável o aparecimento de um Antônio Conselheiro. Fizeram-no santo devido ao seu misticismo estranho, quase um feiticeiro. Ele não deslizou para a loucura, porque o ambiente o amparou, respeitando-o. Antônio Conselheiro descendia de cearenses do norte, de gente arrelienta que há 50 anos sustentava uma rixa de família. Infeliz no casamento-abandonado pela esposa raptada por um policial, e por isso fulminado de vergonha - embrenha-se nos recessos dos sertões, surgindo incógnito, missionário sombrio, no nordeste baiano. Era produto condensado do obscurantismo de três raças, criando em torno de si lendas que se espalhavam por toda aquela imensa região. A Igreja tentou intervir, inutilmente. Canudos, que era um lugarejo obscuro antes da vinda do Conselheiro, revivesse com sua chegada, em 1893, crescendo rapidamente, a pau a pique, chegando a possuir 5000 casas, com 15000 a 20000 habitantes.

Todo sertanejo que ali chegasse tornava-se logo um fanático. E, como muitos deles eram bandidos, saqueavam lugarejos, conquistavam cidades vizinhas, depredando-as. Eram subchefes do Conselheiro; José Venâncio, com 18 mortes; Pajeú e seu ajudante – de – ordens Lalau; Chiquinho e João da Mota, Pedrão, cafuz brutal; Estevão, disforme, tatuado à faca e à bala; Joaquim Tranca-pés; “Major”Sariema; o tragi-cômico Raimundo Boca-Torta, do Itapicuru; o ágil Chico Ema; Norberto; o velho Macambira e seu filho Joaquim; Villa-Nova; a figura ridícula, de mulato espigado, de Antônio Beato, meio sacristão e meio soldado; e o chefe de todos João Abbade. Pregavam contra a República, sem convicção, mais “como variante forçada ao delírio religioso”. Um capuchinho lá estivera para converte-los todos. Nada conseguira. Voltando, amaldiçoa a vida.

A LUTA – PRELIMINARES (30 páginas)

Uma desavença antiga com o Juiz de Direito de Joazeiro e não entrega de madeira adquirida nessa cidade para o remate da igreja nova de Canudos, em outubro de 1896, determinaram uma ameaça de assalto àquela cidade por parte do Conselheiro.

Ameaçados, o Juiz pediu ao Governador do Estado da Bahia auxílio. Foi, então, enviada uma força de cem praças, da guarnição estadual, para bater os fanáticos de Canudos. Essa 1ª Expedição de Canudos foi comandada pelo tenente Manoel da Silva Pires Ferreira, que após longa caminhada bivacou, exausta, em Uauá. Atacada de surpresa pelos soldados de Antônio Conselheiro, abandona a luta. “O revez de Uauá requeria reação segura”. E.C.

A 2ª Expedição, comandada pelo major Febrônio de Brito, da força estadual, veio melhor aparelhada, formada de 543 praças e 3 médicos. Seria a “1ª Expedição regular” contra Canudos. Os fanáticos eram comandados por João Grande, João Abbade, Pahejú, Macambira, pai e filho, José Venâncio e outros.

TRAVESSIA DO CAMBAIO (36 páginas)

A 2ª Expedição fez base em Monte Santo e muito sofreu no ataque planejado, na Travessia do Cambaio, não conseguindo chegar até o arraial de Canudos. Retirou-se em condições penosas.

EXPEDIÇÃO MOREIRA CESAR (3ª expedição) (65 páginas)

A 3ª Expedição, comandada pelo Coronel Antonio Moreira César, mais numerosa e melhor equipada que as duas primeiras, fez base, também, em Monte Santo. Eram 1.300 combatentes, fartamente municiados, com cerca de 350.000 cartuchos e 70 tiros de artilharia. Não passava idéia de alguém um revez. O 1º encontro foi no ribeirão de Pitombas. João Abbade, o “corta-cabeças” , estava no comando da defesa dos jagunços.

Seguiram e fizeram base no alto da favela, defronte Canudos, e daí avançaram sem assegurar a retaguarda ou garantir os pontos perigosos da travessia. Na investida contra a Tróia de taipas dos sertanejos tiveram de recuar. Nessa retirada perderam o comandante Moreira César e pouco mais tarde seu substituto Coronel Tamarindo que os jagunços ergueram, empalado, no galho seco de um angico.

QUARTA EXPEDIÇÃO (45 páginas)

Alarmada com os resultados da luta toda envia batalhões para combaterem os jagunços. Do Rio Grande do Sul, do Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Ceará, Rio de Janeiro, Bahia, etc. seguiram soldados regulares para enfrentar inimigo odioso. Eram 5.000 homens, em 6 Brigadas. As 1ª, 2ª e 3ª Brigadas eram comandadas pelo General João da Silva Barbosa e as 4ª, 5ª e 6ª comandadas pelo General Cláudio do Amaral Savaget. O general Artur Oscar era o comandante em chefe. As duas colunas partiram de pontos diversos e deviam se encontrar em Canudos. Estavam com abundância de material de guerra.

A 1ª expedição foi na frente e tomou o caminho das expedições anteriores. Repetiu-lhes erros. Acampada defronte Canudos sitiou o arraial e, em conjunto com a brigada do General Savaget, investiu-o sem sucesso.

COLUNA SAVAGET (42 páginas)

A coluna do General Savaget parira de Aracajú. Possuía 2.350 homens. De Geremoabo a Canudos fazia marcha esclarecida e firme. A margem do Vasa-Barris deu-se o 1° combate de Cocorobó, que termina com ataque dos lanceiros em formidável carga de baionetas e fuga dos jagunços. No dia seguinte a peleja continua, em combate renhidíssimo (Combate de Macambira) com a morte do Tenente Coronel Sucupira.

Unidas as duas colunas a guerrilha continuou, crônica, em refregas furiosas e rápidas, longas reticências de calma, pontilhadas de balas. Os jagunços atacaram a “matadeira”: 11 fanáticos invadiram o centro do acampamento militar para destruir o canhão “Withworth 32” que eles apelidaram “a matadeira”. Estavam comandados por Macambira. 10 foram mortos a baioneta tendo um escapado miraculosamente, varando as fileiras agitadas. As tropas aguardavam uma briga salvadora.

O ASSALTO (67 páginas)

As duas colunas, reunidas defronte Canudos, resolveram atacar. Delineo-se o ataque. Eram 3.349 homens, divididos em 5 brigadas. Seguiram alta madrugada. Tomaram posição de combate perigosíssima e impraticável. Quando a luta começou levaram desvantagem. Caíram em desordem. Despencavam pelos cerros abaixo. E os jagunços, invisíveis das tocaias e dos esconderijos, fulminavam as brigadas. Sitiado o arraial a investida fora sem sucesso. Desorganizados os batalhões cada um lutava pela sua vida. Nessas condições “eram por igual impossível – o avançamento e o recuo”. Tiveram quase 1.000 baixas, entre mortos e feridos. O General Artur Oscar avaliou o estado das coisas e pediu um corpo auxiliar de 5.000 homens. Seguiu, então a Brigada Girard, dirigida pelo General Girard. Eram 1.042 praças, 68 oficiais e 850.000 cartuchos Mauser. Essa brigada não consegui repelir o inimigo! e a retaguarda tinho sido alvejada.

Quando as primeiras levas de feridos e mortos chagaram à cidade do Salvador a Nação surpreendida, abalou-se! Não era possível!

NOVA FASE DA LUTA (37 páginas)

Novos reforços foram então enviados. Mais 2 brigadas, com o total de 3.000 homens, uma entregue ao comando do Coronel Sampaio e outra ao General Carlos Eugênio de Andrade Guimarães. E o próprio Ministro da Guerra, Marechal Carlos Machado Bittencourt foi para o teatro de operações. Conhecedor frio da arte de combater e descobrindo os motivos das derrotas anteriores, conseguiu a vitória da 4ª Expedição e aniquilamento de Canudos. Só fez usar o bom senso aplicado à técnica militar, transmudando aquele conflito enorme, pródigo de inúteis bravuras, numa campanha regular. Alguns chefes jagunços já haviam desaparecido: Pajehú, João Abbade, Macambira, José Venâncio. Restavm Pedrão, Norberto e outros. A 22 de agosto de 1897 falecia Antônio Conselheiro. Os jagunços já não resistiam; recuavam. Canudos estava bloqueado. A insurreição estava morta.

(Fazendo parte do reforço estava um batalhão policial de São Paulo, ao qual Euclides da Cunha se agregou como observador para o campo da luta).

ÚLTIMOS DIAS (55 páginas)

Fato imprevisto: o inimigo, agônico, reage inesperadamente e vigorosamente. Mas logo depois decai a reação, atingindo o desenlace.

Os soldados da República impunham às vítimas cenas cruéis: “Agarravam-n’as pelos cabelos, dobrando-lhes a cabeça, esgargalhando-lhes o pescoço e francamente exposta a garganta, degolavam-n’as” ou “enleado o pescoço da vítima num cabresto, estrangulavam ou esfaqueavam”. Rivalizavam-se aos jagunços em barbaridades.

A 28 de setembro Canudos não respondeu às duas salvas de vinte tiros. Era o fim. Foi dinamitada com 90 bombas nesse dia, terminando em incêndio. Entregou-se o Beatinho e entregaram-se as mulheres e crianças. Fez-se pequena trégua depois da qual recomeçou o tiroteio.

“Canudos não se rendeu”, resistiu até o esgotamento completo.

© Copyright 2001 CASA DE CULTURA EUCLIDES DA CUNHA. All Rights Reserved.http://www.casaeuclidiana.org.br

Filme:

 

Ficha Técnica
Título Original: Guerra de Canudos
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 169 minutos
Ano de Lançamento (Brasil): 1997
Estúdio: Morena Filmes
Distribuição: Columbia TriStar Pictures
Direção: Sérgio Rezende
Roteiro: Sérgio Rezende e Paulo Halm
Música: Edu Lobo
Direção de Fotografia: Antônio Luís Mendes
Desenho de Produção: Henrique Murthé
Direção de Arte: Cláudio Amaral Peixoto
Figurino: Beth Filipéki
Edição: Isabelle Rathery


Elenco
José Wilker (Antônio Conselheiro)
Paulo Betti
Cláudia Abreu
Marieta Severo
Selton Mello
Roberto Bomtempo
José de Abreu
Tonico Pereira
Tuca Andrada
Eliezer de Almeida
Denise Weinberg
Ernani Moraes
Jorge Neves
Dandara Ohana Guerra
Murilo Grossi


Sinopse
Em 1893, Antônio Conselheiro (um monarquista assumido) e seus seguidores começam a tornar um simples movimento em algo grande demais para a República, que acabara de ser proclamada e decidira por enviar vários destacamentos militares para destruí-los. Os seguidores de Antônio Conselheiro apenas defendiam seus lares, mas a nova ordem não podia aceitar que humildes moradores do sertão da Bahia desafiassem a República. Assim, em 1897, esforços são reunidos para destruir os sertanejos. Estes fatos são vistos pela ótica de uma família, que tem opiniões conflitantes sobre Conselheiro.

 

 

 

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À Margem da História - Euclides da Cunha - Comentários, resumo e trecho

Euclides da Cunha e Rio Branco

"A partida para o Alto Purus é ainda o meu maior, o meu mais belo e mais arrojado ideal. Estou pronto á primeira voz. Partirei sem temores... nada me demoverá de um tal propósito"
Euclides da Cunha, Carta de Guarujá, 6/7/1904.


O primeiro encontro dos dois, de Euclides da Cunha e do Barão do Rio Branco, deu-se no palacete Westfália, em Petrópolis, em julho de 1904, local para onde o chanceler se retirava em descanso. Quem levou Euclides da Cunha até a presença dele, do Juca Paranhos como ele era conhecido em moço, foi um outro diplomata, Domício da Gama, por igual um intelectual. Apesar da timidez do escritor frente ao Barão, aquela altura um verdadeiro monumento nacional, os dois conversaram por cinco horas. Euclides só se viu liberado às 2 da madrugada.

Ambos estavam no auge da fama: um pelas galas imediatas que a publicação de "Os Sertões", em 1902, lhe trouxera, projetando-o como um dos maiores das letras nacionais; o outro, o chanceler, pela conclusão do Tratado de Petrópolis, arrancado da Bolívia no ano anterior, em 1903, quando o Brasil ficou com o Acre sem precisar dar um tiro sequer.

Um denunciara a guerra do governo brasileiro contra os caboclos da Bahia, o outro evitou que os caboclos do Acre entrassem em guerra contra o governo de la Paz.

Os unia a paixão pela História e pelo Brasil. De resto eram diferentes em tudo. O Barão descendia do patriciado luso-brasileiro, era filho do Visconde de Rio Branco, homem habituado aos viveres da Europa. Um monarquista que se colocara a serviço da república.

Euclides, ao contrário, era "um bugre", como ele mesmo dizia. Um indiozinho, um cariri que descendia de um avô traficante que vivera na Bahia e que se arruinara com a Lei Eusébio de Queirós, de 1850 (que proibira a importação de escravos). Desde quando jovem aluno da Escola Militar era um republicano, mas, naquelas alturas, passados quinze anos da Proclamação de Deodoro, decepcionara-se com o Regime de 1889. Ao contrário do Barão, nunca fez questão de ir conhecer Paris. Queria, isto sim, era desbravar "as paisagens bárbaras", meter a cara nos assombros do Brasil ainda pouco conhecido.

Atrás do Paraíso Perdido

O Barão, sempre atento aos talentos, o satisfez. Em 9 de agosto de 1904, nomeou-o chefe da Comissão do Alto Purus para ir fixar as longínquas fronteiras com o Peru. O chanceler esperava dele uma outra maravilha literária resultante do contanto de Euclides com as selvas. O próprio escritor estava seduzido em embrenhar-se num outro livro sensacional cujo título seria "Um Paraíso Perdido", que nunca concluiu.

A Amazônia frustrou o escritor. Impressionante sim, ciclópica. Muita água, imensa, barrenta, perigosa, muito mato, muito cipó e muito bicho. Uma "imensidão deprimida". De dia silenciosa, de noite um carnaval. A fauna, aos uivos, aos gritos e aos pios, fazia a festa a partir do por do sol. Sentiu-se lá um Adão no jardim paleozóico. Tudo lhe era estranho, fantástico, e muito chato.

Para onde se olhava via-se a desolação, tudo raso e plano. O rio, sempre desbordando, desmoralizava qualquer trabalho sério. A margem de hoje, soçobrava nas correntes do amanhã. Lá, as matas caminham em meio a um tumulto permanente produzido pelas monstruosas leis fisiológicas da região. Parecia haver, lembrou Euclides, pairando sobre os altos da floresta, um artista sobrenatural que pintava uma paisagem num dia e borrava tudo no outro.

O homem era um intruso lá. Os moradores, todos pobres, pendurados nas palafitas, afligidos pelas enxurradas, só sobreviviam pelo nomadismo, por uma vida cigana em meio à floresta.

Na Amazônia, excetuando-se a concentração enérgica dos seringueiros em Manaus, a civilização era impossível. De resto, o caucheiro ("é o homúnculo da civilização") era vilmente explorado pelos coronéis da barranca. Era um reino sem história. "à margem da História", como designaram a primeira parte da coletânea de artigos publicada em 1909, depois da morte dele.

Uma guerra absurda, burlesca

Chegado a Manaus em 30 de dezembro de 1904, depois de uma viagem de 17 dias, rumou logo que possível para a sua missão, embarcando em 7 de abril de 1905. Acompanhou-o na flotilha, composta por um batelão e duas lanchas, um capitão peruano, D. Pedro Buenaño. Já navegando no Acre, até por um naufrágio ele passou no baixo Purus.

De onde estava e quando podia, informava o Barão. A Amazônia era uma esfinge. Ninguém conseguia abarcá-la. Mal e mal captava-se facções ínfimas do todo. A amplidão é tal que ofusca o entendimento, acanha a razão, afugenta até mesmo uma "inteligência heróica".

Ele que talvez se imaginasse um "dr. Pasteur das letras" (a expressão é de Leandro Tocantins), recuou frente aquele laboratório infernal de uma natureza doida, em permanente destravo. Notou, pelos registros de outros naturalistas que por ela percorreram, fosse no século 17, 18 ou 19, que ela era infensa à evolução. Ainda que revolvida pelas enchentes do grande rio, a Amazônia era sempre a mesma.
Antes de findar a expedição que durou um ano (dezembro de 1904 a dezembro de 1905), Euclides, em carta a Domício da Gama, imaginou o ridículo de uma guerra entre o Brasil e o Peru. Seria um confronto burlesco de cabras-cegas, assegurou. Dois países enormes e sem gente a se enfrentarem pela posse de umas selvas longínquas, despovoadas. Tamanha era a vastidão das coisas por lá, pelo Inferno Verde (título do livro de Alberto Rangel, seu amigo, que ele prefaciou, em 1907), que os dois exércitos não se encontrariam. Algo como se dois duelistas, um no alto do Pão de Açúcar e outro no Corcovado, tentassem terçar espadas em meio a um abismo vazio.

Bendita esta viagem de Euclides de cem anos atrás. Ainda que a Amazônia continue rendendo muito pouco, a nossa ensaística enriqueceu-se com as observações dele, ao ponto de, entre tantos outros que escreveram sobre aquela "Terra sem História", ninguém até hoje conseguiu deixar, em prosa, um registro superior ao de Euclides.

Trecho:

I Parte

Na Amazônia, Terra Sem História

Impressões Gerais

Ao revés da admiração ou do entusiasmo, o que nos sobressalteia geralmente, diante do Amazonas, no desembocar do dédalo florido do Tajapuru, aberto em cheio para o grande rio, é antes um desapontamento. A massa de águas é, certo, sem par, capaz daquele terror a que se refere Wallace; mas como todos nós desde mui cedo gizamos um Amazonas ideal, mercê das páginas singularmente líricas dos não sei quantos viajantes que desde Humboldt até hoje contemplaram a hiléia prodigiosa, com um espanto quase religioso - sucede um caso vulgar de psicologia: ao defrontarmos o Amazonas real, vemo-lo inferior à imagem subjetiva há longo tempo prefigurada. Além disto, sob o conceito estritamente artístico, isto é, como um trecho da terra desabrochando em imagens capazes de se fundirem harmoniosamente na síntese de uma impressão empolgante, é de todo em todo inferior a um sem número de outros lugares do nosso país. Toda a Amazônia, sob este aspecto, não vale o segmento do litoral que vai de Cabo Frio à Ponta do Munduba.

É sem dúvida, o maior quadro da Terra; porém chatamente rebatido num plano horizontal que mal alevantam de uma banda, à feição de restos de uma enorme moldura que se quebrou, as serranias de arenito de Monte Alegre e as serras graníticas das Guianas. E como lhe falta a linha vertical, preexcelente na movimentação da paisagem, em poucas horas o observador cede às fadigas de monotonia inaturável e sente que o seu olhar, inexplicavelmente, se abrevia nos sem-fins daqueles horizontes vazios e indefinidos como o dos mares.

(Apostila 2 de Pré-Modernismo - Literatura Brasileira)

 

 

 

 

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GONZAGA DUQUE


Uma das mais importantes figuras do simbolismo brasileiro e do período pré-moderno, foi romancista, contista e crítico de arte. Pode ser considerado o primeiro e verdadeiro crítico de arte sistemático no Brasil, tendo deixado textos fundamentais nesse campo. Seu interesse pelas artes plásticas levou-o também a realizar trabalhos como a ilustração de um livro de B. Lopes, Dona Carmen. Foi retratado por vários artistas de sua época, como Eliseu Visconti, Belmiro de Almeida, Rodolfo Amoedo, Presciliano Silva, além de caricaturado, entre outros, por Raul Pederneiras e Kalixto.

Luís Gonzaga Duque Estrada nasceu em 21 de junho de 1863 no Rio de janeiro. Iniciou-se cedo no jornalismo, fundando em 1880, com Olímpio Niemeyer, O Guanabara. Em 1882 colaborou na Gazetinha, de Arthur Azevedo, e em 1883 na Gazeta da Tarde, de José do Patrocínio. Em 1887, atuou como crítico de arte em A Semana. Fundou, em 1895, com Lima Campos, a Rio-Revistas em 1897, também com Lima Campos, a revista simbolista Galáxia; em 1901, Mercúrio; e em 1908, com Lima Campos e Mário Pederneiras, Fon-Fon. Colaborou ainda em numerosos outros periódicos, usando muitas vezes pseudônimos, como Alfredo Palheta, J. Meirinho, Diabo Coxo, Amadeu, o Risonho e André de Resende.

Casou-se em 1885 com Júlia Torres Duque Estrada, com quem teve quatro filhos: Dinorá e Haroldo, que morreram em criança, Osvaldo e Lígia Cristina que, de seu casamento com o poeta Murilo Araújo, lhe daria a neta Maryssol Duque Araújo.

Foi 2º oficial da Diretoria do Patrimônio Municipal; 1º oficial da Fazenda da Prefeitura, servindo neste posto como secretário do diretor-geral muito tempo. Em 1910, foi nomeado diretor da Biblioteca Municipal.
Morreu, no Rio de janeiro, em 8 de março de 1911.


BIBLIOGRAFIA

- A arte brasileira. 2. ed. Rio de Janeiro: H. P. Lombaerts & Co., 1888. Organização de Tadeu Chiarelli. Campinas: Mercado de Letras, 1995.

- A dona de casa (com o pseudônimo de Sylvino Júnior). Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1894; 2. ed., 1903.
- Revoluções brasileiras: resumos históricos. Rio de janeiro: Typ. do Jornal do Commercio, 1898; 2. ed., Rio de Janeiro: Laemmert, 1905; 3. ed, organização Francisco Foot Hardman e Vera Lins. São Paulo: Editora UNESP: Giordano, 1998. (Memória Brasileira, 9)

- Mocidade Morta. Rio de Janeiro: Officinas da Livraria Moderna, 1899; 2. ed., Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1971; 3. ed. São Paulo: Editora Três, 1973; 4. ed., organizada por Adriano Gama Kury, Alexandre Eulálio e Homero Senna. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1995.
- Marechal Niemeyer. Rio de Janeiro: Maia & Niemeyer, 1900.

- Graves & Frívolos. Lisboa: Clássica, 1910; 2. ed., organizada por Vera Lins. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa e Livraria Sette Letras, 1997.

- Horto de Mágoas. Rio de Janeiro: Benjamin de Áquila, 1914; 2 ed., organizada por Vera Lins e Júlio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural, Divisão de Editoração, 1996.

- Contemporâneos. Rio de Janeiro: Typ. Benedicto de Souza, 1929. Está para ser publicada uma nova edição preparada por Vera Lins.

- Impressões de um amador: textos esparsos de crítica (1882-1909). Organização Júlio Castañon Guimarães e Vera Lins. Belo Horizonte: Editora UFMG; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 2001.

A partir de 1880, Gonzaga Duque colaborou em diversos periódicos, alguns fundados por ele: Guanabara, Gazetinha, Gazeta da Tarde, A Semana, Pierrot, Revista dos Novos, Rio-Revista, Galáxia, Mercúrio, Brasil Moderno, Rua do Ouvidor, Rosa-Cruz, Vera-Cruz, Kosmos, Renascença, O Paiz, Diário de Notícias, Diário do Comércio, Atheneida, Os Anais, Revista Contemporânea, O Globo, Fon-Fon, A Avenida, Ilustração Brasileira, Revista da Semana, Revista Americana.

Postumamente, vários contos inéditos de Gonzaga Duque foram publicados pelo seu genro, Murilo Araújo, na Revista Souza-Cruz.

Textos:

CASTAGNETO (texto de crítica artística)

Gonzaga Duque

Neste silêncio de noite verânica, sem lua, sob o remoto e escuro opérculo borrifado de estrelas eu o evoco numa saudade. Vejo-o como outrora, no primeiro tempo de sua cálida mocidade sonhadora, espairecendo à porta de uma charutaria da movimentada Ouvidor.

Era, então, um rapaz de vinte e dois a vinte e cinco anos, de estatura meã, menos músculos que nervos nos membros secos, nariz em adunco de rapina, loura barba, que lhe emoldurava o rosto, bipartida ao queixo; olhos grandes e azuis, um sombrero negro, forçado um pouco à nuca, sobre a crespa cabeleira cor de tabaco turco.

Assim o tenho diante de mim, tal ele foi nesse tempo de insubmissão e utopias, exatamente o mesmo, no seu tipo físico e na sua inteireza moral. Eu bem o percebo nessa recordação amorável. Eu bem o percebo! Aí está ele, de ombro ao portal, em trajos de homem desprevenido de cuidados mundanos, uma ponta de cigarro mascado no canto da boca sensual, o espírito rebelado contra a convenção e a injustiça.

