PANORAMA DA LITERATURA PORTUGUESA

13/05/2015 05:34

PANORAMA DA LITERATURA PORTUGUESA

 

 

1. 1º MODERNISMO

Período: 1915-1927

Gêneros: poesia e prosa

Principais autores: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro

Principais características: experimentações formais e de conteúdo, influência das vanguardas do início do século XX, urbanismo, neurose, heteronímia pessoana

Principais obras: Obra poética (Pessoa), Dispersão (poesia), Céu em fogo e A confissão de Lúcio (prosa poética) (Sá-Carneiro), Orpheu (revista)

Leitura inesquecível: Tabacaria (poema de Pessoa)

 

2. 2º MODERNISMO                                                 

Período: 1927-1940

Gêneros: poesia e prosa

Principais autores: José Régio, Miguel Torga

Principais características: experimentalismo, reflexão psicológica e existencial

Principais obras: Jogo da cabra-cega (romance de Régio), Presença (revista)

Leitura inesquecível: Joga da cabra-cega

 

 

3. NEOREALISMO

Período: 1940 – circa 1950

Gênero: romance

Principais autores: Alves Redol, Fernando Namora, Manuel da Fonseca, Carlos de Oliveira

Principais características: análise crítica da realidade social, engajamento político, denúncia de injustiças, anti-individualismo, socialismo, influência do romance nordestino brasileiro

Principais obras: Gaibéus (Redol), Casa da malta (Namora), Seara de vento (Fonseca), Uma abelha na chuva (Oliveira)

Leitura inesquecível: Uma abelha na chuva

 

 

4. ANOS ’50 E ’60

Gêneros: poesia, romance

Principais autores: Vergílio Ferreira, Agustina Bessa-Luís, Vitorino Nemésio, Jorge de Sena

Principais características: liberdades formais e ideológicas, romance filosófico, influência do nouveau roman francês e da filosofia do existencialismo

Principais obras: Aparição (Ferreira), A sibila (Bessa-Luís), Mau tempo no canal (Nemésio) (romances); O pão e a culpa (Nemésio), Poesia I, II e III (Sena) (poesia)

Leituras inesquecíveis: Mau tempo no canal e Aparição

 

 

5. PÓS-REVOLUÇÃO DOS CRAVOS

Período: a partir de 1974

Gêneros: poesia, prosa, teatro

Principais autores: José Saramago, António Lobo Antunes, Lídia Jorge

Principais características: extrema liberdade formal e temática, experimentalismo, pós-modernismo

Principais obras: Memorial do convento (Saramago), Auto dos danados (Antunes), O cais das merendas (Jorge)

Leitura inesquecível: Memorial do convento


 

I — O 1º MODERNISMO (1915-1927)

 

            O Modernismo na literatura portuguesa teve seu momento inicial marcado pelo lançamento da revista Orpheu, lançada em 1915 por um grupo de jovens que incluía Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, José de Almada Negreiros e outros, cuja intenção era modernizar a cultura nacional e colocá-la a par dos mesmos interesses e procedimentos estéticos das vanguardas que agitavam a Europa do início do século XX, como o Cubismo e o Futurismo. Orpheu teve publicados apenas dois números, mas sua influência foi muito além deles.

 

1) A poesia de Mário de Sá-Carneiro (1890-1916)

 

Mário de Sá-Carneiro nasceu em Lisboa. Cedo ficou órfão de mãe e sua criação pelos avós, em meio a criados e privilégios, mas distanciada de seu pai, engenheiro de profissão, contribuiu para formar-lhe uma personalidade extremamente sensível  e frágil. Depois do secundário, foi estudar Direito em Paris, mas não concluiu o curso.

Amigo e correspondente de Fernando Pessoa, que, em uma carta, dedicou-lhe, provavelmente com ironia, a invenção do heterônimo pagão e sensacionista Alberto Caeiro, participou ativamente do lançamento da revista que reuniu a primeira geração modernista portuguesa, Orpheu (1915), financiada por seu pai. Egocêntrico, sonhador, encantado com a vida noturna da grande metrópole parisiense, inimigo das limitações que a realidade impõe à sensibilidade, características claramente refletidas em sua obra, quando de sua volta a Paris, vive uma aguda crise financeira e psicológica, registrada nas cartas que enviou a Fernando Pessoa, terminando por se matar aos 26 anos. Publicou Amizade (teatro, 1912, com Tomás Cabreira Jr.), Princípio (contos, 1912), Dispersão (poesia, 1914), A confissão de Lúcio (novela, 1914), Céu em fogo (contos, 1915); postumamente, sairia Indícios de oiro (poesia, 1937).

 

 

a. EL-REI

 


 

Quando chego o piano estala agoiro
E medem-se os convivas logo, inquietos –
Alargam-se as paredes, sobem tectos:
Paira um Luxo de Adaga em mão de moiro.

Meu intento porém é todo loiro
E a cor-de-rosa, insinuando afectos.
Mas ninguém se me expande... Os meus dilectos
Frenesis ninguém brilha! Excesso de Oiro...

Meu Dislate a conventos longos orça:
Pra medir minha Zoina, aquém e além,
Só mística, de alada, esguia corça.

Quem me convida mesmo não fez bem:
Intruso ainda – quando, à viva força,
A sua casa me levasse alguém.
 

Paris – 30 Janeiro 1916.
 

 

 

 

 

 

 

Principais características:

 

a. contraste entre o equilíbrio da forma e o desvario do conteúdo

b. vocabulário raro, refinado, excepcional

c. linguagem sugestiva

d. consciência da excepcionalidade do eu-lírico

e. o tema modernista do deslocamento do eu na sociedade

f. idealismo

g. desilusão

h. narcisismo


 


 


b. AQUELOUTRO

 


 

O dúbio mascarado o mentiroso
Afinal, que passou na vida incógnito
O Rei-lua postiço, o falso atónito;
Bem no fundo o covarde rigoroso.

Em vez de Pajem bobo presunçoso.
Sua Ama de neve asco de um vómito.
Seu ânimo cantado como indómito
Um lacaio invertido e pressuroso.

O sem nervos nem ânsia – o papa– açorda,
(Seu coração talvez movido a corda...)
Apesar de seus berros ao Ideal
O corrido, o raimoso, o desleal
O balofo arrotando Império astral
O mago sem condão, o Esfinge Gorda.

Paris – Fevereiro 1916.

 

 

Principais características:

 

a. as mesmas anteriores

b. a dissociação (divisão) do eu

c. narcisismo negativo


 

 

 

c. QUASE

 


 

Um pouco mais de sol - eu era brasa,

Um pouco mais de azul - eu era além.

Para atingir, faltou-me um golpe de asa...

Se ao menos eu permanecesse aquém...

 

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído

Num baixo mar enganador de espuma;

E o grande sonho despertado em bruma,

O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

 

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,

Quase o princípio e o fim - quase a expansão...

Mas na minh'alma tudo se derrama...

Entanto nada foi só ilusão!

 

De tudo houve um começo... e tudo errou...

- Ai a dor de ser-quase, dor sem fim... -

Eu falhei-me entr’os mais, falhei em mim,

Asa que se elançou mas não voou...

 

Momentos de alma que desbaratei...

Templos aonde nunca pus um altar...

Rios que perdi sem os levar ao mar...

Ânsias que foram mas que não fixei...

 

Se me vagueio, encontro só indícios...

Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;

E mãos de herói, sem fé, acobardadas,

Puseram grades sobre os precipícios...

 

Num ímpeto difuso de quebranto,

Tudo encetei e nada possuí...

Hoje, de mim, só resta o desencanto

Das coisas que beijei mas não vivi...

 

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

 

Um pouco mais de sol - e fora brasa,

Um pouco mais de azul - e fora além.

Para atingir, faltou-me um golpe de asa...

Se ao menos eu permanecesse aquém...

 

Principais características:

a. as mesmas anteriores

b. linguagem fragmentária correspondente à visão modernista do mundo como fragmentação


 

 

 

 

 

 

 

 

 

2) A poesia de Fernando Pessoa (1888-1935)

 

Fernando António Nogueira Pessoa era natural de Lisboa. Órfão de pai, aos cinco anos mudou-se para a África do Sul, devido ao segundo casamento de sua mãe com um oficial português lá postado. Criado na cidade de Durban, recebeu uma educação inglesa, na qual destacou-se com brilhantismo. Após o secundário, retornou a Portugal, sozinho, em 1905. Freqüentou a Faculdade de Letras de Lisboa por algum tempo, mas logo desistiu, ocupando-se, a partir de então, como correspondente comercial em línguas estrangeiras. Seu maior interesse, entretanto, era a atividade literária, tendo participado ou estado ligado a movimentos e revistas do início do século, como A Renascença Portuguesa e A Águia. Em 1915, juntamente com Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros e outros jovens artistas interessados na renovação da cultura portuguesa em sentido não apenas literário, lançou a revista Orpheu, que, apesar de ter publicado apenas dois números e preparado mais um, teve importância fundamental na divulgação das novas idéias estéticas que circulavam pela Europa do tempo.

Escritor prolífico, Fernando Pessoa é autor de em prosa, poesia, teatro, crítica, filosofia. A multiplicidade de seus interesses e sua capacidade de fragmentar-se em várias personalidades literárias deu origem a seus heterônimos, poetas criados por ele, mas diferentes, em formas e conteúdos, da poesia que assina com seu nome. Assim, temos Alberto Caeiro, o heterônimo pagão, voltado para a natureza e a observação do real; Ricardo Reis, heterônimo neoclássico, interessado na cultura greco-latina, desencantado do mundo das ações e das paixões; Álvaro de Campos, heterônimo modernista, multifacetado entre o decadentismo inicial, marcado pela evasão proporcionada pelas drogas e pela arte pela arte, o entusiasmo com o progresso tecnológico do mundo industrial e o posterior niilismo, advindo do desencanto com tudo. Neles, Pessoa afirmava que conseguia “outrar-se”, escrevendo de um ponto de vista poético, moral e filosófico que não coincidia com o seu, que tendia para a experimentação formal, criando sucessivos movimentos poéticos a que deu nomes como Sensacionismo, Paulismo e Interseccionismo e, quanto à mundividência, para a expressão de um sentimento de mágoa da existência, de reflexão sobre a arte e de criação de uma imagem particularíssima sobre Portugal em termos históricos e culturais.

