Origens e característica do Barroco

10/05/2015 08:18

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Origens e Características do Barroco

O barroco foi uma tendência artística que se desenvolveu primeiramente nas artes plásticas e depois se manifestou na literatura, no teatro e na música. O berço do barroco é a Itália do século XVII, porém se espalhou por outros países europeus como, por exemplo, a Holanda, a Bélgica, a França e a Espanha. O barroco permaneceu vivo no mundo das artes até o século XVIII. Na América Latina, o barroco entrou no século XVII, trazido por artistas que viajavam para a Europa, e permaneceu até o final do século XVIII.
O barroco se desenvolve no seguinte contexto histórico: após o processo de Reformas Religiosas, ocorrido no século XVI, a Igreja Católica havia perdido muito espaço e poder. Mesmo assim, os católicos continuavam influenciando muito o cenário político, econômico e religioso na Europa. A arte barroca surge neste contexto e expressa todo o contraste deste período: a espiritualidade e teocentrismo da Idade Média com o racionalismo e antropocentrismo do Renascimento.

Os artistas barrocos foram patrocinados pelos monarcas, burgueses e pelo clero. As obras de pintura e escultura deste período são rebuscadas, detalhistas e expressam as emoções da vida e do ser humano.
A palavra barroco tem um significado que representa bem as características deste estilo. Significa " pérola irregular" ou "pérola deformada" e representa de forma pejorativa a idéia de irregularidade.
O período final do barroco (século XVIII) é chamado de rococó e possui algumas peculiaridades, embora as principais características do barroco estão presentes nesta fase. No rococó existe a presença de curvas e muitos detalhes decorativos (conchas, flores, folhas, ramos). Os temas relacionados à mitologia grega e romana, além dos hábitos das cortes também aparecem com freqüência.

BARROCO EUROPEU
As obras dos artistas barrocos europeus valorizam as cores, as sombras e a luz, e representam os contrates. As imagens não são tão centralizadas quanto as renascentistas e aparecem de forma dinâmica, valorizando o movimento. Os temas principais são : mitologia, passagens da Bíblia e a história da humanidade. As cenas retratadas costumam ser sobre a vida da nobreza, o cotidiano da burguesia, naturezas-mortas entre outros. Muitos artistas barrocos dedicaram-se a decorar igrejas com esculturas e pinturas, utilizando a técnica da perspectiva.

As esculturas barrocas mostram faces humanas marcadas pelas emoções, principalmente o sofrimento. Os traços se contorcem, demonstrando um movimento exagerado. Predominam nas esculturas as curvas, os relevos e a utilização da cor dourada.

Podemos citar como principais artistas do barroco: o espanhol Velázquez, o italiano Caravaggio, os belgas Van Dyck e Frans Hals, os holandeses Rembrandt Vermeer e o flamengo Rubens.

BARROCO NO BRASIL

O barroco brasileiro foi diretamente influenciado pelo barroco português, porém, com o tempo, foi assumindo características próprias. A grande produção artística barroca no Brasil ocorreu nas cidade auríferas de Minas Gerais, no chamado século do ouro (século XVIII). Estas cidades eram ricas e possuíam um intensa vida cultura e artística em pleno desenvolvimento.
O principal representante do barroco mineiro foi o escultor e arquiteto Antônio Francisco de Lisboa também conhecido como Aleijadinho. Sua obras, de forte caráter religioso, eram feitas em madeira e pedra-sabão, os principais materiais usados pelos artistas barrocos do Brasil. Podemos citar algumas obras de Aleijadinho : Os Doze Profetas e Os Passos da Paixão, na Igreja de Bom Jesus de Matozinhos, em Congonhas do Campo (MG).
Outros artistas importantes do barroco brasileiro foram: o pintor mineiro Manuel da Costa Ataíde e o escultor carioca Mestre Valentim. No estado da Bahia, o barroco destacou-se na decoração das igrejas em Salvador como, por exemplo, de São Francisco de Assis e a da Ordem Terceira de São Francisco.

Principais Características do Barroco

São usados também Símbolos que traduzem a efemeridade e instabilidade das coisas tais como: fumaça vento, neve, chama, água, espuma, etc.

“Entre essas ondas claras, duvidosas,

Levai ao largo mar, com turva vela,

Tristes queixumes, lágrimas queixosas” Francisco Rodrigues Lobo

As Frases Interrogativas são usadas para refletir a dúvida e a incerteza do homem barroco.

“Porém, se acaba o Sol, por que nascia?

Se tão formosa a Luz é, por que não dura?” Gregório de Matos

Ordem inversa - Além de tornar a frase pomposa, a ordem inversa traduz pequenas partes de raciocínio. Refletindo a falta de clareza diante das coisas e a insegurança dos homens dessa época onde as duas vertentes

( Antropocentrismo X Teocentrismo ) estão agindo dentro das pessoas deixando seus pensamentos divididos.

“Se aparta do corpo a doce vida,

Domina em seu lugar a dura morte,

De que nasce tardar-me tanto a morte

Se ausente d’alma estou, que me dá a vida?” Violante do Céu

Cultismo - É o jogo de palavras, o uso abusivo de metáforas e hipérboles.

Corresponde ao excesso de detalhes das artes plásticas.

Os detalhes são usados nesse período devido a própria incerteza de que o homem está possuído, ele busca com a exposição de detalhes deixar claro para o observador tudo o que se passa em seu interior (espiritual).

As contradições que estão no íntimo de cada artista dessa época, praticamente forçam o mesmo a ser minucioso em suas criações na tentativa de explicar seus sentimentos.

“Ofendi-vos, meu Deus, é bem verdade,

É verdade, Senhor, que hei delinqüido,

Delinqüido vos tenho ...” Gregório de Matos

Conceptismo - é o jogo de idéias.

“Para um homem se ver a si mesmo, são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz.

Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos;

se tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz.

Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos.” Padre Antônio Vieira

Principais temas

Os principais temas da literatura barroca giram em torno da idéia de:

a) sobrenatural;

b) ‘morte;

c) fugacidade da vida e ilusão;

d) castigo;

e) heroísmo;

f) misticismo;

g) erotismo;

h) cenas trágicas;

i) apelo à religião, ao céu;

j) arrependimento;

k) sedução do mundo.

(Apostila 0 - zero - do Barroco - Literatura Brasileira)

 

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BARROCO – Exemplos para análise.

Gregório de Matos

A UM LIVREIRO, QUE HAVIA COMIDO

UM CANTEIRO DE ALFACES COM VINAGRE

Levou um livreiro a dente

De alface todo um canteiro,

E comeu, sendo livreiro,

Desencadernadamente.

Porém, eu digo que mente

A quem disso o quer tachar;

Antes é para notar

Que trabalhou como um mouro,

Pois meter folhas no couro

Também é encardenar.

Manuel Botelho de Oliveira

SOL E ANARDA

O Sol ostenta a graça luminosa,

Anarda por luzida se pondera;

O sol é brilhador na Quarta esfera,

Brilha Anarda na esfera de fermosa.

Fomenta o sol a chama calorosa,

Anarda ao peito viva chama altera,

O jasmim, cravo e rosa ao sol esmera,

Cria Anarda o jasmim, o cravo e a rosa.

O sol à sombra dá belos desmaios,

Com os olhos de Anarda a sombra é clara,

Pinta maios o sol, Anarda maios.

Mas (desiguais só nisto) se repara

O sol libera sempre seus raios,

Anarda de seus raios sempre avara.

Rocha Pita

:SONETO: “Quem cala vence”

Fala o Mar no contínuo movimento,

O fogo em línguas as Esferas toca,

A terra em terremotos abre a boca,

Em sibilantes sopros silva o vento.

Logo como a dizer seu sentimento

Uma alma racional se não provoca,

Quando o silêncio pelas vozes troca

Sem uso de razão cada Elemento?

Como pode vencer quem pouco ativo?

Não manda à boca, quanto o peito encerra

E, estando mudo, não parece vivo.

Só triunfa em falar, em calar erra,

O racional vivente discursivo

Falando o vento, o Fogo, o Mar e a Terra.

Gregório de Matos -

Aos Afetos e Lágrimas Derramadas na

Ausência da Dama a Quem Queria Bem

- Ao mesmo Assunto e na Mesma Ocasião.

Corrente, que do peito destilada

Sois por dois belos olhos despedida;

E por carmim correndo dividida

Deixais o ser, levais a cor mudada.

Não sei, quando caís precipitada,

Às flores que regais tão parecida,

Se sois neves por rosa derretida,

Ou se rosa por neve desfolhada.

Essa enchente gentil de prata fina,

Que de rubi por conchas se dilata,

Faz troca tão diversa peregrina,

Que no objeto, que mostra, ou que retrata,

Mesclando a cor púrpurea, à cristalina,

Não sei quando é rubi, ou quando é prata.

Domingos Lourenço de Castro

SONETO QUATER ACRÓSTICO

Do Modulante Orfeu Invicto,e Raro,

O alento Egrégio Mova Eternamente,

Invias Esferas, Onde Instantaneamente

Lustrosos Xefes São luso Reparo.

Lusitânia em Cântico Excelso, E caro,

Uivas cante Entre Ñós Diuturnamente

Sendo assunto Luzido, O que Eminente

Tem sido Luz do Rio, e seu Amparo.

Recite Europa Grande a Nosso intento

Ilustrada No plectro O mais Donoso

Ser do Tonante Mais Rarificado

Soberano, Inclito, E honroso Assento

Inste o Rio Seu Ser de mais Ditoso

Mostrando-o em Si na Fama Altificado.

Anastácio Ayres de Penhafiel

LABIRINTO CÚBICO

I N U T R O Q U E C E S A R

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A S E C E U Q O R T U N I N

R A S E C E U Q O R T U N I

(Gregório de Matos)

(Apostila 1 de Barroco

 

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BENTO TEIXEIRA - PROSOPOPÉIA

I

Cantem Poetas o Poder Romano,

Sobmetendo Nações ao jugo duro;

O Mantuano pinte o Rei Troiano,

Descendo à confusão do Reino escuro;

Que eu canto um Albuquerque soberano,

Da Fé, da cara Pátria firme muro,

Cujo valor e ser, que o Ceo lhe inspira,

Pode estancar a Lácia e Grega lira.

II

As Délficas irmãs chamar não quero,

que tal invocação é vão estudo;

Aquele chamo só, de quem espero

A vida que se espera em fim de tudo.

Ele fará meu Verso tão sincero,

Quanto fora sem ele tosco e rudo,

Que per rezão negar não deve o menos

Quem deu o mais a míseros terrenos.

XIII

Toca a Trobeta com crescido alento,

Engrossa as veas, move os elementos,

E, rebramando os ares com o acento,

Penetra o vão dos infinitos assentos.

Os Pólos que sustem o firmamento,

Abalados dos próprios fundamentos,

Fazem tremer a terra e Ceo jucundo,

E Neptuno gemer no Mar profundo.

XIV

O qual vindo da vã concavidade,

Em Carro Triunfal, com seu tridente,

Traz tão soberba pompa e majestade,

Quanta convém a Rei tão excelente.

Vem Oceano, pai de mor idade,

Com barba branca, com cerviz tremente:

Vem Glauco, vem Nereu, Deoses Marinhos,

Correm ligeros Focas e Golfinhos.

XV

Vem o velho Proteu, que vaticina

(Se fé damos à velha antiguidade)

Os males a que a sorte nos destina,

Nascidos da mortal temeridade.

Vem numa e noutra forma peregrina,

Mudando a natural propriedade.

Não troque a forma, venha confiado,

Se não quer de Aristeu ser sojigado.

XVI

Tétis, que em ser fermosa se recrea,

Traz das Ninfas o coro brando e doce :

Clímene, Efire, Ópis, Panopea,

Com Béroe, Talia, Cimodoce;

Drimo, Xanto, Licórias, Deiopea,

Aretusa, Cidipe, Filodoce,

Com Eristea, Espio, Semideas,

Após as quais, cantando, vem Sereas.

XIX

Em o meio desta obra alpestre e dura,

ô a boca rompeo o Mar inchado,

Que, na língua dos bárbaros escura,

Paranambuco de todos ‚ chamado.

de Para’na, que é Mar; Puca, rotura,

Feita com fúria desse Mar salgado,

Que, sem no dirivar cometer míngua,

Cova do Mar se chama em nossa língua.

XX

Pera entrada da barra, à parte esquerda,

Está ua lajem grande e espaçosa,

Que de Piratas fora total perda,

Se ô a torre tivera sumptuosa.

Mas quem por seus serviços bons não herda

Desgosta de fazer cousa lustrosa,

Que a condição do Rei que não é franco

O vassalo faz ser nas obras manco.

XXXV

Ó sorte tão cruel, como mudável,

Por que usurpas aos bons o seu direito?

Escolhes sempre o mais abominável,

Reprovas e abominas o perfeito,

O menos digno fazes agradável,

O agradável mais, menos aceito.

Ó frágil, inconstante, quebradiça,

Roubadora dos bens e da justiça!

XLV

Porque Lémnio cruel, de quem descende

A Bárbara progênie e insolência,

Vendo que o Albuquerque tanto ofende

Gente que dele tem a descendência,

Com mil meos ilícitos pretende

Fazer irreparável resistência

Ao claro Jorge, baroil e forte,

Em quem não dominava a vária sorte.

LIV

"Estas palavras tais, do cruel peito,

Soltará dos Ciclopes o tirano,

As quais procurará pôr em efeito,

Às cavernas descendo do Oceano.

E com mostras d’amor brando e aceito,

De ti, Neptuno claro e soberano,

Alcançará seu fim: o novo jogo,

Entrar no Reino d’Água o Rei do fogo.

LXXXVII

"Assim dirá: mas eles sem respeito

À honra e ser de seus antepassados

Com pálido temor no frio peito,

Irão per várias partes derramados.

Duarte, vendo neles tal defeito,

Lhe dirá": - Corações efeminados,

Lá contareis aos vivos o que vistes,

Porque eu direi aos mortos que fugistes.

 

 

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BENTO TEIXEIRA - PROSOPOPÉIA

I

Cantem Poetas o Poder Romano,

Sobmetendo Nações ao jugo duro;

O Mantuano pinte o Rei Troiano,

Descendo à confusão do Reino escuro;

Que eu canto um Albuquerque soberano,

Da Fé, da cara Pátria firme muro,

Cujo valor e ser, que o Ceo lhe inspira,

Pode estancar a Lácia e Grega lira.

II

As Délficas irmãs chamar não quero,

que tal invocação é vão estudo;

Aquele chamo só, de quem espero

A vida que se espera em fim de tudo.

Ele fará meu Verso tão sincero,

Quanto fora sem ele tosco e rudo,

Que per rezão negar não deve o menos

Quem deu o mais a míseros terrenos.

XIII

Toca a Trobeta com crescido alento,

Engrossa as veas, move os elementos,

E, rebramando os ares com o acento,

Penetra o vão dos infinitos assentos.

Os Pólos que sustem o firmamento,

Abalados dos próprios fundamentos,

Fazem tremer a terra e Ceo jucundo,

E Neptuno gemer no Mar profundo.

XIV

O qual vindo da vã concavidade,

Em Carro Triunfal, com seu tridente,

Traz tão soberba pompa e majestade,

Quanta convém a Rei tão excelente.

Vem Oceano, pai de mor idade,

Com barba branca, com cerviz tremente:

Vem Glauco, vem Nereu, Deoses Marinhos,

Correm ligeros Focas e Golfinhos.

XV

Vem o velho Proteu, que vaticina

(Se fé damos à velha antiguidade)

Os males a que a sorte nos destina,

Nascidos da mortal temeridade.

Vem numa e noutra forma peregrina,

Mudando a natural propriedade.

Não troque a forma, venha confiado,

Se não quer de Aristeu ser sojigado.

XVI

Tétis, que em ser fermosa se recrea,

Traz das Ninfas o coro brando e doce :

Clímene, Efire, Ópis, Panopea,

Com Béroe, Talia, Cimodoce;

Drimo, Xanto, Licórias, Deiopea,

Aretusa, Cidipe, Filodoce,

Com Eristea, Espio, Semideas,

Após as quais, cantando, vem Sereas.

XIX

Em o meio desta obra alpestre e dura,

ô a boca rompeo o Mar inchado,

Que, na língua dos bárbaros escura,

Paranambuco de todos ‚ chamado.

de Para’na, que é Mar; Puca, rotura,

Feita com fúria desse Mar salgado,

Que, sem no dirivar cometer míngua,

Cova do Mar se chama em nossa língua.

XX

Pera entrada da barra, à parte esquerda,

Está ua lajem grande e espaçosa,

Que de Piratas fora total perda,

Se ô a torre tivera sumptuosa.

Mas quem por seus serviços bons não herda

Desgosta de fazer cousa lustrosa,

Que a condição do Rei que não é franco

O vassalo faz ser nas obras manco.

XXXV

Ó sorte tão cruel, como mudável,

Por que usurpas aos bons o seu direito?

Escolhes sempre o mais abominável,

Reprovas e abominas o perfeito,

O menos digno fazes agradável,

O agradável mais, menos aceito.

Ó frágil, inconstante, quebradiça,

Roubadora dos bens e da justiça!

XLV

Porque Lémnio cruel, de quem descende

A Bárbara progênie e insolência,

Vendo que o Albuquerque tanto ofende

Gente que dele tem a descendência,

Com mil meos ilícitos pretende

Fazer irreparável resistência

Ao claro Jorge, baroil e forte,

Em quem não dominava a vária sorte.

LIV

"Estas palavras tais, do cruel peito,

Soltará dos Ciclopes o tirano,

As quais procurará pôr em efeito,

Às cavernas descendo do Oceano.

E com mostras d’amor brando e aceito,

De ti, Neptuno claro e soberano,

Alcançará seu fim: o novo jogo,

Entrar no Reino d’Água o Rei do fogo.

LXXXVII

"Assim dirá: mas eles sem respeito

À honra e ser de seus antepassados

Com pálido temor no frio peito,

Irão per várias partes derramados.

Duarte, vendo neles tal defeito,

Lhe dirá": - Corações efeminados,

Lá contareis aos vivos o que vistes,

Porque eu direi aos mortos que fugistes.

(Apostila

 

 

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GREGÓRIO DE MATOS - Poemas

(1636-1695 )

Foi tão tumultuada a vida do poeta baiano que um biógrafo chamou-a de “vida espantosa”.

Como filho de senhor de engenho, Gregório pôde estudar em Portugal,para onde se mudou aos 14 anos de idade. Lá passou 32 anos, prósperos e tranqüilos.

Retornou ao Brasil, em 1682, nomeado para funções na burocracia eclesiástica da Sé da Bahia. Durou pouco no cargo, do qual foi destituído em 1683. Iniciou-se, então, a última fase de sua vida. O casamento com Maria dos Povos, a quem dedicou belíssimos sonetos, não impediu a decadência, social e profissional, do Dr. Gregório. Ficou famoso em suas andanças e pândegas pelos engenhos do Recôncavo.

Mais famosas ainda eram suas sátiras. Talvez por causa delas, foi deportado para Angola, em 1694. Pôde retornar ao Brasil, no ano seguinte, mas para o Recife, onde morreu aos 59 anos de idade.

Gregório de Matos Guerra ficou conhecido na história da literatura como o Boca do Inferno, por causa de suas sátiras e de sua poesia. Mas sendo um autor barroco e, portanto surpreendente e contraditório, esse mesmo Boca do Inferno também disse coisas belíssimas sobre o amor, como nesse soneto que você acabou de ler.

Comentário

Podemos incluir o soneto de Gregório de Matos na tendência conceptista do Barroco, graças ao engenhoso desenvolvimento de uma única imagem, a da mariposa atraída pela chama que deverá matá-la. O sujeito lírico desdobra a comparação entre a sua situação e a da mariposa, explorando as semelhanças, para, na última estrofe, ponto culminante do soneto, estabelecer a grande diferença: seu sacrifício é mais terrível do que o dela, por que inútil.

Nosso poeta baiano merece que lhe dediquemos uma atenção especial.

Para muitos historiadores, ele é o iniciador da literatura brasileira. Mas é interessante observar ar que permaneceu inédito até meados do século XIX. Sua produção poética sobreviveu, até então, em livros manuscritos, colecionada por admiradores. As duas tentativas de publicação completa - por sinal, muito insatisfatórias - ocorreram já no nosso século XX: a edição da Academia Brasileira de Letras, em 6 volumes (1923-1933), e a edição de James Amado, em 7 volumes (1968).

Gregório recebeu influências tanto do Cultismo de Góngora quanto do Conceptismo de Quevedo. Seu espírito profundamente barroco pode ser percebido na contraditória diversidade dos temas que desenvolveu em sua obra:

a. poesia sacra (temática religiosa)

b. lírica amorosa

c. poesia satírica

d. poesia burlesca

 

Ao Braço do Mesmo Menino Jesus Quando Aparece

O todo sem a parte não é todo,

A parte sem o todo não é parte,

Mas se a parte o faz todo, sendo parte,

Não se diga, que é parte, sendo todo.

Em todo o Sacramento está Deus todo,

E todo assiste inteiro em qualquer parte,

E feito em partes todo em toda a parte,

Em qualquer parte sempre fica o todo.

O braço de Jesus não seja parte,

Pois que feito Jesus em partes todo,

Assiste cada parte em sua parte.

Não se sabendo parte deste todo,

Um braço, que lhe acharam, sendo parte,

Nos disse as partes todas deste todo.

Buscando a Cristo

A vós correndo vou, braços sagrados,

Nessa cruz sacrossanta descobertos

Que, para receber-me, estais abertos,

E, por não castigar-me, estais cravados.

A vós, divinos olhos, eclipsados

De tanto sangue e lágrimas abertos,

Pois, para perdoar-me, estais despertos,

E, por não condenar-me, estais fechados.

A vós, pregados pés, por não deixar-me,

A vós, sangue vertido, para ungir-me,

A vós, cabeça baixa, p'ra chamar-me

A vós, lado patente, quero unir-me,

A vós, cravos preciosos, quero atar-me,

Para ficar unido, atado e firme.

Soneto

Um soneto começo em vosso gabo;

Contemos esta regra por primeira,

Já lá vão duas, e esta é a terceira,

Já este quartetinho está no cabo.

Na quinta torce agora a porca o rabo:

A sexta vá também desta maneira,

na sétima entro já com grã canseira,

E saio dos quartetos muito brabo.

Agora nos tercetos que direi?

Direi, que vós, Senhor, a mim me honrais,

Gabando-vos a vós, e eu fico um Rei.

Nesta vida um soneto já ditei,

Se desta agora escapo, nunca mais;

Louvado seja Deus, que o acabei.

Soneto

Mancebo sem dinheiro, bom barrete,

Medíocre o vestido, bom sapato,

Meias velhas, calção de esfola-gato,

Cabelo penteado, bom topete.

Presumir de dançar, cantar falsete,

Jogo de fidalguia, bom barato,

Tirar falsídia ao Moço do seu trato,

Furtar a carne à ama, que promete.

A putinha aldeã achada em feira,

Eterno murmurar de alheias famas,

Soneto infame, sátira elegante.

Cartinhas de trocado para a Freira,

Comer boi, ser Quixote com as Damas,

Pouco estudo, isto é ser estudante.

Soneto

Neste mundo é mais rico, o que mais rapa:

Quem mais limpo se faz, tem mais carepa:

Com sua língua ao nobre o vil decepa:

O Velhaco maior sempre tem capa.

Mostra o patife da nobreza o mapa:

Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;

Quem menos falar pode, mais increpa:

Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.

A flor baixa se inculca por Tulipa;

Bengala hoje na mão, ontem garlopa:

Mais isento se mostra, o que mais chupa.

Para a tropa do trapo vazo a tripa,

E mais não digo, porque a Musa topa

Em apa, epa, ipa, opa, upa.

Soneto

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,

Depois da Luz se segue a noite escura,

Em tristes sombras morre a formosura,

Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?

Se formosa a Luz é, por que não dura?

Como a beleza assim se transfigura?

Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,

Na formosura não se dê constância,

E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,

E tem qualquer dos bens por natureza

A firmeza somente na inconstância.

Descrição da Cidade de Sergipe D'el-Rei

Três dúzias de casebres remendados,

Seis becos, de mentrastos entupidos,

Quinze soldados, rotos e despidos,

Doze porcos na praça bem criados.

Dois conventos, seis frades, três letrados,

Um juiz, com bigodes, sem ouvidos,

Três presos de piolhos carcomidos,

Por comer dois meirinhos esfaimados.

As damas com sapatos de baeta,

Palmilha de tamanca como frade,

Saia de chita, cinta de raqueta.

O feijão, que só faz ventosidade

Farinha de pipoca, pão que greta,

De Sergipe d'El-Rei esta é a cidade.

Agradecimento de uns Doces a sua Freira


Senhora minha, se de tais clausuras
Tantos doces mandais a uma formiga,
Que esperais vós agora que eu vos diga
Se não forem muchíssimas doçuras?

Eu esperei de Amor outras venturas,
Mas ei-lo vai, tudo o que é dar obriga,
Ou já ceia de amor, ou já da figa,
Da vossa mão são tudo ambrósias puras.

O vosso doce a todos diz: comei-me,
De cheiroso, perfeito e asseado;
Eu por gosto lhe dar comi e fartei-me.

Em este se acabando irá recado,
E se vos parecer glutão, sofrei-me
Enquanto vos não peço outro bocado.

Epitáfio para o Marquês de Marialva

.....................

Em três partes enterrado
está o corpo do Marquês
de Marialva: porque em dez
mil seu nome é venerado:
e foi destino acertado,
que em tanta parte estivesse,
para que o mundo soubesse,
que este valeroso Marte
morto assiste em qualquer parte,
como se ainda vivesse.

Pintura Admirável de uma Beleza

Soneto
Vês esse Sol de luzes coroado?
Em pérolas a Aurora convertida?
Vês a Lua de estrelas guarnecida?
Vês o Céu de Planetas adorado?

O Céu deixemos; vês naquele prado
A Rosa com razão desvanecida?
A Açucena por alva presumida?
O Cravo por galã lisonjeado?

Deixa o prado; vem cá, minha adorada,
Vês de esse mar a esfera cristalina
Em sucessivo aljôfar desatada?

Parece aos olhos ser de prata fina?
Vês tudo isto bem? Pois tudo é nada
À vista do teu rosto, Caterina.

À SUA MULHER ANTES DE CASAR

Discreta, e formosíssima Maria,
Enquanto estamos vendo a qualquer hora
Em tuas faces a rosada Aurora,
Em teus olhos, e boca o Sol, e o dia:

Enquanto com gentil descortesia
O ar, que fresco Adônis te namora,
Te espalha a rica trança voadora,
Quando vem passear-te pela fria:

Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trota a toda ligeireza,
E imprime em toda a flor sua pisada.

Oh, não aguardes, que a madura idade
Te converta em flor, essa beleza
Em terra, em cinza, em pó, em sobra, em nada.

SONETO

Pequei, Senhor, mas não, porque hei pecado

Da vossa alta piedade me despido:

Antes quanto mais tenho delinquido,

Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto pecado,

A abrandar-vos sobeja um só gemido:

Que a mesma culpa, que vos há ofendido,

Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida, já cobrada,

Glória tal e prazer tão repentino

Vos deu, como afirmais na Sacra História,

Eu sou, Senhor, ovelha desgarrada:

Cobrai-a e não queirais, Pastor Divino,

Perder na vossa ovelha a vossa glória.

 

Com Boca do Inferno, ambientado na Bahia, em plena efervescência mercantilista do século 17, Ana Miranda restaura os cacos de um país popularmente tido como pacífico, substituindo essa mentira calcificada por uma de caráter ficcional, mas consentânea com a verdade histórica.

O assassinato do alcaide-mor é mero pretexto fabular para dividir em duas a sociedade baiana de então: perseguidores e perseguidos. O que interessa mais é a capacidade paradoxal que o evento carrega, porque desperta a vida naquela sociedade. Desencadeia-se o furor persecutório do poder estabelecido que não recua diante do ilegal e do ilegítimo para agarrar supostos culpados, cujo motivo único de suspensão advinha do uso constante da palavra incandescente.

A perseguição intensa leva o leitor pelos meandros da política, dos conluios e dos conchavos, bem como pelas vielas tortuosas de uma cidade, cuja topografia de altos e baixos, geralmente atolados na imundície, espelha de modo exemplar o sinuoso da vida colonial brasileira. Sob uma aparência de normalidade esconde-se um mundo turbulento, carregado de ambições, de falcatruas, de sensualidade, de religiosidade e de sexualidade desenfreada. Numa sociedade em (de) composição, o priapismo de Gregório de Matos encontra seu correlato tanto no furor verbal de Vieira quanto nas arbitrariedades sistemáticas da caterva do governador. Do antagonismo que se constrói entre ambas as facções surge um conjunto social em que o Poder identifica-se necessariamente com o Mal, porque dele não se espera outra coisa que a corrupção e a venalidade.

Para combatê-lo em seus excessos não resta senão a esperança da Palavra. Da boca de Vieira, o verbo polido desdobrando-se numa sinonímia infinita e espiralada que encontra paralelo inverso nas várias modalidades de prevaricação governamental. Da boca de Gregório, o jorro desmesurado de uma linguagem que, por aversão ao meio, não se peja de refleti-lo de modo espetacular. Daí seu caráter popular, porque mais rapidamente assimilável, o que gera o fastio externo da camada culta.

Em um relato refinado, no qual se incluem pepitas históricas, estilísticas, sintáticas e léxicas, Boca do Inferno revela capacidade de persuasão e de envolvimento, provenientes da urdida verossimilhança, que põe de escanteio o eventual veto ao rigor histórico, o qual se mostra inequívoco, graças à indisfarçável pesquisa em que se assenta o texto. Comprovante desse trabalho meticuloso é o delírio verbal e descritivo que cumpre uma função estética: a de representar a face tumultuada daquela sociedade, dificilmente apreensível por meio do vocábulo unívoco e seco.
Antonio Dimas

Boca do Inferno (trechos)

A cidade

A cidade fora edificada na extremidade interna meridional da península, a treze graus de latitude sul e quarenta e dois de longitude oeste, no litoral do Brasil. Ficava diante de uma enseada larga e limpa que lhe deu o nome: Bahia.

A baía, de pouco mais de duas léguas, começava na ponta de Santo Antonio, onde tinha sido edificada a fortaleza do mesmo nome, e terminava aos pés da ermida de Nossa Senhora de Monserrate. No meio desse golfo estava a cidade, sobre uma montanha de rocha talhada a pique na encosta que dava para o mar, porém plana na parte de cima; esse monte era cercado por três colinas altas, sobre as quais se estendiam as povoações. Ao sul, as casas terminavam nas proximidades do mosteiro de São Bento; ao norte, nas cercanias do mosteiro de Nossa Senhora do Carmo. O terceiro extremo da cidade, a leste, era escassamente povoado.

Três fortes, dois em terra e um no mar, defendiam a praia estreita da Bahia. A faixa longa da costa, onde se enfileiravam armazéns, lojas e oficinas, ligava-se à parte alta por três ruas íngremes. O barulhento molinete dos jesuítas içava a carga pesada entre uma e outra partes da cidade.

Ainda se viam resquícios dos danos causados pelas guerras contra os holandeses, desde quase sessenta anos antes. Ruínas de casas incendiadas, roqueiras abandonadas, o esqueleto de uma nau na praia. Em ligares mais ermos podiam-se encontrar, cobertos pelo mato, estrepes de ferro de quatro pontas. Perto da porta do Carmo havia, ainda, covas profundas e altos baluartes que tinham servido de trincheira.

Numa suave região cortada por rios límpidos, de céu sempre azul, terras férteis, florestas de árvores frondosas, a cidade parecia ser a imagem do Paraíso. Era, no entanto, onde os demônios aliciavam almas para povoarem o inferno.

1

"Esta cidade acabou-se", pensou Gregório de Matos, olhando pela janela do sobrado no terreiro de Jesus. "Não é mais a Bahia. Antigamente havia muito respeito. Hoje, até dentro da praça, nas barbas da infantaria, nas bochechas dos granachas, fazem assaltos à vista."

Veio à sua mente a figura de Gongora y Argote, o poeta espanhol que tanto admirava, vestido como nos retratos em seu hábito eclesiástico de capelão do rei: o rosto longo e duro, o queixo partido ao meio, as têmporas rapadas até detrás das orelhas. Gongora tinha-se ordenado sacerdote aos cinqüenta e seis anos. Usava um anel de rubi no dedo anular da mão esquerda, que todos beijavam. Gregório de Matos queria, como o poeta espanhol, escrever coisas que não fossem vulgares, alcançar o culteranismo. Saberia escrever assim? Sentia dentro de si um abismo. Se ali caísse, aonde o levaria? Não estivera Gongora tentando unir a alma elevada do homem à terra e seus sofrimentos carnais? Gregório de Matos estava no lado escuro do mundo, comendo a parte podre do banquete. Sobre o que poderia falar? Goza, goza el color, da luz, el oro. Teria sido bom para Gregório se tivesse nascido na Espanha? Teria sido diferente?

 

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GREGÓRIO DE MATOS

Satírica Pornográfica

A MESMA MARIA VIEGAS SACODE AGORA O POETA ESTRAVAGANTEMENTE PORQUE SE ESPEYDORRAVA MUITO

Dizem que o vosso cu, Cota,

Assopra zombaria,

Que aparece artilharia,

Quando vem chegando a frota:

Parece, que está de aposta

Este cu a peidos dar,

Porque jamais sem parar

Este grão-cu de enche-mão

Sem pederneira, ou murrão

Está sempre a disparar.

De Cota o seu arcabuz

Apontado sempre está,

Que entre noite, e dia dá

Mais de quinhentos truz-truz:

Não achareis muitos cus

Tão prontos em peidos dar,

Porque jamais sem parar

Faz tão grande bateria,

Que de noite, nem de dia

Pode tal cu descansar.

Cota, essa vosso arcabuz

Parece ser encantado,

Pois sempre está carregado

Disparando tantos truz:

Arrenego de tais cus,

Porque este foi o primeiro

Cu de Moça fulieiro,

Que tivesse tal saída

Para tocar toda a vida

Por fole de algum ferreiro.

DESCREVE COM ADMIRÁVEL PROPRIEDADE OS EFEYTOS QUE CAUSOU O VINHO NO BANQUETE QUE SE DEO NA MESMA FESTA ENTRE AS JUIZAS E MORDOMAS ONDE SE EMBEBEDARAM

No grande dia do Amparo,

Estando as mulatas todas

Entre festas, e entre bodas,

Um caso sucedeu raro:

E foi, que não sendo avaro

O jantar de canjirões,

Antes fervendo em cachões,

Os brindes de mão em mão

Depois de tanta razão

Tiveram certas razões.

Macotinha a foliona

Bailou rebolando o cu

Duas horas com Jelu

Mulata também bailona:

Senão quando outra putona

Tomou posse do terreiro,

E porque ao seu pandeiro

Não quis Macota sair,

Outra saiu a renhir,

Cujo nome é Domingueiro.

Por Macotinha tão rasa

De putinha, e mais putinha,

Que a pobre Macotinha

Se tornou de puta em brasa:

Alborotando-se a casa

As mais se forma erguendo

Mas jelu, ao que eu entendo,

É valente pertinaz,

Lhe atirou logo um gilvaz

De unhas abaixo tremendo.

A mim com punhos violentos

(gritou a Puta matrona)

agora o vereis, Putona,

zás, e pôs-lhe os mandamentos:

e com tais atrevimentos

a Jelu se enfureceu,

que indo sobre ela lhe deu

punhadas tão repetidas

que ficando ambas vencidas,

cada qual delas venceu.

Acudiu um Mulatrete

Bastardo da tal Domingas,

E respingas, não respingas

De a Mulata um bofete:

Ela, fervendo o muquete,

Deu c’o Mulato de patas,

Eis aqui vêm as Sapatas,

Porque uma é sua madrinha,

E todas por certa linha

Da mesma casa mulatas.

Chegou-se a tais menoscabos

Que segundo agora ouvi,

Havia de haver ali

Uma de todos os diabos:

Mas chegando quatro cabos

De putaria anciana,

A Puta mais veterana

Disse então, que não cuidava,

Que tais efeitos causava

Vinhaça tão soberana.

Sossegada a gritaria

Houve mulata repolho,

Que, o que bebeu por um olho,

Por outro o desbebia:

Mas chorava, ou se ria,

Jamais ninguém compreendera,

Se não se vira, e soubera

Pelo vinho despendido,

Que se tinha desbebido,

Quanto vinho se bebera.

Tal cópia de jeribita

Houve naquele folguedo,

Que em nada se tem segredo,

Antes tudo se vomita:

Entre tantas Mariquita

A Juíza era de ver,

Porque vendo ali verter

O vinho, que ela comprara,

De sorte se magoara,

Que o esteve para beber.

Bertola devia estar

Faminta, e desconjuntada,

Pois vendo a pendência armada,

Tratou de se caldear:

Bebeu naquele jantar

Sete pratos não pequenos

De caldo, e sete não menos

De carne, e é de reparar

Que a pudera um só matar,

E escapar de dois setenos.

Maribonda, minha ingrata

Tão pesada ali se viu,

Que desmaiada caiu

Sobre Luzia Sapata:

Viu-se uma, e outra Mulata

Em forma de Sodomia,

E como na casa havia

Tal grita, tão confusão

Não se advertiu por então

O ferrão, que lhe metia.

Teresa a de cutilada

De sorte ali se portou,

Que de bulha se apartou

Porque era puta sagrada:

De pendência retirada

Esteve num canto posta,

Mas com cara de Lagosta

Trocava com muita graça

O vinho taça por taça,

A carne posta por posta.

Enfim, que as Pardas corridas

Saíram com seus amantes,

Sendo, que no dia d’antes

Andavam elas saídas:

E sentindo-se afligidas

Do já passado tinelo,

Votaram com todo anelo

Emenda à Virgem do Amparo,

Que no seu dia preclaro

Nunca mais bodas ao cielo.

TEVE O POETA NOTÍCIA QUE SEBASTIÃO DA ROCHA PITA SENDO RAPAZ SE ESTRAGAVA COM BETICA

Brás pastor inda donzelo,

Querendo descabaçar-se,

Viu Betica a recrear-se

Vinda ao prado de amarelo:

E tendo duro o pinguelo,

Foi lho metendo já nu,

Fossando como Tatu:

Gritou Brites, inda bem,

Que tudo sofre, quem tem

Rachadura junto ao cu.

MANAS, DEPOIS QUE SOU FREIRA

Manas, depois que sou freira

Apoleguei mil caralhos,

E acho ter os barbicalhos

Qualquer de sua maneira:

O do casado é lazeira,

Com que me canso, em encalmo,

O do Frade é como um salmo

O maior do breviário:

Mas o caralho ordinário

É do tamanho de um palmo.

Além dessa diferença,

Que de palmo a palmo achei,

Outra coisa, que encontrei,

Me tem absorta, e suspensa:

É que discorrendo a imensa

Grandeza naquele nabo,

Quando o fim vi do diabo,

Achei, que a qualquer jumento

Se lhe acaba o comprimento

Com dous redondos no cabo.

A MEDIDA PARA O MALHO

A medida para o malho

Pela taxa da Cafeira,

Que tem do malho a craveira,

São dous palmos de caralho:

Não quer nisto dar um talho,

E eu zombo do seu empenho,

Pois tendo um palmo de lenho,

Com que outras putas desalmo,

Inda que tenho um só palmo,

Não quero mais do que tenho.

COM CACHOPINHAS DE GOSTO

Com cachopinhas de gosto

Em cama de bom colchão,

Nos peitinhos posta a mão,

E o pé no fincapé posto:

Ajuntar rosto com rosto,

Dormir um homem seu sono,

Acordar, calcar-lhe o mono

Já quase ao gorgolejar,

Então é o ponderar

As excelências do cono.

Eu na minha opinião,

Segundo o meu parecer,

Digo, que não há foder,

Senão cono de enchemão:

Porque um homem com Sezão,

Inda sendo caralhudo,

Meterá culhões, e tudo,

E assim mostra a experiência,

Que do cono a excelência

Pe ser bem grande, e papudo.

É também conveniente,

Que não tenha oi parrameiro

A nota de ser traseiro,

E que seja um tanto quente:

Que às vezes mui facilmente

São tais as misérias nossas,

Que havemos mister as moças

Para regalo da pica

Como cono de pouca crica,

Apertado, bordas grossas.

Mas a maior regalia,

Que no cono se há de achar,

Para que possa levar

Dos conos a primazia

(este ponto me esquecia)

para ser perfeito em tudo,

é nunca ser achar barbudo,

por dar bom gosto ao foder,

como também deve ser

Chupão, enxuto, e carnudo.

ASSUMPTO QUE HUMA DAMA MANDOU AO POETA

Quisera, Senhor Doutor,

Uma informação, e é,

Que me deram junto ao que,

(do cu dissera melhor)

um golpe de tal rigor,

que passo mui maltratada

por me ver ali cortada:

que remédio pode ter

junto do cu cutilada.

Anda aqui um surgião

Fulano Lopes Monteiro,

Que dizem para o traseiro

Tem ele mui boa mão:

Quisera saber então,

Pois vivo tão desviada,

E como serei curada

Por uma sua receita,

Ficando sempre sujeita

A Dama da cutilada.

RESPOSTA DO POETA

Senhora Dona formosa,

Li a de vossa mercê

Com a cutilada, que

A traz tanto desgostosa:

A ferida é mui danosa,

E não é para cheirada,

Traga-me sempre abotoada,

Que é, o que mais lhe convém,

Pois nunca curou ninguém

Junto do cu cutilada. (...)

Causa grande admiração,

Como em tal parte a cascou,

Só se dormindo a apanhou,

Ou estirada no chão:

Esta é minha presunção,

Que para ali ser cortada

Devia estar estirada

Com as pernas para o ar,

Quando lhe foram cascar

Junto do cu cutilada. (...)

Algumas vezes curei

Com ovos tão grandalhões,

Que pareciam culhões,

Mas debalde me cansei:

Com mecha lhos encaixei,

Que entrava tão ajustada,

Que ia algum tanto apertada:

Mas era cansar-se em vão,

Porque ovos não curam não

Junto do cu cutilada. (...)

Mas eu tenho cá para mim,

Para que dela não morra,

Que lhe unte sebo de porra,

Ou sumo de parati:

Porque já enferma vi

Com semelhante golpada

Ficar muito consolada,

Que a experiência mostrou,

Que curar ninguém curou

Junto do cu cutilada.

(Apostila 4 do Barroco - Literatura Brasileira)

 

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Frei Manuel Calado

Frei Manuel Calado do Salvador nasceu em Vila Viçosa (Portugal), em 1584. Professou na Ordem de S. Paulo em 8 de abril de 1607. Passou cerca de trinta anos no Brasil (Bahia e Pernambuco). Esteve presente em vários acontecimentos do período da invasão holandesa em Pernambuco. Por pouco não foi condenado à morte pelos holandeses. Após a restauração pernambucana (15/07/1646) regressou à Corte e apresentou à Censura a primeira parte de sua obra acerca da guerra com os holandeses: O Valeroso Lucideno e o Triunfo da Liberdade, publicada em 1648. A obra é predominantemente em prosa, mas em alguns trechos é dominada pelo verso. De caráter clássico e barroco, varia entre o criativo poético e a narração histórica laudatória. Para Massaud Moisés "O Valeroso Lucideno encerra palpitante reportagem da guerra holandesa, levada a efeito por um cronista empenhado na exaltação do destemor português, mas que registra, como sem querer, a presença do brasileiro e a progressiva maturação de nossa linguagem literária durante o século barroco." (Hist. da Lit. Brasileira: Origens, Barroco, Arcadismo: 1990, p. 168).

Livro Quarto - Capítulo II - fragmento

Estrela matutina, é tempo agora

Que a cítara me deis, para que cante

Vossos favores, cristalina Aurora,

Que do incriado Sol vindes diante;

Se me favoreceis, Virgem Senhora,

Das escuras quadrilhas triunfante,

Cantarei docemente em voz suave,

Com saudoso acento, agudo, e grave.

Estava Lucideno sobre o leito

Do importuno trabalho descansando,

Revolvendo mil traças no conceito,

Diversos pensamentos espalhando:

Bate-lhe o coração dentro no peito,

Os sentidos lhe ocupa o sono brando,

Tanto adormeceu, sonhou que via

O Santo Português, que lhe dizia:

Como estás Lucideno descansado,

Importando-te tanto o trabalhar?

Quando o fero Holandês tem decretado

De os moradores todos degolar;

Este infausto decreto, e inopinado

Em dois dias pretende executar,

E em se mostrando ao mundo a nova Aurora

Se parte ao Arrecife sem demora.

E reformado ali de armas, e gente,

Com suas tropas posto a som de guerra,

Ardendo em ira, e em furor ardente

Os moradores matará da terra;

Portanto não te mostres negligente,

E se zelo Cristão em ti se encerra,

Corre depressa, porque senão corres

Não dirás com verdade que os socorres.

Por duas vezes viste a porta aberta

Por si, do tempo aonde me servias,

No que te prometi vitória certa

Se esta honrosa empresa acometias:

Portanto Lucideno, alerta, alerta,

E se em meu patrocínio te confias,

Parte depressa, e investe ao inimigo,

Não se acovardes, que eu serei contigo.

Tanto que o Holandês se reformar

De soldados, e armas sem demora

Determina sair a degolar

Os moradores nesse ponto, e hora:

Levanta-te, e procura caminhar

Antes que o inimigo saia fora

Aos Apopucos, Vila, e Beberibe,

Várzea, Tejupió, Capivaribe.

Livro VI - Capítulo I - fragmento

Quando o garrido arnês da Flora bela

(Alegria total da Primavera)

Tinha entregada a rorida capela

Ao mês, que entrar em Lagos não deverá,

Chegou ao Arraial com boa estrela

O forte Lucideno, aonde o espera

O morador, e os míseros soldados,

Todos ficam com vê-lo consolados.

As estâncias visita, e as provê

De mantimento, porque o traz consigo

Em abundância, e certo bem se crê,

Que é pai dos pobres, e leal amigo:

Diz-lhes que em defensão da Santa Fé

Não têm que recear a morte, ou perigo,

Que quem morre em serviço de seu Deus,

Alcança fama, e grangeia os Céus.

Todos com raro brio se oferecem

A fazer as heróicas proezas,

Com que por todo o mundo resplandecem,

As valentes espadas Portuguesas:

O socorro oportuno lhe agradecem,

Todos louvam seu ânimo, e grandezas,

Que não se ausente mais cada um lhe pede,

O qual o que lhe rogam lhes condece.

Com isto se despede, e vem tomar

Descanso da viagem que fizera,

E juntamente chega a visitar

Sua amada consorte, que o espera:

Detém-se uma só noite, e vai tratar

De celebrar (segundo prometera)

Festas a Santo Antônio Português,

Que mercês tão grandíloquas lhe fez.

Traçada a festa, senão quando vinha

De Iguarassu correndo um cavaleiro,

Que o Lucideno deiz que marche asinha,

Se quer o Belga ter por prisioneiro:

Dá-lhe aviso, em como o Belga tinha

Três naus, nas três passagens, que primeiro,

Em tempo de águas vivas, nos serviam

Por onde à Ilha os Portugueses iam.

Com esta festa, de que aqui se fala,

Era do glorioso Santo Antônio,

Notai o que ordenou para estorvá-la

O maldito, e Flamígero Demônio:

Lucideno o aviso escuta, e cala,

Qual astuto, e sagaz LacedeMõnio,

Diz-me a Musa, que fale um pouco a prosa,

Pois no escrever é mais compendiosa.

(Apostila 11 de Barroco - Literatura Brasileira)

 

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À Ilha de Maré

Manuel Botelho de Oliveira


À ILHA DE MARÉ TERMO DESTA CIDADE DA BAHIA

SILVA

Jaz oblíqua forma e prolongada

a terra de Maré toda cercada

de Netuno, que tendo o amor constante,

lhe dá muitos abraços por amante,

e botando-lhe os braços dentro dela

a pretende gozar, por ser mui bela.

Nesta assistência tanto a senhoreia,

e tanto a galanteia,

que, do mar, de Maré tem o apelido,

como quem preza o amor de seu querido:

e por gosto das prendas amorosas

fica maré de rosas,

e vivendo nas ânsias sucessivas,

são do amor marés vivas;

e se nas mortas menos a conhece,

maré de saudades lhe parece.

Vista por fora é pouco apetecida,

porque aos olhos por feia é parecida;

porém dentro habitada

é muito bela, muito desejada,

é como a concha tosca e deslustrosa,

que dentro cria a pérola fermosa.

Erguem-se nela outeiros

com soberbas de montes altaneiros,

que os vales por humildes desprezando,

as presunções do Mundo estão mostrando,

e querendo ser príncipes subidos,

ficam os vales a seus pés rendidos.

Por um e outro lado

vários lenhos se vêem no mar salgado;

uns vão buscando da Cidade a via,

outros dela se vão com alegria;

e na desigual ordem

consiste a fermosura na desordem.

Os pobres pescadores em saveiros,

em canoas ligeiros,

fazem com tanto abalo

do trabalho marítimo regalo;

uns as redes estendem,

e vários peixes por pequenos prendem;

que até nos peixes com verdade pura

ser pequeno no Mundo é desventura:

outros no anzol fiados têm

aos míseros peixes enganados,

que sempre da vil isca cobiçosos

perdem a própria vida por gulosos.

Aqui se cria o peixe regalado

com tal sustância, e gosto preparado,

que sem tempero algum para apetite

faz gostoso convite,

e se pode dizer em graça rara

que a mesma natureza os temperara.

Não falta aqui marisco saboroso,

para tirar fastio ao melindroso;

os polvos radiantes,

os lagostins flamantes,

camarões excelentes,

que são dos lagostins pobres parentes;

retrógrados cranguejos,

que formam pés das bocas com festejos,

ostras, que alimentadas

estão nas pedras, onde são geradas;

enfim tanto marisco, em que não falo,

que é vário perrexil para o regalo.

As plantas sempre nela reverdecem,

e nas folhas parecem,

desterrando do Inverno os desfavores,

esmeraldas de Abril em seus verdores,

e delas por adorno apetecido

faz a divina Flora seu vestido.

As fruitas se produzem copiosas,

e são tão deleitosas,

que como junto ao mar o sítio é posto,

lhes dá salgado o mar o sal do gosto.

As canas fertilmente se produzem,

e a tão breve discurso se reduzem,

que, porque crescem muito,

em doze meses lhe sazona o fruito,

e não quer, quando o fruto se deseja,

que sendo velha a cana, fértil seja.

As laranjas da terra

poucas azedas são, antes se encerra

tal doce nestes pomos,

que o tem clarificado nos seus gomos;

mas as de Portugal entre alamedas

são primas dos limões, todas azedas.

Nas que chamam da China

grande sabor se afina,

mais que as da Europa doces, e melhores,

e têm sempre a ventagem de maiores,

e nesta maioria,

como maiores são, têm mais valia.

Os limões não se prezam,

antes por serem muitos se desprezam.

Ah se Holanda os gozara!

Por nenhuma província se trocara.

As cidras amarelas

caindo estão de belas,

e como são inchadas, presumidas,

é bem que estejam pelo chão caídas.

As uvas moscatéis são tão gostosas,

tão raras, tão mimosas;

que se Lisboa as vira, imaginara

que alguém dos seus pomares as furtara;

delas a produção por copiosa

parece milagrosa,

porque dando em um ano duas vezes,

geram dous partos, sempre, em doze meses.

Os melões celebrados

aqui tão docemente são gerados,

que cada qual tanto sabor alenta,

que são feitos de açúcar, e pimenta,

e como sabem bem com mil agrados,

bem se pode dizer que são letrados;

não falo em Valariça, nem Chamusca:

porque todos ofusca

o gosto destes, que esta terra abona

como próprias delícias de Pomona.

As melancias com igual bondade

são de tal qualidade,

que quando docemente nos recreia,

é cada melancia uma colmeia,

e às que tem Portugal lhe dão de rosto

por insulsas abóboras no gosto.

Aqui não faltam figos,

e os solicitam pássaros amigos,

apetitosos de sua doce usura,

porque cria apetites a doçura;

e quando acaso os matam

porque os figos maltratam,

parecem mariposas, que embebidas

na chama alegre, vão perdendo as vidas.

As romãs rubicundas quando abertas

à vista agrados são, à língua ofertas,

são tesouro das fruitas entre afagos,

pois são rubis suaves os seus bagos.

As fruitas quase todas nomeadas

são ao Brasil de Europa trasladadas,

por que tenha o Brasil por mais façanhas

além das próprias fruitas, as estranhas.

E tratando das próprias, os coqueiros,

galhardos e frondosos

criam cocos gostosos;

e andou tão liberal a natureza

que lhes deu por grandeza,

não só para bebida, mas sustento,

o néctar doce, o cândido alimento.

De várias cores são os cajus belos,

uns são vermelhos, outros amarelos,

e como vários são nas várias cores,

também se mostram vários nos sabores;

e criam a castanha,

que é melhor que a de França, Itália, Espanha.

As pitangas fecundas

são na cor rubicundas

e no gosto picante comparadas

são de América ginjas disfarçadas.

As pitombas douradas, se as desejas,

são no gosto melhor do que as cerejas,

e para terem o primor inteiro,

a ventagem lhes levam pelo cheiro.

Os araçazes grandes, ou pequenos,

que na terra se criam mais ou menos

como as pêras de Europa engrandecidas,

com elas variamente parecidas,

de várias castas marmeladas belas.

As bananas no Mundo conhecidas

por fruto e mantimento apetecidas,

que o céu para regalo e passatempo

liberal as concede em todo o tempo,

competem com maçãs, ou baonesas

com peros verdeais ou camoesas.

Também servem de pão aos moradores,

se da farinha faltam os favores;

é conduto também que dá sustento,

como se fosse próprio mantimento;

de sorte que por graça, ou por tributo,

é fruto, é como pão, serve em conduto.

A pimenta elegante

é tanta, tão diversa, e tão picante,

para todo o tempero acomodada,

que é muito aventajada

por fresca e por sadia

à que na Asia se gera, Europa cria.

O mamão por freqüente

se cria vulgarmente,

e não o preza o Mundo,

porque é muito vulgar em ser fecundo.

O marcujá também gostoso e frio

entre as fruitas merece nome e brio;

tem nas pevides mais gostoso agrado,

do que açúcar rosado;

é belo, cordial, e como é mole,

qual suave manjar todo se engole.

Vereis os ananases,

que para rei das fruitas são capazes;

vestem-se de escarlata

com majestade grata,

que para ter do Império a gravidade

logram da croa verde a majestade;

mas quando têm a croa levantada

de picantes espinhos adornada,

nos mostram que entre Reis, entre Rainhas

não há croa no Mundo sem espinhas.

Este pomo celebra toda a gente,

é muito mais que o pêssego excelente,

pois lhe leva aventagem gracioso

por maior, por mais doce, e mais cheiroso.

Além das fruitas, que esta terra cria,

também não faltam outras na Bahia;

a mangava mimosa

salpicada de tintas por fermosa,

tem o cheiro famoso,

como se fora almíscar oloroso;

produze-se no mato

sem querer da cultura o duro trato,

que como em si toda a bondade apura,

não quer dever aos homens a cultura.

Oh que galharda fruita, e soberana

sem ter indústria humana,

e se Jove as tirara dos pomares,

por ambrósia as pusera entre os manjares!

Com a mangava bela a semelhança

do macujé se alcança;

que também se produz no mato inculto

por soberano indulto:

e sem fazer ao mel injusto agravo,

na boca se desfaz qual doce favo.

Outras fruitas dissera, porém, basta

das que tenho descrito a vária casta;

e vamos aos legumes, que plantados

são do Brasil sustentos duplicados:

os mangarás que brancos, ou vermelhos,

são da abundância espelhos;

os cândidos inhames, se não minto,

podem tirar a fome ao mais faminto.

As batatas, que assadas, ou cozidas

são muito apetecidas;

delas se faz a rica batatada

das Bélgicas nações solicitada.

Os carás, que de roxo estão vestidos,

são lóios dos legumes parecidos,

dentro são alvos, cuja cor honesta

se quis cobrir de roxo por modesta.

A mandioca, que Tomé sagrado

deu ao gentio amado,

tem nas raízes a farinha oculta:

que sempre o que é feliz, se dificulta.

E parece que a terra de amorosa

se abraça com seu fruto deleitosa;

dela se faz com tanta atividade

a farinha, que em fácil brevidade

no mesmo dia sem trabalho muito

se arranca, se desfaz, se coze o fruito;

dela se faz também com mais cuidado

o beiju regalado,

que feito tenro por curioso amigo

grande ventagem leva ao pão de trigo.

Os aipins se aparentam

coa mandioca, e tal favor alentam,

que tem qualquer, cozido, ou seja assado,

das castanhas da Europa o mesmo agrado.

O milho, que se planta sem fadigas,

todo o ano nos dá fáceis espigas,

e é tão fecundo em um e em outro filho,

que são mãos liberais as mãos de milho.

O arroz semeado

fertilmente se vê multiplicado;

cale-se de Valença, por estranha

o que tributa a Espanha,

cale-se do Oriente

o que come o gentio, e a lísia gente;

que o do Brasil quando se vê cozido

como tem mais substância, é mais crescido.

Tenho explicado as fruitas e legumes,

que dão a Portugal muitos ciúmes;

tenho recopilado

o que o Brasil contém para invejado,

e para preferir a toda a terra,

em si perfeitos quatro AA encerra.

Tem o primeiro A, nos arvoredos

sempre verdes aos olhos, sempre ledos;

tem o segundo A, nos ares puros

na tempérie agradáveis e seguros;

tem o terceiro A, nas águas frias,

que refrescam o peito, e são sadias;

o quatro A, no açúcar deleitoso,

que é do Mundo o regalo mais mimoso.

São pois os quatro AA por singulares

Arvoredos, Açúcar, Águas, Ares.

Nesta ilha está mui ledo, e mui vistoso

um Engenho famoso,

que quando quis o fado antigamente

era Rei dos engenhos preminente,

e quando Holanda pérfida e nociva

o queimou, renasceu qual Fênix viva.

Aqui se fabricaram três capelas

ditosamente belas,

uma se esmera em fortaleza tanta,

que de abóbada forte se levanta;

da Senhora das Neves se apelida,

renovando a piedade esclarecida,

quando em devoto sonho se viu posto

o nevado candor no mês de agosto.

Outra capela vemos fabricada,

A Xavier ilustre dedicada,

que o Maldonado Pároco entendido

este edifício fez agradecido

a Xavier, que foi em sacro alento

glória da Igreja, do Japão portento.

Outra capela aqui se reconhece,

cujo nome a engrandece,

pois se dedica à Conceição sagrada

da Virgem pura sempre imaculada,

que foi por singular e mais fermosa

sem manchas lua, sem espinhos rosa.

Esta Ilha de Maré, ou de alegria,

que é termo da Bahia,

tem quase tudo quanto o Brasil todo,

que de todo o Brasil é breve apodo;

e se algum-tempo Citeréia a achara,

por esta sua Chipre desprezara,

porém tem com Maria verdadeira

outra Vênus melhor por padroeira.


FIM

(Apostila 5 de Barroco - Literatura Brasileira)

 

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Manuel Botelho de Oliveira

A Santa Maria Madalena aos Pés de Cristo

Soneto XCVII

Solicita, procura, reconhece,
com desvelo, com ânsia, com ventura,
sem temor, sem soberba, sem loucura,
a quem ama, a quem crê, por quem padece.

Ajoelha-se, chora, se enternece,
com pranto, com afeto, com ternura,
e se foi indiscreta, falsa, impura,
despe o mal, veste a graça, o bem conhece.

A seu Mestre, a seu Deus, a seu querido,
rega os pés, ais derrama, geme logo,
sem melindre, sem medo, sem sentido.

Por assombro, por fé, por desafogo,
nos seus olhos, na boca, no gemido,
água brota, ar respira, exala fogo.

Anarda Vendo-se a um Espelho

Décima 1
De Anarda o rosto luzia
No vidro que o retratava,
E tão belo se ostentava,
Que animado parecia:
Mas se em asseios do dia
No rosto o quarto farol
Vê seu lustroso arrebol;
Ali pondera meu gosto
O vidro, espelho do rosto,
O rosto, espelho do Sol.

2
É da piedade grandeza
Nesse espelho ver-se Anarda,
Pois ufano o espelho guarda
Duplicada a gentileza:
Considera-se fineza,
Dobrando as belezas suas,
Pois contra as tristezas cruas
Dos amorosos enleios
Me repete dous recreios,
Me oferece Anardas duas.

3
De sorte que sendo amante
Da beleza singular,
Posso outra beleza amar
Sem tropeços de inconstante;
E sendo outra vez triunfante
Amor do peito que adora
Ua Anarda brilhadora,
Em dous rostos satisfeitos,
Se em um fogo ardia o peito,
Em dous fogos arde agora.

4
Porém depois, rigorosas,
Deixando o espelho lustroso,
Oh como fica queixoso,
Perdendo a cópia fermosa!
Creio pois que na amorosa
Lei o cego frechador,
Que decreta único ardor,
Não quis a imagem que inflama,
Por extinguir outra chama,
Por estorvar outro amor.

Às Lágrimas Devotas

Soneto CXIV

Lágrimas se derramem, que o pecado
sabem lavar com sentimento puro,
que não há nódoa negra, ou rastro impuro
que não seja das lágrimas lavado.

Chorou Davi, e foi santificado,
chorou Pedro, e ficou no amor, seguro,
Madalena chorou, e o fogo impuro
em puríssimo fogo foi mudado.

Ficam no amor as almas mais absortas
quando as lágrimas correm sucessivas
sendo portas do Céu, do pranto as portas.

Cresce a graça nas lágrimas ativas
que se as culpas mortais são águas mortas,
as lágrimas da dor são águas vivas.

Contra os Julgadores

Soneto XII

Que julgas, ó ministro de Justiça?
Por que fazes das leis arbítrio errado?
Cuidas que dás sentença sem pecado,
Sendo que algum respeito mais te atiça?

Para obrar os enganos da injustiça,
Bem que teu peito vive confiado,
O entendimento tens todo arrastado
Por amor, ou por ódio, ou por cobiça.

Se tens amor, julgaste o que te manda;
Se tens ódio, no inferno tens o pleito,
Se tens cobiça, é bárbara, execranda.

Oh miséria fatal de todo o peito!
Que não basta o direito da demanda,
Se o julgador te nega esse direito.

Rosa, e Anarda

Soneto XX

Rosa da fermosura, Anarda bela
Igualmente se ostenta como a rosa;
Anarda mais que as flores é fermosa,
Mais fermosa que as flores brilha aquela,

A rosa com espinhos se desvela,
Arma-se Anarda espinhos de impiedosa;
Na fronte Anarda tem púrpura airosa,
A rosa é dos jardins purpúrea estrela.

Brota o carmim da rosa doce alento.
Respira olor de Anarda o carmim breve,
Ambas dos olhos são contentamento:

Mas esta diferença Anarda teve:
Que a rosa deve ao sol seu luzimento,
O sol seu luzimento a Anarda deve.

Vendo a Anarda Depõe o Sentimento

A serpe, que adornando várias cores,
Com passos mais oblíquos, que serenos,
Entre belos jardins, prados amenos,
É maio errante de torcidas flores;

Se quer matar da sede os desfavores,
Os cristais bebe co'a peçonha menos,
Porque não morra cos mortais venenos,
Se acaso gosta dos vitais licores.

Assim também meu coração queixoso,
Na sede ardente do feliz cuidado
Bebe cos olhos teu cristal fermoso;

Pois para não morrer no gosto amado,
Depõe logo o tormento venenoso,
Se acaso gosta o cristalino agrado.

(Apostila 6 de Barroco - Literatura Brasileira)

 

 

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Manuel de Santa Maria Itaparica

Descrição da Ilha de Itaparica

Canto Heróico

I
Cantar procuro, descrever intento,
Em um Heróico verso e sonoroso,
Aquela que me deu o nascimento,
Pátria feliz, que tive por ditoso:
Ao menos co'este humilde rendimento
Quero mostrar lhe sou afetuoso,
Porque é de ânimo vil e fementido
O que à Pátria não é agradecido.

II

Se nasceste no Ponto, ou Líbia ardente,
Se no Píndaro viste a aura primeira,
Se nos Alpes, ou Etna comburente,
Princípio houveste na vital carreira,
Nunca queiras, Leitor, ser delinqüente,
Negando a tua Pátria verdadeira,
Que assim mostras herdaste venturoso
Ânimo heróico, peito generoso.

III

Musa, que no florido de meus anos
Teu furor tantas vezes me inspiraste,
E na idade em que vêm os desenganos
Também sempre fiel me acompanhaste,
Tu, que influxos repartes soberanos
Desse monte Hélicon, que já pisaste,
Agora me concede o que te peço,
Para seguir seguro o que começo.

IV

Em o Brasil, Província desejada
Pelo metal luzente, que em si cria,
Que antigamente descoberta e achada
Foi de Cabral, que os mares discorria,
Perto donde está hoje situada
A opulenta e ilustríssima Bahia,
Jaz a ilha chamada Itaparica,
A qual no nome tem também ser rica.

V

Está posta bem defronte da Cidade,
Só três léguas distante e os moradores
Daquela a esta vêm com brevidade,
Se não faltam do Zéfiro os favores;
E ainda quando com ferocidade
Éolo está mostrando os seus rigores,
Para a Côrte navegam, sem que cessem,
E parece que os ventos lhe obedecem.

VI

Por uma e outra parte rodeada
De Netuno se vê tão arrogante,
Que algumas vezes com porcela irada
Enfia o melancólico semblante;
E com a tem por sua, e tão amada,
Por lhe pagar fiel foros de amante,
Muitas vezes também serenamente
Tem encostado nela o seu Tridente.

VII

Se a Deusa Citeréia conhecera
Desta Ilha celebrada a formosura,
Eu fico que a Netuno prometera
O que a outros negou cruel e dura:
Então de boa mente lhe oferecera
Entre incêndios de fogo a neve pura,
E se de alguma sorte a alcançara,
Por esta a sua Chipre desprezara.

VIII

Pela costa do mar a branca areia
É para a vista objeto delicioso,
Onde passeia a Ninfa Galatéia
Com acompanhamento numeroso;
E quanto mais galante se recreia
Com aspecto gentil, donaire airoso,
Começa a semear das roupas belas
Conchinhas brancas, ruivas e amarelas.

IX

Aqui se cria o peixe copioso,
E os vastos pescadores em saveiros
Não receando o Elemento undoso,
Neste exercício estão dias inteiros;
E quando Áquilo e Bóreas proceloso
Com fúria os acomete, eles ligeiros
Colhendo as velas brancas, ou vermelhas,
Se acomodam cos remos em parelhas.

X

Neste porém marítimo regalo
Uns as redes estendem diligentes,
Outros com força, indústria e intervalo
Estão batendo as ondas transparentes:
Outros noutro baixel sem muito abalo
Levantam cobiçosos e contentes
Uma rede, que chamam Zangareia,
Para os saltantes peixes forte teia.

XI

Qual aranha sagaz e ardilosa
Nos ares forma com sutil fio
Um labirinto tal, que a cautelosa
Mosca nele ficou sem alvedrio,
E assim com esta manha industriosa
Da mísera vem ter o senhorio,
Tais são com esta rede os pescadores
Para prender os mudos nadadores.

XII

Outros também por modo diferente,
Tendo as redes lançadas em seu seio,
Nas coroas estão postos firmemente,
Sem que tenham o pélago receio:
Cada qual puxa as cordas diligente,
E os peixes vão fugindo para o meio,
'Té que aos impulsos do robusto braço
Vêm a colher os míseros no laço.

XIII

Nos baixos do mar outros tarrafando,
Alerta a vista e os passos vagarosos,
Vão uns pequenos peixes apanhando,
Que para o gosto são deliciosos:
Em canoas também de quando em quando
Fisgam no anzol alguns, que por gulosos
Ficam perdendo aqui as próprias vidas,
Sem o exemplo quererem ter de Midas.

XIV

Aqui se acha o marisco saboroso,
Em grande cópia e de casta vária,
Que para saciar ao apetitoso,
Não se duvida é coisa necessária:
Também se cria o lagostim gostoso,
Junto co'a ostra, que por ordinária
Não é muito estimada, porém antes
Em tudo cede aos polvos radiantes.

XV

Os camarões não fiquem esquecidos,
Que tendo crus a cor pouco vistosa,
Logo vestem depois que são cozidos
A cor do nácar, ou da Tíria rosa:
Os c'ranguejos nos mangues escondidos
Se mariscam sem arte industriosa,
Búzios também se vêem, de musgos sujos,
Cernambis, mexilhões e caramujos.