Às vezes, para dizer coisa insignificante, para exprimir idéia vulgaríssima, fosse um convite ao copo, fosse indagação sobre o paradeiro de alguém, contraíam-se-lhe as sobrancelhas na raigota do nariz, forçando-lhe a máscara numa carantonha de raiva e, quase sempre após o peso de um termo à Cambrone, tossia aquela inimitável risadinha cacarejada na güela, que lhe era particular, característica, intraduzível, pelo jogo fisionômico e que, começando por lhe dar as contrações de uma angústia, terminava por o fazer expressivamente ingênuo, mas dessa ingentudade que é dos sem-malícia e não lembra o infantil.

E nesse riso estava o Castagneto.

Ele foi um inculto e um puro, tinha violências e fraquezas, era desabrido, não raro demasiado àspero, ao mesmo tempo tímido como uma criança e como as crianças era móbil, incoerente e meigo. Dir-se-ia que a sua natureza participava das inconstâncias do mar. Em toda a sua curta existência nunca deixou de ser um filho de pescadores, com todos os sentimentos austeros dos não artificializados, e todas as incorruptíveis virgindades dos simples.

Começando muito cedo a vibrar aos impulsos do instinto estético, que lhe estavam na idiossincrasia por desconhecidas, mas supostas heranças sentimentais, talvez correntes estabelecidas por um indivíduo poeta na sua ascendência, que se acumularam nele com maior intensidade e mercê de outros fatores simpáticos, muito cedo também se fez pintor.

Ao terminar as primeiras letras numa escola desta cidade, porque seu pai, italiano de origem, para aqui o trouxera ainda criança, foi cursar as aulas da antiga Academia de Belas-Artes.

Mas, sua índole não se coadunava com a exigência dos estatutos do ensino oficial. João Batista Castagneto tinha vivido sempre na rústica liberdade dos barqueiros e matalotes, crescera e homem se fizera nas fadigas da pesca, ajudando seu pai no ganha-pão dos pobres, para se sujeitar aos regulamentos de uma academia. Por felicidade sua, e bendita coincidência para a nossa arte, havia chegado nessa ocasião o paisagista George Grimm, um robusto germânico que pintava com o mesmo vigor com que diariamente fazia léguas de jornada, batendo os sapatarros campônios no pó dos caminhos. Em torno de Grirrim formou-se um grupo de moços, ávido de aprender a paisagem por processo que não fosse o estiolante ou improdutivo sistema da cópia de pinacoteca, e logo Castagneto veio juntar-se-lhe para a peregrinagem cotidiana por esses morros e praias, ao sol do verão e aos nevoeiros de inverno, parco fardel no bolso e mochilo do estojo ao dorso.

Todavia a paisagem propriamente dita pouco o entusiasmava.

Do tempo passado num tugúrio às margens do Mediterrâneo, da infância desenvolvida sob o telhavã dos areais marinhos, onde respirou o tônico alcatrão da cordoalha e a maresia dos utensílios de pesca; da adolescência familiarizada com todos os atributos da profissão paterna, pois que sabia costurar as redes, trançar a taquara dos covos ou manejar a driça nos bordejos da guiga, ficou-lhe o amor desta existência independente e obscura, ou, para melhor dizer - o vínculo atávico da origem. O mar atraía-o portanto; mas, o mar batido e espumejante das regiões costeiras, não o largo mar isolado, nostálgico e bravio; não o solitário oceano reboante, imenso, convulsivo, sob o vasto céu tão misterioso como ele!

Toda a atenção do artista convergiu para a vida humilde dos pescadores, para os míseros recantos de beira-mar, onde a paisagem, se não houvesse colmo de gente da pesca, que traduzisse a poesia de sua existência obscura, pudesse lembrá-la pela proximidade da terra.

Esta tendência fê-lo afastar-se de George Grimm, apenas conseguiu copiar, com satisfatória segurança, o que lhe impressionava a retina e lhe vibrava a emotividade. Entretanto, abandonando as lições do mestre, de quem, como todos os discípulos, recebera o colorido e a maneira de interpretar, persistiu nos estudos do natural e com tanto afinco que, em pouco tempo, perdeu aqueles defeitos de involuntária imitação, para entrar na posse de sua individualidade.

A pintura de marinhas teve, no Brasil, poucos representantes. Foram esses - Eduardo de Martino, Gustavo James e Emílio Rouède. Dos três o que mereceu maior aceitação, sem dúvida exagerada por simpatias pessoais e complacência da crítica, embora tenha hoje vantajosa cotação no mundo oficial da Inglaterra, foi De Martino. Nenhum deles, porém, acusou um temperamento de eleição. De Martino era forte desenhista do aparelho náutico, conhecia bem a construção naval, mas pintava defeituosamente, com maneirismos e descuidos. Gustavo James, empolgado por uma vesania, teve o desenho correto, mas medíocre, e a palheta desvairada como lhe fora o cérebro. Emílio Rouède, contemporâneo de Castagneto, exerceu apenas uma das muitas habilidades que o tornaram conhecido: pintava marinhas como escrevia artigos para jornais e peças para o teatro, por mera diversão de um espírito apto a praticar a atividade que quisesse, sem lha sentir necessária à sua vida psíquica. Foi um curioso, tolerado pela comunicativa jovialidade de uma desmedida boêmia.

Castagneto apareceu inesperado, no tempo em que Emílio Rouède pintava marinhas elétricas, em cinco minutos, nas kermesses de caridade. As lojas de molduras encheram cavaletes e vitrines com suas tábuas, com os seus celebrizados tampos das caixas de charuto e pequenas telas de meio metro. Um grande sucesso o acolheu. Demais, seu nome era de fácil retenção mnemônica, guardava-se-o simpaticamente. Não constituíam, esses trabalhos, uma arte nova pelo assunto nem pelo flagrante do seu expressivismo; eram duma original feitura, como retidos à primeira impressão, espontâneos e vigorosos, com certos toques de efeito que os tornavam agradáveis por elegantes sem acabamento ou excesso.

O pincel lanhava a tela ao deixar a tinta; a espátula trabalhava nos empastelamentos rapidamente: em certos pontos percebia-se a passagem do polegar, ao modo dos escultores. E esse trabalho febril, alcançado de momento, num conjunto simplificado, fundia-se numa suave, delicada tonalidade azul-cinza, tirando ao pérola em suas dulcíssimas nuanças ora em laivos de amarelo, ou verde-água, ora no carregado do índigo com translucidez iriada em opacidade de penumbras.

Pelo sucesso obtido, apoderou-se dele uma febre de produzir, e as exposições se sucederam, a atividade tornou-se-lhe vertiginosa. Castagneto enchia telas sobre telas, tábuas sobre tábuas; qualquer objeto lhe servia para fixar uma recordação de passeio ou copiar um ponto de praia, e pintava em medalhões de faiança, em pratos de porcelana, de loiça ou de barro vidrado, em bojos de boiões de cozer, em cartões de estudos e de caixas...

Uma vez em seu quarto-barcaça, da praia de Santa Luzia, onde residiu por longos anos e que assim o denominei porque ali o artista dormia, cozinhava, recebia os íntimos e pintava, em meio duma confusão de redes, arpões, tarrafas, remos e velas, encontrei, dependurado à parede, um bacalhau seco que lhe servira de tela para um lindíssimo efeito de espumejo de onda sobre amontoado de pedras.

À proporção que trabalhava aquelas qualidades mais se acentuavam, devido ao constante exercício da mão e à completa liberdade da sua vontade.

Veio época em que, para se lhe atribuir um quadro, desnecessário nos seria correr o olhar pela assinatura.

Mas, à parte essa nota pessoal, que se caracterizava pela espontânea largueza de sua pincelada, e que, também recebia o concurso da sua originalidade na escolha do motivo, sempre tendente ao pitoresco, posto que surpreendido nas linhas dominantes, de modo a anular o detalhe, o próprio Castagneto sentia que lhe faltava "o quer que fosse" necessário à sua completação artística.

Em verdade, Castagneto possuía, como os improvisadores, a forma pronta e elegante; se fosse poeta, isto é - se escrevesse - daria para as redondilhas simples, para o verso correntio e musical; como pintor tendia para os motivos singelos expressos numa habilidade um tanto arrebicada, não obstante a firmeza da mão. A originalidade da sua obra está, conseguintemente, nessa maneira, em que há espontaneidade, em que entra um pouco de chique (faceta comum à habilidade dos improvisadores) e a sinceridade brusca do seu temperamento.

Mas tudo isso provinha da sua organização, melhorado pelo esforço em conseguir imitar o que via. Eram, pois, qualidades inatas que o desenvolvimento do instinto estético, concordante com a idade e com seu próprio aproveitamento, tinha apurado.

Considerando a percebida, porém indefinida falta resultante de seus primeiros estudos, planejou uma viagem à Europa, onde procuraria os conselhos de algum notável pintor de marinhas e o ensinamento dos museus. A sorte deu-lhe a alegria de realizar esse desejo.

Coadjuvado por amigos e admiradores, seguiu para a França e lá se agrupou a um bando de discípulos de célebre marinhista. E foi lá, no primeiro dia de estudo ao ar livre, que ele recebeu a mais dolorosa decepção da sua vida - contava Castagneto, desmesurando, imaginariamente, o fato.

Apenas acabava de escarvoar o assunto, o peso de uma manopla caía em seu ombro e já um vozeirão graceiador lhe aumentava a surpresa.

Aturdido, o discípulo levanta o olhar. Tinha a seu lado o mestre, apoplético de riso, roncando chacotas à sua imperfeição de desenhista. Era isso, portanto, o que lhe faltava!

É preciso descontar-se a parcialidade da concordância. Oque lhe faltava não era unicamente um rigoroso estudo de desenho, em que tantos mestres têm errado, também o conhecimento da técnica da sua arte, os segredos do colorido e um ensino que, por exemplos e exercícios, lhe houvesse educado a maneira de ver, de apreender, de sentir como profissional, porque o sentimento artístico lhe não faltava.

A prova de tanto tivemo-la na exposição realizada pelo artista pouco tempo depois da sua chegada. Aos progressos do desenhador correspondiam os progressos do colorista; contudo esta aplicação foi inoportuna. Se ele a tivesse conseguido no início dos estudos teria aproveitado a originalidade da sua índole artística, desenvolvendo-a e apurando-a até se tornar um pintor completo; porém, tarde como ela lhe chegou - seu resultado foi negativo, deu-lhe efêmero progredimento com prejuízo da espontaneidade do inculto e impressionado artista das pochades, o que equivale dizer do primeiro tempo.

Efêmero!... Infelizmente, sim, foi efêmero esse progresso. Aos poucos Castagneto perdeu a sensação da cor como lhe ensinaram a ver, sem mais encontrar sua antiga tonalidade, tão suave e harmonizadora! E com esta perda também se foi, aos poucos, a energia de trabalhar.

Uma moléstia traiçoeira minava suas forças, secundada por alegres desregramentos de vida que o podiam aproximar dos mais incorrigíveis boêmios dos cabarets e das brasseries. Rapidamente o rebelde artista estava aniquilado, e foi tão rápido seu aniquilamento que lhe não deixou tempo de avaliar o desamparo de sua mísera mãe viúva, que ele, de tão longe, colmava de santos cuidados!

- Uma caixa de charutos, disse-me o Castagneto um dia, me dá para os cigarros e o bife... as botas, essas, eu as faço para mandar dinheiro à velhinha...

As botas eram os quadros.

E quando a moléstia o tentaculou de vez, quando as rugas o estreitaram a boca do monstro, estava ele a desenhar barcos em reles papel d'embrulho, sobre a mesa duma cantina, em frente ao copo, o terrível copo de Musset, de Poe e Verlaine, para fazer dinheiro... Para quê?... Talvez não fosse para os cigarros.

Conto: MORTE DO PALHAÇO

Gonzaga Duque

Esguio, anfracto, torturado na rude anatomia muscular dos esboços miguelangelescos, laivos de zíngaro na máscara violenta e nua, William Sommers fora o galhardo clown do trampolim e do trapézio, empolgando, num salto, a barra baloiçante dos aparelhos aéreos.

Fora - grifava nos comentários a parceria acrobática - porque, dum contado tempo a então, William decaía em contorções estranhas, imprimindo aos trabalhos singularidades incompreensíveis, movimentos desordenados, em exercícios amorfos, obscuros, ininteligíveis, de músculos e nervos, estendimentos preguiçosos de jibóia sonolenta, tics e tremores nervosos de pantera, sacudindo a impertinência dos moscardos, ou meneios aduncos de corvo atalaiado e lúgubre, como a combinarem expressões ensaiantes e dúbias duma arte nova.

À proporção que se reproduziam essas bizarras manifestações de acrobatismo, esquisitices de hábitos afastavam-no da convivência dos companheiros, esgrouviavam-no, com tédios prolongados, em posturas extáticas prejulgadas; pelo esconso parvo dos ginastas que o alvejavam, às costas, com observações e esgares injuriantes. William contraía, em desprezo, a fria boca sarcástica e voltava à sua imobilidade meditativa.

Ele próprio não poderia explicar, se o quisesse, a transformação por que passava. Era uma necessidade que o movia impulsivamente, cuja origem ignorava. Começara por uma espécie d'enfastiamento, um cansaço dos velhos exercícios aprendidos, que executava sem orgulho, mesmo sem a consciência de encontrar neles a sua subsistência. Sobreviera-lhe, depois, uma displicência, quase a se confundir com o spleen, amarga e crescente, dessas cabriolas cediças, desse revolvido repertório de jogralices tradicionais, imutáveis, estafadas, remendadas com retalhos d'entremez e rebotalhos de burletas.

Sem saber por quê, sentia a aspiração de uma arte que se não agachasse na recolta do dichotes de bastidores, nem repetisse desconjuntos de títeros, mas fosse uma caricatura sintética de idéias e ações, o traço carregado e hilariante, dolorosamente sardônico, do delírio humano em todas as suas expansões, desde as que o rebaixam ao similar das lesmas viscosas, 'té as que o elevam ao icarismo dos condores arrogantes, uma forma não usada, não feita, da sátira gesticulada, delineando no exagero representativo o ridículo das intenções.

Não lhe bastariam, para tanto, os esfalfados recursos acrobáticos. Sommers queria febrilmente, procurava aflito, rebuscava delirantemente mais alguma coisa.

Que era?... Alguma coisa que devia existir, que ao certo existia, embrionária, ou completada, esparsa pelos seres ou reunida em alguma parte desconhecida, sonho ou realidade... talvez o inédito... Fosse o que fosse!... mas que o enfermava, que o enlouquecia quase, pela grandeza do almejo nos estreitos limites do seu espírito inculto.

E, atento, esmiuçador, tentaculado inteiro por sua idéia, procurava esse segredo, combinando e desfazendo planos, criando e desenhando mentalmente figuras várias, aspectos imprevistos, detalhes impressionantes, aproximando-se do vago debuxo duma harmonia bizarra, logo acentuada nas suas linhas componentes, logo aperfeiçoadas nas suas justaposições, mescla de tintas em correspondência reflexa de movimentos rítmicos, o gesto e a cor, a eterna Forma e o eterno Colorido completando-se reciprocamente.

Entrava, então, a avaliar, na mímica expressora duma determinada idéia, qual aflexão que lhe corresponderia, de que maneira conseguiria o acuso caricatural, qual a consonância colorida que deveria externar, por assim dizer: objetivar a intenção. Delirava em tomo do seu sonho, seguindo com o olhar doentiamente crepusculado em vagares de outono a marcha trôpega dos rafeiros churros e famintos, a ironia triste dos boêmios envelhecidos; perscrutava a pupila, a atitude, os movimentos dos desamparados, os macilentos das enxovias que riem como os orangos e têm a inquietação farejadora dos roedores, a concentração múrmura dos predestinados para as galés; fundia todo esse penoso estudo em torcicolos e mímicas, em esgares e trejeitos, a lhes descobrir a característica, o flagrante, a nota dominante e certa, a expressão exata sob o desmesurado da sátira, e, esgotado, alquebrado, volvia, impacientemente, a outras investigações, a outras análises, esquecido de tudo quanto não estivesse no disco fascinante dessa obsessão, alheiado dos seus deveres, de suas gloríolas de arena, da sua própria existência material.

Gradativamente, enquanto mergulhava nessa ambição, enquanto sonhava e tateava o tenebroso desse ignoto, perdia os favores dos empresários e a simpatia das platéias. Houve noite em que os silvos do desagrado lhe vararam o amor-próprio. William, vergou-se, cortado pelo desprezo da multidão que o afrontava com o riso alvar dos seus críticos, com o motejo idiota dos seus censores, e redobrou de esforços para estertorizar a expressão desejada, para precisar a mímica reveladora e emocionante com que sonhava. Mas, como conseguir essa coisa abstrata? Onde descobrir essa misteriosa forma inovadora, esse mágico, encantado novo que ele pressentia e por cuja conquista se cansava?...

Debatia-se, exausto, contra insucessos, já perdido e desanimado no angustioso torvelinho das quimeras, já iludido e alentado pela luminosa bruma de imagens promissoras.

Um dia acordou-se. A vida chamou-o à realidade: seus trabalhos não mais influíam nos lucros do seu bando; muitas vezes a fome adormeceu com ele, esmagando-lhe a cabeça delirante nos torniquetes nevrálgicos, após o suplício das vigílias inquietas, que lhe estendiam sombras de demência nos cansaços da idealização. E percebeu mais nitidamente, mais pungitivamente a indiferença que o cercava. Não era só a multidão que vinha todas as noites encher a bancada do anfiteatro, pontear de caras os círculos concêntricos do picadeiro, quem lhe ofendia o orgulho; mas a gente da companhia, a gente da sua profissão, que o insultava com escárnios a essas tentativas, vexada em seus respeitos pela arte aprendida e tradicional, abalada em sua mediocridade por se compreender incapaz de reformar os exercícios que supunha imutáveis.

William encurvava os ombros humilhado e ferido, mergulhava as mãos nas algibeiras e lá se ia, arrastando passos vadios pelo granito das ruas, horas e horas, entregue ao acaso. Às vezes despertava de suas meditações na muralha dum cais deserto, às vezes num pendor de estrada solitária fora da cidade, e com o olhar fito na planura agitada das águas ou nos barrancos das montanhas, indo para o ilimitado, para o desconhecido, pelo misterioso do horizonte oceânico; parado nos recalcos das ribanceiras ornamentadas de festões de avencas e redoiças floridas de madressilva, no emaranho das ramarias e docéis de frondes, esperava encontrar a forma desejada e rebuscada prevista num efeito de luz sobre a transparência corcoveante duma onda espumosa, num estranho golpe de sol sobre o mosqueado da vegetação exúbera.

E dia a dia, levado no deslizar dos cismares, foi penetrando, insentidamente, numa análise sutil de formas e cores, observando os reptis, estudando-lhes os rastejos, os distendimentos coleantes, as suas precauções investigadoras, os seus arremessos alucinados. Subiu com o olhar às alturas e atendeu aos movimentos cabalísticos dos corvos, a sotumidade de suas posturas, a expectativa presaga de seus olhares; alçou a vista ao interior das florestas e notou o soberano langor dos felinos, a volúpia dos seus espreguiços e harmônico nervosismo dos seus pinchos, a segurança dos seus saltos... Comparou-os aos gestos humanos, calcou-os, fundiu-os e dessa fusão intuitiva, resultou um lúgubre sardônico e mau, que correspondia a certas cores, a certas tintas tiradas do colorido decorativo das plantas raras, das enfermidades típicas das estufas - a prateada lepra das begônias, a gangrena asfixiante de algumas tuberosas, as escaras exóticas das orquídeas - e então combinou o seu maillot original, um tecido fulvo, à maneira de certos panos mesclados de púrpura e oiro da rica tecelagem d'Oriente; sobre ele, em sucessão ininterrupta, de modo a cobri-lo literalmente, minúsculos bocetes em placas translúcidas de tom plúmbeo, apenas presos por uma extremidade, formando escamosa superfície miúda e movediça. Assim vestido e assim fantasiado era um maravilhoso monstro de lendas, cuja cabeça a morte substituiria pela sua própria cabeça impressionante e fria.

E nessa noite, de repente, surdiu da farândola grasnenta dos palhaços, num arranco de trampolim - up! - que o levou à altura dos trapézios.

Foi inesperado. Um sussurro de espanto espalhou-se pelo circo. Quando ele galgou a barra do aparelho, sussurrou, retremendo o ar, um som seco e longínquo de asas de agoiro, o cascalhar indescritível de uma matraca de enterro que soa por noite alta, no silêncio de uma estrada, além... Pelo espaço coriscaram chamas vermelhas, num bafo de inferno. Os espectadores atordoaram-se e lá-cima, na oscilação do trapézio, viu-se o monstro acocorado, quedo, outra vez da translucidez plúmbea de aço horrível. Os grandes olhos ardentes brilhavam em órbitas escavacadas a bistre, na lividez de uma ossamenta artificial apenas ria imóvel, ria sem risos, a feia mandíbula descamada.

Agora, tomara-se mais perturbador, porque se lhe notavam os meneios arrepiados e duros dum fantástico, dum funéreo abutre notívago, de cujo pescoço flácido pendia a carcaça fatídica da Morte para a platéia estupefacta. A distância confundia-o com a probabilidade dum pesadelo. Havia pupilas que fitavam com terror; em rostos exangues, bocas descoradas retorciam gritos invocalizados. E Sommers respirou orgulhoso... Mas, se assim impressionava, porque lho não diziam pelo aplauso!...

Certo esperavam mais... Sim, talvez ele os arrebatasse numa outra prova... E o monstro sardônico, a caveira jogral, foi s'erguendo lentamente ao som de uma surdina ensaiada, foi s'erguendo como um pensamento mau que se levanta. Todo o seu esguio corpo acidulado acendeu-se vagaroso, em sulferino de carvões ardentes, tremeu como uma pequenina chama desperta. Mal se lhe via a máscara. Nessa lentidão crescente, era um crime que desponta num espírito em névoas negras de tortura. Devagar o clarão se alastrava, a tentação crescia; relâmpagos de labaredas bafejados corriam sob o palpitar sonante das escamas agitadas, num ou noutro movimento presto. De instante a instante, os gestos se sucediam, dilatados num espreguiço, aberto num aceno acolhedor; eram a languidez de um carinho, eram a posse num amplexo... Súbito, o incêndio lavrou: o palhaço redemoinhou no espaço, como se houvesse agarrado, aniquilado alguma coisa. A queda dum chuveiro de chumbo estalou, surdamente, refrangiu o ar, passou... E a caveira voltou à sua imobilidade lá no alto, escura e fria, a rir sem risos.

Um silêncio pesava.

Então o monstro começou a mover-se, ora em arremessos, ora aos recuos. E a barra do trapézio, compassadamente, oscilou em vaivéns mais fortes, mais longos, mais largos, 'té estender-se pelo vácuo, em baloiço.

Misteriosamente um agoiro soprou, álgido e penetrante, no íntimo de toda gente: A Morte voa!... A Morte voa... lá pelas alturas!... E pálpebras esgazearam-se, num pressentimento; ouvia-se o respirar ofegante de peitos que arquejam... E o corpo do clown voava d'extremo a extremo, voava vertical e rígido, de braços estendidos às amarras do aparelho, semelhante a um grífus estonteado, sob o teto do anfiteatro. Ao se avizinhar dos arcos do gás, acesos e pendentes como candelabros, reluzia todo em frias brancuras de metal polido, em sucedâneas e fulvas claridades de fornalha, fascinando e deslumbrando como ambições; mas, depressa esmorecia em deflagrações bruscas de calmaria tropical, transfigurando-se numa sombra negra e aterrorizante, de desespero vencido, ao se afastar da luz viva. Dir-se-ia que o mal pairava ali, procurando o poiso duma alma.

De repente, porém, um rumor entontecedor d'asas viris que se encolhem para flechar a distância em assalto súbito, o monstro varou para outra barra, adiante, e foi correndo, volteando de trapézio em trapézio por um círculo de vôos e redemoinhos, quase sem forma que o recordasse, já negro e inteiriçado, já rubro e serpentino, ou em tremente globo d'aço, ou poliformidade flamurante, lembrando rapina que se debate com o valor da presa, agonia que a vitalidade repele, demônio que o exorcismo afasta, e que persistem, e que volvem, relutam, sangram, escabujam, atropelam, perseguem e recuam, galgam e são galgados, ferem e são feridos, e mais se empenham em agarrar, estrangular, arrebatar... até que, num salto duplo, ganhou o seu mirante aéreo, num longo hausto de triunfo!