Para além de sua freqüente colaboração em revistas, como Centauro, Athena e Presença, órgão da segunda geração modernista, que o tinha como um de seus mestres, Pessoa publicou muito pouco em vida; apenas os poemas ingleses de Antinous (1918), Sonnets (1918) e Inscriptions (1920), reunidos como English poems I, II e III, em 1921, e Mensagem (1934), vencedor do prêmio de segunda categoria do concurso de poesia promovido pelo Secretariado de Propaganda Nacional. A grande valorização de sua obra, que hoje é estudada em todos os grandes centros do mundo, se deu após sua morte.

Fernando Pessoa, considerado o maior poeta português depois de Camões, faleceu em conseqüência de cólica hepática, em 30 de novembro de 1935, em Lisboa.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  1. A poesia ortônima:

 

  1. Vertente saudosista-nacionalista: Mensagem, O Quinto Império

 

  1. Vertente lírica: Cancioneiro

 

  1. Temas da poesia saudosista-nacionalista:

 

  1. Resposta à crise do início da República portuguesa (1910)
  2. Volta ao passado, à formação de Portugal, à dinastia de Avis, responsável pelas Navegações
  3. Identificação com o mar e as grandes Navegações quinhentistas
  4. Sebastianismo e o Quinto Império
  5. Mensagem dialoga implicitamente com Os Lusíadas, formando também uma imagem mítica de Portugal num momento de crise aguda
  6. Mensagem tem três partes: I- Brasão (a formação de Portugal até as Navegações); II- Mar portuguez (os navegadores e o desejo de possuir os mares); III- O Encoberto (o Sebastianismo e o tema do Encoberto)

 

  1. Temas da poesia lírica:
  1. Senso de mistério inerente à vida
  2. Sensação intervalar: senso de limites, de habitar um limiar entre estados de ser
  3. Investigação metafísica do ser
  4. A mágoa de existir
  5. A reflexão sobre a arte e o processo de produção artística
  6. Utilização de formas poéticas tradicionais e populares, como a redondilha (verso de sete sílabas) e a rima
  7. A experimentação formal, com a criação de novos movimentos literários, como o Paulismo (que propunha uma poesia de temas, linguagens e ambientes indefinidos como um paul (pântano)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poemas de Fernando Pessoa ortônimo

A — de Mensagem (1934)

a. I. OS CAMPOS: PRIMEIRO / OS CASTELOS

A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,

A mão sustenta, em que se apoia o rosto.
Fita, com olhar sphyngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.
O rosto com que fita é Portugal.

 

b. II. OS CASTELOS: PRIMEIRO / ULISSES

 

O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo--
O corpo morto de Deus,

Vivo e desnudo.


Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.

Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.


Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,

E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre


 

 

B — do Cancioneiro

 


 

a. GRANDES MISTÉRIOS HABITAM

 

Grandes mistérios habitam
O limiar do meu ser,
O limiar onde hesitam
Grandes pássaros que fitam
Meu transpor tardo de os ver.

 

São aves cheias de abismo,
Como nos sonhos as há.
Hesito se sondo e cismo,
E à minha alma é cataclismo
O limiar onde está.

 

Então desperto do sonho
E sou alegre da luz,
Inda que em dia tristonho;
Porque o limiar é medonho
E todo passo é uma cruz.

 

b. AUTOPSICOGRAFIA

 

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

 

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

 

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  1. A poesia heterônima:

 

  1. Alberto Caeiro

 

  1. Poeta do naturalismo absoluto
  2. Poeta do sensacionismo, ou seja, do predomínio dos sentidos sobre a reflexão
  3. Privilégio do sentido da visão
  4. Concepção realista e objetiva da vida, baseada na experimentação direta do mundo por meio das sensações físicas
  5. Fuga para a simplicidade da natureza
  6. Poeta do paganismo, que é a integração de cada ser numa realidade harmônica e equilibrada, o mundo, desfrutando-o de maneira direta. Para o paganismo, as formas ou forças divinas se manifestam na natureza, no mundo que os sentidos podem experimentar
  7. Seu projeto de vida é ser feliz; seu método para isso é um modo de viver realista, simples, objetivo, sem artificialismos como a arte e a cultura, enfim, natural, que sua poesia nos oferece como uma receita de felicidade
  8. Liberdade formal absoluta, refletindo sua pouca formação escolar e seu desinteresse pela arte e a cultura formal

 

 

Poemas de Alberto Caeiro (de O guardador de rebanhos)

 


 

a. “II”

 

O meu olhar é nítido como um girassol.

Tenho o costume de andar pelas estradas

Olhando para a direita e para a esquerda,

E de vez em quando olhando para trás...

E o que vejo a cada momento

É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem...

Sei ter o pasmo essencial

Que tem uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras...

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do Mundo...

 

Creio no Mundo como num malmequer,

Porque o vejo. Mas não penso nele

Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele

(Pensar é estar doente dos olhos)

Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

 

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...

Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,

Mas porque a amo, e amo-a por isso,

Porque quem ama nunca sabe o que ama

Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

 

 

Amar é a eterna inocência,

E a única inocência é não pensar...

 

b. “IX”

 

Sou um guardador de rebanhos.

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

Penso com os olhos e com os ouvidos

E com as mãos e os pés

E com o nariz e a boca.

 

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la

E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

 

Por isso quando num dia de calor

Me sinto triste de gozá-lo tanto,

E me deito ao comprido na erva,

E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,

Sei a verdade e sou feliz.

 

c. “XI”

 

Aquela senhora tem um piano

Que é agradável mas não é o correr dos rios

Nem o murmúrio que as árvores fazem...

 

Para que é preciso ter um piano?

O melhor é ter ouvidos

E amar a Natureza.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2. Ricardo Reis

 

  1. Poeta voltado para a Antigüidade clássica
  2. Pagão culto, pois admite a presença da arte e da cultura, ao contrário de seu mestre Alberto Caeiro
  3. Suas influências clássicas vão da forma poética que prefere, a ode, até as filosofias que aparecem nelas, como o estoicismo (filosofia que advoga a aceitação do destino que nos cabe, por ser ele sábio e justo), o epicurismo (fuga aos prazeres fortes, arrebatadores, em busca de prazeres moderados, racionalistas, controlados)
  4. Suas odes são marcadas por uma atmosfera de suave melancolia e desencanto
  5. Seu projeto pessoal é alcançar um estado de calma; seu método para isso é baseado na contemplação da natureza e no desapego de tudo, de qualquer ação no mundo, julgada sempre inútil
  6. Desenvolve o tema do “carpe diem” (viver o presente), herança do poeta clássico latino Horácio[1]
  7. Linguagem clássica, apuro formal, musicalidade, ausência de rimas

 

Odes de Ricardo Reis

 

a.

 


 

Mestre, são plácidas

Todas as horas

Que nós perdemos,

Se no perdê-las,

Qual numa jarra,

Nós pomos flores.

 

Não há tristezas

Nem alegrias

Na nossa vida.

Assim saibamos,

Sábios incautos,

Não a viver,

Carpe diem é uma frase em latim de um poema de Horácio, e é popularmente traduzida para colha o dia ou aproveite o momento. É também utilizado como uma expressão para solicitar que se evite gastar o tempo com coisas inúteis ou como uma justificativa para o prazer imediato, sem medo do futuro.

 

 

Origem

Esta expressão pode ser encontrada em Odes (I, 11.8) do poeta romano Horácio (65 - 8 AC), onde se lê:

 

Latim Português
Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi, quem tibi
finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios
temptaris numeros. ut melius, quidquid erit, pati.
seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam,
quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare
Tyrrhenum: sapias, vina liques et spatio brevi
spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida
aetas: carpe diem quam minimum credula postero.
Tu não indagues (é ímpio saber) qual o fim que a mim e a ti os deuses
tenham dado, Leuconoé, nem recorras aos números babilônicos. Tão
melhor é suportar o que será! Quer Júpiter te haja concedido muitos
invernos, quer seja o último o que agora debilita o mar Tirreno nas
rochas contrapostas, que sejas sábia, coes os vinhos e, no espaço
breve, cortes a longa esperança. Enquanto estamos falando, terá
fugido o tempo invejoso; colhe o dia, quanto menos confia no de
amanhã.

(Trad: ACHCAR, Francisco. Lírica e lugar-comum: alguns temas de Horácio e sua presença em português. São Paulo: Edusp, 1994. p. 88)

Interpretação

 Literalmente, esta frase significa Colhe o dia presente e sê o menos confiante possível no futuro. Ela foi tirada de versos latinos do poeta Horácio, interessado no epicurismo e no estoicismo (nas suas Odes, I, 11, 8 “A Leuconoe”). Ela resume o poema que a precede e no qual Horácio busca persuadir Leuconoe a aproveitar o momento presente e dele retirar todas as suas alegrias, sem se inquietar nem com o dia nem com a hora de sua morte.

Tornado célebre junto ao grande público desde a antiguidade, o excerto Carpe diem é objeto de uma má interpretação: “Aproveita o dia presente” (quando as duas palavras significam “colhe o dia”), é compreendido como uma incitação ao mais forte hedonismo, talvez o mais cego, ele perde toda relação com o texto original que, ao contrário, incita a bem saborear o presente (sem porém recusar toda e qualquer disciplina de vida), na ideia de que o futuro é incerto e que tudo é destinado a desaparecer.

Trata-se, portanto, de um hedonismo de ascese, uma busca de prazer ordenado, racional, que deve evitar todo desprazer e toda supremacia do prazer. É um hedonismo a minima : é um epicurismo (Horácio fazia parte dos epicuristas da era romana).

No cinemaNo filme

 "A Sociedade dos Poetas Mortos", O personagem de Robin Williams, Professor Keating, utiliza-a assim:

"Mas se você escutar bem de perto, você pode ouvi-los sussurrar o seu legado. Vá em frente, abaixe-se. Escute, está ouvindo? - Carpe - ouve? - Carpe, carpe diem, colham o dia garotos, tornem extraordinárias as suas vidas."

Nesta cena do filme o Prof. Keating está em frente a uma galeria de fotos de ex-alunos que formaram na tradicional escola Welton, ele pede para que os alunos se aproximem da galeria para ouvirem o espirito de seus predecessores a dizer: "carpe diem".

Também no filme "Poseidon", o personagem de Richard Dreyfuss, O arquiteto Richard Nelson, utiliza a palavra pedindo para que seus colegas sentados em uma mesa aproveitem o momento e esqueçam seus problemas.

Na música

 A banda Metallica, no seu lançamento de 1997, "Reload", apresentou uma música "Carpe Diem Baby", que encoraja o ouvinte a "espremer e chupar o dia" (come squeeze and suck the day / Come Carpe Diem Baby).