XVI

Também pertence aqui dizer ousado
Daquele peixe, que entre a fauce escura
O Profeta tragou Jonas sagrado,
Fazendo-lhe no ventre a sepultura;
Porém sendo do Altíssimo mandado,
O tornou a lançar são sem lesura
(Conforme nos afirma a Antigüidade)
Em as praias de Nínive Cidade.

XVII

Monstro do mar, Gigante do profundo,
Uma torre nas ondas soçobrada,
Que parece em todo o âmbito rotundo
Jamais besta tão grande foi criada:
Os mares despedaça furibundo
Co'a barbatana às vezes levantada,
Cujos membros tetérrimos e broncos
Fazem a Tétis dar gemidos roncos.

XVIII

Baleia vulgarmente lhe chamamos,
Que como só a esta Ilha se Sujeita,
Por isso de direito a não deixamos,
Por ser em tudo a descrição perfeita;
E que para bem claro percebamos
O como a pescaria dela é feita,
Quero dar com estudo não ocioso
Esta breve notícia ao curioso.

XIX

Tanto que chega o tempo decretado,
Que este peixe do vento Austro é movido,
Estando à vista de Terra já chegado,
Cujos sinais Netuno dá ferido,
Em um porto desta Ilha assinalado,
E de todo o preciso prevenido,
Estão umas lanchas leves e veleiras,
Que fazem c'os remos mais ligeiras.

XX

Os Nautas são Etíopes robustos,
E outros mais do sangue misturado,
Alguns Mestiços em a cor adustos,
Cada qual pelo esforço assinalado:
Outro ali vai também, que sem ter sustos
Leva o arpão da corda pendurado,
Também um, que no ofício a Glauco ofusca,
E para isto Brásilo se busca.

XXI

Assim partem intrépidos sulcando
Os palácios da linda Panopéia,
Com cuidado solícito vigiando
Onde ressurge a sólida Baleia.
Ó gente, que furor tão execrando
A um perigo tal se sentenceia?
Como, pequeno bicho, és atrevido
Contra o monstro do mar mais destemido?

XXII

Como não temes ser despedaçado
De um animal tão feio e tão imundo?
Por que queres ir ser precipitado
Nas íntimas entranhas do profundo?
Não temes, se é que vives em pecado,
Que o Criador do Céu e deste Mundo,
Que tem dos mares todos o governo,
Desse lago te mande ao lago Averno?

XXIII

Lá intentaram fortes os Gigantes
Subir soberbos ao Olimpo puro,
Acometeram outros de ignorantes
O Reino de Plutão horrendo e escuro;
E se estes atrevidos e arrogantes
O castigo tiveram grave e duro,
Como não temes tu ser castigado
Pelos monstros também do mar salgado?

XXIV

Mas enquanto com isto me detenho,
O temerário risco admoestando,
Eles de cima do ligeiro lenho
Vão a Baleia horrível avistando:
Pegam nos remos com forçoso empenho,
E todos juntos com furor remando
A seguem por detrás com tal cautela,
Que imperceptíveis chegam junto dela.

XXV

O arpão farpado tem nas mãos suspenso
Um, que da proa o vai arremessando,
Todos os mais deixando o remo extenso
Se vão na lancha súbito deitando;
E depois que ferido o peixe imenso
O veloz curso vai continuando,
Surge cad'um com fúria e força tanta,
Que como um Anteu forte se levanta.

XXVI

Corre o monstro com tal ferocidade,
Que vai partindo o úmido Elemento,
E lá do pego na concavidade
Parece mostrar Tétis sentimento:
Leva a lancha com tal velocidade,
E com tão apressado movimento,
Que cá de longe apenas aparece,
Sem que em alguma parte se escondesse.

XXVII

Qual o ligeiro pássaro amarrado
Com um fio sutil, em cuja ponta
Vai um papel pequeno pendurado,
Voa veloz sentindo aquela afronta,
E apenas o papel, que vai atado,
Se vê pela presteza, com que monta,
Tal o peixe afrntado vai correndo
Em seus membros atada a lancha tendo.

XXVIII

Depois que com o curso dilatado
Algum tanto já vai desfalecendo,
Eles então com força e com cuidado
A corda pouco a pouco vão colhendo;
E tanto que se sente mais chegado,
Ainda com fúria os mares combatendo,
Nos membros moles lhe abre uma rotura
Um novo Aquiles c'uma lança dura.

XXIX

De golpe sai de sangue uma espadana,
Que vai tingindo o Oceano ambiente,
Com o qual se quebranta a fúria insana
Daquele horrível peixe, ou besta ingente;
E sem que pela plaga Americana
Passado tenha de Israel a gente,
A experiência e vista certifica
Que é o mar vermelho o mar de Itaparica.

XXX

Aos repetidos rasgos desta lança
A vital aura vai desamparando,
'Té que fenece o monstro sem tardança,
Que antes andava os mares açoitando:
Eles puxando a corda com pujança
O vão da lancha mais perto arrastando,
Que se lhe fiou Cloto o longo fio,
Agora o colhe Láquesis com brio.

XXXI

Eis agora também no mar saltando
O que de Glauco tem a habilidade,
Com um agudo ferro vai furando
Dos queixos a voraz monstruosidade:
Com um cordel depois, grosso e não brando,
Da boca cerra-lhe a concavidade,
Que se o mar sorve no gasnate fundo
Busca logo as entranhas do profundo.

XXXII

Tanto que a presa tem bem subjugada
Um sinal branco lançam vitoriosos,
E outra lancha para isto decretada
Vem socorrer com cabos mais forçosos:
Uma e outra se parte emparelhada,
Indo à vela, ou c'os remos furiosos,
E pelo mar serenas navegando
Para terra se vão endireitando.

XXXIII

Cada um se mostra no remar constante,
Se lhe não tem o Zéfiro assoprado,
E com fadigas e suor bastante
Vem a tomar o porto desjado.
Deste em espaço não muito distante,
Em o terreno mais acomodado
Uma Trusátil máquina esta posta
Só para esta função aqui deposta.

XXXIV

O pé surge da terra para fora
Uma versátil roda sustentando,
Em cujo âmbito longo se encoscora
Uma amarra, que a vai arrodeando:
A esta mesma roda cá de fora
Homens dez vezes cinco estão virando,
E quanto mais a corda se repuxa,
Tanto mais para a terra o peixe puxa.

XXXV

Assim com esta indústria vão fazendo
Que se chegue ao lugar determinado,
E as enchentes Netuno recolhendo,
Vão subindo por um e outro lado:
Outros em borbotão já vêm trazendo
Facas luzidas e o braçal machado,
E cada qual ligeiro se aparelha
Para o que seu ofício lhe aconselha.

XXXVI

Assim dispostos uns, que África cria,
Dos membros nus, o couro denegrido,
Os quais queimou Faeton, quando descia
Do terrífico raio submergido,
Com algazarra muita e gritaria,
Fazendo os instrumentos grão ruído,
Uns aos outros em ordem vão seguindo,
E os adiposos lombos dividindo.

XXXVII

O povo que se ajunta é infinito,
E ali têm muitos sua dignidade,
Os outros vêm do Comarcão distrito,
E despovoam parte da Cidade:
Retumba o ar com o contínuo grito,
Soa das penhas a concavidade,
E entre eles todos tal furor se acende,
Que às vezes um ao outro não se entende.

XXXVIII

Qual em Babel o povo, que atrevido
Tentou subir ao Olimpo transparente,
Cujo idioma próprio pervertido
Foi uma confusão balbuciante,
Tal nesta torre, ou monstro desmedido,
Levanta as vozes a confusa gente,
Que seguindo cad'um diverso dogma
Falar parece então noutro idioma.

XXXIX

Desta maneira o peixe se reparte
Por toda aquela cobiçosa gente,
Cabendo a cada qual aquela parte,
Que lhe foi consignada do regente:
As banhas todas se depõem à parte,
Que juntas formam um acervo ingente,
Das quais se faz azeite em grande cópia,
Do que esta Terra não padece inópia.

XL

Em vasos de metal largos e fundos
O estão com fortes chamas derretendo
De uns pedaços pequenos e fecundos,
Que o fluido licor vão escorrendo:
São uns feios Etíopes e imundos,
Os que estão este ofício vil fazendo,
Cujos membros de azeite andam untados,
Daquelas cirandagens salpicados.

XLI

Este peixe, este monstro agigantado
Por ser tão grande tem valia tanta,
Que o valor a que chega costumado
Até quase mil áureos se levanta.
Quem de ouvir tanto não sai admirado?
Quem de um peixe tão grande não se espanta?
Mas enquanto o Leitor fica pasmando,
Eu vou diversas cousas relatando.

XLII

Em um extremo desta mesma Terra
Está um forte soberbo fabricado,
Cuja bombarda, ou máquina de guerra,
Abala a Ilha de um e outro lado:
Tão grande fortaleza em si encerra
De artilharia e esforço tão sobrado,
Que retumbando o bronze furibundo
Faz ameaço á terra, ao mar, ao Mundo.

XLIII

Não há nesta Ilha engenho fabricado
Dos que o açúcar fazem saboroso,
Porque um, que ainda estava levantado,
Fez nele o seu oficio o tempo iroso:
Outros houve também, que o duro fado
Por terra pôs, cruel e rigoroso,
E ainda hoje um, que foi mais soberano,
Pendura as cinzas por painel Troiano.

XLIV

Claras as águas são e transparentes,
Que de si manam copiosas fontes,
Umas regam os vales adjacentes,
Outras descendo vêm dos altos montes;
E quando com seus raios refulgentes,
As doura Febo abrindo os Horizontes,
Tão cristalinas são, que aqui difusa
Parece nasce a fonte da Aretusa.

XLV

Pela relva do campo mais viçoso
O gado junto e pingue anda pastando,
O roubador de Europa furioso,
E o que deu o véu de ouro em outro bando,
O bruto de Netuno generoso
Vai as areias soltas levantando,
E nos bosques as leras Ateonéias
A República trilham das Napéias.

XLVI

Aqui o campo florido se semeia
De brancas açucenas e boninas,
Ali no prado a rosa mais franqueia
Olorizando as horas matutinas:
E quando Clóris mais se galanteia,
Dando da face exalações divinas,
Dos ramos no regaço vai colhendo
O Clavel e o jasmim, que está pendendo.

XLVII

As frutas se produzem copiosas,
De várias castas e de várias cores,
Umas se estimam muito por cheirosas,
Outras levam vantagem nos sabores:
São tão belas, tão lindas e formosas,
Que estão causando à vista mil amores,
E se nos prados Flora mais blasona,
São os pomares glória de Pomona.

XLVIII

Entre elas todas têm lugar subido
As uvas doces, que esta Terra cria,
De tal sorte, que em número crescido
Participa de muitas a Bahia:
Este fruto se gera apetecido
Duas vezes no ano sem profia,
E por isso e do povo celebrado,
E em toda a parte sempre nomeado.

XLIX

Os coqueiros compridos e vistosos
Estão por reta série ali plantados,
Criam cocos galhardos e formosos,
E por maiores são mais estimados:
Produzem-se nas praias copiosos,
E por isso os daqui mais procurados,
Cedem na vastidão à bananeira,
A qual cresce e produz desta maneira.

L

De uma lança ao tamanho se levanta,
Estúpeo e roliço o tronco tendo,
As lisas folhas têm grandeza tanta,
Que até mais de onze palmos vão crescendo:
Da raiz se lhe erige nova planta,
Que está o parto futuro prometendo,
E assim que o fruto lhe sazona e cresce,
Como das plantas víbora fenece.

LI

Os limões doces muito apetecidos
Estão Virgíneas tetas imitando,
E quando se vêem crespos e crescidos,
Vão as mãos curiosas incitando:
Em árvores copadas, que estendidos
Os galhos têm, e as ramas arrastando,
Se produzem as cidras amarelas,
Sendo tão presumidas como belas.

LII

A laranjeira tem no fruto louro
A imitação dos pomos de Atalanta,
E pela cor, que em si conserva de ouro,
Por isso estimação merece tanta:
Abre a romã da casca o seu tesouro,
Que do rubi a cor flamante espanta,
E quanto mais os bagos vai fendendo,
Tanto vai mais formosa parecendo.

LIII

Os melões excelentes e olorosos
Fazem dos próprios ramos galaria.
Também estende os seus muito viçosos
A pevidosa e doce melancia:
Os figos de cor roxa graciosos
Poucos se logram, salvo se à porfia
Se defendem de que com os biquinhos
Os vão picando os leves passarinhos.

LIV

No ananás se vê como formada
Uma coroa de espinhos graciosa,
A superfície tendo matizada
Da cor, que Citeréia deu à rosa:
E sustentando a c'roa levantada
Junto co'a vestidura decorosa,
Está mostrando tanta gravidade,
Que as frutas lhe tributam Majestade.

LV

Também entre as mais frutas as jaqueiras
Dão pelo tronco a jaca adocicada,
Que vindo lá de partes estrangeiras
Nesta Província é fruta desejada:
Não fiquem esquecidas as mangueiras,
Que dão a manga muito celebrada,
Pomo não só ao gosto delicioso,
Mas para o cheiro almíscar oloroso.

LVI

Inumeráveis são os cajus belos,
Que estão dando prazer por rubicundos,
Na cor também há muitos amarelos,
E uns e outros ao gosto são jucundos;
E só bastava para apetecê-los
Serem além de doces tão fecundos,
Que em si têm a Brasílica castanha
Mais saborosa que a que cria Espanha.

LVII

Os araçás diversos e silvestres,
Uns são pequenos, outros são maiores:
Oitis, cajás, pitangas, por agrestes,
Estimadas não são dos moradores:
Aos mar'cujás chamar quero celestes,
Porque contêm no gosto tais primores,
Que se os Antigos na Ásia os encontraram,
Que era o néctar de Jove imaginaram.

LVIII

Outras frutas dissera, mas agora
Têm lugar os legumes saborosos,
Porém por não fazer nisto demora
Deixo esta explicação aos curiosos;
Mas, contudo, dizer quero por ora
Que produz esta Terra copiosos
Mandioca, inhames, favas e carás,
Batatas, milho, arroz e mangarás.

LIX

O arvoredo desta Ilha rica e bela
Em circuito toda a vai ornando,
De tal maneira, que só basta vê-la
Quando já está alegrias convidando:
Os passarinhos que se criam nela
De raminho em raminho andam cantando,
E nos bosques e brenhas não se engana
Quem exercita o oficio de Diana.

LX

Tem duas Freguesias muito extensas,
Das quais uma Matriz mais soberana
Se dedica ao Redentor, que a expensas
De seu Sangue remiu a prole humana;
E ainda que do tempo sinta ofensas
A devoção com ela não se engana,
Porque tem uma Imagem milagrosa
Da Santa Vera-Cruz para ditosa.

LXI

A Santo Amaro a outra se dedica,
A quem venerações o povo rende,
Sendo tão grande a Ilha Itaparica,
Que a uma só Paróquia não se estende:
Mas com estas Igrejas só não fica,
Porque Capelas muitas compreende,
E nisto mostram seus habitadores
Como dos Santos são veneradores.

LXII

Dedica-se a primeira àquele Santo
Mártir, que em vivas chamas foi aflito,
E ao Tirano causou terror e espanto,
Quando por Cristo foi assado e frito.
Também não fique fora de meu canto
Uma, que se consagra a João bendito,
E outra (correndo a Costa para baixo)
Que à Senhora se dá do Bom Despacho.

LXIII

Outra a Antônio Santo e glorioso
Tem por seu Padroeiro e Advogado,
Está fundada num sitio delicioso,
Quer por esta Capela é mais amado.
Em um terreno alegre e gracioso
Outra se fabricou de muito agrado.
Das Mercês à Senhora verdadeira
É desta Capelinha a Padroeira.

LXIV

Também outra se vê, que é dedicada
À Senhora da penha milagrosa,
A qual airosamente situada
Está numa planície especiosa.
Uma também de São José chamada
Há nesta Ilha, por certo gloriosa,
Junta com outra de João, que sendo
Duas, se vai de todo engrandecendo.

LXV

Até aqui, Musa; não me é permitido
Que passe mais avante a veloz pena,
A minha Pátria tenho definido
Com esta descrição breve e pequena;
E se o tê-la tão pouco engrandecido
Não me louva, mas antes me condena,
Não usei termos de Poeta esperto,
Fui historiador em tudo certo.

FIM

 

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Manuel de Santa Maria Itaparica

À Morte de Sua Majestade Fidelíssima

In nidulo meo moriar, & sicut
Phaenix multiplicabo dies meos.
Job. 29.18.

Ambulabimus in viis Domini in
aeternum, & ultra.
Mich. 4.5.


Morreu em fim o Rei dos Lusitanos,
Mas como homem não sentiu a morte,
Como Fênix morreu, que desta sorte.
Acrescentou morrendo os próprios anos.

Um Rei tão singular entre os humanos,
Se acabara de parca ao duro corte,
Fora tão grande o sentimento, e forte,
Que causara no mundo imensos danos.

Mas como a Fênix já desfalecida
Deste modo acrescenta a sua idade,
Não se sente esta morte, é aplaudida:

Oh! mitigue-se a nossa saudade,
Que deu o nosso Rei, perdendo a vida
Tão cedo, mais aumento à eternidade.

EUSTAQUIDOS

Canto Segundo

(...)

IV
Jaz no centro da Terra uma caverna
De áspero, tosco e lúgubre edifício,
Onde nunca do Sol entrou lucerna,
Nem de pequena luz se viu indício.
Ali o horror e a sombra é sempiterna
Por um pungente e fúnebre artifício,
Cujas fenestras, que tu Monstro inflamas,
Respiradouros são de negras chamas.

V
Rodeiam este Alcáçar desditoso
Lagos imundos de palustres águas,
Onde um tremor e horror caliginoso
Penas descobre, desentranha mágoas:
Fontes heladas, fumo tenebroso,
Congelam ondas, e maquinam fráguas.
Mesclando em um confuso de crueldades
Chamas a neve, o fogo frieldades.

VI
Ardente serpe de sulfúreas chamas
Os centros gira deste Alvergue umbroso,
São as faíscas hórridas escamas,
E o fumo negro dente venenoso:
As lavaredas das volantes flamas
Asas compõem ao Monstro tenebroso,
Que quanto queima, despedaça e come,
Isso mesmo alimenta, que consome.

VII
Um negro arroio em pálida corrente
Irado ali se troce tão furioso,
Que é no que morde horrífica serpente,
E no que inficiona Áspide horroroso:
Fétido vapor, negro e pestilente
Exala de seu seio tão raivoso,
Que lá no centro sempre agonizado
De peste e sombras mostra ser formado.

(...)

Canto Quinto

XIII
Em um vasto me achei, e novo Mundo,
De nós desconhecido e ignorado,
Em cujas praias bate um mar profundo,
Nunca ategora de algum lenho arado:
O clima alegre, fértil e jucundo,
E o chão de árvores muitas povoado,
E no verdor das folhas julguei que era
Ali sempre contínua a Primavera.

XIV
Delas estavam pomos pendurados
Diversos na fragrância e na pintura,
Nem dos homens carecem ser plantados,
Mas agrestes se dão, e sem cultura;
E entre os troncos muitos levantados,
Que ainda a fantasia me figura,
Havia um pau de tinta mui fecunda,
Transparente na cor, e rubicunda.

XV
Pássaros muitos de diversas cores
Se viam várias ondas transformando,
E dos troncos suavíssimos licores
Em cópia grande estavam dimanando:
Peixes vi na grandeza superiores,
E animais quadrúpedes saltando,
A Terra tem do metal louro as veias,
Que de alguns rios se acha nas areias.

XVI
E quando a vista estava apascentando
Destas cousas na alegre formosura,
Um velho vi, que andava passeando,
De desmarcada e incógnita estatura:
Com sobressalto os olhos fui firmando
Naquela sempre móvel criatura,
E pareceu-me, se bem reparava,
Que vários rostos sempre me mostrava.

(...)

XVIII
Fiquei desta visão maravilhado,
Como quem de tais Monstros não sabia,
E logo perguntei sobressaltado
Quem era, que buscava, e que queria?
Ele virando o rosto remendado,
De cor da escura noute e claro dia,
Que eu era, respondeu, quem procurava,
E que Póstero, disse, se chamava.

(...)

XXII
Este pois lá num século futuro,
Posto que dela ausente e apartado,
Porque cos filhos sempre foi perjuro
O pátrio chão, e os trata sem agrado,
Por devoção intrínseca, e amor puro,
Talvez do Deus, que adoras, inspirado,
De ti e desses dous dessa pousada
Há de cantar com lira temperada.

XXIII
Aqui fez termo o velho, sufocando
A voz dentro do escuro e oculto peito,
Nunca do seu passeio descansando,
Nem quando me explicava o alto conceito:
Eu do letargo atônito despertando
Me alegrei de ver cousas deste jeito,
E vede que julgais, ó companheiros,
Que os sonhos são

às vezes verdadeiros.

(Apostila 7 de Barroco - Literatura Brasileira)

 

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ANTONIO VIEIRA

Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal Contra as De Holanda (trecho)

Tirais também o Brasil aos portugueses, que assim estas terras vastíssimas, como as remotíssimas do Oriente, as conquistaram à custa de tantas vidas e tanto sangue, mais por dilatar vosso nome e vossa fé — que esse era o zelo daqueles cristianíssimos reis — que por amplificar e estender seu império. Assim fostes servido que entrássemos nestes novos mundos tão honrada e tão gloriosamente, e assim permitis que saiamos agora — quem tal imaginara de vossa bondade — com tanta afronta e ignomínia. — Oh! como receio que não falte quem diga o que diziam os egípcios: Callide eduxit eos, ut interficeret et deleret e terra (18): Que a larga mão com que nos destes tantos domínios e remos não foram mercês de vossa liberalidade, senão cautela e dissimulação de vossa ira, para aqui fora, e longe de nossa pátria, nos matardes, nos destruirdes, nos acabardes de todo. Se esta havia de ser a paga e o fruto de nossos trabalhos, para que foi o trabalhar, para que foi o servir, para que foi o derramar tanto e tão ilustre sangue nestas conquistas? Para que abrimos os mares nunca dantes navegados? Para que descobrimos as regiões e os climas não conhecidos? Para que contrastamos os ventos e as tempestades com tanto arrojo, que apenas há baixio no oceano, que não esteja infamado com miserabilíssimos naufrágios de portugueses? E depois de tantos perigos, depois de tantas desgraças, depois de tantas e tão lastimosas mortes, ou nas praias desertas sem sepultura, ou sepultados nas entranhas dos alarves, das feras, dos peixes, que as terras que assim ganhamos, as hajamos de perder assim? Oh! quanto melhor nos fora nunca conseguir nem intentar tais empresas!

Mais santo que nós era Josué, menos apurada tinha a paciência, e contudo, em ocasião semelhante, não falou — falando convosco — por diferente linguagem. Depois de os filhos de Israel passarem às terras ultramarinas do Jordão, como nós a estas, avançou parte do exército a dar assalto à cidade de Hai, a qual nos ecos do nome já parece que trazia o prognóstico do infeliz sucesso que os israelitas nela tiveram, porque foram rotos e desbaratados, posto que com menos mortos e feridos do que nós por cá costumamos. E que faria Josué à vista desta desgraça? Rasga as vestiduras imperiais, lança-se por terra, começa a clamar ao céu: Heu, Domine Deus, quid voluisti traducere populum istum Jordanem fluvium, ut traderes nos in manus Amorrhaei (Jos. 7,7)? Deus meu e Senhor meu, que é isto? Para que nos mandastes passar o Jordão, e nos metestes de posse destas terras, se aqui nos havíeis de entregar nas mãos dos amorreus, e perder-nos? Utinam mansissemus trans Jordanem! Oh! nunca nós passáramos tal rio! — Assim se queixava Josué a Deus, e assim nos podemos nós queixar, e com muito maior razão que ele. Se este havia de ser o fim de nossas navegações, se estas fortunas nos esperavam nas terras conquistadas: Utinam mansissemus trans Jordanem! Prouvera a vossa divina Majestade, que nunca saíramos de Portugal, nem fiáramos nossas vidas às ondas e aos ventos, nem conhecêramos ou puséramos os pés em terras estranhas. Ganhá-las para as não lograr desgraça foi, e não ventura; possui-las para as perder, castigo foi de vossa ira, Senhor, e não mercê nem favor de vossa liberalidade. Se determináveis dar estas mesmas terras aos piratas de Holanda, por que lhas não destes enquanto eram agrestes e incultas, senão agora? Tantos serviços vos tem feito esta gente pervertida e apóstata, que nos mandastes primeiro cá por seus aposentadores, para lhes lavrarmos as terras, para lhes edificarmos as cidades, e, depois de cultivadas e enriquecidas, lhas entregardes? Assim se hão de lograr os hereges e inimigos da fé dos trabalhos portugueses e dos suores católicos? En queis consevimus agros (19): Eis aqui para quem trabalhamos há tantos anos! — Mas, pois vós, Senhor, o quereis e ordenais assim, fazei o que fordes servido. Entregai aos holandeses o Brasil, entregai-lhes as Índias, entregai-lhes as Espanhas — que não são menos perigosas as conseqüências do Brasil perdido — entregai-lhes quanto temos e possuímos como já lhes entregastes tanta parte — ponde em suas mãos o mundo, e a nós, aos portugueses e espanhóis, deixai-nos, repudiai-nos, desfazei-nos, acabai-nos. Mas só digo e lembro a Vossa Majestade, Senhor, que estes mesmos, que agora desfavoreceis e lançais de vós, pode ser que os queirais algum dia, e que os não tenha

SERMÃO DA SEXAGÉSIMA (trecho)

Já que falo contra os estilos modernos, quero alegar por mim o estilo do mais antigo pregador que houve no Mundo. E qual foi ele? -- O mais antigo pregador que houve no Mundo foi o céu. Coeli enarrant gloriam Dei et opera manuum ejus annuntiat Firmamentum -- diz David. Suposto que o céu é pregador, deve de ter sermões e deve de ter palavras. Sim, tem, diz o mesmo David; tem palavras e tem sermões; e mais, muito bem ouvidos. Non sunt loquellae, nec sermones, quorum non audiantur voces eorum. E quais são estes sermões e estas palavras do céu? -- As palavras são as estrelas, os sermões são a composição, a ordem, a harmonia e o curso delas. Vede como diz o estilo de pregar do céu, com o estilo que Cristo ensinou na terra. Um e outro é semear; a terra semeada de trigo, o céu semeado de estrelas. O pregar há-de ser como quem semeia, e não como quem ladrilha ou azuleja. Ordenado, mas como as estrelas: Stellae manentes in ordine suo. Todas as estrelas estão por sua ordem; mas é ordem que faz influência, não é ordem que faça lavor. Não fez Deus o céu em xadrez de estrelas, como os pregadores fazem o sermão em xadrez de palavras. Se de uma parte há-de estar branco, da outra há-de estar negro; se de uma parte dizem luz, da outra hão-de dizer sombra; se de uma parte dizem desceu, da outra hão-de dizer subiu. Basta que não havemos de ver num sermão duas palavras em paz? Todas hão-de estar sempre em fronteira com o seu contrário? Aprendamos do céu o estilo da disposição, e também o das palavras. As estrelas são muito distintas e muito claras. Assim há-de ser o estilo da pregação; muito distinto e muito claro. E nem por isso temais que pareça o estilo baixo; as estrelas são muito distintas e muito claras, e altíssimas. O estilo pode ser muito claro e muito alto; tão claro que o entendam os que não sabem e tão alto que tenham muito que entender os que sabem. O rústico acha documentos nas estrelas para sua lavoura e o mareante para sua navegação e o matemático para as suas observações e para os seus juízos. De maneira que o rústico e o mareante, que não sabem ler nem escrever entendem as estrelas; e o matemático, que tem lido quantos escreveram, não alcança a entender quanto nelas há. Tal pode ser o sermão: -- estrelas que todos vêem, e muito poucos as medem.

Sim, Padre; porém esse estilo de pregar não é pregar culto. Mas fosse! Este desventurado estilo que hoje se usa, os que o querem honrar chamam-lhe culto, os que o condenam chamam-lhe escuro, mas ainda lhe fazem muita honra. O estilo culto não é escuro, é negro, e negro boçal e muito cerrado. E possível que somos portugueses e havemos de ouvir um pregador em português e não havemos de entender o que diz?!

Enfim, que havemos de pregar hoje aos peixes? Nunca pior auditório. Ao menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam. Uma só cousa pudera desconsolar ao pregador, que é serem gente os peixes que se não há-de converter. Mas esta dor é tão ordinária, que já pelo costume quase se não sente. Por esta causa mão falarei hoje em Céu nem Inferno; e assim será menos triste este sermão, do que os meus parecem aos homens, pelos encaminhar sempre à lembrança destes dois fins.

SERMÃO DE SANTO ANTÔNIO AOS PEIXES - (trecho)

Vos estis sal terrae. Haveis de saber, irmãos peixes, que o sal, filho do mar como vós, tem duas propriedades, as quais em vós mesmos se experimentam: conservar o são e preservá-lo para que se não corrompa. Estas mesmas propriedades tinham as pregações do vosso pregador Santo António, como também as devem ter as de todos os pregadores. Uma é louvar o bem, outra repreender o mal: louvar o bem para o conservar e repreender o mal para preservar dele. Nem cuideis que isto pertence só aos homens, porque também nos peixes tem seu lugar. Assim o diz o grande Doutor da Igreja S. Basílio: Non carpere solum, reprehendereque possumus pisces, sed sunt in illis, et quae prosequenda sunt imitatione: «Não só há que notar, diz o Santo, e que repreender nos peixes, senão também que imitar e louvar.» Quando Cristo comparou a sua Igreja à rede de pescar, Sagenae missae in mare, diz que os pescadores «recolheram os peixes bons e lançaram fora os maus»: Elegerunt bonos in vasa, malos autem foras miserunt. E onde há bons e maus, há que louvar e que repreender. Suposto isto, para que procedamos com clareza, dividirei, peixes, o vosso sermão em dois pontos: no primeiro louvar-vos-ei as vossas virtudes, no segundo repreender-vos-ei os vossos vícios. E desta maneira satisfaremos às obrigações do sal, que melhor vos está ouvi-las vivos, que experimentá-las depois de mortos.

(...)

Antes, porém, que vos vades, assim como ouvistes os vossos louvores, ouvi também agora as vossas repreensões. Servir-vos-ão de confusão, já que não seja de emenda. A primeira cousa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande. Olhai como estranha isto Santo Agostinho: Homines pravis, praeversisque cupiditatibus facti sunt, sicut pisces invicem se devorantes: «Os homens com suas más e perversas cobiças, vêm a ser como os peixes, que se comem uns aos outros.» Tão alheia cousa é, não só da razão, mas da mesma natureza, que sendo todos criados no mesmo elemento, todos cidadãos da mesma pátria e todos finalmente irmãos, vivais de vos comer! Santo Agostinho, que pregava aos homens, para encarecer a fealdade deste escândalo, mostrou-lho nos peixes; e eu, que prego aos peixes, para que vejais quão feio e abominável é, quero que o vejais nos homens.

Olhai, peixes, lá do mar para a terra. Não, não: não é isso o que vos digo. Vós virais os olhos para os matos e para o sertão? Para cá, para cá; para a cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só os Tapuias se comem uns aos outros? Muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os Brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas; vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão-de comer e como se hão-de comer. Morreu algum deles, vereis logo tantos sobre o miserável a despedaçá-lo e comê-lo. Comem-no os herdeiros, comem-no os testamenteiros, comem-no os legatários, comem-no os acredores; comem-no os oficiais dos órfãos e os dos defuntos e ausentes; come-o o médico, que o curou ou ajudou a morrer; come-o o sangrador que lhe tirou o sangue; come-a a mesma mulher, que de má vontade lhe dá para a mortalha o lençol mais velho da casa; come-o o que lhe abre a cova, o que lhe tange os sinos, e os que, cantando, o levam a enterrar; enfim, ainda o pobre defunto o não comeu a terra, e já o tem comido toda a terra.

Já se os homens se comeram somente depois de mortos, parece que era menos horror e menos matéria de sentimento. Mas para que conheçais a que chega a vossa crueldade, considerai, peixes, que também os homens se comem vivos assim como vós. Vivo estava Job, quando dizia: Quare persequimini me, et carnibus meis saturamini? «Porque me perseguis tão desumanamente, vós, que me estais comendo vivo e fartando-vos da minha carne?» Quereis ver um Job destes?

Vede um homem desses que andam perseguidos de pleitos ou acusados de crimes, e olhai quantos o estão comendo. Come-o o meirinho, come-o o carcereiro, come-o o escrivão, come-o o solicitador, come-o o advogado, come-o o inquiridor, come-o a testemunha, come-o o julgador, e ainda não está sentenciado, já está comido. São piores os homens que os corvos. O triste que foi à forca, não o comem os corvos senão depois de executado e morto; e o que anda em juízo, ainda não está executado nem sentenciado, e já está comido.

SERMÃO DO BOM LADRÃO (trecho)

Suponho finalmente que os ladrões de que falo não são aqueles miseráveis, a quem a pobreza e vileza de sua fortuna condenou a este gênero de vida, porque a mesma sua miséria, ou escusa, ou alivia o seu pecado, como diz Salomão: Non grandis est culpa, cum quis furatus fuerit: furatur enim ut esurientem impleat animam. (10).O ladrão que furta para comer, não vai, nem leva ao inferno; os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são outros ladrões, de maior calibre e de mais alta esfera, os quais debaixo do mesmo nome e do mesmo predicamento, distingue muito bem S. Basílio Magno: Non est intelligendum fures esse solum bursarum incisores, vel latrocinantes in balneis; sed et qui duces legionum statuti, vel qui commisso sibi regimine civitatum, aut gentium, hoc quidem furtim tollunt, hoc vero vi et publice exigunt: Não são só ladrões, diz o santo, os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa: os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. — Os outros ladrões roubam um homem: estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco: estes sem temor, nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam. Diógenes, que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a bradar: — Lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos. — Ditosa Grécia, que tinha tal pregador! E mais ditosas as outras nações, se nelas não padecera a justiça as mesmas afrontas! Quantas vezes se viu Roma ir a enforcar um ladrão, por ter furtado um carneiro, e no mesmo dia ser levado em triunfo um cônsul, ou ditador, por ter roubado uma província. E quantos ladrões teriam enforcado estes mesmos ladrões triunfantes? De um, chamado Seronato, disse com discreta contraposição Sidônio Apolinar: Nou cessat simul furta, vel punire, vel facere: Seronato está sempre ocupado em duas coisas: em castigar furtos, e em os fazer. — Isto não era zelo de justiça, senão inveja. Queria tirar os ladrões do mundo, para roubar ele só.

(Apostila 9 de Barroco - Literatura Brasileira)

 

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PADRE ANTONIO VIEIRA - Sermão da Sexagésima (integral)

Semen est verbum Dei. S. Lucas, VIII, 11.

I

E se quisesse Deus que este tão ilustre e tão numeroso auditório saísse hoje tão desenganado da pregação, como vem enganado com o pregador! Ouçamos o Evangelho, e ouçamo-lo todo, que todo é do caso que me levou e trouxe de tão longe.

Ecce exiit qui seminat, seminare. Diz Cristo que «saiu o pregador evangélico a semear» a palavra divina. Bem parece este texto dos livros de Deus. Não só faz menção do semear, mas também faz caso do sair: Exiit, porque no dia da messe hão-nos de medir a semeadura e hão-nos de contar os passos. O Mundo, aos que lavrais com ele, nem vos satisfaz o que dispendeis, nem vos paga o que andais. Deus não é assim. Para quem lavra com Deus até o sair é semear, porque também das passadas colhe fruto. Entre os semeadores do Evangelho há uns que saem a semear, há outros que semeiam sem sair. Os que saem a semear são os que vão pregar à Índia, à China, ao Japão; os que semeiam sem sair, são os que se contentam com pregar na Pátria. Todos terão sua razão, mas tudo tem sua conta. Aos que têm a seara em casa, pagar-lhes-ão a semeadura; aos que vão buscar a seara tão longe, hão-lhes de medir a semeadura e hão-lhes de contar os passos. Ah Dia do Juízo! Ah pregadores! Os de cá, achar-vos-eis com mais paço; os de lá, com mais passos: Exiit seminare.

Mas daqui mesmo vejo que notais (e me notais) que diz Cristo que o semeador do Evangelho saiu, porém não diz que tornou porque os pregadores evangélicos, os homens que professam pregar e propagar a Fé, é bem que saiam, mas não é bem que tornem. Aqueles animais de Ezequiel que tiravam pelo carro triunfal da glória de Deus e significavam os pregadores do Evangelho que propriedades tinham? Nec revertebantur, cum ambularent: «Uma vez que iam, não tornavam». As rédeas por que se governavam era o ímpeto do espírito, como diz o mesmo texto: mas esse espírito tinha impulsos para os levar, não tinha regresso para os trazer; porque sair para tornar melhor é não sair. Assim argúis com muita razão, e eu também assim o digo. Mas pergunto: E se esse semeador evangélico, quando saiu, achasse o campo tomado; se se armassem contra ele os espinhos; se se levantassem contra ele as pedras, e se lhe fechassem os caminhos que havia de fazer? Todos estes contrários que digo e todas estas contradições experimentou o semeador do nosso Evangelho. Começou ele a semear (diz Cristo), mas com pouca ventura. «Uma parte do trigo caiu entre espinhos, e afogaram-no os espinhos»: Aliud cecidit inter spinas et simul exortae spinae suffocaverunt illud. Outra parte caiu sobre pedras, e secou-se nas pedras por falta de humidade»: Aliud cecidit super petram, et natum aruit, quia non habebat humorem. «Outra parte caiu no caminho, e pisaram-no os homens e comeram-no as aves»: Aliud cecidit secus viam, et conculcatum est, et volucres coeli comederunt illud. Ora vede como todas as criaturas do Mundo se armaram contra esta sementeira. Todas as criaturas quantas há no Mundo se reduzem a quatro gêneros: criaturas racionais, como os homens; criaturas sensitivas, como os animais; criaturas vegetativas, como as plantas; criaturas insensíveis, como as pedras; e não há mais. Faltou alguma destas que se não armasse contra o semeador? Nenhuma. A natureza insensível o perseguiu nas pedras, a vegetativa nos espinhos, a sensitiva nas aves, a racional nos homens. E notai a desgraça do trigo, que onde só podia esperar razão, ali achou maior agravo. As pedras secaram-no, os espinhos afogaram-no, as aves comeram-no; e os homens? Pisaram-no: Conculcatum est. Ab hominibus (diz a Glossa).

Quando Cristo mandou pregar os Apóstolos pelo Mundo, disse-lhes desta maneira: Euntes in mundum universum, praedicate omni creaturae: «Ide, e pregai a toda a criatura». Como assim, Senhor?! Os animais não são criaturas?! As árvores não são criaturas?! As pedras não são criaturas?! Pois hão os Apóstolos de pregar às pedras?! Hão-de pregar aos troncos?! Hão-de pregar aos animais?! Sim, diz S. Gregório, depois de Santo Agostinho. Porque como os Apóstolos iam pregar a todas as nações do Mundo, muitas delas bárbaras e incultas, haviam de achar os homens degenerados em todas as espécies de criaturas: haviam de achar homens homens, haviam de achar homens brutos, haviam de achar homens troncos, haviam de achar homens pedras. E quando os pregadores evangélicos vão pregar a toda a criatura, que se armem contra eles todas as criaturas?! Grande desgraça!

Mas ainda a do semeador do nosso Evangelho não foi a maior. A maior é a que se tem experimentado na seara aonde eu fui, e para onde venho. Tudo o que aqui padeceu o trigo, padeceram lá os semeadores. Se bem advertirdes, houve aqui trigo mirrado, trigo afogado, trigo comido e trigo pisado. Trigo mirrado: Natum aruit, quia non habebat humorem; trigo afogado: Exortae spinae suffocaverunt illud; trigo comido: Volucres caeli comederunt illud; trigo pisado: Conculcutum est. Tudo isto padeceram os semeadores evangélicos da missão do Maranhão de doze anos a esta parte. Houve missionários afogados, porque uns se afogaram na boca do grande rio das Amazonas; houve missionários comidos, porque a outros comeram os bárbaros na ilha dos Aroãs; houve missionários mirrados, porque tais tornaram os da jornada dos Tocatins, mirrados da fome e da doença, onde tal houve, que andando vinte e dois dias perdido nas brenhas matou somente a sede com o orvalho que lambia das folhas. Vede se lhe quadra bem o Notum aruit, quia non habebant humorem! E que sobre mirrados, sobre afogados, sobre comidos, ainda se vejam pisados e perseguidos dos homens: Conculcatum est! Não me queixo nem o digo, Senhor, pelos semeadores; só pela seara o digo, só pela seara o sinto. Para os semeadores, isto são glórias: mirrados sim, mas por amor de vós mirrados; afogados sim, mas por amor de vós afogados; comidos sim, mas por amor de vós comidos; pisados e perseguidos sim, mas por amor de vós perseguidos e pisados.

Agora torna a minha pergunta: E que faria neste caso, ou que devia fazer o semeador evangélico, vendo tão mal logrados seus primeiros trabalhos? Deixaria a lavoura? Desistiria da sementeira? Ficar-se-ia ocioso no campo, só porque tinha lá ido? Parece que não. Mas se tornasse muito depressa a buscar alguns instrumentos com que alimpar a terra das pedras e dos espinhos, seria isto desistir? Seria isto tornar atrás?-- Não por certo. No mesmo texto de Ezequiel com que arguistes, temos a prova. Já vimos como dizia o texto, que aqueles animais da carroça de Deus, «quando iam não tornavam»: Nec revertebantur, cum ambularent. Lede agora dois versos mais abaixo, e vereis que diz o mesmo texto que «aqueles animais tornavam, e semelhança de um raio ou corisco»: Ibant et revertebantur in similitudinem fulgoris coruscantis. Pois se os animais iam e tornavam à semelhança de um raio, como diz o texto que quando iam não tornavam? Porque quem vai e volta como um raio, não torna. Ir e voltar como raio, não é tornar, é ir por diante. Assim o fez o semeador do nosso Evangelho. Não o desanimou nem a primeira nem a segunda nem a terceira perda; continuou por diante no semear, e foi com tanta felicidade, que nesta quarta e última parte do trigo se restauraram com vantagem as perdas do demais: nasceu, cresceu, espigou, amadureceu, colheu-se, mediu-se, achou-se que por um grão multiplicara cento: Et fecit fructum centuplum.

Oh que grandes esperanças me dá esta sementeira! Oh que grande exemplo me dá este semeador! Dá-me grandes esperanças a sementeira porque, ainda que se perderam os primeiros trabalhos, lograr-se-ão os últimos. Dá-me grande exemplo o semeador, porque, depois de perder a primeira, a segunda e a terceira parte do trigo, aproveitou a quarta e última, e colheu dela muito fruto. Já que se perderam as três partes da vida, já que uma parte da idade a levaram os espinhos, já que outra parte a levaram es pedras, já que outra parte a levaram os caminhos, e tantos caminhos, esta quarta e última parte, este último quartel da vida, porque se perderá também? Porque não dará fruto? Porque não terão também os anos o que tem o ano? O ano tem tempo para as flores e tempo para os frutos. Porque não terá também o seu Outono a vida? As flores, umas caem, outras secam, outras murcham, outras leva o vento; aquelas poucas que se pegam ao tronco e se convertem em fruto, só essas são as venturosas, só essas são as que aproveitam, só essas são as que sustentam o Mundo. Será bem que o Mundo morra à fome? Será bem que os últimos dias se passem em flores? -- Não será bem, nem Deus quer que seja, nem há-de ser. Eis aqui porque eu dizia ao princípio, que vindes enganados com o pregador. Mas para que possais ir desenganados com o sermão, tratarei nele uma matéria de grande peso e importância. Servirá como de prólogo aos sermões que vos hei-de pregar, e aos mais que ouvirdes esta Quaresma.

II

Semen est verbum Dei.

O trigo que semeou o pregador evangélico, diz Cristo que é a palavra de Deus. Os espinhos, as pedras, o caminho e a terra boa em que o trigo caiu, são os diversos corações dos homens. Os espinhos são os corações embaraçados com cuidados, com riquezas, com delícias; e nestes afoga-se a palavra de Deus. As pedras são os corações duros e obstinados; e nestes seca-se a palavra de Deus, e se nasce, não cria raízes. Os caminhos são os corações inquietos e perturbados com a passagem e tropel das coisas do Mundo, umas que vão, outras que vêm, outras que atravessam, e todas passam; e nestes é pisada a palavra de Deus, porque a desatendem ou a desprezam. Finalmente, a terra boa são os corações bons ou os homens de bom coração; e nestes prende e frutifica a palavra divina, com tanta fecundidade e abundância, que se colhe cento por um: Et fructum fecit centuplum.

Este grande frutificar da palavra de Deus é o em que reparo hoje; e é uma dúvida ou admiração que me traz suspenso e confuso, depois que subo ao púlpito. Se a palavra de Deus é tão eficaz e tão poderosa, como vemos tão pouco fruto da palavra de Deus? Diz Cristo que a palavra de Deus frutifica cento por um, e já eu me contentara com que frutificasse um por cento. Se com cada cem sermões se convertera e emendara um homem, já o Mundo fora santo. Este argumento de fé, fundado na autoridade de Cristo, se aperta ainda mais na experiência, comparando os tempos passados com os presentes. Lede as histórias eclesiásticas, e achá-las-eis todas cheias de admiráveis efeitos da pregação da palavra de Deus. Tantos pecadores convertidos, tanta mudança de vida, tanta reformação de costumes; os grandes desprezando as riquezas e vaidades do Mundo; os reis renunciando os ceptros e as coroas; as mocidades e as gentilezas metendo-se pelos desertos e pelas covas; e hoje? -- Nada disto. Nunca na Igreja de Deus houve tantas pregações, nem tantos pregadores como hoje. Pois se tanto se semeia a palavra de Deus, como é tão pouco o fruto? Não há um homem que em um sermão entre em si e se resolva, não há um moço que se arrependa, não há um velho que se desengane. Que é isto? Assim como Deus não é hoje menos omnipotente, assim a sua palavra não é hoje menos poderosa do que dantes era. Pois se a palavra de Deus é tão poderosa; se a palavra de Deus tem hoje tantos pregadores, porque não vemos hoje nenhum fruto da palavra de Deus? Esta, tão grande e tão importante dúvida, será a matéria do sermão. Quero começar pregando-me a mim. A mim será, e também a vós; a mim, para aprender a pregar; a vós, que aprendais a ouvir.

III

Fazer pouco fruto a palavra de Deus no Mundo, pode proceder de um de três princípios: ou da parte do pregador, ou da parte do ouvinte, ou da parte de Deus. Para uma alma se converter por meio de um sermão, há-de haver três concursos: há-de concorrer o pregador com a doutrina, persuadindo; há-de concorrer o ouvinte com o entendimento, percebendo; há-de concorrer Deus com a graça, alumiando. Para um homem se ver a si mesmo, são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos. Que coisa é a conversão de uma alma, senão entrar um homem dentro em si e ver-se a si mesmo? Para esta vista são necessários olhos, é necessária luz e é necessário espelho. O pregador concorre com o espelho, que é a doutrina; Deus concorre com a luz, que é a graça; o homem concorre com os olhos, que é o conhecimento. Ora suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende destes três concursos: de Deus, do pregador e do ouvinte, por qual deles devemos entender que falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou por parte de Deus?

Primeiramente, por parte de Deus, não falta nem pode faltar. Esta proposição é de fé, definida no Concílio Tridentino, e no nosso Evangelho a temos. Do trigo que deitou à terra o semeador, uma parte se logrou e três se perderam. E porque se perderam estas três? -- A primeira perdeu-se, porque a afogaram os espinhos; a segunda, porque a secaram as pedras; a terceira, porque a pisaram os homens e a comeram as aves. Isto é o que diz Cristo; mas notai o que não diz. Não diz que parte alguma daquele trigo se perdesse por causa do sol ou da chuva. A causa por que ordinariamente se perdem as sementeiras, é pela desigualdade e pela intemperança dos tempos, ou porque falta ou sobeja a chuva, ou porque falta ou sobeja o sol. Pois porque não introduz Cristo na parábola do Evangelho algum trigo que se perdesse por causa do sol ou da chuva? -- Porque o sol e a chuva são as afluências da parte do Céu, e deixar de frutificar a semente da palavra de Deus, nunca é por falta: do Céu, sempre é por culpa nossa. Deixará de frutificar a sementeira, ou pelo embaraço dos espinhos, ou pela dureza das pedras, ou pelos descaminhos dos caminhos; mas por falta das influências do Céu, isso nunca é nem pode ser. Sempre Deus está pronto da sua parte, com o sol para aquentar e com a chuva para regar; com o sol para alumiar e com a chuva para amolecer, se os nossos corações quiserem: Qui solem suum oriri facit super bonos et malos, et pluit super justos et injustos. Se Deus dá o seu sol e a sua chuva aos bons e aos maus; aos maus que se quiserem fazer bons, como a negará? Este ponto é tão claro que não há para que nos determos em mais prova. Quid debui facere vineae meae, et non feci? -- disse o mesmo Deus por Isaías.

Sendo, pois, certo que a palavra divina não deixa de frutificar por parte de Deus, segue-se que ou é por falta do pregador ou por falta dos ouvintes. Por qual será? Os pregadores deitam a culpa aos ouvintes, mas não é assim. Se fora por parte dos ouvintes, não fizera a palavra de Deus muito grande fruto, mas não fazer nenhum fruto e nenhum efeito, não é por parte dos ouvintes. Provo.

Os ouvintes ou são maus ou são bons; se são bons, faz neles fruto a palavra de Deus; se são maus, ainda que não faça neles fruto, faz efeito. No Evangelho o temos. O trigo que caiu nos espinhos, nasceu, mas afogaram-no: Simul exortae spinae suffocaverunt illud. O trigo que caiu nas pedras, nasceu também, mas secou-se: Et natum aruit. O trigo que caiu na terra boa, nasceu e frutificou com grande multiplicação: Et natum fecit fructum centuplum. De maneira que o trigo que caiu na boa terra, nasceu e frutificou; o trigo que caiu na má terra, não frutificou, mas nasceu; porque a palavra de Deus é tão funda, que nos bons faz muito fruto e é tão eficaz que nos maus ainda que não faça fruto, faz efeito; lançada nos espinhos, não frutificou, mas nasceu até nos espinhos; lançada nas pedras, não frutificou, mas nasceu até nas pedras. Os piores ouvintes que há na Igreja de Deus, são as pedras e os espinhos. E porquê? -- Os espinhos por agudos, as pedras por duras. Ouvintes de entendimentos agudos e ouvintes de vontades endurecidas são os piores que há. Os ouvintes de entendimentos agudos são maus ouvintes, porque vêm só a ouvir sutilezas, a esperar galantarias, a avaliar pensamentos, e às vezes também a picar a quem os não pica. Aliud cecidit inter spinas: O trigo não picou os espinhos, antes os espinhos o picaram a ele; e o mesmo sucede cá. Cuidais que o sermão vos picou e vós, e não é assim; vós sois os que picais o sermão. Por isto são maus ouvintes os de entendimentos agudos. Mas os de vontades endurecidas ainda são piores, porque um entendimento agudo pode ferir pelos mesmos fios, e vencer-se uma agudeza com outra maior; mas contra vontades endurecidas nenhuma coisa aproveita a agudeza, antes dana mais, porque quanto as setas são mais agudas, tanto mais facilmente se despontam na pedra. Oh! Deus nos livre de vontades endurecidas, que ainda são piores que as pedras! A vara de Moisés abrandou as pedras, e não pôde abrandar uma vontade endurecida: Percutiens virga bis silicem, et egressae sunt aquae largissimae. Induratum est cor Pharaonis. E com os ouvintes de entendimentos agudos e os ouvintes de vontades endurecidas serem os mais rebeldes, é tanta a força da divina palavra, que, apesar da agudeza, nasce nos espinhos, e apesar da dureza nasce nas pedras.

Pudéramos argüir ao lavrador do Evangelho de não cortar os espinhos e de não arrancar as pedras antes de semear, mas de indústria deixou no campo as pedras e os espinhos, para que se visse a força do que semeava. É tanta a força da divina palavra, que, sem cortar nem despontar espinhos, nasce entre espinhos. É tanta a força da divina palavra, que, sem arrancar nem abrandar pedras, nasce nas pedras. Corações embaraçados como espinhos corações secos e duros como pedras, ouvi a palavra de Deus e tende confiança! Tomai exemplo nessas mesmas pedras e nesses espinhos! Esses espinhos e essas pedras agora resistem ao semeador do Céu; mas virá tempo em que essas mesmas pedras o aclamem e esses mesmos espinhos o coroem.

Quando o semeador do Céu deixou o campo, saindo deste Mundo, as pedras se quebraram para lhe fazerem aclamações, e os espinhos se teceram para lhe fazerem coroa. E se a palavra de Deus até dos espinhos e das pedras triunfa; se a palavra de Deus até nas pedras, até nos espinhos nasce; não triunfar dos alvedrios hoje a palavra de Deus, nem nascer nos corações, não é por culpa, nem por indisposição dos ouvintes.

Supostas estas duas demonstrações; suposto que o fruto e efeitos da palavra de Deus, não fica, nem por parte de Deus, nem por parte dos ouvintes, segue-se por consequência clara, que fica por parte do pregador. E assim é. Sabeis, cristãos, porque não faz fruto a palavra de Deus? Por culpa dos pregadores. Sabeis, pregadores, porque não faz fruto a palavra de Deus? -- Por culpa nossa.

IV

Mas como em um pregador há tantas qualidades, e em uma pregação tantas leis, e os pregadores podem ser culpados em todas, em qual consistirá esta culpa? -- No pregador podem-se considerar cinco circunstâncias: a pessoa, a ciência, a matéria, o estilo, a voz. A pessoa que é, e ciência que tem, a matéria que trata, o estilo que segue, a voz com que fala. Todas estas circunstâncias temos no Evangelho. Vamo-las examinando uma por uma e buscando esta causa.

Será porventura o não fazer fruto hoje a palavra de Deus, pela circunstância da pessoa? Será porque antigamente os pregadores eram santos eram varões apostólicos e exemplares, e hoje os pregadores são eu e outros como eu? -- Boa razão é esta. A definição do pregador é a vida e o exemplo. Por isso Cristo no Evangelho não o comparou ao semeador, senão ao que semeia. Reparai. Não diz Cristo: saiu a semear o semeador, senão, saiu a semear o que semeia: Ecce exiit, qui seminat, seminare. Entre o semeador e o que semeia há muita diferença. Uma coisa é o soldado e outra coisa o que peleja; uma coisa é o governador e outra o que governa. Da mesma maneira, uma coisa é o semeador e outra o que semeia; uma coisa é o pregador e outra o que prega. O semeador e o pregador é nome; o que semeia e o que prega é ação; e as ações são as que dão o ser ao pregador. Ter o nome de pregador, ou ser pregador de nome, não importa nada; as ações, a vida, o exemplo, as obras, são as que convertem o Mundo. O melhor conceito que o pregador leva ao púlpito, qual cuidais que é? -- o conceito que de sua vida têm os ouvintes.

Antigamente convertia-se o Mundo, hoje porque se não converte ninguém? Porque hoje pregam-se palavras e pensamentos, antigamente pregavam-se palavras e obras. Palavras sem obra são tiros sem bala; atroam, mas não ferem. A funda de David derrubou o gigante, mas não o derrubou com o estalo, senão com a pedra: Infixus est lapis in fronte ejus. As vozes da harpa de David lançavam fora os demônios do corpo de Saul, mas não eram vozes pronunciadas com a boca, eram vozes formadas com a mão: David tollebat citharam, et percutiebat manu sua. Por isso Cristo comparou o pregador ao semeador. O pregar que é falar faz-se com a boca; o pregar que é semear, faz-se com a mão. Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração, são necessárias obras. Diz o Evangelho que a palavra de Deus frutificou cento por um. Que quer isto dizer? Quer dizer que de uma palavra nasceram cem palavras? -- Não. Quer dizer que de poucas palavras nasceram muitas obras. Pois palavras que frutificam obras, vede se podem ser só palavras! Quis Deus converter o Mundo, e que fez? -- Mandou ao Mundo seu Filho feito homem. Notai. O Filho de Deus, enquanto Deus, é palavra de Deus, não é obra de Deus: Genitum non factum. O Filho de Deus, enquanto Deus e Homem, é palavra de Deus e obra de Deus juntamente: Verbum caro factum est. De maneira que até de sua palavra desacompanhada de obras não fiou Deus a conversão dos homens. Na união da palavra de Deus com a maior obra de Deus consistiu a eficácia da salvação do Mundo. Verbo Divino é palavra divina; mas importa pouco que as nossas palavras sejam divinas, se forem desacompanhadas de obras. A razão disto é porque as palavras ouvem-se, as obras vêem-se; as palavras entram pelos ouvidos, as obras entram pelos olhos, e a nossa alma rende-se muito mais pelos olhos que pelos ouvidos. No Céu ninguém há que não ame a Deus, nem possa deixar de o amar. Na terra há tão poucos que o amem, todos o ofendem. Deus não é o mesmo, e tão digno de ser amado no Céu e na Terra? Pois como no Céu obriga e necessita a todos a o amarem, e na terra não? A razão é porque Deus no Céu é Deus visto; Deus na terra é Deus ouvido. No Céu entra o conhecimento de Deus à alma pelos olhos: Videbimus eum sicut est; na terra entra-lhe o conhecimento de Deus pelos ouvidos: Fides ex auditu; e o que entra pelos ouvidos crê-se, o que entra pelos olhos necessita. Viram os ouvintes em nós o que nos ouvem a nós, e o abalo e os efeitos do sermão seriam muito outros.

Vai um pregador pregando a Paixão, chega ao pretório de Pilatos, conta como a Cristo o fizeram rei de zombaria, diz que tomaram uma púrpura e lha puseram aos ombros; ouve aquilo o auditório muito atento. Diz que teceram uma coroa de espinhos e que lha pregaram na cabeça; ouvem todos com a mesma atenção. Diz mais que lhe ataram as mãos e lhe meteram nelas uma cana por ceptro; continua o mesmo silêncio e a mesma suspensão nos ouvintes. Corre-se neste espaço uma cortina aparece a imagem do Ecce Homo; eis todos prostrados por terra, eis todos a bater no peito eis as lágrimas, eis os gritos, eis os alaridos, eis as bofetadas. Que é isto? Que apareceu de novo nesta igreja? Tudo o que descobriu aquela cortina, tinha já dito o pregador. Já tinha dito daquela púrpura, já tinha dito daquela coma e daqueles espinhos, já tinha dito daquele ceptro e daquela cana. Pois se isto então não fez abalo nenhum, como faz agora tanto? -- Porque então era Ecce Homo ouvido, e agora é Ecce Homo visto; a relação do pregador entrava pelos ouvidos a representação daquela figura entra pelos olhos. Sabem, Padres pregadores, porque fazem pouco abalo os nossos sermões? -- Porque não pregamos aos olhos, pregamos só aos ouvidos. Porque convertia o Baptista tantos pecadores? -- Porque assim como as suas palavras pregavam aos ouvidos, o seu exemplo pregava aos olhos. As palavras do Baptista pregavam penitência: Agite poenitentiam. «Homens, fazei penitência» -- e o exemplo clamava: Ecce Homo: «eis aqui está o homem» que é o retrato da penitência e da aspereza. As palavras do Baptista pregavam jejum e repreendiam os regalos e demasias da gula; e o exemplo clamava: Ecce Homo: eis aqui está o homem que se sustenta de gafanhotos e mel silvestre. As palavras do Baptista pregavam composição e modéstia, e condenavam a soberba e a vaidade das galas; e o exemplo clamava: Ecce Homo: eis aqui está o homem vestido de peles de camelo, com as cordas e cilício à raiz da carne. As palavras do Baptista pregavam despegos e retiros do Mundo, e fugir das ocasiões e dos homens; e o exemplo Clamava: Ecce Homo: eis aqui o homem que deixou as cortes e as sociedades, e vive num deserto e numa cova. Se os ouvintes ouvem uma coisa e vêem outra, como se hão-de converter? Jacob punha as varas manchadas diante das ovelhas quando concebiam, e daqui procedia que os cordeiros nasciam malhados. Se quando os ouvintes percebem os nossos conceitos, têm diante dos olhos as nossas manchas, como hão-de conceber virtudes? Se a minha vida é apologia contra a minha doutrina, se as minhas palavras vão já refutadas nas minhas obras, se uma cousa é o semeador e outra o que semeia, como se há-de fazer fruto?

Muito boa e muito forte razão era esta de não fazer fruto a palavra de Deus; mas tem contra si o exemplo e experiência de Jonas. Jonas fugitivo de Deus, desobediente, contumaz, e, ainda depois de engolido e vomitado iracundo, impaciente, pouco caritativo, pouco misericordioso, e mais zeloso e amigo da própria estimação que da honra de Deus e salvação das almas, desejoso de ver subvertida a Nínive e de a ver subverter com seus olhos, havendo nela tantos mil inocentes; contudo este mesmo homem com um sermão converteu o maior rei, a maior corte e o maior reinado do Mundo, e não de homens fiéis senão de gentios idólatras. Outra é logo a causa que buscamos. Qual será?

V

Será porventura o estilo que hoje se usa nos púlpitos? Um estilo tão empeçado, um estilo tão dificultoso, um estilo tão afectado, um estilo tão encontrado a toda a arte e a toda a natureza? Boa razão é também esta. O estilo há-de ser muito fácil e muito natural. Por isso Cristo comparou o pregar ao semear: Exiit, qui seminat, seminare. Compara Cristo o pregar ao semear, porque o semear é uma arte que tem mais de natureza que de arte. Nas outras artes tudo é arte: na música tudo se faz por compasso, na arquitectura tudo se faz por regra, na aritmética tudo se faz por conta, na geometria tudo se faz por medida. O semear não é assim. É uma arte sem arte caia onde cair. Vede como semeava o nosso lavrador do Evangelho. «Caía o trigo nos espinhos e nascia» Aliud cecidit inter spinas, et simul exortae spinae «Caía o trigo nas pedras e nascia»: Aliud cecidit super petram, et ortum. «Caía o trigo na terra boa e nascia»: Aliud cecidit in terram bonam, et natum. Ia o trigo caindo e ia nascendo.

Assim há-de ser o pregar. Hão-de cair as coisas hão-de nascer; tão naturais que vão caindo, tão próprias que venham nascendo. Que diferente é o estilo violento e tirânico que hoje se usa! Ver vir os tristes passos da Escritura, como quem vem ao martírio; uns vêm acarretados, outros vêm arrastados, outros vêm estirados, outros vêm torcidos, outros vêm despedaçados; só atados não vêm! Há tal tirania? Então no meio disto, que bem levantado está aquilo! Não está a coisa no levantar, está no cair: Cecidit. Notai uma alegoria própria da nossa língua. O trigo do semeador, ainda que caiu quatro vezes, só de três nasceu; para o sermão vir nascendo, há-de ter três modos de cair: há-de cair com queda, há-de cair com cadência há-de cair com caso. A queda é para as coisas, a cadência para as palavras, o caso para a disposição. A queda é para as coisas porque hão-de vir bem trazidas e em seu lugar; hão-de ter queda. A cadência é para as palavras, porque não hão-de ser escabrosas nem dissonantes; hão-de ter cadência. O caso é para a disposição, porque há-de ser tão natural e tão desafectada que pareça caso e não estudo: Cecidit, cecidit, cecidit.

Já que falo contra os estilos modernos, quero alegar por mim o estilo do mais antigo pregador que houve no Mundo. E qual foi ele? -- O mais antigo pregador que houve no Mundo foi o céu. Coeli enarrant gloriam Dei et opera manuum ejus annuntiat Firmamentum -- diz David. Suposto que o céu é pregador, deve de ter sermões e deve de ter palavras. Sim, tem, diz o mesmo David; tem palavras e tem sermões; e mais, muito bem ouvidos. Non sunt loquellae, nec sermones, quorum non audiantur voces eorum. E quais são estes sermões e estas palavras do céu? -- As palavras são as estrelas, os sermões são a composição, a ordem, a harmonia e o curso delas. Vede como diz o estilo de pregar do céu, com o estilo que Cristo ensinou na terra. Um e outro é semear; a terra semeada de trigo, o céu semeado de estrelas. O pregar há-de ser como quem semeia, e não como quem ladrilha ou azuleja. Ordenado, mas como as estrelas: Stellae manentes in ordine suo. Todas as estrelas estão por sua ordem; mas é ordem que faz influência, não é ordem que faça lavor. Não fez Deus o céu em xadrez de estrelas, como os pregadores fazem o sermão em xadrez de palavras. Se de uma parte há-de estar branco, da outra há-de estar negro; se de uma parte dizem luz, da outra hão-de dizer sombra; se de uma parte dizem desceu, da outra hão-de dizer subiu. Basta que não havemos de ver num sermão duas palavras em paz? Todas hão-de estar sempre em fronteira com o seu contrário? Aprendamos do céu o estilo da disposição, e também o das palavras. As estrelas são muito distintas e muito claras. Assim há-de ser o estilo da pregação; muito distinto e muito claro. E nem por isso temais que pareça o estilo baixo; as estrelas são muito distintas e muito claras, e altíssimas. O estilo pode ser muito claro e muito alto; tão claro que o entendam os que não sabem e tão alto que tenham muito que entender os que sabem. O rústico acha documentos nas estrelas para sua lavoura e o mareante para sua navegação e o matemático para as suas observações e para os seus juízos. De maneira que o rústico e o mareante, que não sabem ler nem escrever entendem as estrelas; e o matemático, que tem lido quantos escreveram, não alcança a entender quanto nelas há. Tal pode ser o sermão: -- estrelas que todos vêem, e muito poucos as medem.

Sim, Padre; porém esse estilo de pregar não é pregar culto. Mas fosse! Este desventurado estilo que hoje se usa, os que o querem honrar chamam-lhe culto, os que o condenam chamam-lhe escuro, mas ainda lhe fazem muita honra. O estilo culto não é escuro, é negro, e negro boçal e muito cerrado. E possível que somos portugueses e havemos de ouvir um pregador em português e não havemos de entender o que diz?! Assim como há Lexicon para o grego e Calepino para o latim, assim é necessário haver um vocabulário do púlpito. Eu ao menos o tomara para os nomes próprios, porque os cultos têm desbaptizados os santos, e cada autor que alegam é um enigma. Assim o disse o Ceptro Penitente, assim o disse o Evangelista Apeles, assim o disse a Águia de África, o Favo de Claraval, a Púrpura de Belém, a Boca de Ouro. Há tal modo de alegar! O Ceptro Penitente dizem que é David, como se todos os ceptros não foram penitência; o Evangelista Apeles, que é S. Lucas; o Favo de Claraval, S. Bernardo; a Águia de África, Santo Agostinho; a Púrpura de Belém, S. Jerónimo; a Boca de Ouro, S. Crisóstomo. E quem quitaria ao outro cuidar que a Púrpura de Belém é Herodes que a Águia de África é Cipião, e que a Boca de Ouro é Midas? Se houvesse um advogado que alegasse assim a Bártolo e Baldo, havíeis de fiar dele o vosso pleito? Se houvesse um homem que assim falasse na conversação, não o havíeis de ter por néscio? Pois o que na conversação seria necessidade, como há-de ser discrição no púlpito?

Boa me parecia também esta razão; mas como os cultos pelo pulido e estudado se defendem com o grande Nazianzeno, com Ambrósio, com Crisólogo, com Leão, e pelo escuro e duro com Clemente Alexandrino, com Tertuliano, com Basílio de Selêucia, com Zeno Veronense e outros, não podemos negar a reverência a tamanhos autores posto que desejáramos nos que se prezam de beber destes rios, a sua profundidade. Qual será logo a causa de nossa queixa?