Rasgaram o sussurro das respirações sôfregas guinchos de goelas ressequidas; urna voz, rouquenha d´enfado e regougante de horror, estalou afronta inconsciente, pedindo que terminasse. William estremeceu, sacolejado no seu orgulho, mas logo deu de ombros com desdém. Que lhe importaria o entendimento da turba?... Sua alma estava toda na desejada perfeição deste trabalho. Fora ele que o criara, era ele o primeiro que o executava. Amava-o, pois, como um esforço seu. Agora queria completá-lo para sua própria satisfação, porque a inédita beleza resultante de cada gesto de seus membros, de cada flexão de seus músculos, só refletia no seu próprio espírito, convergindo para sua própria admiração. E que delícia em se sentir estranho, atormentador, horroroso!...

Ei-lo pelos ares, de pé, braços em cruz, voando na cadência baloiçante do aparelho. É uma rapina que se apruma nos espaços, o ente fabuloso e híbrido cuja cauda se biparte em pernas e se eleva invertendo a posição da cabeça; uma quimera que se contorce, se distende com as seduções das sereias e se concentra na tensão muscular de um polvo. Num momento todo este corpo chameja, e essa cabeça horrorosa, semelhante à base de um Y que tem as forquilhas presas ao trapézio, bamboleia ameaçadora, olhando da treva das órbitas com desvairadas pupilas úmidas... Depois a enorme letra viva, o grande Y aéreo, toda se enverga mole e desconjuntada; dela se desprendem braços que procuram apoio e se converte num hieroglifo e se metamorfoseia numa imagem indizível, que começa por lembrar um sapo e termina por tomar a forma mista de um homem, cujo corpo exumado tivesse perdido a máscara, tendo o torso e os membros transformados em partes de monstro... E mais sinistras luziam as suas pupilas. Ouviu-se o maillot, agitado, chocalhar num suspiro longo. E a Morte correu pelos ares relampejando claridade de tocheiros em procissão noturna, ondulações flamíneas de colgaduras fúnebres que se desdobram nas câmaras ardentes...

A Morte passou!... A Morte passou!... Zuniu por todos um frio de covardia e apreensão: A Morte passou!...

Nada mais se viu. Então, irrompeu do povo um urra de ovação, sob o barulho das palmas. Mas um baque seco repercutiu no extremo da galeria. Sommers perdeu num vôo a barra de um trapézio atravessou o vácuo, foi arrebentar o crânio numa arquitrave do teto.

Houve uma paralisia momentânea em todo o circo, gritos que se estrangularam em gargantas febris, olhares esgazeados numa alucinação extática. E os trapézios oscilavam, vazios, vagarosamente, em vaivéns sinistros.

Depressa o assombro se desfez, a multidão arrancou-se da perplexidade, numa angústia: moveu-se confusa, atropelada, em tumulto, para o lugar onde o palhaço caíra.

E lá estava ele, estatelado, inerte, sobre uma das bancadas. A caraça de caveira tornara-se-lhe horripilante. Um dos olhos esbugalhara-se-lhe da órbita escurecida a bistre e abria, desmesuradamente, a pupila sem luz para o Nada, num desespero inútil de ver, imóvel e medonha; na sua boca artificial, de dentuça descarnada, dilatava-se outra boca escura e ressequida, com um trejeito aflito, de dentes que, por contraste, pareciam alargar uma gargalhada paralítica, horrorosamente rindo.

E assim ficou-se o estranho clown caricaturando a Morte, tornando-a pavorosa pela ironia de ser a própria Morte que gargalhava por esta boca resfriada o desdém do seu triunfo, incontado e insentido, mas que nunca se apagaria da emotividade dos que o fitaram porque em seus pensamentos ou em seus sonhos a caveira continuaria a rir, a rir imóvel, sem risos, num desesperado, afrontoso ríctus de inexprimível sarcasmo.

(Apostila

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Graça Aranha - O Espírito Moderno

A emoção estética na arte moderna

Para muitos de vós a curiosa e sugestiva exposição que gloriosamente inauguramos hoje, é uma aglomeração de "horrores". Aquele Gênio supliciado, aquele homem amarelo, aquele carnaval alucinante, aquela paisagem invertida se não são jogos da fantasia de artistas zombeteiros, são seguramente desvairadas interpretações da natureza e da vida. Não está terminado o vosso espanto. Outros "horrores" vos esperam. Daqui a pouco, juntando-se a esta coleção de disparates, uma poesia liberta, uma música extravagante, mas transcendente, virão revoltar aqueles que reagem movidos pelas forças do Passado. Para estes retardatários a arte ainda é o Belo.

Nenhum preconceito é mais perturbador à concepção da arte que o da Beleza. Os que imaginam o belo abstrato são sugestionados por convenções forjadoras de entidades e conceitos estéticos sobre os quais não pode haver uma noção exata e definitiva. Cada um que se interrogue a si mesmo e responda que é a beleza? Onde repousa o critério infalível do belo? A arte é independente deste preconceito. É outra maravilha que não é a beleza. É a realização da nossa integração no Cosmos pelas emoções derivadas dos nossos sentidos, vagos e indefiníveis sentimentos que nos vêm das formas, dos sons, das cores, dos tatos, dos sabores e nos levam à unidade suprema com o Todo Universal. Por ela sentimos o Universo, que a ciência decompõe e nos faz somente conhecer pelos seus fenômenos. Por que uma forma, uma linha, um som, uma cor nos comovem, nos exaltam e transportam ao universal? Eis o mistério da arte, insolúvel em todos os tempos, porque a arte é eterna e o homem é por excelência o animal artista. O sentimento religioso pode ser transmudado, mas o senso estético permanece inextinguível, como o Amor, seu irmão imortal. O Universo e seus fragmentos são sempre designados por metáforas e analogias, que fazem imagens. Ora, esta função intrínseca do espírito humano mostra como a função estética, que é a de idear e imaginar, é essencial à nossa natureza.

A emoção geradora da arte ou a que esta nos transmite é tanto mais funda, mais universal quanto mais artista for o homem, seu criador, seu intérprete ou espectador. Cada arte nos deve comover pelos seus meios diretos de expressão e por eles nos arrebatar ao Infinito.

A pintura nos exaltará, não pela anedota, que por acaso ela procure representar, mas principalmente pelos sentimentos vagos e inefáveis que nos vêm da forma e da cor.

Que importa que o homem amarelo ou a paisagem louca, ou o Gênio angustiado não sejam o que se chama convencionalmente reais? O que nos interessa é a emoção que nos vem daquelas cores intensas e surpreendentes, daquelas formas estranhas, inspiradoras de imagens e que nos traduzem o sentimento patético ou satírico do artista. Que nos importa que a música transcendente que vamos ouvir não seja realizada segunda as fórmulas consagradas? O que nos interessa é a transfiguração de nós mesmos pela magia do som, que exprimirá a arte do músico divino. É na essência da arte que está a Arte. É no sentimento vago do Infinito que está a soberana emoção artística derivada do som, da forma e da cor. Para o artista a natureza é uma "fuga" perene no Tempo imaginário. Enquanto para os outros a natureza é fixa e eterna, para ele tudo passa e a Arte é a representação dessa transformação incessante. Transmitir por ela as vagas emoções absolutas vindas dos sentidos e realizar nesta emoção estética a unidade com o Todo é a suprema alegria do espírito.

Se a arte é inseparável, se cada um de nós é um artista mesmo rudimentar, porque é um criador de imagens e formas subjetivas, a Arte nas suas manifestações recebe a influência da cultura do espírito humano.

Toda a manifestação estética é sempre precedida de um movimento de idéias gerais, de um impulso filosófico, e a Filosofia se faz Arte para se tornar Vida. Na antigüidade clássica o surto da arquitetura e da escultura se deve não somente ao meio, ao tempo e à raça, mas principalmente à cultura matemática, que era exclusiva e determinou a ascendência dessas artes da linha e do volume. A própria pintura dessas épocas é um acentuado reflexo da escultura. No renascimento, em seguida à perquirição analítica da alma humana, que foi a atividade predominante da idade média, o humanismo inspirou a magnífica floração da pintura, que na figura humana procurou exprimir o mistério das almas. Foi depois da filosofia natural do século XVII que o movimento panteístico se estendeu à Arte e à Literatura e deu à Natureza a personificação que raia na poesia e na pintura da paisagem. Rodin não teria sido o inovador, que foi na escultura, se não tivesse havido a precedência da biologia de Lamarck e Darwin. O homem de Rodin é o antropóide aperfeiçoado.

E eis chegado o grande enigma que é o precisar as origens da sensibilidade na arte moderna. Este supremo movimento artístico se caracteriza pelo mais livre e fecundo subjetivismo. É uma resultante do extremado individualismo que vem vindo na vaga do tempo há quase dois séculos até se espraiar em nossa época, de que é feição avassaladora.

Desde Rousseau o indivíduo é a base da estrutura social. A sociedade é um ato da livre vontade humana. E por este conceito se marca a ascendência filosófica de Condillac e da sua escola. O individualismo freme na revolução francesa e mais tarde no romantismo e na revolução social de 1848, mas a sua libertação não é definitiva. Esta só veio quando o darwinismo triunfante desencadeou o espírito humano das suas pretendidas origens divinas e revelou o fundo da natureza e as suas tramas inexoráveis. O espírito do homem mergulhou neste insondável abismo e procurou a essência das coisas. O subjetivismo mais livre e desencantado germinou em tudo. Cada homem é um pensamento independente, cada artista exprimirá livremente, sem compromissos, a sua interpretação da vida, a emoção estética que lhe vem dos seus contatos com a natureza. É toda a magia interior do espírito se traduz na poesia, na música e nas artes plásticas. Cada um se julga livre de revelar a natureza segundo o próprio sentimento libertado. Cada um é livre de criar e manifestar o seu sonho, a sua fantasia íntima desencadeada de toda a regra, de toda a sanção. O cânon e a lei são substituídos pela liberdade absoluta que os revela, por entre mil extravagâncias, maravilhas que só a liberdade sabe gerar. Ninguém pode dizer com segurança onde o erro ou a loucura na arte, que é a expressão do estranho mundo subjetivo do homem. O nosso julgamento está subordinado aos nossos variáveis preconceitos. O gênio se manifestará livremente, e esta independência é uma magnífica fatalidade e contra ela não prevalecerão as academias, as escolas, as arbitrárias regras do nefando bom gosto, e do infecundo bom-senso. Temos que aceitar como uma força inexorável a arte libertada. A nossa atividade espiritual se limitará a sentir na arte moderna a essência da arte, aquelas emoções vagas transmitidas pelos sentidos e que levam o nosso espírito a se fundir no Todo infinito.

Este subjetivismo é tão livre que pela vontade independente do artista se torna no mais desinteressado objetivismo, em que desaparece a determinação psicológica. Seria a pintura de Cézanne, a música de Strawinsky reagindo contra o lirismo psicológico de Debussy procurando, como já se observou, manifestar a própria vida do objeto no mais rico dinamismo, que se passa nas coisas e na emoção do artista.

Esta talvez seja a acentuação da moda, porque nesta arte moderna também há a vaga da moda, que até certo ponto é uma privação da liberdade. A tirania da moda declara Debussy envelhecido e sorri do seu subjetivismo transcendente, a tirania da moda reclama a sensação forte e violenta da interpretação construtiva da natureza pondo-se em íntima correlação com a vida moderna na sua expressão mais real e desabusada. O intelectualismo é substituído pelo objetivismo direto, que, levado ao excesso, transbordará do cubismo no dadaísmo. Há uma espécie de jogo divertido e perigoso, e por isso sedutor, da arte que zomba da própria arte. Desta zombaria está impregnada a música moderna que na França se manifesta no sarcasmo de Eric Satie e que o grupo dos "seis" organiza em atitude. Nem sempre a fatura desse grupo é homogênea, porque cada um dos artistas obedece fatalmente aos impulsos misteriosos do seu próprio temperamento, e assim mais uma vez se confirma a característica da arte moderna que é a do mais livre subjetivismo.

É prodigioso como as qualidades fundamentais da raça persistem nos poetas e nos outros artistas. No Brasil, no fundo de toda a poesia, mesmo liberta, jaz aquela porção de tristeza, aquela nostalgia irremediável, que é o substrato do nosso lirismo. É verdade que há um esforço de libertação dessa melancolia racial, e a poesia se desforra na amargura do humorismo, que é uma expressão de desencantamento, um permanente sarcasmo contra o que é e não devia ser, quase uma arte de vencidos. Reclamemos contra essa arte imitativa e voluntária que dá ao nosso "modernismo" uma feição artificial. Louvemos aqueles poetas que se libertam pelos seus próprios meios e cuja força de ascensão lhes é intrínseca. Muitos deles se deixaram vencer pela morbidez nostálgica ou pela amargura da farsa, mas num certo instante o toque da revelação lhes chegou e ei-los livres, alegres, senhores da matéria universal que tornam em matéria poética.

Destes, libertados da tristeza, do lirismo e do formalismo, temos aqui uma plêiade. Basta que um deles cante, será uma poesia estranha, nova, alada e que se faz música para ser mais poesia. De dois deles, nesta promissora noite, ouvireis as derradeiras "imaginações". Um é Guilherme de Almeida, o poeta de "Messidor", cujo lirismo se destila sutil e fresco de uma longínqua e vaga nostalgia de amor, de sonho e de esperança, e que, sorrindo, se evola da longa e doce tristeza para nos dar nas Canções Gregas a magia de uma poesia mais livre do que a Arte. O outro é o meu Ronald de Carvalho, o poeta da epopéia da "Luz Gloriosa" em que todo o dinamismo brasileiro se manifesta em uma fantasia de cores, de sons e de formas vivas e ardentes, maravilhoso jogo de sol que se torna poesia! A sua arte mais aérea agora, nos novos epigramas, não definha no frívolo virtuosismo que é o folguedo do artista. Ela vem da nossa alma, perdida no assombro do mundo, e é a vitória da cultura sobre o terror, e nos leva pela emoção de um verso, de uma imagem, de uma palavra, de um som à fusão do nosso ser no Todo infinito.

A remodelação estética do Brasil iniciada na música de Villa-Lobos, na escultura de Brecheret, na pintura de Di Cavalcanti, Anita Malfatti, Vicente do Rego Monteiro, Zina Aita, e na jovem e ousada poesia, será a libertação da arte dos perigos que a ameaçam do inoportuno arcadismo, do academismo e do provincialismo.

O regionalismo pode ser um material literário, mas não o fim de uma literatura nacional aspirando ao universal. O estilo clássico obedece a uma disciplina que paira sobre as coisas e não as possui.

Ora, tudo aquilo em que o Universo se fragmenta é nosso, são os mil aspectos do Todo, que a arte tem que recompor para lhes dar a unidade absoluta. Uma vibração íntima e intensa anima o artista neste mundo paradoxal que é o Universo brasileiro, e ela não se pode desenvolver nas formas rijas do arcadismo, que é o sarcófago do passado. Também o academismo é a morte pelo frio da arte e da literatura. (...)

O que hoje fixamos não é a renascença de uma arte que não existe. É o próprio comovente nascimento da arte no Brasil, e, como não temos felizmente a pérfida sombra do passado para matar a germinação, tudo promete uma admirável "florada" artística. E, libertos de todas as restrições, realizaremos na arte o Universo. A vida será, enfim, vivida na sua profunda realidade estética. O próprio Amor é uma função da arte, porque realiza a unidade integral do Todo infinito pela magia das formas do ser amado. No universalismo da arte estão a sua força e a sua eternidade. Para sermos universais façamos de todas as nossas sensações expressões estéticas, que nos levem a à ansiada unidade cósmica. Que a arte seja fiel a si mesma, renuncie ao particular e faça cessar por instantes a dolorosa tragédia do espírito humano desvairado do grande exílio da separação do Todo, e nos transporte pelos sentimentos vagos das formas, das cores, dos sons, dos tatos e dos sabores à nossa gloriosa fusão no Universo.

(Espírito Moderno, 1925)

(Apostila 6 de Pré-Modernismo - Literatura Brasileira)

 

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CANAÃ - resumo -Graça Aranha

Milkau, alemão, recém-chegado, o a uma colônia de imigrantes europeus, no Espírito Santo, aluga um cavalo para ir do Queimado à cidade de Porto do Cachoeiro. Junto com ele vai o guia, um menino de 9 anos, filho de um alugador de animais, no Queimado. O imigrante observa a paisagem e, ao passar por uma fazenda abandonada, entregue aos poucos e pobres escravos, nota o ritmo daquela gente desamparada. Finalmente, chega ao sobrado do comerciante alemão, Roberto Schultz, em Cachoeiro. Na parte inferior do edifício fica o armazém, onde é negociada toda sorte de produtos, desde fazenda até instrumentos agrícolas.

É apresentado a outro imigrante, von Lentz, filho de um general alemão. Milkau deseja arrematar um lote de terra para se estabelecer. Schultz apresenta-lhe o agrimensor, Sr.Felicíssimo, que está para ir ao Rio Doce fazer medições de terra. Milkau, desejando aí se estabelecer, decide se juntar ao agrimensor e convida o indeciso Lentz para acompanhá-lo.

Pelo caminho, Lentz e Milkau discutem a paisagem e a raça brasileiras. Milkau crê que o progresso só se dá quando os povos se misturam. Vê, na fusão das raças adiantadas com as selvagens, o rejuvenescimento da civilização. Enquanto acredita na humanidade, pensa encontrar no Brasil Canaã, "a terra prometida". Lentz só se ocupa da superioridade germânica, ficando enaltecido com o triunfo dos alemães sobre os mestiços. Para ele, a mistura gera uma cultura inferior, uma civilização de mulatos que serão sempre escravos e viverão em meio a lutas e revoltas. Acrescenta que está no Brasil, porque o estava forçando a se casar com a filha de um general, amigo do pai. Preferiu começar vida nova, longe dos deveres e obrigações impostos por sua sociedade. Milkau conta-lhe que também não encontrava graça no viver, ansiava por uma vida mais independente, em que pudesse dar vazão à sua individualidade.

À noite, reúnem-se a Felicíssimo e ouvem de alguns homens da terra e dos trabalhadores alemães lendas, evocando o Reno e despertando saudades. Os planos dos dois imigrantes diferem; Milkau deseja manter seu pedaço de terra e anseia por uma justiça perfeita sem ganâncias ou lutas. Lentz está determinado a ampliar sua propriedade, ter muitos trabalhadores sob seu comando. Sonha com o domínio do branco sobre o mulato, numa confirmação de seu poder.

Após as medidas tomadas por Felicíssimo, Milkau pode levantar sua casa e Lentz deixa-se ficar, triste e angustiado, incapaz de abandonar o companheiro, dedicando-se às viagens e compras da casa. No trajeto, encontra-se sempre com um velho colono alemão taciturno, em companhia de seus cães ferozes, mas fiéis. Mais tarde, encontrará esse velho morto em casa, guardado pelos animais e devorado pelos urubus.

Um dia, ao retornar de Santa Teresa, Lentz traz a notícia de que, em Jequitibá, o novo pastor vai celebrar seu primeiro serviço. Os colonos preparam uma festa e Milkau resolve juntar-se a eles como forma de se familiarizar com os costumes do povo. Pelo caminho, os amigos encontram famílias inteiras de colonos. As mulheres se vestem com o modelo usado na partida para a nova terra, sendo possível fixar, pelo vestuário, a época de cada imigração.

Felicíssimo os convida para, depois do culto, festejarem no sobrado de Jacob Müller. Ouvem música e vêem o povo dançando. Milkau diz a Lentz que era isso o que buscava: uma vida simples em meio à gente simples, matando o ódio e esquecendo da dor. Os homens de outras terras estavam possuídos pelo demônio, devastando o mundo. Lentz vê em tudo aquilo uma existência vazia e inútil.

Milkau conhece, nesse dia, no sobrado de Müller, uma colona, Maria Perutz, que não consegue mais esquecer o encontro com o rapaz. A história de Maria é triste e solitária. O pai morreu antes que ela pudesse conhecê-lo. A mãe viúva, criada da casa do alemão Augusto Kraus, logo falece e Maria fica sob os cuidados de Augusto, seu verdadeiro amigo. Moravam com o velho, seu filho, a nora Ema e o neto, Moritz Kraus. Repentinamente, Kraus falece e a situação na casa de Maria se modifica.

Ema e o esposo decidem separar a moça do filho, temendo uma aproximação amorosa. A família quer ver Moritz casado com a rica Emília Schenker e o enviam para longe de Jequitibá. O rapaz parte com certa alegria, deixando Maria desgostosa, pois os dois já eram amantes.

Franz Kraus é procurado por um Oficial de Justiça que, desejando saber porque a morte do velho não foi notificada, passa-lhe um documento sobre a necessidade de arrolamento dos bens de Augusto Kraus. Solicita que lhe prepare alojamento e comida para cinco pessoas, pois darão plantão em sua casa, recebendo todos os que estiverem na mesma situação de Franz.

O grupo se instala na casa e passa a chamar os colonos, amedrontando-os com extorsões e violências. Após a visita, cobram de Franz Kraus a alta importância de quatrocentos mil réis, além de demonstrarem certo interesse em Maria, notadamente o procurador Brederodes. Kraus sente-se ultrajado e roubado. A vida de Maria por essa época piora. Dia-a-dia, teme que seu estado se revele, por isso aguarda desesperadamente o retorno de Moritz para lhe contar sobre o filho que espera.

Os pais do rapaz não tardam perceber o que se passa. Vendo-a mover-se pela casa languidamente, sentem ódio e temem pelo casamento do filho. Passam o dia a cochichar, a tramar para se verem livres dela. Tratam-na com mais rigor, não lhe dão quase comida, dobram-lhe os trabalhos. Resignada, Maria resiste para desespero dos velhos. Uma manhã, trêmula e exausta deixa cair um prato. Encolerizada, Ema grita para que ela abandone a casa. O marido ameaça-lhe com um pedaço de madeira. Amedrontada, arruma uma trouxa e sai. Pede auxílio ao pastor, mas esse, dominado pela cunhada, docemente afasta Maria que parte para a vila em busca de abrigo.

Ao verem a triste figura, os colonos tomam-na por louca, enxotando-a. Na floresta, seu único refúgio, cai prostrada e adormece. No dia seguinte, encontra uma estalagem, onde empenha a trouxa de roupa em troca de comida e abrigo. A dona do estabelecimento lhe dá dois dias para encontrar um emprego, mas a busca é em vão. Certo dia, na hora do almoço, Milkau reconhece Maria na estalagem. Ao saber de sua história, prontifica-se a ajudá-la, levando-a para a casa de uns colonos. A moça é aceita, mas tratada com desdém.

Um dia, trabalhando, solitariamente, no cafezal, começa a sentir as dores do parto. Temendo retornar à casa e ser maltratada, resiste até cair e, esvaindo-se em sangue, dá luz ao bebê. Alguns porcos, que estavam nas proximidades, correm para lambê-los, mordendo o bebê que falece. A filha dos patrões chega nesse instante e, sem nada perguntar, volta à casa, dizendo que Maria tinha matado o bebê e dado a criança aos porcos. Dois dias depois, Perutz estava presa na cadeia de Cachoeiro.

A população germânica, horrorizada com o crime de Maria, prepara-se para a vingança e o exemplo. Roberto Shultz procura os mesmos representantes da Justiça que amedrontaram e extorquiram os colonos, durante o arrolamento de bens. Pede-lhes que deixem a punição da mãe assassina para os alemães. O procurador Brederodes, ignorado por Maria na época, insiste em puni-la para que aprenda a não ser tão orgulhosa. Chama todos os alemães de hipócritas e parte, deixando Shultz desmoralizado.

Milkau fica sabendo do destino de Perutz e o encontro com ela em Cachoeiro choca-o. Maria tinha a face lívida e os olhos cintilantes dançavam ao sabor da loucura. Volta a vê-la dias seguidos, passando a ser olhado com desprezo e desconfiança, pois, talvez, fosse o amante. Repelido pelos moradores, resigna-se com a condição de inimigo, permanecendo ao lado de Maria.

Certa manhã, estando em companhia de Felicíssimo, Milkau encontra Maria, sendo levada por dois soldados para o tribunal. Em cada fase do julgamento, é apontada culpada. Milkau acompanha todas as sessões, chegando a ficar amigo do juiz Paulo Maciel. Este lhe diz que o final não será feliz, pois os depoimentos não deixam brecha para a inocência. O imigrante e Maciel aproveitam os encontros para analisar a justiça brasileira, os brasileiros e seu patriotismo.

A avaliação não é das melhores. O juiz impossibilitado de fazer justiça por uma série de circunstâncias observa que a decadência ali existente é um "misto doloroso de selvageria dos povos que despontam para o mundo, e do esgotamento das raças acabadas. Há uma confusão geral". Milkau crê que se pode chegar a algo melhor. Entretanto, à medida que acompanha o definhar da amiga, vai se deixando tomar pela tristeza.