  • A banda Dream Theater, em seu EP A Change of Seasons, presta uma homenagem à filosofia do Carpe Diem com sua música-título do disco, de 23:06 minutos, incluindo na letra trechos de falas do filme Sociedade dos Poetas Mortos.
  • A banda japonesa Yellow Generation possui um CD chamado Carpe Diem. No começo do refrão, a frase usada é To the Virgins, to Make Much of Time 命短し恋せよ乙女 (To the Virgins, to Make much of time, Inochi mijikashi, koiseyo otome) (Para as virgens, para aproveitarem o tempo, a vida é curta, portanto, se apaixonem, garotas)
  • A banda japonesa Aqua Timez possui um CD chamado Carpe Diem.
  • A banda inglesa Mott the Hoople tem um album chamado Carpe Diem.
  • A banda francesa de rock progressivo Carpe Diem
  • A banda brasileira Catedral possui uma música com o título Carpe Diem.
  • As bandas brasileiras Cueio Limão e a Fresno também possuem uma música intitulada Carpe Diem
O Commons possui uma categoria contendo imagens e outros ficheiros sobre Carpe diem
  • O músico português Rodrigo Leão compôs uma melodia de nome Carpe Diem.
  • A cantora latina Belinda lançou seu novo álbum também com o nome Carpe Diem, além da palavra estar presente na letra de "Dopamina".
  • A banda americana August Burns Red possui uma música com o título de Carpe Diem.
  • A banda americana Green Day possui uma música chamada Carpe Diem.
  • O álbum de 2000 da banda Pretty Maids tem o título e uma música com o nome Carpe Diem.
  • O grupo português Mind da Gap tem uma música intitulada de Carpe Diem, integrada no álbum A Essência, lançado em 2010.
  • O Cantor Norte - Americano Chris Brown Está em Uma Turnê Mundial Intitulada Carpe Diem.
  • O grupo de Hip-Hop, Social Club, possui uma música chamada Carpe Diem.

 

 

 



[1] “Carpe diem”a

 

(Ode X do Livro de Odes I do poeta latino clássico Quinto Horácio Flaco; tradução do escritor português contemporâneo David Mourão-Ferreira)

 

Não procures, Leuconoe,b — ímpio será sabê-lo —
que fim a nós os dois os deuses destinaram;
não consultes sequer os números babilônicos :
Melhor é aceitar! E venha o que vier!
Quer Júpiter te dê ainda muitos invernos,
quer seja o derradeiro este que ora desfaz

 

nos rochedos hostis ondas do mar Tirreno,
vive com sensatez destilando o teu vinho
e, como a vida é breve, encurta a longa esp'rança.
De inveja o tempo voa enquanto nós falamos:
trata, pois, de colher o dia, o dia de hoje,
que nunca o de amanhã merece confiança.

 

a Originalmente, a expressão significa “chore o dia” (porque ele passa e não volta); posteriormente, passou a ser entendida como “colha o dia”, “aproveite o dia”, “aproveite o momento”.

b Leuconoe é o nome da ninfa a quem o poeta se dirige.

 

 

 

Mas decorrê-la,

Tranqüilos, plácidos,

Tendo as crianças

Por nossas mestras,

E os olhos cheios

De Natureza...

 

À beira-rio,

À beira-estrada,

Conforme calha,

Sempre no mesmo

Leve descanso

De estar vivendo.

 

O tempo passa,

Não nos diz nada.

Envelhecemos,

Saibamos, quase

Maliciosos,

Sentir-nos ir.

 

Não vale a pena

Fazer um gesto

Não se resiste

Ao deus atroz

Que os próprios filhos

Devora sempre.

 

Colhamos flores.

Molhemos leves

As nossas mãos

Nos rios calmos,

Para aprendermos

Calma também.

 

Girassóis sempre

Fitando o sol,

Da vida iremos

Tranqüilos, tendo

Nem o remorso

De ter vivido.


 

 

 

b.

 

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.

Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos

Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.

            (Enlacemos as mãos.)

 

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida

Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,

Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,

            Mais longe que os deuses.

 

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.

Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.

Mais vale saber passar silenciosamente

            E sem desassossegos grandes.

 

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,

Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,

Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,

            E sempre iria ter ao mar.

 

Amemo-nos tranqüilamente, pensando que podíamos,

Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,

Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro

            Ouvindo correr o rio e vendo-o.

 

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as

No colo, e que o seu perfume suavize o momento -

Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,

            Pagão inocentes da decadência.

 

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois

Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,

Porque nunca enlaçamos as mãos nem nos beijamos

            Nem fomos mais do que crianças.

 

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,

Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.

Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,

            Pagã triste e com flores no regaço.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  1. Álvaro de Campos

 

  1. Poeta da vida moderna das cidades
  2. Começa decadentista, cultuando o escapismo das viagens, do Oriente e das drogas (o ópio)
  3. Passa para uma fase futurista, cantando a modernidade das máquinas, das inovações tecnológicas, mas termina se desencantando com tudo
  4. Um marco em sua trajetória pessoal e poética é a leitura da obra de Alberto Caeiro, de quem procura aprender e praticar o sensacionismo, mas fracassa, por não conseguir viver de maneira objetiva, realista, direta, sem desejos.
  5. Irritadiço, agressivo, insatisfeito, pessimista, niilista (aquele que descrê de tudo), irreverente, irônico
  6. A infância se torna seu refúgio, por ser a única época de sua vida marcada pela felicidade
  7. O poeta é o retrato acabado do homem moderno, cheio de ânsias, ilusões, planos — mas vazio de realizações profundas e permanentes
  8. Liberdade formal por apego aos interesses do Modernismo pela experimentação

 

Poemas de Álvaro de Campos

 

a. ANIVERSÁRIO

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui --- ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça,
com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado---,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

15-10-1929


b. TABACARIA

 

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

II – O 2º MODERNISMO

 

A GERAÇÃO DA PRESENÇA (1927-1940)

 

1. JOSÉ RÉGIO (1901-1969)

 

José Régio, pseudônimo de José Maria dos Reis Pereira (1901-1969) nasceu em Vila do Conde, licenciando-se em Letras na Universidade de Coimbra. Foi professor do ensino secundário em Portalegre, aliando o trabalho pedagógico à criação literária. Em Coimbra, foi um dos fundadores da revista Presença, com Adolfo Casais Monteiro, João Gaspar Simões, entre outros. é um dos mais importantes poetas do chamado Segundo Modernismo português. as suas obras subdividem-se em quatro categorias:

 

1. Poesia: Poemas de Deus e do Diabo (1925), Biografia (1929), As Encruzilhadas de Deus (1935-1936), Fado (1941), Mas Deus é Grande (1945), A Chaga do Lado (1954), Filho do Homem (1961), Cântico Suspenso (1968), Música Ligeira (1970), Colheita da Tarde (1971).

 

2. Ficção: Jogo da Cabra-Cega (1934), Davam Grandes Passeios aos Domingos (1941), O Príncipe com Orelhas de Burro (1942), A Velha Casa (1945-1966), Histórias de Mulheres (1946), Há Mais Mundos (1962).

 

3. Ensaio: Críticas e Criticados (1936), António Botto e o Amor (1938), Em Torno da Expressão Artística (1940), As Correntes e as Individualidades na Moderna Poesia Portuguesa (1952), Ensaios de Interpretação Crítica (1964), Três Ensaios sobre Arte (1967), Páginas de Doutrina e Crítica da Presença (1977).

 

4. Teatro: Jacob e o Anjo 1940), Benilde ou a Virgem-Mãe (1947), El-Rei Sebastião (1949), A Salvação do Mundo (1954), Três Peças em Um Acto (1957).

 

A. “Cântico Negro” (de Poemas de Deus e do Diabo)

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.


Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

 

Principais características:

 

  1. mescla de liberdade métrica com utilização de rimas
  2. tom grandiloqüente
  3. defesa do individualismo; recusa do pensamento e da atuação coletivos
  4. defesa da diferença, representada pela loucura
  5. tema básico: os conflitos internos do Homem

 

2. MIGUEL TORGA (1907-1995)

 

Miguel Torga, pseudônimo de Adolfo Correia da Rocha, nasceu em 1907 em S. Martinho de Anta, concelho de Sabrosa, Trás-os-Montes, e faleceu em 17 de Janeiro de 1995 em Coimbra. Emigrou para o Brasil ainda jovem e, quando regressou em 1925, matriculou-se na Universidade de Coimbra onde se formou em Medicina. Esteve de início literariamente próximo do grupo da Presença, sediado em Coimbra. Por volta de 1930, estava já afastado do grupo, fundando a revista Sinal. Funda pouco depois a revista Manifesto. Começou a ser conhecido como poeta, tendo mais tarde ganho notoriedade com os seus contos ruralistas e os seus dezasseis volumes de Diário, estes publicados entre 1941-1995. Várias vezes nomeado para o Prêmio Nobel da Literatura, tornou-se um dos mais conhecidos autores portugueses do século XX.

 

Obras:

POESIA: Ansiedade (1928), Rampa (1930), Tributo (1931), Abismo (1932), O outro Livro de Job (1936), Lamentações (1943), Libertação (1944), Odes (1946), Nihil Sibi (1948), Cântico do Homem (1950), Alguns Poemas Ibéricos (1952), Penas do Purgatório (1954), Orfeu Rebelde (1958), Câmara Ardente (1962), Poemas Ibéricos (1965).

FICÇÃO: Pão Ázimo (1931), A Terceira Voz (1934), A Criação do Mundo (5 volumes, 1937-1938-1939- 1974-1980), Bichos (contos, 1940), Contos da Montanha (1941), Rua (1942), O Senhor Ventura (1943), Novos Contos da Montanha (1944), Vindima (romance, 1945), Pedras Lavradas (contos, 1951).

LITERATURA AUTOBIOGRÁFICA: Diário (16 volumes, 1941-1995), Portugal (1950).

 

 

1. “Livro de Horas”

(De O Outro Livro de Job, de 1936)

 

Aqui, diante de mim,
eu, pecador, me confesso
de ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
que vão ao leme da nau
nesta deriva em que vou.

 

Me confesso
possesso
de virtudes teologais,
que são três,

 

e dos pecados mortais,
que são sete,
quando a terra não repete
que são mais.

 

Me confesso
o dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas,
e o das ternuras lúcidas e mansas.
 

E de ser de qualquer modo
andanças
do mesmo todo.

 

Me confesso de ser charco
e luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
que atira setas acima
e abaixo da minha altura.