VI

Será pela matéria ou matérias que tomam os pregadores? Usa-se hoje o modo que chamam de apostilar o Evangelho, em que tomam muitas matérias, levantam muitos assuntos e quem levanta muita caça e não segue nenhuma não é muito que se recolha com as mãos vazias. Boa razão é também esta. O sermão há-de ter um só assunto e uma só matéria. Por isso Cristo disse que o lavrador do Evangelho não semeara muitos géneros de sementes, senão uma só: Exiit, qui seminat, seminare semen. Semeou uma semente só, e não muitas, porque o sermão há-de ter uma só matéria, e não muitas matérias. Se o lavrador semeara primeiro trigo, e sobre o trigo semeara centeio, e sobre o centeio semeara milho grosso e miúdo, e sobre o milho semeara cevada, que havia de nascer? Uma mata brava, uma confusão verde. Eis aqui o que acontece aos sermões deste género. Como semeiam tanta variedade, não podem colher coisa certa. Quem semeia misturas, mal pode colher trigo. Se uma nau fizesse um bordo para o norte, outro para o sul, outro para leste, outro para oeste, como poderia fazer viagem? Por isso nos púlpitos se trabalha tanto e se navega tão pouco. Um assunto vai para um vento, outro assunto vai para outro vento; que se há-de colher senão vento? O Baptista convertia muitos em Judeia; mas quantas matérias tomava? Uma só matéria: Parate viam Domini: a preparação para o Reino de Cristo. Jonas converteu os Ninivitas; mas quantos assuntos tomou? Um só assunto: Adhuc quadraginta dies, et Ninive subvertetur: a subversão da cidade. De maneira que Jonas em quarenta dias pregou um só assunto; e nós queremos pregar quarenta assuntos em uma hora? Por isso não pregamos nenhum. O sermão há-de ser de uma só cor, há-de ter um só objecto, um só assunto, uma só matéria.

Há-de tomar o pregador uma só matéria; há-de defini-la, para que se conheça; há-de dividi-la, para que se distinga; há-de prová-la com a Escritura; há-de declará-la com a razão; há-de confirmá-la com o exemplo; há-de amplificá-la com as causas, com os efeitos, com as circunstâncias, com as conveniências que se hão-de seguir, com os inconvenientes que se devem evitar; há-de responder às dúvidas, há-de satisfazer às dificuldades; há-de impugnar e refutar com toda a força da eloquência os argumentos contrários; e depois disto há-de colher, há-de apertar, há-de concluir, há-de persuadir, há-de acabar. Isto é sermão, isto é pregar; e o que não é isto, é falar de mais alto.

Não nego nem quero dizer que o sermão não haja de ter variedade de discursos, mas esses hão-de nascer todos da mesma matéria e continuar e acabar nela. Quereis ver tudo isto com os olhos? Ora vede. Uma árvore tem raízes, tem tronco, tem ramos, tem folhas, tem varas, tem flores, tem frutos. Assim há-de ser o sermão: há-de ter raízes fortes e sólidas, porque há-de ser fundado no Evangelho; há-de ter um tronco, porque há-de ter um só assunto e tratar uma só matéria; deste tronco hão-de nascer diversos ramos, que são diversos discursos, mas nascidos da mesma matéria e continuados nela; estes ramos hão-de ser secos, senão cobertos de folhas, porque os discursos hão-de ser vestidos e ornados de palavras. Há-de ter esta árvore varas, que são a repreensão dos vícios; há-de ter flores, que são as sentenças; e por remate de tudo, há-de ter frutos, que é o fruto e o fim a que se há-de ordenar o sermão. De maneira que há-de haver frutos, há-de haver flores, há-de haver varas, há-de haver folhas, há-de haver ramos; mas tudo nascido e fundado em um só tronco, que é uma só matéria. Se tudo são troncos, não é sermão, é madeira. Se tudo são ramos, não é sermão, são maravalhas. Se tudo são folhas, não é sermão, são versas. Se tudo são varas, não é sermão, é feixe. Se tudo são flores, não é sermão, é ramalhete. Serem tudo frutos, não pode ser; porque não há frutos sem árvore. Assim que nesta árvore, à que podemos chamar «árvore da vida», há-de haver o proveitoso do fruto, o formoso das flores, o rigoroso das varas, o vestido das folhas, o estendido dos ramos; mas tudo isto nascido e formado de um só tronco e esse não levantado no ar, senão fundado nas raízes do Evangelho: Seminare semen. Eis aqui como hão-de ser os sermões, eis aqui como não são. E assim não é muito que se não faça fruto com eles.

Tudo o que tenho dito pudera demonstrar largamente, não só com os preceitos dos Aristóteles, dos Túlios, dos Quintilianos, mas com a prática observada do príncipe dos oradores evangélicos, S. João Crisóstomo, de S. Basílio Magno, S. Bernardo. S. Cipriano, e com as famosíssimas orações de S. Gregório Nazianzeno, mestre de ambas as Igrejas. E posto que nestes mesmos Padres, como em Santo Agostinho, S. Gregório e muitos outros, se acham os Evangelhos apostilados com nomes de sermão e homilias, uma coisa é expor, e outra pregar; uma ensinar e outra persuadir, desta última é que eu falo, com a qual tanto fruto fizeram no mundo Santo António de Pádua e S. Vicente Ferrer. Mas nem por isso entendo que seja ainda esta a verdadeira causa que busco.

VII

Será porventura a falta de ciência que há em muitos pregadores? Muitos pregadores há que vivem do que não colheram e semeiam o que não trabalharam. Depois da sentença de Adão, a terra não costuma dar fruto, senão a quem come o seu pão com o suor do seu rosto. Boa razão parece também esta. O pregador há-de pregar o seu, e não o alheio. Por isso diz Cristo que semeou o lavrador do Evangelho o trigo seu: Semen suum. Semeou o seu, e não o alheio, porque o alheio e, o furtado não é bom para semear, ainda que o furto seja de ciência. Comeu Eva o pomo da ciência, e queixava-me eu antigamente desta nossa mãe; já que comeu o pomo, por que lhe não guardou as pevides? Não seria bem que chegasse a nós a árvore, já que nos chegaram os encargos dela? Pois por que não o fez assim Eva? Porque o pomo era furtado, e o alheio é bom para comer, mas não é bom para semear: é bom para comer, porque dizem que é saboroso; não é bom para semear, porque não nasce. Alguém terá experimentado que o alheio lhe nasce em casa, mas esteja certo, que se nasce, não há-de deitar raízes, e o que não tem raízes não pode dar fruto. Eis aqui por que muitos pregadores não fazem fruto; porque pregam o alheio, e não o seu: Semen suum. O pregar é entrar em batalha com os vícios; e armas alheias, ainda que sejam as de Aquiles, a ninguém deram vitória. Quando David saiu a campo com o gigante, ofereceu-lhe Saul as suas armas, mas ele não as quis aceitar. Com armas alheias ninguém pode vencer, ainda que seja David. As armas de Saul só servem a Saul, e as de David a David; e mais aproveita um cajado e uma funda própria, que a espada e a lança alheia. Pregador que peleja com as armas alheias, não hajais medo que derrube gigante.

Fez Cristo aos Apóstolos pescadores de homens, que foi ordená-los de pregadores; e que faziam os Apóstolos? Diz o texto que estavam: Reficientes retia sua: «Refazendo as redes suas; eram as redes dos Apóstolos, e não eram alheias. Notai: Retia sua: Não diz que eram suas porque as compraram, senão que eram suas porque as faziam; não eram suas porque lhes custaram o seu dinheiro, senão porque lhes custavam o seu trabalho. Desta maneira eram as redes suas; e porque desta maneira eram suas, por isso eram redes de pescadores que haviam de pescar homens. Com redes alheias, ou feitas por mão alheia, podem-se pescar peixes, homens não se podem pescar. A razão disto é porque nesta pesca de entendimentos só quem sabe fazer a rede sabe fazer o lanço. Como se faz uma rede? Do fio e do nó se compõe a malha; quem não enfia nem ata, como há-de fazer rede? E quem não sabe enfiar nem sabe atar, como há-de pescar homens? A rede tem chumbada que vai ao fundo, e tem cortiça que nada em cima da água. A pregação tem umas coisas de mais peso e de mais fundo, e tem outras mais superficiais e mais leves; e governar o leve e o pesado, só o sabe fazer quem faz a rede. Na boca de quem não faz a pregação, até o chumbo é cortiça.

As razões não hão-de ser enxertadas, hão-de ser nascidas. O pregar não é recitar. As razões próprias nascem do entendimento, as alheias vão pegadas à memória, e os homens não se convencem pela memória, senão pelo entendimento.

Veio o Espírito Santo sobre os Apóstolos, e quando as línguas desciam do Céu, cuidava eu que se lhes haviam de pôr na boca; mas elas foram-se pôr na cabeça. Pois por que na cabeça e não na boca, que é o lugar da língua? Porque o que há-de dizer o pregador, não lhe há-de sair só da boca; há-lhe de sair pela boca, mas da cabeça. O que sai só da boca pára nos ouvidos; o que nasce do juízo penetra e convence o entendimento. Ainda tem mais mistério estas línguas do Espírito Santo. Diz o texto que não se puseram todas as línguas sobre todos os Apóstolos, senão cada uma sobre cada um: Apparuerunt dispertitae linguae tanquam ignis, seditque supra singulos eorum. E por que cada uma sobre cada um, e não todas sobre todos? Porque não servem todas as línguas a todos, senão a cada um a sua. Uma língua só sobre Pedro, porque a língua de Pedro não serve a André; outra língua só sobre André, porque a língua de André não serve a Filipe; outra língua só sobre Filipe, porque a língua de Filipe não serve a Bartolomeu, e assim dos mais. E senão vede-o no estilo de cada um dos Apóstolos, sobre que desceu o Espírito Santo. Só de cinco temos escrituras; mas a diferença com que escreveram, como sabem os doutos, é admirável. As penas todas eram tiradas das asas daquela pomba divina; mas o estilo tão diverso, tão particular e tão próprio de cada um, que bem mostra que era seu. Mateus fácil, João misterioso, Pedro grave, Jacob forte, Tadeu sublime, e todos com tal valentia no dizer, que cada palavra era um trovão, cada cláusula um raio e cada razão um triunfo. Ajuntai a estes cinco S. Lucas e S. Marcos, que também ali estavam, e achareis o número daqueles sete trovões que ouviu S. João no Apocalipse. Loquuti sunt septem tonitrua voces suas. Eram trovões que falavam e desarticulavam as vozes, mas essas vozes eram suas: Voces suas; «suas, e não alheias», como notou Ansberto: Non alienas, sed suas. Enfim, pregar o alheio é pregar o alheio, e com o alheio nunca se fez coisa boa.

Contudo eu não me firmo de todo nesta razão, porque do grande Baptista sabemos que pregou o que tinha pregado Isaías, como notou S. Lucas, e não com outro nome, senão de sermões: Praedicans baptismum poenitentiae in remissionem peccatorum, sicut scriptum est in libro sermonun Isaiae prophetae. Deixo o que tomou Santo Ambrósio de S. Basílio; S. Próspero e Beda de Santo Agostinho; Teofilato e Eutímio de S. João Crisóstomo.

VIII

Será finalmente a causa, que tanto há buscamos, a voz com que hoje falam os pregadores? Antigamente pregavam bradando, hoje pregam conversando. Antigamente a primeira parte do pregador era boa voz e bom peito. E verdadeiramente, como o mundo se governa tanto pelos sentidos, podem às vezes mais os brados que a razão. Boa era também esta, mas não a podemos provar com o semeador, porque já dissemos que não era ofício de boca. Porém o que nos negou o Evangelho no semeador metafórico, nos deu no semeador verdadeiro, que é Cristo. Tanto que Cristo acabou a parábola, diz o Evangelho que começou o Senhor a bradar: Haec dicens clamabat. Bradou o Senhor, e não arrazoou sobre a parábola, porque era tal o auditório, que fiou mais dos brados que da razão.

Perguntaram ao Baptista quem era? Respondeu ele: Ego vox clamantis in deserto: Eu sou uma voz que anda bradando neste deserto. Desta maneira se definiu o Baptista. A definição do pregador, cuidava eu que era: voz que arrazoa e não voz que brada. Pois por que se definiu o Baptista pelo bradar e não pelo arrazoar; não pela razão, senão pelos brados? Porque há muita gente neste mundo com quem podem mais os brados que a razão, e tais eram aqueles a quem o Baptista pregava. Vede-o claramente em Cristo. Depois que Pilatos examinou as acusações que contra ele se davam, lavou as mãos e disse: Ego nullam causam invenio in homine isto: Eu nenhuma causa acho neste homem. Neste tempo todo o povo e os escribas bradavam de fora, que fosse crucificado: At illi magis clamabant, crucifigatur. De maneira que Cristo tinha por si a razão e tinha contra si os brados. E qual pôde mais? Puderam mais os brados que a razão. A razão não valeu para o livrar, os brados bastaram para o pôr na Cruz. E como os brados no Mundo podem tanto, bem é que bradem alguma vez os pregadores, bem é que gritem. Por isso Isaías chamou aos pregadores «nuvens»: Qui sunt isti, qui ut nubes volant? A nuvem tem relâmpago, tem trovão e tem raio: relâmpago para os olhos, trovão para os ouvidos, raio para o coração; com o relâmpago alumia, com o trovão assombra, com o raio mata. Mas o raio fere a um, o relâmpago a muitos, o trovão a todos. Assim há-de ser a voz do pregador, um trovão do Céu, que assombre e faça tremer o Mundo.

Mas que diremos à oração de Moisés? Concrescat ut pluvia doctrina mea: fluat ut ros eloquim meum: Desça minha doutrina como chuva do céu, e a minha voz e as minhas palavras como orvalho que se destila brandamente e sem ruído. Que diremos ao exemplo ordinário de Cristo, tão celebrado por Isaías: Non clamabit neque audietur vox ejus foris? Não clamará, não bradará, mas falará com uma voz tão moderada que se não possa ouvir fora. E não há dúvida que o praticar familiarmente, e o falar mais ao ouvido que aos ouvidos, não só concilia maior atenção, mas naturalmente e sem força se insinua, entra, penetra e se mete na alma. Em conclusão que a causa de não fazerem hoje fruto os pregadores com a palavra de Deus, nem é a circunstância da pessoa: Qui seminat: nem a do estilo: Seminare; nem a da matéria: Semen; nem a da ciência: Suum; nem a da voz: Clamabat. Moisés tinha fraca voz; Amós tinha grosseiro estilo; Salamão multiplicava e variava os assuntos; Balaão não tinha exemplo de vida; o seu animal não tinha ciência; e contudo todos estes, falando, persuadiam e convenciam. Pois se nenhuma destas razões que discorremos, nem todas elas juntas são a causa principal nem bastante do pouco fruto que hoje faz a palavra de Deus, qual diremos finalmente que é a verdadeira causa?

IX

As palavras que tomei por tema o dizem. Semen est verbum Dei. Sabeis, Cristãos, a causa por que se faz hoje tão pouco fruto com tantas pregações? É porque as palavras dos pregadores são palavras, mas não são palavras de Deus. Falo do que ordinariamente se ouve. A palavra de Deus (como diria) é tão poderosa e tão eficaz, que não só na boa terra faz fruto, mas até nas pedras e nos espinhos nasce. Mas se as palavras dos pregadores não são palavras de Deus, que muito que não tenham a eficácia e os efeitos da palavra de Deus? Ventum seminabunt, et turbinem colligent, diz o Espírito Santo: «Quem semeia ventos, colhe tempestades». Se os pregadores semeiam vento, se o que se prega é vaidade, se não se prega a palavra de Deus, como não há a Igreja de Deus de correr tormenta, em vez de colher fruto?

Mas dir-me-eis: Padre, os pregadores de hoje não pregam do Evangelho, não pregam das Sagradas Escrituras? Pois como não pregam a palavra de Deus? Esse é o mal. Pregam palavras de Deus, mas não pregam a palavra de Deus: Qui habet sermonem meum, loquatur sermonem meum vere, disse Deus por Jeremias. As palavras de Deus, pregadas no sentido em que Deus as disse, são palavras de Deus; mas pregadas no sentido que nós queremos, não são palavras de Deus, antes podem ser palavras do Demónio. Tentou o Demónio a Cristo a que fizesse das pedras pão. Respondeu-lhe o Senhor: Non in solo pane vivit homo, sed in omni verbo, quod procedit de ore dei. Esta sentença era tirada do capítulo VIII do Deuteronómio. Vendo o Demónio que o Senhor se defendia da tentação com a Escritura, leva-o ao Templo, e alegando o lugar do salmo XC, diz-lhe desta maneira: Mille te deorsum; scriptum est enim, quia Angelis suis Deus mandavit de te, ut custodiant te in omnibus viis tuis: «Deita-te daí abaixo, porque prometido está nas Sagradas Escrituras que os anjos te tomarão nos braços, para que te não faças mal.» De sorte que Cristo defendeu-se do Diabo com a Escritura, e o Diabo tentou a Cristo com a Escritura. Todas as Escrituras são palavra de Deus: pois se Cristo toma a Escritura para se defender do Diabo, como toma o Diabo a Escritura para tentar a Cristo? A razão é porque Cristo tomava as palavras da Escritura em seu verdadeiro sentido, e o Diabo tomava as palavras da Escritura em sentido alheio e torcido; e as mesmas palavras, que tomadas em verdadeiro sentido são palavras de Deus, tomadas em sentido alheio, são armas do Diabo. As mesmas palavras que, tomadas no sentido em que Deus as disse, são defesa, tomadas no sentido em que Deus as não disse, são tentação. Eis aqui a tentação com que então quis o Diabo derrubar a Cristo, e com que hoje lhe faz a mesma guerra do pináculo do templo. O pináculo do templo é o púlpito, porque é o lugar mais alto dele. O Diabo tentou a Cristo no deserto, tentou-o no monte, tentou-o no templo: no deserto, tentou-o com a gula; no monte, tentou-o com a ambição; no templo, tentou-o com as Escrituras mal interpretadas, e essa é a tentação de que mais padece hoje a Igreja, e que em muitas partes tem derrubado dela, senão a Cristo, a sua fé.

Dizei-me, pregadores (aqueles com quem eu falo indignos verdadeiramente de tão sagrado nome), dizei-me: esses assuntos inúteis que tantas vezes levantais, essas empresas ao vosso parecer agudas que prosseguis, achaste-las alguma vez nos Profetas do Testamento Velho, ou nos Apóstolos e Evangelistas do Testamento Novo, ou no autor de ambos os Testamentos, Cristo? É certo que não, porque desde a primeira palavra do Génesis até à última do Apocalipse, não há tal coisa em todas as Escrituras. Pois se nas Escrituras não há o que dizeis e o que pregais, como cuidais que pregais a palavra de Deus? Mais: nesses lugares, nesses textos que alegais para prova do que dizeis, é esse o sentido em que Deus os disse? É esse o sentido em que os entendem os padres da Igreja? É esse o sentido da mesma gramática das palavras? Não, por certo; porque muitas vezes as tomais pelo que toam e não pelo que significam, e talvez nem pelo que toam. Pois se não é esse o sentido das palavras de Deus, segue-se que não são palavras de Deus. E se não são palavras de Deus, que nos queixamos que não façam fruto as pregações? Basta que havemos de trazer as palavras de Deus a que digam o que nós queremos, e não havemos de querer dizer o que elas dizem?! E então ver cabecear o auditório a estas coisas, quando devíamos de dar com a cabeça pelas paredes de as ouvir! Verdadeiramente não sei de que mais me espante, se dos nossos conceitos, se dos vossos aplausos? Oh, que bem levantou o pregador! Assim é; mas que levantou? Um falso testemunho ao texto, outro falso testemunho ao santo, outro ao entendimento e ao sentido de ambos. Então que se converta o mundo com falsos testemunhos da palavra de Deus? Se a alguém parecer demasiada a censura, ouça-me.

Estava Cristo acusado diante de Caifás, e diz o Evangelista S. Mateus que por fim vieram duas testemunhas falsas: Novissime venerunt duo falsi testes. Estas testemunhas referiram que ouviram dizer a Cristo que, se os Judeus destruíssem o templo, ele o tornaria a reedificar em três dias. Se lermos o Evangelista S. João, acharemos que Cristo verdadeiramente tinha dito as palavras referidas. Pois se Cristo tinha dito que havia de reedificar o templo dentro em três dias, e isto mesmo é o que referiram as testemunhas, como lhes chama o Evangelista testemunhas falsas: Duo falsi testes? O mesmo S. João deu a razão: Loquebatur de templo corporis sui. Quando Cristo disse que em três dias reedificaria o templo, falava o Senhor do templo místico de seu corpo, o qual os Judeus destruíram pela morte e o Senhor o reedificou pela ressurreição; e como Cristo falava do templo místico e as testemunhas o referiram ao templo material de Jerusalém, ainda que as palavras eram verdadeiras, as testemunhas eram falsas. Eram falsas, porque Cristo as dissera em um sentido, e eles as referiram em outro; e referir as palavras de Deus em diferente sentido do que foram ditas, é levantar falso testemunho a Deus, é levantar falso testemunho às Escrituras. Ah, Senhor, quantos falsos testemunhos vos levantam! Quantas vezes ouço dizer que dizeis o que nunca dissestes! Quantas vezes ouço dizer que são palavras vossas, o que são imaginações minhas, que me não quero excluir deste número! Que muito logo que as nossas imaginações, e as nossas vaidades, e as nossas fábulas não tenham a eficácia de palavra de Deus!

Miseráveis de nós, e miseráveis dos nossos tempos! Pois neles se veio a cumprir a profecia de S. Paulo: Erit tempus, cum sanam doctrinam non sustinebunt: Virá tempo, diz S. Paulo, «em que os homens não sofrerão a doutrina sã. Sed ad sua desideria coacervabunt sibi magistros prurientes auribus: Mas para seu apetite terão grande número de pregadores feitos a montão e sem escolha, os quais não façam mais que adular-lhes as orelhas. A veritate quidem auditum avertent, ad fabulas auten convertentur: Fecharão os ouvidos à verdade, e abri-los-ão às fábulas». Fábula tem duas significações: quer dizer fingimento e quer dizer comédia; e tudo são muitas pregações deste tempo. São fingimento, porque são sutilezas e pensamentos aéreos, sem fundamento de verdade; são comédia, porque os ouvintes vêm à pregação como à comédia; e há pregadores que vêm ao púlpito como comediantes. Uma das felicidades que se contava entre as do tempo presente era acabarem-se as comédias em Portugal; mas não foi assim. Não se acabaram, mudaram-se; passaram-se do teatro ao púlpito. Não cuideis que encareço em chamar comédias a muitas pregações das que hoje se usam. Tomara ter aqui as comédias de Plauto, de Terêncio, de Séneca, e veríeis se não acháveis nelas muitos desenganos da vida e vaidade do Mundo, muitos pontos de doutrina moral, muito mais verdadeiros, e muito mais sólidos, do que hoje se ouvem nos púlpitos. Grande miséria por certo, que se achem maiores documentos para a vida nos versos de um poeta profano, e gentio, que nas pregações de um orador cristão, e muitas vezes, sobre cristão, religioso!

Pouco disse S. Paulo em lhe chamar comédia, porque muitos sermões há que não são comédia, são farsa. Sobe talvez ao púlpito um pregador dos que professam ser mortos ao mundo, vestido ou amortalhado em um hábito de penitência (que todos, mais ou menos ásperos, são de penitência; e todos, desde o dia que os professamos, mortalhas); a vista é de horror, o nome de reverência, a matéria de compunção, a dignidade de oráculo, o lugar e a expectação de silêncio; e quando este se rompeu, que é o que se ouve? Se neste auditório estivesse um estrangeiro que nos não conhecesse e visse entrar este homem a falar em público naqueles trajos e em tal lugar, cuidaria que havia de ouvir uma trombeta do Céu; que cada palavra sua havia de ser um raio para os corações, que havia de pregar com o zelo e com o fervor de um Elias, que com a voz, com o gesto e com as ações havia de fazer em pó e em cinza os vícios. Isto havia de cuidar o estrangeiro. E nós que é o que vemos? Vemos sair da boca daquele homem, assim naqueles trajos, uma voz muito afectada e muito polida, e logo começar com muito desgarro, a quê? A motivar desvelos, a acreditar empenhos, a requintar finezas, a lisonjear precipícios, a brilhar auroras, a derreter cristais, a desmaiar jasmins, a toucar primaveras, e outras mil indignidades destas. Não é isto farsa a mais digna de riso, se não fora tanto para chorar? Na comédia o rei veste como rei, e fala como rei; o lacaio, veste como lacaio, e fala como lacaio; o rústico veste como rústico, e fala como rústico; mas um pregador, vestir como religioso e falar como... não o quero dizer, por reverência do lugar. Já que o púlpito é teatro, e o sermão comédia se quer, não faremos bem a figura? Não dirão as palavras com o vestido e com o ofício? Assim pregava S. Paulo, assim pregavam aqueles patriarcas que se vestiram e nos vestiram destes hábitos? Não louvamos e não admiramos o seu pregar? Não nos prezamos de seus filhos? Pois por que não os imitamos? Por que não pregamos como eles pregavam? Neste mesmo púlpito pregou S. Francisco Xavier, neste mesmo púlpito pregou S. Francisco de Borja; e eu, que tenho o mesmo hábito, por que não pregarei a sua doutrina, já que me falta o seu espírito?

X

Dir-me-eis o que a mim me dizem, e o que já tenho experimentado, que, se pregamos assim, zombam de nós os ouvintes, e não gostam de ouvir. Oh, boa razão para um servo de Jesus Cristo! Zombem e não gostem embora, e façamos nós nosso ofício! A doutrina de que eles zombam, a doutrina que eles desestimam, essa é a que lhes devemos pregar, e por isso mesmo, porque é mais proveitosa e a que mais hão mister. O trigo que caiu no caminho comeram-no as aves. Estas aves, como explicou o mesmo Cristo, são os demónios, que tiram a palavra de Deus dos corações dos homens: Venit Diabolus, et tollit verbum de corde ipsorum! Pois por que não comeu o Diabo o trigo que caiu entre os espinhos, ou o trigo que caiu nas pedras, senão o trigo que caiu no caminho? Porque o trigo que caiu no caminho: Conculcatum est ab hominibus: Pisaram-no os homens; e a doutrina que os homens pisam, a doutrina que os homens desprezam, essa é a de que o Diabo se teme. Dessoutros conceitos, dessoutros pensamentos, dessoutras sutilezas que os homens estimam e prezam, dessas não se teme nem se acautela o Diabo, porque sabe que não são essas as pregações que lhe hão-de tirar as almas das unhas. Mas daquela doutrina que cai: Secus viam: daquela doutrina que parece comum: Secus viam; daquela doutrina que parece trivial: Secus viam; daquela doutrina que parece trilhada: Secus viam; daquela doutrina que nos põe em caminho e em via da nossa salvação (que é a que os homens pisam e a que os homens desprezam), essa é a de que o Demónio se receia e se acautela, essa é a que procura comer e tirar do Mundo; e por isso mesmo essa é a que deviam pregar os pregadores, e a que deviam buscar os ouvintes. Mas se eles não o fizerem assim e zombarem de nós, zombemos nós tanto de suas zombarias como dos seus aplausos. Per infamiam et bonam famam, diz S. Paulo: O pregador há-de saber pregar com fama e sem fama. Mais diz o Apóstolo: Há-de pregar com fama e com infâmia. Pregar o pregador para ser afamado, isso é mundo: mas infamado, e pregar o que convém, ainda que seja com descrédito de sua fama?, isso é ser pregador de Jesus Cristo.

Pois o gostarem ou não gostarem os ouvintes! Oh, que advertência tão digna! Que médico há que repare no gosto do enfermo, quando trata de lhe dar saúde? Sarem e não gostem; salvem-se e amargue-lhes, que para isso somos médicos das almas. Quais vos parece que são as pedras sobre que caiu parte do trigo do Evangelho? Explicando Cristo a parábola, diz que as pedras são aqueles que ouvem a pregação com gosto: Hi sunt, qui cum gaudio suscipiunt verbum. Pois será bem que os ouvintes gostem e que no cabo fiquem pedras?! Não gostem e abrandem-se; não gostem e quebrem-se; não gostem e frutifiquem. Este é o modo com que frutificou o trigo que caiu na boa terra: Et fructum afferunt in patientia, conclui Cristo. De maneira que o frutificar não se ajunta com o gostar, senão com o padecer; frutifiquemos nós, e tenham eles paciência. A pregação que frutifica, a pregação que aproveita, não é aquela que dá gosto ao ouvinte, é aquela que lhe dá pena. Quando o ouvinte a cada palavra do pregador treme; quando cada palavra do pregador é um torcedor para o coração do ouvinte; quando o ouvinte vai do sermão para casa confuso e atónito, sem saber parte de si, então é a preparação qual convém, então se pode esperar que faça fruto: Et fructum afferunt in patientia.

Enfim, para que os pregadores saibam como hão-de pregar e os ouvintes a quem hão-de ouvir, acabo com um exemplo do nosso Reino, e quase dos nossos tempos. Pregavam em Coimbra dois famosos pregadores, ambos bem conhecidos por seus escritos; não os nomeio, porque os hei-de desigualar. Altercou-se entre alguns doutores da Universidade qual dos dois fosse maior pregador; e como não há juízo sem inclinação, uns diziam este, outros, aquele. Mas um lente, que entre os mais tinha maior autoridade, concluiu desta maneira: «Entre dois sujeitos tão grandes não me atrevo a interpor juízo; só direi uma diferença, que sempre experimento: quando ouço um, saio do sermão muito contente do pregador; quando ouço outro, saio muito descontente de mim.»

Com isto tenho acabado. Algum dia vos enganastes tanto comigo, que saíeis do sermão muito contentes do pregador; agora quisera eu desenganar-vos tanto, que saíreis muito descontentes de vós. Semeadores do Evangelho, eis aqui o que devemos pretender nos nossos sermões: não que os homens saiam contentes de nós, senão que saiam muito descontentes de si; não que lhes pareçam bem os nossos conceitos, mas que lhes pareçam mal os seus costumes, as suas vidas, os seus passatempos, as suas ambições e, enfim, todos os seus pecados. Contanto que se descontentem de si, descontentem-se embora de nós. Si hominibus placerem, Christus servus non essem, dizia o maior de todos os pregadores, S. Paulo: Se eu contentara aos homens, não seria servo de Deus. Oh, contentemos a Deus, e acabemos de não fazer caso dos homens! Advirtamos que nesta mesma Igreja há tribunas mais altas que as que vemos: Spectaculum facti sumus Deo, Angelis et hominibus. Acima das tribunas dos reis, estão as tribunas dos anjos, está a tribuna e o tribunal de Deus, que nos ouve e nos há-de julgar. Que conta há-de dar a Deus um pregador no Dia do Juízo? O ouvinte dirá: Não mo disseram. Mas o pregador? Vae mihi, quia tacui: Ai de mim, que não disse o que convinha! Não seja mais assim, por amor de Deus e de nós.

Estamos às portas da Quaresma, que é o tempo em que principalmente se semeia a palavra de Deus na Igreja, e em que ela se arma contra os vícios. Preguemos e armemo-nos todos contra os pecados, contra as soberbas, contra os ódios, contra as ambições, contra as invejas, contra as cobiças, contra as sensualidades. Veja o Céu que ainda tem na terra quem se põe da sua parte. Saiba o Inferno que ainda há na terra quem lhe faça guerra com a palavra de Deus, e saiba a mesma terra que ainda está em estado de reverdecer e dar muito fruto: Et fecit fructum centuplum.

 

 

 

 

ORFEU SPAM APOSTILAS

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PADRE ANTONIO VIEIRA - Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal Contra as de Holanda

Exurge, quare obdormis, Domine? Exurge, et ne repellas in finem. Quare faciem tuas avertis? Oblivisceris inopiae nostrae et tribulationis nostrae? Exurge, Domine, adjuva nos, et redime nos propter nomem tuum (1).


 

I

Com estas palavras piedosamente resolutas, mais protestando que orando, dá fim o profeta rei ao salmo quarenta e três, salmo que desde o princípio até o fim não parece senão cortado para os tempos e ocasião presente. O Doutor Máximo, São Jerônimo, e depois dele os outros expositores, dizem que se entende a letra de qualquer reino ou província católica destruída e assolada por inimigos da fé. Mas entre todos os reinos do mundo, a nenhum lhe quadra melhor que ao nosso Reino de Portugal, e entre todas as províncias de Portugal, a nenhuma vem mais ao justo, que à miserável província do Brasil. Vamos lendo todo o salmo, e em todas as cláusulas dele veremos retratadas as da nossa fortuna, o que fomos e o que somos.

Deus, auribus nostris audivimus; patres nostri annuntiaverunt nobis, opus quod opera tus es in diebus eorum, et in diebus antiquis (2): Ouvimos — começa o profeta — a nossos pais, lemos nas nossas histórias, e ainda os mais velhos viram, em parte, com seus olhos as obras maravilhosas, as proezas, as vitórias, as conquistas, que por meio dos portugueses obrou em tempos passados vossa onipotência, Senhor. Manus tua gentes disperdidit, et plantasti eos: afflixisti populos, et expulisti eos (3): Vossa mão foi a que venceu e sujeitou tantas nações bárbaras belicosas e indômitas, e as despojou do domínio de suas próprias terras, para nelas os plantar, como plantou com tão bem fundadas raízes, e para nelas os dilatar, como dilatou e estendeu em todas as partes do mundo, na África, na Ásia, na América. Nec enim in gladio suo possederunt terram, et brachium eorum non salvavit eos, sed dextera tua et brachium tuum, et iliuminatio vultus tui, quoniam complacuisti in eis (4): Porque não foi a força do seu braço, nem a da sua espada a que lhes sujeitou as terras que possuíram, e as gentes e reis que avassalaram, senão a virtude de vossa destra onipotente, e a luz e o prêmio supremo de vosso beneplácito, com que neles vos agradastes e dele vos servistes. — Até aqui a relação ou memória das felicidades passadas, com que passa o profeta aos tempos e desgraças presentes.

Nunc autem repulisti et confudisti nos, et non egredieris, Deus, in virtutibus nostris (5): Porém agora, Senhor, vemos tudo isto tão trocado, que já parece que nos deixastes de todo, e nos lançastes de vós, porque já não ides diante das nossas bandeiras, nem capitaneais como dantes os nossos exércitos: Avertisti nos retrorsum post inimicos nostros; et qui oderuni nos diripiebant sibi (6): Os que tão acostumados éramos a vencer e triunfar, não por fracos, mas por castigados, fazeis que voltemos as costas a nossos inimigos — que, como são açoite de vossa justiça, justo é que lhes demos as costas — e, perdidos os que antigamente foram despojos do nosso valor, são agora roubo da sua cobiça. Dedisti nos tanquam oves escarum, et in gentibus dispersisti nos (7): Os velhos, as mulheres, os meninos, que não têm forças nem armas com que se defender, morrem como ovelhas inocentes às mãos da crueldade herética, e os que podem escapar à morte, desterrando-se a terras estranhas, perdem a casa e a pátria. Possuisti nos opprobrium vicinis nostris, subsannationem et derisum his qui sunt in circuitu nostro(8): Não fora tanto para sentir, se perdidas fazendas e vidas, se salvara ao menos a honra; mas também esta, a passos contados se vai perdendo; e aquele nome português, tão celebrado nos anais da fama, já o herege insolente, com as vitórias o afronta, e o gentio, de que estamos cercados, e que tanto o venerava e temia, já o despreza.

Com tanta propriedade como isto descreve Davi neste salmo nossas desgraças, contrapondo o que somos hoje ao que fomos enquanto Deus queria, para que na experiência presente cresça a dor por oposição com a memória do passado. Ocorre aqui ao pensamento o que não é lícito sair à língua, e não falta quem discorra tacitamente que a causa desta diferença tão notável foi a mudança da monarquia. Não havia de ser assim dizem — se vivera um Dom Manoel, um Dom João, o Terceiro, ou a fatalidade de um Sebastião não sepultara com ele os reis portugueses. Mas o mesmo profeta, no mesmo salmo nos dá o desengano desta falsa imaginação: Tu es ipse Rex meus et Deus meus, qui mandas salutes Jacob (9). O Reino de Portugal, como o mesmo Deus nos declarou na sua fundação, é reino seu, e não nosso: Volo enim in te, et in semine tuo imperium mihi stabilire(10)e como Deus é o Rei: Tu es ipse rex meus et Deus meus — e este rei é o que manda e o que governa: Qui mandas salutes, Jacob — ele, que não se muda, é o que causa estas diferenças, e não os reis que se mudaram. À vista pois desta verdade certa e sem engano esteve um pouco suspenso o nosso profeta na consideração de tantas calamidades, até que para remédio delas o mesmo Deus, que o alumiava, lhe inspirou um conselho altíssimo, nas palavras que tomei por tema.

Exurge, quare obdormis Domine? Exurge, et ne repellas in finem. Quare faciem tuam avertis? Oblivisceris inopiae nostrae et tribulationis nostrae? Exurge, Domine, adjuva nos, et redime nos propter nomem tuum. Não prega Davi ao povo, não o exorta ou repreende, não faz contra ele invectivas, posto que bem merecidas; mas todo arrebatado de um novo e extraordinário espírito, se volta não só a Deus, mas, piedosamente atrevido, contra ele. Assim como Marta disse a Cristo: Domine, non est tibi curae (11)? — assim estranha Davi reverentemente a Deus, e quase o acusa de descuidado. Queixa-se das desatenções da sua misericórdia e providência, que isso é considerar a Deus dormindo: Exurge, quare obdormis Domine? Repete-lhe que acorde e que não deixe chegar os danos ao fim, permissão indigna de sua piedade: Exurge, et ne repellas infinem. Pede-lhe a razão por que aparta de nós os olhos e não volta o rosto: Quare faciem tuam avertis, — e por que se esquece da nossa miséria, e não faz caso de nossos trabalhos: Oblivisceris inopiae nostrae et tribulationis nostrae. E não só pede de qualquer modo esta razão do que Deus faz e permite, senão que insta a que lhe dê uma e outra vez: Quare obdormis? Quare oblivisceris? Finalmente, depois destas perguntas, a que supõe que não tem Deus resposta, e destes argumentos, com que presume o tem convencido, protesta diante do tribunal de sua justiça e piedade, que tem obrigação de nos acudir, de nos ajudar e de nos libertar logo: Exurge, Domine, adjuva nos, et redime nos. E para mais obrigar ao mesmo Senhor, não protesta por nosso bem e remédio, senão por parte da sua honra e glória: Propter nomen tuum.

Esta é — todo-poderoso e todo misericordioso Deus — esta é a traça de que usou para render vossa piedade quem tanto se conformava com vosso coração. E desta usarei eu também hoje, pois o estado em que nos vemos mais é o mesmo, que semelhante. Não hei de pregar hoje ao povo, não hei de falar com os homens: mais alto hão de sair as minhas palavras ou as minhas vozes; a vosso peito divino se há de dirigir todo o sermão. E este o último de quinze dias contínuos em que todas as igrejas desta metrópole, a esse mesmo trono de vossa patente Majestade têm representado suas deprecações; e pois o dia é o último, justo será que nele se acuda também ao último e único remédio. Todos estes dias se cansaram debalde os oradores evangélicos em pregar penitência aos homens; e pois eles se não converteram, quero eu, Senhor, converter-vos a vós. Tão presumido venho de vossa misericórdia, Deus meu, que, ainda que nós somos os pecadores, vós haveis de ser o arrependido.

O que venho a pedir ou protestar, Senhor, é que nos ajudeis e nos liberteis: Adjuva nos, et redime nos. Mui conformes são estas petições ambas ao lugar e ao tempo. Em tempo que tão oprimidos e tão cativos estamos, que devemos pedir com maior necessidade, senão que nos liberteis: Redime nos? E na casa da Senhora da Ajuda, que devemos esperar com maior confiança, senão que nos ajudeis: Adjuva nos? Não hei de pedir pedindo, senão protestando e argumentando, pois esta é a licença e liberdade que tem quem não pede favor, senão justiça. Se a causa fora só nossa, e eu viera a rogar só por nosso remédio, pedira favor e misericórdia. Mas, como a causa, Senhor, é mais vossa que nossa, e como venho a requerer por parte de vossa honra e glória, e pelo crédito de vosso nome: Propter nomem tuum: razão é que peça só razão, justo é que peça só justiça. Sobre este pressuposto vos hei de argüir, vos hei de argumentar, e confio tanto da vossa razão e da vossa benignidade, que também vos hei de convencer. Se chegar a me queixar de vós, e acusar as dilações de vossa justiça ou as desatenções de vossa misericórdia: — Quare obdormis, quare oblivisceris? — não será esta vez a primeira em que sofrestes semelhantes excessos a quem advoga por vossa causa. As custas de toda a demanda, também vós, Senhor, as haveis de pagar, porque me há de dar vossa mesma graça as razões com que vos hei de argüir, a eficácia com que vos hei de apertar, e todas as armas com que vos hei de render. E se para isto não bastam os merecimentos da causa, suprirão os da Virgem Santíssima, em cuja ajuda principalmente confio. Ave Maria.

II

Exurge, quare obdormis, Domine? Querer argumentar com Deus, e convencê-lo com razões, não só dificultoso assunto parece, mas empresa declaradamente impossível, sobre arrojada temeridade. O homo, tu qui es, qui respondeas Deo? Nunquid dicit figmentum ei qui se finxit: Quid mefecisti sic (Rom. 9, 20)? Homem atrevido — diz São Paulo — homem temerário, quem és tu, para que te ponhas a altercar com Deus? Porventura o barro que está na roda e entre as mãos do oficial põe-se às razões com ele, e diz-lhe: por que me fazes assim? — Pois, se tu és barro, homem mortal, se te formaram as mãos de Deus da matéria vil da terra, como dizes ao mesmo Deus: Quare, quare? Como te atreves a argumentar com a Sabedoria divina, como pedes razão à sua providência do que te faz ou deixa de fazer: Quare obdormis? Quare faciem tuam avertis? Venera suas permissões, reverencia e adora seus ocultos juízos, encolhe os ombros com humildade a seus decretos soberanos, e farás o que te ensina a fé e o que deves a criatura. Assim o fazemos, assim o confessamos; assim o protestamos diante de Vossa Majestade infinita, imenso Deus, incompreensível bondade: Justus es, Domine, et rectum judicium tuum (12). Por mais que nós não saibamos entender vossas obras, por mais que não possamos alcançar vossos conselhos, sempre sois justo, sempre sois santo, sempre sois infinita bondade, e ainda nos maiores rigores de vossa justiça, nunca chegais com a severidade do castigo aonde nossas culpas merecem.

Se as razões e argumentos da nossa causa as houvéramos de fundar em merecimentos próprios, temeridade fora grande, antes impiedade manifesta, querer-vos argüir. Mas nós, Senhor, como protestava o vosso profeta Daniel: Neque enim in justificatiombus nostris prosternimus preces ante faciam tuam, sed in miserationibus tuis multis(13). Os requerimentos e razões deles, que humildemente presentamos ante vosso divino conspecto, as apelações ou embargos que entrepomos à execução e continuação dos castigos que padecemos, de nenhum modo os fundamos na presunção de nossa justiça, mas todos na multidão de vossas misericórdias: In miserationibus tuis multis. Argumentamos, sim, mas de vós para vós; apelamos, mas de Deus para Deus: de Deus justo, para Deus misericordioso. E como do peito, Senhor, vos hão de sair todas as setas, mal poderão ofender vossa bondade. Mas porque a dor, quando é grande, sempre arrasta o afeto, e o acerto das palavras é descrédito da mesma dor, para que o justo sentimento dos males presentes não passe os limites sagrados de quem fala diante de Deus e com Deus, em tudo o que me atrever a dizer, seguirei as pisadas sólidas dos que em semelhantes ocasiões, guiados por vosso mesmo espírito, oraram e exoraram vossa piedade.

Quando o povo de Israel no deserto cometeu aquele gravíssimo pecado de idolatria, adorando o ouro das suas jóias na imagem bruta de um bezerro, revelou Deus o caso a Moisés, que com ele estava, e acrescentou irado e resoluto que daquela vez havia de acabar para sempre com uma gente tão ingrata, e que a todos havia de assolar e consumir, sem que ficasse rasto de tal geração: Dimitte me, ut irascatur furor meus contra eos, et deleam eos (14). Não lhe sofreu porém o coração ao bom Moisés ouvir falar em destruição e assolação do seu povo: põe-se em campo, opõe-se à ira divina, e começa a arrazoar assim: Cur Domine, irascitur furor tuus contra populum tuum (Êx. 32,11)? E bem, Senhor, por que razão se indigna tanto a vossa ira contra o vosso povo? — Por que razão, Moisés? E ainda vós quereis mais justificada razão de Deus? Acaba de vos dizer que está o povo idolatrando, que está adorando um animal bruto, que está negando a divindade ao mesmo Deus, e dando-a a uma estátua muda, que acabaram de fazer suas mãos, e atribuindo-lhe a ela a liberdade e triunfo com que os livrou do cativeiro do Egito, e sobre tudo isto ainda perguntais a Deus por que razão se agasta: Cur irascitur furor tuus? Sim, e com muito prudente zelo. Porque, ainda que da parte do povo havia muito grandes razões de ser castigado, da parte de Deus era maior a razão que havia de o não castigar: Ne quaeso — dá a razão Moisés — ne quaeso dicant Aegyptii: Callide eduxit eos, ut interftceret in montibus, et deleret e terra (15). Olhai, Senhor, que porão mácula os egípcios em vosso ser, e quando menos em vossa verdade e bondade. Dirão que cautelosamente e a falsa fé nos trouxestes a este deserto, para aqui nos tirardes a vida a todos, e nos sepultardes. — E com esta opinião divulgada e assentada entre eles, qual será o abatimento de vosso santo nome, que tão respeitado e exaltado deixastes no mesmo Egito, com tantas e tão prodigiosas maravilhas do vosso poder? Convém, logo, para conservar o crédito, dissimular o castigo, e não dar com ele ocasião àqueles gentios e aos outros, em cujas terras estamos, ao que dirão: Ne quaeso dicant. — Desta maneira arrazoou Moisés em favor do povo, e ficou tão convencido Deus da força deste argumento, que no mesmo ponto revogou a sentença, e, conforme o texto hebreu, não só se arrependeu da execução, senão ainda do pensamento: Et paenituit Dominus mali quod cogitaverat facere populo suo (Êx. 32, 14 ex text. Hebr.): E arrependeu-se o Senhor do pensamento e da imaginação que tivera de castigar o seu povo.

Muita razão tenho eu logo, Deus meu, de esperar que haveis de sair deste sermão arrependido, pois sois o mesmo que éreis, e não menos amigo agora, que nos tempos passados, de vosso nome: Propter nomem tuum. Moisés disse-vos: Ne quaeso dicant: Olhai, Senhor, que dirão. — E eu digo, e devo dizer: Olhai, Senhor, que já dizem. — Já dizem os hereges insolentes, com os sucessos prósperos que vós lhes dais ou permitis, já dizem que porque a sua, que eles chamam religião, é a verdadeira, por isso Deus os ajuda, e vencem; e porque a nossa é errada e falsa, por isso nos desfavorece, e somos vencidos. Assim o dizem, assim o pregam, e ainda mal porque não faltará quem o creia. Pois, é possível, Senhor, que hão de ser vossas permissões argumentos contra vossa fé? É possível que se hão de ocasionar de nossos castigos blasfêmias contra vosso nome? Que diga o herege — o que treme de o pronunciar a língua — que diga o herege que Deus está holandês? Oh! não permitais tal, Deus meu, não permitais tal, por quem sois. Não o digo por nós, que pouco ia em que nos castigásseis; não o digo pelo Brasil, que pouco ia em que o destruísseis; por vós o digo, e pela honra do vosso santíssimo nome, que tão imprudentemente se vê blasfemado: Propter nomem tuum. Já que o pérfido calvinista, dos sucessos que só lhe merecem nossos pecados, faz argumento da religião, e se jacta insolente e blasfemo de ser a sua a verdadeira, veja ele na roda dessa mesma fortuna, que o desvanece, de que parte está a verdade. Os ventos e tempestades, que descompõem e derrotam as nossas armadas, derrotem e desbaratem as suas; as doenças e pestes, que diminuem e enfraquecem os nossos exércitos, escalem as suas muralhas e despovoem os seus presídios; os conselhos que, quando vós quereis castigar, se corrompem, em nós sejam alumiados, e neles enfatuados e confusos. Mude a vitória as insígnias, desafrontem-se as cruzes católicas, triunfem as vossas chagas nas nossas bandeiras, e conheça humilhada e desenganada a perfídia, que só a fé romana que professamos é fé, e só ela a verdadeira e a vossa.

Mas ainda há mais quem diga: Ne quaeso dicant Aegyptii. Olhai Senhor, que vivemos entre gentios, uns que o são, outros que o foram ontem. E estes, que dirão? Que dirá o tapuia bárbaro, sem conhecimento de Deus? Que dirá o índio inconstante, a quem falta a pia afeição da nossa fé? Que dirá o etíope boçal, que apenas foi molhado com a água do Batismo, sem mais doutrina? Não há dúvida que todos estes, como não têm capacidade para sondar o profundo de vossos juízos, beberão o erro pelos olhos. Dirão, pelos efeitos que vêem, que a nossa fé é falsa, e a dos holandeses a verdadeira, e crerão que são mais cristãos, sendo como eles. A seita do herege torpe e brutal concorda mais com a brutalidade do bárbaro: a largueza e soltura de vida, que foi a origem e é o fomento da heresia, casa-se mais com os costumes depravados e corrupção do gentilismo; e que paga haverá que se converta à fé que lhe pregamos, ou que novo cristão já convertido, que se não perverta, entendendo e persuadindo-se uns e outros que no herege é premiada a sua lei, e no católico se castiga a nossa? Pois, se estes são os efeitos, posto que não pretendidos, de vosso rigor e castigo justamente começado em nós, se ateia e passa com tanto dano aos que não são cúmplices nas nossas culpas: Cur irascitur furor tuus? Por que continua sem estes reparos o que vós mesmos chamastes furor, e por que não acabais já de embainhar a espada de vossa ira?

Se tão gravemente ofendido do povo hebreu por um que dirão dos egípcios lhe perdoastes, o que dizem os hereges e o que dirão os gentios não será bastante motivo para que vossa rigorosa mão suspenda o castigo e perdoe também os nossos pecados, pois, ainda que grandes, são menores? Os hebreus adoraram o ídolo, faltaram à fé, deixaram o culto do verdadeiro Deus, chamaram deus e deuses a um bezerro, e nós, por mercê de vossa bondade infinita, tão longe estamos e estivemos sempre de menor defeito ou escrúpulo nesta parte, que muitos deixaram a pátria, a casa, a fazenda, e ainda a mulher e os filhos, e passam em suma miséria desterrados, só por não viver nem comunicar com homens que se separaram da vossa Igreja. Pois, Senhor meu e Deus meu, se por vosso amor e por vossa fé, ainda sem perigo de a perder ou arriscar, fazem tais finezas os portugueses: Quare oblivisceris inopiae nostrae et tribulationis nostrae? Por que vos esqueceis de tão religiosas misérias, de tão católicas tribulações? Como é possível que se ponha Vossa Majestade irada contra estes fidelíssimos servos, e favoreça a parte dos infiéis, dos excomungados, dos ímpios?

Oh! como nos podemos queixar neste passo, como se queixava lastimado Jó, quando despojados dos sabeus e caldeus, se viu, como nós nos vemos, no extremo da opressão e miséria: Nunquid bonum tibi videtur, si calumnieris me, et opprimas me opus man um tuarum, et consilium impiorum adjuves (16)? Parece-vos bem, Senhor, parece-vos bem isto? Que a mim, que sou vosso servo, me oprimais e aflijais? E aos ímpios, aos inimigos vossos os favoreçais e ajudeis? Parece-vos bem que sejam eles os prosperados e assistidos de vossa Providência, e nós os deixados de vossa mão, nós os esquecidos de vossa memória, nós o exemplo de vossos rigores, nós o despojo de vossa ira? Tão pouco é desterrar-nos por vós, e deixar tudo? Tão pouco é padecer trabalhos, pobrezas e os desprezos que elas trazem consigo, por vosso amor? Já a fé não tem merecimento? Já a piedade não tem valor? Já a perseverança não vos agrada? Pois, se há tanta diferença entre nós, ainda que maus, e aquele pérfidos, por que os ajudais a eles, e nos desfavoreceis a nós? Nunquid bonum tibi videtur? A vós, que sois a mesma bondade, parece-vos bem isto?


 

III

Considerai, Deus meu, e perdoai-me se falo inconsideradamente. Considerai a quem tirais as terras do Brasil, e a quem as dais. Tirais estas terras aos portugueses, a quem nos princípios as destes, e bastava dizer a quem as destes, para perigar o crédito de vosso nome, que não podem dar nome de liberal mercês com arrependimento. Para que nos disse S. Paulo, que vós, Senhor, quando dais, não vos arrependeis: Sine poenitentia enim sunt dona Dei (17)? Mas, deixado isto a parte, tirais estas terras àqueles mesmos portugueses, a quem escolhestes, entre todas as nações do mundo para conquistadores da vossa fé, e a quem destes por armas, como insígnia e divisa singular, vossas próprias chagas. — E será bem, supremo Senhor e Governador do universo, que às sagradas quinas de Portugal, e às armas e chagas de Cristo, sucedam as heréticas listas de Holanda, rebeldes a seu rei e a Deus? Será bem que estas se vejam tremular ao vento vitoriosas, e aquelas abatidas, arrastadas e ignominiosamente rendidas? Et quid facies magno nomini tuo (Jos. 7,9)? E que fareis — como dizia Josué — ou que será feito de vosso glorioso nome em casos de tanta afronta?

Tirais também o Brasil aos portugueses, que assim estas terras vastíssimas, como as remotíssimas do Oriente, as conquistaram à custa de tantas vidas e tanto sangue, mais por dilatar vosso nome e vossa fé — que esse era o zelo daqueles cristianíssimos reis — que por amplificar e estender seu império. Assim fostes servido que entrássemos nestes novos mundos tão honrada e tão gloriosamente, e assim permitis que saiamos agora — quem tal imaginara de vossa bondade — com tanta afronta e ignomínia. — Oh! como receio que não falte quem diga o que diziam os egípcios: Callide eduxit eos, ut interficeret et deleret e terra (18): Que a larga mão com que nos destes tantos domínios e remos não foram mercês de vossa liberalidade, senão cautela e dissimulação de vossa ira, para aqui fora, e longe de nossa pátria, nos matardes, nos destruirdes, nos acabardes de todo. Se esta havia de ser a paga e o fruto de nossos trabalhos, para que foi o trabalhar, para que foi o servir, para que foi o derramar tanto e tão ilustre sangue nestas conquistas? Para que abrimos os mares nunca dantes navegados? Para que descobrimos as regiões e os climas não conhecidos? Para que contrastamos os ventos e as tempestades com tanto arrojo, que apenas há baixio no oceano, que não esteja infamado com miserabilíssimos naufrágios de portugueses? E depois de tantos perigos, depois de tantas desgraças, depois de tantas e tão lastimosas mortes, ou nas praias desertas sem sepultura, ou sepultados nas entranhas dos alarves, das feras, dos peixes, que as terras que assim ganhamos, as hajamos de perder assim? Oh! quanto melhor nos fora nunca conseguir nem intentar tais empresas!

Mais santo que nós era Josué, menos apurada tinha a paciência, e contudo, em ocasião semelhante, não falou — falando convosco — por diferente linguagem. Depois de os filhos de Israel passarem às terras ultramarinas do Jordão, como nós a estas, avançou parte do exército a dar assalto à cidade de Hai, a qual nos ecos do nome já parece que trazia o prognóstico do infeliz sucesso que os israelitas nela tiveram, porque foram rotos e desbaratados, posto que com menos mortos e feridos do que nós por cá costumamos. E que faria Josué à vista desta desgraça? Rasga as vestiduras imperiais, lança-se por terra, começa a clamar ao céu: Heu, Domine Deus, quid voluisti traducere populum istum Jordanem fluvium, ut traderes nos in manus Amorrhaei (Jos. 7,7)? Deus meu e Senhor meu, que é isto? Para que nos mandastes passar o Jordão, e nos metestes de posse destas terras, se aqui nos havíeis de entregar nas mãos dos amorreus, e perder-nos? Utinam mansissemus trans Jordanem! Oh! nunca nós passáramos tal rio! — Assim se queixava Josué a Deus, e assim nos podemos nós queixar, e com muito maior razão que ele. Se este havia de ser o fim de nossas navegações, se estas fortunas nos esperavam nas terras conquistadas: Utinam mansissemus trans Jordanem! Prouvera a vossa divina Majestade, que nunca saíramos de Portugal, nem fiáramos nossas vidas às ondas e aos ventos, nem conhecêramos ou puséramos os pés em terras estranhas. Ganhá-las para as não lograr desgraça foi, e não ventura; possui-las para as perder, castigo foi de vossa ira, Senhor, e não mercê nem favor de vossa liberalidade. Se determináveis dar estas mesmas terras aos piratas de Holanda, por que lhas não destes enquanto eram agrestes e incultas, senão agora? Tantos serviços vos tem feito esta gente pervertida e apóstata, que nos mandastes primeiro cá por seus aposentadores, para lhes lavrarmos as terras, para lhes edificarmos as cidades, e, depois de cultivadas e enriquecidas, lhas entregardes? Assim se hão de lograr os hereges e inimigos da fé dos trabalhos portugueses e dos suores católicos? En queis consevimus agros (19): Eis aqui para quem trabalhamos há tantos anos! — Mas, pois vós, Senhor, o quereis e ordenais assim, fazei o que fordes servido. Entregai aos holandeses o Brasil, entregai-lhes as Índias, entregai-lhes as Espanhas — que não são menos perigosas as conseqüências do Brasil perdido — entregai-lhes quanto temos e possuímos como já lhes entregastes tanta parte — ponde em suas mãos o mundo, e a nós, aos portugueses e espanhóis, deixai-nos, repudiai-nos, desfazei-nos, acabai-nos. Mas só digo e lembro a Vossa Majestade, Senhor, que estes mesmos, que agora desfavoreceis e lançais de vós, pode ser que os queirais algum dia, e que os não tenhais.

Não me atrevera a falar assim, se não tirara as palavras da boca de Jó que, como tão lastimado, não é muito entre muitas vezes nesta tragédia. Queixava-se o exemplo da paciência a Deus — que nos quer Deus sofridos, mas não insensíveis — queixava-se do tesão de suas penas, demandando e altercando porque se lhe não havia de remitir e afrouxar um pouco o rigor delas, e como a todas as réplicas e instâncias o Senhor se mostrasse inexorável, quando já não teve mais que dizer, concluiu assim: Ecce nunc in pulvene dormiam, et si mane me quoesieris, non subsistam (Jó 7,21): Já que não quereis, Senhor, desistir ou moderar o tormento, já que não quereis senão continuar o rigor, e chegar com ele ao cabo, seja muito embora, matai-me, consumi-me, enterrai-me: Ecce nunc in pulvere dormiam. Mas só vos digo e vos lembro uma coisa, que se me buscardes amanhã, que me não haveis de achar: Et si mane me quoesieris, non subsistam. Tereis aos sabeus, tereis aos caldeus, que sejam o roubo e o açoite de vossa casa, mas não achareis a um Jó que a sirva, não achareis a um Jó que a venere, não achareis a um Jó que, ainda com suas chagas, a não desautorize. — O mesmo digo eu, Senhor, que não é muito rompa nos mesmos afetos que se vê no mesmo estado. Abrasai, destruí, consumi-nos a todos; mas pode ser que algum dia queirais espanhóis e portugueses, e que os não acheis. Holanda vos dará os apostólicos conquistadores, que levem pelo mundo os estandartes da cruz; Holanda vos dará os pregadores evangélicos, que semeiem nas terras dos bárbaros a doutrina católica e a reguem com o próprio sangue; Holanda defenderá a verdade de vossos Sacramentos e a autoridade da Igreja Romana; Holanda edificará templos, Holanda levantará altares, Holanda consagrará sacerdotes, e oferecerá o sacrifício de vosso Santíssimo Corpo; Holanda, enfim, vos servirá e venerará tão religiosamente, como em Amsterdã, Meldeburg e Flisinga, e em todas as outras colônias daquele frio e alagado inferno, se está fazendo todos os dias.


 

IV

Bem vejo que me podeis dizer, Senhor, que a propagação de vossa fé, e as obras de vossa glória não dependem de nós, nem de ninguém, e que sois poderoso, quando faltem homens, para fazer das pedras filhos de Abraão. Mas também a vossa sabedoria e a experiência de todos os séculos nos tem ensinado que depois de Adão não criastes homens de novo, que vos servis dos que tendes neste mundo, e que nunca admitis os menos bons, senão em falta dos melhores. Assim o fizestes na parábola do banquete. Mandastes chamar os convidados que tínheis escolhido, e porque eles se escusaram e não quiseram vir, então admitistes os cegos e mancos, e os introduzistes em seu lugar: Caecos et claudos introduc huc (20). Se esta é, Deus meu, a regular disposição de vossa Providência divina, como a vemos agora tão trocada em nós, e tão diferente conosco? Quais foram estes convidados, e quais são estes cegos e mancos? Os convidados somos nós, a quem primeiro chamastes para estas terras, e nelas nos pusestes a mesa tão franca e abundante, como de vossa grandeza se podia esperar. Os cegos e mancos são os luteranos e os calvinistas, cegos sem fé e mancos sem obras, na reprovação das quais consiste o principal erro da sua heresia. Pois, se nós, que somos os convidados, não nos escusamos nem duvidamos de vir, antes rompemos por muitos inconvenientes, em que pudéramos duvidar, se viemos e nos assentamos à mesa, como nos excluis agora, e lançais fora dela, e introduzis violentamente os cegos e mancos, e dais os nossos lugares ao herege? Quando em tudo o mais foram eles tão bons como nós, ou nós tão maus como eles, por que nos não há de valer pelo menos o privilégio e prerrogativa da fé? Em tudo parece, Senhor, que trocais os estilos de vossa Providência e mudais as leis de vossa justiça conosco.

Aquelas dez virgens do nosso Evangelho, todas se renderam ao sono, todas adormeceram, todas foram iguais no mesmo descuido: Dormitaverunt omnes, et dormierunt (21). E, contudo, a cinco delas passou-lhes o esposo por este defeito, e só porque conservaram as lâmpadas acesas, mereceram entrar às bodas, de que as outras foram excluídas. Se assim é, Senhor meu, se assim o julgastes então — que vós sois aquele esposo divino — por que não nos vale a nós também conservar as lâmpadas da fé acesas, que no herege estão tão apagadas e tão mortas? É possível que haveis de abrir as portas a quem traz as lâmpadas apagadas, e que as haveis de fechar a quem as tem acesas? Reparai, Senhor, que não é autoridade do vosso divino tribunal, que saiam dele no mesmo çaso duas sentenças tão encontradas. Se às que deixaram apagar as lâmpadas se disse: Nescio vos (22),se para elas se fecharam as portas: Clausa est janua (23), quem merece ouvir de vossa boca um nescio vos tremendo, senão o herege que vos não conhece? E a quem deveis dar com a porta nos olhos, senão ao herege, que os tem tão cegos? Mas eu vejo que nem esta cegueira, nem este desconhecimento, tão merecedores de vosso rigor, lhes retarda o progresso de suas fortunas, antes a passo largo se vêm chegando a nós suas armas vitoriosas, e cedo nos baterão às portas desta vossa cidade. Desta vossa cidade, disse, mas não sei se o nome do Salvador, com que a honrastes, a salvará e defenderá, como já outra vez não defendeu; nem sei se estas nossas deprecações, posto que tão repetidas e continuadas, acharão acesso a vosso conspecto divino, pois há tantos anos que está bradando ao céu a nossa justa dor, sem vossa demência dar ouvidos a nossos clamores.

Se acaso for assim — o que vós não permitais — e está determinado em vosso secreto juízo, que entrem os hereges na Bahia, o que só vos represento humildemente, e muito deveras, é que, antes da execução da sentença, repareis bem, Senhor, no que vos pode suceder depois, e que o consulteis com vosso coração enquanto é tempo, porque melhor será arrepender agora, que quando o mal passado não tenha remédio. Bem estais na intenção e alusão com que digo isto, e na razão, fundada em vós mesmo, que tenho para o dizer. Também antes do dilúvio estáveis vós mui colérico e irado contra os homens, e por mais que Noé orava em todos aqueles cem anos, nunca houve remédio para que se aplacasse vossa ira. Romperam-se enfim as cataratas do céu, cresceu o mar até os cumes dos montes, alagou-se o mundo todo: já estaria satisfeita vossa justiça, senão quando ao terceiro dia começaram a boiar os corpos mortos, e a surgir e aparecer em multidão infinita aquelas figuras pálidas, e então se representou sobre as ondas a mais triste e funesta tragédia que nunca viram os anjos, que homens que a vissem, não os havia. Vistes vós também — como se o vísseis de novo — aquele lastimosíssimo espetáculo, e posto que não chorastes, porque ainda não tínheis olhos capazes de lágrimas, enterneceram-se porém as entranhas de vossa divindade, com tão intrínseca dor: Tactus dolore cordis intrinsecus (24), que do modo que em vós cabe arrependimento, vos arrependestes do que tínheis feito ao mundo, e foi tão inteira a vossa contrição, que não só tivestes pesar do passado, senão propósito firme de nunca mais o fazer: Nequaquam ultra maledicam terrae propter homines(25). Este sois, Senhor, este sois; e pois sois este, não vos tomeis com vosso coração. Para que é fazer agora valentias contra ele, se o seu sentimento e o vosso as há de pagar depois? Já que as execuções de vossa justiça custam arrependimento à vossa bondade, vede o que fazeis antes que o façais; não vos aconteça outra. E para que o vejais com cores humanas, que já vos não são estranhas, dai-me licença que eu vos represente primeiro ao vivo as lástimas e misérias deste futuro dilúvio, e se esta representação vos não enternecer, e tiverdes entranhas para o ver sem grande dor, executai-o embora.

Finjamos pois — o que até fingido e imaginado faz horror, finjamos que vem a Bahia e o resto do Brasil a mãos dos holandeses: que é o que há de suceder em tal caso? Entrarão por esta cidade com fúria de vencedores e de hereges; não perdoarão a estado, a sexo nem a idade; com os fios dos mesmos alfanjes medirão a todos. Chorarão as mulheres, vendo que se não guarda decoro à sua modéstia; chorarão os velhos, vendo que se não guarda respeito às suas cãs; chorarão os nobres, vendo que se não guarda cortesia à sua qualidade; chorarão os religiosos e veneráveis sacerdotes, vendo que até as coroas sagradas os não defendem; chorarão, finalmente, todos, e entre todos mais lastimosamente os inocentes, porque nem a estes perdoará — como em outras ocasiões não perdoou — a desumanidade herética. Sei eu, Senhor, que só por amor dos inocentes dissestes vós alguma hora que não era bem castigar a Nínive. Mas não sei que tempos nem que desgraça é esta nossa, que até a mesma inocência vos não abranda. Pois também a vós, Senhor, vos há de alcançar parte do castigo — que é o que mais sente a piedade cristã — também a vós há de chegar.

Entrarão os hereges nesta igreja e nas outras; arrebatarão esta custódia em que agora estais adorado dos anjos; tomarão os cálices e vasos sagrados, e aplicá-los-ão a suas nefandas embriaguezes. Derrubarão dos altares os vultos e estátuas dos santos, deformá-las-ão a cutiladas, e metê-las-ão no fogo, e não perdoarão as mãos furiosas e sacrílegas nem as imagens tremendas de Cristo crucificado, nem as da Virgem Maria. Não me admiro tanto, Senhor, de que hajais de consentir semelhantes agravos e afrontas nas vossas imagens, pois já as permitistes em vosso sacratíssimo corpo; mas nas da Virgem Maria, nas de vossa Santíssima Mãe, não sei como isto pode estar com a piedade e amor de Filho. No Monte Calvário esteve esta Senhora sempre ao pé da cruz, e com serem aqueles algozes tão descorteses e cruéis, nenhum se atreveu a lhe tocar nem a lhe perder o respeito. Assim foi e assim havia de ser, porque assim o tínheis vós prometido pelo profeta: Flagellum non apropinquabit tabernaculo tuo(26). Pois, Filho da Virgem Maria, se tanto cuidado tivestes então do respeito e decoro de vossa Mãe, como consentis agora que se lhe façam tantos desacatos? Nem me digais, Senhor, que lá era a pessoa, cá a imagem. Imagem somente da mesma Virgem era a Arca do Testamento, e só porque Oza a quis tocar, lhe tirastes a vida. Pois, se então havia tanto rigor para quem ofendia a imagem de Maria, por que o não há também agora? Bastava então qualquer dos outros desacatos às coisas sagradas, para uma severíssima demonstração vossa, ainda milagrosa. Se a Jeroboão, porque levantou a mão para um profeta, se lhe secou logo o braço milagrosamente, como aos hereges, depois de se atreverem a afrontar vossos santos, lhes ficam ainda braços para outros delitos? Se a Baltasar, por beber pelos vasos do templo, em que não se consagrava vosso sangue, o privastes da vida e do reino, por que vivem os hereges, que convertem vossos cálices a usos profanos? Já não há três dedos que escrevam sentença de morte contra sacrílegos?