Finalmente, numa noite, Milkau tira Maria da prisão e foge com ela, correndo pelos campos em busca de Canaã, "a terra prometida", onde os homens vivem em harmonia.

(Apostila 5 de Pré-Modernismo - Literatura Brasileira)

 

 

 

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TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA – resumo -Lima Barreto

O funcionário público Policarpo Quaresma, nacionalista e patriota extremado, é conhecido por todos como major Quaresma, no Arsenal de Guerra, onde exerce a função de subsecretário. Sem muitos amigos, vive isolado com sua irmã Dona Adelaide, mantendo os mesmos hábitos há trinta anos. Seu fanatismo patriótico se reflete nos autores nacionais de sua vasta biblioteca e no modo de ver o Brasil. Para ele, tudo do país é superior, chegando até mesmo a "amputar alguns quilômetros ao Nilo" apenas para destacar a grandiosidade do Amazonas. Por isso, em casa ou na repartição, é sempre incompreendido.

Esse patriotismo leva-o a valorizar o violão, instrumento marginalizado na época, visto como sinônimo de malandragem. Atribuindo-lhe valores nacionais, decide aprender a tocá-lo com o professor Ricardo Coração dos Outros. Em busca de modinhas do folclore brasileiro, para a festa do general Albernaz, seu vizinho, lê tudo sobre o assunto, descobrindo, com grande decepção, que um bom número de nossas tradições e canções vinha do estrangeiro. Sem desanimar, decide estudar algo tipicamente nacional: os costumes tupinambás. Alguns dias depois, o compadre, Vicente Coleoni, e a afilhada, Dona Olga, são recebidos no melhor estilo Tupinambá: com choros, berros e descabelamentos. Abandonando o violão, o major volta-se para o maracá e a inúbia, instrumentos indígenas tipicamente nacionais.

Ainda nessa esteira nacionalista, propõe, em documento enviado ao Congresso Nacional, a substituição do português pelo tupi-guarani, a verdadeira língua do Brasil. Por isso, torna-se objeto de ridicularizarão, escárnio e ironia. Um ofício em tupi, enviado ao Ministro da Guerra, por engano, levá-o à suspensão e como suas manias sugerem um claro desvio comportamental, é aposentado por invalidez, depois de passar alguns meses no hospício.

Após recuperar-se da insanidade, Quaresma deixa a casa de saúde e compra o Sossego, um sítio no interior do Rio de Janeiro; está decidido a trabalhar na terra. Com Adelaide e o preto Anastácio, muda-se para o campo. A idéia de tirar da fértil terra brasileira seu sustento e felicidade anima-o. Adquire vários instrumentos e livros sobre agricultura e logo aprende a manejar a enxada. Orgulhoso da terra brasileira que, de tão boa, dispensa adubos, recebe a visita de Ricardo Coração dos Outros e da afilhada Olga, que não vê todo o progresso no campo, alardeado pelo padrinho. Nota, sim, muita pobreza e desânimo naquela gente simples.

Depois de algum tempo, o projeto agrícola de Quaresma cai por terra, derrotado por três inimigos terríveis. Primeiro, o clientelismo hipócrita dos políticos. Como Policarpo não quis compactuar com uma fraude da política local, passa a ser multado indevidamente.O segundo, foi a deficiente estrutura agrária brasileira que lhe impede de vender uma boa safra, sem tomar prejuízo. O terceiro, foi a voracidade dos imbatíveis exércitos de saúvas, que, ferozmente, devoravam sua lavoura e reservas de milho e feijão. Desanimado, estende sua dor à pobre população rural, lamentando o abandono de terras improdutivas e a falta de solidariedade do governo, protetor dos grandes latifundiários do café. Para ele, era necessária uma nova administração.

A Revolta da Armada - insurreição dos marinheiros da esquadra contra o continuísmo florianista - faz com que Quaresma abandone a batalha campestre e, como bom patriota, siga para o Rio de Janeiro. Alistando-se na frente de combate em defesa do Marechal Floriano, torna-se comandante de um destacamento, onde estuda artilharia, balística, mecânica.

Durante a visita de Floriano Peixoto ao quartel, que já o conhecia do arsenal, Policarpo fica sabendo que o marechal havia lido seu "projeto agrícola" para a nação. Diante do entusiasmo e observações oníricas do comandante, o Presidente simplesmente responde: "Você Quaresma é um visionário".

Após quatro meses de revolta, a Armada ainda resiste bravamente. Diante da indiferença de Floriano para com seu "projeto", Quaresma questiona-se se vale a pena deixar o sossego de casa e se arriscar, ou até morrer nas trincheiras por esse homem. Mas continua lutando e acaba ferido. Enquanto isso, sozinha, a irmã Adelaide pouco pode fazer pelo sítio do Sossego, que já demonstra sinais de completo abandono. Em uma carta à Adelaide, descreve-lhe as batalhas e fala de seu ferimento. Contudo, Quaresma se restabelece e, ao fim da revolta, que dura sete meses, é designado carcereiro da Ilha das Enxadas, prisão dos marinheiros insurgentes.

Uma madrugada é visitado por um emissário do governo que, aleatoriamente, escolhe doze prisioneiros que são levados pela escolta para fuzilamento. Indignado, escreve a Floriano, denunciando esse tipo de atrocidade cometida pelo governo. Acaba sendo preso como traidor e conduzido à Ilha das Cobras. Apesar de tanto empenho e fidelidade, Quaresma é condenado à morte. Preocupado com sua situação, Ricardo busca auxílio nas repartições e com amigos do próprio Quaresma, que nada fazem, pois temem por seus empregos. Mesmo contrariando a vontade e ambição do marido, sua afilhada, Olga, tenta ajudá-lo, buscando o apoio de Floriano, mas nada consegue. A morte será o triste fim de Policarpo Quaresma.

Filme:

Policarpo Quaresma, Herói do Brasil

O major Policarpo Quaresma é um sonhador. Um visionário que ama o seu país e deseja vê-lo tão grandioso quanto, acredita, o Brasil pode ser. A sua luta se inicia no Congresso. Policarpo quer que o tupi-guarani seja adotado como idioma nacional. Ele tem o apoio de sua afilhada Olga por quem nutre um afeto especial e Ricardo Coração dos Outros trovador e compositor de modinhas que conta a história do nosso herói do Brasil.

Ficha Técnica

Título Original: Policarpo Quaresma, Herói do Brasil
Gênero: Comédia
Tempo de Duração: 120 min.
Ano de Lançamento (Brasil): 1988
Distribuição: Riofilme e Filmark

Direção: Paulo Thiago
Roteiro: Alcione Araujo
Produção: Vitória Produções Cinematográficas
Música: Sérgio Saraceni
Fotografia: Antônio Penido
Desenho de Produção: Sérgio Silveira
Figurino: Kika Lopes
Edição: Gilberto Santeiro

Elenco
Paulo José (Policarpo Quaresma)
Giulia Gam (Olga)
llya São Paulo (Ricardo)
Antônio Calloni (Genelício)
Bete Coelho (Adelaide)
Othon Bastos (Floriano Peixoto)
Cláudio Mamberti (Coleoni)
Fernando Eiras (Armando Borges)
Luciana Braga (Ismêmia)
Tonico Pereira (Bustamante)
Nelson Dantas (Caldas)
Jonas Bloch (Dr. Mendonça)
Marcélia Cartaxo (Sinhá Chica)
José Lewgoy
Aracy Balabanian (Maricota)
Chico Diaz (Felizardo)
José Loureiro (Tenente Antonino)
José Dumont (Tenente Coxo)
David Pinheiro (Átila)
Paulão (Genu)
Carlos Gregório (Dr. Campos)

(Apostila 11 de Pré-Modernismo - Literatura Brasileira)

 

 

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A NOVA CALIFÓRNIA - resumo - LIMA BARRETO

A NOVA CALIFÓRNIA é uma saborosa narrativa satírica em que a cupidez e o ridículo do comportamento nacional andam lado a lado. Parodiando o enredo dos antigos relatos sobre a "corrida do ouro", nas Estados Unidos do final do século XIX.

O Autor monta um cenário em que, além da crítica universal ao comportamento humano, ressalta a pobreza de imaginação e falta de criatividade do Homo Brasilicus.

Um lugarejo do interior do Rio de Janeiro, Tubiacanga, recebe um morador estranho que intriga a todos com seu comportamento arredio. Após algum tempo é admirado por sua generosidade e doçura no trato com as pessoas. O novo morador, Raimundo Flamel, procura as pessoas mais importantes e respeitadas do lugar: O farmacêutico Bastos, o procurador Carvalhaes e o Coronel Bentes para que testemunhassem sua grande descoberta: é capaz de fabricar ouro, tendo ossos humanos como matéria prima. Em seguida desaparece misteriosamente.

Após alguns dias, o cemitério começa a ser assaltado e as sepulturas profanadas. Monta-se uma guarda com moradores voluntários, que matam um dos profanadores (Carvalhaes) e prendem o outro (Coronel Bentes). Bentes revela o nome do terceiro: é o farmacêutico Bastos. Revelado o mistério, as pessoas vão para suas casas, cada uma delas com o pensamento voltado para um só objetivo: a riqueza fácil que resolveria, de imediato, os problemas e atenderia à fantasia de luxo e bem-estar
econômico. Aos poucos, com o passar das horas, a cidade parece voltar à calma. Estão dormindo. Mas qual!... Sorrateiramente os habitantes dirigem-se ao cemitério e buscam reunir a maior quantidade possível de ossos para produzir ouro. Moças sonhadoras e orgulhosas de sua brejeirice, senhoras compenetradas, homens respeitáveis, funcionários públicos, comerciantes e humildes trabalhadores engalfinham-se e escarafuncham as sepulturas em busca da preciosa mercadoria. As máscaras são desvendadas, cada um com sua essência desprezível, reprovável e nem sequer sonhada pelos demais. O tumulto termina em baderna, agressão e mortes. O único a escapar do ridículo da situação é o bêbado contumaz de Tubiacanga que, embriagado com o álcool, não se dá conta ou não quer se envolver em algo tão mesquinho e rigorosamente material. O farmacêutico foge sem revelar o segredo de se transformar ossos em ouro.

O texto parodia o enredo dos antigos contos sobre a "corrida do ouro" no Oeste dos Estados Unidos, a final, transformar ossos humanos em ouro é uma piada macabra para o capitalismo selvagem Raimundo Flamel, o sábio e respeitado, põe à disposição de homens gananciosos (Coronel Bentes e o farmacêutico simbolizam o poder, Carvalhaes é o coletor de impostos) , um conhecimento temível: a riqueza fácil que é possível e está ao alcance das mãos. Para alcançá-la, entretanto, é preciso abdicar-se de valores arraigados como família, tradição, respeito aos antepassados e imagem pública. Sátira às leis cientificas, tão exploradas pela literatura Realista-Naturalista, o texto ri da famosa Lei da Conservação da Matéria, "Na natureza, nada se cria, nada se perde. Tudo se transforma.". Ossos humanos são transformados em ouro, assim como pessoas aparentemente respeitáveis transmutam-se em seres abjetos, movidos pelo sentimento sórdido da cupidez (um dos sete pecados capitais).

O autor antecipa a postura jocosa e irreverente do inicio do movimento modernista e realiza um texto atraente, bem urdido e com uma fabulação que prende o leitor do principio ao fim, numa linguagem corrente e de fácil assimilação.

Fera Ferida - novela inspirada em Nova Califórnia, Clara dos Anjos e O Homem que sabia javanês

Globo - 20h - de 15 de novembro de 1993 a 16 de julho de 1994

221 capítulos

novela de Aguinaldo Silva, Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares

baseada em tramas e personagens de Lima Barreto

colaboração de Márcia Prates e Flávio de Campos

direção de Denis Carvalho, Marcos Paulo, Carlos Magalhães e Carlos Araújo

direção geral de Denis Carvalho e Marcos Paulo

 

 

 

 

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RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS CAMINHA - resumo - Lima Barreto

O primeiro romance de Lima Barreto é uma forte crítica à sociedade hipócrita e preconceituosa e a imprensa (que ele mesmo fez parte). É um livro pungente em todos os sentidos, de leitura obrigatória. O jovem Isaías Caminha, menino do interior, tomou gosto pelos estudos através da desigualdade de nível mental entre o seu pai, um ilustrado vigário, e sua mãe. Admirava o pai que lhe contava histórias sobre grandes homens. Esforçou-se muito nas instruções e pouco brincava. Tinha ambições e um dia finalmente decide ir para o Rio fazer-se doutor:

"Ah! Seria doutor! Resgataria o pecado original do meu nascimento humilde, amaciaria o suplício premente, cruciante e omnímodo de minha cor... Nas dobras do pergaminho da carta, traria presa a consideração de toda a gente. Seguro do respeito à minha majestade de homem, andaria com ela mais firme pela vida em fora. Não titubearia, não hesitaria, livremente poderia falar, dizer bem alto os pensamentos que se estorciam no meu cérebro. [...] Quantas prerrogativas, quantos direitos especiais, quantos privilégios, esse título dava! Podia ter dois e mais empregos apesar da Constituição; teria direito à prisão especial e não precisava saber nada. Bastava o diploma. Pus-me a considerar que isso devia ser antigo... Newton, César, Platão e Miguel Ângelo deviam ter sido doutores!" Aconselha-se com o tio Valentim. Este visita o Coronel Belmiro, chefe eleitoral local, que redige uma carta recomendando Isaías para o Doutor Castro, deputado. Segue paro o Rio com algum dinheiro e esta carta. Instala-se no Hotel Jenikalé, na Praça da República e conhece o Senhor Laje da Silva - diz ser padeiro e é incrivelmente afável com todos, em especial com os jornalistas. Através dele conhece o doutor Ivã Gregoróvitch Rostóloff, jornalista de O Globo, romeno, sentia-se sem pátria e falava 10 línguas. Vai assim conhecendo o Rio de Janeiro. Decide procurar o Deputado Castro para conseguir seu emprego e poder cursar Medicina. Dirige-se a Câmera: "subi pensando no ofício de legislar que ia ver exercer pela primeira vez, em plena Câmera dos Senhores Deputados - augustos e digníssimos representantes da Nação Brasileira. Não foi sem espanto que descobri em mim um grande respeito por esse alto e venerável ofício [...] Foi com grande surpresa que não senti naquele doutor Castro, quanto certa vez estive junto dele, nada que denunciasse tão poderosa faculdade. Vi-o durante uma hora olhar tudo sem interesse e só houve um movimento vivo e próprio, profundo e diferencial, na sua pessoa, quando passou por perto uma fornida rapariga de grandes ancas, ofuscante sensualidade." Tenta falar com o doutor Castro mas não consegue. Quando finalmente consegue, visitando a sua residência particular (casa da amante) este o recebe friamente dizendo que era muito difícil arranjar empregos e mando o procurar no outro dia. Caminha depois descobre que o deputado estava de viajem para o mesmo dia e é tomado por um acesso de raiva: Patife! Patife! A minha indignação veio encontrar os palestradores no máximo de entusiasmo. O meu ódio, brotando naquele meio de satisfação, ganhou mais força [...] Gente miserável que dá sanção aos deputados, que os respeita e prestigia! Porque não lhes examinam as ações, o que fazem e para que servem? Se o fizessem... Ah! Se o fizessem! Com o dinheiro no fim, sem emprego, recebe uma intimação para ir à delegacia. O hotel havia sido roubado e prestava-se depoimentos. Ao ouvir as palavras do Capitão Viveiros: "E o caso do Jenikalé? Já apareceu o tal "mulatinho"?" Isaías reflete: Não tenho pejo em confessar hoje que quando me ouvi tratado assim, as lágrimas me vieram aos olhos. Eu saíra do colégio, vivera sempre num ambiente artificial de consideração, de respeito, de atenções comigo [...] Hoje, agora, depois não sei de quantos pontapés destes e outros mais brutais, sou outro, insensível e cínico, mais forte talvez; aos meus olhos, porém, muito diminuído de mim próprio, do meu primitivo ideal [...] Entretanto, isso tudo é uma questão de semântica: amanhã, dentro de um século, não terá mais significação injuriosa. Essa reflexão, porém, não me confortava naquele tempo, porque sentia na baixeza de tratamento, todo o desconhecimento das minhas qualidades, o julgamento anterior da minha personalidade que não queriam ouvir, sentir e examinar. Levado a presença do delegado, começa o interrogatório:

- Qual é a sua profissão?
- Estudante.
- Estudante?!
- Sim, senhor, estudante, repeti com firmeza.
- Qual estudante, qual nada!

A sua surpresa deixara-me atônito. Que havia nisso de extraordinário, de impossível? Se havia tanta gente besta e bronca que o era, porque não o podia seu eu? Donde lhe vinha a admiração duvidosa? Quis-lhe dar uma resposta mas as interrogações a mim mesmo me enleavam. Ele por sua vez, tomou o meu embaraço como prova de que mentia. Com ar de escarninho perguntou:

- Então você é estudante?

Dessa vez tinha-o compreendido, cheio de ódio, cheio de um santo ódio que nunca mais vi chegar em mim. Era mais uma variante daquelas tolas humilhações que eu já sofrera; era o sentimento geral da minha inferioridade, decretada a priori, que eu adivinhei na sua pergunta. O delegado continua o interrogatório até arrebatar chamando Caminha de malandro e gatuno, que, sentindo num segundo todas as injustiças que vinha sofrendo chama o delegado de imbecil. Foi para o xadrez. Passa pouco mais de 3 horas na cela e é chamado ao delegado. Este se mostra amável, tratando-o por "meu filho", dando-lhe conselhos. Caminha sai da delegacia e decide mudar-se também do hotel. Passa a procurar emprego mas na primeira negação percebe que devido a sua cor seria muito difícil se ajustar na vida. Passa dias perambulando pelas ruas do Rio, passando fome, vendendo o que tinha para comer algo, até avistar Rostóloff que o convida para dar um passada na redação de O Globo - onde passa a trabalhar como contínuo.

Nesta altura a narrativa sofre um corte. A ação de Caminha é posta de lado para descrever minuciosamente os funcionamentos da imprensa carioca. Todas as características dos grandes jornalistas, desde o diretor de O Globo, Ricardo Loberant aos demais redatores e jornalistas são explicitadas de maneira cruel e mordaz. O diretor é retratado como ditador, temido por todos, com apetite de mulheres e prazer, visando somente ao aumento das vendas do seu jornal. Somos apresentados então a inúmeros jornalistas como Aires d'Avila, redator-chefe, Leporace, secretário, Adelermo Caxias, Oliveira, Menezes, Gregoróvitch. A tônica de O Globo era a crítica acerba ao governo e seus "desmandos", Loberant se considerava o moralizador da República. Isaías se admira com a falta de conhecimento e dificuldade para escrever desses homens que nas ruas eram tratados como semi-deuses e defensores do povo. Por este tempo, Caminha havia perdido suas grandes ambições e acostumava-se com o trabalho de contínuo. É notável o que se diz do crítico literário Floc (Frederico Lourenço do Couto) e do gramático Lobo - os dois mais altos ápices da intelectualidade do Globo. Lobo era defensor do purismo, de um código tirânico, de uma língua sagrada. Acaba num hospício, sem falar, com medo que o falar errado o tenha impregnado e tapando os ouvidos para não ouvir. Floc "confundia arte, literatura, pensamento com distrações de salão; não lhes sentia o grande fundo natural, o que pode haver de grandioso na função da Arte. Para ele, arte era recitar versos nas salas, reqüestar atrizes e pintar umas aquarelas lambidas, falsamente melancólicas. [...] as suas regras estéticas eram as suas relações com o autor, as recomendações recebidas, os títulos universitários, o nascimento e a condição social." Certa noite, volta entusiasmado de uma apresentação de música e vai escrever a crônica para o dia seguinte. Após algum tempo, o paginador o apressa. Ele manda esperar. Floc tenta escrever o que viu e ouvira, mas seu poder criativo é nulo, sua capacidade é fraca. Ele se desespera. O que escreve rasga. Após novo pedido do paginador, ele se levanta, dirige-se a um compartimento próximo e se suicida com um tiro na cabeça. Estando a redação praticamente vazia, o redator de plantão chama Isaías e pede para que ele se dirija para o local onde Ricardo Loberant se encontra e jurasse que nunca diria o que viu. Isaías vai ao local indicado e surpreende Loberant e Aires d'Avila numa sessão de orgia e os chama apressadamente para o jornal. Loberant passa então a olhar com mais atenção a Isaías e o promove até repórter. Divide confidências e farras. Isaías ganha a proteção e dinheiro de Ricardo Loberant. Depois da euforia inicial, Isaías se ressente. Lembrava-me de que deixara toda a minha vida ao acaso e que a não pusera ao estudo e ao trabalho com a força de que era capaz. Sentia-me repelente, repelente de fraqueza, de falta de decisão e mais amolecido agora com o álcool e com os prazeres... Sentia-me parasita, adulando o diretor para obter dinheiro... Em dado momento do livro, Lima Barreto escreve: "Não é o seu valor literário que me preocupa; é a sua utilidade para o fim que almejo." Valor literário entenda-se como o "valor" vigente naquela época, do escrever bonito e empolado, gramaticalmente correto, em busca de palavras desconhecidas em empoeirados dicionários, em busca da forma. Literatura era tudo, menos comunicação e arte.

(Apostila 11 de Pré-Modernismo - Literatura Brasileira

 

 

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Clara dos Anjos - Lima Barreto

Obs.: Boa parte deste resumo foi copiado de http://fredb.sites.uol.com.br/clara.html


Passado no subúrbio do Rio de Janeiro, Clara dos Anjos conta sobre a jovem e ingênua mulata Clara, filha do carteiro Joaquim dos Anjos, que é seduzida pelo malandro Cassi Jones. Cassi é um jovem branco, ignorante e torpe, que usa este sobrenome porque, supostamente, descende de um nobre inglês. Seu pai não fala mais com ele após suas diversas aventuras que desonraram várias donzelas e acabaram com vários casamentos (a mãe de uma das vítimas se suicidou; o marido que ela arranjou depois distribui anonimamente um dossiê sobre Cassi pelo RJ).

Cassi toma Clara como seu próximo alvo e vai tentando se aproximar dela. Começa pela festa de aniversário desta e vai seguindo, apesar dos pais dela não deixarem e do padrinho dela e tantos outros falarem sobre ele.

Clara não acredita e continua curiosa sobre Cassi. Cassi passa a usar um velho, "dentista", que tratava de Clara; ele manda as cartas de um e outro. Depois de um tempo Cassi parte para São Paulo para um possível emprego; Clara está grávida. Após pensar em aborto, Clara revela a verdade à mãe, que vai falar à família de Cassi. Lá ela é tratada como só "mais uma mulatinha" e percebe a verdade total. Pontilhado com referências sobre o preconceito racial (um dos personagens é poeta Leonardo Flores; mulato e talentoso, fica pobre pois foi explorado), este foi o primeiro romance de Lima Barreto mais um dos últimos a ser publicado. Todos os personagens são tipicamente suburbanos e o vocabulário já transpira a coloquialidade como é característico ao autor.

Clara é uma mulata pobre, que vive no subúrbio carioca com seus pais, Joaquim e Engrácia, mulher “sedentária e caseira.” Joaquim era carteiro, “gostava de violão e de modinhas. Ele mesmo tocava flauta, instrumento que já foi muito estimado em outras épocas, não o sendo atualmente como outrora”. Também “compunha valsas, tangos e acompanhamentos de modinhas.” Além da música, a outra diversão do pai de Clara era passar as tardes de domingo jogando solo com seus dois amigos: o compadre Marramaque e o português Eduardo Lafões, um guarda de obras públicas.
Marrameque e as rodas literárias

Poeta modesto, semiparalisado, Marramaque freqüentara uma pequena roda de boêmios e literatos e dizia ter conhecido Paula Nei e ser amigo pessoal de Luís Murat.

A descrição dessa figura revela a crítica de Lima Barreto a vários aspectos da vida literária brasileira:
"Embora atualmente fosse um simples contínuo de ministério, em que não fazia o serviço respectivo, nem outro qualquer, devido a seu estado de invalidez, de semi-aleijado e semiparalítico do lado esquerdo, tinha, entretanto, pertencido a uma modesta roda de boêmios literatos e poetas, na qual, a par da poesia e de coisas de literatura, se discutia muita política, hábito que lhe ficou. (…)
A sua roda não tinha ninguém de destaque, mas alguns eram estimáveis. Mesmo alguns de rodas mais cotadas procuravam a dele.