 

Me confesso de ser tudo
que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

 

Me confesso de ser Homem.
De ser o anjo caído
do tal céu que Deus governa;
De ser o monstro saído
do buraco mais fundo da caverna.

 

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
para dizer que sou eu
aqui, diante de mim!

 

Principais características:

  1. mescla de liberdade métrica com utilização de rimas
  2. consciência do Homem como ser decaído
  3. presença do dualismo
  4. subjetivismo
  5. tematização de um dilema existencial, não político

 

 

2. “Orfeu Rebelde”

(De Orfeu Rebelde, de 1958)

 

Orfeu rebelde, canto como sou:
Canto como um possesso
Que na casca do tempo, a canivete,
Gravasse a fúria de cada momento;
Canto, a ver se o meu canto compromete
A eternidade no meu sofrimento.

 

Outros, felizes, sejam rouxinóis...
Eu ergo a voz assim, num desafio:
Que o céu e a terra, pedras conjugadas
Do moinho cruel que me tritura,
Saibam que há gritos como há nortadas,
Violências famintas de ternura.

 

Bicho instintivo que adivinha a morte
No corpo dum poeta que a recusa,
Canto como quem usa
Os versos em legítima defesa.
Canto, sem perguntar à Musa
Se o canto é de terror ou de beleza.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

III – O NEOREALISMO (1940- )

 

  1. ALVES REDOL (1911-1969)

 

António Alves Redol nasceu em Vila Franca de Xira no dia 29 de Dezembro de 1911 e faleceu em Lisboa no dia 29 de Novembro de 1969. Era filho de um comerciante modesto. Trabalhou como operário em Angola durante alguns anos. Quando regressou a Portugal em 1936, juntou-se ao movimento que se opunha ao Estado Novo, tornando-se militante do Partido Comunista. Dedica-se à ficção tornando-se um dos principais romancistas de tendência neo-realista.

Das suas obras destacam-se os seguintes romances: Gaibéus (1939), Marés (1941); Avieiros (1942); Fanga (1943); Porto Manso (1946); Ciclo Port-Wine: Horizonte Cerrado (1949), Os Homens e as Sombras (1951), Vindima de Sangue (1953); Olhos de Água (1954); A Barca dos Sete Lemes (1958); Uma Fenda na Muralha (1959), O Cavalo Espantado (1960); Barranco de Cegos (1962); Histórias Afluentes (1963); O Muro Branco (1966). Postumamente, saiu o volume de teatro Os Reinegros (1974).

 

 

  1. TRECHO DE GAIBÉUS, DE 1940

 

Pareciam cercados no trabalho pelo braseiro de um fogo que alastrasse na Lezíria Grande. Como se da Ponta de Erva ao Vau a leiva se consumisse nas labaredas de um incêndio que irrompesse ao mesmo tempo por toda a parte.
O ar escaldava; lambia-lhes de febre os rostos corridos pelo suor e vincados por esgares que o esforço da ceifa provocava. O Sol desaparecera há muito, envolvido pela massa cinzenta das nuvens cerradas. Os ceifeiros não o sentiam penetrar-lhes a carne abalada pela fadiga. Lento, mas persistente, parecia ter-se dissolvido no ar que respiravam, pastoso e espesso. Trabalhavam à porta de uma fornalha que lhes alimentava os pulmões com metal em fusão.
Quase exaustos, os peitos arfavam num ritmo de máquinas velhas saturadas de movimento.
A ceifa, porém, não parava, e ainda bem - a ceifa levava o seu tempo marcado. Se chovesse, o patrão apanharia um boléu de aleijar, diziam os rabezanos na sua linguagem taurina. Eles próprios não a desejavam; se as foices não cortassem arroz, as jornas acabariam também. E se ao sábado o apontador não enchesse a folha, as fateiras não trariam pão e conduto da vila.
Então os dias tornar-se-iam ainda mais penosos e o degredo por terras estranhas mais insuportável.
Vencidos pelo torpor os braços não param. Lançam as foices no eito, juntando os pés de arroz na mão esquerda, e o hábito arrasta-os em gestos quase automáticos, mais um passo e outro, a caminho da maracha que fecha o extremo de cada canteiro. Caminham sempre no mesmo balouçar de ombros; as pegadas do seu esforço ficam marcadas na resteva lodosa.
Talvez muitos deles pensem que o arroz deitado nas gavelas repousa primeiro do que os seus corpos. Se pudessem deter-se também, por instantes, e descansarem depois a cabeça nos montes de espigas que deixam atrás de si, a ceifa poderia animar.
Mas o bafo que vem da seara queima mais em cada minuto e as cabeças dos alugados pesam já tanto como o cabo das foices nos braços esgotados. Estão atulhados de amarelo, de pensamentos e de grãos de fogo que a canícula doente lhes insuflou no sangue.
Ninguém entoa cantigas para animar, embora os capatazes tenham incitado as raparigas cantaroleiras para o fazer. Nos ranchos não há agora quem saiba cantar.
Como podem as cachopas entrar em cantos ao desafio, se os peitos parecem fendidos pela fadiga e o ar que respiram se tornou lava do vulcão da planície?!
--Auga!... Auga!... - Gritam os rapazes aguadeiros.
Os seus brados parecem vogar sobre o rancho e não se dissolvem. Ficam a boiar na massa espessa da lava de fogo e angústia que cobre as searas. As palavras não naufragam.
Os seus brados parecem vogar sobre o rancho e não se dissolvem. Ficam a boiar na massa espessa da lava de fogo e angústia que cobre as searas. As palavras não naufragam.
Talvez por isso também as raparigas não cantem. Agora só saberiam canções tristes que lhes recordassem a sua condição de alugadas.

 

Principais caraterísticas:

 

  1. temática social
  2. análise crítica da realidade social
  3. intenção polêmica
  4. denúncia dos problemas sociais e econômicos
  5. mescla de aspectos narrativos com jornalísticos
  6. linguagem rica em imagens

 

  1. CARLOS DE OLIVEIRA (1921-1981)

 

Carlos de Oliveira (1921-1981) nasceu em Belém do Pará, Brasil, e faleceu em Lisboa. Licenciou-se na Universidade de Coimbra em Ciências Histórico-Filosóficas. A sua obra poética e ficcional centra-se na vida campestre. Obras poéticas: Turismo (1942), Mãe Pobre (1945), Descida aos Infernos (1949), Terra de harmonia (1950), Cantata (1960), Sobre o Lado Esquerdo (1968), Micropaisagem (1969), Entre Duas Memórias (1971), Trabalho Poético (2 vols., 1977-1978), Pastoral (1977). Obras de ficção: Casa na Duna (1943), Alcateia (1944), Pequenos Burgueses (1948), Uma Abelha na Chuva (1953), Finisterra (1978). Crônicas: O Aprendiz de Feiticeiro (1971

 

 

  1. TRECHO DE Uma abelha na chuva (1953)

 

Fechou a janela e ia tentar a travessia da sala até ao meiple[1] de couro, largo e repousante, que ficava do outro lado, debaixo do elmo dos Pessoas, quando a viu no limiar da porta.

A luz da vela deixava o aposento meio escuro, mas acendia o fulgor puído dos velhos reposteiros, uma centelha fosca e trêmula no verniz do piano. A noite de outono entrara à larga pelas vidraças abertas. Apesar disso, sentiu na meia confusão em que estava quanto era acolhedor o seu escritório, móveis pesados, veludos, o tapete espesso, os quadros, as paredes forradas de colchas. O pior foi dar de caras com ela. Teve outro arrepio e continuou a bater os dentes. Pareceu-lhe que nunca a mulher o fitara com tamanha frieza, pareceu-lhe até que não era ela quem se aproximava deslizando suavemente pelo tapete. Alta, quase aérea. Levou a mão à cabeça dorida e fechou os olhos: talvez que a morte a tenha já colhido, a morte é a fraqueza de tudo, do orgulho, da vaidade, quem ali vem mal tocando no chão como um fantasma talvez não seja mais que a alma dela, condenada. De pálpebras fechadas, entreviu de novo o fogo do serão, o perpétuo terror. E nisto, ouviu-a gritar:

  • Bêbedo!

Não quis abrir os olhos. Com certeza as chamas envolviam-na já e ela gritava, a insultá-lo, mas eu amo-a apesar de tudo, amo-a tanto que não posso vê-la no inferno, sufocada, perdida. Foi com espanto que ouviu outra vez o insulto, num tom frio, quase ciciado:

— Bêbedo.

Ocorreu-lhe então esta idéia, que o gelou de pavor: quem sabe se ela não é a própria morte a insinuar-me dia a dia a miséria de viver, uma missão de Deus junto de mim para que eu entenda que tudo é passageiro e inútil e de livre vontade renuncie a tudo. Lembra-te que és pó. Bem se cansara o padre Abel nos sermões a despenhar-lhe sobre a alma o aviso mortal. Nunca entendera verdadeiramente. Mas Deus tinha tomado providências. A morte entrara disfarçada na sua própria casa. Sentiu que ia chorar por fim e então abriu os olhos. A figura álgida, terrível, fitava-o agora do meio do escritório.

Viu-o cambalear. Reparou-lhe nas lágrimas, na camisa babada, nas mãos trêmulas à procura de apoio. Adiantou-se mais um passo. Ele estendeu os braços, aflito, e segurando uma cadeira interpô-la entre os dois. Lutava com a morte. Arranjou forças para se esgueirar por trás da secretária, disposto a vencer a distância do escritório, mas tropeçou no piano, foi de encontro à parede, os pés enrodilharam-se na franja do tapete e caiu:

  • Ainda não, ainda é cedo.