Enfim, Senhor, despojados assim os templos, e derrubados os altares, acabar-se-á no Brasil a cristandade católica, acabar-se-á o culto divino, nascerá erva nas igrejas como nos campos, não haverá quem entre nelas. Passará um dia de Natal, e não haverá memória de vosso nascimento; passará a Quaresma e a Semana Santa, e não se celebrarão os mistérios de vossa Paixão. Chorarão as pedras das ruas, como diz Jeremias que choravam as de Jerusalém destruída: Viae Sion lugent, eo quod non sint qui veniant ad solemnitatem (27). Ver-se-ão ermas e solitárias, e que as não pisa a devoção dos fiéis, como costumava em semelhantes dias. Não haverá missas, nem altares, nem sacerdotes que as digam; morrerão os católicos sem confissão nem sacramentos; pregar-se-ão heresias nestes mesmos púlpitos, e, em lugar de São Jerônimo e Santo Agostinho, ouvir-se-ão e alegar-se-ão neles os infames nomes de Calvino e Lutero; beberão a falsa doutrina os inocentes que ficarem, relíquias dos portugueses, e chegaremos a estado, que, se perguntarem aos filhos e netos dos que aqui estão: — Menino, de que seita sois? — um responderá: — Eu sou calvinista — outro: Eu sou luterano. — Pois isto se há de sofrer, Deus meu? Quando quisestes entregar vossas ovelhas a São Pedro, examinaste-lo três vezes se vos amava: Diligis me, diligis me, diligis me (Jo. 21,15 s)? E agora as entregais desta maneira, não a pastores, senão aos lobos? Sois o mesmo, ou sois outro? Aos hereges o vosso rebanho? Aos hereges as almas? Como tenho dito e nomeei almas, não vos quero dizer mais. Já sei, Senhor, que vos haveis de enternecer e arrepender, e que não haveis de ter coração para ver tais lástimas e tais estragos. E se assim é — que assim o estão prometendo vossas entranhas piedosíssimas — se é que há de haver dor, se é que há de haver arrependimento depois, cessem as iras, cessem as execuções agora, que não é justo vos contente antes o de que vos há de pesar em algum tempo.

Muito honrastes, Senhor, ao homem na criação do mundo, formando-o com vossas próprias mãos, informando-o e animando-o com vosso próprio alento, e imprimindo nele o caráter de vossa imagem e semelhança. Mas parece que logo, desde aquele mesmo dia, vos não contentastes dele, porque de todas as outras coisas que criastes, diz a Escritura que vos pareceram bem: Vidit Deus quod esset bonum (28)e só do homem o não diz. Na admiração desta misteriosa reticência andou desde então suspenso e vacilando o juízo humano, não podendo penetrar qual fosse a causa por que, agradando-vos com tão pública demonstração todas as vossas obras, só do homem, que era a mais perfeita de todas, não mostrásseis agrado. Finalmente, passados mais de mil e setecentos anos, a mesma Escritura, que tinha calado aquele mistério, nos declarou que vós estáveis arrependido de ter criado o homem: Poenituit eum quod hominem fecisset in terra(29)e que vós mesmo dissestes que vos pesava: Poenitet me fecisse eos (30)e então ficou patente e manifesto a todos o segredo que tantos tempos tínheis ocultado. E vós, Senhor, dizeis que vos pesa e que estais arrependido de ter criado o homem, pois essa é a causa por que logo, desde o princípio de sua criação vos não agradastes dele nem quisestes que se dissesse que vos parecera bem, julgando, como era razão, por coisa muito alheia de vossa Sabedoria e Providência, que em nenhum tempo vos agradasse nem parecesse bem aquilo de que depois vos havíeis de arrepender e ter pesar de ter feito: Poenitet me fecisse. Sendo, pois, esta a condição verdadeiramente divina, e a altíssima razão de estado de vossa Providência, não haver jamais agrado do que há de haver arrependimento, e sendo também certo, nas piedosíssimas entranhas de vossa misericórdia, que se permitirdes agora as lástimas, as misérias, os estragos que tenho representado, é força que vos há de pesar depois e vos haveis de arrepender, arrependei-vos, misericordioso Deus, enquanto estamos em tempo, ponde em nós os olhos de vossa piedade, ide à mão à vossa irritada justiça, quebre vosso amor as setas de vossa ira, e não permitais tantos danos, e tão irreparáveis. Isto é o que vos pedem, tantas vezes prostradas diante de vosso divino acatamento, estas almas tão fielmente católicas, em nome seu e de todas as deste estado. E não vos fazem esta humilde deprecação pelas perdas temporais, de que cedem, e as podeis executar neles por outras vias, mas pela perda espiritual eterna de tantas almas, pelas injúrias de vossos templos e altares, pela exterminação do sacrossanto sacrifício de vosso Corpo e Sangue, e pela ausência insofrível, pela ausência e saudades desse Santíssimo Sacramento, que não sabemos quanto tempo teremos presente.

V

Chegado a este ponto, de que não sei, nem se pode passar, parece-me que nos está dizendo vossa divina e humana bondade, Senhor, que o fizéreis assim facilmente, e vos deixaríeis persuadir e convencer destas nossas razões, senão que está clamando, por outra parte, vossa divina justiça, e, com o sois igualmente justo e misericordioso, que não podeis deixar de castigar, sendo os pecados do Brasil tantos e tão grandes. Confesso, Deus meu, que assim é, e todos confessamos que somos grandíssimos pecadores. Mas tão longe estou de me aquietar com esta resposta, que antes estes mesmos pecados, muitos e grandes, são um novo e poderoso motivo, dado por vós mesmo, para mais convencer vossa bondade.

A maior força dos meus argumentos não consistiu em outro fundamento até agora, que no crédito, na honra e na glória de vosso santíssimo nome: Propter nomem tu um. E que motivo posso eu oferecer mais glorioso ao mesmo nome, que serem muitos e grandes os nossos pecados? Propter nomem tuum, Domine, propitiaberis peccato meo: multum est enim (Sl. 24, 11): Por amor de vosso nome, Senhor, estou certo — dizia Davi — que me haveis de perdoar meus pecados, porque não são quaisquer pecados, senão muitos e grandes: Multum est enim. — Oh! motivo digno só do peito de Deus! Oh! conseqüência, que só na suma bondade pode ser forçosa! De maneira que, para lhe serem perdoados seus pecados, alegou um pecador a Deus, que são muitos e grandes? Sim, e não por amor do pecador, nem por amor dos pecados, senão por amor da honra e glória do mesmo Deus, a qual, quanto mais e maiores são os pecados que perdoa, tanto maior é, e mais engrandece e exalta seu santíssimo nome: Propter nomem tuum, Domine, propitiaberis peccato meo: multum est enim. O mesmo Davi distingue na misericórdia de Deus grandeza e multidão; a grandeza: Secundum magnam misericordiam tuam; a multidão: Et secundum multitudinem miserationum tuarum (31). E como a grandeza da misericórdia divina é imensa, e a multidão de suas misericórdias infinitas, e o imenso não se pode medir, nem o infinito contar, para que uma e outra, de algum modo, tenha proporcionada matéria de glória, importa à mesma grandeza da misericórdia que os pecados sejam grandes, e à mesma multidão das misericórdias que sejam muitos: Multum est enim. Razão tenho eu logo, Senhor, de me não render à razão de serem muitos e grandes nossos pecados. E razão tenho também de instar em vos pedir a razão por que não desistis de os castigar: Quare obdormis? Quare faciem tuam avertis? Quare oblivisceris inopiae nostrae et tribulationis nostrae(32)?

Esta mesma razão vos pediu Jó, quando disse: Cur non tollis peccatum meum, et quare non aufers iniquitatem meam (33)? E posto que não faltou um grande intérprete de vossas Escrituras que argüisse por vossa parte, enfim se deu por vencido, e confessou que tinha razão Jó em vo-la pedir: Criminis in loco Deo impingis, quod ejus, qui deli quit, non miseretur? — diz São Cirilo Alexandrino. Basta, Jó, que criminais e acusais a Deus de que castiga vossos pecados? Nas mesmas palavras confessais que cometestes pecados e maldades, e com as mesmas palavras pedis razão a Deus porque as castiga? Isto é dar a razão, e mais pedi-la. Os pecados e maldades, que não ocultais, são a razão do castigo: pois, se dais a razão, por que a pedis? Porque ainda que Deus, para castigar os pecados, tem a razão de sua justiça, para os perdoar e desistir do castigo, tem outra razão maior, que é a da sua glória: Qui enim misereri consuevit, et non vulgarem in eo gloriam habei, obquam causam mei non miseretur? Pede razão Jó a Deus, e tem muita razão de a pedir — responde por ele o mesmo santo que o argüiu — porque se é condição de Deus usar de misericórdia, e é grande e não vulgar a glória que adquire em perdoar pecados, que razão tem, ou pode dar bastante, de os não perdoar? O mesmo Jó tinha já declarado a força deste seu argumento nas palavras antecedentes, com energia para Deus muito forte: Peccavi, quid faciam tibi (34)? Como se dissera: — Se eu fiz, Senhor, como homem em pecar, que razão tendes vós para não fazer como Deus em me perdoar? — Ainda disse e quis dizer mais: Peccavi, quid faciam tibi? Pequei, que mais vos posso fazer? — E que fizestes vós, Jó, a Deus em pecar? — Não lhe fiz pouco, porque lhe dei ocasião a me perdoar, e, perdoando-me, ganhar muita glória. Eu dever-lhe-ei a ele, como a causa, a graça que me fizer, e ele dever-me-á a mim, como a ocasião, a glória que alcançar.

E se é assim, Senhor, sem licença nem encarecimento, se é assim, misericordioso Deus, que em perdoar pecados se aumenta a vossa glória, que é o fim de todas vossas ações, não digais que nos não perdoais porque são muitos e grandes os nossos pecados, que antes, porque são muitos e grandes, deveis dar essa grande glória à grandeza e multidão de vossas misericórdias. Perdoando-nos e tendo piedade de nós, é que haveis de ostentar a soberania de vossa majestade, e não castigando-nos, em que mais se abate vosso poder, do que se acredita. Vede-o neste último castigo, em que, contra toda a esperança do mundo e de tempo, fizestes que se derrotasse a nossa armada, a maior que nunca passou a equinocial. Pudestes, Senhor, derrotá-la, e que grande glória foi de vossa onipotência poder o que pode o vento? Contra folium, quod vento rapitur; ostendis potentiamt (35). Desplantar uma nação, como nos ides desplantando, e plantar outra, também é poder que vós cometestes a um homenzinho de Anatot: Ecce constitui te super gentes et super regna, ut evellas, et destruas, et disperdas, et dissipes, et aedifices, et plantes (36). O em que se manifesta a majestade, a grandeza e a glória de vossa infinita onipotência, é em perdoar e usar de misericórdia: Qui omnipotentiam tuam, parcendo maxime, et miserando, manifestas. Em castigar, venceis-nos a nós, que somos criaturas fracas, mas em perdoar, venceis-vos a vós mesmo, que sois todo-poderoso e infinito. Só esta vitória é digna de vós, porque só vossa justiça pode pelejar com armas iguais contra vossa misericórdia; e, sendo infinito o vencido, infinita fica a glória do vencedor. Perdoai, pois, benigníssimo Senhor, por esta grande glória vossa: Propter magnam gloriamtuam: Perdoai por esta glória imensa de vosso santíssimo nome: Propter nomem tuum.

E se acaso ainda reclama vossa divina justiça, por certo não já misericordioso, senão justíssimo Deus, que também a mesma justiça se pudera dar por satisfeita com os rigores e castigos de tantos anos. Não sois vós, enquanto justo, aquele justo juiz de quem canta o vosso profeta: Deus, judex justus, fortis et patiens, nunquid irascitur per singulos dies (37)? Pois se a vossa ira, ainda como de justo juiz, não é de todos os dias, nem de muitos, por que se não dará por satisfeita com rigores de anos, e tantos anos? Sei eu, legislador supremo, que nos casos de ira, posto que justificada, nos manda vossa santíssima lei que não passe de um dia, e que, antes de se pôr o sol, tenhamos perdoado: Sol non occidat super iracundiam vestram (38). Pois, se da fraqueza humana, e tão sensitiva, espera tal moderação nos agravos vossa mesma lei, e lhe manda que perdoe e se aplaque em termo tão breve e tão preciso, vós que sois Deus infinito, e tendes um coração tão dilatado como vossa mesma imensidade, e em matéria de perdão vos propondes aos homens por exemplo, como é possível que os rigores de vossa ira se não abrandem em tantos anos, e que se ponha e torne a nascer o sol tantas e tantas vezes, vendo sempre desembainhada e correndo sangue a espada de vossa vingança? Sol de justiça, cuidei eu que vos chamavam as Escrituras (Mal. 4,2), porque, ainda quando mais fogoso e ardente, dentro do breve espaço de doze horas passava o rigor de vossos raios; mas não o dirá assim este sol material que nos alumia e rodeia, pois há tantos dias e tantos anos que, passando duas vezes sobre nós de um trópico a outro, sempre vos vê irado.

Já vos não alego, Senhor, com o que dirá a terra e os homens, mas com o que dirá o céu e o mesmo sol. Quando Josué mandou parar o sol, as palavras da língua hebraica em que lhe falou foram não que parasse, senão que se calasse: Sol, tace contra Gabaon (39). Calar mandou ao sol o valente capitão, porque aqueles resplendores amortecidos, com que se ia sepultar no ocaso, eram umas línguas mudas, com que o mesmo sol o murmurava de demasiadamente vingativo; eram umas vozes altíssimas, com que desde o céu lhe lembrava a lei de Deus, e lhe pregava que não podia continuar a vingança, pois ele se ia meter no Ocidente: Sol non occidat super iracundiam vestram. E se Deus, como autor da mesma lei, ordenou que o sol parasse, e aquele dia — o maior que viu o mundo — excedesse os termos da natureza por muitas horas, e fosse o maior, foi para que, concordando a justa lei com a justa vingança, nem por uma parte se deixasse de executar o rigor do castigo, nem por outra se dispensasse no rigor do preceito. Castigue-se o gabaonita, pois é justo castigá-lo, mas esteja o sol parado até que se acabe o castigo, para que a ira, posto que justa, do vencedor, não passe os limites de um dia. Pois, se este é, Senhor, o termo prescrito de vossa lei, se fazeis milagres, e tais milagres, para que ela se conserve inteira, e se Josué manda calar e emudecer o sol, por que se não queixe e dê vozes contra a continuação de sua ira, que quereis que diga o mesmo sol não parado nem emudecido? Que quereis que diga a lua e as estrelas, já cansadas de ver nossas misérias? Que quereis que digam todos esses céus criados, não para apregoar vossas justiças, senão para cantar vossas glórias: Caeli enarrant gloriam Dei (40)?

Finalmente, benigníssimo Jesus, verdadeiro Josué e verdadeiro sol, seja o epílogo e conclusão de todas as nossas razões o vosso mesmo nome: Propter nomem tuum. Se o sol estranha a Josué rigores de mais de um dia, e Josué manda calar o sol por que lhos não estranhe, como pode estranhar vossa divina justiça que useis conosco de misericórdia, depois da execução de tantos e tão rigorosos castigos, continuados não por um dia ou muitos dias de doze horas, senão por tantos e tão compridos anos, que cedo serão doze? Se sois Jesus, que quer dizer Salvador, sede Jesus e sede Salvador nosso. Se sois sol, e sol de justiça, antes que se ponha o deste dia, deponde os rigores da vossa. Deixai já o signo rigoroso de Leão, e dai um passo ao signo de Virgem, signo propício e benéfico. Recebei influências humanas de quem recebestes a humanidade. Perdoai-nos, Senhor, pelos merecimentos da Virgem Santíssima. Perdoai-nos por seus rogos, ou perdoai-nos por seus impérios, que se como criatura vos pede por nós o perdão, como Mãe vos pode mandar, e vos manda que nos perdoeis. Perdoai-nos, enfim, para que a vosso exemplo perdoemos, e perdoai-nos também a exemplo nosso, que todos, desde esta hora, perdoamos a todos por vosso amor: Dimitte nobis debita nostra, sicut et nos dimittimus debitoribus nosiris. Amen (41).

(1) Levanta-te, por que dormes, Senhor? Levanta-te e não nos desampares para sempre. Por que apartas teu rosto, e te esqueces da nossa miséria e da nossa tribulação? Levanta-te, Senhor, ajuda-nos, e resgata-nos por amor de teu nome (Sl. 43,23,24,26).

(2) Nós, ó Deus, com as nossas orelhas ouvimos: nossos pais nos anunciaram a obra que fizestes nos dias deles e nos dias antigos (Sl. 43,2).

(3) A tua mão exterminou as gentes, e os plantaste a eles; a afligiste os povos, e os lançaste fora (Sl. 43,3).

(4) Porque não com a sua espada que possuíram a terra, e o seu braço não os salvou, senão a tua destra, e o teu braço, e aluz do teu rosto, porque te comprazeste neles. (Sl. 43,4).

(5) Mas agora tu nos lançaste fora e cobriste de confusão, e tu, ó Deus, não andarás à testa dos nossos exércitos (Sl. 43,10).

(6) Tu nos fizeste voltar as costas a nossos inimigos, e que fôssemos presa dos que nos tinham em aborrecimento. (Sl. 43, 11).

(7) Tu nos entregaste como ovelhas de matadouro, e nos espalhaste entre as nações (Sl. 43,12).

(8) Puseste-nos por opróbrio aos nossos vizinhos, por escárnio e zombaria àqueles que estão ao redor de nós (Sl. 43,14).

(9) Tu mesmo és o meu rei, que dispões as salvações de Jacó (Sl. 43,5).

(10) Quero estabelecer em e na tua descedência o meu império.

(11) Senhor, a ti não se te dá? (Lc. 10,40).

(12) Tu és justo, Senhor, e é reto o teu juízo. (Sl. 118, 137).

(13) Não fazemos estas deprecações fundados em alguns merecimentos da nossa justiça, mas sim na multidão das tuas misericórdias. (Dan. 9,18).

(14) Deixa que se acenda o furor da minha indignação contra eles, e que eu os consuma. (Êx. 32,10).

(15) Não permitas, te rogo, que digam os egípcios: Ele os tirou do Egito astutamente para matar nos montes, e para os extinguir da terra. (Êx. 32,12).

(16) Porventura parece-te bem caluniares-me e oprimires-me a mim que sou obra das tuas mãos, e favoreces o desígnio dos ímpios. (Jó 10,3).

(17) Porque os dons de Deus são imutáveis. (Rom. 11,29).

(18) Eles os tirou do Egito astutamente para os matar e para os extinguir da terra. (Êx. 32,12).

(19) Virgil.

(20) Traze-me cá os cegos e os coxos. (Lc. 14,21).

(21) Começaram a toscanejar todas, e assim vieram a dormir. (Mt. 25,5).

(22) Não vos conheço (Mt. 25,12).

(23) Fechou-se a porta (Mt. 25,10).

(24) Tocado interiormente de dor. (Gên. 6,6).

(25) Não amaldiçoarei mais a terra por causa dos homens (Gên. 8,21).

(26) O flagelo não apriximará à tu tenda. (Sl. 90,10).

(27) As ruas de Sião choram, porque não há quem venha às solenidades. (Lam. 1,4).

(28) E viu Deus que isto era bom. (Gên. 1,10).

(29) Pesou-lhe de ter criado o homem na terra. (Gên. 6,6).

(30) Porque me pesa de os ter feito. (Gên. 6,7).

(31) Segundo a tua grande misericórdia, e segundo as muitas mostras da tua clemência. (Sl. 50,3).

(32) Por que dormes? Por que apartas teu rosto? Por que te esqueces da nossa miséria e da nossa tribulação? (Sl. 43,23s).

(33) Por que não me tiras o meu pecado, e por que não apagas a minha iniqüidade (Jó 7,21)?

(34) Pequei, que te farei eu? (Jó 7,20).

(35) Contra uma folha, que é arrebatada ao vento, ostentas o teu poder. (Jó 13,25).

(36) Eis aí te constituí sobre as gentes e sobre os reinos, para arrancares e destruíres, e para arruinares e dissipares, e edificares e plantares. (Jer. 1,10).

(37) Deus, juiz justo, forte e paciente, ira-se acaso todos os dias? (Sl. 7,12).

(38) Não se ponha o sol sobre a vossa ira. (Ef. 4,26).

(39) Sol detém-se sobre Gabaon. (Jos. 10,12).

(40) Os céus publicam a glória de Deus. (Sl. 18,1).

(41) Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também perdoamos aos nossos devedores. (Mt. 6,12).

 

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POETAS DO BARROCO: ALEXANDRE DE GUSMÃO, JOSÉ DA CUNHA CARDOSO E SEBASTIÃO DA ROCHA PITA

ALEXANDRE DE GUSMÃO

A Júpiter Supremo Deus do Olimpo

Nume que tens do mundo o regimento,
Se amas o bem, se odeias a maldade,
Como deixas com prêmio a iniquidade,
E assoçobrado ao são entendimento?

Como hei de crer qu'um imortal tormento,
Castigue a uma mortal leviandade?
Que seja ciência, amor ou piedade
Expor-me ao mal sem meu consentimento?

Guerras cruéis, fanáticos tiranos,
Raios, tremores, e as moléstias tristes,
Enchem o curso de pesados anos;

Se és Deus, s'isto prevês, e assim persistes,
Ou não fazes apreço dos humanos,
Ou qual dizem não és; ou não existes.

A Seus Dois Filhos Persuadindo-lhes o Conhecimento Próprio

Isto não é vaidade; é desengano
A elevação do vosso pensamento:
Dei-vos o ser, e dou-vos documento
Para fugirdes da soberba ao dano.

Esta grandeza, com que ao mundo engano,
Foi da fortuna errado movimento.
Subi; mas tive humilde nascimento:
Assim foi Viriato, assim Trajano.

Quando souberdes ler do mundo a história,
Nos dous heróis, que tomo por empresa,
Contemplareis a vossa e a minha glória.

Humildes quanto ao ser da natureza;
Ilustres nas ações; e esta memória
É só quem pode dar-vos a grandeza.

JOSÉ DA CUNHA CARDOSO

Soneto
Ao Sr. Presidente da Academia Brasílica dos Esquecidos, Sebastião da Rocha Pita

Rocha eminente, cuja prosa e metro
Sobre as asas da fama aos astros voa,
Porque a harmonia, que o teu plectro entoa,
Mais mostra ser do Céu, que do Libetro,

É tanta a majestade do teu plectro,
Que reverente o Sol desce em pessoa
A prostrar aos teus pés cetro, e coroa,
Por honrar a coroa, e mais o cetro.

Quando em prosas discretas tanto avultas,
E tanto excedes do Caístro as aves,
Vejo que a Homero, e Cícero sepultas.

Mais ignoro quais sejam mais suaves,
Se em valente eloqüência as prosas cultas,
Se em furor elegante os versos graves.

Soneto
Uma estátua de Apolo ferida e desfeita por um raio


Da ciência na imagem mais divina,
Do sacro Apolo simulacro augusto,
Emprega as iras com furor injusto
Raio fatal, que Júpiter fulmina.

Acautelado Jove a crer se inclina,
Que saber só lhe pode causar susto;
Pois com razão, e fundamento justo
Sobre os astros o sábio só domina.

Pela origem, que traz do eterno lume,
Com o poder do Deus, que os orbes move,
Só a ciência competir presume.

Por isso sobre a estátua o fogo chove,
Em vingança do susto, e do ciúme
De ir tirar a ciência o cetro a Jove.

Soneto em louvor do Presidente da Academia, o Padre Manuel Serqueyra Leal.

Nos ecos do silêncio retumbante
Sois a pompa do horrísono instrumento,
Do côncavo da Lua o pavimento,
E do Trópico austral a estrela errante.

No calor furibundo e coruscante,
Que é lúbrico da inveja firmamento,
Fostes autor do paradoxo invento,
Raio nos episódios fulminante.

Calcitrante se escrespa, e se aprofunda
Vossa pluma no Letes, excedendo
Ao cultor que de Tróia os campos lavra.

Viste meu Manuel, tal barafunda?
Pois São Pedro me leve, se eu entendo
Disto que aqui vos disse, u'a palavra.

Soneto
A modéstia de Alexandre Magno quando se lhe houveram de apresentar a mulher, mãe e filhas de Dario vencido.


Esse, a cujo poder o orbe rotundo
É por estreito esfera incompetente,
Hoje a glória alcançou mais excelente,
Hoje o troféu primeiro, e sem segundo.

Esse, em cujo valor não se acha fundo,
Em Dario triunfou de um rei potente;
Mas em si, reportado e continente
Triunfou de quem vence a todo o mundo.

Estas são as conquistas verdadeiras,
Brasões maiores, glórias mais altivas,
Que têm do seu exército as bandeiras.

Publique-se em pregões de eternos vivas
Só é capaz de ter tais prisioneiras
Quem sabe as paixões próprias ter cativas.

SEBASTIÃO DA ROCHA PITA

[Mudou o Sol o Berço refulgente]

Mudou o Sol o Berço refulgente,

Ou fez Berço do Túmulo arrogante

Galhardo onde se punha agonizante

Com luz no Ocaso, e sombras no Oriente.

Não morre agora o Sol, quer diferente

No Aspecto, se na vida semelhante

No Oriente nascer menos flamante,

E renascer mais belo no Ocidente.

Fênix de raios a uma, e outra parte

Comunica os incêndios, e fulgores,

Porém com diferença hoje os reparte.

Nasce lá no Oriente só em ardores,

No Ocidente a ilustra Ciência, e Arte

Renasce em luzes, vive em resplandores.

Endechas

[Um belo menino brincando em um Jardim com flores, o mordeu um Áspid, e logo morreu. Assunto lírico da presente Academia]

Seja o verso pequeno,

E breve o estilo

Pois o lírico Assunto

É de um menino.

Bem que belo não fora

Será preciso,

Que o poder do toante

O faço lindo.

De Nácar, e de Neve

Composto vivo,

Era cristal com alma,

Flor com sentidos.

Dera em um Jardim

Pasmo aos Jacintos,

Às Angélicas Xaque,

Mate aos Narcisos.

Ao brincar com todos

Foi de improviso,

Não de Abelha picado,

De Áspid mordido.

Cai logo coberto

De um suor tíbio,

Que por ser de Aljôfar

Era Rocio.

A morte recebeu

Em um solilóquio,

Sem que a vida lhe

Um só suspiro.

Mas ser morto decerto

Eu não o afirmo,

Porque a todos parece

Que está dormindo.

Matar por este modo,

Fraco inimigo

Sendo fatalidade,

Parece brinco.

Em um quadro de flores

Tal paracismo,

Morte foi de Jasmim,

Ou é delírio.

Ser Campo o Jardim

Deste homicídio,

Faz tão feio o lugar

Como o delito.

Das mais fermosas flores

O labirinto

Lamentando o caso

Se pôs marchito.

Um Jardim foi a Vênus

No parto abrigo

Porque sobre as flores

Nasceu Cupido.

Sendo vária a Estânciua

Aos dous Meninos,

Um encontrou afagos,

Outro castigos.

Lá na Quinta dos Padres

Foi o conflito,

Do qual tirou devassa

Padre Ministro.

Desterrou ao Áspid

Do seu distrito,

E ao menino morto

Lhe deu jazigo.

[Amor com Amor se paga, e Amoro com Amor se apaga. Assunto lírico da presente Academia]

Soneto

Deste Apótema vigilante, e cego

Uma parte confirmo, outra reprovo,

Que o Amor com Amor se paga provo,

Que o Amor com Amor se apaga nego.

Tenho os Amores um igual sossego,

Se estão pagando a fé sempre de novo

Mas a crê que se apagam me não movo,

Sendo fogo, e matéria Amor, e emprego.

Se de incêndios costuma Amor nutrir-se,

Uma chama com outra há de aumentar-se,

Que em si mesmas não devem consumir-se.

Com razão deve logo duvidar-se

Quando um Amor com outro sabe unir-se

Como um fogo com outro há de apagar-se?

(Apostila 10 de Barrroco - Literatura Brasileira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Origens e Características do Barroco

O barroco foi uma tendência artística que se desenvolveu primeiramente nas artes plásticas e depois se manifestou na literatura, no teatro e na música. O berço do barroco é a Itália do século XVII, porém se espalhou por outros países europeus como, por exemplo, a Holanda, a Bélgica, a França e a Espanha. O barroco permaneceu vivo no mundo das artes até o século XVIII. Na América Latina, o barroco entrou no século XVII, trazido por artistas que viajavam para a Europa, e permaneceu até o final do século XVIII.
O barroco se desenvolve no seguinte contexto histórico: após o processo de Reformas Religiosas, ocorrido no século XVI, a Igreja Católica havia perdido muito espaço e poder. Mesmo assim, os católicos continuavam influenciando muito o cenário político, econômico e religioso na Europa. A arte barroca surge neste contexto e expressa todo o contraste deste período: a espiritualidade e teocentrismo da Idade Média com o racionalismo e antropocentrismo do Renascimento.

Os artistas barrocos foram patrocinados pelos monarcas, burgueses e pelo clero. As obras de pintura e escultura deste período são rebuscadas, detalhistas e expressam as emoções da vida e do ser humano.
A palavra barroco tem um significado que representa bem as características deste estilo. Significa " pérola irregular" ou "pérola deformada" e representa de forma pejorativa a idéia de irregularidade.
O período final do barroco (século XVIII) é chamado de rococó e possui algumas peculiaridades, embora as principais características do barroco estão presentes nesta fase. No rococó existe a presença de curvas e muitos detalhes decorativos (conchas, flores, folhas, ramos). Os temas relacionados à mitologia grega e romana, além dos hábitos das cortes também aparecem com freqüência.

BARROCO EUROPEU
As obras dos artistas barrocos europeus valorizam as cores, as sombras e a luz, e representam os contrates. As imagens não são tão centralizadas quanto as renascentistas e aparecem de forma dinâmica, valorizando o movimento. Os temas principais são : mitologia, passagens da Bíblia e a história da humanidade. As cenas retratadas costumam ser sobre a vida da nobreza, o cotidiano da burguesia, naturezas-mortas entre outros. Muitos artistas barrocos dedicaram-se a decorar igrejas com esculturas e pinturas, utilizando a técnica da perspectiva.

As esculturas barrocas mostram faces humanas marcadas pelas emoções, principalmente o sofrimento. Os traços se contorcem, demonstrando um movimento exagerado. Predominam nas esculturas as curvas, os relevos e a utilização da cor dourada.

Podemos citar como principais artistas do barroco: o espanhol Velázquez, o italiano Caravaggio, os belgas Van Dyck e Frans Hals, os holandeses Rembrandt Vermeer e o flamengo Rubens.

BARROCO NO BRASIL

O barroco brasileiro foi diretamente influenciado pelo barroco português, porém, com o tempo, foi assumindo características próprias. A grande produção artística barroca no Brasil ocorreu nas cidade auríferas de Minas Gerais, no chamado século do ouro (século XVIII). Estas cidades eram ricas e possuíam um intensa vida cultura e artística em pleno desenvolvimento.
O principal representante do barroco mineiro foi o escultor e arquiteto Antônio Francisco de Lisboa também conhecido como Aleijadinho. Sua obras, de forte caráter religioso, eram feitas em madeira e pedra-sabão, os principais materiais usados pelos artistas barrocos do Brasil. Podemos citar algumas obras de Aleijadinho : Os Doze Profetas e Os Passos da Paixão, na Igreja de Bom Jesus de Matozinhos, em Congonhas do Campo (MG).
Outros artistas importantes do barroco brasileiro foram: o pintor mineiro Manuel da Costa Ataíde e o escultor carioca Mestre Valentim. No estado da Bahia, o barroco destacou-se na decoração das igrejas em Salvador como, por exemplo, de São Francisco de Assis e a da Ordem Terceira de São Francisco.

Principais Características do Barroco

São usados também Símbolos que traduzem a efemeridade e instabilidade das coisas tais como: fumaça vento, neve, chama, água, espuma, etc.

“Entre essas ondas claras, duvidosas,

Levai ao largo mar, com turva vela,

Tristes queixumes, lágrimas queixosas” Francisco Rodrigues Lobo

As Frases Interrogativas são usadas para refletir a dúvida e a incerteza do homem barroco.

“Porém, se acaba o Sol, por que nascia?

Se tão formosa a Luz é, por que não dura?” Gregório de Matos

Ordem inversa - Além de tornar a frase pomposa, a ordem inversa traduz pequenas partes de raciocínio. Refletindo a falta de clareza diante das coisas e a insegurança dos homens dessa época onde as duas vertentes

( Antropocentrismo X Teocentrismo ) estão agindo dentro das pessoas deixando seus pensamentos divididos.

“Se aparta do corpo a doce vida,

Domina em seu lugar a dura morte,

De que nasce tardar-me tanto a morte

Se ausente d’alma estou, que me dá a vida?” Violante do Céu

Cultismo - É o jogo de palavras, o uso abusivo de metáforas e hipérboles.

Corresponde ao excesso de detalhes das artes plásticas.

Os detalhes são usados nesse período devido a própria incerteza de que o homem está possuído, ele busca com a exposição de detalhes deixar claro para o observador tudo o que se passa em seu interior (espiritual).

As contradições que estão no íntimo de cada artista dessa época, praticamente forçam o mesmo a ser minucioso em suas criações na tentativa de explicar seus sentimentos.

“Ofendi-vos, meu Deus, é bem verdade,

É verdade, Senhor, que hei delinqüido,

Delinqüido vos tenho ...” Gregório de Matos

Conceptismo - é o jogo de idéias.

“Para um homem se ver a si mesmo, são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz.

Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos;

se tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz.

Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos.” Padre Antônio Vieira

Principais temas

Os principais temas da literatura barroca giram em torno da idéia de:

a) sobrenatural;

b) ‘morte;

c) fugacidade da vida e ilusão;

d) castigo;

e) heroísmo;

f) misticismo;

g) erotismo;

h) cenas trágicas;

i) apelo à religião, ao céu;

j) arrependimento;

k) sedução do mundo.

(Apostila 0 - zero - do Barroco - Literatura Brasileira)

 

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BARROCO – Exemplos para análise.

Gregório de Matos

A UM LIVREIRO, QUE HAVIA COMIDO

UM CANTEIRO DE ALFACES COM VINAGRE

Levou um livreiro a dente

De alface todo um canteiro,

E comeu, sendo livreiro,

Desencadernadamente.

Porém, eu digo que mente

A quem disso o quer tachar;

Antes é para notar

Que trabalhou como um mouro,

Pois meter folhas no couro

Também é encardenar.

Manuel Botelho de Oliveira

SOL E ANARDA

O Sol ostenta a graça luminosa,

Anarda por luzida se pondera;

O sol é brilhador na Quarta esfera,

Brilha Anarda na esfera de fermosa.

Fomenta o sol a chama calorosa,

Anarda ao peito viva chama altera,

O jasmim, cravo e rosa ao sol esmera,

Cria Anarda o jasmim, o cravo e a rosa.

O sol à sombra dá belos desmaios,

Com os olhos de Anarda a sombra é clara,

Pinta maios o sol, Anarda maios.

Mas (desiguais só nisto) se repara

O sol libera sempre seus raios,

Anarda de seus raios sempre avara.

Rocha Pita

:SONETO: “Quem cala vence”

Fala o Mar no contínuo movimento,

O fogo em línguas as Esferas toca,

A terra em terremotos abre a boca,

Em sibilantes sopros silva o vento.

Logo como a dizer seu sentimento

Uma alma racional se não provoca,

Quando o silêncio pelas vozes troca

Sem uso de razão cada Elemento?

Como pode vencer quem pouco ativo?

Não manda à boca, quanto o peito encerra

E, estando mudo, não parece vivo.

Só triunfa em falar, em calar erra,

O racional vivente discursivo

Falando o vento, o Fogo, o Mar e a Terra.

Gregório de Matos -

Aos Afetos e Lágrimas Derramadas na

Ausência da Dama a Quem Queria Bem

- Ao mesmo Assunto e na Mesma Ocasião.

Corrente, que do peito destilada

Sois por dois belos olhos despedida;

E por carmim correndo dividida

Deixais o ser, levais a cor mudada.

Não sei, quando caís precipitada,

Às flores que regais tão parecida,

Se sois neves por rosa derretida,

Ou se rosa por neve desfolhada.

Essa enchente gentil de prata fina,

Que de rubi por conchas se dilata,

Faz troca tão diversa peregrina,

Que no objeto, que mostra, ou que retrata,

Mesclando a cor púrpurea, à cristalina,

Não sei quando é rubi, ou quando é prata.

Domingos Lourenço de Castro

SONETO QUATER ACRÓSTICO

Do Modulante Orfeu Invicto,e Raro,

O alento Egrégio Mova Eternamente,

Invias Esferas, Onde Instantaneamente

Lustrosos Xefes São luso Reparo.

Lusitânia em Cântico Excelso, E caro,

Uivas cante Entre Ñós Diuturnamente

Sendo assunto Luzido, O que Eminente

Tem sido Luz do Rio, e seu Amparo.

Recite Europa Grande a Nosso intento

Ilustrada No plectro O mais Donoso

Ser do Tonante Mais Rarificado

Soberano, Inclito, E honroso Assento

Inste o Rio Seu Ser de mais Ditoso

Mostrando-o em Si na Fama Altificado.

Anastácio Ayres de Penhafiel

LABIRINTO CÚBICO

I N U T R O Q U E C E S A R

N I N U T R O Q U E C E S A

U N I N U T R O Q U E C E S

T U N I N U T R O Q U E C E

R T U N I N U T R O Q U E C

O R T U N I N U T R O Q U E

Q O R T U N I N U T R O Q U

U Q O R T U N I N U T R O Q

E U Q O R T U N I N U T R O

C E U Q O R T U N I N U T R

E C E U Q O R T U N I N U T

S E C E U Q O R T U N I N U

A S E C E U Q O R T U N I N

R A S E C E U Q O R T U N I

(Gregório de Matos)

(Apostila 1 de Barroco

 

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BENTO TEIXEIRA - PROSOPOPÉIA

I

Cantem Poetas o Poder Romano,

Sobmetendo Nações ao jugo duro;

O Mantuano pinte o Rei Troiano,

Descendo à confusão do Reino escuro;

Que eu canto um Albuquerque soberano,

Da Fé, da cara Pátria firme muro,

Cujo valor e ser, que o Ceo lhe inspira,

Pode estancar a Lácia e Grega lira.

II

As Délficas irmãs chamar não quero,

que tal invocação é vão estudo;

Aquele chamo só, de quem espero

A vida que se espera em fim de tudo.

Ele fará meu Verso tão sincero,

Quanto fora sem ele tosco e rudo,

Que per rezão negar não deve o menos

Quem deu o mais a míseros terrenos.

XIII

Toca a Trobeta com crescido alento,

Engrossa as veas, move os elementos,

E, rebramando os ares com o acento,

Penetra o vão dos infinitos assentos.

Os Pólos que sustem o firmamento,

Abalados dos próprios fundamentos,

Fazem tremer a terra e Ceo jucundo,

E Neptuno gemer no Mar profundo.

XIV

O qual vindo da vã concavidade,

Em Carro Triunfal, com seu tridente,

Traz tão soberba pompa e majestade,

Quanta convém a Rei tão excelente.

Vem Oceano, pai de mor idade,

Com barba branca, com cerviz tremente:

Vem Glauco, vem Nereu, Deoses Marinhos,

Correm ligeros Focas e Golfinhos.

XV

Vem o velho Proteu, que vaticina

(Se fé damos à velha antiguidade)

Os males a que a sorte nos destina,

Nascidos da mortal temeridade.

Vem numa e noutra forma peregrina,

Mudando a natural propriedade.

Não troque a forma, venha confiado,

Se não quer de Aristeu ser sojigado.

XVI

Tétis, que em ser fermosa se recrea,

Traz das Ninfas o coro brando e doce :

Clímene, Efire, Ópis, Panopea,

Com Béroe, Talia, Cimodoce;

Drimo, Xanto, Licórias, Deiopea,

Aretusa, Cidipe, Filodoce,

Com Eristea, Espio, Semideas,

Após as quais, cantando, vem Sereas.

XIX

Em o meio desta obra alpestre e dura,

ô a boca rompeo o Mar inchado,

Que, na língua dos bárbaros escura,

Paranambuco de todos ‚ chamado.

de Para’na, que é Mar; Puca, rotura,

Feita com fúria desse Mar salgado,

Que, sem no dirivar cometer míngua,

Cova do Mar se chama em nossa língua.

XX

Pera entrada da barra, à parte esquerda,

Está ua lajem grande e espaçosa,

Que de Piratas fora total perda,

Se ô a torre tivera sumptuosa.

Mas quem por seus serviços bons não herda

Desgosta de fazer cousa lustrosa,

Que a condição do Rei que não é franco

O vassalo faz ser nas obras manco.

XXXV

Ó sorte tão cruel, como mudável,

Por que usurpas aos bons o seu direito?

Escolhes sempre o mais abominável,

Reprovas e abominas o perfeito,

O menos digno fazes agradável,

O agradável mais, menos aceito.

Ó frágil, inconstante, quebradiça,

Roubadora dos bens e da justiça!

XLV

Porque Lémnio cruel, de quem descende

A Bárbara progênie e insolência,

Vendo que o Albuquerque tanto ofende

Gente que dele tem a descendência,

Com mil meos ilícitos pretende

Fazer irreparável resistência

Ao claro Jorge, baroil e forte,

Em quem não dominava a vária sorte.

LIV

"Estas palavras tais, do cruel peito,

Soltará dos Ciclopes o tirano,

As quais procurará pôr em efeito,

Às cavernas descendo do Oceano.

E com mostras d’amor brando e aceito,

De ti, Neptuno claro e soberano,

Alcançará seu fim: o novo jogo,

Entrar no Reino d’Água o Rei do fogo.

LXXXVII

"Assim dirá: mas eles sem respeito

À honra e ser de seus antepassados

Com pálido temor no frio peito,

Irão per várias partes derramados.

Duarte, vendo neles tal defeito,

Lhe dirá": - Corações efeminados,

Lá contareis aos vivos o que vistes,

Porque eu direi aos mortos que fugistes.

 

 

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BENTO TEIXEIRA - PROSOPOPÉIA

I

Cantem Poetas o Poder Romano,

Sobmetendo Nações ao jugo duro;

O Mantuano pinte o Rei Troiano,

Descendo à confusão do Reino escuro;

Que eu canto um Albuquerque soberano,

Da Fé, da cara Pátria firme muro,

Cujo valor e ser, que o Ceo lhe inspira,

Pode estancar a Lácia e Grega lira.

II

As Délficas irmãs chamar não quero,

que tal invocação é vão estudo;

Aquele chamo só, de quem espero

A vida que se espera em fim de tudo.

Ele fará meu Verso tão sincero,

Quanto fora sem ele tosco e rudo,

Que per rezão negar não deve o menos

Quem deu o mais a míseros terrenos.

XIII

Toca a Trobeta com crescido alento,

Engrossa as veas, move os elementos,

E, rebramando os ares com o acento,

Penetra o vão dos infinitos assentos.

Os Pólos que sustem o firmamento,

Abalados dos próprios fundamentos,

Fazem tremer a terra e Ceo jucundo,

E Neptuno gemer no Mar profundo.

XIV

O qual vindo da vã concavidade,

Em Carro Triunfal, com seu tridente,

Traz tão soberba pompa e majestade,

Quanta convém a Rei tão excelente.

Vem Oceano, pai de mor idade,

Com barba branca, com cerviz tremente:

Vem Glauco, vem Nereu, Deoses Marinhos,

Correm ligeros Focas e Golfinhos.

XV

Vem o velho Proteu, que vaticina

(Se fé damos à velha antiguidade)

Os males a que a sorte nos destina,

Nascidos da mortal temeridade.

Vem numa e noutra forma peregrina,

Mudando a natural propriedade.

Não troque a forma, venha confiado,

Se não quer de Aristeu ser sojigado.

XVI

Tétis, que em ser fermosa se recrea,

Traz das Ninfas o coro brando e doce :

Clímene, Efire, Ópis, Panopea,

Com Béroe, Talia, Cimodoce;

Drimo, Xanto, Licórias, Deiopea,

Aretusa, Cidipe, Filodoce,

Com Eristea, Espio, Semideas,

Após as quais, cantando, vem Sereas.

XIX

Em o meio desta obra alpestre e dura,

ô a boca rompeo o Mar inchado,

Que, na língua dos bárbaros escura,

Paranambuco de todos ‚ chamado.

de Para’na, que é Mar; Puca, rotura,

Feita com fúria desse Mar salgado,

Que, sem no dirivar cometer míngua,

Cova do Mar se chama em nossa língua.

XX

Pera entrada da barra, à parte esquerda,

Está ua lajem grande e espaçosa,

Que de Piratas fora total perda,

Se ô a torre tivera sumptuosa.

Mas quem por seus serviços bons não herda

Desgosta de fazer cousa lustrosa,

Que a condição do Rei que não é franco

O vassalo faz ser nas obras manco.

XXXV

Ó sorte tão cruel, como mudável,

Por que usurpas aos bons o seu direito?

Escolhes sempre o mais abominável,

Reprovas e abominas o perfeito,

O menos digno fazes agradável,

O agradável mais, menos aceito.

Ó frágil, inconstante, quebradiça,

Roubadora dos bens e da justiça!

XLV

Porque Lémnio cruel, de quem descende

A Bárbara progênie e insolência,

Vendo que o Albuquerque tanto ofende

Gente que dele tem a descendência,

Com mil meos ilícitos pretende

Fazer irreparável resistência

Ao claro Jorge, baroil e forte,

Em quem não dominava a vária sorte.

LIV

"Estas palavras tais, do cruel peito,

Soltará dos Ciclopes o tirano,

As quais procurará pôr em efeito,

Às cavernas descendo do Oceano.

E com mostras d’amor brando e aceito,

De ti, Neptuno claro e soberano,

Alcançará seu fim: o novo jogo,

Entrar no Reino d’Água o Rei do fogo.

LXXXVII

"Assim dirá: mas eles sem respeito

À honra e ser de seus antepassados

Com pálido temor no frio peito,

Irão per várias partes derramados.

Duarte, vendo neles tal defeito,

Lhe dirá": - Corações efeminados,

Lá contareis aos vivos o que vistes,

Porque eu direi aos mortos que fugistes.

(Apostila

 

 

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GREGÓRIO DE MATOS - Poemas

(1636-1695 )

Foi tão tumultuada a vida do poeta baiano que um biógrafo chamou-a de “vida espantosa”.

Como filho de senhor de engenho, Gregório pôde estudar em Portugal,para onde se mudou aos 14 anos de idade. Lá passou 32 anos, prósperos e tranqüilos.

Retornou ao Brasil, em 1682, nomeado para funções na burocracia eclesiástica da Sé da Bahia. Durou pouco no cargo, do qual foi destituído em 1683. Iniciou-se, então, a última fase de sua vida. O casamento com Maria dos Povos, a quem dedicou belíssimos sonetos, não impediu a decadência, social e profissional, do Dr. Gregório. Ficou famoso em suas andanças e pândegas pelos engenhos do Recôncavo.

Mais famosas ainda eram suas sátiras. Talvez por causa delas, foi deportado para Angola, em 1694. Pôde retornar ao Brasil, no ano seguinte, mas para o Recife, onde morreu aos 59 anos de idade.

Gregório de Matos Guerra ficou conhecido na história da literatura como o Boca do Inferno, por causa de suas sátiras e de sua poesia. Mas sendo um autor barroco e, portanto surpreendente e contraditório, esse mesmo Boca do Inferno também disse coisas belíssimas sobre o amor, como nesse soneto que você acabou de ler.

Comentário

Podemos incluir o soneto de Gregório de Matos na tendência conceptista do Barroco, graças ao engenhoso desenvolvimento de uma única imagem, a da mariposa atraída pela chama que deverá matá-la. O sujeito lírico desdobra a comparação entre a sua situação e a da mariposa, explorando as semelhanças, para, na última estrofe, ponto culminante do soneto, estabelecer a grande diferença: seu sacrifício é mais terrível do que o dela, por que inútil.

Nosso poeta baiano merece que lhe dediquemos uma atenção especial.

Para muitos historiadores, ele é o iniciador da literatura brasileira. Mas é interessante observar ar que permaneceu inédito até meados do século XIX. Sua produção poética sobreviveu, até então, em livros manuscritos, colecionada por admiradores. As duas tentativas de publicação completa - por sinal, muito insatisfatórias - ocorreram já no nosso século XX: a edição da Academia Brasileira de Letras, em 6 volumes (1923-1933), e a edição de James Amado, em 7 volumes (1968).

Gregório recebeu influências tanto do Cultismo de Góngora quanto do Conceptismo de Quevedo. Seu espírito profundamente barroco pode ser percebido na contraditória diversidade dos temas que desenvolveu em sua obra:

a. poesia sacra (temática religiosa)

b. lírica amorosa

c. poesia satírica

d. poesia burlesca

 

Ao Braço do Mesmo Menino Jesus Quando Aparece

O todo sem a parte não é todo,

A parte sem o todo não é parte,

Mas se a parte o faz todo, sendo parte,

Não se diga, que é parte, sendo todo.

Em todo o Sacramento está Deus todo,

E todo assiste inteiro em qualquer parte,

E feito em partes todo em toda a parte,

Em qualquer parte sempre fica o todo.

O braço de Jesus não seja parte,

Pois que feito Jesus em partes todo,

Assiste cada parte em sua parte.

Não se sabendo parte deste todo,

Um braço, que lhe acharam, sendo parte,

Nos disse as partes todas deste todo.

Buscando a Cristo

A vós correndo vou, braços sagrados,

Nessa cruz sacrossanta descobertos

Que, para receber-me, estais abertos,

E, por não castigar-me, estais cravados.

A vós, divinos olhos, eclipsados

De tanto sangue e lágrimas abertos,

Pois, para perdoar-me, estais despertos,

E, por não condenar-me, estais fechados.

A vós, pregados pés, por não deixar-me,

A vós, sangue vertido, para ungir-me,

A vós, cabeça baixa, p'ra chamar-me

A vós, lado patente, quero unir-me,

A vós, cravos preciosos, quero atar-me,

Para ficar unido, atado e firme.

Soneto

Um soneto começo em vosso gabo;

Contemos esta regra por primeira,

Já lá vão duas, e esta é a terceira,

Já este quartetinho está no cabo.

Na quinta torce agora a porca o rabo:

A sexta vá também desta maneira,

na sétima entro já com grã canseira,

E saio dos quartetos muito brabo.

Agora nos tercetos que direi?

Direi, que vós, Senhor, a mim me honrais,

Gabando-vos a vós, e eu fico um Rei.

Nesta vida um soneto já ditei,

Se desta agora escapo, nunca mais;

Louvado seja Deus, que o acabei.

Soneto

Mancebo sem dinheiro, bom barrete,

Medíocre o vestido, bom sapato,

Meias velhas, calção de esfola-gato,

Cabelo penteado, bom topete.

Presumir de dançar, cantar falsete,

Jogo de fidalguia, bom barato,

Tirar falsídia ao Moço do seu trato,

Furtar a carne à ama, que promete.

A putinha aldeã achada em feira,

Eterno murmurar de alheias famas,

Soneto infame, sátira elegante.

Cartinhas de trocado para a Freira,

Comer boi, ser Quixote com as Damas,

Pouco estudo, isto é ser estudante.

Soneto

Neste mundo é mais rico, o que mais rapa:

Quem mais limpo se faz, tem mais carepa:

Com sua língua ao nobre o vil decepa:

O Velhaco maior sempre tem capa.

Mostra o patife da nobreza o mapa:

Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;

Quem menos falar pode, mais increpa:

Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.

A flor baixa se inculca por Tulipa;

Bengala hoje na mão, ontem garlopa:

Mais isento se mostra, o que mais chupa.

Para a tropa do trapo vazo a tripa,

E mais não digo, porque a Musa topa

Em apa, epa, ipa, opa, upa.

Soneto

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,

Depois da Luz se segue a noite escura,

Em tristes sombras morre a formosura,

Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?

Se formosa a Luz é, por que não dura?

Como a beleza assim se transfigura?

Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,

Na formosura não se dê constância,

E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,

E tem qualquer dos bens por natureza

A firmeza somente na inconstância.

Descrição da Cidade de Sergipe D'el-Rei

Três dúzias de casebres remendados,

Seis becos, de mentrastos entupidos,

Quinze soldados, rotos e despidos,

Doze porcos na praça bem criados.

Dois conventos, seis frades, três letrados,

Um juiz, com bigodes, sem ouvidos,

Três presos de piolhos carcomidos,

Por comer dois meirinhos esfaimados.

As damas com sapatos de baeta,

Palmilha de tamanca como frade,

Saia de chita, cinta de raqueta.

O feijão, que só faz ventosidade

Farinha de pipoca, pão que greta,

De Sergipe d'El-Rei esta é a cidade.

Agradecimento de uns Doces a sua Freira


Senhora minha, se de tais clausuras
Tantos doces mandais a uma formiga,
Que esperais vós agora que eu vos diga
Se não forem muchíssimas doçuras?

Eu esperei de Amor outras venturas,
Mas ei-lo vai, tudo o que é dar obriga,
Ou já ceia de amor, ou já da figa,
Da vossa mão são tudo ambrósias puras.

O vosso doce a todos diz: comei-me,
De cheiroso, perfeito e asseado;
Eu por gosto lhe dar comi e fartei-me.

Em este se acabando irá recado,
E se vos parecer glutão, sofrei-me
Enquanto vos não peço outro bocado.

Epitáfio para o Marquês de Marialva

.....................

Em três partes enterrado
está o corpo do Marquês
de Marialva: porque em dez
mil seu nome é venerado:
e foi destino acertado,
que em tanta parte estivesse,
para que o mundo soubesse,
que este valeroso Marte
morto assiste em qualquer parte,
como se ainda vivesse.

Pintura Admirável de uma Beleza

Soneto
Vês esse Sol de luzes coroado?
Em pérolas a Aurora convertida?
Vês a Lua de estrelas guarnecida?
Vês o Céu de Planetas adorado?

O Céu deixemos; vês naquele prado
A Rosa com razão desvanecida?
A Açucena por alva presumida?
O Cravo por galã lisonjeado?

Deixa o prado; vem cá, minha adorada,
Vês de esse mar a esfera cristalina
Em sucessivo aljôfar desatada?

Parece aos olhos ser de prata fina?
Vês tudo isto bem? Pois tudo é nada
À vista do teu rosto, Caterina.

À SUA MULHER ANTES DE CASAR

Discreta, e formosíssima Maria,
Enquanto estamos vendo a qualquer hora
Em tuas faces a rosada Aurora,
Em teus olhos, e boca o Sol, e o dia:

Enquanto com gentil descortesia
O ar, que fresco Adônis te namora,
Te espalha a rica trança voadora,
Quando vem passear-te pela fria:

Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trota a toda ligeireza,
E imprime em toda a flor sua pisada.

Oh, não aguardes, que a madura idade
Te converta em flor, essa beleza
Em terra, em cinza, em pó, em sobra, em nada.

SONETO

Pequei, Senhor, mas não, porque hei pecado

Da vossa alta piedade me despido:

Antes quanto mais tenho delinquido,

Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto pecado,

A abrandar-vos sobeja um só gemido:

Que a mesma culpa, que vos há ofendido,

Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida, já cobrada,

Glória tal e prazer tão repentino

Vos deu, como afirmais na Sacra História,

Eu sou, Senhor, ovelha desgarrada:

Cobrai-a e não queirais, Pastor Divino,

Perder na vossa ovelha a vossa glória.

 

Com Boca do Inferno, ambientado na Bahia, em plena efervescência mercantilista do século 17, Ana Miranda restaura os cacos de um país popularmente tido como pacífico, substituindo essa mentira calcificada por uma de caráter ficcional, mas consentânea com a verdade histórica.

O assassinato do alcaide-mor é mero pretexto fabular para dividir em duas a sociedade baiana de então: perseguidores e perseguidos. O que interessa mais é a capacidade paradoxal que o evento carrega, porque desperta a vida naquela sociedade. Desencadeia-se o furor persecutório do poder estabelecido que não recua diante do ilegal e do ilegítimo para agarrar supostos culpados, cujo motivo único de suspensão advinha do uso constante da palavra incandescente.

A perseguição intensa leva o leitor pelos meandros da política, dos conluios e dos conchavos, bem como pelas vielas tortuosas de uma cidade, cuja topografia de altos e baixos, geralmente atolados na imundície, espelha de modo exemplar o sinuoso da vida colonial brasileira. Sob uma aparência de normalidade esconde-se um mundo turbulento, carregado de ambições, de falcatruas, de sensualidade, de religiosidade e de sexualidade desenfreada. Numa sociedade em (de) composição, o priapismo de Gregório de Matos encontra seu correlato tanto no furor verbal de Vieira quanto nas arbitrariedades sistemáticas da caterva do governador. Do antagonismo que se constrói entre ambas as facções surge um conjunto social em que o Poder identifica-se necessariamente com o Mal, porque dele não se espera outra coisa que a corrupção e a venalidade.

Para combatê-lo em seus excessos não resta senão a esperança da Palavra. Da boca de Vieira, o verbo polido desdobrando-se numa sinonímia infinita e espiralada que encontra paralelo inverso nas várias modalidades de prevaricação governamental. Da boca de Gregório, o jorro desmesurado de uma linguagem que, por aversão ao meio, não se peja de refleti-lo de modo espetacular. Daí seu caráter popular, porque mais rapidamente assimilável, o que gera o fastio externo da camada culta.

Em um relato refinado, no qual se incluem pepitas históricas, estilísticas, sintáticas e léxicas, Boca do Inferno revela capacidade de persuasão e de envolvimento, provenientes da urdida verossimilhança, que põe de escanteio o eventual veto ao rigor histórico, o qual se mostra inequívoco, graças à indisfarçável pesquisa em que se assenta o texto. Comprovante desse trabalho meticuloso é o delírio verbal e descritivo que cumpre uma função estética: a de representar a face tumultuada daquela sociedade, dificilmente apreensível por meio do vocábulo unívoco e seco.
Antonio Dimas

Boca do Inferno (trechos)

A cidade

A cidade fora edificada na extremidade interna meridional da península, a treze graus de latitude sul e quarenta e dois de longitude oeste, no litoral do Brasil. Ficava diante de uma enseada larga e limpa que lhe deu o nome: Bahia.

A baía, de pouco mais de duas léguas, começava na ponta de Santo Antonio, onde tinha sido edificada a fortaleza do mesmo nome, e terminava aos pés da ermida de Nossa Senhora de Monserrate. No meio desse golfo estava a cidade, sobre uma montanha de rocha talhada a pique na encosta que dava para o mar, porém plana na parte de cima; esse monte era cercado por três colinas altas, sobre as quais se estendiam as povoações. Ao sul, as casas terminavam nas proximidades do mosteiro de São Bento; ao norte, nas cercanias do mosteiro de Nossa Senhora do Carmo. O terceiro extremo da cidade, a leste, era escassamente povoado.

Três fortes, dois em terra e um no mar, defendiam a praia estreita da Bahia. A faixa longa da costa, onde se enfileiravam armazéns, lojas e oficinas, ligava-se à parte alta por três ruas íngremes. O barulhento molinete dos jesuítas içava a carga pesada entre uma e outra partes da cidade.

Ainda se viam resquícios dos danos causados pelas guerras contra os holandeses, desde quase sessenta anos antes. Ruínas de casas incendiadas, roqueiras abandonadas, o esqueleto de uma nau na praia. Em ligares mais ermos podiam-se encontrar, cobertos pelo mato, estrepes de ferro de quatro pontas. Perto da porta do Carmo havia, ainda, covas profundas e altos baluartes que tinham servido de trincheira.

Numa suave região cortada por rios límpidos, de céu sempre azul, terras férteis, florestas de árvores frondosas, a cidade parecia ser a imagem do Paraíso. Era, no entanto, onde os demônios aliciavam almas para povoarem o inferno.

1

"Esta cidade acabou-se", pensou Gregório de Matos, olhando pela janela do sobrado no terreiro de Jesus. "Não é mais a Bahia. Antigamente havia muito respeito. Hoje, até dentro da praça, nas barbas da infantaria, nas bochechas dos granachas, fazem assaltos à vista."

Veio à sua mente a figura de Gongora y Argote, o poeta espanhol que tanto admirava, vestido como nos retratos em seu hábito eclesiástico de capelão do rei: o rosto longo e duro, o queixo partido ao meio, as têmporas rapadas até detrás das orelhas. Gongora tinha-se ordenado sacerdote aos cinqüenta e seis anos. Usava um anel de rubi no dedo anular da mão esquerda, que todos beijavam. Gregório de Matos queria, como o poeta espanhol, escrever coisas que não fossem vulgares, alcançar o culteranismo. Saberia escrever assim? Sentia dentro de si um abismo. Se ali caísse, aonde o levaria? Não estivera Gongora tentando unir a alma elevada do homem à terra e seus sofrimentos carnais? Gregório de Matos estava no lado escuro do mundo, comendo a parte podre do banquete. Sobre o que poderia falar? Goza, goza el color, da luz, el oro. Teria sido bom para Gregório se tivesse nascido na Espanha? Teria sido diferente?

 

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GREGÓRIO DE MATOS

Satírica Pornográfica

A MESMA MARIA VIEGAS SACODE AGORA O POETA ESTRAVAGANTEMENTE PORQUE SE ESPEYDORRAVA MUITO

Dizem que o vosso cu, Cota,

Assopra zombaria,

Que aparece artilharia,

Quando vem chegando a frota:

Parece, que está de aposta

Este cu a peidos dar,

Porque jamais sem parar

Este grão-cu de enche-mão

Sem pederneira, ou murrão

Está sempre a disparar.

De Cota o seu arcabuz

Apontado sempre está,

Que entre noite, e dia dá

Mais de quinhentos truz-truz:

Não achareis muitos cus

Tão prontos em peidos dar,

Porque jamais sem parar

Faz tão grande bateria,

Que de noite, nem de dia

Pode tal cu descansar.

Cota, essa vosso arcabuz

Parece ser encantado,

Pois sempre está carregado

Disparando tantos truz:

Arrenego de tais cus,

Porque este foi o primeiro

Cu de Moça fulieiro,

Que tivesse tal saída

Para tocar toda a vida

Por fole de algum ferreiro.

DESCREVE COM ADMIRÁVEL PROPRIEDADE OS EFEYTOS QUE CAUSOU O VINHO NO BANQUETE QUE SE DEO NA MESMA FESTA ENTRE AS JUIZAS E MORDOMAS ONDE SE EMBEBEDARAM

No grande dia do Amparo,

Estando as mulatas todas

Entre festas, e entre bodas,

Um caso sucedeu raro:

E foi, que não sendo avaro

O jantar de canjirões,

Antes fervendo em cachões,

Os brindes de mão em mão

Depois de tanta razão

Tiveram certas razões.

Macotinha a foliona

Bailou rebolando o cu

Duas horas com Jelu

Mulata também bailona:

Senão quando outra putona

Tomou posse do terreiro,

E porque ao seu pandeiro

Não quis Macota sair,

Outra saiu a renhir,

Cujo nome é Domingueiro.

Por Macotinha tão rasa

De putinha, e mais putinha,

Que a pobre Macotinha

Se tornou de puta em brasa:

Alborotando-se a casa

As mais se forma erguendo

Mas jelu, ao que eu entendo,

É valente pertinaz,

Lhe atirou logo um gilvaz

De unhas abaixo tremendo.

A mim com punhos violentos

(gritou a Puta matrona)

agora o vereis, Putona,

zás, e pôs-lhe os mandamentos:

e com tais atrevimentos

a Jelu se enfureceu,

que indo sobre ela lhe deu

punhadas tão repetidas

que ficando ambas vencidas,

cada qual delas venceu.

Acudiu um Mulatrete

Bastardo da tal Domingas,

E respingas, não respingas

De a Mulata um bofete:

Ela, fervendo o muquete,

Deu c’o Mulato de patas,

Eis aqui vêm as Sapatas,

Porque uma é sua madrinha,

E todas por certa linha

Da mesma casa mulatas.

Chegou-se a tais menoscabos

Que segundo agora ouvi,

Havia de haver ali

Uma de todos os diabos:

Mas chegando quatro cabos

De putaria anciana,

A Puta mais veterana

Disse então, que não cuidava,

Que tais efeitos causava

Vinhaça tão soberana.

Sossegada a gritaria

Houve mulata repolho,

Que, o que bebeu por um olho,

Por outro o desbebia:

Mas chorava, ou se ria,

Jamais ninguém compreendera,

Se não se vira, e soubera

Pelo vinho despendido,

Que se tinha desbebido,

Quanto vinho se bebera.

Tal cópia de jeribita

Houve naquele folguedo,

Que em nada se tem segredo,

Antes tudo se vomita:

Entre tantas Mariquita

A Juíza era de ver,

Porque vendo ali verter

O vinho, que ela comprara,

De sorte se magoara,

Que o esteve para beber.

Bertola devia estar

Faminta, e desconjuntada,

Pois vendo a pendência armada,

Tratou de se caldear:

Bebeu naquele jantar

Sete pratos não pequenos

De caldo, e sete não menos

De carne, e é de reparar

Que a pudera um só matar,

E escapar de dois setenos.

Maribonda, minha ingrata

Tão pesada ali se viu,

Que desmaiada caiu

Sobre Luzia Sapata:

Viu-se uma, e outra Mulata

Em forma de Sodomia,

E como na casa havia

Tal grita, tão confusão

Não se advertiu por então

O ferrão, que lhe metia.

Teresa a de cutilada

De sorte ali se portou,

Que de bulha se apartou

Porque era puta sagrada:

De pendência retirada

Esteve num canto posta,

Mas com cara de Lagosta

Trocava com muita graça

O vinho taça por taça,

A carne posta por posta.

Enfim, que as Pardas corridas

Saíram com seus amantes,

Sendo, que no dia d’antes

Andavam elas saídas:

E sentindo-se afligidas

Do já passado tinelo,

Votaram com todo anelo

Emenda à Virgem do Amparo,

Que no seu dia preclaro

Nunca mais bodas ao cielo.

TEVE O POETA NOTÍCIA QUE SEBASTIÃO DA ROCHA PITA SENDO RAPAZ SE ESTRAGAVA COM BETICA

Brás pastor inda donzelo,

Querendo descabaçar-se,

Viu Betica a recrear-se

Vinda ao prado de amarelo:

E tendo duro o pinguelo,

Foi lho metendo já nu,

Fossando como Tatu:

Gritou Brites, inda bem,

Que tudo sofre, quem tem

Rachadura junto ao cu.

MANAS, DEPOIS QUE SOU FREIRA

Manas, depois que sou freira

Apoleguei mil caralhos,

E acho ter os barbicalhos

Qualquer de sua maneira:

O do casado é lazeira,

Com que me canso, em encalmo,

O do Frade é como um salmo

O maior do breviário:

Mas o caralho ordinário

É do tamanho de um palmo.

Além dessa diferença,

Que de palmo a palmo achei,

Outra coisa, que encontrei,

Me tem absorta, e suspensa:

É que discorrendo a imensa

Grandeza naquele nabo,

Quando o fim vi do diabo,

Achei, que a qualquer jumento

Se lhe acaba o comprimento

Com dous redondos no cabo.

A MEDIDA PARA O MALHO

A medida para o malho

Pela taxa da Cafeira,

Que tem do malho a craveira,

São dous palmos de caralho:

Não quer nisto dar um talho,

E eu zombo do seu empenho,

Pois tendo um palmo de lenho,

Com que outras putas desalmo,

Inda que tenho um só palmo,

Não quero mais do que tenho.

COM CACHOPINHAS DE GOSTO

Com cachopinhas de gosto

Em cama de bom colchão,

Nos peitinhos posta a mão,

E o pé no fincapé posto:

Ajuntar rosto com rosto,

Dormir um homem seu sono,

Acordar, calcar-lhe o mono

Já quase ao gorgolejar,

Então é o ponderar

As excelências do cono.

Eu na minha opinião,

Segundo o meu parecer,

Digo, que não há foder,

Senão cono de enchemão:

Porque um homem com Sezão,

Inda sendo caralhudo,

Meterá culhões, e tudo,

E assim mostra a experiência,

Que do cono a excelência

Pe ser bem grande, e papudo.

É também conveniente,

Que não tenha oi parrameiro

A nota de ser traseiro,

E que seja um tanto quente:

Que às vezes mui facilmente

São tais as misérias nossas,

Que havemos mister as moças

Para regalo da pica

Como cono de pouca crica,

Apertado, bordas grossas.