Quando narrava episódios dessa parte de sua vida, tinha grande garbo e orgulho em dizer que havia conhecido Paula Nei e se dava com Luís Murat. Não mentia, enquanto não confessasse a todos em que qualidade fizera parte do grupo literário. Os que o conheciam, daquela época, não ocultavam o título com que partilhava a honra de ser membro de um cenáculo poético. Tendo tentado versejar, o seu bom senso e a integridade de seu caráter fizeram-lhe ver logo que não dava para a coisa. Abandonou e cultivou as charadas, os logogrifos, etc. Ficou sendo um hábil charadista e, como tal, figurava quase sempre como redator ou colaborador dos jornais, que os seus companheiros e amigos de boêmia literária, poetas e literatos, improvisavam do pé para a mão, quase sempre sem dinheiro para um terno novo. Envelhecendo e ficando semi-inutilizado, depois de dois ataques de apoplexia, foi obrigado a aceitar aquele humilde lugar de contínuo, para ter com que viver. Os seus méritos e saber, porém, não estavam muito acima do cargo. Aprendera muita coisa de ouvido e, de ouvido, falava de muitas delas. (…)
Tendo vivido em rodas de gente fina — como já vimos — -, e não pela fortuna, mas pela educação e instrução; tendo sonhado outro destino que não o que tivera; acrescendo a tudo isto o seu aleijamento — Marramaque era naturalmente azedo e oposicionista."

Lima Barreto denuncia, na figura de Marramaque, a influência das rodas literárias, grupos fechados que abundam no Brasil; a cultura da oralidade, dos que aprendem “muita coisa de ouvido e, de ouvido, falava de muitas delas”, tendo um cultura superficial, de verniz; e o azedume dos que não conseguem brilhar nas “rodas de gente fina”.

Clara: a “natureza elementar”

Clara era a segunda filha do casal, “o único filho sobrevivente…os demais…haviam morrido.” Tinha dezessete anos, era ingênua e fora criada “com muito desvelo, recato e carinho; e, a não ser com a mãe ou pai, só saía com Dona Margarida, uma viúva muito séria, que morava nas vizinhanças e ensinava a Clara bordados e costuras.”

O autor reitera sempre a personalidade frágil da moça – sua “alma amolecida, capaz de render-se às lábias de um qualquer perverso, mais ou menos ousado, farsante e ignorante, que tivesse a animá-lo o conceito que os bordelengos fazem das raparigas de sua cor” – como resultado de sua educação reclusa e “temperada” pelas modinhas:

“Clara era uma natureza amorfa, pastosa, que precisava mãos fortes que a modelassem e fixassem. Seus pais não seriam capazes disso. A mãe não tinha caráter, no bom sentido, para o fazer; limitava-se a vigiá-la caninamente; e o pai, devido aos seus afazeres, passava a maioria do tempo longe dela. E ela vivia toda entregue a um sonho lânguido de modinhas e descantes, entoadas por sestrosos cantores, como o tal Cassi e outros exploradores da morbidez do violão. O mundo se lhe representava como povoado de suas dúvidas, de queixumes de viola, a suspirar amor.”

Essa “natureza elementar” de Clara se traduzia na ausência de ambição em melhorar seu modo de vida ou condição social por meio do trabalho ou do estudo:

“Nem a relativa independência que o ensino da música e piano lhe poderia fornecer, animava-a a aperfeiçoar os seus estudos. O seu ideal na vida não era adquirir uma personalidade, não era ser ela, mesmo ao lado do pai ou do futuro marido. Era constituir função do pai, enquanto solteira, e do marido, quando casada. (…) Não que ela fosse vadia, ao contrário; mas tinha um tolo escrúpulo de ganhar dinheiro por suas próprias mãos. Parecia feio a uma moça ou a uma mulher.”

A descrição de Clara reforça os malefícios da formação machista, superprotetora, repressiva e limitadora reservada às mulheres na nossa sociedade. Ecoa, portanto, a descrição de Luísa, do romance O Primo Basílio, de Eça de Queirós, ou a Ana Rosa de O Mulato, de Aluísio de Azevedo. Todas são, na verdade, herdeiras diretas da figura de formação débil, educada nas leituras dos romances românticos, que é Emma Bovary, criada por Gustave Flaubert no romance inaugural do Realismo, Madame Bovary (1857).
Cassi: o corruptor

Por intermédio de Lafões, o carteiro Joaquim passa a receber em casa o pretendente de Clara, Cassi Jones de Azevedo, que pertencia a uma posição social melhor. Assim o descreve Lima Barreto:

“Era Cassi um rapaz de pouco menos de trinta anos, branco, sardento, insignificante, de rosto e de corpo; e, conquanto fosse conhecido como consumado "modinhoso", além de o ser também por outras façanhas verdadeiramente ignóbeis, não tinha as melenas do virtuose do violão, nem outro qualquer traço de capadócio. Vestia-se seriamente, segundo as modas da rua do Ouvidor; mas, pelo apuro forçado e o degagé suburbanos, as suas roupas chamavam a atenção dos outros, que teimavam em descobrir aquele aperfeiçoadíssimo "Brandão", das margens da Central, que lhe talhava as roupas. A única pelintragem, adequada ao seu mister, que apresentava, consistia em trazer o cabelo ensopado de óleo e repartido no alto da cabeça, dividido muito exatamente ao meio — a famosa "pastinha". Não usava topete, nem bigode. O calçado era conforme a moda, mas com os aperfeiçoamentos exigidos por um elegante dos subúrbios, que encanta e seduz as damas com o seu irresistível violão.”
O padrinho Marramaque, que já lhe conhecia a fama, tenta afastá-lo de Clara quando percebe seu interesse. Na festa de aniversário da afilhada, provoca Cassi e deixa claro que ele não é bem-vindo ali e que seria melhor que se retirasse. Cassi vinga-se de modo violento: junta-se a um capanga e ambos assassinam Marramaque. Clara, que já suspeitava das ameaças do rapaz ao padrinho, passa a temê-lo, mas ele consegue seduzi-la, principalmente ao confessar seu crime, dizendo que matou por amor a ela.
Malandro e perigoso, Cassi já havia se envolvido em problemas com a justiça antes, mas sempre fora acobertado pela sua família, especialmente sua mãe, que não queria que fosse preso. Assim, conseguia subornar a polícia e continuar impune, mesmo depois de ter levado a mãe de uma de suas vítimas ao suicídio e da perseguição da imprensa.

O exagero narrativo de Lima Barreto torna-se patente ao descrever a figura do sedutor. Branco, sardento e de cabelos claros, é a antítese de Clara. Como o apontou Lúcia Miguel Pereira: “Até os animais da predileção de Cassi, os galos de briga, são apresentados com visível má vontade: ‘horripilantes galináceos’ de ‘ferocidade repugnante’.”

O desfecho

Clara engravida e Cassi Jones desaparece. Convencida pela vizinha, dona Margarida, que procurara na tentativa de conseguir um empréstimo e fazer um aborto, ela confessa o que está acontecendo à sua mãe. É levada a procurar a família de Cassi e pedir “reparação do dano”. A mãe do rapaz humilha Clara, mostrando-se profundamente ofendida porque uma negra quer se casar com seu filho. Clara “agora é que tinha a noção exata da sua situação na sociedade. Fora preciso ser ofendida irremediavelmente nos seus melindres de solteira, ouvir os desaforos da mãe do seu algoz, para se convencer de que ela não era uma moça como as outras; era muito menos no conceito de todos.”

O autor representa, na figura de Clara e no seu drama, a condição social da mulher, pobre e negra, geração após geração. No final do romance, consciente e lúcida, Clara reflete sobre a sua situação:
“O que era preciso, tanto a ela como às suas iguais, era educar o caráter, revestir-se de vontade, como possuía essa varonil Dona Margarida, para se defender de Cassi e semelhantes, e bater-se contra todos os que se opusessem, por este ou aquele modo, contra a elevação dela, social e moralmente. Nada a fazia inferior às outras, senão o conceito geral e a covardia com que elas o admitiam...”
E, na cena final, ao relatar o que se passara na casa da família de Cassi Jones para a sua mãe, conclui, em desespero, como se falasse em nome dela, da mãe e de todas as mulheres em iguais condições: “— Nós não somos nada nesta vida.”

O UNIVERSO SUBURBANO

O romance passa-se no subúrbio carioca e Lima Barreto descreve o ambiente suburbano com riqueza de detalhes, como os vários tipos de “casas, casinhas, casebres, barracões, choças” e a vida das pessoas que ali vivem.

Nas palavras de Sérgio Buarque de Holanda:

"Ao oposto de Machado de Assis, que saído do Morro do Livramento procuraria os bairros da classe média e abastada, este homem, nascido nas Laranjeiras, que se distinguiu nos estudos de Humanidades e nos concursos, que um dia sonhou tornar-se engenheiro, que no fim da vida ainda se gabava de saber geometria contra os que o acusavam de não saber escrever bem, procurou deliberadamente a feiúra e a tristeza dos bairros pobres, o avesso das aparências brancas e burguesas, o avesso de Botafogo e de Petrópolis."

Os “bíblias”

Ao descrever o subúrbio, Lima Barreto aborda o advento dos “bíblias”, os protestantes que alugam uma antiga chácara e passam a conquistar novos fiéis para seu culto:

“Joaquim dos Anjos ainda conhecera a "chácara" habitada pelos proprietários respectivos; mas, ultimamente, eles se tinham retirado para fora e alugado aos "bíblias"… O povo não os via com hostilidade, mesmo alguns humildes homens e pobres raparigas dos arredores freqüentavam-nos, já por encontrar nisso um sinal de superioridade intelectual sobre os seus iguais, já por procurarem, em outra casa religiosa que não a tradicional, lenitivo para suas pobres almas alanceadas, além das dores que seguem toda e qualquer existência humana.”

E reflete sobre a nova seita:

“Era Shays Quick ou Quick Shays daquela raça curiosa de yankees fundadores de novas seitas cristãs. De quando em quando, um cidadão protestante dessa raça que deseja a felicidade de nós outros, na terra e no céu, à luz de uma sua interpretação de um ou mais versículos da Bíblia, funda uma novíssima seita, põe-se a propagá-la e logo encontra dedicados adeptos, os quais não sabem muito bem por que foram para tal novíssima religiãozinha e qual a diferença que há entre esta e a de que vieram.”
A crítica às “novas seitas cristãs” revela também a ojeriza de Lima Barreto à influência americana no Brasil. Como o colocou Antônio Arnoni Prado, o autor de Clara dos Anjos “interessou-se pelos Estados Unidos, em virtude do tratamento desumano que este país dispensava aos seus cidadãos de cor. (…) Censurou duramente a discriminação racial americana, assim como o expansionismo imperialista dos ‘yankees’, que, através da diplomacia do dólar, ia, a seu ver, convertendo o Brasil num autêntico protetorado.” Nada mais profético.

(Apostila 8 de Pré-Modernismo - Literatura Brasileira

 

 

 

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OS BRUZUNDANGAS - resumo - Lima Barreto

Sátira. Bruzundanga é um país fictício, parecidíssimo com o Brasil do começo do século e o de hoje, cheio de elites incultas dominando um povo, com racismo (javaneses lá, mulatos como o autor cá), pobreza, obsessão com títulos e riquezas e uma literatura de enfeite, sem sentido e desatualizada. O livro é um diário de viagem de um brasileiro que morou tempos na Bruzundanga, conheceu sua literatura, a escola samoieda (falsa, monótona e afastada da cultura, com autores fúteis e aconchavados com a classe dominante); sua economia confusa que exauri a riqueza do país, sendo dominada pelos cafeeiros da província de Kaphet. Mostra também a obsessão por títulos como os de nobreza e os de doutor, mesmo quando seus possuidores não são nobres e são pouco letrados. A seguir critica a legislação (a Constituição, baseada na de um país visitado por Gulliver, tem uma lei que diz que se a lei não for conveniente a situação ela não é válida), a política (os presidentes, chamados Mandachuvas, assim como os ministros, os heróis e os deputados, são estúpidos e vazios), o processo democrático (tão corrupto quanto era na República Velha), a ciência, o resto da cultura (quase nula, por vezes perto do negativo), o exército e a política internacional. Repleto de caricaturas de personagens da vida política da época, como Venceslau Brás e o Barão de Rio Branco, o livro é uma crítica ferina a sociedade brasileira, sua literatura sorriso da sociedade e sua organização político-econômica.

Trechos:

[Os Samoiedas]

O que caracteriza a literatura daquele país, é uma curiosa escola literária lá conhecida por "Escola Samoieda". Não que todo o escritor bruzundanguense pertença a semelhante rito literário; os mais pretenciosos, porém, e os que se têm na conta de sacerdotes da Arte, se dizem graduados, diplomados nela. Digo -- "caracteriza", porque, como os senhores verão no correr destas notas, não há na maioria daquela gente uma profundeza de sentimento que a impila a ir ao âmago das cousas que fingem amar, de decifrá-las pelo amor sincero em que as têm, de querê-las totalmente, de absorvê-las. Só querem a aparência das cousas. Quando (em geral) vão estudar medicina, não é a medicina que eles pretendem exercer, não é curar, não é ser um grande médico, é ser doutor; quando se fazem oficiais do exército ou da marinha, não é exercer as obrigações atinentes a tais profissões, tanto assim que fogem de executar o que é próprio a elas. Vão ser uma ou outra cousa, pelo brilho do uniforme. Assim também são os literatos que simulam sê-lo para ter a glória que as letras dão, sem querer arcar com as dores, com o esforço excepcional, que elas exigem em troca. A glória das letras só as tem, quem a elas se dá inteiramente; nelas, como no amor, só é amado quem se esquece de si inteiramente e se entrega com fé cega. Os samoiedas, como vamos ver, contentam-se com as aparências literárias e a banal simulação de notoriedade, umas vezes por incapacidade de inteligência, em outras por instrução insuficiente ou viciada, quase sempre, porém, por falta de verdadeiro talento poético, de sinceridade, e necessidade, portanto, de disfarçar os defeitos com pelotiquices e passes de mágica intelectuais.

Tendo convivido com alguns poetas samoiedas, pude estudar um tanto demoradamente os princípios teóricos dessa escola e julgo estar habilitado a lhes dar um resumo de suas regras poéticas e da sua estética. Esses poetas da Bruzundanga, para dar uma origem altissonante e

misteriosa à sua escola, sustentam que ela nasceu do poema de um príncipe samoieda, que viveu nas margens do Ártico, nas proximidades do Óbi ou do Lena, na Sibéria, um original que se alimentava da carne de mamutes conservados há centenas de séculos nas geleiras daquelas regiões.

Essa espécie de alimentação do longínquo príncipe poeta dava aos olhos de todos eles, singular prestígio aos seus versos e aos do fundador, embora pouco eles os conhecessem.

O príncipe chamava-se Tuque-Tuque Fit-Fit e o seu poema Parikáithont Vakochan, o que quer dizer no nosso calão -- O silêncio das renas no campo de gelo.

Tuque-Tuque Fit-Fit era descrito pelos "samoiedas" da Bruzundanga como sendo uma beleza sem par e triunfal entre as deidades daquelas regiões árticas.

Tudo isto era fantástico, mas graças à credulidade dos sábios do país, só um ou outro desalmado tinha a coragem de contestar tais lendas.

Como todos nós sabemos, a raça samoieda é de estatura baixa, pouco menos que a dos lapões, cabelos longos, duros e negros de jade, vivendo da carne de renas, de urso branco, quando a felicidade lhe fornece um. Tais homens andam em trenós e fazem kayacs de peles de renas ou focas que eles empregam para capturar estas últimas.

As suas concepções religiosas são reduzidas, e os seus ídolos, manipansos hediondos, tocos de pau besuntados de pinturas incoerentes. Vestem-se, os samoiedas, com peles de renas e outros animais hiperbóreos. Entretanto, na opinião dos poetas daquela república, que dizem seguir as teorias da literatura do Oceano Ártico, não são os samoiedas assim, como o contam os mais autorizados viajantes; mas sim os mais belos espécimens da raça humana, possuindo uma civilização digna da Grécia antiga. Esta Grécia serve para tudo, especialmente na Bruzundanga...

Em geral, os vates bruzundanguenses adeptos da tal escola samoieda, como os senhores vêem, não primam pela ilustração; e, quando se conteste no tocante à beleza de tais esquimós, respondem categoricamente que a devem ter extraordinária, pois quanto mais fria é a região, mais belos são os tipos, mais altos, mais louros, e os samoiedas vivem em zona frigidíssima.

Não há como discutir com eles, porque todos se guiam por idéias feitas, receitas de julgamentos e nunca se aventuram a examinar por si qualquer questão, preferindo resolvê-las por generalizações quase sempre recebidas de segunda ou terceira mão, diluídas e desfiguradas pelas sucessivas passagens de uma cabeça para outra cabeça.

Atribuem, sem base alguma, a esse tal Tuque-Tuque a fundação da escola, apesar de nunca lhe terem lido as poesias nem a sua arte poética.

Sempre procurei saber por que se enfeitavam com esse exótico avoengo; as razões psicológicas, eu as encontrei na vaidade deles, no seu desejo de disfarçar a sua inópia poética com um padrinho esquisito e misterioso; mas o núcleo da lenda, o grãozinho de areia em torno do qual se concretizava o mito ártico da escola, só ultimamente pude encontrar.

[O Mandachuva]

Os leitores que têm seguido estas rápidas notas sobre os usos e costumes, leis e superstições da República da Bruzundanga, não devem ter esquecido que o seu presidente é chamado "Mandachuva", e oficialmente.Já dei até algumas das exigências constitucionais que os candidatos têm de preencher, a fim de ascenderem à curul presidencial daquele país, que fica próximo da ilha dos Lagartos, tão bem descrita pelo meu concidadão Antônio José, que as fogueiras da Inquisição queimaram em Lisboa, O que pretendo agora, nestas linhas, é fornecer aos leitores o tipo de um presidente da curiosa República, infelizmente tão mal conhecida entre nós -- cousa de lastimar, pois ela nos podia fornecer modelos que nos

levassem de vez a completo desastre. Il faut finir, pour recommencer... A não ser que suba ao poder, por uma revolta mais ou menos disfarçada, um General mais ou menos decorativo, o Mandachuva é sempre escolhido entre os membros da nobreza doutoral; e, dentre os doutores, a escolha recai sobre um advogado. É justo, pois são os advogados ou bacharéis em direito que devem ter obrigação de conhecer a barafunda de leis de toda a natureza, embora a arte de governar, segundo o critério dos que filosofam sobre o Estado e o admitem necessário, não peça unicamente o seco conhecimento de textos de leis, de artigos de códigos, de opiniões de praxistas e hermeneutas.

As leis são o esqueleto das sociedades, mas a feição de saúde ou doença destas, as suas necessidades terapêuticas ou cirúrgicas, são dadas pelo prévio conhecimento e exame, no momento, do estado de certas partes externas e dos seus órgãos vitais, que são o seu comércio, a sua indústria, as suas artes, os sonhos do seu povo, os sofrimentos dele -- toda essa parte mutável das comunhões humanas, cambiantes e fugidia, que só os fortes observadores, com grande inteligência, colhem em alguns instantes, sugerindo os remédios eficazes e as providências adequadas, para tal ou qual caso.

Gomo dizia, porém, na Bruzundanga, em geral, o Mandachuva é escolhido entre os advogados, mas não julguem que ele venha dos mais notáveis, dos mais ilustrados, não: ele surge e é indicado dentre os mais néscios e os mais medíocres. Quase sempre, é um leguleio da roça que, logo após a formatura, isto é, desde os primeiros anos de sua mocidade até aos quarenta, quando o fizeram deputado provincial, não teve outro ambiente que a sua cidadezinha de cinco a dez mil habitantes, mais outra leitura que a dos jornais e livros comuns da profissão -- indicadores, manuais, etc.; e outra convivência que não a do boticário, do médico local, do professor público e de algum fazendeiro menos dorminhoco, com os quais jogava o solo, ou mesmo o "truque" nos fundos da botica.

É este homem que assim viveu a parte melhor da vida, é este homem que só viu a vida de sua pátria na pacatez de quase uma aldeia; é este homem que não conheceu senão a sua camada e que o seu estulto orgulho de doutor da roça levou a ter sempre um desdém bonanchão pelos inferiores; é este homem que empregou vinte anos, ou pouco menos, a conversar com o boticário sobre as intrigas políticas de seu lugarejo; é este homem

cuja cultura artística se cifrou em dar corda no gramofone familiar; é este homem cuja única habilidade se resume em contar anedotas; é um homem destes, meus senhores, que depois de ser deputado provincial, geral, senador, presidente de província, vai ser o Mandachuva da Bruzundanga.

Hão de dizer que, passando por tão-altos cargos que se exercem em grandes cidades, nas capitais, o futuro Mandachuva há de ter recebido outras impressões e ganhar, portanto, idéias mais amplas. Naturalmente, ele há de adquirir algumas, mas não tantas que modifiquem a sua primitiva estrutura mental. Durante este longo tempo em que ele passa como deputado, senador, isto e aquilo, o esperançoso Mandachuva é absorvido pelas intrigas políticas, pelo esforço de ajeitar os correligionários, pelo trabalho de amaciar os influentes e os preponderantes, na política geral e regional. A sua atividade espiritual limita-se a isto.

Os preponderantes e influentes têm todo o interesse em não fazer subir os inteligentes, os ilustrados, os que entendem de qualquer cousa; e tratam logo de colocar em destaque um medíocre razoável que tenha mais ambição de subsídios do que mesmo a vaidade do poder.

Além disso, eles têm que atender aos capatazes políticos das localidades das províncias; e, em geral, estes últimos indicam, para os primeiros postos políticos, os seus filhos, os seus sobrinhos e de preferência a estes: os seus genros.

A ternura do pai quer sempre dar essa satisfação à vaidade das filhas.

O futuro chefe do governo da Bruzundanga começa a sua carreira política pela mão do sogro; e, relacionando-se com os bonzos de sua província, se é esperto e apoucado de inteligência e saber, faz-se ainda mais; na maioria dos casos, porém, não é preciso tanto. Os caides ficam logo contentes com ele. Mandam-no para a Câmara Geral; e, durante a primeira legislatura, encarregam-no de comprar ceroulas, pares de meias, espingardas de dous canos, óculos de grau tanto, de ir às repartições ver tal requerimento, de empenhar-se pelos exames dos nhonhôs, etc...

Quando acaba a legislatura, o Messias anunciado para salvar a Bruzundanga é possuidor de todo esse acervo de serviços ao partido. É reeleita. A sua lealdade e o seu natural prestativo indicam-no logo para leader da bancada, senão da Câmara, Ei-lo em evidência. Os jornalistas, grandes e pequenos, não o deixam, elogiam-no, dão-lhe o retrato nas folhas, fazem pilhérias a respeito do homem; e ele autoriza a publicação de atos oficiais do governo de sua província, cujas contas o erário departamental paga generosamente aos seus jornais e revistas.

Os calenders provincianos estão cada vez mais contentes com ele e o nosso homem já economizou, sobre subsídios, mais do que a mulher trouxe para a sociedade conjugal.

É um homem metódico, pontual nos pagamentos, não gasta dinheiro em cousas inúteis, como seja em livros. Uma noite ou outra, vai ao Teatro Lírico, mas logo se aborrece, não

só ele como a futura Mme. Mandachuva. Preferia, madame, estar a dormir naquela hora, e ele a jogar solo na botica, antes do que permanecerem ali, apertados nos vestuários, a ouvir umas cantorias em língua que não entendem. Que saudades do gramofone! Para ele, há secas piores... Ainda a música ele suporta um tanto, mas as tais exposições de pintura, as sessões de Academias... Irra! Que estafa! Foge de ir a elas; e todo o seu medo é vir a ser presidente da Bruzundanga, pois será obrigado a comparecer a tais festas.

A sua leitura continua a ser os jornais, porém não pega mais nos manuais, nos indicadores de legislação. As necessidades artísticas de sua natureza se cifram no gramofone doméstico e nos cinemas urbanos ou do arrabalde em que reside. Faz coleção dos programas destes últimos e, com eles, organiza a sua opulenta biblioteca literária.

(Apostila 10 de Pré-Modernismo - Literatura Brasileira)

 

 

 

 

 

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Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá - resumo - Lima Barreto

Em Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá, o narrador Augusto Machado propõe-se a traçar um esboço de biografia de seu dileto amigo Gonzaga de Sá, um velho já bastante grisalho, bacharel em letras pelo Imperial Colégio Dom Pedro II, solteirão e voltariano, religioso sem deixar de ser cético, antimonástico e maníaco por balões.

Em sua narrativa, porém, vai alternando o relato biográfico com suas próprias reflexões sobre a vida e os homens. O tom é reminiscente e cheio de ternura pelo amigo Gonzaga, morto quando se abaixava para colher uma flor, numa tarde em que ele e o narrador se encontraram no Passeio e se distraíram pela cidade.