Procurou ajudá-lo. Ele esperneou algum tempo, mas cedeu por fim deixando-se arrastar para o meiple; ficou meio deitado à espera do golpe misericordioso: minha Nossa Senhora do Montouro, perdão pelo milho roubado, entrego-me nas tuas mãos. Sentiu uma picada fria pelas narinas dentro, depois outra, ainda outra. De cada vez, afastava a cabeça num movimento brusco, é a morte, é o fim, e no entanto uma clareza gradual começava a contornar-lhe as idéias emaranhadas, a separá-las uma a uma, a deixar-lhas mais nítidas. Percebeu que a insistência das estranhas guinadas não era de todo alheia ao equilíbrio que os seus pensamentos recuperavam lentamente. Piscou os olhos, o escritório pareceu-lhe mais nítido que há pouco. E de súbito um véu rasgou-se dentro dele. Não, não era ainda a morte; era apenas um frasco de amoníaco encostado ao nariz. Emergia da bebedeira pela mão da mulher, com o amor próprio em frangalhos, mais humilhado do que nunca: lá continua ela, de pedra e cal no seu orgulho; com a idéia da declaração na Comarca quebrei o nariz a julgar que me benzia. Juro também que foi a instigações de D. Maria dos Prazeres Pessoa de Alva Sancho Silvestre, minha mulher, que andei de roubo em roubo, ao balcão, nas feiras, na soldada dos trabalhadores, na legítima de meu irmão Leopoldino. Pois sim, mas o golpe falhara, a machadada pública naquela pesporrância fidalga não passara da casca. Ali estava, nas ruas da amargura, reduzido à ignomínia do amoníaco que ela o obrigava a cheirar. Sem saber bem o que fazia, empurrou-lhe o braço, o frasco, e revoltou-se:

  • Larga-me!
  • Quando estiveres menos bêbedo.
  • Bêbedo? Quem é que está bêbedo, sua fidalga de trampa?

Talvez as palavras se fizessem ouvir mais tempo do que o necessário. Tanto pior. Abrira-se nele um cachoar de coisas recalcadas e entregou-se à força da corrente:

  • Para saberes que me fartei de nobrezas, de brasões, de parvoíces .

Vendo-se espapaçado no meiple, endireitou o corpo, procurou uma posição mais digna:

  • Muito conde, muita léria, mas há vinte anos que me comes as sopas. Quando houve fome lá pelos palácios, foi aqui que a vieste matar, com a família atrás. E vinham todos mais humildes, vinham quase de rastos. Nesse tempo o que a prosápia queria era broa.

Tornou a passar-lhe o amoníaco pelo nariz e declarou na sua voz um pouco velada:

  • Havia em Alva um cocheiro que falava mais ou menos assim e certo dia meu pai não teve outro remédio senão chicoteá-lo.

O rosto dela, espantosamente pálido, abria um fulgor ácido na penumbra da sala:

  • Mas não tenhas medo, Silvestre, podes insultar-me à vontade. Os mortos não empunham chicotes.

Não? Os retratos dos nobres Pessoas pendem solenes das paredes do escritório. Olhe para eles, D. Maria dos Prazeres. Os mortos estão dentro desta sala, com um chicote implacável. O orgulho de velhos senhores, as carrancas severas, o pó das calendas, as tretas do costume. O seu marido tem de destruir os mortos. De tentar, pelo menos. Que outra coisa pode ele fazer? deixe-o experimentar. Ou eu me engano muito ou vai sair-se mal. Ora repare.

Ergueu-se com dificuldade e apanhando pela sala tudo o que lhe veio à mão decidiu espatifar os retratos. Uma fúria trêmula de bêbedo. Ali tinham os Alvas, os Pessoas, os Sanchos, livros e garrafas nas trombas, copos e tinteiros nas fuças, jarras, cinzeiros, lixaria nas ventas. Vidros estilhaçados acordavam um som agudo pela sombra, coisas pesadas tombavam surdamente no tapete.

  • Os cocheiros estão fartos, caramba.

Um arremesso mais violento fê-lo perder o equilíbrio. Rodou sobre si mesmo, deu alguns passos desastrados e afundou-se de cabeça no meiple.

De cabeça, D. Maria dos Prazeres. Que lhe dizia eu?

  • Não era preciso tanto caco. Os cocheiros conhecem-se bem pelas palavras.

Bravo. Essa deu cabo dele.

Muito a custo conseguiu levantar-se. Um último vômito levou-lhe ao corpo todo a maré sarrosa do brandy e babou-se outra vez:

  • Um pouco de piedade, Maria.

Ela tornou à sala de jantar, onde a lareira morria num montão de cinza. Ao entrar no escritório, não queria provocar a altercação que acabava de dar-se, nem vê-lo cair no desespero habitual: queria apenas saber o que o levou a Corgos, a conversa com o jornalista, que papel foi aquele escondido tão à pressa no bolso da samarra, porque talvez seja preciso mandar alguém ao homem da Comarca (o padre Abel, está claro) para remediar os dislates deste louco. No entanto, ao dar com ele imundo, sujo dos próprios vômitos, que remédio se não perder a paciência, e depois serenar, assistir ao entremez do medo. Lá vai ele do medo à grosseria, da grosseria ao desalento: um pouco de piedade; ora essa, Silvestre, para amigos mãos rotas; e pegando no candeeiro de petróleo dirigiu-se ao quarto, fechou a porta à chave.

 

Principais características:

 

  1. linguagem simples, direta, sem artifícios ou adornos
  2. análise crítica da realidade social, com ênfase na luta de classes
  3. denúncia da situação das populações rurais
  4. investigação das motivações psicológicas das personagens

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

IV – A POESIA DEPOIS DA PRESENÇA

 

  1. JORGE DE SENA (1919-1978)

 

Jorge de Sena (1919-1978) nasceu em Lisboa e faleceu em Santa Barbara, Califórnia. Freqüentou o curso de Engenharia Civil na Faculdade de Engenharia do Porto, tendo trabalhado entre 1948 e 1959 como engenheiro na Junta Autónoma das Estradas. Partiu em 1959 para o Brasil, fazendo o doutoramento em 1964 na área de literatura portuguesa. No ano seguinte parte para os Estados Unidos, lecionando primeiro em Wisconsin e, a partir de 1970, na Universidade da Califórnia em Santa Barbara. Em 1977 recebeu o Prêmio Internacional de Poesia Etna-Taormina.  Em termos literários, Jorge de Sena, esteve ligado aos Cadernos de Poesia com José Blanc de Portugal, Rui Cinatti, entre outros. A par da sua escrita poética e ficcional, há a salientar os estudos teóricos sobre literatura portuguesa e inglesa, em especial aqueles que se referem a Camões e a Fernando Pessoa. Obras poéticas: Poesia – I (1977), Poesia – II (1978), Poesia – III (1978). Ficção: O Físico Prodigioso (novela, 1977), Andanças do Demónio (contos, 1960), Novas Andanças do Demónio (1966), Antigas e Novas Andanças do Demónio (contos, 1978), Os Grão-Capitães (contos, 1976), Génesis (contos, 1983), Sinais de Fogo (romance, 1979). Teatro: O Indesejado (António Rei) (1951), Amparo de Mãe e mais cinco peças em um acto (1974). Ensaio: Da Poesia Portuguesa (1959), História da Literatura Inglesa (1959-1960), A Estrutura de Os «Lusíadas» e Outros Estudos Camoneanos e de Poesia Peninsular do Século XVI (1970), Os Sonetos de Camões e o Soneto Quinhentista Peninsular (1969), Fernando Pessoa & Cª Heteronímica (1982), etc.

 

 

  1. “Passeio”

 

Que tarde e gente as ruas do jardim,

Por grupos de abandono e solidão;

Foi mar tranqüilo que passou por mim

... E quem foi mar tranqüilo ou sim ou não?

 

A porta aberta a gelo quando vim

Para junto de vós? A minha mão

Estendida com a música, e, enfim,

Tardia, ausente, livre de perdão?

 

Desarticulo a mágoa à dor mais vasta,

E juro-me que a névoa não se gasta

Ao dar-se, de anjo em anjo, sobre o mal...,

 

Nem Deus! — de incúria tanta nos meus braços,

Como se a curva lenta dos espaços

Não fosse a agilidade temporal.

 

 

  1. “Soneto a muitas vozes!”

 

Por quantos campos tenho na tristeza

Que mansas vêm as águas devagar...

Tão rasteiras... e já da cor do mar!

Rasteiras sobre a erva antiga e presa

 

Que, para um lado só, fazem curvar...

E doem mais as fibras da incerteza,

Enquanto cresce a tentação da reza

E diminui o falso verde-mar.

 

Águas do largo ao Sol das velas altas!

... E tu?... Também me lembro e também faltas!...

Adeuses pelo cais... tudo se cala...

 

A Terra teima ainda nos escolhos.

E se ela é de eu erguer de mais os olhos?

Se o céu, depois, resulta de lembrá-la?

 

  1. “Humanidade”

 

Na tarde calma e fria que circula

Por entre os eucaliptos e a distância,

Olhando as nuvens quase nada rubras

E a névoa consentida pelos montes,

Névoa não subindo por não ser

Fumo da vida que trabalha e teima,

E olhando uma verdura fugitiva

Que a noite no céu queima tão depressa,

Esqueço-me que há gente em cada parte,

Gente que, de sempre, sofre e morre,

E agora morre mais ou sofre mais,

Esqueço-me que a esperança abandonada,

A não ser de ninguém, é sempre minha,

Esqueço-me que os homens a renovam,

Que o fumo de seus lares sobe nos ares...

Esqueço-me de ouvir cheirar a Terra,

Esqueço-me que vivo... E anoitece.

 

Principais características:

 

  1. retomada classicizante do soneto
  2. intelectualismo predominando sobre a emoção
  3. as imagens tendem a servir a um conceito
  4. anseio de encontrar a unidade na variedade

 

  1. SOPHIA DE MELO BREYNER ANDRESEN (1919)

 

Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no Porto em 6 de Novembro de 1919 e faleceu em Lisboa no dia 2 de Julho de 2004. Foi na cidade do Porto e na Praia da Granja que passou a sua infância e juventude. Freqüentou Filologia Clássica na Universidade de Lisboa, mas não chegou a terminar o curso. Foi casada com o jornalista Francisco Sousa Tavares e mãe de cinco filhos, que a motivaram a escrever contos infantis. Motivos concretos e símbolos excepcionais para cantar o amor e o trágico da vida foi-os buscar ao mar e aos pinhais que contemplou na Praia da Granja; com a sua formação helenística, encontrou evocações do passado para sugerir transformações do futuro; pela sua constante atenção aos problemas do homem e do mundo, criou uma literatura de empenhamento social e político, de compromisso com o seu tempo e de denúncia da injustiça e da opressão. Foi agraciada com o Prêmio Camões em 1999.

Obras poéticas: Poesia (1944), Dia do Mar (1947), Coral, (1950), No Tempo Dividido, (1954), Mar Novo (1958), Livro Sexto (1962) Geografia (1967), Dual (1972), Nome das Coisas (1977), Musa (1994), etc. Obras narrativas: O Cavaleiro da Dinamarca, Contos Exemplares, Histórias da Terra e do Mar, A Floresta, A Menina do Mar, O Rapaz de Bronze, A Fada Oriana, etc.

 

 

  1. “Noite”

 

Mais uma vez encontro a tua face,

Ó minha noite que eu julguei perdida.