Mas a maior regalia,

Que no cono se há de achar,

Para que possa levar

Dos conos a primazia

(este ponto me esquecia)

para ser perfeito em tudo,

é nunca ser achar barbudo,

por dar bom gosto ao foder,

como também deve ser

Chupão, enxuto, e carnudo.

ASSUMPTO QUE HUMA DAMA MANDOU AO POETA

Quisera, Senhor Doutor,

Uma informação, e é,

Que me deram junto ao que,

(do cu dissera melhor)

um golpe de tal rigor,

que passo mui maltratada

por me ver ali cortada:

que remédio pode ter

junto do cu cutilada.

Anda aqui um surgião

Fulano Lopes Monteiro,

Que dizem para o traseiro

Tem ele mui boa mão:

Quisera saber então,

Pois vivo tão desviada,

E como serei curada

Por uma sua receita,

Ficando sempre sujeita

A Dama da cutilada.

RESPOSTA DO POETA

Senhora Dona formosa,

Li a de vossa mercê

Com a cutilada, que

A traz tanto desgostosa:

A ferida é mui danosa,

E não é para cheirada,

Traga-me sempre abotoada,

Que é, o que mais lhe convém,

Pois nunca curou ninguém

Junto do cu cutilada. (...)

Causa grande admiração,

Como em tal parte a cascou,

Só se dormindo a apanhou,

Ou estirada no chão:

Esta é minha presunção,

Que para ali ser cortada

Devia estar estirada

Com as pernas para o ar,

Quando lhe foram cascar

Junto do cu cutilada. (...)

Algumas vezes curei

Com ovos tão grandalhões,

Que pareciam culhões,

Mas debalde me cansei:

Com mecha lhos encaixei,

Que entrava tão ajustada,

Que ia algum tanto apertada:

Mas era cansar-se em vão,

Porque ovos não curam não

Junto do cu cutilada. (...)

Mas eu tenho cá para mim,

Para que dela não morra,

Que lhe unte sebo de porra,

Ou sumo de parati:

Porque já enferma vi

Com semelhante golpada

Ficar muito consolada,

Que a experiência mostrou,

Que curar ninguém curou

Junto do cu cutilada.

(Apostila 4 do Barroco - Literatura Brasileira)

 

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Frei Manuel Calado

Frei Manuel Calado do Salvador nasceu em Vila Viçosa (Portugal), em 1584. Professou na Ordem de S. Paulo em 8 de abril de 1607. Passou cerca de trinta anos no Brasil (Bahia e Pernambuco). Esteve presente em vários acontecimentos do período da invasão holandesa em Pernambuco. Por pouco não foi condenado à morte pelos holandeses. Após a restauração pernambucana (15/07/1646) regressou à Corte e apresentou à Censura a primeira parte de sua obra acerca da guerra com os holandeses: O Valeroso Lucideno e o Triunfo da Liberdade, publicada em 1648. A obra é predominantemente em prosa, mas em alguns trechos é dominada pelo verso. De caráter clássico e barroco, varia entre o criativo poético e a narração histórica laudatória. Para Massaud Moisés "O Valeroso Lucideno encerra palpitante reportagem da guerra holandesa, levada a efeito por um cronista empenhado na exaltação do destemor português, mas que registra, como sem querer, a presença do brasileiro e a progressiva maturação de nossa linguagem literária durante o século barroco." (Hist. da Lit. Brasileira: Origens, Barroco, Arcadismo: 1990, p. 168).

Livro Quarto - Capítulo II - fragmento

Estrela matutina, é tempo agora

Que a cítara me deis, para que cante

Vossos favores, cristalina Aurora,

Que do incriado Sol vindes diante;

Se me favoreceis, Virgem Senhora,

Das escuras quadrilhas triunfante,

Cantarei docemente em voz suave,

Com saudoso acento, agudo, e grave.

Estava Lucideno sobre o leito

Do importuno trabalho descansando,

Revolvendo mil traças no conceito,

Diversos pensamentos espalhando:

Bate-lhe o coração dentro no peito,

Os sentidos lhe ocupa o sono brando,

Tanto adormeceu, sonhou que via

O Santo Português, que lhe dizia:

Como estás Lucideno descansado,

Importando-te tanto o trabalhar?

Quando o fero Holandês tem decretado

De os moradores todos degolar;

Este infausto decreto, e inopinado

Em dois dias pretende executar,

E em se mostrando ao mundo a nova Aurora

Se parte ao Arrecife sem demora.

E reformado ali de armas, e gente,

Com suas tropas posto a som de guerra,

Ardendo em ira, e em furor ardente

Os moradores matará da terra;

Portanto não te mostres negligente,

E se zelo Cristão em ti se encerra,

Corre depressa, porque senão corres

Não dirás com verdade que os socorres.

Por duas vezes viste a porta aberta

Por si, do tempo aonde me servias,

No que te prometi vitória certa

Se esta honrosa empresa acometias:

Portanto Lucideno, alerta, alerta,

E se em meu patrocínio te confias,

Parte depressa, e investe ao inimigo,

Não se acovardes, que eu serei contigo.

Tanto que o Holandês se reformar

De soldados, e armas sem demora

Determina sair a degolar

Os moradores nesse ponto, e hora:

Levanta-te, e procura caminhar

Antes que o inimigo saia fora

Aos Apopucos, Vila, e Beberibe,

Várzea, Tejupió, Capivaribe.

Livro VI - Capítulo I - fragmento

Quando o garrido arnês da Flora bela

(Alegria total da Primavera)

Tinha entregada a rorida capela

Ao mês, que entrar em Lagos não deverá,

Chegou ao Arraial com boa estrela

O forte Lucideno, aonde o espera

O morador, e os míseros soldados,

Todos ficam com vê-lo consolados.

As estâncias visita, e as provê

De mantimento, porque o traz consigo

Em abundância, e certo bem se crê,

Que é pai dos pobres, e leal amigo:

Diz-lhes que em defensão da Santa Fé

Não têm que recear a morte, ou perigo,

Que quem morre em serviço de seu Deus,

Alcança fama, e grangeia os Céus.

Todos com raro brio se oferecem

A fazer as heróicas proezas,

Com que por todo o mundo resplandecem,

As valentes espadas Portuguesas:

O socorro oportuno lhe agradecem,

Todos louvam seu ânimo, e grandezas,

Que não se ausente mais cada um lhe pede,

O qual o que lhe rogam lhes condece.

Com isto se despede, e vem tomar

Descanso da viagem que fizera,

E juntamente chega a visitar

Sua amada consorte, que o espera:

Detém-se uma só noite, e vai tratar

De celebrar (segundo prometera)

Festas a Santo Antônio Português,

Que mercês tão grandíloquas lhe fez.

Traçada a festa, senão quando vinha

De Iguarassu correndo um cavaleiro,

Que o Lucideno deiz que marche asinha,

Se quer o Belga ter por prisioneiro:

Dá-lhe aviso, em como o Belga tinha

Três naus, nas três passagens, que primeiro,

Em tempo de águas vivas, nos serviam

Por onde à Ilha os Portugueses iam.

Com esta festa, de que aqui se fala,

Era do glorioso Santo Antônio,

Notai o que ordenou para estorvá-la

O maldito, e Flamígero Demônio:

Lucideno o aviso escuta, e cala,

Qual astuto, e sagaz LacedeMõnio,

Diz-me a Musa, que fale um pouco a prosa,

Pois no escrever é mais compendiosa.

(Apostila 11 de Barroco - Literatura Brasileira)

 

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À Ilha de Maré

Manuel Botelho de Oliveira


À ILHA DE MARÉ TERMO DESTA CIDADE DA BAHIA

SILVA

Jaz oblíqua forma e prolongada

a terra de Maré toda cercada

de Netuno, que tendo o amor constante,

lhe dá muitos abraços por amante,

e botando-lhe os braços dentro dela

a pretende gozar, por ser mui bela.

Nesta assistência tanto a senhoreia,

e tanto a galanteia,

que, do mar, de Maré tem o apelido,

como quem preza o amor de seu querido:

e por gosto das prendas amorosas

fica maré de rosas,

e vivendo nas ânsias sucessivas,

são do amor marés vivas;

e se nas mortas menos a conhece,

maré de saudades lhe parece.

Vista por fora é pouco apetecida,

porque aos olhos por feia é parecida;

porém dentro habitada

é muito bela, muito desejada,

é como a concha tosca e deslustrosa,

que dentro cria a pérola fermosa.

Erguem-se nela outeiros

com soberbas de montes altaneiros,

que os vales por humildes desprezando,

as presunções do Mundo estão mostrando,

e querendo ser príncipes subidos,

ficam os vales a seus pés rendidos.

Por um e outro lado

vários lenhos se vêem no mar salgado;

uns vão buscando da Cidade a via,

outros dela se vão com alegria;

e na desigual ordem

consiste a fermosura na desordem.

Os pobres pescadores em saveiros,

em canoas ligeiros,

fazem com tanto abalo

do trabalho marítimo regalo;

uns as redes estendem,

e vários peixes por pequenos prendem;

que até nos peixes com verdade pura

ser pequeno no Mundo é desventura:

outros no anzol fiados têm

aos míseros peixes enganados,

que sempre da vil isca cobiçosos

perdem a própria vida por gulosos.

Aqui se cria o peixe regalado

com tal sustância, e gosto preparado,

que sem tempero algum para apetite

faz gostoso convite,

e se pode dizer em graça rara

que a mesma natureza os temperara.

Não falta aqui marisco saboroso,

para tirar fastio ao melindroso;

os polvos radiantes,

os lagostins flamantes,

camarões excelentes,

que são dos lagostins pobres parentes;

retrógrados cranguejos,

que formam pés das bocas com festejos,

ostras, que alimentadas

estão nas pedras, onde são geradas;

enfim tanto marisco, em que não falo,

que é vário perrexil para o regalo.

As plantas sempre nela reverdecem,

e nas folhas parecem,

desterrando do Inverno os desfavores,

esmeraldas de Abril em seus verdores,

e delas por adorno apetecido

faz a divina Flora seu vestido.

As fruitas se produzem copiosas,

e são tão deleitosas,

que como junto ao mar o sítio é posto,

lhes dá salgado o mar o sal do gosto.

As canas fertilmente se produzem,

e a tão breve discurso se reduzem,

que, porque crescem muito,

em doze meses lhe sazona o fruito,

e não quer, quando o fruto se deseja,

que sendo velha a cana, fértil seja.

As laranjas da terra

poucas azedas são, antes se encerra

tal doce nestes pomos,

que o tem clarificado nos seus gomos;

mas as de Portugal entre alamedas

são primas dos limões, todas azedas.

Nas que chamam da China

grande sabor se afina,

mais que as da Europa doces, e melhores,

e têm sempre a ventagem de maiores,

e nesta maioria,

como maiores são, têm mais valia.

Os limões não se prezam,

antes por serem muitos se desprezam.

Ah se Holanda os gozara!

Por nenhuma província se trocara.

As cidras amarelas

caindo estão de belas,

e como são inchadas, presumidas,

é bem que estejam pelo chão caídas.

As uvas moscatéis são tão gostosas,

tão raras, tão mimosas;

que se Lisboa as vira, imaginara

que alguém dos seus pomares as furtara;

delas a produção por copiosa

parece milagrosa,

porque dando em um ano duas vezes,

geram dous partos, sempre, em doze meses.

Os melões celebrados

aqui tão docemente são gerados,

que cada qual tanto sabor alenta,

que são feitos de açúcar, e pimenta,

e como sabem bem com mil agrados,

bem se pode dizer que são letrados;

não falo em Valariça, nem Chamusca:

porque todos ofusca

o gosto destes, que esta terra abona

como próprias delícias de Pomona.

As melancias com igual bondade

são de tal qualidade,

que quando docemente nos recreia,

é cada melancia uma colmeia,

e às que tem Portugal lhe dão de rosto

por insulsas abóboras no gosto.

Aqui não faltam figos,

e os solicitam pássaros amigos,

apetitosos de sua doce usura,

porque cria apetites a doçura;

e quando acaso os matam

porque os figos maltratam,

parecem mariposas, que embebidas

na chama alegre, vão perdendo as vidas.

As romãs rubicundas quando abertas

à vista agrados são, à língua ofertas,

são tesouro das fruitas entre afagos,

pois são rubis suaves os seus bagos.

As fruitas quase todas nomeadas

são ao Brasil de Europa trasladadas,

por que tenha o Brasil por mais façanhas

além das próprias fruitas, as estranhas.

E tratando das próprias, os coqueiros,

galhardos e frondosos

criam cocos gostosos;

e andou tão liberal a natureza

que lhes deu por grandeza,

não só para bebida, mas sustento,

o néctar doce, o cândido alimento.

De várias cores são os cajus belos,

uns são vermelhos, outros amarelos,

e como vários são nas várias cores,

também se mostram vários nos sabores;

e criam a castanha,

que é melhor que a de França, Itália, Espanha.

As pitangas fecundas

são na cor rubicundas

e no gosto picante comparadas

são de América ginjas disfarçadas.

As pitombas douradas, se as desejas,

são no gosto melhor do que as cerejas,

e para terem o primor inteiro,

a ventagem lhes levam pelo cheiro.

Os araçazes grandes, ou pequenos,

que na terra se criam mais ou menos

como as pêras de Europa engrandecidas,

com elas variamente parecidas,

de várias castas marmeladas belas.

As bananas no Mundo conhecidas

por fruto e mantimento apetecidas,

que o céu para regalo e passatempo

liberal as concede em todo o tempo,

competem com maçãs, ou baonesas

com peros verdeais ou camoesas.

Também servem de pão aos moradores,

se da farinha faltam os favores;

é conduto também que dá sustento,

como se fosse próprio mantimento;

de sorte que por graça, ou por tributo,

é fruto, é como pão, serve em conduto.

A pimenta elegante

é tanta, tão diversa, e tão picante,

para todo o tempero acomodada,

que é muito aventajada

por fresca e por sadia

à que na Asia se gera, Europa cria.

O mamão por freqüente

se cria vulgarmente,

e não o preza o Mundo,

porque é muito vulgar em ser fecundo.

O marcujá também gostoso e frio

entre as fruitas merece nome e brio;

tem nas pevides mais gostoso agrado,

do que açúcar rosado;

é belo, cordial, e como é mole,

qual suave manjar todo se engole.

Vereis os ananases,

que para rei das fruitas são capazes;

vestem-se de escarlata

com majestade grata,

que para ter do Império a gravidade

logram da croa verde a majestade;

mas quando têm a croa levantada

de picantes espinhos adornada,

nos mostram que entre Reis, entre Rainhas

não há croa no Mundo sem espinhas.

Este pomo celebra toda a gente,

é muito mais que o pêssego excelente,

pois lhe leva aventagem gracioso

por maior, por mais doce, e mais cheiroso.

Além das fruitas, que esta terra cria,

também não faltam outras na Bahia;

a mangava mimosa

salpicada de tintas por fermosa,

tem o cheiro famoso,

como se fora almíscar oloroso;

produze-se no mato

sem querer da cultura o duro trato,

que como em si toda a bondade apura,

não quer dever aos homens a cultura.

Oh que galharda fruita, e soberana

sem ter indústria humana,

e se Jove as tirara dos pomares,

por ambrósia as pusera entre os manjares!

Com a mangava bela a semelhança

do macujé se alcança;

que também se produz no mato inculto

por soberano indulto:

e sem fazer ao mel injusto agravo,

na boca se desfaz qual doce favo.

Outras fruitas dissera, porém, basta

das que tenho descrito a vária casta;

e vamos aos legumes, que plantados

são do Brasil sustentos duplicados:

os mangarás que brancos, ou vermelhos,

são da abundância espelhos;

os cândidos inhames, se não minto,

podem tirar a fome ao mais faminto.

As batatas, que assadas, ou cozidas

são muito apetecidas;

delas se faz a rica batatada

das Bélgicas nações solicitada.

Os carás, que de roxo estão vestidos,

são lóios dos legumes parecidos,

dentro são alvos, cuja cor honesta

se quis cobrir de roxo por modesta.

A mandioca, que Tomé sagrado

deu ao gentio amado,

tem nas raízes a farinha oculta:

que sempre o que é feliz, se dificulta.

E parece que a terra de amorosa

se abraça com seu fruto deleitosa;

dela se faz com tanta atividade

a farinha, que em fácil brevidade

no mesmo dia sem trabalho muito

se arranca, se desfaz, se coze o fruito;

dela se faz também com mais cuidado

o beiju regalado,

que feito tenro por curioso amigo

grande ventagem leva ao pão de trigo.

Os aipins se aparentam

coa mandioca, e tal favor alentam,

que tem qualquer, cozido, ou seja assado,

das castanhas da Europa o mesmo agrado.

O milho, que se planta sem fadigas,

todo o ano nos dá fáceis espigas,

e é tão fecundo em um e em outro filho,

que são mãos liberais as mãos de milho.

O arroz semeado

fertilmente se vê multiplicado;

cale-se de Valença, por estranha

o que tributa a Espanha,

cale-se do Oriente

o que come o gentio, e a lísia gente;

que o do Brasil quando se vê cozido

como tem mais substância, é mais crescido.

Tenho explicado as fruitas e legumes,

que dão a Portugal muitos ciúmes;

tenho recopilado

o que o Brasil contém para invejado,

e para preferir a toda a terra,

em si perfeitos quatro AA encerra.

Tem o primeiro A, nos arvoredos

sempre verdes aos olhos, sempre ledos;

tem o segundo A, nos ares puros

na tempérie agradáveis e seguros;

tem o terceiro A, nas águas frias,

que refrescam o peito, e são sadias;

o quatro A, no açúcar deleitoso,

que é do Mundo o regalo mais mimoso.

São pois os quatro AA por singulares

Arvoredos, Açúcar, Águas, Ares.

Nesta ilha está mui ledo, e mui vistoso

um Engenho famoso,

que quando quis o fado antigamente

era Rei dos engenhos preminente,

e quando Holanda pérfida e nociva

o queimou, renasceu qual Fênix viva.

Aqui se fabricaram três capelas

ditosamente belas,

uma se esmera em fortaleza tanta,

que de abóbada forte se levanta;

da Senhora das Neves se apelida,

renovando a piedade esclarecida,

quando em devoto sonho se viu posto

o nevado candor no mês de agosto.

Outra capela vemos fabricada,

A Xavier ilustre dedicada,

que o Maldonado Pároco entendido

este edifício fez agradecido

a Xavier, que foi em sacro alento

glória da Igreja, do Japão portento.

Outra capela aqui se reconhece,

cujo nome a engrandece,

pois se dedica à Conceição sagrada

da Virgem pura sempre imaculada,

que foi por singular e mais fermosa

sem manchas lua, sem espinhos rosa.

Esta Ilha de Maré, ou de alegria,

que é termo da Bahia,

tem quase tudo quanto o Brasil todo,

que de todo o Brasil é breve apodo;

e se algum-tempo Citeréia a achara,

por esta sua Chipre desprezara,

porém tem com Maria verdadeira

outra Vênus melhor por padroeira.


FIM

(Apostila 5 de Barroco - Literatura Brasileira)

 

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Manuel Botelho de Oliveira

A Santa Maria Madalena aos Pés de Cristo

Soneto XCVII

Solicita, procura, reconhece,
com desvelo, com ânsia, com ventura,
sem temor, sem soberba, sem loucura,
a quem ama, a quem crê, por quem padece.

Ajoelha-se, chora, se enternece,
com pranto, com afeto, com ternura,
e se foi indiscreta, falsa, impura,
despe o mal, veste a graça, o bem conhece.

A seu Mestre, a seu Deus, a seu querido,
rega os pés, ais derrama, geme logo,
sem melindre, sem medo, sem sentido.

Por assombro, por fé, por desafogo,
nos seus olhos, na boca, no gemido,
água brota, ar respira, exala fogo.

Anarda Vendo-se a um Espelho

Décima 1
De Anarda o rosto luzia
No vidro que o retratava,
E tão belo se ostentava,
Que animado parecia:
Mas se em asseios do dia
No rosto o quarto farol
Vê seu lustroso arrebol;
Ali pondera meu gosto
O vidro, espelho do rosto,
O rosto, espelho do Sol.

2
É da piedade grandeza
Nesse espelho ver-se Anarda,
Pois ufano o espelho guarda
Duplicada a gentileza:
Considera-se fineza,
Dobrando as belezas suas,
Pois contra as tristezas cruas
Dos amorosos enleios
Me repete dous recreios,
Me oferece Anardas duas.

3
De sorte que sendo amante
Da beleza singular,
Posso outra beleza amar
Sem tropeços de inconstante;
E sendo outra vez triunfante
Amor do peito que adora
Ua Anarda brilhadora,
Em dous rostos satisfeitos,
Se em um fogo ardia o peito,
Em dous fogos arde agora.

4
Porém depois, rigorosas,
Deixando o espelho lustroso,
Oh como fica queixoso,
Perdendo a cópia fermosa!
Creio pois que na amorosa
Lei o cego frechador,
Que decreta único ardor,
Não quis a imagem que inflama,
Por extinguir outra chama,
Por estorvar outro amor.

Às Lágrimas Devotas

Soneto CXIV

Lágrimas se derramem, que o pecado
sabem lavar com sentimento puro,
que não há nódoa negra, ou rastro impuro
que não seja das lágrimas lavado.

Chorou Davi, e foi santificado,
chorou Pedro, e ficou no amor, seguro,
Madalena chorou, e o fogo impuro
em puríssimo fogo foi mudado.

Ficam no amor as almas mais absortas
quando as lágrimas correm sucessivas
sendo portas do Céu, do pranto as portas.

Cresce a graça nas lágrimas ativas
que se as culpas mortais são águas mortas,
as lágrimas da dor são águas vivas.

Contra os Julgadores

Soneto XII

Que julgas, ó ministro de Justiça?
Por que fazes das leis arbítrio errado?
Cuidas que dás sentença sem pecado,
Sendo que algum respeito mais te atiça?

Para obrar os enganos da injustiça,
Bem que teu peito vive confiado,
O entendimento tens todo arrastado
Por amor, ou por ódio, ou por cobiça.

Se tens amor, julgaste o que te manda;
Se tens ódio, no inferno tens o pleito,
Se tens cobiça, é bárbara, execranda.

Oh miséria fatal de todo o peito!
Que não basta o direito da demanda,
Se o julgador te nega esse direito.

Rosa, e Anarda

Soneto XX

Rosa da fermosura, Anarda bela
Igualmente se ostenta como a rosa;
Anarda mais que as flores é fermosa,
Mais fermosa que as flores brilha aquela,

A rosa com espinhos se desvela,
Arma-se Anarda espinhos de impiedosa;
Na fronte Anarda tem púrpura airosa,
A rosa é dos jardins purpúrea estrela.

Brota o carmim da rosa doce alento.
Respira olor de Anarda o carmim breve,
Ambas dos olhos são contentamento:

Mas esta diferença Anarda teve:
Que a rosa deve ao sol seu luzimento,
O sol seu luzimento a Anarda deve.

Vendo a Anarda Depõe o Sentimento

A serpe, que adornando várias cores,
Com passos mais oblíquos, que serenos,
Entre belos jardins, prados amenos,
É maio errante de torcidas flores;

Se quer matar da sede os desfavores,
Os cristais bebe co'a peçonha menos,
Porque não morra cos mortais venenos,
Se acaso gosta dos vitais licores.

Assim também meu coração queixoso,
Na sede ardente do feliz cuidado
Bebe cos olhos teu cristal fermoso;

Pois para não morrer no gosto amado,
Depõe logo o tormento venenoso,
Se acaso gosta o cristalino agrado.

(Apostila 6 de Barroco - Literatura Brasileira)

 

 

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Manuel de Santa Maria Itaparica

Descrição da Ilha de Itaparica

Canto Heróico

I
Cantar procuro, descrever intento,
Em um Heróico verso e sonoroso,
Aquela que me deu o nascimento,
Pátria feliz, que tive por ditoso:
Ao menos co'este humilde rendimento
Quero mostrar lhe sou afetuoso,
Porque é de ânimo vil e fementido
O que à Pátria não é agradecido.

II

Se nasceste no Ponto, ou Líbia ardente,
Se no Píndaro viste a aura primeira,
Se nos Alpes, ou Etna comburente,
Princípio houveste na vital carreira,
Nunca queiras, Leitor, ser delinqüente,
Negando a tua Pátria verdadeira,
Que assim mostras herdaste venturoso
Ânimo heróico, peito generoso.

III

Musa, que no florido de meus anos
Teu furor tantas vezes me inspiraste,
E na idade em que vêm os desenganos
Também sempre fiel me acompanhaste,
Tu, que influxos repartes soberanos
Desse monte Hélicon, que já pisaste,
Agora me concede o que te peço,
Para seguir seguro o que começo.

IV

Em o Brasil, Província desejada
Pelo metal luzente, que em si cria,
Que antigamente descoberta e achada
Foi de Cabral, que os mares discorria,
Perto donde está hoje situada
A opulenta e ilustríssima Bahia,
Jaz a ilha chamada Itaparica,
A qual no nome tem também ser rica.

V

Está posta bem defronte da Cidade,
Só três léguas distante e os moradores
Daquela a esta vêm com brevidade,
Se não faltam do Zéfiro os favores;
E ainda quando com ferocidade
Éolo está mostrando os seus rigores,
Para a Côrte navegam, sem que cessem,
E parece que os ventos lhe obedecem.

VI

Por uma e outra parte rodeada
De Netuno se vê tão arrogante,
Que algumas vezes com porcela irada
Enfia o melancólico semblante;
E com a tem por sua, e tão amada,
Por lhe pagar fiel foros de amante,
Muitas vezes também serenamente
Tem encostado nela o seu Tridente.

VII

Se a Deusa Citeréia conhecera
Desta Ilha celebrada a formosura,
Eu fico que a Netuno prometera
O que a outros negou cruel e dura:
Então de boa mente lhe oferecera
Entre incêndios de fogo a neve pura,
E se de alguma sorte a alcançara,
Por esta a sua Chipre desprezara.

VIII

Pela costa do mar a branca areia
É para a vista objeto delicioso,
Onde passeia a Ninfa Galatéia
Com acompanhamento numeroso;
E quanto mais galante se recreia
Com aspecto gentil, donaire airoso,
Começa a semear das roupas belas
Conchinhas brancas, ruivas e amarelas.

IX

Aqui se cria o peixe copioso,
E os vastos pescadores em saveiros
Não receando o Elemento undoso,
Neste exercício estão dias inteiros;
E quando Áquilo e Bóreas proceloso
Com fúria os acomete, eles ligeiros
Colhendo as velas brancas, ou vermelhas,
Se acomodam cos remos em parelhas.

X

Neste porém marítimo regalo
Uns as redes estendem diligentes,
Outros com força, indústria e intervalo
Estão batendo as ondas transparentes:
Outros noutro baixel sem muito abalo
Levantam cobiçosos e contentes
Uma rede, que chamam Zangareia,
Para os saltantes peixes forte teia.

XI

Qual aranha sagaz e ardilosa
Nos ares forma com sutil fio
Um labirinto tal, que a cautelosa
Mosca nele ficou sem alvedrio,
E assim com esta manha industriosa
Da mísera vem ter o senhorio,
Tais são com esta rede os pescadores
Para prender os mudos nadadores.

XII

Outros também por modo diferente,
Tendo as redes lançadas em seu seio,
Nas coroas estão postos firmemente,
Sem que tenham o pélago receio:
Cada qual puxa as cordas diligente,
E os peixes vão fugindo para o meio,
'Té que aos impulsos do robusto braço
Vêm a colher os míseros no laço.

XIII

Nos baixos do mar outros tarrafando,
Alerta a vista e os passos vagarosos,
Vão uns pequenos peixes apanhando,
Que para o gosto são deliciosos:
Em canoas também de quando em quando
Fisgam no anzol alguns, que por gulosos
Ficam perdendo aqui as próprias vidas,
Sem o exemplo quererem ter de Midas.

XIV

Aqui se acha o marisco saboroso,
Em grande cópia e de casta vária,
Que para saciar ao apetitoso,
Não se duvida é coisa necessária:
Também se cria o lagostim gostoso,
Junto co'a ostra, que por ordinária
Não é muito estimada, porém antes
Em tudo cede aos polvos radiantes.

XV

Os camarões não fiquem esquecidos,
Que tendo crus a cor pouco vistosa,
Logo vestem depois que são cozidos
A cor do nácar, ou da Tíria rosa:
Os c'ranguejos nos mangues escondidos
Se mariscam sem arte industriosa,
Búzios também se vêem, de musgos sujos,
Cernambis, mexilhões e caramujos.

XVI

Também pertence aqui dizer ousado
Daquele peixe, que entre a fauce escura
O Profeta tragou Jonas sagrado,
Fazendo-lhe no ventre a sepultura;
Porém sendo do Altíssimo mandado,
O tornou a lançar são sem lesura
(Conforme nos afirma a Antigüidade)
Em as praias de Nínive Cidade.

XVII

Monstro do mar, Gigante do profundo,
Uma torre nas ondas soçobrada,
Que parece em todo o âmbito rotundo
Jamais besta tão grande foi criada:
Os mares despedaça furibundo
Co'a barbatana às vezes levantada,
Cujos membros tetérrimos e broncos
Fazem a Tétis dar gemidos roncos.

XVIII

Baleia vulgarmente lhe chamamos,
Que como só a esta Ilha se Sujeita,
Por isso de direito a não deixamos,
Por ser em tudo a descrição perfeita;
E que para bem claro percebamos
O como a pescaria dela é feita,
Quero dar com estudo não ocioso
Esta breve notícia ao curioso.

XIX

Tanto que chega o tempo decretado,
Que este peixe do vento Austro é movido,
Estando à vista de Terra já chegado,
Cujos sinais Netuno dá ferido,
Em um porto desta Ilha assinalado,
E de todo o preciso prevenido,
Estão umas lanchas leves e veleiras,
Que fazem c'os remos mais ligeiras.

XX

Os Nautas são Etíopes robustos,
E outros mais do sangue misturado,
Alguns Mestiços em a cor adustos,
Cada qual pelo esforço assinalado:
Outro ali vai também, que sem ter sustos
Leva o arpão da corda pendurado,
Também um, que no ofício a Glauco ofusca,
E para isto Brásilo se busca.

XXI

Assim partem intrépidos sulcando
Os palácios da linda Panopéia,
Com cuidado solícito vigiando
Onde ressurge a sólida Baleia.
Ó gente, que furor tão execrando
A um perigo tal se sentenceia?
Como, pequeno bicho, és atrevido
Contra o monstro do mar mais destemido?

XXII

Como não temes ser despedaçado
De um animal tão feio e tão imundo?
Por que queres ir ser precipitado
Nas íntimas entranhas do profundo?
Não temes, se é que vives em pecado,
Que o Criador do Céu e deste Mundo,
Que tem dos mares todos o governo,
Desse lago te mande ao lago Averno?

XXIII

Lá intentaram fortes os Gigantes
Subir soberbos ao Olimpo puro,
Acometeram outros de ignorantes
O Reino de Plutão horrendo e escuro;
E se estes atrevidos e arrogantes
O castigo tiveram grave e duro,
Como não temes tu ser castigado
Pelos monstros também do mar salgado?

XXIV

Mas enquanto com isto me detenho,
O temerário risco admoestando,
Eles de cima do ligeiro lenho
Vão a Baleia horrível avistando:
Pegam nos remos com forçoso empenho,
E todos juntos com furor remando
A seguem por detrás com tal cautela,
Que imperceptíveis chegam junto dela.

XXV

O arpão farpado tem nas mãos suspenso
Um, que da proa o vai arremessando,
Todos os mais deixando o remo extenso
Se vão na lancha súbito deitando;
E depois que ferido o peixe imenso
O veloz curso vai continuando,
Surge cad'um com fúria e força tanta,
Que como um Anteu forte se levanta.

XXVI

Corre o monstro com tal ferocidade,
Que vai partindo o úmido Elemento,
E lá do pego na concavidade
Parece mostrar Tétis sentimento:
Leva a lancha com tal velocidade,
E com tão apressado movimento,
Que cá de longe apenas aparece,
Sem que em alguma parte se escondesse.

XXVII

Qual o ligeiro pássaro amarrado
Com um fio sutil, em cuja ponta
Vai um papel pequeno pendurado,
Voa veloz sentindo aquela afronta,
E apenas o papel, que vai atado,
Se vê pela presteza, com que monta,
Tal o peixe afrntado vai correndo
Em seus membros atada a lancha tendo.

XXVIII

Depois que com o curso dilatado
Algum tanto já vai desfalecendo,
Eles então com força e com cuidado
A corda pouco a pouco vão colhendo;
E tanto que se sente mais chegado,
Ainda com fúria os mares combatendo,
Nos membros moles lhe abre uma rotura
Um novo Aquiles c'uma lança dura.

XXIX

De golpe sai de sangue uma espadana,
Que vai tingindo o Oceano ambiente,
Com o qual se quebranta a fúria insana
Daquele horrível peixe, ou besta ingente;
E sem que pela plaga Americana
Passado tenha de Israel a gente,
A experiência e vista certifica
Que é o mar vermelho o mar de Itaparica.

XXX

Aos repetidos rasgos desta lança
A vital aura vai desamparando,
'Té que fenece o monstro sem tardança,
Que antes andava os mares açoitando:
Eles puxando a corda com pujança
O vão da lancha mais perto arrastando,
Que se lhe fiou Cloto o longo fio,
Agora o colhe Láquesis com brio.

XXXI

Eis agora também no mar saltando
O que de Glauco tem a habilidade,
Com um agudo ferro vai furando
Dos queixos a voraz monstruosidade:
Com um cordel depois, grosso e não brando,
Da boca cerra-lhe a concavidade,
Que se o mar sorve no gasnate fundo
Busca logo as entranhas do profundo.

XXXII

Tanto que a presa tem bem subjugada
Um sinal branco lançam vitoriosos,
E outra lancha para isto decretada
Vem socorrer com cabos mais forçosos:
Uma e outra se parte emparelhada,
Indo à vela, ou c'os remos furiosos,
E pelo mar serenas navegando
Para terra se vão endireitando.

XXXIII

Cada um se mostra no remar constante,
Se lhe não tem o Zéfiro assoprado,
E com fadigas e suor bastante
Vem a tomar o porto desjado.
Deste em espaço não muito distante,
Em o terreno mais acomodado
Uma Trusátil máquina esta posta
Só para esta função aqui deposta.

XXXIV

O pé surge da terra para fora
Uma versátil roda sustentando,
Em cujo âmbito longo se encoscora
Uma amarra, que a vai arrodeando:
A esta mesma roda cá de fora
Homens dez vezes cinco estão virando,
E quanto mais a corda se repuxa,
Tanto mais para a terra o peixe puxa.

XXXV

Assim com esta indústria vão fazendo
Que se chegue ao lugar determinado,
E as enchentes Netuno recolhendo,
Vão subindo por um e outro lado:
Outros em borbotão já vêm trazendo
Facas luzidas e o braçal machado,
E cada qual ligeiro se aparelha
Para o que seu ofício lhe aconselha.

XXXVI

Assim dispostos uns, que África cria,
Dos membros nus, o couro denegrido,
Os quais queimou Faeton, quando descia
Do terrífico raio submergido,
Com algazarra muita e gritaria,
Fazendo os instrumentos grão ruído,
Uns aos outros em ordem vão seguindo,
E os adiposos lombos dividindo.

XXXVII

O povo que se ajunta é infinito,
E ali têm muitos sua dignidade,
Os outros vêm do Comarcão distrito,
E despovoam parte da Cidade:
Retumba o ar com o contínuo grito,
Soa das penhas a concavidade,
E entre eles todos tal furor se acende,
Que às vezes um ao outro não se entende.

XXXVIII

Qual em Babel o povo, que atrevido
Tentou subir ao Olimpo transparente,
Cujo idioma próprio pervertido
Foi uma confusão balbuciante,
Tal nesta torre, ou monstro desmedido,
Levanta as vozes a confusa gente,
Que seguindo cad'um diverso dogma
Falar parece então noutro idioma.

XXXIX

Desta maneira o peixe se reparte
Por toda aquela cobiçosa gente,
Cabendo a cada qual aquela parte,
Que lhe foi consignada do regente:
As banhas todas se depõem à parte,
Que juntas formam um acervo ingente,
Das quais se faz azeite em grande cópia,
Do que esta Terra não padece inópia.

XL

Em vasos de metal largos e fundos
O estão com fortes chamas derretendo
De uns pedaços pequenos e fecundos,
Que o fluido licor vão escorrendo:
São uns feios Etíopes e imundos,
Os que estão este ofício vil fazendo,
Cujos membros de azeite andam untados,
Daquelas cirandagens salpicados.

XLI

Este peixe, este monstro agigantado
Por ser tão grande tem valia tanta,
Que o valor a que chega costumado
Até quase mil áureos se levanta.
Quem de ouvir tanto não sai admirado?
Quem de um peixe tão grande não se espanta?
Mas enquanto o Leitor fica pasmando,
Eu vou diversas cousas relatando.

XLII

Em um extremo desta mesma Terra
Está um forte soberbo fabricado,
Cuja bombarda, ou máquina de guerra,
Abala a Ilha de um e outro lado:
Tão grande fortaleza em si encerra
De artilharia e esforço tão sobrado,
Que retumbando o bronze furibundo
Faz ameaço á terra, ao mar, ao Mundo.

XLIII

Não há nesta Ilha engenho fabricado
Dos que o açúcar fazem saboroso,
Porque um, que ainda estava levantado,
Fez nele o seu oficio o tempo iroso:
Outros houve também, que o duro fado
Por terra pôs, cruel e rigoroso,
E ainda hoje um, que foi mais soberano,
Pendura as cinzas por painel Troiano.

XLIV

Claras as águas são e transparentes,
Que de si manam copiosas fontes,
Umas regam os vales adjacentes,
Outras descendo vêm dos altos montes;
E quando com seus raios refulgentes,
As doura Febo abrindo os Horizontes,
Tão cristalinas são, que aqui difusa
Parece nasce a fonte da Aretusa.

XLV

Pela relva do campo mais viçoso
O gado junto e pingue anda pastando,
O roubador de Europa furioso,
E o que deu o véu de ouro em outro bando,
O bruto de Netuno generoso
Vai as areias soltas levantando,
E nos bosques as leras Ateonéias
A República trilham das Napéias.

XLVI

Aqui o campo florido se semeia
De brancas açucenas e boninas,
Ali no prado a rosa mais franqueia
Olorizando as horas matutinas:
E quando Clóris mais se galanteia,
Dando da face exalações divinas,
Dos ramos no regaço vai colhendo
O Clavel e o jasmim, que está pendendo.

XLVII

As frutas se produzem copiosas,
De várias castas e de várias cores,
Umas se estimam muito por cheirosas,
Outras levam vantagem nos sabores:
São tão belas, tão lindas e formosas,
Que estão causando à vista mil amores,
E se nos prados Flora mais blasona,
São os pomares glória de Pomona.

XLVIII

Entre elas todas têm lugar subido
As uvas doces, que esta Terra cria,
De tal sorte, que em número crescido
Participa de muitas a Bahia:
Este fruto se gera apetecido
Duas vezes no ano sem profia,
E por isso e do povo celebrado,
E em toda a parte sempre nomeado.

XLIX

Os coqueiros compridos e vistosos
Estão por reta série ali plantados,
Criam cocos galhardos e formosos,
E por maiores são mais estimados:
Produzem-se nas praias copiosos,
E por isso os daqui mais procurados,
Cedem na vastidão à bananeira,
A qual cresce e produz desta maneira.

L

De uma lança ao tamanho se levanta,
Estúpeo e roliço o tronco tendo,
As lisas folhas têm grandeza tanta,
Que até mais de onze palmos vão crescendo:
Da raiz se lhe erige nova planta,
Que está o parto futuro prometendo,
E assim que o fruto lhe sazona e cresce,
Como das plantas víbora fenece.

LI

Os limões doces muito apetecidos
Estão Virgíneas tetas imitando,
E quando se vêem crespos e crescidos,
Vão as mãos curiosas incitando:
Em árvores copadas, que estendidos
Os galhos têm, e as ramas arrastando,
Se produzem as cidras amarelas,
Sendo tão presumidas como belas.

LII

A laranjeira tem no fruto louro
A imitação dos pomos de Atalanta,
E pela cor, que em si conserva de ouro,
Por isso estimação merece tanta:
Abre a romã da casca o seu tesouro,
Que do rubi a cor flamante espanta,
E quanto mais os bagos vai fendendo,
Tanto vai mais formosa parecendo.

LIII

Os melões excelentes e olorosos
Fazem dos próprios ramos galaria.
Também estende os seus muito viçosos
A pevidosa e doce melancia:
Os figos de cor roxa graciosos
Poucos se logram, salvo se à porfia
Se defendem de que com os biquinhos
Os vão picando os leves passarinhos.

LIV

No ananás se vê como formada
Uma coroa de espinhos graciosa,
A superfície tendo matizada
Da cor, que Citeréia deu à rosa:
E sustentando a c'roa levantada
Junto co'a vestidura decorosa,
Está mostrando tanta gravidade,
Que as frutas lhe tributam Majestade.

LV

Também entre as mais frutas as jaqueiras
Dão pelo tronco a jaca adocicada,
Que vindo lá de partes estrangeiras
Nesta Província é fruta desejada:
Não fiquem esquecidas as mangueiras,
Que dão a manga muito celebrada,
Pomo não só ao gosto delicioso,
Mas para o cheiro almíscar oloroso.

LVI

Inumeráveis são os cajus belos,
Que estão dando prazer por rubicundos,
Na cor também há muitos amarelos,
E uns e outros ao gosto são jucundos;
E só bastava para apetecê-los
Serem além de doces tão fecundos,
Que em si têm a Brasílica castanha
Mais saborosa que a que cria Espanha.

LVII

Os araçás diversos e silvestres,
Uns são pequenos, outros são maiores:
Oitis, cajás, pitangas, por agrestes,
Estimadas não são dos moradores:
Aos mar'cujás chamar quero celestes,
Porque contêm no gosto tais primores,
Que se os Antigos na Ásia os encontraram,
Que era o néctar de Jove imaginaram.

LVIII

Outras frutas dissera, mas agora
Têm lugar os legumes saborosos,
Porém por não fazer nisto demora
Deixo esta explicação aos curiosos;
Mas, contudo, dizer quero por ora
Que produz esta Terra copiosos
Mandioca, inhames, favas e carás,
Batatas, milho, arroz e mangarás.

LIX

O arvoredo desta Ilha rica e bela
Em circuito toda a vai ornando,
De tal maneira, que só basta vê-la
Quando já está alegrias convidando:
Os passarinhos que se criam nela
De raminho em raminho andam cantando,
E nos bosques e brenhas não se engana
Quem exercita o oficio de Diana.

LX

Tem duas Freguesias muito extensas,
Das quais uma Matriz mais soberana
Se dedica ao Redentor, que a expensas
De seu Sangue remiu a prole humana;
E ainda que do tempo sinta ofensas
A devoção com ela não se engana,
Porque tem uma Imagem milagrosa
Da Santa Vera-Cruz para ditosa.

LXI

A Santo Amaro a outra se dedica,
A quem venerações o povo rende,
Sendo tão grande a Ilha Itaparica,
Que a uma só Paróquia não se estende:
Mas com estas Igrejas só não fica,
Porque Capelas muitas compreende,
E nisto mostram seus habitadores
Como dos Santos são veneradores.

LXII

Dedica-se a primeira àquele Santo
Mártir, que em vivas chamas foi aflito,
E ao Tirano causou terror e espanto,
Quando por Cristo foi assado e frito.
Também não fique fora de meu canto
Uma, que se consagra a João bendito,
E outra (correndo a Costa para baixo)
Que à Senhora se dá do Bom Despacho.

LXIII

Outra a Antônio Santo e glorioso
Tem por seu Padroeiro e Advogado,
Está fundada num sitio delicioso,
Quer por esta Capela é mais amado.
Em um terreno alegre e gracioso
Outra se fabricou de muito agrado.
Das Mercês à Senhora verdadeira
É desta Capelinha a Padroeira.

LXIV

Também outra se vê, que é dedicada
À Senhora da penha milagrosa,
A qual airosamente situada
Está numa planície especiosa.
Uma também de São José chamada
Há nesta Ilha, por certo gloriosa,
Junta com outra de João, que sendo
Duas, se vai de todo engrandecendo.

LXV

Até aqui, Musa; não me é permitido
Que passe mais avante a veloz pena,
A minha Pátria tenho definido
Com esta descrição breve e pequena;
E se o tê-la tão pouco engrandecido
Não me louva, mas antes me condena,
Não usei termos de Poeta esperto,
Fui historiador em tudo certo.

FIM

 

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Manuel de Santa Maria Itaparica

À Morte de Sua Majestade Fidelíssima

In nidulo meo moriar, & sicut
Phaenix multiplicabo dies meos.
Job. 29.18.

Ambulabimus in viis Domini in
aeternum, & ultra.
Mich. 4.5.


Morreu em fim o Rei dos Lusitanos,
Mas como homem não sentiu a morte,
Como Fênix morreu, que desta sorte.
Acrescentou morrendo os próprios anos.

Um Rei tão singular entre os humanos,
Se acabara de parca ao duro corte,
Fora tão grande o sentimento, e forte,
Que causara no mundo imensos danos.

Mas como a Fênix já desfalecida
Deste modo acrescenta a sua idade,
Não se sente esta morte, é aplaudida:

Oh! mitigue-se a nossa saudade,
Que deu o nosso Rei, perdendo a vida
Tão cedo, mais aumento à eternidade.

EUSTAQUIDOS

Canto Segundo

(...)

IV
Jaz no centro da Terra uma caverna
De áspero, tosco e lúgubre edifício,
Onde nunca do Sol entrou lucerna,
Nem de pequena luz se viu indício.
Ali o horror e a sombra é sempiterna
Por um pungente e fúnebre artifício,
Cujas fenestras, que tu Monstro inflamas,
Respiradouros são de negras chamas.

V
Rodeiam este Alcáçar desditoso
Lagos imundos de palustres águas,
Onde um tremor e horror caliginoso
Penas descobre, desentranha mágoas:
Fontes heladas, fumo tenebroso,
Congelam ondas, e maquinam fráguas.
Mesclando em um confuso de crueldades
Chamas a neve, o fogo frieldades.

VI
Ardente serpe de sulfúreas chamas
Os centros gira deste Alvergue umbroso,
São as faíscas hórridas escamas,
E o fumo negro dente venenoso:
As lavaredas das volantes flamas
Asas compõem ao Monstro tenebroso,
Que quanto queima, despedaça e come,
Isso mesmo alimenta, que consome.

VII
Um negro arroio em pálida corrente
Irado ali se troce tão furioso,
Que é no que morde horrífica serpente,
E no que inficiona Áspide horroroso:
Fétido vapor, negro e pestilente
Exala de seu seio tão raivoso,
Que lá no centro sempre agonizado
De peste e sombras mostra ser formado.

(...)

Canto Quinto

XIII
Em um vasto me achei, e novo Mundo,
De nós desconhecido e ignorado,
Em cujas praias bate um mar profundo,
Nunca ategora de algum lenho arado:
O clima alegre, fértil e jucundo,
E o chão de árvores muitas povoado,
E no verdor das folhas julguei que era
Ali sempre contínua a Primavera.

XIV
Delas estavam pomos pendurados
Diversos na fragrância e na pintura,
Nem dos homens carecem ser plantados,
Mas agrestes se dão, e sem cultura;
E entre os troncos muitos levantados,
Que ainda a fantasia me figura,
Havia um pau de tinta mui fecunda,
Transparente na cor, e rubicunda.

XV
Pássaros muitos de diversas cores
Se viam várias ondas transformando,
E dos troncos suavíssimos licores
Em cópia grande estavam dimanando:
Peixes vi na grandeza superiores,
E animais quadrúpedes saltando,
A Terra tem do metal louro as veias,
Que de alguns rios se acha nas areias.

XVI
E quando a vista estava apascentando
Destas cousas na alegre formosura,
Um velho vi, que andava passeando,
De desmarcada e incógnita estatura:
Com sobressalto os olhos fui firmando
Naquela sempre móvel criatura,
E pareceu-me, se bem reparava,
Que vários rostos sempre me mostrava.

(...)

XVIII
Fiquei desta visão maravilhado,
Como quem de tais Monstros não sabia,
E logo perguntei sobressaltado
Quem era, que buscava, e que queria?
Ele virando o rosto remendado,
De cor da escura noute e claro dia,
Que eu era, respondeu, quem procurava,
E que Póstero, disse, se chamava.

(...)

XXII
Este pois lá num século futuro,
Posto que dela ausente e apartado,
Porque cos filhos sempre foi perjuro
O pátrio chão, e os trata sem agrado,
Por devoção intrínseca, e amor puro,
Talvez do Deus, que adoras, inspirado,
De ti e desses dous dessa pousada
Há de cantar com lira temperada.

XXIII
Aqui fez termo o velho, sufocando
A voz dentro do escuro e oculto peito,
Nunca do seu passeio descansando,
Nem quando me explicava o alto conceito:
Eu do letargo atônito despertando
Me alegrei de ver cousas deste jeito,
E vede que julgais, ó companheiros,
Que os sonhos são

às vezes verdadeiros.

(Apostila 7 de Barroco - Literatura Brasileira)

 

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ANTONIO VIEIRA

Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal Contra as De Holanda (trecho)

Tirais também o Brasil aos portugueses, que assim estas terras vastíssimas, como as remotíssimas do Oriente, as conquistaram à custa de tantas vidas e tanto sangue, mais por dilatar vosso nome e vossa fé — que esse era o zelo daqueles cristianíssimos reis — que por amplificar e estender seu império. Assim fostes servido que entrássemos nestes novos mundos tão honrada e tão gloriosamente, e assim permitis que saiamos agora — quem tal imaginara de vossa bondade — com tanta afronta e ignomínia. — Oh! como receio que não falte quem diga o que diziam os egípcios: Callide eduxit eos, ut interficeret et deleret e terra (18): Que a larga mão com que nos destes tantos domínios e remos não foram mercês de vossa liberalidade, senão cautela e dissimulação de vossa ira, para aqui fora, e longe de nossa pátria, nos matardes, nos destruirdes, nos acabardes de todo. Se esta havia de ser a paga e o fruto de nossos trabalhos, para que foi o trabalhar, para que foi o servir, para que foi o derramar tanto e tão ilustre sangue nestas conquistas? Para que abrimos os mares nunca dantes navegados? Para que descobrimos as regiões e os climas não conhecidos? Para que contrastamos os ventos e as tempestades com tanto arrojo, que apenas há baixio no oceano, que não esteja infamado com miserabilíssimos naufrágios de portugueses? E depois de tantos perigos, depois de tantas desgraças, depois de tantas e tão lastimosas mortes, ou nas praias desertas sem sepultura, ou sepultados nas entranhas dos alarves, das feras, dos peixes, que as terras que assim ganhamos, as hajamos de perder assim? Oh! quanto melhor nos fora nunca conseguir nem intentar tais empresas!

Mais santo que nós era Josué, menos apurada tinha a paciência, e contudo, em ocasião semelhante, não falou — falando convosco — por diferente linguagem. Depois de os filhos de Israel passarem às terras ultramarinas do Jordão, como nós a estas, avançou parte do exército a dar assalto à cidade de Hai, a qual nos ecos do nome já parece que trazia o prognóstico do infeliz sucesso que os israelitas nela tiveram, porque foram rotos e desbaratados, posto que com menos mortos e feridos do que nós por cá costumamos. E que faria Josué à vista desta desgraça? Rasga as vestiduras imperiais, lança-se por terra, começa a clamar ao céu: Heu, Domine Deus, quid voluisti traducere populum istum Jordanem fluvium, ut traderes nos in manus Amorrhaei (Jos. 7,7)? Deus meu e Senhor meu, que é isto? Para que nos mandastes passar o Jordão, e nos metestes de posse destas terras, se aqui nos havíeis de entregar nas mãos dos amorreus, e perder-nos? Utinam mansissemus trans Jordanem! Oh! nunca nós passáramos tal rio! — Assim se queixava Josué a Deus, e assim nos podemos nós queixar, e com muito maior razão que ele. Se este havia de ser o fim de nossas navegações, se estas fortunas nos esperavam nas terras conquistadas: Utinam mansissemus trans Jordanem! Prouvera a vossa divina Majestade, que nunca saíramos de Portugal, nem fiáramos nossas vidas às ondas e aos ventos, nem conhecêramos ou puséramos os pés em terras estranhas. Ganhá-las para as não lograr desgraça foi, e não ventura; possui-las para as perder, castigo foi de vossa ira, Senhor, e não mercê nem favor de vossa liberalidade. Se determináveis dar estas mesmas terras aos piratas de Holanda, por que lhas não destes enquanto eram agrestes e incultas, senão agora? Tantos serviços vos tem feito esta gente pervertida e apóstata, que nos mandastes primeiro cá por seus aposentadores, para lhes lavrarmos as terras, para lhes edificarmos as cidades, e, depois de cultivadas e enriquecidas, lhas entregardes? Assim se hão de lograr os hereges e inimigos da fé dos trabalhos portugueses e dos suores católicos? En queis consevimus agros (19): Eis aqui para quem trabalhamos há tantos anos! — Mas, pois vós, Senhor, o quereis e ordenais assim, fazei o que fordes servido. Entregai aos holandeses o Brasil, entregai-lhes as Índias, entregai-lhes as Espanhas — que não são menos perigosas as conseqüências do Brasil perdido — entregai-lhes quanto temos e possuímos como já lhes entregastes tanta parte — ponde em suas mãos o mundo, e a nós, aos portugueses e espanhóis, deixai-nos, repudiai-nos, desfazei-nos, acabai-nos. Mas só digo e lembro a Vossa Majestade, Senhor, que estes mesmos, que agora desfavoreceis e lançais de vós, pode ser que os queirais algum dia, e que os não tenha

SERMÃO DA SEXAGÉSIMA (trecho)

Já que falo contra os estilos modernos, quero alegar por mim o estilo do mais antigo pregador que houve no Mundo. E qual foi ele? -- O mais antigo pregador que houve no Mundo foi o céu. Coeli enarrant gloriam Dei et opera manuum ejus annuntiat Firmamentum -- diz David. Suposto que o céu é pregador, deve de ter sermões e deve de ter palavras. Sim, tem, diz o mesmo David; tem palavras e tem sermões; e mais, muito bem ouvidos. Non sunt loquellae, nec sermones, quorum non audiantur voces eorum. E quais são estes sermões e estas palavras do céu? -- As palavras são as estrelas, os sermões são a composição, a ordem, a harmonia e o curso delas. Vede como diz o estilo de pregar do céu, com o estilo que Cristo ensinou na terra. Um e outro é semear; a terra semeada de trigo, o céu semeado de estrelas. O pregar há-de ser como quem semeia, e não como quem ladrilha ou azuleja. Ordenado, mas como as estrelas: Stellae manentes in ordine suo. Todas as estrelas estão por sua ordem; mas é ordem que faz influência, não é ordem que faça lavor. Não fez Deus o céu em xadrez de estrelas, como os pregadores fazem o sermão em xadrez de palavras. Se de uma parte há-de estar branco, da outra há-de estar negro; se de uma parte dizem luz, da outra hão-de dizer sombra; se de uma parte dizem desceu, da outra hão-de dizer subiu. Basta que não havemos de ver num sermão duas palavras em paz? Todas hão-de estar sempre em fronteira com o seu contrário? Aprendamos do céu o estilo da disposição, e também o das palavras. As estrelas são muito distintas e muito claras. Assim há-de ser o estilo da pregação; muito distinto e muito claro. E nem por isso temais que pareça o estilo baixo; as estrelas são muito distintas e muito claras, e altíssimas. O estilo pode ser muito claro e muito alto; tão claro que o entendam os que não sabem e tão alto que tenham muito que entender os que sabem. O rústico acha documentos nas estrelas para sua lavoura e o mareante para sua navegação e o matemático para as suas observações e para os seus juízos. De maneira que o rústico e o mareante, que não sabem ler nem escrever entendem as estrelas; e o matemático, que tem lido quantos escreveram, não alcança a entender quanto nelas há. Tal pode ser o sermão: -- estrelas que todos vêem, e muito poucos as medem.

Sim, Padre; porém esse estilo de pregar não é pregar culto. Mas fosse! Este desventurado estilo que hoje se usa, os que o querem honrar chamam-lhe culto, os que o condenam chamam-lhe escuro, mas ainda lhe fazem muita honra. O estilo culto não é escuro, é negro, e negro boçal e muito cerrado. E possível que somos portugueses e havemos de ouvir um pregador em português e não havemos de entender o que diz?!

Enfim, que havemos de pregar hoje aos peixes? Nunca pior auditório. Ao menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam. Uma só cousa pudera desconsolar ao pregador, que é serem gente os peixes que se não há-de converter. Mas esta dor é tão ordinária, que já pelo costume quase se não sente. Por esta causa mão falarei hoje em Céu nem Inferno; e assim será menos triste este sermão, do que os meus parecem aos homens, pelos encaminhar sempre à lembrança destes dois fins.

SERMÃO DE SANTO ANTÔNIO AOS PEIXES - (trecho)

Vos estis sal terrae. Haveis de saber, irmãos peixes, que o sal, filho do mar como vós, tem duas propriedades, as quais em vós mesmos se experimentam: conservar o são e preservá-lo para que se não corrompa. Estas mesmas propriedades tinham as pregações do vosso pregador Santo António, como também as devem ter as de todos os pregadores. Uma é louvar o bem, outra repreender o mal: louvar o bem para o conservar e repreender o mal para preservar dele. Nem cuideis que isto pertence só aos homens, porque também nos peixes tem seu lugar. Assim o diz o grande Doutor da Igreja S. Basílio: Non carpere solum, reprehendereque possumus pisces, sed sunt in illis, et quae prosequenda sunt imitatione: «Não só há que notar, diz o Santo, e que repreender nos peixes, senão também que imitar e louvar.» Quando Cristo comparou a sua Igreja à rede de pescar, Sagenae missae in mare, diz que os pescadores «recolheram os peixes bons e lançaram fora os maus»: Elegerunt bonos in vasa, malos autem foras miserunt. E onde há bons e maus, há que louvar e que repreender. Suposto isto, para que procedamos com clareza, dividirei, peixes, o vosso sermão em dois pontos: no primeiro louvar-vos-ei as vossas virtudes, no segundo repreender-vos-ei os vossos vícios. E desta maneira satisfaremos às obrigações do sal, que melhor vos está ouvi-las vivos, que experimentá-las depois de mortos.

(...)

Antes, porém, que vos vades, assim como ouvistes os vossos louvores, ouvi também agora as vossas repreensões. Servir-vos-ão de confusão, já que não seja de emenda. A primeira cousa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande. Olhai como estranha isto Santo Agostinho: Homines pravis, praeversisque cupiditatibus facti sunt, sicut pisces invicem se devorantes: «Os homens com suas más e perversas cobiças, vêm a ser como os peixes, que se comem uns aos outros.» Tão alheia cousa é, não só da razão, mas da mesma natureza, que sendo todos criados no mesmo elemento, todos cidadãos da mesma pátria e todos finalmente irmãos, vivais de vos comer! Santo Agostinho, que pregava aos homens, para encarecer a fealdade deste escândalo, mostrou-lho nos peixes; e eu, que prego aos peixes, para que vejais quão feio e abominável é, quero que o vejais nos homens.

Olhai, peixes, lá do mar para a terra. Não, não: não é isso o que vos digo. Vós virais os olhos para os matos e para o sertão? Para cá, para cá; para a cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só os Tapuias se comem uns aos outros? Muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os Brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas; vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão-de comer e como se hão-de comer. Morreu algum deles, vereis logo tantos sobre o miserável a despedaçá-lo e comê-lo. Comem-no os herdeiros, comem-no os testamenteiros, comem-no os legatários, comem-no os acredores; comem-no os oficiais dos órfãos e os dos defuntos e ausentes; come-o o médico, que o curou ou ajudou a morrer; come-o o sangrador que lhe tirou o sangue; come-a a mesma mulher, que de má vontade lhe dá para a mortalha o lençol mais velho da casa; come-o o que lhe abre a cova, o que lhe tange os sinos, e os que, cantando, o levam a enterrar; enfim, ainda o pobre defunto o não comeu a terra, e já o tem comido toda a terra.

Já se os homens se comeram somente depois de mortos, parece que era menos horror e menos matéria de sentimento. Mas para que conheçais a que chega a vossa crueldade, considerai, peixes, que também os homens se comem vivos assim como vós. Vivo estava Job, quando dizia: Quare persequimini me, et carnibus meis saturamini? «Porque me perseguis tão desumanamente, vós, que me estais comendo vivo e fartando-vos da minha carne?» Quereis ver um Job destes?

Vede um homem desses que andam perseguidos de pleitos ou acusados de crimes, e olhai quantos o estão comendo. Come-o o meirinho, come-o o carcereiro, come-o o escrivão, come-o o solicitador, come-o o advogado, come-o o inquiridor, come-o a testemunha, come-o o julgador, e ainda não está sentenciado, já está comido. São piores os homens que os corvos. O triste que foi à forca, não o comem os corvos senão depois de executado e morto; e o que anda em juízo, ainda não está executado nem sentenciado, e já está comido.

SERMÃO DO BOM LADRÃO (trecho)

Suponho finalmente que os ladrões de que falo não são aqueles miseráveis, a quem a pobreza e vileza de sua fortuna condenou a este gênero de vida, porque a mesma sua miséria, ou escusa, ou alivia o seu pecado, como diz Salomão: Non grandis est culpa, cum quis furatus fuerit: furatur enim ut esurientem impleat animam. (10).O ladrão que furta para comer, não vai, nem leva ao inferno; os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são outros ladrões, de maior calibre e de mais alta esfera, os quais debaixo do mesmo nome e do mesmo predicamento, distingue muito bem S. Basílio Magno: Non est intelligendum fures esse solum bursarum incisores, vel latrocinantes in balneis; sed et qui duces legionum statuti, vel qui commisso sibi regimine civitatum, aut gentium, hoc quidem furtim tollunt, hoc vero vi et publice exigunt: Não são só ladrões, diz o santo, os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa: os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. — Os outros ladrões roubam um homem: estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco: estes sem temor, nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam. Diógenes, que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a bradar: — Lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos. — Ditosa Grécia, que tinha tal pregador! E mais ditosas as outras nações, se nelas não padecera a justiça as mesmas afrontas! Quantas vezes se viu Roma ir a enforcar um ladrão, por ter furtado um carneiro, e no mesmo dia ser levado em triunfo um cônsul, ou ditador, por ter roubado uma província. E quantos ladrões teriam enforcado estes mesmos ladrões triunfantes? De um, chamado Seronato, disse com discreta contraposição Sidônio Apolinar: Nou cessat simul furta, vel punire, vel facere: Seronato está sempre ocupado em duas coisas: em castigar furtos, e em os fazer. — Isto não era zelo de justiça, senão inveja. Queria tirar os ladrões do mundo, para roubar ele só.

(Apostila 9 de Barroco - Literatura Brasileira)

 

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PADRE ANTONIO VIEIRA - Sermão da Sexagésima (integral)

Semen est verbum Dei. S. Lucas, VIII, 11.

I

E se quisesse Deus que este tão ilustre e tão numeroso auditório saísse hoje tão desenganado da pregação, como vem enganado com o pregador! Ouçamos o Evangelho, e ouçamo-lo todo, que todo é do caso que me levou e trouxe de tão longe.

Ecce exiit qui seminat, seminare. Diz Cristo que «saiu o pregador evangélico a semear» a palavra divina. Bem parece este texto dos livros de Deus. Não só faz menção do semear, mas também faz caso do sair: Exiit, porque no dia da messe hão-nos de medir a semeadura e hão-nos de contar os passos. O Mundo, aos que lavrais com ele, nem vos satisfaz o que dispendeis, nem vos paga o que andais. Deus não é assim. Para quem lavra com Deus até o sair é semear, porque também das passadas colhe fruto. Entre os semeadores do Evangelho há uns que saem a semear, há outros que semeiam sem sair. Os que saem a semear são os que vão pregar à Índia, à China, ao Japão; os que semeiam sem sair, são os que se contentam com pregar na Pátria. Todos terão sua razão, mas tudo tem sua conta. Aos que têm a seara em casa, pagar-lhes-ão a semeadura; aos que vão buscar a seara tão longe, hão-lhes de medir a semeadura e hão-lhes de contar os passos. Ah Dia do Juízo! Ah pregadores! Os de cá, achar-vos-eis com mais paço; os de lá, com mais passos: Exiit seminare.

Mas daqui mesmo vejo que notais (e me notais) que diz Cristo que o semeador do Evangelho saiu, porém não diz que tornou porque os pregadores evangélicos, os homens que professam pregar e propagar a Fé, é bem que saiam, mas não é bem que tornem. Aqueles animais de Ezequiel que tiravam pelo carro triunfal da glória de Deus e significavam os pregadores do Evangelho que propriedades tinham? Nec revertebantur, cum ambularent: «Uma vez que iam, não tornavam». As rédeas por que se governavam era o ímpeto do espírito, como diz o mesmo texto: mas esse espírito tinha impulsos para os levar, não tinha regresso para os trazer; porque sair para tornar melhor é não sair. Assim argúis com muita razão, e eu também assim o digo. Mas pergunto: E se esse semeador evangélico, quando saiu, achasse o campo tomado; se se armassem contra ele os espinhos; se se levantassem contra ele as pedras, e se lhe fechassem os caminhos que havia de fazer? Todos estes contrários que digo e todas estas contradições experimentou o semeador do nosso Evangelho. Começou ele a semear (diz Cristo), mas com pouca ventura. «Uma parte do trigo caiu entre espinhos, e afogaram-no os espinhos»: Aliud cecidit inter spinas et simul exortae spinae suffocaverunt illud. Outra parte caiu sobre pedras, e secou-se nas pedras por falta de humidade»: Aliud cecidit super petram, et natum aruit, quia non habebat humorem. «Outra parte caiu no caminho, e pisaram-no os homens e comeram-no as aves»: Aliud cecidit secus viam, et conculcatum est, et volucres coeli comederunt illud. Ora vede como todas as criaturas do Mundo se armaram contra esta sementeira. Todas as criaturas quantas há no Mundo se reduzem a quatro gêneros: criaturas racionais, como os homens; criaturas sensitivas, como os animais; criaturas vegetativas, como as plantas; criaturas insensíveis, como as pedras; e não há mais. Faltou alguma destas que se não armasse contra o semeador? Nenhuma. A natureza insensível o perseguiu nas pedras, a vegetativa nos espinhos, a sensitiva nas aves, a racional nos homens. E notai a desgraça do trigo, que onde só podia esperar razão, ali achou maior agravo. As pedras secaram-no, os espinhos afogaram-no, as aves comeram-no; e os homens? Pisaram-no: Conculcatum est. Ab hominibus (diz a Glossa).

Quando Cristo mandou pregar os Apóstolos pelo Mundo, disse-lhes desta maneira: Euntes in mundum universum, praedicate omni creaturae: «Ide, e pregai a toda a criatura». Como assim, Senhor?! Os animais não são criaturas?! As árvores não são criaturas?! As pedras não são criaturas?! Pois hão os Apóstolos de pregar às pedras?! Hão-de pregar aos troncos?! Hão-de pregar aos animais?! Sim, diz S. Gregório, depois de Santo Agostinho. Porque como os Apóstolos iam pregar a todas as nações do Mundo, muitas delas bárbaras e incultas, haviam de achar os homens degenerados em todas as espécies de criaturas: haviam de achar homens homens, haviam de achar homens brutos, haviam de achar homens troncos, haviam de achar homens pedras. E quando os pregadores evangélicos vão pregar a toda a criatura, que se armem contra eles todas as criaturas?! Grande desgraça!

Mas ainda a do semeador do nosso Evangelho não foi a maior. A maior é a que se tem experimentado na seara aonde eu fui, e para onde venho. Tudo o que aqui padeceu o trigo, padeceram lá os semeadores. Se bem advertirdes, houve aqui trigo mirrado, trigo afogado, trigo comido e trigo pisado. Trigo mirrado: Natum aruit, quia non habebat humorem; trigo afogado: Exortae spinae suffocaverunt illud; trigo comido: Volucres caeli comederunt illud; trigo pisado: Conculcutum est. Tudo isto padeceram os semeadores evangélicos da missão do Maranhão de doze anos a esta parte. Houve missionários afogados, porque uns se afogaram na boca do grande rio das Amazonas; houve missionários comidos, porque a outros comeram os bárbaros na ilha dos Aroãs; houve missionários mirrados, porque tais tornaram os da jornada dos Tocatins, mirrados da fome e da doença, onde tal houve, que andando vinte e dois dias perdido nas brenhas matou somente a sede com o orvalho que lambia das folhas. Vede se lhe quadra bem o Notum aruit, quia non habebant humorem! E que sobre mirrados, sobre afogados, sobre comidos, ainda se vejam pisados e perseguidos dos homens: Conculcatum est! Não me queixo nem o digo, Senhor, pelos semeadores; só pela seara o digo, só pela seara o sinto. Para os semeadores, isto são glórias: mirrados sim, mas por amor de vós mirrados; afogados sim, mas por amor de vós afogados; comidos sim, mas por amor de vós comidos; pisados e perseguidos sim, mas por amor de vós perseguidos e pisados.