Entre os papéis do amigo falecido, Augusto Matraga encontra, numa página perdida de papel almaço, o que considera ser a teoria filosófica de Gonzaga de Sá, ou seja: a idéia de que só o acaso decide sobre a sorte das coisas. O exemplo do texto de Gonzaga é o do inventor de uma máquina de voar que passa anos e anos montando minuciosamente o seu engenho e que se decepciona no momento de fazer o aparelho subir, pois um mero lance do acaso retém a máquina no chão.

Gonzaga afinal era, ele mesmo, um homem sem ilusões, frio e espirituoso. Despreocupado da notoriedade, evitou doutorar-se, para fugir à hipocrisia das solenidades de praxe. Contentou-se em não passar de mero funcionário da Secretaria dos Cultos, para que assim lhe sobrasse mais para estudar. Tinha de fato uma verdadeira febre de conhecimento procurando manter-se sempre atualizado. Através de árduas pesquisas, cultivava uma visão crítica de seu tempo, lendo tudo o que lhe caía nas mãos. Para que pudesse ler e estudar, evitou o casamento e manteve-se propositalmente distante do êxito profissional, afastando-se, assim, das obrigações mundanas.

Augusto Machado vai recolhendo as impressões críticas desse sábio anônimo das ruas do Rio de Janeiro e, através de seu esboço de biografia ficamos sabendo que, para Gonzaga, havia muitas coisas erradas na nossa terra. Desde algumas mais simples, como a nossa insuficiência nas artes do desenho, até as mais graves, como “a nossa estúpida mania da aristocracia”m o preconceito com relação aos negros, o elitismo e, sobretudo, a injustificada idolatria pelo “doutor”.

Gonzaga fazia questão de fugir daquilo que ele chamava “essa gente de Petrópolis”, e orgulhava-se de ser parte integrante do povo mais humilde que se formou na nossa terra: “eu sou Sá, sou o Rio de Janeiro, com seus tamoios, seus negros, seus mulatos, seus cafusos e seus ‘galegos’ também.”

Por isso, talvez, passava os momentos de folga andando no meio do povo, perambulando pelos bairros populares. Havia nele, é certo, alguma nostalgia do passado, uma espécie de busca do espaço perdido da infância e dos tempos felizes de moço, mas Gonzaga é o primeiro a apontar a causa social na modernização arquitetônica do Rio de Janeiro. Sente, já no começo do século, o isolamento entre os bairros, “a falta de penetração mútua” entre os pobres e os ricos.

Sob esse aspecto, é um cético que se apieda e se enternece pelos indivíduos tomados em sua sorte isolada. Um cético que tem opiniões bem práticas acerca do barão do Rio Branco, que, segundo ele, havia transformado o Rio de Janeiro em sua chácara particular, distribuindo o dinheiro do Tesouro como bem entendia.

Através das reminiscências de Augusto Machado, ficamos sabendo também que Gonzaga de Sá deplorava a comercialização da cultura, a linguagem descuidada dos jornais e os falsos intelectuais reformadores que só sabiam mostrar o radicalismo de suas convicções nas mesas dos cafés.

No fundo, Gonzaga era o intelectual que tinha consciência de seus privilégios: longe de confortá-lo, a educação que recebera marcava-o como um estigma, fazendo-o sofrer, fabricando desejos que se frustravam.

Essa consciência se agravava diante da miséria e do analfabetismo daqueles que eram explorados e “viviam sob o aguilhão dos deveres”, a ponto muitas vezes de torná-lo cínico e indiferente em face das soluções possíveis. Gradativamente, vai se resignando, encolhendo-se diante da opressão e da injustiça. Aos poucos, começa a achar que a única saída para os oprimidos estava na morte. “A morte tem sido útil.. toda civilização resultou da morte”, dizia, cultivando a partir daí a idéia de que o intelectual não deve, com suas teses, conspurcar a pureza dos ingênuos.

Já então admitia abertamente que só o sofrimento engrandecia o homem, transferindo para o nível da conjetura utópica a plena realização de um entendimento concreto entre as pessoas.

Antônio Arnoni Prado

(Apostila 12 de Pré-Modernismo - Literatura Brasileira)

 

 

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O Homem Que Sabia Javanês - Lima Barreto

EM UMA confeitaria, certa vez, ao meu amigo Castro, contava eu as partidas que havia pregado às convicções e às respeitabilidades, para poder viver.

Houve mesmo, uma dada ocasião, quando estive em Manaus, em que fui obrigado a esconder a minha qualidade de bacharel, para mais confiança obter dos clientes, que afluíam ao meu escritório de feiticeiro e adivinho. Contava eu isso.

O meu amigo ouvia-me calado, embevecido, gostando daquele meu Gil Blas vivido, até que, em uma pausa da conversa, ao esgotarmos os copos, observou a esmo:

- Tens levado uma vida bem engraçada, Castelo!

- Só assim se pode viver... Isto de uma ocupação única: sair de casa a certas horas, voltar a outras, aborrece, não achas? Não sei como me tenho agüentado lá, no consulado!

- Cansa-se; mas, não é disso que me admiro. O que me admira, é que tenhas corrido tantas aventuras aqui, neste Brasil imbecil e burocrático.

- Qual! Aqui mesmo, meu caro Castro, se podem arranjar belas páginas de vida. Imagina tu que eu já fui professor de javanês!

- Quando? Aqui, depois que voltaste do consulado?

- Não; antes. E, por sinal, fui nomeado cônsul por isso.

- Conta lá como foi. Bebes mais cerveja?

- Bebo.

Mandamos buscar mais outra garrafa, enchemos os copos, e continuei:

- Eu tinha chegado havia pouco ao Rio estava literalmente na miséria. Vivia fugido de casa de pensão em casa de pensão, sem saber onde e como ganhar dinheiro, quando li no Jornal do Comércio o anuncio seguinte:

"Precisa-se de um professor de língua javanesa. Cartas, etc." Ora, disse cá comigo, está ali uma colocação que não terá muitos concorrentes; se eu capiscasse quatro palavras, ia apresentar-me. Saí do café e andei pelas ruas, sempre a imaginar-me professor de javanês, ganhando dinheiro, andando de bonde e sem encontros desagradáveis com os "cadáveres". Insensivelmente dirigi-me à Biblioteca Nacional. Não sabia bem que livro iria pedir; mas, entrei, entreguei o chapéu ao porteiro, recebi a senha e subi. Na escada, acudiu-me pedir a Grande Encyclopédie, letra J, a fim de consultar o artigo relativo a Java e a língua javanesa. Dito e feito. Fiquei sabendo, ao fim de alguns minutos, que Java era uma grande ilha do arquipélago de Sonda, colônia holandesa, e o javanês, língua aglutinante do grupo maleo-polinésico, possuía uma literatura digna de nota e escrita em caracteres derivados do velho alfabeto hindu.

A Encyclopédie dava-me indicação de trabalhos sobre a tal língua malaia e não tive dúvidas em consultar um deles. Copiei o alfabeto, a sua pronunciação figurada e saí. Andei pelas ruas, perambulando e mastigando letras. Na minha cabeça dançavam hieróglifos; de quando em quando consultava as minhas notas; entrava nos jardins e escrevia estes calungas na areia para guardá-los bem na memória e habituar a mão a escrevê-los.

À noite, quando pude entrar em casa sem ser visto, para evitar indiscretas perguntas do encarregado, ainda continuei no quarto a engolir o meu "a-b-c" malaio, e, com tanto afinco levei o propósito que, de manhã, o sabia perfeitamente.

Convenci-me que aquela era a língua mais fácil do mundo e saí; mas não tão cedo que não me encontrasse com o encarregado dos aluguéis dos cômodos:

- Senhor Castelo, quando salda a sua conta?

Respondi-lhe então eu, com a mais encantadora esperança:

- Breve... Espere um pouco... Tenha paciência... Vou ser nomeado professor de javanês, e...

Por aí o homem interrompeu-me:

- Que diabo vem a ser isso, Senhor Castelo?

Gostei da diversão e ataquei o patriotismo do homem:

- É uma língua que se fala lá pelas bandas do Timor. Sabe onde é?

Oh! alma ingênua! O homem esqueceu-se da minha dívida e disse-me com aquele falar forte dos portugueses:

- Eu cá por mim, não sei bem; mas ouvi dizer que são umas terras que temos lá para os lados de Macau. E o senhor sabe isso, Senhor Castelo?

Animado com esta saída feliz que me deu o javanês, voltei a procurar o anúncio. Lá estava ele. Resolvi animosamente propor-me ao professorado do idioma oceânico. Redigi a resposta, passei pelo Jornal e lá deixei a carta. Em seguida, voltei à biblioteca e continuei os meus estudos de javanês. Não fiz grandes progressos nesse dia, não sei se por julgar o alfabeto javanês o único saber necessário a um professor de língua malaia ou se por ter me empenhado mais na bibliografia e história literária do idioma que ia ensinar.

Ao cabo de dois dias, recebia eu uma carta para ir falar ao doutor Manuel Feliciano Soares Albernaz, Barão de Jacuecanga, à Rua Conde de Bonfim, não me recordo bem que numero. E preciso não te esqueceres que entrementes continuei estudando o meu malaio, isto é, o tal javanês. Além do alfabeto, fiquei sabendo o nome de alguns autores, também perguntar e responder "como está o senhor?" - e duas ou três regras de gramática, lastrado todo esse saber com vinte palavras do léxico.

Não imaginas as grandes dificuldades com que lutei, para arranjar os quatrocentos réis da viagem! É mais fácil - podes ficar certo - aprender o javanês... Fui a pé. Cheguei suadíssimo; e, Com maternal carinho, as anosas mangueiras, que se perfilavam em alameda diante da casa do titular, me receberam, me acolheram e me reconfortaram. Em toda a minha vida, foi o único momento em que cheguei a sentir a simpatia da natureza...

Era uma casa enorme que parecia estar deserta; estava mal tratada, mas não sei porque me veio pensar que nesse mau tratamento havia mais desleixo e cansaço de viver que mesmo pobreza. Devia haver anos que não era pintada. As paredes descascavam e os beirais do telhado, daquelas telhas vidradas de outros tempos, estavam desguarnecidos aqui e ali, como dentaduras decadentes ou mal cuidadas.

Olhei um pouco o jardim e vi a pujança vingativa com que a tiririca e o carrapicho tinham expulsado os tinhorões e as begônias. Os crótons continuavam, porém, a viver com a sua folhagem de cores mortiças. Bati. Custaram-me a abrir. Veio, por fim, um antigo preto africano, cujas barbas e cabelo de algodão davam à sua fisionomia uma aguda impressão de velhice, doçura e sofrimento.

Na sala, havia uma galeria de retratos: arrogantes senhores de barba em colar se perfilavam enquadrados em imensas molduras douradas, e doces perfis de senhoras, em bandós, com grandes leques, pareciam querer subir aos ares, enfunadas pelos redondos vestidos à balão; mas, daquelas velhas coisas, sobre as quais a poeira punha mais antiguidade e respeito, a que gostei mais de ver foi um belo jarrão de porcelana da China ou da Índia, como se diz. Aquela pureza da louça, a sua fragilidade, a ingenuidade do desenho e aquele seu fosco brilho de luar, diziam-me a mim que aquele objeto tinha sido feito por mãos de criança, a sonhar, para encanto dos olhos fatigados dos velhos desiludidos...

Esperei um instante o dono da casa. Tardou um pouco. Um tanto trôpego, com o lenço de alcobaça na mão, tomando veneravelmente o simonte de antanho, foi cheio de respeito que o vi chegar. Tive vontade de ir-me embora. Mesmo se não fosse ele o discípulo, era sempre um crime mistificar aquele ancião, cuja velhice trazia à tona do meu pensamento alguma coisa de augusto, de sagrado. Hesitei, mas fiquei.

- Eu sou, avancei, o professor de javanês, que o senhor disse precisar.

- Sente-se, respondeu-me o velho. O senhor é daqui, do Rio?

- Não, sou de Canavieiras.

- Como? fez ele. Fale um pouco alto, que sou surdo, - Sou de Canavieiras, na Bahia, insisti eu. - Onde fez os seus estudos?

- Em São Salvador.

- Em onde aprendeu o javanês? indagou ele, com aquela teimosia peculiar aos velhos.

Não contava com essa pergunta, mas imediatamente arquitetei uma mentira. Contei-lhe que meu pai era javanês. Tripulante de um navio mercante, viera ter à Bahia, estabelecera-se nas proximidades de Canavieiras como pescador, casara, prosperara e fora com ele que aprendi javanês.

- E ele acreditou? E o físico? perguntou meu amigo, que até então me ouvira calado.

- Não sou, objetei, lá muito diferente de um javanês. Estes meus cabelos corridos, duros e grossos e a minha pele basané podem dar-me muito bem o aspecto de um mestiço de malaio...Tu sabes bem que, entre nós, há de tudo: índios, malaios, taitianos, malgaches, guanches, até godos. É uma comparsaria de raças e tipos de fazer inveja ao mundo inteiro.

- Bem, fez o meu amigo, continua.

- O velho, emendei eu, ouviu-me atentamente, considerou demoradamente o meu físico, pareceu que me julgava de fato filho de malaio e perguntou-me com doçura:

- Então está disposto a ensinar-me javanês?

- A resposta saiu-me sem querer: - Pois não.

- O senhor há de ficar admirado, aduziu o Barão de Jacuecanga, que eu, nesta idade, ainda queira aprender qualquer coisa, mas...

- Não tenho que admirar. Têm-se visto exemplos e exemplos muito fecundos... ? .

- O que eu quero, meu caro senhor...

- Castelo, adiantei eu.

- O que eu quero, meu caro Senhor Castelo, é cumprir um juramento de família. Não sei se o senhor sabe que eu sou neto do Conselheiro Albernaz, aquele que acompanhou Pedro I, quando abdicou. Voltando de Londres, trouxe para aqui um livro em língua esquisita, a que tinha grande estimação. Fora um hindu ou siamês que lho dera, em Londres, em agradecimento a não sei que serviço prestado por meu avô. Ao morrer meu avô, chamou meu pai e lhe disse: "Filho, tenho este livro aqui, escrito em javanês. Disse-me quem mo deu que ele evita desgraças e traz felicidades para quem o tem. Eu não sei nada ao certo. Em todo o caso, guarda-o; mas, se queres que o fado que me deitou o sábio oriental se cumpra, faze com que teu filho o entenda, para que sempre a nossa raça seja feliz”.Meu pai, continuou o velho barão, não acreditou muito na história; contudo, guardou o livro. Às portas da morte, ele mo deu e disse-me o que prometera ao pai. Em começo, pouco caso fiz da história do livro. Deitei-o a um canto e fabriquei minha vida. Cheguei até a esquecer-me dele; mas, de uns tempos a esta parte, tenho passado por tanto desgosto, tantas desgraças têm caído sobre a minha velhice que me 1embrei do talismã da família. Tenho que o ler, que o compreender, se não quero que os meus últimos dias anunciem o desastre da minha posteridade; e, para entendê-lo, é claro, que preciso entender o javanês. Eis aí.

Calou-se e notei que os olhos do velho se tinham orvalhado. Enxugou discretamente os olhos e perguntou-me se queria ver o tal livro. Respondi-lhe que sim. Chamou o criado, deu-lhe as instruções e explicou-me que perdera todos os filhos, sobrinhos, só lhe restando uma filha casada, cuja prole, porém, estava reduzida a um filho, débil de corpo e de saúde frágil e oscilante.

Veio o livro. Era um velho calhamaço, um in-quarto antigo, encadernado em couro, impresso em grandes letras, em um papel amarelado e grosso. Faltava a folha do rosto e por isso não se podia ler a data da impressão. Tinha ainda umas páginas de prefácio, escritas em inglês, onde li que se tratava das histórias do príncipe Kulanga, escritor javanês de muito mérito.

Logo informei disso o velho barão que, não percebendo que eu tinha chegado aí pelo inglês, ficou tendo em alta consideração o meu saber malaio. Estive ainda folheando o cartapácio, à laia de quem sabe magistralmente aquela espécie de vasconço, até que afinal contratamos as condições de preço e de hora, comprometendo-me a fazer com que ele lesse o tal alfarrábio antes de um ano.

Dentro em pouco, dava a minha primeira lição, mas o velho não foi tão diligente quanto eu. Não conseguia aprender a distinguir e a escrever nem sequer quatro letras. Enfim, com metade do alfabeto levamos um mês e o Senhor Barão de Jacuecanga não ficou lá muito senhor da matéria: aprendia e desaprendia.

A filha e o genro (penso que até aí nada sabiam da história do livro) vieram a ter notícias do estudo do velho; não se incomodaram. Acharam graça e julgaram a coisa boa para distraí-lo.

Mas com o que tu vais ficar assombrado, meu caro Castro, é com a admiração que o genro ficou tendo pelo professor de javanês. Que coisa Única! Ele não se cansava de repetir: "É um assombro! Tão moço! Se eu soubesse isso, ah! onde estava!”

O marido de Dona Maria da Glória (assim se chamava a filha do barão), era desembargador, homem relacionado e poderoso; mas não se pejava em mostrar diante de todo o mundo a sua admiração pelo meu javanês. Por outro lado, o barão estava contentíssimo. Ao fim de dois meses, desistira da aprendizagem e pedira-me que lhe traduzisse, um dia sim outro não, um trecho do livro encantado. Bastava entendê-lo, disse-me ele; nada se opunha que outrem o traduzisse e ele ouvisse. Assim evitava a fadiga do estudo e cumpria o encargo.

Sabes bem que até hoje nada sei de javanês, mas compus umas histórias bem tolas e impingi-as ao velhote como sendo do crônicon. Como ele ouvia aquelas bobagens!...

Ficava extático, como se estivesse a ouvir palavras de um anjo. E eu crescia aos seus olhos!

Fez-me morar em sua casa, enchia-me de presentes, aumentava-me o ordenado. Passava, enfim, uma vida regalada.

Contribuiu muito para isso o fato de vir ele a receber uma herança de um seu parente esquecido que vivia em Portugal. O bom velho atribuiu a cousa ao meu javanês; e eu estive quase a crê-lo também.

Fui perdendo os remorsos; mas, em todo o caso, sempre tive medo que me aparecesse pela frente alguém que soubesse o tal patuá malaio. E esse meu temor foi grande, quando o doce barão me mandou com uma carta ao Visconde de Caruru, para que me fizesse entrar na diplomacia. Fiz-lhe todas as objeções: a minha fealdade, a falta de elegância, o meu aspecto tagalo. - "Qual! retrucava ele. Vá, menino; você sabe javanês!" Fui. Mandou-me o visconde para a Secretaria dos Estrangeiros com diversas recomendações. Foi um sucesso.

O diretor chamou os chefes de secção: "Vejam só, um homem que sabe javanês - que portento!"

Os chefes de secção levaram-me aos oficiais e amanuenses e houve um destes que me olhou mais com ódio do que com inveja ou admiração. E todos diziam: "Então sabe javanês? É difícil? Não há quem o saiba aqui!"

O tal amanuense, que me olhou com ódio, acudiu então: "É verdade, mas eu sei canaque. O senhor sabe?" Disse-lhe que não e fui à presença do ministro.

A alta autoridade levantou-se, pôs as mãos às cadeiras, concertou o pince-nez no nariz e perguntou: "Então, sabe javanês?" Respondi-lhe que sim; e, à sua pergunta onde o tinha aprendido, contei-lhe a história do tal pai javanês. "Bem, disse-me o ministro, o senhor não deve ir para a diplomacia; o seu físico não se presta... O bom seria um consulado na Ásia ou Oceania. Por ora, não há vaga, mas vou fazer uma reforma e o senhor entrará. De hoje em diante, porém, fica adido ao meu ministério e quero que, para o ano, parta para Bâle, onde vai representar o Brasil no Congresso de Lingüística. Estude, leia o Hovelacque, o Max Müller, e outros!"

Imagina tu que eu até aí nada sabia de javanês, mas estava empregado e iria representar o Brasil em um congresso de sábios.

O velho barão veio a morrer, passou o livro ao genro para que o fizesse chegar ao neto, quando tivesse a idade conveniente e fez-me uma deixa no testamento.

Pus-me com afã no estudo das línguas maleo-polinésicas; mas não havia meio!

Bem jantado, bem vestido, bem dormido, não tinha energia necessária para fazer entrar na cachola aquelas coisas esquisitas. Comprei livros, assinei revistas: Revue Anthropologique et Linguistique, Proceedings of the English-Oceanic Association, Archivo Glottologico Italiano, o diabo, mas nada! E a minha fama crescia. Na rua, os informados apontavam-me, dizendo aos outros: "Lá vai o sujeito que sabe javanês”.Nas livrarias, os gramáticos consultavam-me sobre a colocação dos pronomes no tal jargão das ilhas de Sonda. Recebia cartas dos eruditos do interior, os jornais citavam o meu saber e recusei aceitar uma turma de alunos sequiosos de entenderem o tal javanês. A convite da redação, escrevi, no Jornal do Comércio um artigo de quatro colunas sobre a literatura javanesa antiga e moderna...

- Como, se tu nada sabias? interrompeu-me o atento Castro.

- Muito simplesmente: primeiramente, descrevi a ilha de Java, com o auxílio de dicionários e umas poucas de geografias, e depois citei a mais não poder.

- E nunca duvidaram? perguntou-me ainda o meu amigo.

- Nunca. Isto é, uma vez quase fico perdido. A polícia prendeu um sujeito, um marujo, um tipo bronzeado que só falava uma língua esquisita. Chamaram diversos intérpretes, ninguém o entendia. Fui também chamado, com todos os respeitos que a minha sabedoria merecia, naturalmente. Demorei-me em ir, mas fui afinal. O homem já estava solto, graças à intervenção do cônsul holandês, a quem ele se fez compreender com meia dúzia de palavras holandesas. E o tal marujo era javanês - uf!

Chegou, enfim, a época do congresso, e lá fui para a Europa. Que delícia! Assisti à inauguração e às sessões preparatórias. Inscreveram-me na secção do tupi-guarani e eu abalei para Paris. Antes, porém, fiz publicar no Mensageiro de Bâle o meu retrato, notas biográficas e bibliográficas. Quando voltei, o presidente pediu-me desculpas por me ter dado aquela secção; não conhecia os meus trabalhos e julgara que, por ser eu americano brasileiro, me estava naturalmente indicada a secção do tupi-guarani. Aceitei as explicações e até hoje ainda não pude escrever as minhas obras sobre o javanês, para lhe mandar, conforme prometi.

Acabado o congresso, fiz publicar extratos do artigo do Mensageiro de Bâle, em Berlim, em Turim e Paris, onde os leitores de minhas obras me ofereceram um banquete, presidido pelo Senador Gorot. Custou-me toda essa brincadeira, inclusive o banquete que me foi oferecido, cerca de dez mil francos, quase toda a herança do crédulo e bom Barão de Jacuecanga.

Não perdi meu tempo nem meu dinheiro. Passei a ser uma glória nacional e, ao saltar no cais Pharoux, recebi uma ovação de todas as classes sociais e o presidente da república, dias depois, convidava-me para almoçar em sua companhia.

Dentro de seis meses fui despachado cônsul em Havana, onde estive seis anos e para onde voltarei, a fim de aperfeiçoar os meus estudos das línguas da Malaia, Melanésia e Polinésia.

- É fantástico, observou Castro, agarrando o copo de cerveja.

- Olha: se não fosse estar contente, sabes que ia ser?

- Que?

- Bacteriologista eminente. Vamos?

- Vamos.

(Apostila 9 de Pré-Modernismo - Literatura Brasileira)

 

 

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Urupês - resumo - Monteiro Lobato

Urupês é basicamente uma série de 14 contos, tendo como ênfase a vida quotidiana e mundana do caboclo, através de seus costumes, crenças e tradições.

Os faroleiros

Dois homens conversam sobre faróis, e um deles conta sobre a tragédia do Farol dos Albatrozes, onde passou um tempo com um dos personagens da trama: Gerebita. Gerebita tinha um companheiro, chamado Cabrea, que ele alegava ser louco. Numa noite, travou-se uma briga entre Gerebita e Cabrea, vindo este a morrer. Seu corpo foi jogado ao mar e engolido pelas ondas. Gerebita alegava ter sido atacado pelos desvarios de Cabrea, agindo em legítima pessoa. Eduardo, o narrador, descobre mais tarde que o motivo de tal tragédia era uma mulher chamada Maria Rita, que Cabrea roubara de Gerebita.