 

Mistério das luzes e das sombras

Sobre os caminhos de areia,

 

Rios de palidez em que escorre

Sobre os campos a lua cheia,

 

Ansioso subir de cada voz,

Que na noite clara se desfaz e morre.

 

Secreto, extasiado murmurar

De mil gestos entre a folhagem,

 

Tristeza das cigarras a cantar.

 

Ó minha noite, em cada imagem

Reconheço e adora a tua face,

Tão exaltadamente desejada,

Tão exaltadamente encontrada,

Que a vida há-de passar, sem que ela passe,

Do fundo dos meus olhos onde está gravada.

 

  1. “Soneto à maneira de Camões”

 

Esperança e desespero de alimento

Me servem neste dia em que te espero

E já não sei se quero ou se não quero

Tão longe de razões é meu tormento.

 

Mas como usar amor de entendimento?

Daquilo que te peço desespero

Ainda que mo dês — pois o que eu quero

Ninguém o dá se não por um momento.

 

Mas como és belo, amor, de não durares,

De ser tão breve e fundo o teu engano,

E de eu te possuir sem tu te dares.

 

Amor perfeito dado a um ser humano:

Também morre o florir de mil pomares

E se quebram, as ondas no oceano.

 

  1. “Meditação do Duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal”

 

Nunca mais

A tua face será pura limpa e viva

Nem o teu andar como onda fugitiva

Se poderá nos passos do tempo tecer.

E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

 

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

A luz da tarde mostra-me os destroços

Do teu ser. Em breve a podridão

Beberá os teus olhos e os teus ossos

Tomando a tua mão na sua mão.

 

Nunca mais amarei quem não possa viver

Sempre,

Porque eu amei como se fossem eternos

A glória, a luz e o brilho do teu ser,

Amei-te em verdade e transparência

E nem sequer me resta a tua ausência,

És um rosto de nojo e negação

E eu fecho os olhos para não te ver.

 

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

 

Nunca mais te darei o tempo puro

Que em dias demorados eu teci

Pois o tempo já não regressa a ti

E assim eu não regresso e não procuro

O deus que sem esperança te pedi.

 

Principais características:

 

  1. predomínio da sensibilidade sobre o intelectualismo, mas sem derramamento emocional
  2. presença marcante da intuição, mais que do racionalismo
  3. linguagem intensamente metafórica
  4. presença constante de elementos da Natureza, como o mar, a lua, florestas etc.
  5. utilização de formas tradicionais, como o soneto e os versos metrificados e rimados

 

  1. MÁRIO CESARINY DE VASCONCELOS (1923)

 

Mário Cesariny de Vasconcelos nasceu no dia 9 de Agosto de 1923 em Lisboa. É um dos mais importantes poetas portugueses do surrealismo. Encontrou-se em 1947 com André Breton, aderindo ao movimento francês. No mesmo ano, liga-se ao Grupo Surrealista de Lisboa, de que se separou no ano seguinte, criando o Grupo Surrealista Dissidente. Além de poeta, romancista, ensaísta e dramaturgo, tem-se dedicado às artes plásticas, nomeadamente à pintura.

Obras: Corpo Visível (1950), Discurso sobre a Reabilitação do Real Quotidiano (1952), Louvor e Simplificação de Álvaro de Campo (1953), Manual de Prestidigitação (1956), Pena Capital (1957), Alguns Mitos Maiores e Alguns Mitos Menores Postos à Circulação pelo Autor (1958), Nobilíssima Visão (1959), Poesia (1944-1955) (s./d.), Planisfério e Outros Poemas (1961), Um Auto para Jerusalém (1964), Titânia e A Cidade Queimada (1965), 19 Projectos de Prémio Aldonso Ortigão Seguidos de Poemas de Londres (1971), As Mãos na Água e na Cabeça (1972), Burlescas, Teóricas e Sentimentais (1972), Primavera Autónoma das Estradas (1980), Vieira da Silva, Arpad Szenes ou O Castelo Surrealista (1984), O Virgem Negra (1989), Titânia (1994).

 

 

  1. “Parada”

 

Com um grande termômetro no chapéu

E um certo ar marcial de gênero eqüidistante

Todos saíram hoje das suas casas na duna

Para a rua a soprar o vento que vem de longe

A certeza que há de vir de longe

A formiga que vem de muito muito longe

Os prisioneiros polícias dos polícias prisioneiros

Nas montras dos passeios por baixo dos bancos

Passam os pontos escuros para o outro lado

Sem esquecer o espelho

Sem esquecer o aranhiço meticulosamente pequenino

para fazer a surpresa

Sem esquecer a borboleta tonta que sobe no horizonte

Da cor do sol

O pescoço da nossa felicidade

 

Principais características:

 

  1. predomínio da imaginação, marcando o Surrealismo
  2. estabelecimento de relações insólitas
  3. atmosfera onírica
  4. exploração do subconsciente
  5. sensação de caos na representação do mundo
  6. tensão entre o mundo real e o imaginário

 

  1. “You Are Welcome To Elsinore “

 

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam

e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

 

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós

e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

 

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor

 

E há palavras noturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos conosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o
amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita

 

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

Me confesso
o dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas,
e o das ternuras lúcidas e mansas.
 

E de ser de qualquer modo
andanças
do mesmo todo.

 

Me confesso de ser charco
e luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
que atira setas acima
e abaixo da minha altura.

 

Me confesso de ser tudo
que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

 

Me confesso de ser Homem.
De ser o anjo caído
do tal céu que Deus governa;
De ser o monstro saído
do buraco mais fundo da caverna.

 

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
para dizer que sou eu
aqui, diante de mim!

 

Principais características:

  1. mescla de liberdade métrica com utilização de rimas
  2. consciência do Homem como ser decaído
  3. presença do dualismo
  4. subjetivismo
  5. tematização de um dilema existencial, não político

 

 

2. “Orfeu Rebelde”

(De Orfeu Rebelde, de 1958)

 

Orfeu rebelde, canto como sou:
Canto como um possesso
Que na casca do tempo, a canivete,
Gravasse a fúria de cada momento;
Canto, a ver se o meu canto compromete
A eternidade no meu sofrimento.

 

Outros, felizes, sejam rouxinóis...
Eu ergo a voz assim, num desafio:
Que o céu e a terra, pedras conjugadas
Do moinho cruel que me tritura,
Saibam que há gritos como há nortadas,
Violências famintas de ternura.

 

Bicho instintivo que adivinha a morte
No corpo dum poeta que a recusa,
Canto como quem usa
Os versos em legítima defesa.
Canto, sem perguntar à Musa
Se o canto é de terror ou de beleza.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

III – O NEOREALISMO (1940- )

 

  1. ALVES REDOL (1911-1969)

 

António Alves Redol nasceu em Vila Franca de Xira no dia 29 de Dezembro de 1911 e faleceu em Lisboa no dia 29 de Novembro de 1969. Era filho de um comerciante modesto. Trabalhou como operário em Angola durante alguns anos. Quando regressou a Portugal em 1936, juntou-se ao movimento que se opunha ao Estado Novo, tornando-se militante do Partido Comunista. Dedica-se à ficção tornando-se um dos principais romancistas de tendência neo-realista.

Das suas obras destacam-se os seguintes romances: Gaibéus (1939), Marés (1941); Avieiros (1942); Fanga (1943); Porto Manso (1946); Ciclo Port-Wine: Horizonte Cerrado (1949), Os Homens e as Sombras (1951), Vindima de Sangue (1953); Olhos de Água (1954); A Barca dos Sete Lemes (1958); Uma Fenda na Muralha (1959), O Cavalo Espantado (1960); Barranco de Cegos (1962); Histórias Afluentes (1963); O Muro Branco (1966). Postumamente, saiu o volume de teatro Os Reinegros (1974).

 

 

  1. TRECHO DE GAIBÉUS, DE 1940

 

Pareciam cercados no trabalho pelo braseiro de um fogo que alastrasse na Lezíria Grande. Como se da Ponta de Erva ao Vau a leiva se consumisse nas labaredas de um incêndio que irrompesse ao mesmo tempo por toda a parte.
O ar escaldava; lambia-lhes de febre os rostos corridos pelo suor e vincados por esgares que o esforço da ceifa provocava. O Sol desaparecera há muito, envolvido pela massa cinzenta das nuvens cerradas. Os ceifeiros não o sentiam penetrar-lhes a carne abalada pela fadiga. Lento, mas persistente, parecia ter-se dissolvido no ar que respiravam, pastoso e espesso. Trabalhavam à porta de uma fornalha que lhes alimentava os pulmões com metal em fusão.
Quase exaustos, os peitos arfavam num ritmo de máquinas velhas saturadas de movimento.
A ceifa, porém, não parava, e ainda bem - a ceifa levava o seu tempo marcado. Se chovesse, o patrão apanharia um boléu de aleijar, diziam os rabezanos na sua linguagem taurina. Eles próprios não a desejavam; se as foices não cortassem arroz, as jornas acabariam também. E se ao sábado o apontador não enchesse a folha, as fateiras não trariam pão e conduto da vila.
Então os dias tornar-se-iam ainda mais penosos e o degredo por terras estranhas mais insuportável.
Vencidos pelo torpor os braços não param. Lançam as foices no eito, juntando os pés de arroz na mão esquerda, e o hábito arrasta-os em gestos quase automáticos, mais um passo e outro, a caminho da maracha que fecha o extremo de cada canteiro. Caminham sempre no mesmo balouçar de ombros; as pegadas do seu esforço ficam marcadas na resteva lodosa.
Talvez muitos deles pensem que o arroz deitado nas gavelas repousa primeiro do que os seus corpos. Se pudessem deter-se também, por instantes, e descansarem depois a cabeça nos montes de espigas que deixam atrás de si, a ceifa poderia animar.
Mas o bafo que vem da seara queima mais em cada minuto e as cabeças dos alugados pesam já tanto como o cabo das foices nos braços esgotados. Estão atulhados de amarelo, de pensamentos e de grãos de fogo que a canícula doente lhes insuflou no sangue.
Ninguém entoa cantigas para animar, embora os capatazes tenham incitado as raparigas cantaroleiras para o fazer. Nos ranchos não há agora quem saiba cantar.
Como podem as cachopas entrar em cantos ao desafio, se os peitos parecem fendidos pela fadiga e o ar que respiram se tornou lava do vulcão da planície?!
--Auga!... Auga!... - Gritam os rapazes aguadeiros.
Os seus brados parecem vogar sobre o rancho e não se dissolvem. Ficam a boiar na massa espessa da lava de fogo e angústia que cobre as searas. As palavras não naufragam.
Os seus brados parecem vogar sobre o rancho e não se dissolvem. Ficam a boiar na massa espessa da lava de fogo e angústia que cobre as searas. As palavras não naufragam.
Talvez por isso também as raparigas não cantem. Agora só saberiam canções tristes que lhes recordassem a sua condição de alugadas.