Agora torna a minha pergunta: E que faria neste caso, ou que devia fazer o semeador evangélico, vendo tão mal logrados seus primeiros trabalhos? Deixaria a lavoura? Desistiria da sementeira? Ficar-se-ia ocioso no campo, só porque tinha lá ido? Parece que não. Mas se tornasse muito depressa a buscar alguns instrumentos com que alimpar a terra das pedras e dos espinhos, seria isto desistir? Seria isto tornar atrás?-- Não por certo. No mesmo texto de Ezequiel com que arguistes, temos a prova. Já vimos como dizia o texto, que aqueles animais da carroça de Deus, «quando iam não tornavam»: Nec revertebantur, cum ambularent. Lede agora dois versos mais abaixo, e vereis que diz o mesmo texto que «aqueles animais tornavam, e semelhança de um raio ou corisco»: Ibant et revertebantur in similitudinem fulgoris coruscantis. Pois se os animais iam e tornavam à semelhança de um raio, como diz o texto que quando iam não tornavam? Porque quem vai e volta como um raio, não torna. Ir e voltar como raio, não é tornar, é ir por diante. Assim o fez o semeador do nosso Evangelho. Não o desanimou nem a primeira nem a segunda nem a terceira perda; continuou por diante no semear, e foi com tanta felicidade, que nesta quarta e última parte do trigo se restauraram com vantagem as perdas do demais: nasceu, cresceu, espigou, amadureceu, colheu-se, mediu-se, achou-se que por um grão multiplicara cento: Et fecit fructum centuplum.

Oh que grandes esperanças me dá esta sementeira! Oh que grande exemplo me dá este semeador! Dá-me grandes esperanças a sementeira porque, ainda que se perderam os primeiros trabalhos, lograr-se-ão os últimos. Dá-me grande exemplo o semeador, porque, depois de perder a primeira, a segunda e a terceira parte do trigo, aproveitou a quarta e última, e colheu dela muito fruto. Já que se perderam as três partes da vida, já que uma parte da idade a levaram os espinhos, já que outra parte a levaram es pedras, já que outra parte a levaram os caminhos, e tantos caminhos, esta quarta e última parte, este último quartel da vida, porque se perderá também? Porque não dará fruto? Porque não terão também os anos o que tem o ano? O ano tem tempo para as flores e tempo para os frutos. Porque não terá também o seu Outono a vida? As flores, umas caem, outras secam, outras murcham, outras leva o vento; aquelas poucas que se pegam ao tronco e se convertem em fruto, só essas são as venturosas, só essas são as que aproveitam, só essas são as que sustentam o Mundo. Será bem que o Mundo morra à fome? Será bem que os últimos dias se passem em flores? -- Não será bem, nem Deus quer que seja, nem há-de ser. Eis aqui porque eu dizia ao princípio, que vindes enganados com o pregador. Mas para que possais ir desenganados com o sermão, tratarei nele uma matéria de grande peso e importância. Servirá como de prólogo aos sermões que vos hei-de pregar, e aos mais que ouvirdes esta Quaresma.

II

Semen est verbum Dei.

O trigo que semeou o pregador evangélico, diz Cristo que é a palavra de Deus. Os espinhos, as pedras, o caminho e a terra boa em que o trigo caiu, são os diversos corações dos homens. Os espinhos são os corações embaraçados com cuidados, com riquezas, com delícias; e nestes afoga-se a palavra de Deus. As pedras são os corações duros e obstinados; e nestes seca-se a palavra de Deus, e se nasce, não cria raízes. Os caminhos são os corações inquietos e perturbados com a passagem e tropel das coisas do Mundo, umas que vão, outras que vêm, outras que atravessam, e todas passam; e nestes é pisada a palavra de Deus, porque a desatendem ou a desprezam. Finalmente, a terra boa são os corações bons ou os homens de bom coração; e nestes prende e frutifica a palavra divina, com tanta fecundidade e abundância, que se colhe cento por um: Et fructum fecit centuplum.

Este grande frutificar da palavra de Deus é o em que reparo hoje; e é uma dúvida ou admiração que me traz suspenso e confuso, depois que subo ao púlpito. Se a palavra de Deus é tão eficaz e tão poderosa, como vemos tão pouco fruto da palavra de Deus? Diz Cristo que a palavra de Deus frutifica cento por um, e já eu me contentara com que frutificasse um por cento. Se com cada cem sermões se convertera e emendara um homem, já o Mundo fora santo. Este argumento de fé, fundado na autoridade de Cristo, se aperta ainda mais na experiência, comparando os tempos passados com os presentes. Lede as histórias eclesiásticas, e achá-las-eis todas cheias de admiráveis efeitos da pregação da palavra de Deus. Tantos pecadores convertidos, tanta mudança de vida, tanta reformação de costumes; os grandes desprezando as riquezas e vaidades do Mundo; os reis renunciando os ceptros e as coroas; as mocidades e as gentilezas metendo-se pelos desertos e pelas covas; e hoje? -- Nada disto. Nunca na Igreja de Deus houve tantas pregações, nem tantos pregadores como hoje. Pois se tanto se semeia a palavra de Deus, como é tão pouco o fruto? Não há um homem que em um sermão entre em si e se resolva, não há um moço que se arrependa, não há um velho que se desengane. Que é isto? Assim como Deus não é hoje menos omnipotente, assim a sua palavra não é hoje menos poderosa do que dantes era. Pois se a palavra de Deus é tão poderosa; se a palavra de Deus tem hoje tantos pregadores, porque não vemos hoje nenhum fruto da palavra de Deus? Esta, tão grande e tão importante dúvida, será a matéria do sermão. Quero começar pregando-me a mim. A mim será, e também a vós; a mim, para aprender a pregar; a vós, que aprendais a ouvir.

III

Fazer pouco fruto a palavra de Deus no Mundo, pode proceder de um de três princípios: ou da parte do pregador, ou da parte do ouvinte, ou da parte de Deus. Para uma alma se converter por meio de um sermão, há-de haver três concursos: há-de concorrer o pregador com a doutrina, persuadindo; há-de concorrer o ouvinte com o entendimento, percebendo; há-de concorrer Deus com a graça, alumiando. Para um homem se ver a si mesmo, são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos. Que coisa é a conversão de uma alma, senão entrar um homem dentro em si e ver-se a si mesmo? Para esta vista são necessários olhos, é necessária luz e é necessário espelho. O pregador concorre com o espelho, que é a doutrina; Deus concorre com a luz, que é a graça; o homem concorre com os olhos, que é o conhecimento. Ora suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende destes três concursos: de Deus, do pregador e do ouvinte, por qual deles devemos entender que falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou por parte de Deus?

Primeiramente, por parte de Deus, não falta nem pode faltar. Esta proposição é de fé, definida no Concílio Tridentino, e no nosso Evangelho a temos. Do trigo que deitou à terra o semeador, uma parte se logrou e três se perderam. E porque se perderam estas três? -- A primeira perdeu-se, porque a afogaram os espinhos; a segunda, porque a secaram as pedras; a terceira, porque a pisaram os homens e a comeram as aves. Isto é o que diz Cristo; mas notai o que não diz. Não diz que parte alguma daquele trigo se perdesse por causa do sol ou da chuva. A causa por que ordinariamente se perdem as sementeiras, é pela desigualdade e pela intemperança dos tempos, ou porque falta ou sobeja a chuva, ou porque falta ou sobeja o sol. Pois porque não introduz Cristo na parábola do Evangelho algum trigo que se perdesse por causa do sol ou da chuva? -- Porque o sol e a chuva são as afluências da parte do Céu, e deixar de frutificar a semente da palavra de Deus, nunca é por falta: do Céu, sempre é por culpa nossa. Deixará de frutificar a sementeira, ou pelo embaraço dos espinhos, ou pela dureza das pedras, ou pelos descaminhos dos caminhos; mas por falta das influências do Céu, isso nunca é nem pode ser. Sempre Deus está pronto da sua parte, com o sol para aquentar e com a chuva para regar; com o sol para alumiar e com a chuva para amolecer, se os nossos corações quiserem: Qui solem suum oriri facit super bonos et malos, et pluit super justos et injustos. Se Deus dá o seu sol e a sua chuva aos bons e aos maus; aos maus que se quiserem fazer bons, como a negará? Este ponto é tão claro que não há para que nos determos em mais prova. Quid debui facere vineae meae, et non feci? -- disse o mesmo Deus por Isaías.

Sendo, pois, certo que a palavra divina não deixa de frutificar por parte de Deus, segue-se que ou é por falta do pregador ou por falta dos ouvintes. Por qual será? Os pregadores deitam a culpa aos ouvintes, mas não é assim. Se fora por parte dos ouvintes, não fizera a palavra de Deus muito grande fruto, mas não fazer nenhum fruto e nenhum efeito, não é por parte dos ouvintes. Provo.

Os ouvintes ou são maus ou são bons; se são bons, faz neles fruto a palavra de Deus; se são maus, ainda que não faça neles fruto, faz efeito. No Evangelho o temos. O trigo que caiu nos espinhos, nasceu, mas afogaram-no: Simul exortae spinae suffocaverunt illud. O trigo que caiu nas pedras, nasceu também, mas secou-se: Et natum aruit. O trigo que caiu na terra boa, nasceu e frutificou com grande multiplicação: Et natum fecit fructum centuplum. De maneira que o trigo que caiu na boa terra, nasceu e frutificou; o trigo que caiu na má terra, não frutificou, mas nasceu; porque a palavra de Deus é tão funda, que nos bons faz muito fruto e é tão eficaz que nos maus ainda que não faça fruto, faz efeito; lançada nos espinhos, não frutificou, mas nasceu até nos espinhos; lançada nas pedras, não frutificou, mas nasceu até nas pedras. Os piores ouvintes que há na Igreja de Deus, são as pedras e os espinhos. E porquê? -- Os espinhos por agudos, as pedras por duras. Ouvintes de entendimentos agudos e ouvintes de vontades endurecidas são os piores que há. Os ouvintes de entendimentos agudos são maus ouvintes, porque vêm só a ouvir sutilezas, a esperar galantarias, a avaliar pensamentos, e às vezes também a picar a quem os não pica. Aliud cecidit inter spinas: O trigo não picou os espinhos, antes os espinhos o picaram a ele; e o mesmo sucede cá. Cuidais que o sermão vos picou e vós, e não é assim; vós sois os que picais o sermão. Por isto são maus ouvintes os de entendimentos agudos. Mas os de vontades endurecidas ainda são piores, porque um entendimento agudo pode ferir pelos mesmos fios, e vencer-se uma agudeza com outra maior; mas contra vontades endurecidas nenhuma coisa aproveita a agudeza, antes dana mais, porque quanto as setas são mais agudas, tanto mais facilmente se despontam na pedra. Oh! Deus nos livre de vontades endurecidas, que ainda são piores que as pedras! A vara de Moisés abrandou as pedras, e não pôde abrandar uma vontade endurecida: Percutiens virga bis silicem, et egressae sunt aquae largissimae. Induratum est cor Pharaonis. E com os ouvintes de entendimentos agudos e os ouvintes de vontades endurecidas serem os mais rebeldes, é tanta a força da divina palavra, que, apesar da agudeza, nasce nos espinhos, e apesar da dureza nasce nas pedras.

Pudéramos argüir ao lavrador do Evangelho de não cortar os espinhos e de não arrancar as pedras antes de semear, mas de indústria deixou no campo as pedras e os espinhos, para que se visse a força do que semeava. É tanta a força da divina palavra, que, sem cortar nem despontar espinhos, nasce entre espinhos. É tanta a força da divina palavra, que, sem arrancar nem abrandar pedras, nasce nas pedras. Corações embaraçados como espinhos corações secos e duros como pedras, ouvi a palavra de Deus e tende confiança! Tomai exemplo nessas mesmas pedras e nesses espinhos! Esses espinhos e essas pedras agora resistem ao semeador do Céu; mas virá tempo em que essas mesmas pedras o aclamem e esses mesmos espinhos o coroem.

Quando o semeador do Céu deixou o campo, saindo deste Mundo, as pedras se quebraram para lhe fazerem aclamações, e os espinhos se teceram para lhe fazerem coroa. E se a palavra de Deus até dos espinhos e das pedras triunfa; se a palavra de Deus até nas pedras, até nos espinhos nasce; não triunfar dos alvedrios hoje a palavra de Deus, nem nascer nos corações, não é por culpa, nem por indisposição dos ouvintes.

Supostas estas duas demonstrações; suposto que o fruto e efeitos da palavra de Deus, não fica, nem por parte de Deus, nem por parte dos ouvintes, segue-se por consequência clara, que fica por parte do pregador. E assim é. Sabeis, cristãos, porque não faz fruto a palavra de Deus? Por culpa dos pregadores. Sabeis, pregadores, porque não faz fruto a palavra de Deus? -- Por culpa nossa.

IV

Mas como em um pregador há tantas qualidades, e em uma pregação tantas leis, e os pregadores podem ser culpados em todas, em qual consistirá esta culpa? -- No pregador podem-se considerar cinco circunstâncias: a pessoa, a ciência, a matéria, o estilo, a voz. A pessoa que é, e ciência que tem, a matéria que trata, o estilo que segue, a voz com que fala. Todas estas circunstâncias temos no Evangelho. Vamo-las examinando uma por uma e buscando esta causa.

Será porventura o não fazer fruto hoje a palavra de Deus, pela circunstância da pessoa? Será porque antigamente os pregadores eram santos eram varões apostólicos e exemplares, e hoje os pregadores são eu e outros como eu? -- Boa razão é esta. A definição do pregador é a vida e o exemplo. Por isso Cristo no Evangelho não o comparou ao semeador, senão ao que semeia. Reparai. Não diz Cristo: saiu a semear o semeador, senão, saiu a semear o que semeia: Ecce exiit, qui seminat, seminare. Entre o semeador e o que semeia há muita diferença. Uma coisa é o soldado e outra coisa o que peleja; uma coisa é o governador e outra o que governa. Da mesma maneira, uma coisa é o semeador e outra o que semeia; uma coisa é o pregador e outra o que prega. O semeador e o pregador é nome; o que semeia e o que prega é ação; e as ações são as que dão o ser ao pregador. Ter o nome de pregador, ou ser pregador de nome, não importa nada; as ações, a vida, o exemplo, as obras, são as que convertem o Mundo. O melhor conceito que o pregador leva ao púlpito, qual cuidais que é? -- o conceito que de sua vida têm os ouvintes.

Antigamente convertia-se o Mundo, hoje porque se não converte ninguém? Porque hoje pregam-se palavras e pensamentos, antigamente pregavam-se palavras e obras. Palavras sem obra são tiros sem bala; atroam, mas não ferem. A funda de David derrubou o gigante, mas não o derrubou com o estalo, senão com a pedra: Infixus est lapis in fronte ejus. As vozes da harpa de David lançavam fora os demônios do corpo de Saul, mas não eram vozes pronunciadas com a boca, eram vozes formadas com a mão: David tollebat citharam, et percutiebat manu sua. Por isso Cristo comparou o pregador ao semeador. O pregar que é falar faz-se com a boca; o pregar que é semear, faz-se com a mão. Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração, são necessárias obras. Diz o Evangelho que a palavra de Deus frutificou cento por um. Que quer isto dizer? Quer dizer que de uma palavra nasceram cem palavras? -- Não. Quer dizer que de poucas palavras nasceram muitas obras. Pois palavras que frutificam obras, vede se podem ser só palavras! Quis Deus converter o Mundo, e que fez? -- Mandou ao Mundo seu Filho feito homem. Notai. O Filho de Deus, enquanto Deus, é palavra de Deus, não é obra de Deus: Genitum non factum. O Filho de Deus, enquanto Deus e Homem, é palavra de Deus e obra de Deus juntamente: Verbum caro factum est. De maneira que até de sua palavra desacompanhada de obras não fiou Deus a conversão dos homens. Na união da palavra de Deus com a maior obra de Deus consistiu a eficácia da salvação do Mundo. Verbo Divino é palavra divina; mas importa pouco que as nossas palavras sejam divinas, se forem desacompanhadas de obras. A razão disto é porque as palavras ouvem-se, as obras vêem-se; as palavras entram pelos ouvidos, as obras entram pelos olhos, e a nossa alma rende-se muito mais pelos olhos que pelos ouvidos. No Céu ninguém há que não ame a Deus, nem possa deixar de o amar. Na terra há tão poucos que o amem, todos o ofendem. Deus não é o mesmo, e tão digno de ser amado no Céu e na Terra? Pois como no Céu obriga e necessita a todos a o amarem, e na terra não? A razão é porque Deus no Céu é Deus visto; Deus na terra é Deus ouvido. No Céu entra o conhecimento de Deus à alma pelos olhos: Videbimus eum sicut est; na terra entra-lhe o conhecimento de Deus pelos ouvidos: Fides ex auditu; e o que entra pelos ouvidos crê-se, o que entra pelos olhos necessita. Viram os ouvintes em nós o que nos ouvem a nós, e o abalo e os efeitos do sermão seriam muito outros.

Vai um pregador pregando a Paixão, chega ao pretório de Pilatos, conta como a Cristo o fizeram rei de zombaria, diz que tomaram uma púrpura e lha puseram aos ombros; ouve aquilo o auditório muito atento. Diz que teceram uma coroa de espinhos e que lha pregaram na cabeça; ouvem todos com a mesma atenção. Diz mais que lhe ataram as mãos e lhe meteram nelas uma cana por ceptro; continua o mesmo silêncio e a mesma suspensão nos ouvintes. Corre-se neste espaço uma cortina aparece a imagem do Ecce Homo; eis todos prostrados por terra, eis todos a bater no peito eis as lágrimas, eis os gritos, eis os alaridos, eis as bofetadas. Que é isto? Que apareceu de novo nesta igreja? Tudo o que descobriu aquela cortina, tinha já dito o pregador. Já tinha dito daquela púrpura, já tinha dito daquela coma e daqueles espinhos, já tinha dito daquele ceptro e daquela cana. Pois se isto então não fez abalo nenhum, como faz agora tanto? -- Porque então era Ecce Homo ouvido, e agora é Ecce Homo visto; a relação do pregador entrava pelos ouvidos a representação daquela figura entra pelos olhos. Sabem, Padres pregadores, porque fazem pouco abalo os nossos sermões? -- Porque não pregamos aos olhos, pregamos só aos ouvidos. Porque convertia o Baptista tantos pecadores? -- Porque assim como as suas palavras pregavam aos ouvidos, o seu exemplo pregava aos olhos. As palavras do Baptista pregavam penitência: Agite poenitentiam. «Homens, fazei penitência» -- e o exemplo clamava: Ecce Homo: «eis aqui está o homem» que é o retrato da penitência e da aspereza. As palavras do Baptista pregavam jejum e repreendiam os regalos e demasias da gula; e o exemplo clamava: Ecce Homo: eis aqui está o homem que se sustenta de gafanhotos e mel silvestre. As palavras do Baptista pregavam composição e modéstia, e condenavam a soberba e a vaidade das galas; e o exemplo clamava: Ecce Homo: eis aqui está o homem vestido de peles de camelo, com as cordas e cilício à raiz da carne. As palavras do Baptista pregavam despegos e retiros do Mundo, e fugir das ocasiões e dos homens; e o exemplo Clamava: Ecce Homo: eis aqui o homem que deixou as cortes e as sociedades, e vive num deserto e numa cova. Se os ouvintes ouvem uma coisa e vêem outra, como se hão-de converter? Jacob punha as varas manchadas diante das ovelhas quando concebiam, e daqui procedia que os cordeiros nasciam malhados. Se quando os ouvintes percebem os nossos conceitos, têm diante dos olhos as nossas manchas, como hão-de conceber virtudes? Se a minha vida é apologia contra a minha doutrina, se as minhas palavras vão já refutadas nas minhas obras, se uma cousa é o semeador e outra o que semeia, como se há-de fazer fruto?

Muito boa e muito forte razão era esta de não fazer fruto a palavra de Deus; mas tem contra si o exemplo e experiência de Jonas. Jonas fugitivo de Deus, desobediente, contumaz, e, ainda depois de engolido e vomitado iracundo, impaciente, pouco caritativo, pouco misericordioso, e mais zeloso e amigo da própria estimação que da honra de Deus e salvação das almas, desejoso de ver subvertida a Nínive e de a ver subverter com seus olhos, havendo nela tantos mil inocentes; contudo este mesmo homem com um sermão converteu o maior rei, a maior corte e o maior reinado do Mundo, e não de homens fiéis senão de gentios idólatras. Outra é logo a causa que buscamos. Qual será?

V

Será porventura o estilo que hoje se usa nos púlpitos? Um estilo tão empeçado, um estilo tão dificultoso, um estilo tão afectado, um estilo tão encontrado a toda a arte e a toda a natureza? Boa razão é também esta. O estilo há-de ser muito fácil e muito natural. Por isso Cristo comparou o pregar ao semear: Exiit, qui seminat, seminare. Compara Cristo o pregar ao semear, porque o semear é uma arte que tem mais de natureza que de arte. Nas outras artes tudo é arte: na música tudo se faz por compasso, na arquitectura tudo se faz por regra, na aritmética tudo se faz por conta, na geometria tudo se faz por medida. O semear não é assim. É uma arte sem arte caia onde cair. Vede como semeava o nosso lavrador do Evangelho. «Caía o trigo nos espinhos e nascia» Aliud cecidit inter spinas, et simul exortae spinae «Caía o trigo nas pedras e nascia»: Aliud cecidit super petram, et ortum. «Caía o trigo na terra boa e nascia»: Aliud cecidit in terram bonam, et natum. Ia o trigo caindo e ia nascendo.

Assim há-de ser o pregar. Hão-de cair as coisas hão-de nascer; tão naturais que vão caindo, tão próprias que venham nascendo. Que diferente é o estilo violento e tirânico que hoje se usa! Ver vir os tristes passos da Escritura, como quem vem ao martírio; uns vêm acarretados, outros vêm arrastados, outros vêm estirados, outros vêm torcidos, outros vêm despedaçados; só atados não vêm! Há tal tirania? Então no meio disto, que bem levantado está aquilo! Não está a coisa no levantar, está no cair: Cecidit. Notai uma alegoria própria da nossa língua. O trigo do semeador, ainda que caiu quatro vezes, só de três nasceu; para o sermão vir nascendo, há-de ter três modos de cair: há-de cair com queda, há-de cair com cadência há-de cair com caso. A queda é para as coisas, a cadência para as palavras, o caso para a disposição. A queda é para as coisas porque hão-de vir bem trazidas e em seu lugar; hão-de ter queda. A cadência é para as palavras, porque não hão-de ser escabrosas nem dissonantes; hão-de ter cadência. O caso é para a disposição, porque há-de ser tão natural e tão desafectada que pareça caso e não estudo: Cecidit, cecidit, cecidit.

Já que falo contra os estilos modernos, quero alegar por mim o estilo do mais antigo pregador que houve no Mundo. E qual foi ele? -- O mais antigo pregador que houve no Mundo foi o céu. Coeli enarrant gloriam Dei et opera manuum ejus annuntiat Firmamentum -- diz David. Suposto que o céu é pregador, deve de ter sermões e deve de ter palavras. Sim, tem, diz o mesmo David; tem palavras e tem sermões; e mais, muito bem ouvidos. Non sunt loquellae, nec sermones, quorum non audiantur voces eorum. E quais são estes sermões e estas palavras do céu? -- As palavras são as estrelas, os sermões são a composição, a ordem, a harmonia e o curso delas. Vede como diz o estilo de pregar do céu, com o estilo que Cristo ensinou na terra. Um e outro é semear; a terra semeada de trigo, o céu semeado de estrelas. O pregar há-de ser como quem semeia, e não como quem ladrilha ou azuleja. Ordenado, mas como as estrelas: Stellae manentes in ordine suo. Todas as estrelas estão por sua ordem; mas é ordem que faz influência, não é ordem que faça lavor. Não fez Deus o céu em xadrez de estrelas, como os pregadores fazem o sermão em xadrez de palavras. Se de uma parte há-de estar branco, da outra há-de estar negro; se de uma parte dizem luz, da outra hão-de dizer sombra; se de uma parte dizem desceu, da outra hão-de dizer subiu. Basta que não havemos de ver num sermão duas palavras em paz? Todas hão-de estar sempre em fronteira com o seu contrário? Aprendamos do céu o estilo da disposição, e também o das palavras. As estrelas são muito distintas e muito claras. Assim há-de ser o estilo da pregação; muito distinto e muito claro. E nem por isso temais que pareça o estilo baixo; as estrelas são muito distintas e muito claras, e altíssimas. O estilo pode ser muito claro e muito alto; tão claro que o entendam os que não sabem e tão alto que tenham muito que entender os que sabem. O rústico acha documentos nas estrelas para sua lavoura e o mareante para sua navegação e o matemático para as suas observações e para os seus juízos. De maneira que o rústico e o mareante, que não sabem ler nem escrever entendem as estrelas; e o matemático, que tem lido quantos escreveram, não alcança a entender quanto nelas há. Tal pode ser o sermão: -- estrelas que todos vêem, e muito poucos as medem.

Sim, Padre; porém esse estilo de pregar não é pregar culto. Mas fosse! Este desventurado estilo que hoje se usa, os que o querem honrar chamam-lhe culto, os que o condenam chamam-lhe escuro, mas ainda lhe fazem muita honra. O estilo culto não é escuro, é negro, e negro boçal e muito cerrado. E possível que somos portugueses e havemos de ouvir um pregador em português e não havemos de entender o que diz?! Assim como há Lexicon para o grego e Calepino para o latim, assim é necessário haver um vocabulário do púlpito. Eu ao menos o tomara para os nomes próprios, porque os cultos têm desbaptizados os santos, e cada autor que alegam é um enigma. Assim o disse o Ceptro Penitente, assim o disse o Evangelista Apeles, assim o disse a Águia de África, o Favo de Claraval, a Púrpura de Belém, a Boca de Ouro. Há tal modo de alegar! O Ceptro Penitente dizem que é David, como se todos os ceptros não foram penitência; o Evangelista Apeles, que é S. Lucas; o Favo de Claraval, S. Bernardo; a Águia de África, Santo Agostinho; a Púrpura de Belém, S. Jerónimo; a Boca de Ouro, S. Crisóstomo. E quem quitaria ao outro cuidar que a Púrpura de Belém é Herodes que a Águia de África é Cipião, e que a Boca de Ouro é Midas? Se houvesse um advogado que alegasse assim a Bártolo e Baldo, havíeis de fiar dele o vosso pleito? Se houvesse um homem que assim falasse na conversação, não o havíeis de ter por néscio? Pois o que na conversação seria necessidade, como há-de ser discrição no púlpito?

Boa me parecia também esta razão; mas como os cultos pelo pulido e estudado se defendem com o grande Nazianzeno, com Ambrósio, com Crisólogo, com Leão, e pelo escuro e duro com Clemente Alexandrino, com Tertuliano, com Basílio de Selêucia, com Zeno Veronense e outros, não podemos negar a reverência a tamanhos autores posto que desejáramos nos que se prezam de beber destes rios, a sua profundidade. Qual será logo a causa de nossa queixa?

VI

Será pela matéria ou matérias que tomam os pregadores? Usa-se hoje o modo que chamam de apostilar o Evangelho, em que tomam muitas matérias, levantam muitos assuntos e quem levanta muita caça e não segue nenhuma não é muito que se recolha com as mãos vazias. Boa razão é também esta. O sermão há-de ter um só assunto e uma só matéria. Por isso Cristo disse que o lavrador do Evangelho não semeara muitos géneros de sementes, senão uma só: Exiit, qui seminat, seminare semen. Semeou uma semente só, e não muitas, porque o sermão há-de ter uma só matéria, e não muitas matérias. Se o lavrador semeara primeiro trigo, e sobre o trigo semeara centeio, e sobre o centeio semeara milho grosso e miúdo, e sobre o milho semeara cevada, que havia de nascer? Uma mata brava, uma confusão verde. Eis aqui o que acontece aos sermões deste género. Como semeiam tanta variedade, não podem colher coisa certa. Quem semeia misturas, mal pode colher trigo. Se uma nau fizesse um bordo para o norte, outro para o sul, outro para leste, outro para oeste, como poderia fazer viagem? Por isso nos púlpitos se trabalha tanto e se navega tão pouco. Um assunto vai para um vento, outro assunto vai para outro vento; que se há-de colher senão vento? O Baptista convertia muitos em Judeia; mas quantas matérias tomava? Uma só matéria: Parate viam Domini: a preparação para o Reino de Cristo. Jonas converteu os Ninivitas; mas quantos assuntos tomou? Um só assunto: Adhuc quadraginta dies, et Ninive subvertetur: a subversão da cidade. De maneira que Jonas em quarenta dias pregou um só assunto; e nós queremos pregar quarenta assuntos em uma hora? Por isso não pregamos nenhum. O sermão há-de ser de uma só cor, há-de ter um só objecto, um só assunto, uma só matéria.

Há-de tomar o pregador uma só matéria; há-de defini-la, para que se conheça; há-de dividi-la, para que se distinga; há-de prová-la com a Escritura; há-de declará-la com a razão; há-de confirmá-la com o exemplo; há-de amplificá-la com as causas, com os efeitos, com as circunstâncias, com as conveniências que se hão-de seguir, com os inconvenientes que se devem evitar; há-de responder às dúvidas, há-de satisfazer às dificuldades; há-de impugnar e refutar com toda a força da eloquência os argumentos contrários; e depois disto há-de colher, há-de apertar, há-de concluir, há-de persuadir, há-de acabar. Isto é sermão, isto é pregar; e o que não é isto, é falar de mais alto.

Não nego nem quero dizer que o sermão não haja de ter variedade de discursos, mas esses hão-de nascer todos da mesma matéria e continuar e acabar nela. Quereis ver tudo isto com os olhos? Ora vede. Uma árvore tem raízes, tem tronco, tem ramos, tem folhas, tem varas, tem flores, tem frutos. Assim há-de ser o sermão: há-de ter raízes fortes e sólidas, porque há-de ser fundado no Evangelho; há-de ter um tronco, porque há-de ter um só assunto e tratar uma só matéria; deste tronco hão-de nascer diversos ramos, que são diversos discursos, mas nascidos da mesma matéria e continuados nela; estes ramos hão-de ser secos, senão cobertos de folhas, porque os discursos hão-de ser vestidos e ornados de palavras. Há-de ter esta árvore varas, que são a repreensão dos vícios; há-de ter flores, que são as sentenças; e por remate de tudo, há-de ter frutos, que é o fruto e o fim a que se há-de ordenar o sermão. De maneira que há-de haver frutos, há-de haver flores, há-de haver varas, há-de haver folhas, há-de haver ramos; mas tudo nascido e fundado em um só tronco, que é uma só matéria. Se tudo são troncos, não é sermão, é madeira. Se tudo são ramos, não é sermão, são maravalhas. Se tudo são folhas, não é sermão, são versas. Se tudo são varas, não é sermão, é feixe. Se tudo são flores, não é sermão, é ramalhete. Serem tudo frutos, não pode ser; porque não há frutos sem árvore. Assim que nesta árvore, à que podemos chamar «árvore da vida», há-de haver o proveitoso do fruto, o formoso das flores, o rigoroso das varas, o vestido das folhas, o estendido dos ramos; mas tudo isto nascido e formado de um só tronco e esse não levantado no ar, senão fundado nas raízes do Evangelho: Seminare semen. Eis aqui como hão-de ser os sermões, eis aqui como não são. E assim não é muito que se não faça fruto com eles.

Tudo o que tenho dito pudera demonstrar largamente, não só com os preceitos dos Aristóteles, dos Túlios, dos Quintilianos, mas com a prática observada do príncipe dos oradores evangélicos, S. João Crisóstomo, de S. Basílio Magno, S. Bernardo. S. Cipriano, e com as famosíssimas orações de S. Gregório Nazianzeno, mestre de ambas as Igrejas. E posto que nestes mesmos Padres, como em Santo Agostinho, S. Gregório e muitos outros, se acham os Evangelhos apostilados com nomes de sermão e homilias, uma coisa é expor, e outra pregar; uma ensinar e outra persuadir, desta última é que eu falo, com a qual tanto fruto fizeram no mundo Santo António de Pádua e S. Vicente Ferrer. Mas nem por isso entendo que seja ainda esta a verdadeira causa que busco.

VII

Será porventura a falta de ciência que há em muitos pregadores? Muitos pregadores há que vivem do que não colheram e semeiam o que não trabalharam. Depois da sentença de Adão, a terra não costuma dar fruto, senão a quem come o seu pão com o suor do seu rosto. Boa razão parece também esta. O pregador há-de pregar o seu, e não o alheio. Por isso diz Cristo que semeou o lavrador do Evangelho o trigo seu: Semen suum. Semeou o seu, e não o alheio, porque o alheio e, o furtado não é bom para semear, ainda que o furto seja de ciência. Comeu Eva o pomo da ciência, e queixava-me eu antigamente desta nossa mãe; já que comeu o pomo, por que lhe não guardou as pevides? Não seria bem que chegasse a nós a árvore, já que nos chegaram os encargos dela? Pois por que não o fez assim Eva? Porque o pomo era furtado, e o alheio é bom para comer, mas não é bom para semear: é bom para comer, porque dizem que é saboroso; não é bom para semear, porque não nasce. Alguém terá experimentado que o alheio lhe nasce em casa, mas esteja certo, que se nasce, não há-de deitar raízes, e o que não tem raízes não pode dar fruto. Eis aqui por que muitos pregadores não fazem fruto; porque pregam o alheio, e não o seu: Semen suum. O pregar é entrar em batalha com os vícios; e armas alheias, ainda que sejam as de Aquiles, a ninguém deram vitória. Quando David saiu a campo com o gigante, ofereceu-lhe Saul as suas armas, mas ele não as quis aceitar. Com armas alheias ninguém pode vencer, ainda que seja David. As armas de Saul só servem a Saul, e as de David a David; e mais aproveita um cajado e uma funda própria, que a espada e a lança alheia. Pregador que peleja com as armas alheias, não hajais medo que derrube gigante.

Fez Cristo aos Apóstolos pescadores de homens, que foi ordená-los de pregadores; e que faziam os Apóstolos? Diz o texto que estavam: Reficientes retia sua: «Refazendo as redes suas; eram as redes dos Apóstolos, e não eram alheias. Notai: Retia sua: Não diz que eram suas porque as compraram, senão que eram suas porque as faziam; não eram suas porque lhes custaram o seu dinheiro, senão porque lhes custavam o seu trabalho. Desta maneira eram as redes suas; e porque desta maneira eram suas, por isso eram redes de pescadores que haviam de pescar homens. Com redes alheias, ou feitas por mão alheia, podem-se pescar peixes, homens não se podem pescar. A razão disto é porque nesta pesca de entendimentos só quem sabe fazer a rede sabe fazer o lanço. Como se faz uma rede? Do fio e do nó se compõe a malha; quem não enfia nem ata, como há-de fazer rede? E quem não sabe enfiar nem sabe atar, como há-de pescar homens? A rede tem chumbada que vai ao fundo, e tem cortiça que nada em cima da água. A pregação tem umas coisas de mais peso e de mais fundo, e tem outras mais superficiais e mais leves; e governar o leve e o pesado, só o sabe fazer quem faz a rede. Na boca de quem não faz a pregação, até o chumbo é cortiça.

As razões não hão-de ser enxertadas, hão-de ser nascidas. O pregar não é recitar. As razões próprias nascem do entendimento, as alheias vão pegadas à memória, e os homens não se convencem pela memória, senão pelo entendimento.

Veio o Espírito Santo sobre os Apóstolos, e quando as línguas desciam do Céu, cuidava eu que se lhes haviam de pôr na boca; mas elas foram-se pôr na cabeça. Pois por que na cabeça e não na boca, que é o lugar da língua? Porque o que há-de dizer o pregador, não lhe há-de sair só da boca; há-lhe de sair pela boca, mas da cabeça. O que sai só da boca pára nos ouvidos; o que nasce do juízo penetra e convence o entendimento. Ainda tem mais mistério estas línguas do Espírito Santo. Diz o texto que não se puseram todas as línguas sobre todos os Apóstolos, senão cada uma sobre cada um: Apparuerunt dispertitae linguae tanquam ignis, seditque supra singulos eorum. E por que cada uma sobre cada um, e não todas sobre todos? Porque não servem todas as línguas a todos, senão a cada um a sua. Uma língua só sobre Pedro, porque a língua de Pedro não serve a André; outra língua só sobre André, porque a língua de André não serve a Filipe; outra língua só sobre Filipe, porque a língua de Filipe não serve a Bartolomeu, e assim dos mais. E senão vede-o no estilo de cada um dos Apóstolos, sobre que desceu o Espírito Santo. Só de cinco temos escrituras; mas a diferença com que escreveram, como sabem os doutos, é admirável. As penas todas eram tiradas das asas daquela pomba divina; mas o estilo tão diverso, tão particular e tão próprio de cada um, que bem mostra que era seu. Mateus fácil, João misterioso, Pedro grave, Jacob forte, Tadeu sublime, e todos com tal valentia no dizer, que cada palavra era um trovão, cada cláusula um raio e cada razão um triunfo. Ajuntai a estes cinco S. Lucas e S. Marcos, que também ali estavam, e achareis o número daqueles sete trovões que ouviu S. João no Apocalipse. Loquuti sunt septem tonitrua voces suas. Eram trovões que falavam e desarticulavam as vozes, mas essas vozes eram suas: Voces suas; «suas, e não alheias», como notou Ansberto: Non alienas, sed suas. Enfim, pregar o alheio é pregar o alheio, e com o alheio nunca se fez coisa boa.

Contudo eu não me firmo de todo nesta razão, porque do grande Baptista sabemos que pregou o que tinha pregado Isaías, como notou S. Lucas, e não com outro nome, senão de sermões: Praedicans baptismum poenitentiae in remissionem peccatorum, sicut scriptum est in libro sermonun Isaiae prophetae. Deixo o que tomou Santo Ambrósio de S. Basílio; S. Próspero e Beda de Santo Agostinho; Teofilato e Eutímio de S. João Crisóstomo.

VIII

Será finalmente a causa, que tanto há buscamos, a voz com que hoje falam os pregadores? Antigamente pregavam bradando, hoje pregam conversando. Antigamente a primeira parte do pregador era boa voz e bom peito. E verdadeiramente, como o mundo se governa tanto pelos sentidos, podem às vezes mais os brados que a razão. Boa era também esta, mas não a podemos provar com o semeador, porque já dissemos que não era ofício de boca. Porém o que nos negou o Evangelho no semeador metafórico, nos deu no semeador verdadeiro, que é Cristo. Tanto que Cristo acabou a parábola, diz o Evangelho que começou o Senhor a bradar: Haec dicens clamabat. Bradou o Senhor, e não arrazoou sobre a parábola, porque era tal o auditório, que fiou mais dos brados que da razão.

Perguntaram ao Baptista quem era? Respondeu ele: Ego vox clamantis in deserto: Eu sou uma voz que anda bradando neste deserto. Desta maneira se definiu o Baptista. A definição do pregador, cuidava eu que era: voz que arrazoa e não voz que brada. Pois por que se definiu o Baptista pelo bradar e não pelo arrazoar; não pela razão, senão pelos brados? Porque há muita gente neste mundo com quem podem mais os brados que a razão, e tais eram aqueles a quem o Baptista pregava. Vede-o claramente em Cristo. Depois que Pilatos examinou as acusações que contra ele se davam, lavou as mãos e disse: Ego nullam causam invenio in homine isto: Eu nenhuma causa acho neste homem. Neste tempo todo o povo e os escribas bradavam de fora, que fosse crucificado: At illi magis clamabant, crucifigatur. De maneira que Cristo tinha por si a razão e tinha contra si os brados. E qual pôde mais? Puderam mais os brados que a razão. A razão não valeu para o livrar, os brados bastaram para o pôr na Cruz. E como os brados no Mundo podem tanto, bem é que bradem alguma vez os pregadores, bem é que gritem. Por isso Isaías chamou aos pregadores «nuvens»: Qui sunt isti, qui ut nubes volant? A nuvem tem relâmpago, tem trovão e tem raio: relâmpago para os olhos, trovão para os ouvidos, raio para o coração; com o relâmpago alumia, com o trovão assombra, com o raio mata. Mas o raio fere a um, o relâmpago a muitos, o trovão a todos. Assim há-de ser a voz do pregador, um trovão do Céu, que assombre e faça tremer o Mundo.

Mas que diremos à oração de Moisés? Concrescat ut pluvia doctrina mea: fluat ut ros eloquim meum: Desça minha doutrina como chuva do céu, e a minha voz e as minhas palavras como orvalho que se destila brandamente e sem ruído. Que diremos ao exemplo ordinário de Cristo, tão celebrado por Isaías: Non clamabit neque audietur vox ejus foris? Não clamará, não bradará, mas falará com uma voz tão moderada que se não possa ouvir fora. E não há dúvida que o praticar familiarmente, e o falar mais ao ouvido que aos ouvidos, não só concilia maior atenção, mas naturalmente e sem força se insinua, entra, penetra e se mete na alma. Em conclusão que a causa de não fazerem hoje fruto os pregadores com a palavra de Deus, nem é a circunstância da pessoa: Qui seminat: nem a do estilo: Seminare; nem a da matéria: Semen; nem a da ciência: Suum; nem a da voz: Clamabat. Moisés tinha fraca voz; Amós tinha grosseiro estilo; Salamão multiplicava e variava os assuntos; Balaão não tinha exemplo de vida; o seu animal não tinha ciência; e contudo todos estes, falando, persuadiam e convenciam. Pois se nenhuma destas razões que discorremos, nem todas elas juntas são a causa principal nem bastante do pouco fruto que hoje faz a palavra de Deus, qual diremos finalmente que é a verdadeira causa?

IX

As palavras que tomei por tema o dizem. Semen est verbum Dei. Sabeis, Cristãos, a causa por que se faz hoje tão pouco fruto com tantas pregações? É porque as palavras dos pregadores são palavras, mas não são palavras de Deus. Falo do que ordinariamente se ouve. A palavra de Deus (como diria) é tão poderosa e tão eficaz, que não só na boa terra faz fruto, mas até nas pedras e nos espinhos nasce. Mas se as palavras dos pregadores não são palavras de Deus, que muito que não tenham a eficácia e os efeitos da palavra de Deus? Ventum seminabunt, et turbinem colligent, diz o Espírito Santo: «Quem semeia ventos, colhe tempestades». Se os pregadores semeiam vento, se o que se prega é vaidade, se não se prega a palavra de Deus, como não há a Igreja de Deus de correr tormenta, em vez de colher fruto?

Mas dir-me-eis: Padre, os pregadores de hoje não pregam do Evangelho, não pregam das Sagradas Escrituras? Pois como não pregam a palavra de Deus? Esse é o mal. Pregam palavras de Deus, mas não pregam a palavra de Deus: Qui habet sermonem meum, loquatur sermonem meum vere, disse Deus por Jeremias. As palavras de Deus, pregadas no sentido em que Deus as disse, são palavras de Deus; mas pregadas no sentido que nós queremos, não são palavras de Deus, antes podem ser palavras do Demónio. Tentou o Demónio a Cristo a que fizesse das pedras pão. Respondeu-lhe o Senhor: Non in solo pane vivit homo, sed in omni verbo, quod procedit de ore dei. Esta sentença era tirada do capítulo VIII do Deuteronómio. Vendo o Demónio que o Senhor se defendia da tentação com a Escritura, leva-o ao Templo, e alegando o lugar do salmo XC, diz-lhe desta maneira: Mille te deorsum; scriptum est enim, quia Angelis suis Deus mandavit de te, ut custodiant te in omnibus viis tuis: «Deita-te daí abaixo, porque prometido está nas Sagradas Escrituras que os anjos te tomarão nos braços, para que te não faças mal.» De sorte que Cristo defendeu-se do Diabo com a Escritura, e o Diabo tentou a Cristo com a Escritura. Todas as Escrituras são palavra de Deus: pois se Cristo toma a Escritura para se defender do Diabo, como toma o Diabo a Escritura para tentar a Cristo? A razão é porque Cristo tomava as palavras da Escritura em seu verdadeiro sentido, e o Diabo tomava as palavras da Escritura em sentido alheio e torcido; e as mesmas palavras, que tomadas em verdadeiro sentido são palavras de Deus, tomadas em sentido alheio, são armas do Diabo. As mesmas palavras que, tomadas no sentido em que Deus as disse, são defesa, tomadas no sentido em que Deus as não disse, são tentação. Eis aqui a tentação com que então quis o Diabo derrubar a Cristo, e com que hoje lhe faz a mesma guerra do pináculo do templo. O pináculo do templo é o púlpito, porque é o lugar mais alto dele. O Diabo tentou a Cristo no deserto, tentou-o no monte, tentou-o no templo: no deserto, tentou-o com a gula; no monte, tentou-o com a ambição; no templo, tentou-o com as Escrituras mal interpretadas, e essa é a tentação de que mais padece hoje a Igreja, e que em muitas partes tem derrubado dela, senão a Cristo, a sua fé.

Dizei-me, pregadores (aqueles com quem eu falo indignos verdadeiramente de tão sagrado nome), dizei-me: esses assuntos inúteis que tantas vezes levantais, essas empresas ao vosso parecer agudas que prosseguis, achaste-las alguma vez nos Profetas do Testamento Velho, ou nos Apóstolos e Evangelistas do Testamento Novo, ou no autor de ambos os Testamentos, Cristo? É certo que não, porque desde a primeira palavra do Génesis até à última do Apocalipse, não há tal coisa em todas as Escrituras. Pois se nas Escrituras não há o que dizeis e o que pregais, como cuidais que pregais a palavra de Deus? Mais: nesses lugares, nesses textos que alegais para prova do que dizeis, é esse o sentido em que Deus os disse? É esse o sentido em que os entendem os padres da Igreja? É esse o sentido da mesma gramática das palavras? Não, por certo; porque muitas vezes as tomais pelo que toam e não pelo que significam, e talvez nem pelo que toam. Pois se não é esse o sentido das palavras de Deus, segue-se que não são palavras de Deus. E se não são palavras de Deus, que nos queixamos que não façam fruto as pregações? Basta que havemos de trazer as palavras de Deus a que digam o que nós queremos, e não havemos de querer dizer o que elas dizem?! E então ver cabecear o auditório a estas coisas, quando devíamos de dar com a cabeça pelas paredes de as ouvir! Verdadeiramente não sei de que mais me espante, se dos nossos conceitos, se dos vossos aplausos? Oh, que bem levantou o pregador! Assim é; mas que levantou? Um falso testemunho ao texto, outro falso testemunho ao santo, outro ao entendimento e ao sentido de ambos. Então que se converta o mundo com falsos testemunhos da palavra de Deus? Se a alguém parecer demasiada a censura, ouça-me.

Estava Cristo acusado diante de Caifás, e diz o Evangelista S. Mateus que por fim vieram duas testemunhas falsas: Novissime venerunt duo falsi testes. Estas testemunhas referiram que ouviram dizer a Cristo que, se os Judeus destruíssem o templo, ele o tornaria a reedificar em três dias. Se lermos o Evangelista S. João, acharemos que Cristo verdadeiramente tinha dito as palavras referidas. Pois se Cristo tinha dito que havia de reedificar o templo dentro em três dias, e isto mesmo é o que referiram as testemunhas, como lhes chama o Evangelista testemunhas falsas: Duo falsi testes? O mesmo S. João deu a razão: Loquebatur de templo corporis sui. Quando Cristo disse que em três dias reedificaria o templo, falava o Senhor do templo místico de seu corpo, o qual os Judeus destruíram pela morte e o Senhor o reedificou pela ressurreição; e como Cristo falava do templo místico e as testemunhas o referiram ao templo material de Jerusalém, ainda que as palavras eram verdadeiras, as testemunhas eram falsas. Eram falsas, porque Cristo as dissera em um sentido, e eles as referiram em outro; e referir as palavras de Deus em diferente sentido do que foram ditas, é levantar falso testemunho a Deus, é levantar falso testemunho às Escrituras. Ah, Senhor, quantos falsos testemunhos vos levantam! Quantas vezes ouço dizer que dizeis o que nunca dissestes! Quantas vezes ouço dizer que são palavras vossas, o que são imaginações minhas, que me não quero excluir deste número! Que muito logo que as nossas imaginações, e as nossas vaidades, e as nossas fábulas não tenham a eficácia de palavra de Deus!

Miseráveis de nós, e miseráveis dos nossos tempos! Pois neles se veio a cumprir a profecia de S. Paulo: Erit tempus, cum sanam doctrinam non sustinebunt: Virá tempo, diz S. Paulo, «em que os homens não sofrerão a doutrina sã. Sed ad sua desideria coacervabunt sibi magistros prurientes auribus: Mas para seu apetite terão grande número de pregadores feitos a montão e sem escolha, os quais não façam mais que adular-lhes as orelhas. A veritate quidem auditum avertent, ad fabulas auten convertentur: Fecharão os ouvidos à verdade, e abri-los-ão às fábulas». Fábula tem duas significações: quer dizer fingimento e quer dizer comédia; e tudo são muitas pregações deste tempo. São fingimento, porque são sutilezas e pensamentos aéreos, sem fundamento de verdade; são comédia, porque os ouvintes vêm à pregação como à comédia; e há pregadores que vêm ao púlpito como comediantes. Uma das felicidades que se contava entre as do tempo presente era acabarem-se as comédias em Portugal; mas não foi assim. Não se acabaram, mudaram-se; passaram-se do teatro ao púlpito. Não cuideis que encareço em chamar comédias a muitas pregações das que hoje se usam. Tomara ter aqui as comédias de Plauto, de Terêncio, de Séneca, e veríeis se não acháveis nelas muitos desenganos da vida e vaidade do Mundo, muitos pontos de doutrina moral, muito mais verdadeiros, e muito mais sólidos, do que hoje se ouvem nos púlpitos. Grande miséria por certo, que se achem maiores documentos para a vida nos versos de um poeta profano, e gentio, que nas pregações de um orador cristão, e muitas vezes, sobre cristão, religioso!

Pouco disse S. Paulo em lhe chamar comédia, porque muitos sermões há que não são comédia, são farsa. Sobe talvez ao púlpito um pregador dos que professam ser mortos ao mundo, vestido ou amortalhado em um hábito de penitência (que todos, mais ou menos ásperos, são de penitência; e todos, desde o dia que os professamos, mortalhas); a vista é de horror, o nome de reverência, a matéria de compunção, a dignidade de oráculo, o lugar e a expectação de silêncio; e quando este se rompeu, que é o que se ouve? Se neste auditório estivesse um estrangeiro que nos não conhecesse e visse entrar este homem a falar em público naqueles trajos e em tal lugar, cuidaria que havia de ouvir uma trombeta do Céu; que cada palavra sua havia de ser um raio para os corações, que havia de pregar com o zelo e com o fervor de um Elias, que com a voz, com o gesto e com as ações havia de fazer em pó e em cinza os vícios. Isto havia de cuidar o estrangeiro. E nós que é o que vemos? Vemos sair da boca daquele homem, assim naqueles trajos, uma voz muito afectada e muito polida, e logo começar com muito desgarro, a quê? A motivar desvelos, a acreditar empenhos, a requintar finezas, a lisonjear precipícios, a brilhar auroras, a derreter cristais, a desmaiar jasmins, a toucar primaveras, e outras mil indignidades destas. Não é isto farsa a mais digna de riso, se não fora tanto para chorar? Na comédia o rei veste como rei, e fala como rei; o lacaio, veste como lacaio, e fala como lacaio; o rústico veste como rústico, e fala como rústico; mas um pregador, vestir como religioso e falar como... não o quero dizer, por reverência do lugar. Já que o púlpito é teatro, e o sermão comédia se quer, não faremos bem a figura? Não dirão as palavras com o vestido e com o ofício? Assim pregava S. Paulo, assim pregavam aqueles patriarcas que se vestiram e nos vestiram destes hábitos? Não louvamos e não admiramos o seu pregar? Não nos prezamos de seus filhos? Pois por que não os imitamos? Por que não pregamos como eles pregavam? Neste mesmo púlpito pregou S. Francisco Xavier, neste mesmo púlpito pregou S. Francisco de Borja; e eu, que tenho o mesmo hábito, por que não pregarei a sua doutrina, já que me falta o seu espírito?

X

Dir-me-eis o que a mim me dizem, e o que já tenho experimentado, que, se pregamos assim, zombam de nós os ouvintes, e não gostam de ouvir. Oh, boa razão para um servo de Jesus Cristo! Zombem e não gostem embora, e façamos nós nosso ofício! A doutrina de que eles zombam, a doutrina que eles desestimam, essa é a que lhes devemos pregar, e por isso mesmo, porque é mais proveitosa e a que mais hão mister. O trigo que caiu no caminho comeram-no as aves. Estas aves, como explicou o mesmo Cristo, são os demónios, que tiram a palavra de Deus dos corações dos homens: Venit Diabolus, et tollit verbum de corde ipsorum! Pois por que não comeu o Diabo o trigo que caiu entre os espinhos, ou o trigo que caiu nas pedras, senão o trigo que caiu no caminho? Porque o trigo que caiu no caminho: Conculcatum est ab hominibus: Pisaram-no os homens; e a doutrina que os homens pisam, a doutrina que os homens desprezam, essa é a de que o Diabo se teme. Dessoutros conceitos, dessoutros pensamentos, dessoutras sutilezas que os homens estimam e prezam, dessas não se teme nem se acautela o Diabo, porque sabe que não são essas as pregações que lhe hão-de tirar as almas das unhas. Mas daquela doutrina que cai: Secus viam: daquela doutrina que parece comum: Secus viam; daquela doutrina que parece trivial: Secus viam; daquela doutrina que parece trilhada: Secus viam; daquela doutrina que nos põe em caminho e em via da nossa salvação (que é a que os homens pisam e a que os homens desprezam), essa é a de que o Demónio se receia e se acautela, essa é a que procura comer e tirar do Mundo; e por isso mesmo essa é a que deviam pregar os pregadores, e a que deviam buscar os ouvintes. Mas se eles não o fizerem assim e zombarem de nós, zombemos nós tanto de suas zombarias como dos seus aplausos. Per infamiam et bonam famam, diz S. Paulo: O pregador há-de saber pregar com fama e sem fama. Mais diz o Apóstolo: Há-de pregar com fama e com infâmia. Pregar o pregador para ser afamado, isso é mundo: mas infamado, e pregar o que convém, ainda que seja com descrédito de sua fama?, isso é ser pregador de Jesus Cristo.

Pois o gostarem ou não gostarem os ouvintes! Oh, que advertência tão digna! Que médico há que repare no gosto do enfermo, quando trata de lhe dar saúde? Sarem e não gostem; salvem-se e amargue-lhes, que para isso somos médicos das almas. Quais vos parece que são as pedras sobre que caiu parte do trigo do Evangelho? Explicando Cristo a parábola, diz que as pedras são aqueles que ouvem a pregação com gosto: Hi sunt, qui cum gaudio suscipiunt verbum. Pois será bem que os ouvintes gostem e que no cabo fiquem pedras?! Não gostem e abrandem-se; não gostem e quebrem-se; não gostem e frutifiquem. Este é o modo com que frutificou o trigo que caiu na boa terra: Et fructum afferunt in patientia, conclui Cristo. De maneira que o frutificar não se ajunta com o gostar, senão com o padecer; frutifiquemos nós, e tenham eles paciência. A pregação que frutifica, a pregação que aproveita, não é aquela que dá gosto ao ouvinte, é aquela que lhe dá pena. Quando o ouvinte a cada palavra do pregador treme; quando cada palavra do pregador é um torcedor para o coração do ouvinte; quando o ouvinte vai do sermão para casa confuso e atónito, sem saber parte de si, então é a preparação qual convém, então se pode esperar que faça fruto: Et fructum afferunt in patientia.

Enfim, para que os pregadores saibam como hão-de pregar e os ouvintes a quem hão-de ouvir, acabo com um exemplo do nosso Reino, e quase dos nossos tempos. Pregavam em Coimbra dois famosos pregadores, ambos bem conhecidos por seus escritos; não os nomeio, porque os hei-de desigualar. Altercou-se entre alguns doutores da Universidade qual dos dois fosse maior pregador; e como não há juízo sem inclinação, uns diziam este, outros, aquele. Mas um lente, que entre os mais tinha maior autoridade, concluiu desta maneira: «Entre dois sujeitos tão grandes não me atrevo a interpor juízo; só direi uma diferença, que sempre experimento: quando ouço um, saio do sermão muito contente do pregador; quando ouço outro, saio muito descontente de mim.»

Com isto tenho acabado. Algum dia vos enganastes tanto comigo, que saíeis do sermão muito contentes do pregador; agora quisera eu desenganar-vos tanto, que saíreis muito descontentes de vós. Semeadores do Evangelho, eis aqui o que devemos pretender nos nossos sermões: não que os homens saiam contentes de nós, senão que saiam muito descontentes de si; não que lhes pareçam bem os nossos conceitos, mas que lhes pareçam mal os seus costumes, as suas vidas, os seus passatempos, as suas ambições e, enfim, todos os seus pecados. Contanto que se descontentem de si, descontentem-se embora de nós. Si hominibus placerem, Christus servus non essem, dizia o maior de todos os pregadores, S. Paulo: Se eu contentara aos homens, não seria servo de Deus. Oh, contentemos a Deus, e acabemos de não fazer caso dos homens! Advirtamos que nesta mesma Igreja há tribunas mais altas que as que vemos: Spectaculum facti sumus Deo, Angelis et hominibus. Acima das tribunas dos reis, estão as tribunas dos anjos, está a tribuna e o tribunal de Deus, que nos ouve e nos há-de julgar. Que conta há-de dar a Deus um pregador no Dia do Juízo? O ouvinte dirá: Não mo disseram. Mas o pregador? Vae mihi, quia tacui: Ai de mim, que não disse o que convinha! Não seja mais assim, por amor de Deus e de nós.

Estamos às portas da Quaresma, que é o tempo em que principalmente se semeia a palavra de Deus na Igreja, e em que ela se arma contra os vícios. Preguemos e armemo-nos todos contra os pecados, contra as soberbas, contra os ódios, contra as ambições, contra as invejas, contra as cobiças, contra as sensualidades. Veja o Céu que ainda tem na terra quem se põe da sua parte. Saiba o Inferno que ainda há na terra quem lhe faça guerra com a palavra de Deus, e saiba a mesma terra que ainda está em estado de reverdecer e dar muito fruto: Et fecit fructum centuplum.

 

 

 

 

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PADRE ANTONIO VIEIRA - Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal Contra as de Holanda

Exurge, quare obdormis, Domine? Exurge, et ne repellas in finem. Quare faciem tuas avertis? Oblivisceris inopiae nostrae et tribulationis nostrae? Exurge, Domine, adjuva nos, et redime nos propter nomem tuum (1).


 

I

Com estas palavras piedosamente resolutas, mais protestando que orando, dá fim o profeta rei ao salmo quarenta e três, salmo que desde o princípio até o fim não parece senão cortado para os tempos e ocasião presente. O Doutor Máximo, São Jerônimo, e depois dele os outros expositores, dizem que se entende a letra de qualquer reino ou província católica destruída e assolada por inimigos da fé. Mas entre todos os reinos do mundo, a nenhum lhe quadra melhor que ao nosso Reino de Portugal, e entre todas as províncias de Portugal, a nenhuma vem mais ao justo, que à miserável província do Brasil. Vamos lendo todo o salmo, e em todas as cláusulas dele veremos retratadas as da nossa fortuna, o que fomos e o que somos.

Deus, auribus nostris audivimus; patres nostri annuntiaverunt nobis, opus quod opera tus es in diebus eorum, et in diebus antiquis (2): Ouvimos — começa o profeta — a nossos pais, lemos nas nossas histórias, e ainda os mais velhos viram, em parte, com seus olhos as obras maravilhosas, as proezas, as vitórias, as conquistas, que por meio dos portugueses obrou em tempos passados vossa onipotência, Senhor. Manus tua gentes disperdidit, et plantasti eos: afflixisti populos, et expulisti eos (3): Vossa mão foi a que venceu e sujeitou tantas nações bárbaras belicosas e indômitas, e as despojou do domínio de suas próprias terras, para nelas os plantar, como plantou com tão bem fundadas raízes, e para nelas os dilatar, como dilatou e estendeu em todas as partes do mundo, na África, na Ásia, na América. Nec enim in gladio suo possederunt terram, et brachium eorum non salvavit eos, sed dextera tua et brachium tuum, et iliuminatio vultus tui, quoniam complacuisti in eis (4): Porque não foi a força do seu braço, nem a da sua espada a que lhes sujeitou as terras que possuíram, e as gentes e reis que avassalaram, senão a virtude de vossa destra onipotente, e a luz e o prêmio supremo de vosso beneplácito, com que neles vos agradastes e dele vos servistes. — Até aqui a relação ou memória das felicidades passadas, com que passa o profeta aos tempos e desgraças presentes.

Nunc autem repulisti et confudisti nos, et non egredieris, Deus, in virtutibus nostris (5): Porém agora, Senhor, vemos tudo isto tão trocado, que já parece que nos deixastes de todo, e nos lançastes de vós, porque já não ides diante das nossas bandeiras, nem capitaneais como dantes os nossos exércitos: Avertisti nos retrorsum post inimicos nostros; et qui oderuni nos diripiebant sibi (6): Os que tão acostumados éramos a vencer e triunfar, não por fracos, mas por castigados, fazeis que voltemos as costas a nossos inimigos — que, como são açoite de vossa justiça, justo é que lhes demos as costas — e, perdidos os que antigamente foram despojos do nosso valor, são agora roubo da sua cobiça. Dedisti nos tanquam oves escarum, et in gentibus dispersisti nos (7): Os velhos, as mulheres, os meninos, que não têm forças nem armas com que se defender, morrem como ovelhas inocentes às mãos da crueldade herética, e os que podem escapar à morte, desterrando-se a terras estranhas, perdem a casa e a pátria. Possuisti nos opprobrium vicinis nostris, subsannationem et derisum his qui sunt in circuitu nostro(8): Não fora tanto para sentir, se perdidas fazendas e vidas, se salvara ao menos a honra; mas também esta, a passos contados se vai perdendo; e aquele nome português, tão celebrado nos anais da fama, já o herege insolente, com as vitórias o afronta, e o gentio, de que estamos cercados, e que tanto o venerava e temia, já o despreza.

Com tanta propriedade como isto descreve Davi neste salmo nossas desgraças, contrapondo o que somos hoje ao que fomos enquanto Deus queria, para que na experiência presente cresça a dor por oposição com a memória do passado. Ocorre aqui ao pensamento o que não é lícito sair à língua, e não falta quem discorra tacitamente que a causa desta diferença tão notável foi a mudança da monarquia. Não havia de ser assim dizem — se vivera um Dom Manoel, um Dom João, o Terceiro, ou a fatalidade de um Sebastião não sepultara com ele os reis portugueses. Mas o mesmo profeta, no mesmo salmo nos dá o desengano desta falsa imaginação: Tu es ipse Rex meus et Deus meus, qui mandas salutes Jacob (9). O Reino de Portugal, como o mesmo Deus nos declarou na sua fundação, é reino seu, e não nosso: Volo enim in te, et in semine tuo imperium mihi stabilire(10)e como Deus é o Rei: Tu es ipse rex meus et Deus meus — e este rei é o que manda e o que governa: Qui mandas salutes, Jacob — ele, que não se muda, é o que causa estas diferenças, e não os reis que se mudaram. À vista pois desta verdade certa e sem engano esteve um pouco suspenso o nosso profeta na consideração de tantas calamidades, até que para remédio delas o mesmo Deus, que o alumiava, lhe inspirou um conselho altíssimo, nas palavras que tomei por tema.

Exurge, quare obdormis Domine? Exurge, et ne repellas in finem. Quare faciem tuam avertis? Oblivisceris inopiae nostrae et tribulationis nostrae? Exurge, Domine, adjuva nos, et redime nos propter nomem tuum. Não prega Davi ao povo, não o exorta ou repreende, não faz contra ele invectivas, posto que bem merecidas; mas todo arrebatado de um novo e extraordinário espírito, se volta não só a Deus, mas, piedosamente atrevido, contra ele. Assim como Marta disse a Cristo: Domine, non est tibi curae (11)? — assim estranha Davi reverentemente a Deus, e quase o acusa de descuidado. Queixa-se das desatenções da sua misericórdia e providência, que isso é considerar a Deus dormindo: Exurge, quare obdormis Domine? Repete-lhe que acorde e que não deixe chegar os danos ao fim, permissão indigna de sua piedade: Exurge, et ne repellas infinem. Pede-lhe a razão por que aparta de nós os olhos e não volta o rosto: Quare faciem tuam avertis, — e por que se esquece da nossa miséria, e não faz caso de nossos trabalhos: Oblivisceris inopiae nostrae et tribulationis nostrae. E não só pede de qualquer modo esta razão do que Deus faz e permite, senão que insta a que lhe dê uma e outra vez: Quare obdormis? Quare oblivisceris? Finalmente, depois destas perguntas, a que supõe que não tem Deus resposta, e destes argumentos, com que presume o tem convencido, protesta diante do tribunal de sua justiça e piedade, que tem obrigação de nos acudir, de nos ajudar e de nos libertar logo: Exurge, Domine, adjuva nos, et redime nos. E para mais obrigar ao mesmo Senhor, não protesta por nosso bem e remédio, senão por parte da sua honra e glória: Propter nomen tuum.

Esta é — todo-poderoso e todo misericordioso Deus — esta é a traça de que usou para render vossa piedade quem tanto se conformava com vosso coração. E desta usarei eu também hoje, pois o estado em que nos vemos mais é o mesmo, que semelhante. Não hei de pregar hoje ao povo, não hei de falar com os homens: mais alto hão de sair as minhas palavras ou as minhas vozes; a vosso peito divino se há de dirigir todo o sermão. E este o último de quinze dias contínuos em que todas as igrejas desta metrópole, a esse mesmo trono de vossa patente Majestade têm representado suas deprecações; e pois o dia é o último, justo será que nele se acuda também ao último e único remédio. Todos estes dias se cansaram debalde os oradores evangélicos em pregar penitência aos homens; e pois eles se não converteram, quero eu, Senhor, converter-vos a vós. Tão presumido venho de vossa misericórdia, Deus meu, que, ainda que nós somos os pecadores, vós haveis de ser o arrependido.

O que venho a pedir ou protestar, Senhor, é que nos ajudeis e nos liberteis: Adjuva nos, et redime nos. Mui conformes são estas petições ambas ao lugar e ao tempo. Em tempo que tão oprimidos e tão cativos estamos, que devemos pedir com maior necessidade, senão que nos liberteis: Redime nos? E na casa da Senhora da Ajuda, que devemos esperar com maior confiança, senão que nos ajudeis: Adjuva nos? Não hei de pedir pedindo, senão protestando e argumentando, pois esta é a licença e liberdade que tem quem não pede favor, senão justiça. Se a causa fora só nossa, e eu viera a rogar só por nosso remédio, pedira favor e misericórdia. Mas, como a causa, Senhor, é mais vossa que nossa, e como venho a requerer por parte de vossa honra e glória, e pelo crédito de vosso nome: Propter nomem tuum: razão é que peça só razão, justo é que peça só justiça. Sobre este pressuposto vos hei de argüir, vos hei de argumentar, e confio tanto da vossa razão e da vossa benignidade, que também vos hei de convencer. Se chegar a me queixar de vós, e acusar as dilações de vossa justiça ou as desatenções de vossa misericórdia: — Quare obdormis, quare oblivisceris? — não será esta vez a primeira em que sofrestes semelhantes excessos a quem advoga por vossa causa. As custas de toda a demanda, também vós, Senhor, as haveis de pagar, porque me há de dar vossa mesma graça as razões com que vos hei de argüir, a eficácia com que vos hei de apertar, e todas as armas com que vos hei de render. E se para isto não bastam os merecimentos da causa, suprirão os da Virgem Santíssima, em cuja ajuda principalmente confio. Ave Maria.