O engraçado arrependido

Um sujeito chamado Pontes, com fama de ser uma grande comediante e sarrista, resolve se tornar um homem sério. As pessoas, pensando se tratar de mais uma piada do rapaz, negavam-lhe emprego. Pontes recorre a um primo de influência no governo, que lhe promete o posto da coletoria federal, já que o titular, major Bentes, estava com sérios problemas cardíacos e não duraria muito tempo. A solução era matar o homem mais rápido, e com aquilo que Pontes fazia de melhor: contar piadas. Aproxima-se do major e, após várias tentativas, consegue o intento. Morte, porém inútil: Pontes se esquece de avisar o primo da morte, e o governo escolhe outra pessoa para o cargo.

A colcha de retalhos

Um sujeito (o narrador) vai até o sítio de um homem chamado Zé Alvorada para contratar seus serviços. Zé está fora e, enquanto não chega, o narrador trata com a mulher (Sinhá Ana), sua filha de quatorze anos (Pingo d'Água) e a figura singela da avó, Sinhá Joaquina, no auge dos seus setenta anos. Joaquina passava a vida a fazer uma colcha de retalhos com pedacinhos de tecido de cada vestido que Pingo d'Água vestia desde pequenina. O último pedaço haveria de ser o vestido de noiva. Passado dois anos, o narrador fica sabendo da morte de Sinhá Ana e a fuga de Pingo d'Água com um homem. Volta até aquela casa e encontra a velha, tristonha, com a inútil concha de retalhos na mão. Em pouco tempo morreria...

A vingança da peroba

Sentindo inveja da prosperidade dos vizinhos, João Nunes resolve deixar de lado sua preguiça e construir um monjolo (engenho de milho). Contrata um deficiente, Teixeirinha, para fazer a tal obra. Em falta de madeira boa para a construção, a solução é cortar a bela e frondosa peroba na divisa das suas terras (o que causa uma tremenda encrenca com os vizinhos). Teixeirinha, enquanto trabalha, conta a João Nunes sobre a vingança dos espíritos das árvores contra os homens que as cortam. Coincidência ou não, o monjolo não funciona direito (para a gozação dos vizinhos) e João Nunes perde um filho, esmagado pela engenhoca.

Um suplício moderno

Ajudando o coronel Fidêncio a ganhar a eleição em Itaoca, Izé Biriba recebe o cargo de estafeta (entregador de correspondências e outras cargas). Obrigado a andar sete léguas todos os dias, Biriba perde aos poucos a saúde. Resolve pedir demissão, o que lhe é negada. Sabendo da próxima eleição, continua no cargo com a intenção de vingança. Encarregado de levar um "papel" que garantiria novamente a vitória de seu coronel, deixa de cumprir a missão. Coronel Fidêncio perde a eleição e a saúde, enquanto o coronel eleito resolve manter Biriba no cargo. Este, então, vai embora durante a noite...

Meu conto de Maupassant:

Dois homens conversam num trem. Um deles é ex-delegado e conta sobre a morte de uma velha. O primeiro suspeito era um italiano, dono de venda, que é preso. Solto por falta de provas, via morar em São Paulo. Passado algum tempo, novas provas incriminam o mesmo e, preso em São Paulo e conduzido de trem ao vilarejo, se joga da janela. Morte instantânea e inútil: tempo depois, o filho da velha confessa o crime.

"Pollice Verso"

O filho do coronel Inácio da Gama, o Inacinho, forma-se em Medicina no Rio de Janeiro e volta para exercer a profissão. Pensando em arrecadar dinheiro para ir a Paris reencontrar a namorada francesa, Inacinho começa a cuidar de um coronel rico. Como a conta seria mais alta se o velho morresse, a morte não tarda a acontecer. O caso vai parar na justiça, onde dois outros médicos velhacos dão razão a Inacinho. O moço vai para Paris morar em Paris com a namorada, levando uma vida boêmia. No Brasil, o orgulhoso coronel Inácio da Gama fala aos ventos sobre o filho que andava aprofundando os estudos com os melhores médicos da Europa.

Bucólica

Andando pelos pequenos vilarejos e sítios interioranos, o narrador fica sabendo da trágica história da morte da filha de Pedro Suã, que morreu de sede. Aleijada e odiada pela mãe, a filha adoeceu e, ardendo em febre numa noite, gritava por água. A mãe não lhe atendeu, e a filha foi encontrada morta na cozinha, perto do pote de água, para onde se arrastou.

O mata-pau

Dois homens conversam na mata sobre uma planta chamada mata-pau, que cresce e mata todas as outras árvores ao seu redor. O assunto termina no trágico caso de um próspero casal, Elesbão e Rosinha, que encontram um bebê em suas terras e resolvem adotá-lo. Crescido o menino, se envolve com a mãe e mata o pai. Com os negócios paternos em ruína, resolve vendê-los, o que vai contra os gostos da mãe-esposa. Esta quase acaba vítima do rapaz e vai parar num hospital, enlouquecida.

Bocatorta

Na fazenda do Atoleiro, vivia a família do major Zé Lucas. Nas matas da fazenda, havia um negro com a cara defeituosa com fama de monstro: Bocatorta. Cristina, filha do major, morre justamente alguns dias depois de ter ido com o pai ver a tal criatura. Seu noivo, Eduardo, não agüenta a tristeza e vai até o cemitério chorar a morte da amada. Encontra Bocatorta desenterrando a moça. Volta correndo e, junto a um grupo de homens da fazenda, sai em perseguição a Bocatorta. Esse, em fuga, morre ao passar num atoleiro, depois de ter dado o seu único beijo na vida.

O comprador de fazendas

Pensando em se livrar logo da fazenda Espigão (verdadeira ruína para quem a possui), Moreira recebe com entusiasmo um bem-apessoado comprador: Pedro Trancoso. O rapaz se encanta com a fazenda e com a filha de Moreira e, prometendo voltar na semana seguinte para fechar o negócio, nunca mais dá notícias. Moreira vem a descobrir mais tarde que Pedro Trancoso é um tremendo safado, sem dinheiro nem para comprar pão. Pedro, no entanto, ganha na loteria e resolve comprar mesmo a fazenda, mas é expulso por Moreira, que perdeu assim a única chance que teve na vida de se livrar das dívidas.

O estigma

Bruno resolve visitar o amigo Fausto em sua fazenda. Lá conhece a bela menina Laura, prima órfã de Fausto, e sua fria esposa. Fausto convivia com o tormento de um casamento concebido por interesse e uma forte paixão pela prima. Passado vinte anos, os amigos se reencontram no Rio de Janeiro, onde Bruno fica sabendo da tragédia que envolveu as duas mulheres da vida de Fausto: Laura sumiu durante um passeio, e foi encontrada morta com um revólver ao lado da mão direita. Suicídio misterioso e inexplicável. A fria esposa de Fausto estava grávida e deu a luz a um menino que tinha um sinalzinho semelhante ao ferimento de bala no corpo da menina. Fausto vê o sinalzinho e percebe tudo: a mulher havia matado Laura. Mostra o sinal do recém-nascido para ela que, horrorizada, padece até a morte.

Velha Praga

Artigo onde Monteiro Lobato denuncia as queimadas da Serra da Mantiqueira por caboclos nômades, além de descrever e denunciar a vida dos mesmos.

Urupês

A jóia do livro. Aqui, Monteiro Lobato personifica a figura do caboclo, criando o famoso personagem Jeca Tatu, apelidado de urupê (uma espécie de fungo parasita). Vive "e vegeta de cócoras", à base da lei do menor esforço, alimentando-se e curando-se daquilo que a natureza lhe dá, alheio a tudo o que se passa no mundo, menos do ato de votar. Representa a ignorância e o atraso do homem do campo.

(Apostila 17 de Pré-Modernismo - Literatura Brasileira)

 

 

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O Choque das Raças ou O Presidente Negro - Monteiro Lobato - (resumo)

O Choque das Raças ou O Presidente Negro foi publicado em 1926 em folhetins no jornal carioca A Manhã. Este livro tinha o subtítulo “romance americano do ano 2228”.

A história é narrada por Ayrton, funcionário da firma paulista Sá, Pato & Cia., que depois de um acidente de carro, é iniciado na revelação do futuro por Jane, filha do professor Benson, cuja invenção - o porviroscópio - lhe permite devassar o futuro. Jane, numa série de sessões domingueiras, revela ao espantado mas entusiasta Ayrton os episódios que envolvem a eleição do 88.° presidente norte-americano. Três candidatos disputam os votos: o negro Jim Roy, a feminista Evelyn Astor e o presidente Kerlog, candidato à reeleição. A cisão da sociedade branca em partido masculino e feminino possibilita a eleição do candidato negro. Perante o fato consumado, a raça branca engendra uma típica “solução final”: a esterilização dos indivíduos de raça negra, camuflada num processo de alisamento de cabelos.

Paralelamente a esta narração, o romance focaliza o amor de Ayrton por Jane, e a missão literária do moço: escrever um romance daquilo que lhe narrava.

Trecho:

XII - A Simbiose Desmascarada

(...)

Do outro lado o senhor Kerlog, presidente em exercício e candidato à reeleição, só via possibilidade de êxito se obtivesse o concurso de Jim, como sucedera no pleito anterior.

As melhores estatísticas davam ao Partido Masculino 51 milhões de votos, ao Partido Feminino 51 e meio e à Associação Negra, contados os votantes de ambos os sexos, 54 milhões. A próxima eleição dependeria pois exclusivamente da atitude do grande negro.

-Mis Evelyn Astor! - exclamei. - Lindo nome. Já me estou simpatizando por essa criatura, que talvez esteja no meu próprio calcanhar. Havia de ser linda, não?

-De fato, nessa criatura habilíssima, rica de todos os dotes da inteligência, da cultura e da maquiavélica sagacidade feminina, se juntava um elemento perturbador, novo no jogo político presidencial: a sua rara beleza física.

Embora, graças á vitória de eugenia, fosse regra a beleza, em vez de exceção como hoje, mesmo assim a formosura de Miss Evelyn Astor se destacava de modo obsedante. Ninguém a defrontava sem sentir-se envolvido por uma aura de harmonia transfeita em força de dominação.

Em todas as épocas as mulheres dotadas de beleza sempre dominaram, atrás dos tronos como favoritas, na sociedade como cortesãs, no lar como boas deusas humanas, mas sempre por intermédio do homem - o désposta, o amante, o marido, detentores em sua qualidade de machos de todas as prerrogativas sociais. No futuro a dominação da beleza feminina não se fará mais por intermédio do macho. Era da Harmonia, a beleza se tornará uma força pura, como pura expressão que é da harmonia.

Nesse ano de 2228 já a mulher vencera o seu estágio de inferioridade política e cultural, conseqüência menos duma pretensa inferioridade do cérebro, como dizia Miss Elvin...

-Mis Elvin?

-Esperre. Menos de uma pretensa inferioridade de cérebro do que de uma organização cerebral diversa da do homem e, portanto, inapta a produzir o mesmo rendimento quando submetida ao mesmo regime de educação. Miss Elvin... Como está assanhado o senhor Ayrton! Não se contentou com a mulher futura que já lhe dei, Mis Astor, e que outra?

Que ilusão a de Miss Jane! Eu queria apenas, de todas as mulheres passadas, presentes e futuras, uma só - a que me falava naquele momento, tão alheia às emoções burbulhantes em meu coração...

 

 

 

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Paranóia ou mistificação? - Monteiro Lobato

Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que vêem normalmente as coisas e em conseqüência disso fazem arte pura, guardando os eternos ritmos da vida, e adotados para a concretização das emoções estéticas, os processos clássicos dos grandes mestres. Quem trilha por esta senda, se tem gênio, é Praxíteles na Grécia, é Rafael na Itália, é Rembrandt na Holanda, é Rubens na Flandres, é Reynolds na Inglaterra, é Leubach na Alemanha, é Iorn na Suécia, é Rodin na França, é Zuloaga na Espanha. Se tem apenas talento, vai engrossar a plêiade de satélites que gravitam em torno daqueles sóis imorredouros. A outra espécie é formada pelos que vêem anormalmente a natureza, e interpretam-na à luz de teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. São produtos do cansaço e do sadismo de todos os períodos de decadência: são frutos de fins de estação, bichados ao nascedouro. Estrelas cadentes, brilham um instante, as mais das vezes com a luz do escândalo, e somem-se logo nas trevas do esquecimento. Embora eles se dêem como novos precursores duma arte a vir, nada é mais velho do que a arte anormal ou teratológica: nasceu com a paranóia e com a mistificação. De há muito já que a estudam os psiquiatras em seus tratados, documentando-se nos inúmeros desenhos que ornam as paredes internas dos manicômios. A única diferença reside em que nos manicômios esta arte é sincera, produto ilógico de cérebros transtornados pelas mais estranhas psicoses; e fora deles, nas exposições públicas, zabumbadas pela imprensa e absorvidas por americanos malucos, não há sinceridade nenhuma, nem nenhuma lógica, sendo mistificação pura.

Todas as artes são regidas por princípios imutáveis, leis fundamentais que não dependem do tempo nem da latitude. As medidas de proporção e equilíbrio, na forma ou na cor, decorrem do que chamamos sentir. Quando as sensações do mundo externo transformam-se em impressões cerebrais, nós "sentimos"; para que sintamos de maneira diversa, cúbica ou futurista, é forçoso ou que a harmonia do universo sofra completa alteração, ou que o nosso cérebro esteja em "pane" por virtude de alguma grave lesão. Enquanto a percepção sensorial se fizer normalmente no homem, através da porta comum dos cinco sentidos, um artista diante de um gato não poderá "sentir" senão um gato, e é falsa a "interpretação" que do bichano fizer um "totó", um escaravelho, um amontoado de cubos transparentes.

Estas considerações são provocadas pela exposição da Sra. Malfatti, onde se notam acentuadíssimas tendências para uma atitude estética forçada no sentido das extravagâncias de Picasso e companhia. Essa artista possui um talento vigoroso, fora do comum. Poucas vezes, através de uma obra torcida para má direção, se notam tantas e tão preciosas qualidades latentes. Percebe-se de qualquer daqueles quadrinhos como a sua autora é independente, como é original, como é inventiva, em que alto grau possui um sem-número de qualidades inatas e adquiridas das mais fecundas para construir uma sólida individualidade artística. Entretanto, seduzida pelas teorias do que ela chama arte moderna, penetrou nos domínios dum impressionismo discutibilíssimo, e põe todo o seu talento a serviço duma nova espécie de caricatura.
Sejamos sinceros: futurismo, cubismo, impressionismo e tutti quanti não passam de outros tantos ramos da arte caricatural. É a extensão da caricatura a regiões onde não havia até agora penetrado. Caricatura da cor, caricatura da forma - caricatura que não visa, como a primitiva, ressaltar uma idéia cômica, mas sim desnortear, aparvalhar o espectador. A fisionomia de quem sai de uma dessas exposições é das mais sugestivas. Nenhuma impressão de prazer, ou de beleza, denunciam as caras; em todas, porém, se lê o desapontamento de quem está incerto, duvidoso de si próprio e dos outros, incapaz de raciocinar, e muito desconfiado de que o mistificam habilmente. Outros, certos críticos sobretudo, aproveitam a vaza para épater les bourgeois. Teorizam aquilo com grande dispêndio de palavrório técnico, descobrem nas telas intenções e subintenções inacessíveis ao vulgo, justificam-nas com a independência de interpretação do artista e concluem que o público é uma cavalgadura e eles, os entendidos, um pugilo genial de iniciados da Estética Oculta. No fundo, riem-se uns dos outros, o artista do crítico, o crítico do pintor, e o público de ambos.

Há de ter essa artista ouvido numerosos elogios à sua nova atitude estética. Há de irritar-lhe os ouvidos, como descortês impertinência, esta voz sincera que vem quebrar a harmonia de um coro de lisonjas. Entretanto, se refletir um bocado, verá que a lisonja mata e a sinceridade salva. O verdadeiro amigo de um artista não é aquele que o entontece de louvores e sim o que lhe dá uma opinião sincera, embora dura, e lhe traduz chãmente, sem reservas, o que todos pensam dele por detrás. Os homens têm o vezo de não tomar a sério as mulheres. Essa é a razão de lhes darem sempre amabilidades quando pedem opiniões. Tal cavalheirismo é falso, e sobre falso, nocivo. Quantos talentos de primeira água se não transviaram arrastados por maus caminhos pelo elogio incondicional e mentiroso? Se víssemos na Sra. Malfatti apenas "uma moça que pinta", como há centenas por aí, sem denunciar centelha de talento, calar-nos-íamos, ou talvez lhe déssemos meia dúzia desses adjetivos "bombons", que a crítica açucarada tem sempre à mão em se tratando de moças. Julgamo-la, porém, merecedora da alta homenagem que é tomar a sério o seu talento dando a respeito da sua arte uma opinião sinceríssima, e valiosa pelo fato de ser o reflexo da opinião do público sensato, dos críticos, dos amadores, dos artistas seus colegas e... dos seus apologistas.
Dos seus apologistas sim, porque também eles pensam deste modo... por trás.

(Apostila 15 de Pré-Modernismo - Literatura Brasileira)

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O Sítio do Pica-Pau Amarelo - Monteiro Lobato - resumo

O Picapau Amarelo

O Picapau Amarelo teve uma segunda edição em 1939. Nele Lobato narra as aventuras dos personagens do Sítio do Picapau Amarelo quando lá se instalam os personagens do mundo da fábula. De forma exemplar, este livro mistura, na mitologia brasileira do sítio, personagens das mais variadas origens fantásticas: de personagens da mitologia grega como a Medusa e Netuno ao literário Dom Quixote e ao moderníssimo Capitão Gancho, passando pela tradição do conto de fadas com Cinderela e o Pequeno-Polegar e pelo oriental Codadade das Mil-e-Uma-Noites.

Memórias da Emília:

Editado em 1936, Memórias da Emília é um dos livros que mais diretamente abordam questões relativas à escrita; as memórias da Emília são escritas pelo Visconde de Sabugosa, revistas e corrigidas pela boneca. O livro, em última análise, discute os limites da realidade e da ficção, da história e do romance.

Quanto a seu enredo, narra alguns episódios relativos à permanência do anjinho Flor-das-Alturas no Sítio do Pica-pau Amarelo: as visitas das crianças inglesas, a fuga do anjinho de volta à Via Láctea, a hipotética viagem de Emília com o anjinho e o Visconde à Hollywood de Shilrey Temple. Mas, mais do que isso, o livro narra-se a si mesmo, isto é, narra o processo de escritas das Memórias.

Tanto na visita das crianças inglesas, que trazem de contrapeso Popeye e o Capitão Gancho, como na permanência de Emília em Hollywood, ilustra-se magnificamente a expansão do universo fantástico de Lobato, que incorpora elementos de outras mitologias, de outros mundos fantásticos, podendo mesmo ser visto como uma “colagem”, tão ao gosto modernista.

O Saci:

Publicado pela primeira vez em 1921, O Saci, então um livrinho de 38 páginas, é um dos livros de Lobato que mais direta e ostensivamente incorpora elementos da cultura brasileira.

Seguindo conselhos de tio Barnabé, Pedrinho prende um saci numa garrafa e, através dele, é iniciado nos mistérios dos personagens folclóricos da mata brasileira. Posteriormente, a ajuda do saci é decisiva na libertação de Narizinho, capturada pelo Cuca. A história, conduzida linearmente, tem um forte lastro didático: várias conversas entre Pedrinho e o Saci funcionam como debates sobre assuntos relativos à superioridade do homem no reino da Natureza.

Caçadas de Pedrinho:

Publicado inicialmente em 1933 pela Cia. Editora Nacional, este livro é o desenvolvimento de A Caçada da Onça, editado pela primeira vez em 1924 pela Editora Monteiro Lobato.

Em sua versão definitiva, o livro constitui-se de duas histórias: na primeira, a captura de uma onça provoca a invasão do sítio por onças, jaguatiricas, iraras e cachorros do mato. Os personagens conseguem escapar graças a uma idéia da Emília: pernas-de-pau e granada de vespas.

A segunda história narra a chegada ao sítio do rinoceronte Quindim, fugido de um circo.

Narra também as tentativas de captura do animal, por parte de forças do governo, e não deixa dúvida quanto a visão crítica de Lobato em relação à (in)eficiência da burocracia estatal.

A Chave do Tamanho:

Publicada em 1942, esta obra pode ser considerada como uma alegoria: pretendendo acabar com a guerra, Emília, por engano, reduz a estatura dos seres humanos para alguns centímetros, obrigando a humanidade, assim, a criar uma nova civilização.

As intenções revolucionárias da boneca, no entanto, tornam-se frustradas por um plebiscito, que vota pelo restabelecimento da estatura antiga. Talvez seja interessante o estabelecimento de um paralelo entre o livro e A Reforma da Natureza (publicado um ano antes de A Chave do Tamanho) e este: no livro anterior, a repercussão dos atos “revolucionários” no mundo exterior ao sítio é bem menor, de conseqüências menos - digamos - vitais. A Chave do Tamanho, assim pode constituir uma espécie de chegada da ficção de Lobato, que nunca abandona preocupações didáticas.

Adapt. De texto de Marisa Lajolo

 

 

 

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Reinações de Narizinho - Monteiro Lobato

Em 1921, Monteiro Lobato, através de sua editora, introduziu no mercado de livros didáticos brasileiros um produto totalmente diferente: o Narizinho Arrebitado, “segundo livro de leitura para uso das escolas primárias.”

O imediato sucesso da obra levou o autor a prolongar as aventuras de seus personagens em muitos outros livros, agora não mais didáticos, girando todos ao redor do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Posteriormente vários destes livros foram reunidos em um volume: As Reinações de Narizinho.

Assim, a forma atual desta primeira obra infantil de Lobato é fruto da colagem de fragmentos que, inicialmente, apresentavam autonomia narrativa. As partes que compõem o livro e que coincidem com as mini-histórias originais são: “Narizinho Arrebitado”, “O Sítio do Pica-Pau Amarelo”, “Aventuras do Príncipe”, “ O Gato Félix”, “Cara de Coruja”, “ O Irmão de Pinóquio”, “O Circo de Escavalinhos”, “Pena de Papagaio” e “O Pó de Pirlimpimpim”.

Trecho:

I

Narizinho

Numa casinha branca, lá no Sítio do Picapau Amarelo, mora uma velha de mais de sessenta anos. Chama-se Dona Benta. Quem passa pela estrada e a vê na varanda, de cestinha de costura ao colo e óculos de ouro na ponta do nariz, segue seu caminho pensando:

-Que tristeza viver assim tão sozinha neste deserto...

Mas engana-se. Dona Benta é a mais feliz das vovós, porque vive em companhia da mais encantadora das netas - Lúcia, a menina do narizinho arrebitado, ou Narizinho como todos dizem. Narizinho tem sete anos, é morena como jambo, gosta muito de pipoca e já sabe fazer uns bolinhos de polvilho bem gostosos.

Nas casa ainda existem duas pessoas - tia Nastácia, negra de estimação que carregou Lúcia em pequena, e Emília, uma boneca de pano bastante desajeitada de corpo. Emília foi feita por tia Nastácia, com olhos de retrós preto e sobrancelhas tão lá em cima que é ver uma bruxa. Apesar disso Narizinho gosta muito dela; não almoça nem janta sem a ter ao lado, nem se deita sem primeiro acomodá-la numa redinha entre dois pés de cadeira.

Além da boneca, o outro encanto da menina é o ribeirão que passa pelos fundos do pomar. Suas águas, muito apressadinhas e mexeriqueiras, correm por entre pedras negras de limo, que Lúcia chama as “tias Nastácias do rio”.

Todas as tardes Lúcia toma a boneca e vai passear à beira d’água, onde se senta na raiz dum velho ingazeiro para dar farelo de pão aos lambaris.

Não há peixe do rio que a não conheça; assim que ela aparece, todos acodem numa grande faminteza. Os mais miúdos chegam pertinho; os graúdos parece que desconfiam da boneca, pois ficam ressabiados, a espiar.

(Apostila 16 de Pré-Modernismo - Literatura Brasileira)

 

 

 

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O Ateneu - (Raul Pompéia) - resumo

PERSONAGENS:

Sérgio – protagonista e narrador;

Aristarco – diretor do colégio (internato). É autoritário, egocêntrico e moralista;

Franco – sempre fora a vítima das brincadeiras de mau gosto dos outros;

Bento Alves – o misterioso e protetor;

Rabelo – o conselheiro;

Sanches - amigo, colega da classe.

Ema – mulher de Aristarco, substitui a mãe de todos os alunos;

Tendo por cenário um internato e por protagonizar um menino de onze anos, Sérgio, O Ateneu é tematizado pelo drama da solidão, do desajuste do indivíduo em relação ao meio.