 

Principais caraterísticas:

 

  1. temática social
  2. análise crítica da realidade social
  3. intenção polêmica
  4. denúncia dos problemas sociais e econômicos
  5. mescla de aspectos narrativos com jornalísticos
  6. linguagem rica em imagens

 

  1. CARLOS DE OLIVEIRA (1921-1981)

 

Carlos de Oliveira (1921-1981) nasceu em Belém do Pará, Brasil, e faleceu em Lisboa. Licenciou-se na Universidade de Coimbra em Ciências Histórico-Filosóficas. A sua obra poética e ficcional centra-se na vida campestre. Obras poéticas: Turismo (1942), Mãe Pobre (1945), Descida aos Infernos (1949), Terra de harmonia (1950), Cantata (1960), Sobre o Lado Esquerdo (1968), Micropaisagem (1969), Entre Duas Memórias (1971), Trabalho Poético (2 vols., 1977-1978), Pastoral (1977). Obras de ficção: Casa na Duna (1943), Alcateia (1944), Pequenos Burgueses (1948), Uma Abelha na Chuva (1953), Finisterra (1978). Crônicas: O Aprendiz de Feiticeiro (1971

 

 

  1. TRECHO DE Uma abelha na chuva (1953)

 

Fechou a janela e ia tentar a travessia da sala até ao meiple[1] de couro, largo e repousante, que ficava do outro lado, debaixo do elmo dos Pessoas, quando a viu no limiar da porta.

A luz da vela deixava o aposento meio escuro, mas acendia o fulgor puído dos velhos reposteiros, uma centelha fosca e trêmula no verniz do piano. A noite de outono entrara à larga pelas vidraças abertas. Apesar disso, sentiu na meia confusão em que estava quanto era acolhedor o seu escritório, móveis pesados, veludos, o tapete espesso, os quadros, as paredes forradas de colchas. O pior foi dar de caras com ela. Teve outro arrepio e continuou a bater os dentes. Pareceu-lhe que nunca a mulher o fitara com tamanha frieza, pareceu-lhe até que não era ela quem se aproximava deslizando suavemente pelo tapete. Alta, quase aérea. Levou a mão à cabeça dorida e fechou os olhos: talvez que a morte a tenha já colhido, a morte é a fraqueza de tudo, do orgulho, da vaidade, quem ali vem mal tocando no chão como um fantasma talvez não seja mais que a alma dela, condenada. De pálpebras fechadas, entreviu de novo o fogo do serão, o perpétuo terror. E nisto, ouviu-a gritar:

  • Bêbedo!

Não quis abrir os olhos. Com certeza as chamas envolviam-na já e ela gritava, a insultá-lo, mas eu amo-a apesar de tudo, amo-a tanto que não posso vê-la no inferno, sufocada, perdida. Foi com espanto que ouviu outra vez o insulto, num tom frio, quase ciciado:

— Bêbedo.

Ocorreu-lhe então esta idéia, que o gelou de pavor: quem sabe se ela não é a própria morte a insinuar-me dia a dia a miséria de viver, uma missão de Deus junto de mim para que eu entenda que tudo é passageiro e inútil e de livre vontade renuncie a tudo. Lembra-te que és pó. Bem se cansara o padre Abel nos sermões a despenhar-lhe sobre a alma o aviso mortal. Nunca entendera verdadeiramente. Mas Deus tinha tomado providências. A morte entrara disfarçada na sua própria casa. Sentiu que ia chorar por fim e então abriu os olhos. A figura álgida, terrível, fitava-o agora do meio do escritório.

Viu-o cambalear. Reparou-lhe nas lágrimas, na camisa babada, nas mãos trêmulas à procura de apoio. Adiantou-se mais um passo. Ele estendeu os braços, aflito, e segurando uma cadeira interpô-la entre os dois. Lutava com a morte. Arranjou forças para se esgueirar por trás da secretária, disposto a vencer a distância do escritório, mas tropeçou no piano, foi de encontro à parede, os pés enrodilharam-se na franja do tapete e caiu:

  • Ainda não, ainda é cedo.

Procurou ajudá-lo. Ele esperneou algum tempo, mas cedeu por fim deixando-se arrastar para o meiple; ficou meio deitado à espera do golpe misericordioso: minha Nossa Senhora do Montouro, perdão pelo milho roubado, entrego-me nas tuas mãos. Sentiu uma picada fria pelas narinas dentro, depois outra, ainda outra. De cada vez, afastava a cabeça num movimento brusco, é a morte, é o fim, e no entanto uma clareza gradual começava a contornar-lhe as idéias emaranhadas, a separá-las uma a uma, a deixar-lhas mais nítidas. Percebeu que a insistência das estranhas guinadas não era de todo alheia ao equilíbrio que os seus pensamentos recuperavam lentamente. Piscou os olhos, o escritório pareceu-lhe mais nítido que há pouco. E de súbito um véu rasgou-se dentro dele. Não, não era ainda a morte; era apenas um frasco de amoníaco encostado ao nariz. Emergia da bebedeira pela mão da mulher, com o amor próprio em frangalhos, mais humilhado do que nunca: lá continua ela, de pedra e cal no seu orgulho; com a idéia da declaração na Comarca quebrei o nariz a julgar que me benzia. Juro também que foi a instigações de D. Maria dos Prazeres Pessoa de Alva Sancho Silvestre, minha mulher, que andei de roubo em roubo, ao balcão, nas feiras, na soldada dos trabalhadores, na legítima de meu irmão Leopoldino. Pois sim, mas o golpe falhara, a machadada pública naquela pesporrância fidalga não passara da casca. Ali estava, nas ruas da amargura, reduzido à ignomínia do amoníaco que ela o obrigava a cheirar. Sem saber bem o que fazia, empurrou-lhe o braço, o frasco, e revoltou-se:

  • Larga-me!
  • Quando estiveres menos bêbedo.
  • Bêbedo? Quem é que está bêbedo, sua fidalga de trampa?

Talvez as palavras se fizessem ouvir mais tempo do que o necessário. Tanto pior. Abrira-se nele um cachoar de coisas recalcadas e entregou-se à força da corrente:

  • Para saberes que me fartei de nobrezas, de brasões, de parvoíces .

Vendo-se espapaçado no meiple, endireitou o corpo, procurou uma posição mais digna:

  • Muito conde, muita léria, mas há vinte anos que me comes as sopas. Quando houve fome lá pelos palácios, foi aqui que a vieste matar, com a família atrás. E vinham todos mais humildes, vinham quase de rastos. Nesse tempo o que a prosápia queria era broa.

Tornou a passar-lhe o amoníaco pelo nariz e declarou na sua voz um pouco velada:

  • Havia em Alva um cocheiro que falava mais ou menos assim e certo dia meu pai não teve outro remédio senão chicoteá-lo.

O rosto dela, espantosamente pálido, abria um fulgor ácido na penumbra da sala:

  • Mas não tenhas medo, Silvestre, podes insultar-me à vontade. Os mortos não empunham chicotes.

Não? Os retratos dos nobres Pessoas pendem solenes das paredes do escritório. Olhe para eles, D. Maria dos Prazeres. Os mortos estão dentro desta sala, com um chicote implacável. O orgulho de velhos senhores, as carrancas severas, o pó das calendas, as tretas do costume. O seu marido tem de destruir os mortos. De tentar, pelo menos. Que outra coisa pode ele fazer? deixe-o experimentar. Ou eu me engano muito ou vai sair-se mal. Ora repare.

Ergueu-se com dificuldade e apanhando pela sala tudo o que lhe veio à mão decidiu espatifar os retratos. Uma fúria trêmula de bêbedo. Ali tinham os Alvas, os Pessoas, os Sanchos, livros e garrafas nas trombas, copos e tinteiros nas fuças, jarras, cinzeiros, lixaria nas ventas. Vidros estilhaçados acordavam um som agudo pela sombra, coisas pesadas tombavam surdamente no tapete.

  • Os cocheiros estão fartos, caramba.

Um arremesso mais violento fê-lo perder o equilíbrio. Rodou sobre si mesmo, deu alguns passos desastrados e afundou-se de cabeça no meiple.

De cabeça, D. Maria dos Prazeres. Que lhe dizia eu?

  • Não era preciso tanto caco. Os cocheiros conhecem-se bem pelas palavras.

Bravo. Essa deu cabo dele.

Muito a custo conseguiu levantar-se. Um último vômito levou-lhe ao corpo todo a maré sarrosa do brandy e babou-se outra vez:

  • Um pouco de piedade, Maria.

Ela tornou à sala de jantar, onde a lareira morria num montão de cinza. Ao entrar no escritório, não queria provocar a altercação que acabava de dar-se, nem vê-lo cair no desespero habitual: queria apenas saber o que o levou a Corgos, a conversa com o jornalista, que papel foi aquele escondido tão à pressa no bolso da samarra, porque talvez seja preciso mandar alguém ao homem da Comarca (o padre Abel, está claro) para remediar os dislates deste louco. No entanto, ao dar com ele imundo, sujo dos próprios vômitos, que remédio se não perder a paciência, e depois serenar, assistir ao entremez do medo. Lá vai ele do medo à grosseria, da grosseria ao desalento: um pouco de piedade; ora essa, Silvestre, para amigos mãos rotas; e pegando no candeeiro de petróleo dirigiu-se ao quarto, fechou a porta à chave.