II

Exurge, quare obdormis, Domine? Querer argumentar com Deus, e convencê-lo com razões, não só dificultoso assunto parece, mas empresa declaradamente impossível, sobre arrojada temeridade. O homo, tu qui es, qui respondeas Deo? Nunquid dicit figmentum ei qui se finxit: Quid mefecisti sic (Rom. 9, 20)? Homem atrevido — diz São Paulo — homem temerário, quem és tu, para que te ponhas a altercar com Deus? Porventura o barro que está na roda e entre as mãos do oficial põe-se às razões com ele, e diz-lhe: por que me fazes assim? — Pois, se tu és barro, homem mortal, se te formaram as mãos de Deus da matéria vil da terra, como dizes ao mesmo Deus: Quare, quare? Como te atreves a argumentar com a Sabedoria divina, como pedes razão à sua providência do que te faz ou deixa de fazer: Quare obdormis? Quare faciem tuam avertis? Venera suas permissões, reverencia e adora seus ocultos juízos, encolhe os ombros com humildade a seus decretos soberanos, e farás o que te ensina a fé e o que deves a criatura. Assim o fazemos, assim o confessamos; assim o protestamos diante de Vossa Majestade infinita, imenso Deus, incompreensível bondade: Justus es, Domine, et rectum judicium tuum (12). Por mais que nós não saibamos entender vossas obras, por mais que não possamos alcançar vossos conselhos, sempre sois justo, sempre sois santo, sempre sois infinita bondade, e ainda nos maiores rigores de vossa justiça, nunca chegais com a severidade do castigo aonde nossas culpas merecem.

Se as razões e argumentos da nossa causa as houvéramos de fundar em merecimentos próprios, temeridade fora grande, antes impiedade manifesta, querer-vos argüir. Mas nós, Senhor, como protestava o vosso profeta Daniel: Neque enim in justificatiombus nostris prosternimus preces ante faciam tuam, sed in miserationibus tuis multis(13). Os requerimentos e razões deles, que humildemente presentamos ante vosso divino conspecto, as apelações ou embargos que entrepomos à execução e continuação dos castigos que padecemos, de nenhum modo os fundamos na presunção de nossa justiça, mas todos na multidão de vossas misericórdias: In miserationibus tuis multis. Argumentamos, sim, mas de vós para vós; apelamos, mas de Deus para Deus: de Deus justo, para Deus misericordioso. E como do peito, Senhor, vos hão de sair todas as setas, mal poderão ofender vossa bondade. Mas porque a dor, quando é grande, sempre arrasta o afeto, e o acerto das palavras é descrédito da mesma dor, para que o justo sentimento dos males presentes não passe os limites sagrados de quem fala diante de Deus e com Deus, em tudo o que me atrever a dizer, seguirei as pisadas sólidas dos que em semelhantes ocasiões, guiados por vosso mesmo espírito, oraram e exoraram vossa piedade.

Quando o povo de Israel no deserto cometeu aquele gravíssimo pecado de idolatria, adorando o ouro das suas jóias na imagem bruta de um bezerro, revelou Deus o caso a Moisés, que com ele estava, e acrescentou irado e resoluto que daquela vez havia de acabar para sempre com uma gente tão ingrata, e que a todos havia de assolar e consumir, sem que ficasse rasto de tal geração: Dimitte me, ut irascatur furor meus contra eos, et deleam eos (14). Não lhe sofreu porém o coração ao bom Moisés ouvir falar em destruição e assolação do seu povo: põe-se em campo, opõe-se à ira divina, e começa a arrazoar assim: Cur Domine, irascitur furor tuus contra populum tuum (Êx. 32,11)? E bem, Senhor, por que razão se indigna tanto a vossa ira contra o vosso povo? — Por que razão, Moisés? E ainda vós quereis mais justificada razão de Deus? Acaba de vos dizer que está o povo idolatrando, que está adorando um animal bruto, que está negando a divindade ao mesmo Deus, e dando-a a uma estátua muda, que acabaram de fazer suas mãos, e atribuindo-lhe a ela a liberdade e triunfo com que os livrou do cativeiro do Egito, e sobre tudo isto ainda perguntais a Deus por que razão se agasta: Cur irascitur furor tuus? Sim, e com muito prudente zelo. Porque, ainda que da parte do povo havia muito grandes razões de ser castigado, da parte de Deus era maior a razão que havia de o não castigar: Ne quaeso — dá a razão Moisés — ne quaeso dicant Aegyptii: Callide eduxit eos, ut interftceret in montibus, et deleret e terra (15). Olhai, Senhor, que porão mácula os egípcios em vosso ser, e quando menos em vossa verdade e bondade. Dirão que cautelosamente e a falsa fé nos trouxestes a este deserto, para aqui nos tirardes a vida a todos, e nos sepultardes. — E com esta opinião divulgada e assentada entre eles, qual será o abatimento de vosso santo nome, que tão respeitado e exaltado deixastes no mesmo Egito, com tantas e tão prodigiosas maravilhas do vosso poder? Convém, logo, para conservar o crédito, dissimular o castigo, e não dar com ele ocasião àqueles gentios e aos outros, em cujas terras estamos, ao que dirão: Ne quaeso dicant. — Desta maneira arrazoou Moisés em favor do povo, e ficou tão convencido Deus da força deste argumento, que no mesmo ponto revogou a sentença, e, conforme o texto hebreu, não só se arrependeu da execução, senão ainda do pensamento: Et paenituit Dominus mali quod cogitaverat facere populo suo (Êx. 32, 14 ex text. Hebr.): E arrependeu-se o Senhor do pensamento e da imaginação que tivera de castigar o seu povo.

Muita razão tenho eu logo, Deus meu, de esperar que haveis de sair deste sermão arrependido, pois sois o mesmo que éreis, e não menos amigo agora, que nos tempos passados, de vosso nome: Propter nomem tuum. Moisés disse-vos: Ne quaeso dicant: Olhai, Senhor, que dirão. — E eu digo, e devo dizer: Olhai, Senhor, que já dizem. — Já dizem os hereges insolentes, com os sucessos prósperos que vós lhes dais ou permitis, já dizem que porque a sua, que eles chamam religião, é a verdadeira, por isso Deus os ajuda, e vencem; e porque a nossa é errada e falsa, por isso nos desfavorece, e somos vencidos. Assim o dizem, assim o pregam, e ainda mal porque não faltará quem o creia. Pois, é possível, Senhor, que hão de ser vossas permissões argumentos contra vossa fé? É possível que se hão de ocasionar de nossos castigos blasfêmias contra vosso nome? Que diga o herege — o que treme de o pronunciar a língua — que diga o herege que Deus está holandês? Oh! não permitais tal, Deus meu, não permitais tal, por quem sois. Não o digo por nós, que pouco ia em que nos castigásseis; não o digo pelo Brasil, que pouco ia em que o destruísseis; por vós o digo, e pela honra do vosso santíssimo nome, que tão imprudentemente se vê blasfemado: Propter nomem tuum. Já que o pérfido calvinista, dos sucessos que só lhe merecem nossos pecados, faz argumento da religião, e se jacta insolente e blasfemo de ser a sua a verdadeira, veja ele na roda dessa mesma fortuna, que o desvanece, de que parte está a verdade. Os ventos e tempestades, que descompõem e derrotam as nossas armadas, derrotem e desbaratem as suas; as doenças e pestes, que diminuem e enfraquecem os nossos exércitos, escalem as suas muralhas e despovoem os seus presídios; os conselhos que, quando vós quereis castigar, se corrompem, em nós sejam alumiados, e neles enfatuados e confusos. Mude a vitória as insígnias, desafrontem-se as cruzes católicas, triunfem as vossas chagas nas nossas bandeiras, e conheça humilhada e desenganada a perfídia, que só a fé romana que professamos é fé, e só ela a verdadeira e a vossa.

Mas ainda há mais quem diga: Ne quaeso dicant Aegyptii. Olhai Senhor, que vivemos entre gentios, uns que o são, outros que o foram ontem. E estes, que dirão? Que dirá o tapuia bárbaro, sem conhecimento de Deus? Que dirá o índio inconstante, a quem falta a pia afeição da nossa fé? Que dirá o etíope boçal, que apenas foi molhado com a água do Batismo, sem mais doutrina? Não há dúvida que todos estes, como não têm capacidade para sondar o profundo de vossos juízos, beberão o erro pelos olhos. Dirão, pelos efeitos que vêem, que a nossa fé é falsa, e a dos holandeses a verdadeira, e crerão que são mais cristãos, sendo como eles. A seita do herege torpe e brutal concorda mais com a brutalidade do bárbaro: a largueza e soltura de vida, que foi a origem e é o fomento da heresia, casa-se mais com os costumes depravados e corrupção do gentilismo; e que paga haverá que se converta à fé que lhe pregamos, ou que novo cristão já convertido, que se não perverta, entendendo e persuadindo-se uns e outros que no herege é premiada a sua lei, e no católico se castiga a nossa? Pois, se estes são os efeitos, posto que não pretendidos, de vosso rigor e castigo justamente começado em nós, se ateia e passa com tanto dano aos que não são cúmplices nas nossas culpas: Cur irascitur furor tuus? Por que continua sem estes reparos o que vós mesmos chamastes furor, e por que não acabais já de embainhar a espada de vossa ira?

Se tão gravemente ofendido do povo hebreu por um que dirão dos egípcios lhe perdoastes, o que dizem os hereges e o que dirão os gentios não será bastante motivo para que vossa rigorosa mão suspenda o castigo e perdoe também os nossos pecados, pois, ainda que grandes, são menores? Os hebreus adoraram o ídolo, faltaram à fé, deixaram o culto do verdadeiro Deus, chamaram deus e deuses a um bezerro, e nós, por mercê de vossa bondade infinita, tão longe estamos e estivemos sempre de menor defeito ou escrúpulo nesta parte, que muitos deixaram a pátria, a casa, a fazenda, e ainda a mulher e os filhos, e passam em suma miséria desterrados, só por não viver nem comunicar com homens que se separaram da vossa Igreja. Pois, Senhor meu e Deus meu, se por vosso amor e por vossa fé, ainda sem perigo de a perder ou arriscar, fazem tais finezas os portugueses: Quare oblivisceris inopiae nostrae et tribulationis nostrae? Por que vos esqueceis de tão religiosas misérias, de tão católicas tribulações? Como é possível que se ponha Vossa Majestade irada contra estes fidelíssimos servos, e favoreça a parte dos infiéis, dos excomungados, dos ímpios?

Oh! como nos podemos queixar neste passo, como se queixava lastimado Jó, quando despojados dos sabeus e caldeus, se viu, como nós nos vemos, no extremo da opressão e miséria: Nunquid bonum tibi videtur, si calumnieris me, et opprimas me opus man um tuarum, et consilium impiorum adjuves (16)? Parece-vos bem, Senhor, parece-vos bem isto? Que a mim, que sou vosso servo, me oprimais e aflijais? E aos ímpios, aos inimigos vossos os favoreçais e ajudeis? Parece-vos bem que sejam eles os prosperados e assistidos de vossa Providência, e nós os deixados de vossa mão, nós os esquecidos de vossa memória, nós o exemplo de vossos rigores, nós o despojo de vossa ira? Tão pouco é desterrar-nos por vós, e deixar tudo? Tão pouco é padecer trabalhos, pobrezas e os desprezos que elas trazem consigo, por vosso amor? Já a fé não tem merecimento? Já a piedade não tem valor? Já a perseverança não vos agrada? Pois, se há tanta diferença entre nós, ainda que maus, e aquele pérfidos, por que os ajudais a eles, e nos desfavoreceis a nós? Nunquid bonum tibi videtur? A vós, que sois a mesma bondade, parece-vos bem isto?


 

III

Considerai, Deus meu, e perdoai-me se falo inconsideradamente. Considerai a quem tirais as terras do Brasil, e a quem as dais. Tirais estas terras aos portugueses, a quem nos princípios as destes, e bastava dizer a quem as destes, para perigar o crédito de vosso nome, que não podem dar nome de liberal mercês com arrependimento. Para que nos disse S. Paulo, que vós, Senhor, quando dais, não vos arrependeis: Sine poenitentia enim sunt dona Dei (17)? Mas, deixado isto a parte, tirais estas terras àqueles mesmos portugueses, a quem escolhestes, entre todas as nações do mundo para conquistadores da vossa fé, e a quem destes por armas, como insígnia e divisa singular, vossas próprias chagas. — E será bem, supremo Senhor e Governador do universo, que às sagradas quinas de Portugal, e às armas e chagas de Cristo, sucedam as heréticas listas de Holanda, rebeldes a seu rei e a Deus? Será bem que estas se vejam tremular ao vento vitoriosas, e aquelas abatidas, arrastadas e ignominiosamente rendidas? Et quid facies magno nomini tuo (Jos. 7,9)? E que fareis — como dizia Josué — ou que será feito de vosso glorioso nome em casos de tanta afronta?

Tirais também o Brasil aos portugueses, que assim estas terras vastíssimas, como as remotíssimas do Oriente, as conquistaram à custa de tantas vidas e tanto sangue, mais por dilatar vosso nome e vossa fé — que esse era o zelo daqueles cristianíssimos reis — que por amplificar e estender seu império. Assim fostes servido que entrássemos nestes novos mundos tão honrada e tão gloriosamente, e assim permitis que saiamos agora — quem tal imaginara de vossa bondade — com tanta afronta e ignomínia. — Oh! como receio que não falte quem diga o que diziam os egípcios: Callide eduxit eos, ut interficeret et deleret e terra (18): Que a larga mão com que nos destes tantos domínios e remos não foram mercês de vossa liberalidade, senão cautela e dissimulação de vossa ira, para aqui fora, e longe de nossa pátria, nos matardes, nos destruirdes, nos acabardes de todo. Se esta havia de ser a paga e o fruto de nossos trabalhos, para que foi o trabalhar, para que foi o servir, para que foi o derramar tanto e tão ilustre sangue nestas conquistas? Para que abrimos os mares nunca dantes navegados? Para que descobrimos as regiões e os climas não conhecidos? Para que contrastamos os ventos e as tempestades com tanto arrojo, que apenas há baixio no oceano, que não esteja infamado com miserabilíssimos naufrágios de portugueses? E depois de tantos perigos, depois de tantas desgraças, depois de tantas e tão lastimosas mortes, ou nas praias desertas sem sepultura, ou sepultados nas entranhas dos alarves, das feras, dos peixes, que as terras que assim ganhamos, as hajamos de perder assim? Oh! quanto melhor nos fora nunca conseguir nem intentar tais empresas!

Mais santo que nós era Josué, menos apurada tinha a paciência, e contudo, em ocasião semelhante, não falou — falando convosco — por diferente linguagem. Depois de os filhos de Israel passarem às terras ultramarinas do Jordão, como nós a estas, avançou parte do exército a dar assalto à cidade de Hai, a qual nos ecos do nome já parece que trazia o prognóstico do infeliz sucesso que os israelitas nela tiveram, porque foram rotos e desbaratados, posto que com menos mortos e feridos do que nós por cá costumamos. E que faria Josué à vista desta desgraça? Rasga as vestiduras imperiais, lança-se por terra, começa a clamar ao céu: Heu, Domine Deus, quid voluisti traducere populum istum Jordanem fluvium, ut traderes nos in manus Amorrhaei (Jos. 7,7)? Deus meu e Senhor meu, que é isto? Para que nos mandastes passar o Jordão, e nos metestes de posse destas terras, se aqui nos havíeis de entregar nas mãos dos amorreus, e perder-nos? Utinam mansissemus trans Jordanem! Oh! nunca nós passáramos tal rio! — Assim se queixava Josué a Deus, e assim nos podemos nós queixar, e com muito maior razão que ele. Se este havia de ser o fim de nossas navegações, se estas fortunas nos esperavam nas terras conquistadas: Utinam mansissemus trans Jordanem! Prouvera a vossa divina Majestade, que nunca saíramos de Portugal, nem fiáramos nossas vidas às ondas e aos ventos, nem conhecêramos ou puséramos os pés em terras estranhas. Ganhá-las para as não lograr desgraça foi, e não ventura; possui-las para as perder, castigo foi de vossa ira, Senhor, e não mercê nem favor de vossa liberalidade. Se determináveis dar estas mesmas terras aos piratas de Holanda, por que lhas não destes enquanto eram agrestes e incultas, senão agora? Tantos serviços vos tem feito esta gente pervertida e apóstata, que nos mandastes primeiro cá por seus aposentadores, para lhes lavrarmos as terras, para lhes edificarmos as cidades, e, depois de cultivadas e enriquecidas, lhas entregardes? Assim se hão de lograr os hereges e inimigos da fé dos trabalhos portugueses e dos suores católicos? En queis consevimus agros (19): Eis aqui para quem trabalhamos há tantos anos! — Mas, pois vós, Senhor, o quereis e ordenais assim, fazei o que fordes servido. Entregai aos holandeses o Brasil, entregai-lhes as Índias, entregai-lhes as Espanhas — que não são menos perigosas as conseqüências do Brasil perdido — entregai-lhes quanto temos e possuímos como já lhes entregastes tanta parte — ponde em suas mãos o mundo, e a nós, aos portugueses e espanhóis, deixai-nos, repudiai-nos, desfazei-nos, acabai-nos. Mas só digo e lembro a Vossa Majestade, Senhor, que estes mesmos, que agora desfavoreceis e lançais de vós, pode ser que os queirais algum dia, e que os não tenhais.

Não me atrevera a falar assim, se não tirara as palavras da boca de Jó que, como tão lastimado, não é muito entre muitas vezes nesta tragédia. Queixava-se o exemplo da paciência a Deus — que nos quer Deus sofridos, mas não insensíveis — queixava-se do tesão de suas penas, demandando e altercando porque se lhe não havia de remitir e afrouxar um pouco o rigor delas, e como a todas as réplicas e instâncias o Senhor se mostrasse inexorável, quando já não teve mais que dizer, concluiu assim: Ecce nunc in pulvene dormiam, et si mane me quoesieris, non subsistam (Jó 7,21): Já que não quereis, Senhor, desistir ou moderar o tormento, já que não quereis senão continuar o rigor, e chegar com ele ao cabo, seja muito embora, matai-me, consumi-me, enterrai-me: Ecce nunc in pulvere dormiam. Mas só vos digo e vos lembro uma coisa, que se me buscardes amanhã, que me não haveis de achar: Et si mane me quoesieris, non subsistam. Tereis aos sabeus, tereis aos caldeus, que sejam o roubo e o açoite de vossa casa, mas não achareis a um Jó que a sirva, não achareis a um Jó que a venere, não achareis a um Jó que, ainda com suas chagas, a não desautorize. — O mesmo digo eu, Senhor, que não é muito rompa nos mesmos afetos que se vê no mesmo estado. Abrasai, destruí, consumi-nos a todos; mas pode ser que algum dia queirais espanhóis e portugueses, e que os não acheis. Holanda vos dará os apostólicos conquistadores, que levem pelo mundo os estandartes da cruz; Holanda vos dará os pregadores evangélicos, que semeiem nas terras dos bárbaros a doutrina católica e a reguem com o próprio sangue; Holanda defenderá a verdade de vossos Sacramentos e a autoridade da Igreja Romana; Holanda edificará templos, Holanda levantará altares, Holanda consagrará sacerdotes, e oferecerá o sacrifício de vosso Santíssimo Corpo; Holanda, enfim, vos servirá e venerará tão religiosamente, como em Amsterdã, Meldeburg e Flisinga, e em todas as outras colônias daquele frio e alagado inferno, se está fazendo todos os dias.


 

IV

Bem vejo que me podeis dizer, Senhor, que a propagação de vossa fé, e as obras de vossa glória não dependem de nós, nem de ninguém, e que sois poderoso, quando faltem homens, para fazer das pedras filhos de Abraão. Mas também a vossa sabedoria e a experiência de todos os séculos nos tem ensinado que depois de Adão não criastes homens de novo, que vos servis dos que tendes neste mundo, e que nunca admitis os menos bons, senão em falta dos melhores. Assim o fizestes na parábola do banquete. Mandastes chamar os convidados que tínheis escolhido, e porque eles se escusaram e não quiseram vir, então admitistes os cegos e mancos, e os introduzistes em seu lugar: Caecos et claudos introduc huc (20). Se esta é, Deus meu, a regular disposição de vossa Providência divina, como a vemos agora tão trocada em nós, e tão diferente conosco? Quais foram estes convidados, e quais são estes cegos e mancos? Os convidados somos nós, a quem primeiro chamastes para estas terras, e nelas nos pusestes a mesa tão franca e abundante, como de vossa grandeza se podia esperar. Os cegos e mancos são os luteranos e os calvinistas, cegos sem fé e mancos sem obras, na reprovação das quais consiste o principal erro da sua heresia. Pois, se nós, que somos os convidados, não nos escusamos nem duvidamos de vir, antes rompemos por muitos inconvenientes, em que pudéramos duvidar, se viemos e nos assentamos à mesa, como nos excluis agora, e lançais fora dela, e introduzis violentamente os cegos e mancos, e dais os nossos lugares ao herege? Quando em tudo o mais foram eles tão bons como nós, ou nós tão maus como eles, por que nos não há de valer pelo menos o privilégio e prerrogativa da fé? Em tudo parece, Senhor, que trocais os estilos de vossa Providência e mudais as leis de vossa justiça conosco.

Aquelas dez virgens do nosso Evangelho, todas se renderam ao sono, todas adormeceram, todas foram iguais no mesmo descuido: Dormitaverunt omnes, et dormierunt (21). E, contudo, a cinco delas passou-lhes o esposo por este defeito, e só porque conservaram as lâmpadas acesas, mereceram entrar às bodas, de que as outras foram excluídas. Se assim é, Senhor meu, se assim o julgastes então — que vós sois aquele esposo divino — por que não nos vale a nós também conservar as lâmpadas da fé acesas, que no herege estão tão apagadas e tão mortas? É possível que haveis de abrir as portas a quem traz as lâmpadas apagadas, e que as haveis de fechar a quem as tem acesas? Reparai, Senhor, que não é autoridade do vosso divino tribunal, que saiam dele no mesmo çaso duas sentenças tão encontradas. Se às que deixaram apagar as lâmpadas se disse: Nescio vos (22),se para elas se fecharam as portas: Clausa est janua (23), quem merece ouvir de vossa boca um nescio vos tremendo, senão o herege que vos não conhece? E a quem deveis dar com a porta nos olhos, senão ao herege, que os tem tão cegos? Mas eu vejo que nem esta cegueira, nem este desconhecimento, tão merecedores de vosso rigor, lhes retarda o progresso de suas fortunas, antes a passo largo se vêm chegando a nós suas armas vitoriosas, e cedo nos baterão às portas desta vossa cidade. Desta vossa cidade, disse, mas não sei se o nome do Salvador, com que a honrastes, a salvará e defenderá, como já outra vez não defendeu; nem sei se estas nossas deprecações, posto que tão repetidas e continuadas, acharão acesso a vosso conspecto divino, pois há tantos anos que está bradando ao céu a nossa justa dor, sem vossa demência dar ouvidos a nossos clamores.

Se acaso for assim — o que vós não permitais — e está determinado em vosso secreto juízo, que entrem os hereges na Bahia, o que só vos represento humildemente, e muito deveras, é que, antes da execução da sentença, repareis bem, Senhor, no que vos pode suceder depois, e que o consulteis com vosso coração enquanto é tempo, porque melhor será arrepender agora, que quando o mal passado não tenha remédio. Bem estais na intenção e alusão com que digo isto, e na razão, fundada em vós mesmo, que tenho para o dizer. Também antes do dilúvio estáveis vós mui colérico e irado contra os homens, e por mais que Noé orava em todos aqueles cem anos, nunca houve remédio para que se aplacasse vossa ira. Romperam-se enfim as cataratas do céu, cresceu o mar até os cumes dos montes, alagou-se o mundo todo: já estaria satisfeita vossa justiça, senão quando ao terceiro dia começaram a boiar os corpos mortos, e a surgir e aparecer em multidão infinita aquelas figuras pálidas, e então se representou sobre as ondas a mais triste e funesta tragédia que nunca viram os anjos, que homens que a vissem, não os havia. Vistes vós também — como se o vísseis de novo — aquele lastimosíssimo espetáculo, e posto que não chorastes, porque ainda não tínheis olhos capazes de lágrimas, enterneceram-se porém as entranhas de vossa divindade, com tão intrínseca dor: Tactus dolore cordis intrinsecus (24), que do modo que em vós cabe arrependimento, vos arrependestes do que tínheis feito ao mundo, e foi tão inteira a vossa contrição, que não só tivestes pesar do passado, senão propósito firme de nunca mais o fazer: Nequaquam ultra maledicam terrae propter homines(25). Este sois, Senhor, este sois; e pois sois este, não vos tomeis com vosso coração. Para que é fazer agora valentias contra ele, se o seu sentimento e o vosso as há de pagar depois? Já que as execuções de vossa justiça custam arrependimento à vossa bondade, vede o que fazeis antes que o façais; não vos aconteça outra. E para que o vejais com cores humanas, que já vos não são estranhas, dai-me licença que eu vos represente primeiro ao vivo as lástimas e misérias deste futuro dilúvio, e se esta representação vos não enternecer, e tiverdes entranhas para o ver sem grande dor, executai-o embora.

Finjamos pois — o que até fingido e imaginado faz horror, finjamos que vem a Bahia e o resto do Brasil a mãos dos holandeses: que é o que há de suceder em tal caso? Entrarão por esta cidade com fúria de vencedores e de hereges; não perdoarão a estado, a sexo nem a idade; com os fios dos mesmos alfanjes medirão a todos. Chorarão as mulheres, vendo que se não guarda decoro à sua modéstia; chorarão os velhos, vendo que se não guarda respeito às suas cãs; chorarão os nobres, vendo que se não guarda cortesia à sua qualidade; chorarão os religiosos e veneráveis sacerdotes, vendo que até as coroas sagradas os não defendem; chorarão, finalmente, todos, e entre todos mais lastimosamente os inocentes, porque nem a estes perdoará — como em outras ocasiões não perdoou — a desumanidade herética. Sei eu, Senhor, que só por amor dos inocentes dissestes vós alguma hora que não era bem castigar a Nínive. Mas não sei que tempos nem que desgraça é esta nossa, que até a mesma inocência vos não abranda. Pois também a vós, Senhor, vos há de alcançar parte do castigo — que é o que mais sente a piedade cristã — também a vós há de chegar.

Entrarão os hereges nesta igreja e nas outras; arrebatarão esta custódia em que agora estais adorado dos anjos; tomarão os cálices e vasos sagrados, e aplicá-los-ão a suas nefandas embriaguezes. Derrubarão dos altares os vultos e estátuas dos santos, deformá-las-ão a cutiladas, e metê-las-ão no fogo, e não perdoarão as mãos furiosas e sacrílegas nem as imagens tremendas de Cristo crucificado, nem as da Virgem Maria. Não me admiro tanto, Senhor, de que hajais de consentir semelhantes agravos e afrontas nas vossas imagens, pois já as permitistes em vosso sacratíssimo corpo; mas nas da Virgem Maria, nas de vossa Santíssima Mãe, não sei como isto pode estar com a piedade e amor de Filho. No Monte Calvário esteve esta Senhora sempre ao pé da cruz, e com serem aqueles algozes tão descorteses e cruéis, nenhum se atreveu a lhe tocar nem a lhe perder o respeito. Assim foi e assim havia de ser, porque assim o tínheis vós prometido pelo profeta: Flagellum non apropinquabit tabernaculo tuo(26). Pois, Filho da Virgem Maria, se tanto cuidado tivestes então do respeito e decoro de vossa Mãe, como consentis agora que se lhe façam tantos desacatos? Nem me digais, Senhor, que lá era a pessoa, cá a imagem. Imagem somente da mesma Virgem era a Arca do Testamento, e só porque Oza a quis tocar, lhe tirastes a vida. Pois, se então havia tanto rigor para quem ofendia a imagem de Maria, por que o não há também agora? Bastava então qualquer dos outros desacatos às coisas sagradas, para uma severíssima demonstração vossa, ainda milagrosa. Se a Jeroboão, porque levantou a mão para um profeta, se lhe secou logo o braço milagrosamente, como aos hereges, depois de se atreverem a afrontar vossos santos, lhes ficam ainda braços para outros delitos? Se a Baltasar, por beber pelos vasos do templo, em que não se consagrava vosso sangue, o privastes da vida e do reino, por que vivem os hereges, que convertem vossos cálices a usos profanos? Já não há três dedos que escrevam sentença de morte contra sacrílegos?

Enfim, Senhor, despojados assim os templos, e derrubados os altares, acabar-se-á no Brasil a cristandade católica, acabar-se-á o culto divino, nascerá erva nas igrejas como nos campos, não haverá quem entre nelas. Passará um dia de Natal, e não haverá memória de vosso nascimento; passará a Quaresma e a Semana Santa, e não se celebrarão os mistérios de vossa Paixão. Chorarão as pedras das ruas, como diz Jeremias que choravam as de Jerusalém destruída: Viae Sion lugent, eo quod non sint qui veniant ad solemnitatem (27). Ver-se-ão ermas e solitárias, e que as não pisa a devoção dos fiéis, como costumava em semelhantes dias. Não haverá missas, nem altares, nem sacerdotes que as digam; morrerão os católicos sem confissão nem sacramentos; pregar-se-ão heresias nestes mesmos púlpitos, e, em lugar de São Jerônimo e Santo Agostinho, ouvir-se-ão e alegar-se-ão neles os infames nomes de Calvino e Lutero; beberão a falsa doutrina os inocentes que ficarem, relíquias dos portugueses, e chegaremos a estado, que, se perguntarem aos filhos e netos dos que aqui estão: — Menino, de que seita sois? — um responderá: — Eu sou calvinista — outro: Eu sou luterano. — Pois isto se há de sofrer, Deus meu? Quando quisestes entregar vossas ovelhas a São Pedro, examinaste-lo três vezes se vos amava: Diligis me, diligis me, diligis me (Jo. 21,15 s)? E agora as entregais desta maneira, não a pastores, senão aos lobos? Sois o mesmo, ou sois outro? Aos hereges o vosso rebanho? Aos hereges as almas? Como tenho dito e nomeei almas, não vos quero dizer mais. Já sei, Senhor, que vos haveis de enternecer e arrepender, e que não haveis de ter coração para ver tais lástimas e tais estragos. E se assim é — que assim o estão prometendo vossas entranhas piedosíssimas — se é que há de haver dor, se é que há de haver arrependimento depois, cessem as iras, cessem as execuções agora, que não é justo vos contente antes o de que vos há de pesar em algum tempo.

Muito honrastes, Senhor, ao homem na criação do mundo, formando-o com vossas próprias mãos, informando-o e animando-o com vosso próprio alento, e imprimindo nele o caráter de vossa imagem e semelhança. Mas parece que logo, desde aquele mesmo dia, vos não contentastes dele, porque de todas as outras coisas que criastes, diz a Escritura que vos pareceram bem: Vidit Deus quod esset bonum (28)e só do homem o não diz. Na admiração desta misteriosa reticência andou desde então suspenso e vacilando o juízo humano, não podendo penetrar qual fosse a causa por que, agradando-vos com tão pública demonstração todas as vossas obras, só do homem, que era a mais perfeita de todas, não mostrásseis agrado. Finalmente, passados mais de mil e setecentos anos, a mesma Escritura, que tinha calado aquele mistério, nos declarou que vós estáveis arrependido de ter criado o homem: Poenituit eum quod hominem fecisset in terra(29)e que vós mesmo dissestes que vos pesava: Poenitet me fecisse eos (30)e então ficou patente e manifesto a todos o segredo que tantos tempos tínheis ocultado. E vós, Senhor, dizeis que vos pesa e que estais arrependido de ter criado o homem, pois essa é a causa por que logo, desde o princípio de sua criação vos não agradastes dele nem quisestes que se dissesse que vos parecera bem, julgando, como era razão, por coisa muito alheia de vossa Sabedoria e Providência, que em nenhum tempo vos agradasse nem parecesse bem aquilo de que depois vos havíeis de arrepender e ter pesar de ter feito: Poenitet me fecisse. Sendo, pois, esta a condição verdadeiramente divina, e a altíssima razão de estado de vossa Providência, não haver jamais agrado do que há de haver arrependimento, e sendo também certo, nas piedosíssimas entranhas de vossa misericórdia, que se permitirdes agora as lástimas, as misérias, os estragos que tenho representado, é força que vos há de pesar depois e vos haveis de arrepender, arrependei-vos, misericordioso Deus, enquanto estamos em tempo, ponde em nós os olhos de vossa piedade, ide à mão à vossa irritada justiça, quebre vosso amor as setas de vossa ira, e não permitais tantos danos, e tão irreparáveis. Isto é o que vos pedem, tantas vezes prostradas diante de vosso divino acatamento, estas almas tão fielmente católicas, em nome seu e de todas as deste estado. E não vos fazem esta humilde deprecação pelas perdas temporais, de que cedem, e as podeis executar neles por outras vias, mas pela perda espiritual eterna de tantas almas, pelas injúrias de vossos templos e altares, pela exterminação do sacrossanto sacrifício de vosso Corpo e Sangue, e pela ausência insofrível, pela ausência e saudades desse Santíssimo Sacramento, que não sabemos quanto tempo teremos presente.

V

Chegado a este ponto, de que não sei, nem se pode passar, parece-me que nos está dizendo vossa divina e humana bondade, Senhor, que o fizéreis assim facilmente, e vos deixaríeis persuadir e convencer destas nossas razões, senão que está clamando, por outra parte, vossa divina justiça, e, com o sois igualmente justo e misericordioso, que não podeis deixar de castigar, sendo os pecados do Brasil tantos e tão grandes. Confesso, Deus meu, que assim é, e todos confessamos que somos grandíssimos pecadores. Mas tão longe estou de me aquietar com esta resposta, que antes estes mesmos pecados, muitos e grandes, são um novo e poderoso motivo, dado por vós mesmo, para mais convencer vossa bondade.

A maior força dos meus argumentos não consistiu em outro fundamento até agora, que no crédito, na honra e na glória de vosso santíssimo nome: Propter nomem tu um. E que motivo posso eu oferecer mais glorioso ao mesmo nome, que serem muitos e grandes os nossos pecados? Propter nomem tuum, Domine, propitiaberis peccato meo: multum est enim (Sl. 24, 11): Por amor de vosso nome, Senhor, estou certo — dizia Davi — que me haveis de perdoar meus pecados, porque não são quaisquer pecados, senão muitos e grandes: Multum est enim. — Oh! motivo digno só do peito de Deus! Oh! conseqüência, que só na suma bondade pode ser forçosa! De maneira que, para lhe serem perdoados seus pecados, alegou um pecador a Deus, que são muitos e grandes? Sim, e não por amor do pecador, nem por amor dos pecados, senão por amor da honra e glória do mesmo Deus, a qual, quanto mais e maiores são os pecados que perdoa, tanto maior é, e mais engrandece e exalta seu santíssimo nome: Propter nomem tuum, Domine, propitiaberis peccato meo: multum est enim. O mesmo Davi distingue na misericórdia de Deus grandeza e multidão; a grandeza: Secundum magnam misericordiam tuam; a multidão: Et secundum multitudinem miserationum tuarum (31). E como a grandeza da misericórdia divina é imensa, e a multidão de suas misericórdias infinitas, e o imenso não se pode medir, nem o infinito contar, para que uma e outra, de algum modo, tenha proporcionada matéria de glória, importa à mesma grandeza da misericórdia que os pecados sejam grandes, e à mesma multidão das misericórdias que sejam muitos: Multum est enim. Razão tenho eu logo, Senhor, de me não render à razão de serem muitos e grandes nossos pecados. E razão tenho também de instar em vos pedir a razão por que não desistis de os castigar: Quare obdormis? Quare faciem tuam avertis? Quare oblivisceris inopiae nostrae et tribulationis nostrae(32)?

Esta mesma razão vos pediu Jó, quando disse: Cur non tollis peccatum meum, et quare non aufers iniquitatem meam (33)? E posto que não faltou um grande intérprete de vossas Escrituras que argüisse por vossa parte, enfim se deu por vencido, e confessou que tinha razão Jó em vo-la pedir: Criminis in loco Deo impingis, quod ejus, qui deli quit, non miseretur? — diz São Cirilo Alexandrino. Basta, Jó, que criminais e acusais a Deus de que castiga vossos pecados? Nas mesmas palavras confessais que cometestes pecados e maldades, e com as mesmas palavras pedis razão a Deus porque as castiga? Isto é dar a razão, e mais pedi-la. Os pecados e maldades, que não ocultais, são a razão do castigo: pois, se dais a razão, por que a pedis? Porque ainda que Deus, para castigar os pecados, tem a razão de sua justiça, para os perdoar e desistir do castigo, tem outra razão maior, que é a da sua glória: Qui enim misereri consuevit, et non vulgarem in eo gloriam habei, obquam causam mei non miseretur? Pede razão Jó a Deus, e tem muita razão de a pedir — responde por ele o mesmo santo que o argüiu — porque se é condição de Deus usar de misericórdia, e é grande e não vulgar a glória que adquire em perdoar pecados, que razão tem, ou pode dar bastante, de os não perdoar? O mesmo Jó tinha já declarado a força deste seu argumento nas palavras antecedentes, com energia para Deus muito forte: Peccavi, quid faciam tibi (34)? Como se dissera: — Se eu fiz, Senhor, como homem em pecar, que razão tendes vós para não fazer como Deus em me perdoar? — Ainda disse e quis dizer mais: Peccavi, quid faciam tibi? Pequei, que mais vos posso fazer? — E que fizestes vós, Jó, a Deus em pecar? — Não lhe fiz pouco, porque lhe dei ocasião a me perdoar, e, perdoando-me, ganhar muita glória. Eu dever-lhe-ei a ele, como a causa, a graça que me fizer, e ele dever-me-á a mim, como a ocasião, a glória que alcançar.

E se é assim, Senhor, sem licença nem encarecimento, se é assim, misericordioso Deus, que em perdoar pecados se aumenta a vossa glória, que é o fim de todas vossas ações, não digais que nos não perdoais porque são muitos e grandes os nossos pecados, que antes, porque são muitos e grandes, deveis dar essa grande glória à grandeza e multidão de vossas misericórdias. Perdoando-nos e tendo piedade de nós, é que haveis de ostentar a soberania de vossa majestade, e não castigando-nos, em que mais se abate vosso poder, do que se acredita. Vede-o neste último castigo, em que, contra toda a esperança do mundo e de tempo, fizestes que se derrotasse a nossa armada, a maior que nunca passou a equinocial. Pudestes, Senhor, derrotá-la, e que grande glória foi de vossa onipotência poder o que pode o vento? Contra folium, quod vento rapitur; ostendis potentiamt (35). Desplantar uma nação, como nos ides desplantando, e plantar outra, também é poder que vós cometestes a um homenzinho de Anatot: Ecce constitui te super gentes et super regna, ut evellas, et destruas, et disperdas, et dissipes, et aedifices, et plantes (36). O em que se manifesta a majestade, a grandeza e a glória de vossa infinita onipotência, é em perdoar e usar de misericórdia: Qui omnipotentiam tuam, parcendo maxime, et miserando, manifestas. Em castigar, venceis-nos a nós, que somos criaturas fracas, mas em perdoar, venceis-vos a vós mesmo, que sois todo-poderoso e infinito. Só esta vitória é digna de vós, porque só vossa justiça pode pelejar com armas iguais contra vossa misericórdia; e, sendo infinito o vencido, infinita fica a glória do vencedor. Perdoai, pois, benigníssimo Senhor, por esta grande glória vossa: Propter magnam gloriamtuam: Perdoai por esta glória imensa de vosso santíssimo nome: Propter nomem tuum.

E se acaso ainda reclama vossa divina justiça, por certo não já misericordioso, senão justíssimo Deus, que também a mesma justiça se pudera dar por satisfeita com os rigores e castigos de tantos anos. Não sois vós, enquanto justo, aquele justo juiz de quem canta o vosso profeta: Deus, judex justus, fortis et patiens, nunquid irascitur per singulos dies (37)? Pois se a vossa ira, ainda como de justo juiz, não é de todos os dias, nem de muitos, por que se não dará por satisfeita com rigores de anos, e tantos anos? Sei eu, legislador supremo, que nos casos de ira, posto que justificada, nos manda vossa santíssima lei que não passe de um dia, e que, antes de se pôr o sol, tenhamos perdoado: Sol non occidat super iracundiam vestram (38). Pois, se da fraqueza humana, e tão sensitiva, espera tal moderação nos agravos vossa mesma lei, e lhe manda que perdoe e se aplaque em termo tão breve e tão preciso, vós que sois Deus infinito, e tendes um coração tão dilatado como vossa mesma imensidade, e em matéria de perdão vos propondes aos homens por exemplo, como é possível que os rigores de vossa ira se não abrandem em tantos anos, e que se ponha e torne a nascer o sol tantas e tantas vezes, vendo sempre desembainhada e correndo sangue a espada de vossa vingança? Sol de justiça, cuidei eu que vos chamavam as Escrituras (Mal. 4,2), porque, ainda quando mais fogoso e ardente, dentro do breve espaço de doze horas passava o rigor de vossos raios; mas não o dirá assim este sol material que nos alumia e rodeia, pois há tantos dias e tantos anos que, passando duas vezes sobre nós de um trópico a outro, sempre vos vê irado.

Já vos não alego, Senhor, com o que dirá a terra e os homens, mas com o que dirá o céu e o mesmo sol. Quando Josué mandou parar o sol, as palavras da língua hebraica em que lhe falou foram não que parasse, senão que se calasse: Sol, tace contra Gabaon (39). Calar mandou ao sol o valente capitão, porque aqueles resplendores amortecidos, com que se ia sepultar no ocaso, eram umas línguas mudas, com que o mesmo sol o murmurava de demasiadamente vingativo; eram umas vozes altíssimas, com que desde o céu lhe lembrava a lei de Deus, e lhe pregava que não podia continuar a vingança, pois ele se ia meter no Ocidente: Sol non occidat super iracundiam vestram. E se Deus, como autor da mesma lei, ordenou que o sol parasse, e aquele dia — o maior que viu o mundo — excedesse os termos da natureza por muitas horas, e fosse o maior, foi para que, concordando a justa lei com a justa vingança, nem por uma parte se deixasse de executar o rigor do castigo, nem por outra se dispensasse no rigor do preceito. Castigue-se o gabaonita, pois é justo castigá-lo, mas esteja o sol parado até que se acabe o castigo, para que a ira, posto que justa, do vencedor, não passe os limites de um dia. Pois, se este é, Senhor, o termo prescrito de vossa lei, se fazeis milagres, e tais milagres, para que ela se conserve inteira, e se Josué manda calar e emudecer o sol, por que se não queixe e dê vozes contra a continuação de sua ira, que quereis que diga o mesmo sol não parado nem emudecido? Que quereis que diga a lua e as estrelas, já cansadas de ver nossas misérias? Que quereis que digam todos esses céus criados, não para apregoar vossas justiças, senão para cantar vossas glórias: Caeli enarrant gloriam Dei (40)?

Finalmente, benigníssimo Jesus, verdadeiro Josué e verdadeiro sol, seja o epílogo e conclusão de todas as nossas razões o vosso mesmo nome: Propter nomem tuum. Se o sol estranha a Josué rigores de mais de um dia, e Josué manda calar o sol por que lhos não estranhe, como pode estranhar vossa divina justiça que useis conosco de misericórdia, depois da execução de tantos e tão rigorosos castigos, continuados não por um dia ou muitos dias de doze horas, senão por tantos e tão compridos anos, que cedo serão doze? Se sois Jesus, que quer dizer Salvador, sede Jesus e sede Salvador nosso. Se sois sol, e sol de justiça, antes que se ponha o deste dia, deponde os rigores da vossa. Deixai já o signo rigoroso de Leão, e dai um passo ao signo de Virgem, signo propício e benéfico. Recebei influências humanas de quem recebestes a humanidade. Perdoai-nos, Senhor, pelos merecimentos da Virgem Santíssima. Perdoai-nos por seus rogos, ou perdoai-nos por seus impérios, que se como criatura vos pede por nós o perdão, como Mãe vos pode mandar, e vos manda que nos perdoeis. Perdoai-nos, enfim, para que a vosso exemplo perdoemos, e perdoai-nos também a exemplo nosso, que todos, desde esta hora, perdoamos a todos por vosso amor: Dimitte nobis debita nostra, sicut et nos dimittimus debitoribus nosiris. Amen (41).

(1) Levanta-te, por que dormes, Senhor? Levanta-te e não nos desampares para sempre. Por que apartas teu rosto, e te esqueces da nossa miséria e da nossa tribulação? Levanta-te, Senhor, ajuda-nos, e resgata-nos por amor de teu nome (Sl. 43,23,24,26).

(2) Nós, ó Deus, com as nossas orelhas ouvimos: nossos pais nos anunciaram a obra que fizestes nos dias deles e nos dias antigos (Sl. 43,2).

(3) A tua mão exterminou as gentes, e os plantaste a eles; a afligiste os povos, e os lançaste fora (Sl. 43,3).

(4) Porque não com a sua espada que possuíram a terra, e o seu braço não os salvou, senão a tua destra, e o teu braço, e aluz do teu rosto, porque te comprazeste neles. (Sl. 43,4).

(5) Mas agora tu nos lançaste fora e cobriste de confusão, e tu, ó Deus, não andarás à testa dos nossos exércitos (Sl. 43,10).

(6) Tu nos fizeste voltar as costas a nossos inimigos, e que fôssemos presa dos que nos tinham em aborrecimento. (Sl. 43, 11).

(7) Tu nos entregaste como ovelhas de matadouro, e nos espalhaste entre as nações (Sl. 43,12).

(8) Puseste-nos por opróbrio aos nossos vizinhos, por escárnio e zombaria àqueles que estão ao redor de nós (Sl. 43,14).

(9) Tu mesmo és o meu rei, que dispões as salvações de Jacó (Sl. 43,5).

(10) Quero estabelecer em e na tua descedência o meu império.

(11) Senhor, a ti não se te dá? (Lc. 10,40).

(12) Tu és justo, Senhor, e é reto o teu juízo. (Sl. 118, 137).

(13) Não fazemos estas deprecações fundados em alguns merecimentos da nossa justiça, mas sim na multidão das tuas misericórdias. (Dan. 9,18).

(14) Deixa que se acenda o furor da minha indignação contra eles, e que eu os consuma. (Êx. 32,10).

(15) Não permitas, te rogo, que digam os egípcios: Ele os tirou do Egito astutamente para matar nos montes, e para os extinguir da terra. (Êx. 32,12).

(16) Porventura parece-te bem caluniares-me e oprimires-me a mim que sou obra das tuas mãos, e favoreces o desígnio dos ímpios. (Jó 10,3).

(17) Porque os dons de Deus são imutáveis. (Rom. 11,29).

(18) Eles os tirou do Egito astutamente para os matar e para os extinguir da terra. (Êx. 32,12).

(19) Virgil.

(20) Traze-me cá os cegos e os coxos. (Lc. 14,21).

(21) Começaram a toscanejar todas, e assim vieram a dormir. (Mt. 25,5).

(22) Não vos conheço (Mt. 25,12).

(23) Fechou-se a porta (Mt. 25,10).

(24) Tocado interiormente de dor. (Gên. 6,6).

(25) Não amaldiçoarei mais a terra por causa dos homens (Gên. 8,21).

(26) O flagelo não apriximará à tu tenda. (Sl. 90,10).

(27) As ruas de Sião choram, porque não há quem venha às solenidades. (Lam. 1,4).

(28) E viu Deus que isto era bom. (Gên. 1,10).

(29) Pesou-lhe de ter criado o homem na terra. (Gên. 6,6).

(30) Porque me pesa de os ter feito. (Gên. 6,7).

(31) Segundo a tua grande misericórdia, e segundo as muitas mostras da tua clemência. (Sl. 50,3).

(32) Por que dormes? Por que apartas teu rosto? Por que te esqueces da nossa miséria e da nossa tribulação? (Sl. 43,23s).

(33) Por que não me tiras o meu pecado, e por que não apagas a minha iniqüidade (Jó 7,21)?

(34) Pequei, que te farei eu? (Jó 7,20).

(35) Contra uma folha, que é arrebatada ao vento, ostentas o teu poder. (Jó 13,25).

(36) Eis aí te constituí sobre as gentes e sobre os reinos, para arrancares e destruíres, e para arruinares e dissipares, e edificares e plantares. (Jer. 1,10).

(37) Deus, juiz justo, forte e paciente, ira-se acaso todos os dias? (Sl. 7,12).

(38) Não se ponha o sol sobre a vossa ira. (Ef. 4,26).

(39) Sol detém-se sobre Gabaon. (Jos. 10,12).

(40) Os céus publicam a glória de Deus. (Sl. 18,1).

(41) Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também perdoamos aos nossos devedores. (Mt. 6,12).

 

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POETAS DO BARROCO: ALEXANDRE DE GUSMÃO, JOSÉ DA CUNHA CARDOSO E SEBASTIÃO DA ROCHA PITA

ALEXANDRE DE GUSMÃO

A Júpiter Supremo Deus do Olimpo

Nume que tens do mundo o regimento,
Se amas o bem, se odeias a maldade,
Como deixas com prêmio a iniquidade,
E assoçobrado ao são entendimento?

Como hei de crer qu'um imortal tormento,
Castigue a uma mortal leviandade?
Que seja ciência, amor ou piedade
Expor-me ao mal sem meu consentimento?

Guerras cruéis, fanáticos tiranos,
Raios, tremores, e as moléstias tristes,
Enchem o curso de pesados anos;

Se és Deus, s'isto prevês, e assim persistes,
Ou não fazes apreço dos humanos,
Ou qual dizem não és; ou não existes.

A Seus Dois Filhos Persuadindo-lhes o Conhecimento Próprio

Isto não é vaidade; é desengano
A elevação do vosso pensamento:
Dei-vos o ser, e dou-vos documento
Para fugirdes da soberba ao dano.

Esta grandeza, com que ao mundo engano,
Foi da fortuna errado movimento.
Subi; mas tive humilde nascimento:
Assim foi Viriato, assim Trajano.

Quando souberdes ler do mundo a história,
Nos dous heróis, que tomo por empresa,
Contemplareis a vossa e a minha glória.

Humildes quanto ao ser da natureza;
Ilustres nas ações; e esta memória
É só quem pode dar-vos a grandeza.

JOSÉ DA CUNHA CARDOSO

Soneto
Ao Sr. Presidente da Academia Brasílica dos Esquecidos, Sebastião da Rocha Pita

Rocha eminente, cuja prosa e metro
Sobre as asas da fama aos astros voa,
Porque a harmonia, que o teu plectro entoa,
Mais mostra ser do Céu, que do Libetro,

É tanta a majestade do teu plectro,
Que reverente o Sol desce em pessoa
A prostrar aos teus pés cetro, e coroa,
Por honrar a coroa, e mais o cetro.

Quando em prosas discretas tanto avultas,
E tanto excedes do Caístro as aves,
Vejo que a Homero, e Cícero sepultas.

Mais ignoro quais sejam mais suaves,
Se em valente eloqüência as prosas cultas,
Se em furor elegante os versos graves.

Soneto
Uma estátua de Apolo ferida e desfeita por um raio


Da ciência na imagem mais divina,
Do sacro Apolo simulacro augusto,
Emprega as iras com furor injusto
Raio fatal, que Júpiter fulmina.

Acautelado Jove a crer se inclina,
Que saber só lhe pode causar susto;
Pois com razão, e fundamento justo
Sobre os astros o sábio só domina.

Pela origem, que traz do eterno lume,
Com o poder do Deus, que os orbes move,
Só a ciência competir presume.

Por isso sobre a estátua o fogo chove,
Em vingança do susto, e do ciúme
De ir tirar a ciência o cetro a Jove.

Soneto em louvor do Presidente da Academia, o Padre Manuel Serqueyra Leal.

Nos ecos do silêncio retumbante
Sois a pompa do horrísono instrumento,
Do côncavo da Lua o pavimento,
E do Trópico austral a estrela errante.

No calor furibundo e coruscante,
Que é lúbrico da inveja firmamento,
Fostes autor do paradoxo invento,
Raio nos episódios fulminante.

Calcitrante se escrespa, e se aprofunda
Vossa pluma no Letes, excedendo
Ao cultor que de Tróia os campos lavra.

Viste meu Manuel, tal barafunda?
Pois São Pedro me leve, se eu entendo
Disto que aqui vos disse, u'a palavra.

Soneto
A modéstia de Alexandre Magno quando se lhe houveram de apresentar a mulher, mãe e filhas de Dario vencido.


Esse, a cujo poder o orbe rotundo
É por estreito esfera incompetente,
Hoje a glória alcançou mais excelente,
Hoje o troféu primeiro, e sem segundo.

Esse, em cujo valor não se acha fundo,
Em Dario triunfou de um rei potente;
Mas em si, reportado e continente
Triunfou de quem vence a todo o mundo.

Estas são as conquistas verdadeiras,
Brasões maiores, glórias mais altivas,
Que têm do seu exército as bandeiras.

Publique-se em pregões de eternos vivas
Só é capaz de ter tais prisioneiras
Quem sabe as paixões próprias ter cativas.

SEBASTIÃO DA ROCHA PITA

[Mudou o Sol o Berço refulgente]

Mudou o Sol o Berço refulgente,

Ou fez Berço do Túmulo arrogante

Galhardo onde se punha agonizante

Com luz no Ocaso, e sombras no Oriente.

Não morre agora o Sol, quer diferente

No Aspecto, se na vida semelhante

No Oriente nascer menos flamante,

E renascer mais belo no Ocidente.

Fênix de raios a uma, e outra parte

Comunica os incêndios, e fulgores,

Porém com diferença hoje os reparte.

Nasce lá no Oriente só em ardores,

No Ocidente a ilustra Ciência, e Arte

Renasce em luzes, vive em resplandores.

Endechas

[Um belo menino brincando em um Jardim com flores, o mordeu um Áspid, e logo morreu. Assunto lírico da presente Academia]

Seja o verso pequeno,

E breve o estilo

Pois o lírico Assunto

É de um menino.

Bem que belo não fora

Será preciso,

Que o poder do toante

O faço lindo.

De Nácar, e de Neve

Composto vivo,

Era cristal com alma,

Flor com sentidos.

Dera em um Jardim

Pasmo aos Jacintos,

Às Angélicas Xaque,

Mate aos Narcisos.

Ao brincar com todos

Foi de improviso,

Não de Abelha picado,

De Áspid mordido.

Cai logo coberto

De um suor tíbio,

Que por ser de Aljôfar

Era Rocio.

A morte recebeu

Em um solilóquio,

Sem que a vida lhe

Um só suspiro.

Mas ser morto decerto

Eu não o afirmo,

Porque a todos parece

Que está dormindo.

Matar por este modo,

Fraco inimigo

Sendo fatalidade,

Parece brinco.

Em um quadro de flores

Tal paracismo,

Morte foi de Jasmim,

Ou é delírio.

Ser Campo o Jardim

Deste homicídio,

Faz tão feio o lugar

Como o delito.

Das mais fermosas flores

O labirinto

Lamentando o caso

Se pôs marchito.

Um Jardim foi a Vênus

No parto abrigo

Porque sobre as flores

Nasceu Cupido.

Sendo vária a Estânciua

Aos dous Meninos,

Um encontrou afagos,

Outro castigos.

Lá na Quinta dos Padres

Foi o conflito,

Do qual tirou devassa

Padre Ministro.

Desterrou ao Áspid

Do seu distrito,

E ao menino morto

Lhe deu jazigo.

[Amor com Amor se paga, e Amoro com Amor se apaga. Assunto lírico da presente Academia]

Soneto

Deste Apótema vigilante, e cego

Uma parte confirmo, outra reprovo,

Que o Amor com Amor se paga provo,

Que o Amor com Amor se apaga nego.

Tenho os Amores um igual sossego,

Se estão pagando a fé sempre de novo

Mas a crê que se apagam me não movo,

Sendo fogo, e matéria Amor, e emprego.

Se de incêndios costuma Amor nutrir-se,

Uma chama com outra há de aumentar-se,

Que em si mesmas não devem consumir-se.

Com razão deve logo duvidar-se

Quando um Amor com outro sabe unir-se

Como um fogo com outro há de apagar-se?

(Apostila 10 de Barrroco - Literatura Brasileira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Origens e Características do Barroco

O barroco foi uma tendência artística que se desenvolveu primeiramente nas artes plásticas e depois se manifestou na literatura, no teatro e na música. O berço do barroco é a Itália do século XVII, porém se espalhou por outros países europeus como, por exemplo, a Holanda, a Bélgica, a França e a Espanha. O barroco permaneceu vivo no mundo das artes até o século XVIII. Na América Latina, o barroco entrou no século XVII, trazido por artistas que viajavam para a Europa, e permaneceu até o final do século XVIII.
O barroco se desenvolve no seguinte contexto histórico: após o processo de Reformas Religiosas, ocorrido no século XVI, a Igreja Católica havia perdido muito espaço e poder. Mesmo assim, os católicos continuavam influenciando muito o cenário político, econômico e religioso na Europa. A arte barroca surge neste contexto e expressa todo o contraste deste período: a espiritualidade e teocentrismo da Idade Média com o racionalismo e antropocentrismo do Renascimento.

Os artistas barrocos foram patrocinados pelos monarcas, burgueses e pelo clero. As obras de pintura e escultura deste período são rebuscadas, detalhistas e expressam as emoções da vida e do ser humano.
A palavra barroco tem um significado que representa bem as características deste estilo. Significa " pérola irregular" ou "pérola deformada" e representa de forma pejorativa a idéia de irregularidade.
O período final do barroco (século XVIII) é chamado de rococó e possui algumas peculiaridades, embora as principais características do barroco estão presentes nesta fase. No rococó existe a presença de curvas e muitos detalhes decorativos (conchas, flores, folhas, ramos). Os temas relacionados à mitologia grega e romana, além dos hábitos das cortes também aparecem com freqüência.

BARROCO EUROPEU
As obras dos artistas barrocos europeus valorizam as cores, as sombras e a luz, e representam os contrates. As imagens não são tão centralizadas quanto as renascentistas e aparecem de forma dinâmica, valorizando o movimento. Os temas principais são : mitologia, passagens da Bíblia e a história da humanidade. As cenas retratadas costumam ser sobre a vida da nobreza, o cotidiano da burguesia, naturezas-mortas entre outros. Muitos artistas barrocos dedicaram-se a decorar igrejas com esculturas e pinturas, utilizando a técnica da perspectiva.

As esculturas barrocas mostram faces humanas marcadas pelas emoções, principalmente o sofrimento. Os traços se contorcem, demonstrando um movimento exagerado. Predominam nas esculturas as curvas, os relevos e a utilização da cor dourada.

Podemos citar como principais artistas do barroco: o espanhol Velázquez, o italiano Caravaggio, os belgas Van Dyck e Frans Hals, os holandeses Rembrandt Vermeer e o flamengo Rubens.

BARROCO NO BRASIL

O barroco brasileiro foi diretamente influenciado pelo barroco português, porém, com o tempo, foi assumindo características próprias. A grande produção artística barroca no Brasil ocorreu nas cidade auríferas de Minas Gerais, no chamado século do ouro (século XVIII). Estas cidades eram ricas e possuíam um intensa vida cultura e artística em pleno desenvolvimento.
O principal representante do barroco mineiro foi o escultor e arquiteto Antônio Francisco de Lisboa também conhecido como Aleijadinho. Sua obras, de forte caráter religioso, eram feitas em madeira e pedra-sabão, os principais materiais usados pelos artistas barrocos do Brasil. Podemos citar algumas obras de Aleijadinho : Os Doze Profetas e Os Passos da Paixão, na Igreja de Bom Jesus de Matozinhos, em Congonhas do Campo (MG).
Outros artistas importantes do barroco brasileiro foram: o pintor mineiro Manuel da Costa Ataíde e o escultor carioca Mestre Valentim. No estado da Bahia, o barroco destacou-se na decoração das igrejas em Salvador como, por exemplo, de São Francisco de Assis e a da Ordem Terceira de São Francisco.

Principais Características do Barroco

São usados também Símbolos que traduzem a efemeridade e instabilidade das coisas tais como: fumaça vento, neve, chama, água, espuma, etc.

“Entre essas ondas claras, duvidosas,

Levai ao largo mar, com turva vela,

Tristes queixumes, lágrimas queixosas” Francisco Rodrigues Lobo

As Frases Interrogativas são usadas para refletir a dúvida e a incerteza do homem barroco.

“Porém, se acaba o Sol, por que nascia?

Se tão formosa a Luz é, por que não dura?” Gregório de Matos

Ordem inversa - Além de tornar a frase pomposa, a ordem inversa traduz pequenas partes de raciocínio. Refletindo a falta de clareza diante das coisas e a insegurança dos homens dessa época onde as duas vertentes

( Antropocentrismo X Teocentrismo ) estão agindo dentro das pessoas deixando seus pensamentos divididos.

“Se aparta do corpo a doce vida,

Domina em seu lugar a dura morte,

De que nasce tardar-me tanto a morte

Se ausente d’alma estou, que me dá a vida?” Violante do Céu

Cultismo - É o jogo de palavras, o uso abusivo de metáforas e hipérboles.

Corresponde ao excesso de detalhes das artes plásticas.

Os detalhes são usados nesse período devido a própria incerteza de que o homem está possuído, ele busca com a exposição de detalhes deixar claro para o observador tudo o que se passa em seu interior (espiritual).

As contradições que estão no íntimo de cada artista dessa época, praticamente forçam o mesmo a ser minucioso em suas criações na tentativa de explicar seus sentimentos.

“Ofendi-vos, meu Deus, é bem verdade,

É verdade, Senhor, que hei delinqüido,

Delinqüido vos tenho ...” Gregório de Matos

Conceptismo - é o jogo de idéias.

“Para um homem se ver a si mesmo, são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz.

Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos;

se tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz.

Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos.” Padre Antônio Vieira

Principais temas

Os principais temas da literatura barroca giram em torno da idéia de:

a) sobrenatural;

b) ‘morte;

c) fugacidade da vida e ilusão;

d) castigo;

e) heroísmo;

f) misticismo;

g) erotismo;

h) cenas trágicas;

i) apelo à religião, ao céu;

j) arrependimento;

k) sedução do mundo.

(Apostila 0 - zero - do Barroco - Literatura Brasileira)

 

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BARROCO – Exemplos para análise.

Gregório de Matos

A UM LIVREIRO, QUE HAVIA COMIDO

UM CANTEIRO DE ALFACES COM VINAGRE

Levou um livreiro a dente

De alface todo um canteiro,

E comeu, sendo livreiro,

Desencadernadamente.

Porém, eu digo que mente

A quem disso o quer tachar;

Antes é para notar

Que trabalhou como um mouro,

Pois meter folhas no couro

Também é encardenar.

Manuel Botelho de Oliveira

SOL E ANARDA

O Sol ostenta a graça luminosa,

Anarda por luzida se pondera;

O sol é brilhador na Quarta esfera,

Brilha Anarda na esfera de fermosa.

Fomenta o sol a chama calorosa,

Anarda ao peito viva chama altera,

O jasmim, cravo e rosa ao sol esmera,

Cria Anarda o jasmim, o cravo e a rosa.

O sol à sombra dá belos desmaios,

Com os olhos de Anarda a sombra é clara,

Pinta maios o sol, Anarda maios.

Mas (desiguais só nisto) se repara

O sol libera sempre seus raios,

Anarda de seus raios sempre avara.

Rocha Pita

:SONETO: “Quem cala vence”

Fala o Mar no contínuo movimento,

O fogo em línguas as Esferas toca,

A terra em terremotos abre a boca,

Em sibilantes sopros silva o vento.

Logo como a dizer seu sentimento

Uma alma racional se não provoca,

Quando o silêncio pelas vozes troca

Sem uso de razão cada Elemento?

Como pode vencer quem pouco ativo?

Não manda à boca, quanto o peito encerra

E, estando mudo, não parece vivo.

Só triunfa em falar, em calar erra,

O racional vivente discursivo

Falando o vento, o Fogo, o Mar e a Terra.

Gregório de Matos -

Aos Afetos e Lágrimas Derramadas na

Ausência da Dama a Quem Queria Bem

- Ao mesmo Assunto e na Mesma Ocasião.

Corrente, que do peito destilada

Sois por dois belos olhos despedida;

E por carmim correndo dividida

Deixais o ser, levais a cor mudada.

Não sei, quando caís precipitada,

Às flores que regais tão parecida,

Se sois neves por rosa derretida,

Ou se rosa por neve desfolhada.

Essa enchente gentil de prata fina,

Que de rubi por conchas se dilata,

Faz troca tão diversa peregrina,

Que no objeto, que mostra, ou que retrata,

Mesclando a cor púrpurea, à cristalina,

Não sei quando é rubi, ou quando é prata.

Domingos Lourenço de Castro

SONETO QUATER ACRÓSTICO

Do Modulante Orfeu Invicto,e Raro,

O alento Egrégio Mova Eternamente,

Invias Esferas, Onde Instantaneamente

Lustrosos Xefes São luso Reparo.

Lusitânia em Cântico Excelso, E caro,

Uivas cante Entre Ñós Diuturnamente

Sendo assunto Luzido, O que Eminente

Tem sido Luz do Rio, e seu Amparo.

Recite Europa Grande a Nosso intento

Ilustrada No plectro O mais Donoso

Ser do Tonante Mais Rarificado

Soberano, Inclito, E honroso Assento

Inste o Rio Seu Ser de mais Ditoso

Mostrando-o em Si na Fama Altificado.

Anastácio Ayres de Penhafiel

LABIRINTO CÚBICO

I N U T R O Q U E C E S A R

N I N U T R O Q U E C E S A

U N I N U T R O Q U E C E S

T U N I N U T R O Q U E C E

R T U N I N U T R O Q U E C

O R T U N I N U T R O Q U E

Q O R T U N I N U T R O Q U

U Q O R T U N I N U T R O Q

E U Q O R T U N I N U T R O

C E U Q O R T U N I N U T R

E C E U Q O R T U N I N U T

S E C E U Q O R T U N I N U

A S E C E U Q O R T U N I N

R A S E C E U Q O R T U N I

(Gregório de Matos)

(Apostila 1 de Barroco

 

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BENTO TEIXEIRA - PROSOPOPÉIA

I

Cantem Poetas o Poder Romano,

Sobmetendo Nações ao jugo duro;

O Mantuano pinte o Rei Troiano,

Descendo à confusão do Reino escuro;

Que eu canto um Albuquerque soberano,

Da Fé, da cara Pátria firme muro,

Cujo valor e ser, que o Ceo lhe inspira,

Pode estancar a Lácia e Grega lira.

II

As Délficas irmãs chamar não quero,

que tal invocação é vão estudo;

Aquele chamo só, de quem espero

A vida que se espera em fim de tudo.

Ele fará meu Verso tão sincero,

Quanto fora sem ele tosco e rudo,

Que per rezão negar não deve o menos

Quem deu o mais a míseros terrenos.

XIII

Toca a Trobeta com crescido alento,

Engrossa as veas, move os elementos,

E, rebramando os ares com o acento,

Penetra o vão dos infinitos assentos.

Os Pólos que sustem o firmamento,

Abalados dos próprios fundamentos,

Fazem tremer a terra e Ceo jucundo,

E Neptuno gemer no Mar profundo.

XIV

O qual vindo da vã concavidade,

Em Carro Triunfal, com seu tridente,

Traz tão soberba pompa e majestade,

Quanta convém a Rei tão excelente.

Vem Oceano, pai de mor idade,

Com barba branca, com cerviz tremente:

Vem Glauco, vem Nereu, Deoses Marinhos,

Correm ligeros Focas e Golfinhos.

XV

Vem o velho Proteu, que vaticina

(Se fé damos à velha antiguidade)

Os males a que a sorte nos destina,

Nascidos da mortal temeridade.

Vem numa e noutra forma peregrina,

Mudando a natural propriedade.

Não troque a forma, venha confiado,

Se não quer de Aristeu ser sojigado.

XVI

Tétis, que em ser fermosa se recrea,

Traz das Ninfas o coro brando e doce :

Clímene, Efire, Ópis, Panopea,

Com Béroe, Talia, Cimodoce;

Drimo, Xanto, Licórias, Deiopea,

Aretusa, Cidipe, Filodoce,

Com Eristea, Espio, Semideas,

Após as quais, cantando, vem Sereas.

XIX

Em o meio desta obra alpestre e dura,

ô a boca rompeo o Mar inchado,

Que, na língua dos bárbaros escura,

Paranambuco de todos ‚ chamado.

de Para’na, que é Mar; Puca, rotura,

Feita com fúria desse Mar salgado,

Que, sem no dirivar cometer míngua,

Cova do Mar se chama em nossa língua.