A história é narrada em primeira pessoa pelo personagem principal, Sérgio, já adulto. Não linearmente, ele mostra os dois anos em que viveu no internato que fora obrigado a ir pelo seu pai, e que servia de metáfora para a Monarquia o qual tinha como diretor Aristarco. São narrados episódios de suas amizades, seus colegas interferindo com ele, a tensão homossexual entre os alunos do internato, a falsidade de uns, a deformação de caráter de outros e a única pessoa que lhes ajudava no internato, Dona Ema, mulher de Aristarco, por quem tinha uma paixão platônica.

Essa reconstituição compreende uma descrição expressionista de pessoas e ambientes em que o narrador desnuda cruelmente os colegas, como por exemplo, Ribas, que canta como anjos, Franco, o eterno penitente, Barreto, um colega para quem o mal eram as fêmeas e que se aproxima de Sérgio com suas idéias obre inferno e perdição, os professores e o diretor, reduzindo-os a caricaturas grotescas, nas quais se percebe a intenção de deformar, como se Sérgio estivesse vingando-se do seu passado e de todos que faziam parte do Ateneu.

Quando a escola é incendiada no final da história por um aluno durante as férias, Ema foge. Sérgio presencia a cena pois estava convalescendo ainda na escola. Essa obra foi chamada pelo autor de “Crônica de Saudades” e ultrapassa a dimensão autobiográfica por causa de sua qualidade literária.

O Ateneu, Crônica de Saudades, estrutura-se através de “manchas de recordação”, ou seja, de uma sucessão de episódios, cujo fio condutor é a memória do personagem-narrador. Não há propriamente um enredo. Relatamos, a seguir alguns episódios:

Com onze anos, o menino Sérgio (que narra a história em primeira pessoa) entra para o “Ateneu”, famoso colégio interno dirigido pelo Dr. Aristarco Argolô de Ramos. Principia falando de Aristarco:

“um personagem que, ao primeiro exame, produzia-nos a impressão de um enfermo, desta enfermidade atroz e estranha; a obsessão da própria estátua. Como tardasse a estátua, Aristarco interinamente satisfazia-se com a influência dos estudantes ricos para seu instituto. De fato, os educandos do “Ateneu” “significavam a fina flor da mocidade brasileira”.

O pai de Sérgio, ao deixá-lo à porta do “Ateneu”, disse-lhe:

“Vais encontrar o mundo. Coragem para a luta”.

E o narrador acrescenta:

“Bastante experimentei depois a verdade deste aviso, que me despia, num gesto, das ilusões de criança educada exoticamente na estufa de carinho que é o regime do amor doméstico...”

Sobre os companheiros de classe, diz:

“eram cerca de vinte: uma variedade de tipos que me divertia: o Gualtério, o Nascimento, o Álvares, o Mânlio, o Almeidinha, o Mauríllio, o Negrão, o Batista Carlos, o Cruz, o Sanches e o resto, uma cambadinha indistinta, adormentados nos últimos bancos, confundidos na sombra preguiçosa do fundo de sala.”

Nos primeiros dias, Sérgio atravessa por um período de ajustamento, e conversando com o Rebelo, um veterano, este assim opina sobre os companheiros:

“Têm mais pecados na consciência que um confessor no ouvido, uma mentira em cada dente, um vicio em cada polegada de pele. Fiem-se neles... São servis, traidores, brutais, adulões. Fuja deles, fuja deles. Cheiram a corrupção, emprestam de longe. Corja de hipócritas! Imorais! Cada dia de vida tem-lhes vergonha da véspera. Mas você é criança; não digo tudo o que vale a generosa mocidade. Com eles mesmos há de aprender o que são... Os rapazes tímidos, ingênuos, sem sangue, são brandamente impelidos para o sexo da franqueza; são dominados, festejados, pervertidos como meninas ao desamparo. Quando, em segredo dos pais, pensam que o colégio é a melhor das vidas, com o acolhimento dos mais velhos, entre brejeiros e afetuosos, estão perdidos... Faça-se homem, meu amigo. Comece por não admitir protetores.”

Após a fase inicial de ajustamento, Sérgio vai-se habituando à vida do internato. Interessa-se pelos estudos, graças à ajuda de Sanches. Mas o Sanches estava mal intencionado: seu plano era perverter Sérgio. E, como não consegue, passa a persegui-lo, como “vigilante” que era. O resultado é que Sérgio, de bom aluno, passa a figurar no “livro de notas”, um trágico livro em que cada professor anotava as supostas indisciplinas e que o diretor lia todos os dias perante os alunos para isso reunidos, tornando públicas as atitudes faltosas, as quais eram castigadas rigorosamente. Sérgio entra em perigosa fase de desânimo, tornando-se religioso. Nessa fase tem amizade com Franco, um pobre-diabo que vivia desprezado por todos, o figurava permanentemente no “livro de notas”. Certa vez, Franco para vingar-se dos colegas que haviam maltratado, joga cacos de vidro na piscina. (Sérgio ajuda nesta tarefa.). Felizmente as intenções maldosas de Franco são por acaso frustradas, pois houve a limpeza da piscina antes que os alunos banhassem; mas o episódio fez com que Sérgio, arrependido, deixasse a fase de “misticismo” e passasse a encarar a vida de outra maneira: conta a seu pai o que realmente era o “Ateneu” e resolve, daí por diante, tomar atitudes de pessoa independente, enfrentando inclusive a autoridade despótica e interesseira de Aristarco.

E o narrador: “esse foi o caráter que mantive, depois de tão várias oscilações.”

Nesta altura, introduz novo personagem: O Nearco, um ginasta de grande valor, que acabara de entrar para o “Ateneu”. Embora excelente nos exercícios de ginástica, foi como orador do grêmio literário do colégio que Nearco se destacou. Às reuniões desse órgão estudantil, chamado “Grêmio Amor ao Saber”, Sérgio comparecia como simples assistente. Como o grêmio possuía farta biblioteca, Sérgio começa a freqüentá-la, então que se deu um fato estranho: Freqüentando a biblioteca, Sérgio travou amizade com o Bento Alves, um aluno mais velho que trabalhava como bibliotecário. Uma amizade que logo degenerou, por força das más intenções do Bento Alves. Logo os colegas começaram a dizer piadas e a fazer comentários:

“A malignidade do Barbalho e seu grupo não dormia. Tremendo da represália do Alves, faziam pelos cantos escorraçada maledicência, digna deles”.

Certo dia, o diretor se dirigiu aos alunos:

“Tenho a alma triste, senhores. A imoralidade entrou nessa casa! Recusei-me a dar crédito, rendi-me à evidência...”.

Narra então, o diretor, um caso de “amor” entre dois alunos, inclusive faz referência a uma carta de “amor” em que um dos protagonistas convida o outro para um encontro no jardim e assina: Cândida ( o aluno se chamava Cândido)... E o diretor termina a primeira parte do discurso com a frase:

“Há mulheres no “Ateneu”, meus senhores.”

E o desfecho acontece:

“Aristarco soprou duas vezes através do bigode, inundando o espaço com um bafejo todo poderoso. E, sem exórdio: Levante-se Sr. Cândido Lima! Apresento-lhes, meus senhores, a Sra. Dona Cândida – acrescentou com ironia desanimada. Para o meio da casa! Curve-se diante dos seus colegas. Cândido era um grande menino, beiçudo, louro, de olhos verdes e maneiras difíceis de indolência e enfado. Atravessou devagar a sala, dobrando a cabeça, cobrindo o rosto com a manga, castigado pela curiosidade pública. –Levanto-se, Sr. Emílio Tourinho... Este é o cúmplice, meus senhores. Tourinho era um pouco mais velho que o outro, porém mais baixo; atarracado, moreno, ventas arregaladas, sobrancelhas crespas, fazendo um só arco pela testa. Nada absolutamente conformado para galã, mas era com efeito o amante. –Venha ajoelhar-se com o companheiro. –Agora os auxiliares. E o chamado do diretor, foram deixando os lugares e postando-se de joelhos em seguimento dos principais culpados. Prostrados os doze rapazes perante Aristarco, na passagem alongada entre as cabeceiras das mesas, parecia aquilo em ritual desconhecido de noivado à espera da bênção para o casal frente. Em vez de bênção chovia a cólera.”

E prossegue o autor:

“Conduzidos pelos inspetores, saíram os doze como uma leva de convictos para o gabinete do diretor, onde deviam se literalmente seviciados, segundo a praxe da justiça de arbítrio. Consta que houve mesmo pancada de rijo.”

Sérgio teve, após o episódio com Bento Alves, um amigo “verdadeiro”, Egbert.

Tendo sido transferido para o dormitório dos maiores, Sérgio começa a viver em ambiente mais masculino. Narra os hábitos dos mais velhos, as saídas noturnas pelas janelas, etc.

Conta Sérgio o episódio da morte do colega Franco, vítima de péssima educação que havia recebido em casa e igualmente vítima dos maus-tratos sofridos no “Ateneu”.

E termina o livro com o Incêndio que destrói o “Ateneu”, incêndio, ao que se diz, “propositadamente lançado pelo Américo”, um aluno revoltado, que fora colocado à força pelo pai no internato.

Conclui o autor:

“Aqui suspende a crônica das saudades. Saudades verdadeiramente? Puras recordações, saudades talvez se ponderarmos que o tempo e a ocasião passageira dos fatos, mas sobretudo – o funeral para sempre das horas.”

(Apostila 19 de Pré-Modernismo - Literatura Brasileira)

 

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As Jóias da Coroa - Raul Pompéia - resumo

Aconteceu de fato o roubo das jóias da coroa. Foi a 22 de março de 1882. As investigações policiais acabaram trazendo à tona os segredos de alcova do imperador D.Pedro II, o que concorreu para “abalar seriamente a respeitabilidade do imperador” (Wilson Martins). Tão sensacional foi o escândalo, que logo depois, em 31 de março, Artur Azevedo lançou sua “ópera bufo-mitológica” Um Roubo no Olimpo, parodiando o fato.

Eis um dos diálogos da comédia: “Argos (a Mercúrio): Estás livre. Mercúrio: Homessa! Pois as jóias foram encontradas no meu quintal e eu estou livre...

Argos: Ordem superior! Mercúrio: Pois há ordem superior à lei?! Argos: E há lei superior à ordem?”

Mercúrio representa Manuel de Paiva, o assaltante e pessoa da confiança do imperador; Argos é o chefe de polícia encarregado das investigações. No romance-charada de Pompéia, o duque de Bragantina é o imperador, a duquesa de Bragantina é a duquesa Teresa Cristina e o marquês d’Etu é o conde d’Eu, que à época, contrariando a imagem popular da esposa princesa Isabel, era conhecido como “Príncipe dos Cortiços”, por especular com casas de cômodos.

Manuel de Paiva era o alcoviteiro-mor e conhecia bem as dependências do Paço. Roubara as jóias, mas logo foi descoberto. As investigações enrolaram-se nos negócios de alcova entre o imperador e Paiva: era ele quem encaminhava as belas adolescentes ao rei.

Trecho:

Tempos mais tarde, apareceu na mansão um caixeiro, procurando afobadamente, Manuel Paiva e apresentando um cartão de visita com o nome de Aleixo de tal.

Mais tarde ainda, numa pequena festa que houvera na aldeola da propriedade, por ocasião do casamento de um lacaio do duque de Bragantina, a noiva, uma mocetona rechonchuda e corada, conversando com as amigas sobre o roubo das “jóias da Coroa”, remexia os olhos e os ombros, dizendo:

-Era bem o que eu dizia... Eu jurava que o negócio havia de dar em muita embrulhada ou em muito silêncio. Digam lá vocês se no palácio se toca mais no negócio dos ladrões... Depois da morte da sinhá Emília, que Deus a guarde na sua glória... Coitada, morreu nos braços da senhora duquesa, que fugiu da casa de Gertrudes como uma doida!... Só muito depois disso, é que me contaram, em segredo, que as jóias tinham sido achadas no quintal do seu Manuel Paiva e que o senhor marquês d’Etu andou muito contente, abraçando os inquilinos dos cortiços, feito maluco... Eu bem dizia, eu bem dizia...

(Apostila 18 de Pré-Modernismo - Literatura Brasileira)

 

 

 

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SIMÕES LOPES NETO

O maior escritor regionalista do Rio Grande do Sul, nasceu em Pelotas, em 9 de março de 1865, na Estância da Graça, a 29 quilômetros da cidade e de propriedade de seu avô paterno, João Simões Lopes Filho, o Visconde da Graça - que chegou a ter uma orquestra particular composta por escravos em sua grande fazenda. Viveu na estância até 1876. Aos treze anos, foi para o Rio de Janeiro, estudar no famoso colégio Abílio. Em seguida, teria freqüentado até a terceira série da Faculdade de Medicina, mas sobre esta passagem acadêmica nunca houve provas. Retornando ao Sul, fixa-se em sua terra natal, Pelotas, então rica e próspera pelas mais de cinqüenta charqueadas que lhe davam a base econômica. Nesta cidade dinâmica e aristocrática, o jovem patrício enceta a mais bizarra, surpreendente e malograda trajetória vivida por um escritor gaúcho. Com idéias cheias de audácia, tornou-se um agente empreendedor da industrialização pelotense. Criou, mediante o sistema de cotas, uma fábrica de vidros, cujos operários eram todos franceses e os aprendizes, meninos pobres da região. Participou da montagem de uma poderosa destilaria, convencendo dezenas de homens de posse a se tornarem acionistas da nova empresa. Todas fracassaram porque a década de 1890 - onde elas surgiram - tinha sido marcada pela devastadora guerra civil no Rio Grande do Sul e a economia local fora duramente abalada. Mesmo assim, na virada do século e com recursos próprios - advindos das heranças do avô e do pai - construiu uma fábrica de cigarros. Os produtos, fumos e cigarros, receberam o nome de Diabo. Marca Diabo. O sucesso inicial, causado pelo impacto da marca, deu lugar à ameaças de excomunhão e pressões religiosas que inviabilizaram a empresa. Montou também uma firma de moer e torrar café, inventou uma fórmula à base de tabaco para combater sarna e carrapatos, a Tabacina, que se manteve no mercado por dez anos, e para culminar este processo que passa da audácia empresarial para uma certa centelha de loucura, fundou a Empresa de Mineração do Taió. A mineradora tinha como alvo as lendárias minas de prata, localizadas em Santa Catarina. Um ferreiro esperto e que se apresentava como engenheiro lhe extorquiu belas somas, inclusive fundindo moedas comuns de prata para dar-lhe a ilusão das primeiras descobertas do rico tesouro. A quantidade de fracassos econômicos era proporcional a sua imaginação capitalista.

Aos 27 anos, casou-se com Francisca de Paula Meireles Leite, de 19 anos, no dia 5 de maio de 1892. Apesar de reduzida produção literária no que diz respeito à publicação, João Simões Lopes Neto teve uma expressiva contribuição intelectual ao regionalismo sul-rio-grandense. É intensa a valorização histórica do gaúcho, apresentando fidelidade aos costumes crioulos e à linguagem. Além de escritor, Simões Lopes foi jornalista e passou por vários estágios dentro da profissão como: cronista, redator, editorialista, secretário da redação, folhetinista e diretor de jornal. Aí estampou seus relatos, em uma linguagem que fugia dos padrões reconhecidos na época. Ninguém percebia a sua importância literária. Sua primeira aparição na imprensa pelotense ocorreu no jornal Pátria, de seu tio, Ismael Simões Lopes, onde criou a coluna Balas de Estalo.

Entre 15 de outubro e 14 de dezembro de 1893, J. Simões Lopes Neto, sob o pseudônimo de Serafim Bemol, em parceria com Sátiro Clemente e D. Salustiano, escreveram, em forma de folhetim, "A Mandinga", poema em prosa no "Correio Mercantil". Desconfia-se, porém, que nunca existiu Sátiro Clemente e D. Salustiano e ambos seriam o próprio Simões Lopes Neto, pois em toda obra está o seu estilo inconfundível.

Entre 1895 e 1913 reestabeleceu a coluna Balas d'Estalo no Diário Popular; em 1913 e 1914, sob o pseudônimo João do Sul, assinou as crônicas de Inquéritos em Contraste nas páginas de A Opinião Pública; de 1914 a 1915 ocupou a direção do Correio Mercantil; em 1916, voltou para A Opinião Pública com a coluna Temas Gastos.

Foi Conselheiro Municipal entre 1896 e 1900. Participou da diretoria de diversas entidades, como União Gaúcha, onde foi presidente por dois mandatos, e da Biblioteca Pública Pelotense. Foi também professor e capitão da Guarda Nacional. Em 1910, como fundador, ingressou na Academia de Letras do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre. Em 1911, a Revista da Academia de Letras do Rio Grande do Sul, publicou A Recolhida, como parte de um livro escolar que estava no prelo.

Empobrecido, João Simões sobreviveu das atividades jornalísticas. Muitos pelotenses ainda o tratavam com deferência, por suas origens aristocráticas e seu caráter generoso; outros viam nele apenas um derrotado, um tipo que merecia piedade.

J. Simões Lopes Neto publicou três livros em vida, todos lançados em Pelotas, pela Livraria Universal: Cancioneiro Guasca (1910), Contos Gauchescos (1912), Lendas do Sul (1913). A julgar, porém, pelos sonhos literários que acalentou, sua bibliografia era para ter sido bem mais volumosa. Ele próprio chegou a anunciar, por intermédio de seu editor, a existência de nada menos de seis outros livros, dois "a sair" (Casos do Romualdo e Terra Gaúcha) e quatro "inéditos" (Peona e Dona, Jango Jorge, Prata do Taió e Palavras Viajantes).

Embora as expressões "a sair" e "inéditos" estejam a indicar que todos os livros já existiam, em originais, é fora de dúvida que apenas um - Casos do Romualdo - chegaria a aparecer em vida do autor, ainda assim na forma de folhetim, e, em livro, apenas em 1952. Passados quarenta e dois anos da morte do escritor, apareceria o primeiro volume de Terra Gaúcha (os originais do segundo volume foram extraviados). Temos assim que, dos seis títulos dados naquela ocasião, como "a sair" e "inéditos", somente Casos do Romualdo havia sido escrito, nenhum outro existindo na condição de obra pronta e acabada para ser composta e impressa ou para entrar efetivamente no prelo. Quantos aos demais, foi profudamente lamentável que não tivessem passado de projetos irrealizados, malogro esse que cresce de vulto em relação a Peona e Dona e a Jango Jorge, sonhados ambos nos moldes apaixonantes de romances regionalistas. Um caso... não do Romualdo, mas do próprio Capitão João Simões. Bastava ter continuado a dar trela a Blau Nunes, o vaqueano. Não lhe faltaria gênio criador. Nem estilo. O de sua marca e sinal daria soberanamente. E com fartura.

Morreu em 14 de junho de 1916, em Pelotas, aos cinqüenta e um anos, de uma úlcera perfurada.
Atualmente, J. Simões Lopes Neto e sua prosa ultrapassam os limites territoriais e expressam uma visão do mundo, o que torna sua literatura universal. Como prova disso, podemos encontrar traduções de sua obra em italiano, espanhol, inglês e até japônes.

Textos:

O Mate do João Cardoso

— A LA FRESCA!… que demorou a tal fritada! Vancê reparou?

Quando nos apeamos era a pino do meio-dia... e são três horas, largas!... Cá pra mim esta gente esperou que as franguinhas se pusessem galinhas e depois botassem, para depois apanharem os ovos e só então bater esta fritada encantada, que vai nos atrasar a troteada, obra de duas léguas... de beiço!...

Isto até faz-me lembrar um caso... Vancê nunca ouviu falar do João Cardoso?... Não?... É pena.

O João Cardoso era um sujeito que vivia por aqueles meios do Passo da Maria Gomes; bom velho, muito estimado, mas chalrador como trinta e que dava um dente por dois dedos de prosa, e mui amigo de novidades.

Também... naquele tempo não havia jornais, e o que se ouvia e se contava ia de boca em boca, de ouvido para ouvido. Eu, o primeiro jornal que vi na minha vida foi em Pelotas mesmo, aí por 1851.

Pois, como dizia: não passava andante pela porta ou mais longe ou mais distante, que o velho João Cardoso não chamasse, risonho, e renitente como mosca de ramada; e aí no mais já enxotava a cachorrada, e puxando o pito de detrás da orelha, pigarreava e dizia:

— Olá! Amigo! apeie-se; descanse um pouco! Venha tomar um amargo! É um instantinho.... crioulo?!…

O andante, agradecido à sorte, aceitava… menos algum ressabiado, já se vê. — Então que há de novo? (E para dentro de casa, com uma voz de trovão, ordenava:) Oh! crioulo! Traz mate!

E já se botava na conversa, falava, indagava, pedia as novas, dava as que sabia; ria-se, metia opiniões, aprovava umas cousas, ficava buzina com outras...

E o tempo ia passando. O andante olhava para o cavalo, que já tinha refrescado; olhava para o sol que subia ou descambava… e mexia o corpo para levantar-se.

— Bueno! são horas, seu João Cardoso; vou marchando!…

— Espere, homem! Só um instantinho! Oh! crioulo, olha esse mate!

E retomava a chalra. Nisto o crioulo já calejado e sabido, chegava-se-lhe manhoso e cochichava-lhe no ouvido:

— Sr., não tem mais erva!…

— Traz dessa mesma! Não demores, crioulo!...

E o tempo ia correndo, como água de sanga cheia. Outra vez o andante se aprumava:

— Seu João Cardoso, vou-me tocando… Passe bem!

— Espera, homem de Deus! É enquanto a galinha lambe a orelha!… Oh! crioulo!… olha esse mate, diabo!

E outra vez o negro, no ouvido dele:

— Mas, senhor!… não tem mais erva!

— Traz dessa mesma, bandalho!

E o carvão sumia-se largando sobre o paisano uma riscada do branco dos olhos, como encarnicando...

Por fim o andante não agüentava mais e parava patrulha:

— Passe bem, seu João Cardoso! Agora vou mesmo. Até a vista!

— Ora, patrício, espere! Oh crioulo, olha o mate!

— Não! não mande vir, obrigado! Pra volta!

— Pois sim…, porém dói-me que você se vá sem querer tomar um amargo neste rancho. É um instantinho... oh! crioulo!

Porém o outro já dava de rédea, resolvido à retirada.

E o velho João Cardoso acompanhava-o até a beira da estrada e ainda teimava:

— Quando passar, apeie-se! O chimarrão, aqui, nunca se corta, está sempre pronto! Boa viagem! Se quer esperar... olhe que é um instantinho... Oh! crioulo!…

Mas o embuçalado já tocava a trote largo.

Os mates do João Cardoso criaram fama… A gente daquele tempo, até, quando queria dizer que uma cousa era tardia, demorada, maçante, embrulhona, dizia — está como o mate do João Cardoso!

A verdade é que em muita casa e por muitos motivos, ainda às vezes parece-me escutar o João Cardoso, velho de guerra, repetir ao seu crioulo:

— Traz dessa mesma, diabo, que aqui o sr. tem pressa!...

— Vancê já não tem topado disso?…

A Mandinga - (Apresentação)

Poema em prosa, trágico-cômico-burlesco, que não se sabe bem como começou nem quando acabará - pela firma social S & S & S - como tudo se verá com o andar do tempo, se Deus quiser.

Não ride.

Existe - existe - abaixo de nós outros, que lemos jornais - discutimos política e tratamos de negócios - o mundo sombrio - rodeado de pouco caso - aparente - mas que é tratado com respeito, quando alguém carece do seu serviço - de ordem diversa - e que a geral hipocrisia social priva de procurar em plena luz.

O mundo que passa à nossa beira - durante o dia em que não atentamos - mas que espia o que fazemos - cospe no lugar onde pousamos o pé - e que traça no ar - sobre as nossas costas - grandes figuras fantásticas.

O tempo dos bruxedos - Não passou.

Apurai a memória e recordai-vos de mil frases soltas - sobre casos sucedidos com pessoas das vossas relações.

Recordai - recordai - atróz a dor de cabeça de um; a cólica súbita de outro; a congestão aqui, a febre acolá! Por que? Como? Por outro lado - os desgostos - as dissenções - a desconfiança - há cilada de todo o gênero.

Procurai - procurai.

São as misteriosas consultas provocadas pelo despeito - pelo ciúme - pela inveja e pela pequena ambição.

São as ignóbeis, beberagens; as representações barbaramente teatrais de cenas caóticas; as invocações - os gritos - os trejeitos - as contorções.

E o povo - por mais que ria - cá fora - lá dentro - no santuário - prosta-se.

Porque, apesar de tudo - ele não fala no feiticeiro - sem uma ponta - nem sempre oculta de um vago receio - como se o bruxo - estivesse - aqui - ouvindo e pronto a saltar sobre o imprudente e sufocá-lo com o laço invisível e todo poderoso da sua aliança com o DEMÔNIO.

(Apostila 20 de Pré-Modernismo - Literatura Brasileira)