 

Principais características:

 

  1. linguagem simples, direta, sem artifícios ou adornos
  2. análise crítica da realidade social, com ênfase na luta de classes
  3. denúncia da situação das populações rurais
  4. investigação das motivações psicológicas das personagens

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

IV – A POESIA DEPOIS DA PRESENÇA

 

  1. JORGE DE SENA (1919-1978)

 

Jorge de Sena (1919-1978) nasceu em Lisboa e faleceu em Santa Barbara, Califórnia. Freqüentou o curso de Engenharia Civil na Faculdade de Engenharia do Porto, tendo trabalhado entre 1948 e 1959 como engenheiro na Junta Autónoma das Estradas. Partiu em 1959 para o Brasil, fazendo o doutoramento em 1964 na área de literatura portuguesa. No ano seguinte parte para os Estados Unidos, lecionando primeiro em Wisconsin e, a partir de 1970, na Universidade da Califórnia em Santa Barbara. Em 1977 recebeu o Prêmio Internacional de Poesia Etna-Taormina.  Em termos literários, Jorge de Sena, esteve ligado aos Cadernos de Poesia com José Blanc de Portugal, Rui Cinatti, entre outros. A par da sua escrita poética e ficcional, há a salientar os estudos teóricos sobre literatura portuguesa e inglesa, em especial aqueles que se referem a Camões e a Fernando Pessoa. Obras poéticas: Poesia – I (1977), Poesia – II (1978), Poesia – III (1978). Ficção: O Físico Prodigioso (novela, 1977), Andanças do Demónio (contos, 1960), Novas Andanças do Demónio (1966), Antigas e Novas Andanças do Demónio (contos, 1978), Os Grão-Capitães (contos, 1976), Génesis (contos, 1983), Sinais de Fogo (romance, 1979). Teatro: O Indesejado (António Rei) (1951), Amparo de Mãe e mais cinco peças em um acto (1974). Ensaio: Da Poesia Portuguesa (1959), História da Literatura Inglesa (1959-1960), A Estrutura de Os «Lusíadas» e Outros Estudos Camoneanos e de Poesia Peninsular do Século XVI (1970), Os Sonetos de Camões e o Soneto Quinhentista Peninsular (1969), Fernando Pessoa & Cª Heteronímica (1982), etc.

 

 

  1. “Passeio”

 

Que tarde e gente as ruas do jardim,

Por grupos de abandono e solidão;

Foi mar tranqüilo que passou por mim

... E quem foi mar tranqüilo ou sim ou não?

 

A porta aberta a gelo quando vim

Para junto de vós? A minha mão

Estendida com a música, e, enfim,

Tardia, ausente, livre de perdão?

 

Desarticulo a mágoa à dor mais vasta,

E juro-me que a névoa não se gasta

Ao dar-se, de anjo em anjo, sobre o mal...,

 

Nem Deus! — de incúria tanta nos meus braços,

Como se a curva lenta dos espaços

Não fosse a agilidade temporal.

 

 

  1. “Soneto a muitas vozes!”

 

Por quantos campos tenho na tristeza

Que mansas vêm as águas devagar...

Tão rasteiras... e já da cor do mar!

Rasteiras sobre a erva antiga e presa

 

Que, para um lado só, fazem curvar...

E doem mais as fibras da incerteza,

Enquanto cresce a tentação da reza

E diminui o falso verde-mar.

 

Águas do largo ao Sol das velas altas!

... E tu?... Também me lembro e também faltas!...

Adeuses pelo cais... tudo se cala...

 

A Terra teima ainda nos escolhos.

E se ela é de eu erguer de mais os olhos?

Se o céu, depois, resulta de lembrá-la?

 

  1. “Humanidade”

 

Na tarde calma e fria que circula

Por entre os eucaliptos e a distância,

Olhando as nuvens quase nada rubras

E a névoa consentida pelos montes,

Névoa não subindo por não ser

Fumo da vida que trabalha e teima,

E olhando uma verdura fugitiva

Que a noite no céu queima tão depressa,

Esqueço-me que há gente em cada parte,

Gente que, de sempre, sofre e morre,

E agora morre mais ou sofre mais,

Esqueço-me que a esperança abandonada,

A não ser de ninguém, é sempre minha,

Esqueço-me que os homens a renovam,

Que o fumo de seus lares sobe nos ares...

Esqueço-me de ouvir cheirar a Terra,

Esqueço-me que vivo... E anoitece.

 

Principais características:

 

  1. retomada classicizante do soneto
  2. intelectualismo predominando sobre a emoção
  3. as imagens tendem a servir a um conceito
  4. anseio de encontrar a unidade na variedade

 

  1. SOPHIA DE MELO BREYNER ANDRESEN (1919)

 

Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no Porto em 6 de Novembro de 1919 e faleceu em Lisboa no dia 2 de Julho de 2004. Foi na cidade do Porto e na Praia da Granja que passou a sua infância e juventude. Freqüentou Filologia Clássica na Universidade de Lisboa, mas não chegou a terminar o curso. Foi casada com o jornalista Francisco Sousa Tavares e mãe de cinco filhos, que a motivaram a escrever contos infantis. Motivos concretos e símbolos excepcionais para cantar o amor e o trágico da vida foi-os buscar ao mar e aos pinhais que contemplou na Praia da Granja; com a sua formação helenística, encontrou evocações do passado para sugerir transformações do futuro; pela sua constante atenção aos problemas do homem e do mundo, criou uma literatura de empenhamento social e político, de compromisso com o seu tempo e de denúncia da injustiça e da opressão. Foi agraciada com o Prêmio Camões em 1999.

Obras poéticas: Poesia (1944), Dia do Mar (1947), Coral, (1950), No Tempo Dividido, (1954), Mar Novo (1958), Livro Sexto (1962) Geografia (1967), Dual (1972), Nome das Coisas (1977), Musa (1994), etc. Obras narrativas: O Cavaleiro da Dinamarca, Contos Exemplares, Histórias da Terra e do Mar, A Floresta, A Menina do Mar, O Rapaz de Bronze, A Fada Oriana, etc.

 

 

  1. “Noite”

 

Mais uma vez encontro a tua face,

Ó minha noite que eu julguei perdida.

 

Mistério das luzes e das sombras

Sobre os caminhos de areia,

 

Rios de palidez em que escorre

Sobre os campos a lua cheia,

 

Ansioso subir de cada voz,

Que na noite clara se desfaz e morre.

 

Secreto, extasiado murmurar

De mil gestos entre a folhagem,

 

Tristeza das cigarras a cantar.

 

Ó minha noite, em cada imagem

Reconheço e adora a tua face,

Tão exaltadamente desejada,

Tão exaltadamente encontrada,

Que a vida há-de passar, sem que ela passe,

Do fundo dos meus olhos onde está gravada.

 

  1. “Soneto à maneira de Camões”

 

Esperança e desespero de alimento

Me servem neste dia em que te espero

E já não sei se quero ou se não quero

Tão longe de razões é meu tormento.

 

Mas como usar amor de entendimento?

Daquilo que te peço desespero

Ainda que mo dês — pois o que eu quero

Ninguém o dá se não por um momento.

 

Mas como és belo, amor, de não durares,

De ser tão breve e fundo o teu engano,

E de eu te possuir sem tu te dares.

 

Amor perfeito dado a um ser humano:

Também morre o florir de mil pomares

E se quebram, as ondas no oceano.

 

  1. “Meditação do Duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal”

 

Nunca mais

A tua face será pura limpa e viva

Nem o teu andar como onda fugitiva

Se poderá nos passos do tempo tecer.

E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

 

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

A luz da tarde mostra-me os destroços

Do teu ser. Em breve a podridão

Beberá os teus olhos e os teus ossos

Tomando a tua mão na sua mão.

 

Nunca mais amarei quem não possa viver

Sempre,

Porque eu amei como se fossem eternos

A glória, a luz e o brilho do teu ser,

Amei-te em verdade e transparência

E nem sequer me resta a tua ausência,

És um rosto de nojo e negação

E eu fecho os olhos para não te ver.

 

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

 

Nunca mais te darei o tempo puro

Que em dias demorados eu teci

Pois o tempo já não regressa a ti

E assim eu não regresso e não procuro

O deus que sem esperança te pedi.

 

Principais características:

 

  1. predomínio da sensibilidade sobre o intelectualismo, mas sem derramamento emocional
  2. presença marcante da intuição, mais que do racionalismo
  3. linguagem intensamente metafórica
  4. presença constante de elementos da Natureza, como o mar, a lua, florestas etc.
  5. utilização de formas tradicionais, como o soneto e os versos metrificados e rimados

 

  1. MÁRIO CESARINY DE VASCONCELOS (1923)

 

Mário Cesariny de Vasconcelos nasceu no dia 9 de Agosto de 1923 em Lisboa. É um dos mais importantes poetas portugueses do surrealismo. Encontrou-se em 1947 com André Breton, aderindo ao movimento francês. No mesmo ano, liga-se ao Grupo Surrealista de Lisboa, de que se separou no ano seguinte, criando o Grupo Surrealista Dissidente. Além de poeta, romancista, ensaísta e dramaturgo, tem-se dedicado às artes plásticas, nomeadamente à pintura.

Obras: Corpo Visível (1950), Discurso sobre a Reabilitação do Real Quotidiano (1952), Louvor e Simplificação de Álvaro de Campo (1953), Manual de Prestidigitação (1956), Pena Capital (1957), Alguns Mitos Maiores e Alguns Mitos Menores Postos à Circulação pelo Autor (1958), Nobilíssima Visão (1959), Poesia (1944-1955) (s./d.), Planisfério e Outros Poemas (1961), Um Auto para Jerusalém (1964), Titânia e A Cidade Queimada (1965), 19 Projectos de Prémio Aldonso Ortigão Seguidos de Poemas de Londres (1971), As Mãos na Água e na Cabeça (1972), Burlescas, Teóricas e Sentimentais (1972), Primavera Autónoma das Estradas (1980), Vieira da Silva, Arpad Szenes ou O Castelo Surrealista (1984), O Virgem Negra (1989), Titânia (1994).

 

 

  1. “Parada”

 

Com um grande termômetro no chapéu

E um certo ar marcial de gênero eqüidistante

Todos saíram hoje das suas casas na duna

Para a rua a soprar o vento que vem de longe

A certeza que há de vir de longe

A formiga que vem de muito muito longe

Os prisioneiros polícias dos polícias prisioneiros

Nas montras dos passeios por baixo dos bancos

Passam os pontos escuros para o outro lado

Sem esquecer o espelho

Sem esquecer o aranhiço meticulosamente pequenino

para fazer a surpresa

Sem esquecer a borboleta tonta que sobe no horizonte

Da cor do sol

O pescoço da nossa felicidade

 

Principais características:

 

  1. predomínio da imaginação, marcando o Surrealismo
  2. estabelecimento de relações insólitas
  3. atmosfera onírica
  4. exploração do subconsciente
  5. sensação de caos na representação do mundo
  6. tensão entre o mundo real e o imaginário

 

  1. “You Are Welcome To Elsinore “

 

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam

e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

 

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós

e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

 

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor

 

E há palavras noturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos conosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o
amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita

 

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

 

 



[1] poltrona