XX

Pera entrada da barra, à parte esquerda,

Está ua lajem grande e espaçosa,

Que de Piratas fora total perda,

Se ô a torre tivera sumptuosa.

Mas quem por seus serviços bons não herda

Desgosta de fazer cousa lustrosa,

Que a condição do Rei que não é franco

O vassalo faz ser nas obras manco.

XXXV

Ó sorte tão cruel, como mudável,

Por que usurpas aos bons o seu direito?

Escolhes sempre o mais abominável,

Reprovas e abominas o perfeito,

O menos digno fazes agradável,

O agradável mais, menos aceito.

Ó frágil, inconstante, quebradiça,

Roubadora dos bens e da justiça!

XLV

Porque Lémnio cruel, de quem descende

A Bárbara progênie e insolência,

Vendo que o Albuquerque tanto ofende

Gente que dele tem a descendência,

Com mil meos ilícitos pretende

Fazer irreparável resistência

Ao claro Jorge, baroil e forte,

Em quem não dominava a vária sorte.

LIV

"Estas palavras tais, do cruel peito,

Soltará dos Ciclopes o tirano,

As quais procurará pôr em efeito,

Às cavernas descendo do Oceano.

E com mostras d’amor brando e aceito,

De ti, Neptuno claro e soberano,

Alcançará seu fim: o novo jogo,

Entrar no Reino d’Água o Rei do fogo.

LXXXVII

"Assim dirá: mas eles sem respeito

À honra e ser de seus antepassados

Com pálido temor no frio peito,

Irão per várias partes derramados.

Duarte, vendo neles tal defeito,

Lhe dirá": - Corações efeminados,

Lá contareis aos vivos o que vistes,

Porque eu direi aos mortos que fugistes.

 

 

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BENTO TEIXEIRA - PROSOPOPÉIA

I

Cantem Poetas o Poder Romano,

Sobmetendo Nações ao jugo duro;

O Mantuano pinte o Rei Troiano,

Descendo à confusão do Reino escuro;

Que eu canto um Albuquerque soberano,

Da Fé, da cara Pátria firme muro,

Cujo valor e ser, que o Ceo lhe inspira,

Pode estancar a Lácia e Grega lira.

II

As Délficas irmãs chamar não quero,

que tal invocação é vão estudo;

Aquele chamo só, de quem espero

A vida que se espera em fim de tudo.

Ele fará meu Verso tão sincero,

Quanto fora sem ele tosco e rudo,

Que per rezão negar não deve o menos

Quem deu o mais a míseros terrenos.

XIII

Toca a Trobeta com crescido alento,

Engrossa as veas, move os elementos,

E, rebramando os ares com o acento,

Penetra o vão dos infinitos assentos.

Os Pólos que sustem o firmamento,

Abalados dos próprios fundamentos,

Fazem tremer a terra e Ceo jucundo,

E Neptuno gemer no Mar profundo.

XIV

O qual vindo da vã concavidade,

Em Carro Triunfal, com seu tridente,

Traz tão soberba pompa e majestade,

Quanta convém a Rei tão excelente.

Vem Oceano, pai de mor idade,

Com barba branca, com cerviz tremente:

Vem Glauco, vem Nereu, Deoses Marinhos,

Correm ligeros Focas e Golfinhos.

XV

Vem o velho Proteu, que vaticina

(Se fé damos à velha antiguidade)

Os males a que a sorte nos destina,

Nascidos da mortal temeridade.

Vem numa e noutra forma peregrina,

Mudando a natural propriedade.

Não troque a forma, venha confiado,

Se não quer de Aristeu ser sojigado.

XVI

Tétis, que em ser fermosa se recrea,

Traz das Ninfas o coro brando e doce :

Clímene, Efire, Ópis, Panopea,

Com Béroe, Talia, Cimodoce;

Drimo, Xanto, Licórias, Deiopea,

Aretusa, Cidipe, Filodoce,

Com Eristea, Espio, Semideas,

Após as quais, cantando, vem Sereas.

XIX

Em o meio desta obra alpestre e dura,

ô a boca rompeo o Mar inchado,

Que, na língua dos bárbaros escura,

Paranambuco de todos ‚ chamado.

de Para’na, que é Mar; Puca, rotura,

Feita com fúria desse Mar salgado,

Que, sem no dirivar cometer míngua,

Cova do Mar se chama em nossa língua.

XX

Pera entrada da barra, à parte esquerda,

Está ua lajem grande e espaçosa,

Que de Piratas fora total perda,

Se ô a torre tivera sumptuosa.

Mas quem por seus serviços bons não herda

Desgosta de fazer cousa lustrosa,

Que a condição do Rei que não é franco

O vassalo faz ser nas obras manco.

XXXV

Ó sorte tão cruel, como mudável,

Por que usurpas aos bons o seu direito?

Escolhes sempre o mais abominável,

Reprovas e abominas o perfeito,

O menos digno fazes agradável,

O agradável mais, menos aceito.

Ó frágil, inconstante, quebradiça,

Roubadora dos bens e da justiça!

XLV

Porque Lémnio cruel, de quem descende

A Bárbara progênie e insolência,

Vendo que o Albuquerque tanto ofende

Gente que dele tem a descendência,

Com mil meos ilícitos pretende

Fazer irreparável resistência

Ao claro Jorge, baroil e forte,

Em quem não dominava a vária sorte.

LIV

"Estas palavras tais, do cruel peito,

Soltará dos Ciclopes o tirano,

As quais procurará pôr em efeito,

Às cavernas descendo do Oceano.

E com mostras d’amor brando e aceito,

De ti, Neptuno claro e soberano,

Alcançará seu fim: o novo jogo,

Entrar no Reino d’Água o Rei do fogo.

LXXXVII

"Assim dirá: mas eles sem respeito

À honra e ser de seus antepassados

Com pálido temor no frio peito,

Irão per várias partes derramados.

Duarte, vendo neles tal defeito,

Lhe dirá": - Corações efeminados,

Lá contareis aos vivos o que vistes,

Porque eu direi aos mortos que fugistes.

(Apostila

 

 

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GREGÓRIO DE MATOS - Poemas

(1636-1695 )

Foi tão tumultuada a vida do poeta baiano que um biógrafo chamou-a de “vida espantosa”.

Como filho de senhor de engenho, Gregório pôde estudar em Portugal,para onde se mudou aos 14 anos de idade. Lá passou 32 anos, prósperos e tranqüilos.

Retornou ao Brasil, em 1682, nomeado para funções na burocracia eclesiástica da Sé da Bahia. Durou pouco no cargo, do qual foi destituído em 1683. Iniciou-se, então, a última fase de sua vida. O casamento com Maria dos Povos, a quem dedicou belíssimos sonetos, não impediu a decadência, social e profissional, do Dr. Gregório. Ficou famoso em suas andanças e pândegas pelos engenhos do Recôncavo.

Mais famosas ainda eram suas sátiras. Talvez por causa delas, foi deportado para Angola, em 1694. Pôde retornar ao Brasil, no ano seguinte, mas para o Recife, onde morreu aos 59 anos de idade.

Gregório de Matos Guerra ficou conhecido na história da literatura como o Boca do Inferno, por causa de suas sátiras e de sua poesia. Mas sendo um autor barroco e, portanto surpreendente e contraditório, esse mesmo Boca do Inferno também disse coisas belíssimas sobre o amor, como nesse soneto que você acabou de ler.

Comentário

Podemos incluir o soneto de Gregório de Matos na tendência conceptista do Barroco, graças ao engenhoso desenvolvimento de uma única imagem, a da mariposa atraída pela chama que deverá matá-la. O sujeito lírico desdobra a comparação entre a sua situação e a da mariposa, explorando as semelhanças, para, na última estrofe, ponto culminante do soneto, estabelecer a grande diferença: seu sacrifício é mais terrível do que o dela, por que inútil.

Nosso poeta baiano merece que lhe dediquemos uma atenção especial.

Para muitos historiadores, ele é o iniciador da literatura brasileira. Mas é interessante observar ar que permaneceu inédito até meados do século XIX. Sua produção poética sobreviveu, até então, em livros manuscritos, colecionada por admiradores. As duas tentativas de publicação completa - por sinal, muito insatisfatórias - ocorreram já no nosso século XX: a edição da Academia Brasileira de Letras, em 6 volumes (1923-1933), e a edição de James Amado, em 7 volumes (1968).

Gregório recebeu influências tanto do Cultismo de Góngora quanto do Conceptismo de Quevedo. Seu espírito profundamente barroco pode ser percebido na contraditória diversidade dos temas que desenvolveu em sua obra:

a. poesia sacra (temática religiosa)

b. lírica amorosa

c. poesia satírica

d. poesia burlesca

 

Ao Braço do Mesmo Menino Jesus Quando Aparece

O todo sem a parte não é todo,

A parte sem o todo não é parte,

Mas se a parte o faz todo, sendo parte,

Não se diga, que é parte, sendo todo.

Em todo o Sacramento está Deus todo,

E todo assiste inteiro em qualquer parte,

E feito em partes todo em toda a parte,

Em qualquer parte sempre fica o todo.

O braço de Jesus não seja parte,

Pois que feito Jesus em partes todo,

Assiste cada parte em sua parte.

Não se sabendo parte deste todo,

Um braço, que lhe acharam, sendo parte,

Nos disse as partes todas deste todo.

Buscando a Cristo

A vós correndo vou, braços sagrados,

Nessa cruz sacrossanta descobertos

Que, para receber-me, estais abertos,

E, por não castigar-me, estais cravados.

A vós, divinos olhos, eclipsados

De tanto sangue e lágrimas abertos,

Pois, para perdoar-me, estais despertos,

E, por não condenar-me, estais fechados.

A vós, pregados pés, por não deixar-me,

A vós, sangue vertido, para ungir-me,

A vós, cabeça baixa, p'ra chamar-me

A vós, lado patente, quero unir-me,

A vós, cravos preciosos, quero atar-me,

Para ficar unido, atado e firme.

Soneto

Um soneto começo em vosso gabo;

Contemos esta regra por primeira,

Já lá vão duas, e esta é a terceira,

Já este quartetinho está no cabo.

Na quinta torce agora a porca o rabo:

A sexta vá também desta maneira,

na sétima entro já com grã canseira,

E saio dos quartetos muito brabo.

Agora nos tercetos que direi?

Direi, que vós, Senhor, a mim me honrais,

Gabando-vos a vós, e eu fico um Rei.

Nesta vida um soneto já ditei,

Se desta agora escapo, nunca mais;

Louvado seja Deus, que o acabei.

Soneto

Mancebo sem dinheiro, bom barrete,

Medíocre o vestido, bom sapato,

Meias velhas, calção de esfola-gato,

Cabelo penteado, bom topete.

Presumir de dançar, cantar falsete,

Jogo de fidalguia, bom barato,

Tirar falsídia ao Moço do seu trato,

Furtar a carne à ama, que promete.

A putinha aldeã achada em feira,

Eterno murmurar de alheias famas,

Soneto infame, sátira elegante.

Cartinhas de trocado para a Freira,

Comer boi, ser Quixote com as Damas,

Pouco estudo, isto é ser estudante.

Soneto

Neste mundo é mais rico, o que mais rapa:

Quem mais limpo se faz, tem mais carepa:

Com sua língua ao nobre o vil decepa:

O Velhaco maior sempre tem capa.

Mostra o patife da nobreza o mapa:

Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;

Quem menos falar pode, mais increpa:

Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.

A flor baixa se inculca por Tulipa;

Bengala hoje na mão, ontem garlopa:

Mais isento se mostra, o que mais chupa.

Para a tropa do trapo vazo a tripa,

E mais não digo, porque a Musa topa

Em apa, epa, ipa, opa, upa.

Soneto

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,

Depois da Luz se segue a noite escura,

Em tristes sombras morre a formosura,

Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?

Se formosa a Luz é, por que não dura?

Como a beleza assim se transfigura?

Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,

Na formosura não se dê constância,

E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,

E tem qualquer dos bens por natureza

A firmeza somente na inconstância.

Descrição da Cidade de Sergipe D'el-Rei

Três dúzias de casebres remendados,

Seis becos, de mentrastos entupidos,

Quinze soldados, rotos e despidos,

Doze porcos na praça bem criados.

Dois conventos, seis frades, três letrados,

Um juiz, com bigodes, sem ouvidos,

Três presos de piolhos carcomidos,

Por comer dois meirinhos esfaimados.

As damas com sapatos de baeta,

Palmilha de tamanca como frade,

Saia de chita, cinta de raqueta.

O feijão, que só faz ventosidade

Farinha de pipoca, pão que greta,

De Sergipe d'El-Rei esta é a cidade.

Agradecimento de uns Doces a sua Freira


Senhora minha, se de tais clausuras
Tantos doces mandais a uma formiga,
Que esperais vós agora que eu vos diga
Se não forem muchíssimas doçuras?

Eu esperei de Amor outras venturas,
Mas ei-lo vai, tudo o que é dar obriga,
Ou já ceia de amor, ou já da figa,
Da vossa mão são tudo ambrósias puras.

O vosso doce a todos diz: comei-me,
De cheiroso, perfeito e asseado;
Eu por gosto lhe dar comi e fartei-me.

Em este se acabando irá recado,
E se vos parecer glutão, sofrei-me
Enquanto vos não peço outro bocado.

Epitáfio para o Marquês de Marialva

.....................

Em três partes enterrado
está o corpo do Marquês
de Marialva: porque em dez
mil seu nome é venerado:
e foi destino acertado,
que em tanta parte estivesse,
para que o mundo soubesse,
que este valeroso Marte
morto assiste em qualquer parte,
como se ainda vivesse.

Pintura Admirável de uma Beleza

Soneto
Vês esse Sol de luzes coroado?
Em pérolas a Aurora convertida?
Vês a Lua de estrelas guarnecida?
Vês o Céu de Planetas adorado?

O Céu deixemos; vês naquele prado
A Rosa com razão desvanecida?
A Açucena por alva presumida?
O Cravo por galã lisonjeado?

Deixa o prado; vem cá, minha adorada,
Vês de esse mar a esfera cristalina
Em sucessivo aljôfar desatada?

Parece aos olhos ser de prata fina?
Vês tudo isto bem? Pois tudo é nada
À vista do teu rosto, Caterina.

À SUA MULHER ANTES DE CASAR

Discreta, e formosíssima Maria,
Enquanto estamos vendo a qualquer hora
Em tuas faces a rosada Aurora,
Em teus olhos, e boca o Sol, e o dia:

Enquanto com gentil descortesia
O ar, que fresco Adônis te namora,
Te espalha a rica trança voadora,
Quando vem passear-te pela fria:

Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trota a toda ligeireza,
E imprime em toda a flor sua pisada.

Oh, não aguardes, que a madura idade
Te converta em flor, essa beleza
Em terra, em cinza, em pó, em sobra, em nada.

SONETO

Pequei, Senhor, mas não, porque hei pecado

Da vossa alta piedade me despido:

Antes quanto mais tenho delinquido,

Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto pecado,

A abrandar-vos sobeja um só gemido:

Que a mesma culpa, que vos há ofendido,

Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida, já cobrada,

Glória tal e prazer tão repentino

Vos deu, como afirmais na Sacra História,

Eu sou, Senhor, ovelha desgarrada:

Cobrai-a e não queirais, Pastor Divino,

Perder na vossa ovelha a vossa glória.

 

Com Boca do Inferno, ambientado na Bahia, em plena efervescência mercantilista do século 17, Ana Miranda restaura os cacos de um país popularmente tido como pacífico, substituindo essa mentira calcificada por uma de caráter ficcional, mas consentânea com a verdade histórica.

O assassinato do alcaide-mor é mero pretexto fabular para dividir em duas a sociedade baiana de então: perseguidores e perseguidos. O que interessa mais é a capacidade paradoxal que o evento carrega, porque desperta a vida naquela sociedade. Desencadeia-se o furor persecutório do poder estabelecido que não recua diante do ilegal e do ilegítimo para agarrar supostos culpados, cujo motivo único de suspensão advinha do uso constante da palavra incandescente.

A perseguição intensa leva o leitor pelos meandros da política, dos conluios e dos conchavos, bem como pelas vielas tortuosas de uma cidade, cuja topografia de altos e baixos, geralmente atolados na imundície, espelha de modo exemplar o sinuoso da vida colonial brasileira. Sob uma aparência de normalidade esconde-se um mundo turbulento, carregado de ambições, de falcatruas, de sensualidade, de religiosidade e de sexualidade desenfreada. Numa sociedade em (de) composição, o priapismo de Gregório de Matos encontra seu correlato tanto no furor verbal de Vieira quanto nas arbitrariedades sistemáticas da caterva do governador. Do antagonismo que se constrói entre ambas as facções surge um conjunto social em que o Poder identifica-se necessariamente com o Mal, porque dele não se espera outra coisa que a corrupção e a venalidade.

Para combatê-lo em seus excessos não resta senão a esperança da Palavra. Da boca de Vieira, o verbo polido desdobrando-se numa sinonímia infinita e espiralada que encontra paralelo inverso nas várias modalidades de prevaricação governamental. Da boca de Gregório, o jorro desmesurado de uma linguagem que, por aversão ao meio, não se peja de refleti-lo de modo espetacular. Daí seu caráter popular, porque mais rapidamente assimilável, o que gera o fastio externo da camada culta.

Em um relato refinado, no qual se incluem pepitas históricas, estilísticas, sintáticas e léxicas, Boca do Inferno revela capacidade de persuasão e de envolvimento, provenientes da urdida verossimilhança, que põe de escanteio o eventual veto ao rigor histórico, o qual se mostra inequívoco, graças à indisfarçável pesquisa em que se assenta o texto. Comprovante desse trabalho meticuloso é o delírio verbal e descritivo que cumpre uma função estética: a de representar a face tumultuada daquela sociedade, dificilmente apreensível por meio do vocábulo unívoco e seco.
Antonio Dimas

Boca do Inferno (trechos)

A cidade

A cidade fora edificada na extremidade interna meridional da península, a treze graus de latitude sul e quarenta e dois de longitude oeste, no litoral do Brasil. Ficava diante de uma enseada larga e limpa que lhe deu o nome: Bahia.

A baía, de pouco mais de duas léguas, começava na ponta de Santo Antonio, onde tinha sido edificada a fortaleza do mesmo nome, e terminava aos pés da ermida de Nossa Senhora de Monserrate. No meio desse golfo estava a cidade, sobre uma montanha de rocha talhada a pique na encosta que dava para o mar, porém plana na parte de cima; esse monte era cercado por três colinas altas, sobre as quais se estendiam as povoações. Ao sul, as casas terminavam nas proximidades do mosteiro de São Bento; ao norte, nas cercanias do mosteiro de Nossa Senhora do Carmo. O terceiro extremo da cidade, a leste, era escassamente povoado.

Três fortes, dois em terra e um no mar, defendiam a praia estreita da Bahia. A faixa longa da costa, onde se enfileiravam armazéns, lojas e oficinas, ligava-se à parte alta por três ruas íngremes. O barulhento molinete dos jesuítas içava a carga pesada entre uma e outra partes da cidade.

Ainda se viam resquícios dos danos causados pelas guerras contra os holandeses, desde quase sessenta anos antes. Ruínas de casas incendiadas, roqueiras abandonadas, o esqueleto de uma nau na praia. Em ligares mais ermos podiam-se encontrar, cobertos pelo mato, estrepes de ferro de quatro pontas. Perto da porta do Carmo havia, ainda, covas profundas e altos baluartes que tinham servido de trincheira.

Numa suave região cortada por rios límpidos, de céu sempre azul, terras férteis, florestas de árvores frondosas, a cidade parecia ser a imagem do Paraíso. Era, no entanto, onde os demônios aliciavam almas para povoarem o inferno.

1

"Esta cidade acabou-se", pensou Gregório de Matos, olhando pela janela do sobrado no terreiro de Jesus. "Não é mais a Bahia. Antigamente havia muito respeito. Hoje, até dentro da praça, nas barbas da infantaria, nas bochechas dos granachas, fazem assaltos à vista."

Veio à sua mente a figura de Gongora y Argote, o poeta espanhol que tanto admirava, vestido como nos retratos em seu hábito eclesiástico de capelão do rei: o rosto longo e duro, o queixo partido ao meio, as têmporas rapadas até detrás das orelhas. Gongora tinha-se ordenado sacerdote aos cinqüenta e seis anos. Usava um anel de rubi no dedo anular da mão esquerda, que todos beijavam. Gregório de Matos queria, como o poeta espanhol, escrever coisas que não fossem vulgares, alcançar o culteranismo. Saberia escrever assim? Sentia dentro de si um abismo. Se ali caísse, aonde o levaria? Não estivera Gongora tentando unir a alma elevada do homem à terra e seus sofrimentos carnais? Gregório de Matos estava no lado escuro do mundo, comendo a parte podre do banquete. Sobre o que poderia falar? Goza, goza el color, da luz, el oro. Teria sido bom para Gregório se tivesse nascido na Espanha? Teria sido diferente?

 

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GREGÓRIO DE MATOS

Satírica Pornográfica

A MESMA MARIA VIEGAS SACODE AGORA O POETA ESTRAVAGANTEMENTE PORQUE SE ESPEYDORRAVA MUITO

Dizem que o vosso cu, Cota,

Assopra zombaria,

Que aparece artilharia,

Quando vem chegando a frota:

Parece, que está de aposta

Este cu a peidos dar,

Porque jamais sem parar

Este grão-cu de enche-mão

Sem pederneira, ou murrão

Está sempre a disparar.

De Cota o seu arcabuz

Apontado sempre está,

Que entre noite, e dia dá

Mais de quinhentos truz-truz:

Não achareis muitos cus

Tão prontos em peidos dar,

Porque jamais sem parar

Faz tão grande bateria,

Que de noite, nem de dia

Pode tal cu descansar.

Cota, essa vosso arcabuz

Parece ser encantado,

Pois sempre está carregado

Disparando tantos truz:

Arrenego de tais cus,

Porque este foi o primeiro

Cu de Moça fulieiro,

Que tivesse tal saída

Para tocar toda a vida

Por fole de algum ferreiro.

DESCREVE COM ADMIRÁVEL PROPRIEDADE OS EFEYTOS QUE CAUSOU O VINHO NO BANQUETE QUE SE DEO NA MESMA FESTA ENTRE AS JUIZAS E MORDOMAS ONDE SE EMBEBEDARAM

No grande dia do Amparo,

Estando as mulatas todas

Entre festas, e entre bodas,

Um caso sucedeu raro:

E foi, que não sendo avaro

O jantar de canjirões,

Antes fervendo em cachões,

Os brindes de mão em mão

Depois de tanta razão

Tiveram certas razões.

Macotinha a foliona

Bailou rebolando o cu

Duas horas com Jelu

Mulata também bailona:

Senão quando outra putona

Tomou posse do terreiro,

E porque ao seu pandeiro

Não quis Macota sair,

Outra saiu a renhir,

Cujo nome é Domingueiro.

Por Macotinha tão rasa

De putinha, e mais putinha,

Que a pobre Macotinha

Se tornou de puta em brasa:

Alborotando-se a casa

As mais se forma erguendo

Mas jelu, ao que eu entendo,

É valente pertinaz,

Lhe atirou logo um gilvaz

De unhas abaixo tremendo.

A mim com punhos violentos

(gritou a Puta matrona)

agora o vereis, Putona,

zás, e pôs-lhe os mandamentos:

e com tais atrevimentos

a Jelu se enfureceu,

que indo sobre ela lhe deu

punhadas tão repetidas

que ficando ambas vencidas,

cada qual delas venceu.

Acudiu um Mulatrete

Bastardo da tal Domingas,

E respingas, não respingas

De a Mulata um bofete:

Ela, fervendo o muquete,

Deu c’o Mulato de patas,

Eis aqui vêm as Sapatas,

Porque uma é sua madrinha,

E todas por certa linha

Da mesma casa mulatas.

Chegou-se a tais menoscabos

Que segundo agora ouvi,

Havia de haver ali

Uma de todos os diabos:

Mas chegando quatro cabos

De putaria anciana,

A Puta mais veterana

Disse então, que não cuidava,

Que tais efeitos causava

Vinhaça tão soberana.

Sossegada a gritaria

Houve mulata repolho,

Que, o que bebeu por um olho,

Por outro o desbebia:

Mas chorava, ou se ria,

Jamais ninguém compreendera,

Se não se vira, e soubera

Pelo vinho despendido,

Que se tinha desbebido,

Quanto vinho se bebera.

Tal cópia de jeribita

Houve naquele folguedo,

Que em nada se tem segredo,

Antes tudo se vomita:

Entre tantas Mariquita

A Juíza era de ver,

Porque vendo ali verter

O vinho, que ela comprara,

De sorte se magoara,

Que o esteve para beber.

Bertola devia estar

Faminta, e desconjuntada,

Pois vendo a pendência armada,

Tratou de se caldear:

Bebeu naquele jantar

Sete pratos não pequenos

De caldo, e sete não menos

De carne, e é de reparar

Que a pudera um só matar,

E escapar de dois setenos.

Maribonda, minha ingrata

Tão pesada ali se viu,

Que desmaiada caiu

Sobre Luzia Sapata:

Viu-se uma, e outra Mulata

Em forma de Sodomia,

E como na casa havia

Tal grita, tão confusão

Não se advertiu por então

O ferrão, que lhe metia.

Teresa a de cutilada

De sorte ali se portou,

Que de bulha se apartou

Porque era puta sagrada:

De pendência retirada

Esteve num canto posta,

Mas com cara de Lagosta

Trocava com muita graça

O vinho taça por taça,

A carne posta por posta.

Enfim, que as Pardas corridas

Saíram com seus amantes,

Sendo, que no dia d’antes

Andavam elas saídas:

E sentindo-se afligidas

Do já passado tinelo,

Votaram com todo anelo

Emenda à Virgem do Amparo,

Que no seu dia preclaro

Nunca mais bodas ao cielo.

TEVE O POETA NOTÍCIA QUE SEBASTIÃO DA ROCHA PITA SENDO RAPAZ SE ESTRAGAVA COM BETICA

Brás pastor inda donzelo,

Querendo descabaçar-se,

Viu Betica a recrear-se

Vinda ao prado de amarelo:

E tendo duro o pinguelo,

Foi lho metendo já nu,

Fossando como Tatu:

Gritou Brites, inda bem,

Que tudo sofre, quem tem

Rachadura junto ao cu.

MANAS, DEPOIS QUE SOU FREIRA

Manas, depois que sou freira

Apoleguei mil caralhos,

E acho ter os barbicalhos

Qualquer de sua maneira:

O do casado é lazeira,

Com que me canso, em encalmo,

O do Frade é como um salmo

O maior do breviário:

Mas o caralho ordinário

É do tamanho de um palmo.

Além dessa diferença,

Que de palmo a palmo achei,

Outra coisa, que encontrei,

Me tem absorta, e suspensa:

É que discorrendo a imensa

Grandeza naquele nabo,

Quando o fim vi do diabo,

Achei, que a qualquer jumento

Se lhe acaba o comprimento

Com dous redondos no cabo.

A MEDIDA PARA O MALHO

A medida para o malho

Pela taxa da Cafeira,

Que tem do malho a craveira,

São dous palmos de caralho:

Não quer nisto dar um talho,

E eu zombo do seu empenho,

Pois tendo um palmo de lenho,

Com que outras putas desalmo,

Inda que tenho um só palmo,

Não quero mais do que tenho.

COM CACHOPINHAS DE GOSTO

Com cachopinhas de gosto

Em cama de bom colchão,

Nos peitinhos posta a mão,

E o pé no fincapé posto:

Ajuntar rosto com rosto,

Dormir um homem seu sono,

Acordar, calcar-lhe o mono

Já quase ao gorgolejar,

Então é o ponderar

As excelências do cono.

Eu na minha opinião,

Segundo o meu parecer,

Digo, que não há foder,

Senão cono de enchemão:

Porque um homem com Sezão,

Inda sendo caralhudo,

Meterá culhões, e tudo,

E assim mostra a experiência,

Que do cono a excelência

Pe ser bem grande, e papudo.

É também conveniente,

Que não tenha oi parrameiro

A nota de ser traseiro,

E que seja um tanto quente:

Que às vezes mui facilmente

São tais as misérias nossas,

Que havemos mister as moças

Para regalo da pica

Como cono de pouca crica,

Apertado, bordas grossas.

Mas a maior regalia,

Que no cono se há de achar,

Para que possa levar

Dos conos a primazia

(este ponto me esquecia)

para ser perfeito em tudo,

é nunca ser achar barbudo,

por dar bom gosto ao foder,

como também deve ser

Chupão, enxuto, e carnudo.

ASSUMPTO QUE HUMA DAMA MANDOU AO POETA

Quisera, Senhor Doutor,

Uma informação, e é,

Que me deram junto ao que,

(do cu dissera melhor)

um golpe de tal rigor,

que passo mui maltratada

por me ver ali cortada:

que remédio pode ter

junto do cu cutilada.

Anda aqui um surgião

Fulano Lopes Monteiro,

Que dizem para o traseiro

Tem ele mui boa mão:

Quisera saber então,

Pois vivo tão desviada,

E como serei curada

Por uma sua receita,

Ficando sempre sujeita

A Dama da cutilada.

RESPOSTA DO POETA

Senhora Dona formosa,

Li a de vossa mercê

Com a cutilada, que

A traz tanto desgostosa:

A ferida é mui danosa,

E não é para cheirada,

Traga-me sempre abotoada,

Que é, o que mais lhe convém,

Pois nunca curou ninguém

Junto do cu cutilada. (...)

Causa grande admiração,

Como em tal parte a cascou,

Só se dormindo a apanhou,

Ou estirada no chão:

Esta é minha presunção,

Que para ali ser cortada

Devia estar estirada

Com as pernas para o ar,

Quando lhe foram cascar

Junto do cu cutilada. (...)

Algumas vezes curei

Com ovos tão grandalhões,

Que pareciam culhões,

Mas debalde me cansei:

Com mecha lhos encaixei,

Que entrava tão ajustada,

Que ia algum tanto apertada:

Mas era cansar-se em vão,

Porque ovos não curam não

Junto do cu cutilada. (...)

Mas eu tenho cá para mim,

Para que dela não morra,

Que lhe unte sebo de porra,

Ou sumo de parati:

Porque já enferma vi

Com semelhante golpada

Ficar muito consolada,

Que a experiência mostrou,

Que curar ninguém curou

Junto do cu cutilada.

(Apostila 4 do Barroco - Literatura Brasileira)

 

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Frei Manuel Calado

Frei Manuel Calado do Salvador nasceu em Vila Viçosa (Portugal), em 1584. Professou na Ordem de S. Paulo em 8 de abril de 1607. Passou cerca de trinta anos no Brasil (Bahia e Pernambuco). Esteve presente em vários acontecimentos do período da invasão holandesa em Pernambuco. Por pouco não foi condenado à morte pelos holandeses. Após a restauração pernambucana (15/07/1646) regressou à Corte e apresentou à Censura a primeira parte de sua obra acerca da guerra com os holandeses: O Valeroso Lucideno e o Triunfo da Liberdade, publicada em 1648. A obra é predominantemente em prosa, mas em alguns trechos é dominada pelo verso. De caráter clássico e barroco, varia entre o criativo poético e a narração histórica laudatória. Para Massaud Moisés "O Valeroso Lucideno encerra palpitante reportagem da guerra holandesa, levada a efeito por um cronista empenhado na exaltação do destemor português, mas que registra, como sem querer, a presença do brasileiro e a progressiva maturação de nossa linguagem literária durante o século barroco." (Hist. da Lit. Brasileira: Origens, Barroco, Arcadismo: 1990, p. 168).

Livro Quarto - Capítulo II - fragmento

Estrela matutina, é tempo agora

Que a cítara me deis, para que cante

Vossos favores, cristalina Aurora,

Que do incriado Sol vindes diante;

Se me favoreceis, Virgem Senhora,

Das escuras quadrilhas triunfante,

Cantarei docemente em voz suave,

Com saudoso acento, agudo, e grave.

Estava Lucideno sobre o leito

Do importuno trabalho descansando,

Revolvendo mil traças no conceito,

Diversos pensamentos espalhando:

Bate-lhe o coração dentro no peito,

Os sentidos lhe ocupa o sono brando,

Tanto adormeceu, sonhou que via

O Santo Português, que lhe dizia:

Como estás Lucideno descansado,

Importando-te tanto o trabalhar?

Quando o fero Holandês tem decretado

De os moradores todos degolar;

Este infausto decreto, e inopinado

Em dois dias pretende executar,

E em se mostrando ao mundo a nova Aurora

Se parte ao Arrecife sem demora.

E reformado ali de armas, e gente,

Com suas tropas posto a som de guerra,

Ardendo em ira, e em furor ardente

Os moradores matará da terra;

Portanto não te mostres negligente,

E se zelo Cristão em ti se encerra,

Corre depressa, porque senão corres

Não dirás com verdade que os socorres.

Por duas vezes viste a porta aberta

Por si, do tempo aonde me servias,

No que te prometi vitória certa

Se esta honrosa empresa acometias:

Portanto Lucideno, alerta, alerta,

E se em meu patrocínio te confias,

Parte depressa, e investe ao inimigo,

Não se acovardes, que eu serei contigo.

Tanto que o Holandês se reformar

De soldados, e armas sem demora

Determina sair a degolar

Os moradores nesse ponto, e hora:

Levanta-te, e procura caminhar

Antes que o inimigo saia fora

Aos Apopucos, Vila, e Beberibe,

Várzea, Tejupió, Capivaribe.

Livro VI - Capítulo I - fragmento

Quando o garrido arnês da Flora bela

(Alegria total da Primavera)

Tinha entregada a rorida capela

Ao mês, que entrar em Lagos não deverá,

Chegou ao Arraial com boa estrela

O forte Lucideno, aonde o espera

O morador, e os míseros soldados,

Todos ficam com vê-lo consolados.

As estâncias visita, e as provê

De mantimento, porque o traz consigo

Em abundância, e certo bem se crê,

Que é pai dos pobres, e leal amigo:

Diz-lhes que em defensão da Santa Fé

Não têm que recear a morte, ou perigo,

Que quem morre em serviço de seu Deus,

Alcança fama, e grangeia os Céus.

Todos com raro brio se oferecem

A fazer as heróicas proezas,

Com que por todo o mundo resplandecem,

As valentes espadas Portuguesas:

O socorro oportuno lhe agradecem,

Todos louvam seu ânimo, e grandezas,

Que não se ausente mais cada um lhe pede,

O qual o que lhe rogam lhes condece.

Com isto se despede, e vem tomar

Descanso da viagem que fizera,

E juntamente chega a visitar

Sua amada consorte, que o espera:

Detém-se uma só noite, e vai tratar

De celebrar (segundo prometera)

Festas a Santo Antônio Português,

Que mercês tão grandíloquas lhe fez.

Traçada a festa, senão quando vinha

De Iguarassu correndo um cavaleiro,

Que o Lucideno deiz que marche asinha,

Se quer o Belga ter por prisioneiro:

Dá-lhe aviso, em como o Belga tinha

Três naus, nas três passagens, que primeiro,

Em tempo de águas vivas, nos serviam

Por onde à Ilha os Portugueses iam.

Com esta festa, de que aqui se fala,

Era do glorioso Santo Antônio,

Notai o que ordenou para estorvá-la

O maldito, e Flamígero Demônio:

Lucideno o aviso escuta, e cala,

Qual astuto, e sagaz LacedeMõnio,

Diz-me a Musa, que fale um pouco a prosa,

Pois no escrever é mais compendiosa.

(Apostila 11 de Barroco - Literatura Brasileira)

 

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À Ilha de Maré

Manuel Botelho de Oliveira


À ILHA DE MARÉ TERMO DESTA CIDADE DA BAHIA

SILVA

Jaz oblíqua forma e prolongada

a terra de Maré toda cercada

de Netuno, que tendo o amor constante,

lhe dá muitos abraços por amante,

e botando-lhe os braços dentro dela

a pretende gozar, por ser mui bela.

Nesta assistência tanto a senhoreia,

e tanto a galanteia,

que, do mar, de Maré tem o apelido,

como quem preza o amor de seu querido:

e por gosto das prendas amorosas

fica maré de rosas,

e vivendo nas ânsias sucessivas,

são do amor marés vivas;

e se nas mortas menos a conhece,

maré de saudades lhe parece.

Vista por fora é pouco apetecida,

porque aos olhos por feia é parecida;

porém dentro habitada

é muito bela, muito desejada,

é como a concha tosca e deslustrosa,

que dentro cria a pérola fermosa.

Erguem-se nela outeiros

com soberbas de montes altaneiros,

que os vales por humildes desprezando,

as presunções do Mundo estão mostrando,

e querendo ser príncipes subidos,

ficam os vales a seus pés rendidos.

Por um e outro lado

vários lenhos se vêem no mar salgado;

uns vão buscando da Cidade a via,

outros dela se vão com alegria;

e na desigual ordem

consiste a fermosura na desordem.

Os pobres pescadores em saveiros,

em canoas ligeiros,

fazem com tanto abalo

do trabalho marítimo regalo;

uns as redes estendem,

e vários peixes por pequenos prendem;

que até nos peixes com verdade pura

ser pequeno no Mundo é desventura:

outros no anzol fiados têm

aos míseros peixes enganados,

que sempre da vil isca cobiçosos

perdem a própria vida por gulosos.

Aqui se cria o peixe regalado

com tal sustância, e gosto preparado,

que sem tempero algum para apetite

faz gostoso convite,

e se pode dizer em graça rara

que a mesma natureza os temperara.

Não falta aqui marisco saboroso,

para tirar fastio ao melindroso;

os polvos radiantes,

os lagostins flamantes,

camarões excelentes,

que são dos lagostins pobres parentes;

retrógrados cranguejos,

que formam pés das bocas com festejos,

ostras, que alimentadas

estão nas pedras, onde são geradas;

enfim tanto marisco, em que não falo,

que é vário perrexil para o regalo.

As plantas sempre nela reverdecem,

e nas folhas parecem,

desterrando do Inverno os desfavores,

esmeraldas de Abril em seus verdores,

e delas por adorno apetecido

faz a divina Flora seu vestido.

As fruitas se produzem copiosas,

e são tão deleitosas,

que como junto ao mar o sítio é posto,

lhes dá salgado o mar o sal do gosto.

As canas fertilmente se produzem,

e a tão breve discurso se reduzem,

que, porque crescem muito,

em doze meses lhe sazona o fruito,

e não quer, quando o fruto se deseja,

que sendo velha a cana, fértil seja.

As laranjas da terra

poucas azedas são, antes se encerra

tal doce nestes pomos,

que o tem clarificado nos seus gomos;

mas as de Portugal entre alamedas

são primas dos limões, todas azedas.

Nas que chamam da China

grande sabor se afina,

mais que as da Europa doces, e melhores,

e têm sempre a ventagem de maiores,

e nesta maioria,

como maiores são, têm mais valia.

Os limões não se prezam,

antes por serem muitos se desprezam.

Ah se Holanda os gozara!

Por nenhuma província se trocara.

As cidras amarelas

caindo estão de belas,

e como são inchadas, presumidas,

é bem que estejam pelo chão caídas.

As uvas moscatéis são tão gostosas,

tão raras, tão mimosas;

que se Lisboa as vira, imaginara

que alguém dos seus pomares as furtara;

delas a produção por copiosa

parece milagrosa,

porque dando em um ano duas vezes,

geram dous partos, sempre, em doze meses.

Os melões celebrados

aqui tão docemente são gerados,

que cada qual tanto sabor alenta,

que são feitos de açúcar, e pimenta,

e como sabem bem com mil agrados,

bem se pode dizer que são letrados;

não falo em Valariça, nem Chamusca:

porque todos ofusca

o gosto destes, que esta terra abona

como próprias delícias de Pomona.

As melancias com igual bondade

são de tal qualidade,

que quando docemente nos recreia,

é cada melancia uma colmeia,

e às que tem Portugal lhe dão de rosto

por insulsas abóboras no gosto.

Aqui não faltam figos,

e os solicitam pássaros amigos,

apetitosos de sua doce usura,

porque cria apetites a doçura;

e quando acaso os matam

porque os figos maltratam,

parecem mariposas, que embebidas

na chama alegre, vão perdendo as vidas.

As romãs rubicundas quando abertas

à vista agrados são, à língua ofertas,

são tesouro das fruitas entre afagos,

pois são rubis suaves os seus bagos.

As fruitas quase todas nomeadas

são ao Brasil de Europa trasladadas,

por que tenha o Brasil por mais façanhas

além das próprias fruitas, as estranhas.

E tratando das próprias, os coqueiros,

galhardos e frondosos

criam cocos gostosos;

e andou tão liberal a natureza

que lhes deu por grandeza,

não só para bebida, mas sustento,

o néctar doce, o cândido alimento.

De várias cores são os cajus belos,

uns são vermelhos, outros amarelos,

e como vários são nas várias cores,

também se mostram vários nos sabores;

e criam a castanha,

que é melhor que a de França, Itália, Espanha.

As pitangas fecundas

são na cor rubicundas

e no gosto picante comparadas

são de América ginjas disfarçadas.

As pitombas douradas, se as desejas,

são no gosto melhor do que as cerejas,

e para terem o primor inteiro,

a ventagem lhes levam pelo cheiro.

Os araçazes grandes, ou pequenos,

que na terra se criam mais ou menos

como as pêras de Europa engrandecidas,

com elas variamente parecidas,

de várias castas marmeladas belas.

As bananas no Mundo conhecidas

por fruto e mantimento apetecidas,

que o céu para regalo e passatempo

liberal as concede em todo o tempo,

competem com maçãs, ou baonesas

com peros verdeais ou camoesas.

Também servem de pão aos moradores,

se da farinha faltam os favores;

é conduto também que dá sustento,

como se fosse próprio mantimento;

de sorte que por graça, ou por tributo,

é fruto, é como pão, serve em conduto.

A pimenta elegante

é tanta, tão diversa, e tão picante,

para todo o tempero acomodada,

que é muito aventajada

por fresca e por sadia

à que na Asia se gera, Europa cria.

O mamão por freqüente

se cria vulgarmente,

e não o preza o Mundo,

porque é muito vulgar em ser fecundo.

O marcujá também gostoso e frio

entre as fruitas merece nome e brio;

tem nas pevides mais gostoso agrado,

do que açúcar rosado;

é belo, cordial, e como é mole,

qual suave manjar todo se engole.

Vereis os ananases,

que para rei das fruitas são capazes;

vestem-se de escarlata

com majestade grata,

que para ter do Império a gravidade

logram da croa verde a majestade;

mas quando têm a croa levantada

de picantes espinhos adornada,

nos mostram que entre Reis, entre Rainhas

não há croa no Mundo sem espinhas.

Este pomo celebra toda a gente,

é muito mais que o pêssego excelente,

pois lhe leva aventagem gracioso

por maior, por mais doce, e mais cheiroso.

Além das fruitas, que esta terra cria,

também não faltam outras na Bahia;

a mangava mimosa

salpicada de tintas por fermosa,

tem o cheiro famoso,

como se fora almíscar oloroso;

produze-se no mato

sem querer da cultura o duro trato,

que como em si toda a bondade apura,

não quer dever aos homens a cultura.

Oh que galharda fruita, e soberana

sem ter indústria humana,

e se Jove as tirara dos pomares,

por ambrósia as pusera entre os manjares!

Com a mangava bela a semelhança

do macujé se alcança;

que também se produz no mato inculto

por soberano indulto:

e sem fazer ao mel injusto agravo,

na boca se desfaz qual doce favo.

Outras fruitas dissera, porém, basta

das que tenho descrito a vária casta;

e vamos aos legumes, que plantados

são do Brasil sustentos duplicados:

os mangarás que brancos, ou vermelhos,

são da abundância espelhos;

os cândidos inhames, se não minto,

podem tirar a fome ao mais faminto.

As batatas, que assadas, ou cozidas

são muito apetecidas;

delas se faz a rica batatada

das Bélgicas nações solicitada.

Os carás, que de roxo estão vestidos,

são lóios dos legumes parecidos,

dentro são alvos, cuja cor honesta

se quis cobrir de roxo por modesta.

A mandioca, que Tomé sagrado

deu ao gentio amado,

tem nas raízes a farinha oculta:

que sempre o que é feliz, se dificulta.

E parece que a terra de amorosa

se abraça com seu fruto deleitosa;

dela se faz com tanta atividade

a farinha, que em fácil brevidade

no mesmo dia sem trabalho muito

se arranca, se desfaz, se coze o fruito;

dela se faz também com mais cuidado

o beiju regalado,

que feito tenro por curioso amigo

grande ventagem leva ao pão de trigo.

Os aipins se aparentam

coa mandioca, e tal favor alentam,

que tem qualquer, cozido, ou seja assado,

das castanhas da Europa o mesmo agrado.

O milho, que se planta sem fadigas,

todo o ano nos dá fáceis espigas,

e é tão fecundo em um e em outro filho,

que são mãos liberais as mãos de milho.

O arroz semeado

fertilmente se vê multiplicado;

cale-se de Valença, por estranha

o que tributa a Espanha,

cale-se do Oriente

o que come o gentio, e a lísia gente;

que o do Brasil quando se vê cozido

como tem mais substância, é mais crescido.

Tenho explicado as fruitas e legumes,

que dão a Portugal muitos ciúmes;

tenho recopilado

o que o Brasil contém para invejado,

e para preferir a toda a terra,

em si perfeitos quatro AA encerra.

Tem o primeiro A, nos arvoredos

sempre verdes aos olhos, sempre ledos;

tem o segundo A, nos ares puros

na tempérie agradáveis e seguros;

tem o terceiro A, nas águas frias,

que refrescam o peito, e são sadias;

o quatro A, no açúcar deleitoso,

que é do Mundo o regalo mais mimoso.

São pois os quatro AA por singulares

Arvoredos, Açúcar, Águas, Ares.

Nesta ilha está mui ledo, e mui vistoso

um Engenho famoso,

que quando quis o fado antigamente

era Rei dos engenhos preminente,

e quando Holanda pérfida e nociva

o queimou, renasceu qual Fênix viva.

Aqui se fabricaram três capelas

ditosamente belas,

uma se esmera em fortaleza tanta,

que de abóbada forte se levanta;

da Senhora das Neves se apelida,

renovando a piedade esclarecida,

quando em devoto sonho se viu posto

o nevado candor no mês de agosto.

Outra capela vemos fabricada,

A Xavier ilustre dedicada,

que o Maldonado Pároco entendido

este edifício fez agradecido

a Xavier, que foi em sacro alento

glória da Igreja, do Japão portento.

Outra capela aqui se reconhece,

cujo nome a engrandece,

pois se dedica à Conceição sagrada

da Virgem pura sempre imaculada,

que foi por singular e mais fermosa

sem manchas lua, sem espinhos rosa.

Esta Ilha de Maré, ou de alegria,

que é termo da Bahia,

tem quase tudo quanto o Brasil todo,

que de todo o Brasil é breve apodo;

e se algum-tempo Citeréia a achara,

por esta sua Chipre desprezara,

porém tem com Maria verdadeira

outra Vênus melhor por padroeira.


FIM

(Apostila 5 de Barroco - Literatura Brasileira)

 

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Manuel Botelho de Oliveira

A Santa Maria Madalena aos Pés de Cristo

Soneto XCVII

Solicita, procura, reconhece,
com desvelo, com ânsia, com ventura,
sem temor, sem soberba, sem loucura,
a quem ama, a quem crê, por quem padece.

Ajoelha-se, chora, se enternece,
com pranto, com afeto, com ternura,
e se foi indiscreta, falsa, impura,
despe o mal, veste a graça, o bem conhece.

A seu Mestre, a seu Deus, a seu querido,
rega os pés, ais derrama, geme logo,
sem melindre, sem medo, sem sentido.

Por assombro, por fé, por desafogo,
nos seus olhos, na boca, no gemido,
água brota, ar respira, exala fogo.

Anarda Vendo-se a um Espelho

Décima 1
De Anarda o rosto luzia
No vidro que o retratava,
E tão belo se ostentava,
Que animado parecia:
Mas se em asseios do dia
No rosto o quarto farol
Vê seu lustroso arrebol;
Ali pondera meu gosto
O vidro, espelho do rosto,
O rosto, espelho do Sol.

2
É da piedade grandeza
Nesse espelho ver-se Anarda,
Pois ufano o espelho guarda
Duplicada a gentileza:
Considera-se fineza,
Dobrando as belezas suas,
Pois contra as tristezas cruas
Dos amorosos enleios
Me repete dous recreios,
Me oferece Anardas duas.

3
De sorte que sendo amante
Da beleza singular,
Posso outra beleza amar
Sem tropeços de inconstante;
E sendo outra vez triunfante
Amor do peito que adora
Ua Anarda brilhadora,
Em dous rostos satisfeitos,
Se em um fogo ardia o peito,
Em dous fogos arde agora.

4
Porém depois, rigorosas,
Deixando o espelho lustroso,
Oh como fica queixoso,
Perdendo a cópia fermosa!
Creio pois que na amorosa
Lei o cego frechador,
Que decreta único ardor,
Não quis a imagem que inflama,
Por extinguir outra chama,
Por estorvar outro amor.

Às Lágrimas Devotas

Soneto CXIV

Lágrimas se derramem, que o pecado
sabem lavar com sentimento puro,
que não há nódoa negra, ou rastro impuro
que não seja das lágrimas lavado.

Chorou Davi, e foi santificado,
chorou Pedro, e ficou no amor, seguro,
Madalena chorou, e o fogo impuro
em puríssimo fogo foi mudado.

Ficam no amor as almas mais absortas
quando as lágrimas correm sucessivas
sendo portas do Céu, do pranto as portas.

Cresce a graça nas lágrimas ativas
que se as culpas mortais são águas mortas,
as lágrimas da dor são águas vivas.

Contra os Julgadores

Soneto XII

Que julgas, ó ministro de Justiça?
Por que fazes das leis arbítrio errado?
Cuidas que dás sentença sem pecado,
Sendo que algum respeito mais te atiça?

Para obrar os enganos da injustiça,
Bem que teu peito vive confiado,
O entendimento tens todo arrastado
Por amor, ou por ódio, ou por cobiça.

Se tens amor, julgaste o que te manda;
Se tens ódio, no inferno tens o pleito,
Se tens cobiça, é bárbara, execranda.

Oh miséria fatal de todo o peito!
Que não basta o direito da demanda,
Se o julgador te nega esse direito.

Rosa, e Anarda

Soneto XX

Rosa da fermosura, Anarda bela
Igualmente se ostenta como a rosa;
Anarda mais que as flores é fermosa,
Mais fermosa que as flores brilha aquela,

A rosa com espinhos se desvela,
Arma-se Anarda espinhos de impiedosa;
Na fronte Anarda tem púrpura airosa,
A rosa é dos jardins purpúrea estrela.

Brota o carmim da rosa doce alento.
Respira olor de Anarda o carmim breve,
Ambas dos olhos são contentamento:

Mas esta diferença Anarda teve:
Que a rosa deve ao sol seu luzimento,
O sol seu luzimento a Anarda deve.

Vendo a Anarda Depõe o Sentimento

A serpe, que adornando várias cores,
Com passos mais oblíquos, que serenos,
Entre belos jardins, prados amenos,
É maio errante de torcidas flores;

Se quer matar da sede os desfavores,
Os cristais bebe co'a peçonha menos,
Porque não morra cos mortais venenos,
Se acaso gosta dos vitais licores.

Assim também meu coração queixoso,
Na sede ardente do feliz cuidado
Bebe cos olhos teu cristal fermoso;

Pois para não morrer no gosto amado,
Depõe logo o tormento venenoso,
Se acaso gosta o cristalino agrado.

(Apostila 6 de Barroco - Literatura Brasileira)

 

 

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Manuel de Santa Maria Itaparica

Descrição da Ilha de Itaparica

Canto Heróico

I
Cantar procuro, descrever intento,
Em um Heróico verso e sonoroso,
Aquela que me deu o nascimento,
Pátria feliz, que tive por ditoso:
Ao menos co'este humilde rendimento
Quero mostrar lhe sou afetuoso,
Porque é de ânimo vil e fementido
O que à Pátria não é agradecido.

II

Se nasceste no Ponto, ou Líbia ardente,
Se no Píndaro viste a aura primeira,
Se nos Alpes, ou Etna comburente,
Princípio houveste na vital carreira,
Nunca queiras, Leitor, ser delinqüente,
Negando a tua Pátria verdadeira,
Que assim mostras herdaste venturoso
Ânimo heróico, peito generoso.

III

Musa, que no florido de meus anos
Teu furor tantas vezes me inspiraste,
E na idade em que vêm os desenganos
Também sempre fiel me acompanhaste,
Tu, que influxos repartes soberanos
Desse monte Hélicon, que já pisaste,
Agora me concede o que te peço,
Para seguir seguro o que começo.

IV

Em o Brasil, Província desejada
Pelo metal luzente, que em si cria,
Que antigamente descoberta e achada
Foi de Cabral, que os mares discorria,
Perto donde está hoje situada
A opulenta e ilustríssima Bahia,
Jaz a ilha chamada Itaparica,
A qual no nome tem também ser rica.

V

Está posta bem defronte da Cidade,
Só três léguas distante e os moradores
Daquela a esta vêm com brevidade,
Se não faltam do Zéfiro os favores;
E ainda quando com ferocidade
Éolo está mostrando os seus rigores,
Para a Côrte navegam, sem que cessem,
E parece que os ventos lhe obedecem.

VI

Por uma e outra parte rodeada
De Netuno se vê tão arrogante,
Que algumas vezes com porcela irada
Enfia o melancólico semblante;
E com a tem por sua, e tão amada,
Por lhe pagar fiel foros de amante,
Muitas vezes também serenamente
Tem encostado nela o seu Tridente.

VII

Se a Deusa Citeréia conhecera
Desta Ilha celebrada a formosura,
Eu fico que a Netuno prometera
O que a outros negou cruel e dura:
Então de boa mente lhe oferecera
Entre incêndios de fogo a neve pura,
E se de alguma sorte a alcançara,
Por esta a sua Chipre desprezara.

VIII

Pela costa do mar a branca areia
É para a vista objeto delicioso,
Onde passeia a Ninfa Galatéia
Com acompanhamento numeroso;
E quanto mais galante se recreia
Com aspecto gentil, donaire airoso,
Começa a semear das roupas belas
Conchinhas brancas, ruivas e amarelas.

IX

Aqui se cria o peixe copioso,
E os vastos pescadores em saveiros
Não receando o Elemento undoso,
Neste exercício estão dias inteiros;
E quando Áquilo e Bóreas proceloso
Com fúria os acomete, eles ligeiros
Colhendo as velas brancas, ou vermelhas,
Se acomodam cos remos em parelhas.

X

Neste porém marítimo regalo
Uns as redes estendem diligentes,
Outros com força, indústria e intervalo
Estão batendo as ondas transparentes:
Outros noutro baixel sem muito abalo
Levantam cobiçosos e contentes
Uma rede, que chamam Zangareia,
Para os saltantes peixes forte teia.

XI

Qual aranha sagaz e ardilosa
Nos ares forma com sutil fio
Um labirinto tal, que a cautelosa
Mosca nele ficou sem alvedrio,
E assim com esta manha industriosa
Da mísera vem ter o senhorio,
Tais são com esta rede os pescadores
Para prender os mudos nadadores.

XII

Outros também por modo diferente,
Tendo as redes lançadas em seu seio,
Nas coroas estão postos firmemente,
Sem que tenham o pélago receio:
Cada qual puxa as cordas diligente,
E os peixes vão fugindo para o meio,
'Té que aos impulsos do robusto braço
Vêm a colher os míseros no laço.

XIII

Nos baixos do mar outros tarrafando,
Alerta a vista e os passos vagarosos,
Vão uns pequenos peixes apanhando,
Que para o gosto são deliciosos:
Em canoas também de quando em quando
Fisgam no anzol alguns, que por gulosos
Ficam perdendo aqui as próprias vidas,
Sem o exemplo quererem ter de Midas.

XIV

Aqui se acha o marisco saboroso,
Em grande cópia e de casta vária,
Que para saciar ao apetitoso,
Não se duvida é coisa necessária:
Também se cria o lagostim gostoso,
Junto co'a ostra, que por ordinária
Não é muito estimada, porém antes
Em tudo cede aos polvos radiantes.

XV

Os camarões não fiquem esquecidos,
Que tendo crus a cor pouco vistosa,
Logo vestem depois que são cozidos
A cor do nácar, ou da Tíria rosa:
Os c'ranguejos nos mangues escondidos
Se mariscam sem arte industriosa,
Búzios também se vêem, de musgos sujos,
Cernambis, mexilhões e caramujos.

XVI

Também pertence aqui dizer ousado
Daquele peixe, que entre a fauce escura
O Profeta tragou Jonas sagrado,
Fazendo-lhe no ventre a sepultura;
Porém sendo do Altíssimo mandado,
O tornou a lançar são sem lesura
(Conforme nos afirma a Antigüidade)
Em as praias de Nínive Cidade.

XVII

Monstro do mar, Gigante do profundo,
Uma torre nas ondas soçobrada,
Que parece em todo o âmbito rotundo
Jamais besta tão grande foi criada:
Os mares despedaça furibundo
Co'a barbatana às vezes levantada,
Cujos membros tetérrimos e broncos
Fazem a Tétis dar gemidos roncos.

XVIII

Baleia vulgarmente lhe chamamos,
Que como só a esta Ilha se Sujeita,
Por isso de direito a não deixamos,
Por ser em tudo a descrição perfeita;
E que para bem claro percebamos
O como a pescaria dela é feita,
Quero dar com estudo não ocioso
Esta breve notícia ao curioso.

XIX

Tanto que chega o tempo decretado,
Que este peixe do vento Austro é movido,
Estando à vista de Terra já chegado,
Cujos sinais Netuno dá ferido,
Em um porto desta Ilha assinalado,
E de todo o preciso prevenido,
Estão umas lanchas leves e veleiras,
Que fazem c'os remos mais ligeiras.

XX

Os Nautas são Etíopes robustos,
E outros mais do sangue misturado,
Alguns Mestiços em a cor adustos,
Cada qual pelo esforço assinalado:
Outro ali vai também, que sem ter sustos
Leva o arpão da corda pendurado,
Também um, que no ofício a Glauco ofusca,
E para isto Brásilo se busca.

XXI

Assim partem intrépidos sulcando
Os palácios da linda Panopéia,
Com cuidado solícito vigiando
Onde ressurge a sólida Baleia.
Ó gente, que furor tão execrando
A um perigo tal se sentenceia?
Como, pequeno bicho, és atrevido
Contra o monstro do mar mais destemido?

XXII

Como não temes ser despedaçado
De um animal tão feio e tão imundo?
Por que queres ir ser precipitado
Nas íntimas entranhas do profundo?
Não temes, se é que vives em pecado,
Que o Criador do Céu e deste Mundo,
Que tem dos mares todos o governo,
Desse lago te mande ao lago Averno?

XXIII

Lá intentaram fortes os Gigantes
Subir soberbos ao Olimpo puro,
Acometeram outros de ignorantes
O Reino de Plutão horrendo e escuro;
E se estes atrevidos e arrogantes
O castigo tiveram grave e duro,
Como não temes tu ser castigado
Pelos monstros também do mar salgado?

XXIV

Mas enquanto com isto me detenho,
O temerário risco admoestando,
Eles de cima do ligeiro lenho
Vão a Baleia horrível avistando:
Pegam nos remos com forçoso empenho,
E todos juntos com furor remando
A seguem por detrás com tal cautela,
Que imperceptíveis chegam junto dela.

XXV

O arpão farpado tem nas mãos suspenso
Um, que da proa o vai arremessando,
Todos os mais deixando o remo extenso
Se vão na lancha súbito deitando;
E depois que ferido o peixe imenso
O veloz curso vai continuando,
Surge cad'um com fúria e força tanta,
Que como um Anteu forte se levanta.

XXVI

Corre o monstro com tal ferocidade,
Que vai partindo o úmido Elemento,
E lá do pego na concavidade
Parece mostrar Tétis sentimento:
Leva a lancha com tal velocidade,
E com tão apressado movimento,
Que cá de longe apenas aparece,
Sem que em alguma parte se escondesse.

XXVII

Qual o ligeiro pássaro amarrado
Com um fio sutil, em cuja ponta
Vai um papel pequeno pendurado,
Voa veloz sentindo aquela afronta,
E apenas o papel, que vai atado,
Se vê pela presteza, com que monta,
Tal o peixe afrntado vai correndo
Em seus membros atada a lancha tendo.

XXVIII

Depois que com o curso dilatado
Algum tanto já vai desfalecendo,
Eles então com força e com cuidado
A corda pouco a pouco vão colhendo;
E tanto que se sente mais chegado,
Ainda com fúria os mares combatendo,
Nos membros moles lhe abre uma rotura
Um novo Aquiles c'uma lança dura.

XXIX

De golpe sai de sangue uma espadana,
Que vai tingindo o Oceano ambiente,
Com o qual se quebranta a fúria insana
Daquele horrível peixe, ou besta ingente;
E sem que pela plaga Americana
Passado tenha de Israel a gente,
A experiência e vista certifica
Que é o mar vermelho o mar de Itaparica.

XXX

Aos repetidos rasgos desta lança
A vital aura vai desamparando,
'Té que fenece o monstro sem tardança,
Que antes andava os mares açoitando:
Eles puxando a corda com pujança
O vão da lancha mais perto arrastando,
Que se lhe fiou Cloto o longo fio,
Agora o colhe Láquesis com brio.

XXXI

Eis agora também no mar saltando
O que de Glauco tem a habilidade,
Com um agudo ferro vai furando
Dos queixos a voraz monstruosidade:
Com um cordel depois, grosso e não brando,
Da boca cerra-lhe a concavidade,
Que se o mar sorve no gasnate fundo
Busca logo as entranhas do profundo.

XXXII

Tanto que a presa tem bem subjugada
Um sinal branco lançam vitoriosos,
E outra lancha para isto decretada
Vem socorrer com cabos mais forçosos:
Uma e outra se parte emparelhada,
Indo à vela, ou c'os remos furiosos,
E pelo mar serenas navegando
Para terra se vão endireitando.

XXXIII

Cada um se mostra no remar constante,
Se lhe não tem o Zéfiro assoprado,
E com fadigas e suor bastante
Vem a tomar o porto desjado.
Deste em espaço não muito distante,
Em o terreno mais acomodado
Uma Trusátil máquina esta posta
Só para esta função aqui deposta.

XXXIV

O pé surge da terra para fora
Uma versátil roda sustentando,
Em cujo âmbito longo se encoscora
Uma amarra, que a vai arrodeando:
A esta mesma roda cá de fora
Homens dez vezes cinco estão virando,
E quanto mais a corda se repuxa,
Tanto mais para a terra o peixe puxa.

XXXV

Assim com esta indústria vão fazendo
Que se chegue ao lugar determinado,
E as enchentes Netuno recolhendo,
Vão subindo por um e outro lado:
Outros em borbotão já vêm trazendo
Facas luzidas e o braçal machado,
E cada qual ligeiro se aparelha
Para o que seu ofício lhe aconselha.

XXXVI

Assim dispostos uns, que África cria,
Dos membros nus, o couro denegrido,
Os quais queimou Faeton, quando descia
Do terrífico raio submergido,
Com algazarra muita e gritaria,
Fazendo os instrumentos grão ruído,
Uns aos outros em ordem vão seguindo,
E os adiposos lombos dividindo.

XXXVII

O povo que se ajunta é infinito,
E ali têm muitos sua dignidade,
Os outros vêm do Comarcão distrito,
E despovoam parte da Cidade:
Retumba o ar com o contínuo grito,
Soa das penhas a concavidade,
E entre eles todos tal furor se acende,
Que às vezes um ao outro não se entende.

XXXVIII

Qual em Babel o povo, que atrevido
Tentou subir ao Olimpo transparente,
Cujo idioma próprio pervertido
Foi uma confusão balbuciante,
Tal nesta torre, ou monstro desmedido,
Levanta as vozes a confusa gente,
Que seguindo cad'um diverso dogma
Falar parece então noutro idioma.

XXXIX

Desta maneira o peixe se reparte
Por toda aquela cobiçosa gente,
Cabendo a cada qual aquela parte,
Que lhe foi consignada do regente:
As banhas todas se depõem à parte,
Que juntas formam um acervo ingente,
Das quais se faz azeite em grande cópia,
Do que esta Terra não padece inópia.

XL

Em vasos de metal largos e fundos
O estão com fortes chamas derretendo
De uns pedaços pequenos e fecundos,
Que o fluido licor vão escorrendo:
São uns feios Etíopes e imundos,
Os que estão este ofício vil fazendo,
Cujos membros de azeite andam untados,
Daquelas cirandagens salpicados.

XLI

Este peixe, este monstro agigantado
Por ser tão grande tem valia tanta,
Que o valor a que chega costumado
Até quase mil áureos se levanta.
Quem de ouvir tanto não sai admirado?
Quem de um peixe tão grande não se espanta?
Mas enquanto o Leitor fica pasmando,
Eu vou diversas cousas relatando.

XLII

Em um extremo desta mesma Terra
Está um forte soberbo fabricado,
Cuja bombarda, ou máquina de guerra,
Abala a Ilha de um e outro lado:
Tão grande fortaleza em si encerra
De artilharia e esforço tão sobrado,
Que retumbando o bronze furibundo
Faz ameaço á terra, ao mar, ao Mundo.

XLIII

Não há nesta Ilha engenho fabricado
Dos que o açúcar fazem saboroso,
Porque um, que ainda estava levantado,
Fez nele o seu oficio o tempo iroso:
Outros houve também, que o duro fado
Por terra pôs, cruel e rigoroso,
E ainda hoje um, que foi mais soberano,
Pendura as cinzas por painel Troiano.

XLIV

Claras as águas são e transparentes,
Que de si manam copiosas fontes,
Umas regam os vales adjacentes,
Outras descendo vêm dos altos montes;
E quando com seus raios refulgentes,
As doura Febo abrindo os Horizontes,
Tão cristalinas são, que aqui difusa
Parece nasce a fonte da Aretusa.

XLV

Pela relva do campo mais viçoso
O gado junto e pingue anda pastando,
O roubador de Europa furioso,
E o que deu o véu de ouro em outro bando,
O bruto de Netuno generoso
Vai as areias soltas levantando,
E nos bosques as leras Ateonéias
A República trilham das Napéias.

XLVI

Aqui o campo florido se semeia
De brancas açucenas e boninas,
Ali no prado a rosa mais franqueia
Olorizando as horas matutinas:
E quando Clóris mais se galanteia,
Dando da face exalações divinas,
Dos ramos no regaço vai colhendo
O Clavel e o jasmim, que está pendendo.

XLVII

As frutas se produzem copiosas,
De várias castas e de várias cores,
Umas se estimam muito por cheirosas,
Outras levam vantagem nos sabores:
São tão belas, tão lindas e formosas,
Que estão causando à vista mil amores,
E se nos prados Flora mais blasona,
São os pomares glória de Pomona.

XLVIII

Entre elas todas têm lugar subido
As uvas doces, que esta Terra cria,
De tal sorte, que em número crescido
Participa de muitas a Bahia:
Este fruto se gera apetecido
Duas vezes no ano sem profia,
E por isso e do povo celebrado,
E em toda a parte sempre nomeado.

XLIX

Os coqueiros compridos e vistosos
Estão por reta série ali plantados,
Criam cocos galhardos e formosos,
E por maiores são mais estimados:
Produzem-se nas praias copiosos,
E por isso os daqui mais procurados,
Cedem na vastidão à bananeira,
A qual cresce e produz desta maneira.

L

De uma lança ao tamanho se levanta,
Estúpeo e roliço o tronco tendo,
As lisas folhas têm grandeza tanta,
Que até mais de onze palmos vão crescendo:
Da raiz se lhe erige nova planta,
Que está o parto futuro prometendo,
E assim que o fruto lhe sazona e cresce,
Como das plantas víbora fenece.

LI

Os limões doces muito apetecidos
Estão Virgíneas tetas imitando,
E quando se vêem crespos e crescidos,
Vão as mãos curiosas incitando:
Em árvores copadas, que estendidos
Os galhos têm, e as ramas arrastando,
Se produzem as cidras amarelas,
Sendo tão presumidas como belas.

LII

A laranjeira tem no fruto louro
A imitação dos pomos de Atalanta,
E pela cor, que em si conserva de ouro,
Por isso estimação merece tanta:
Abre a romã da casca o seu tesouro,
Que do rubi a cor flamante espanta,
E quanto mais os bagos vai fendendo,
Tanto vai mais formosa parecendo.

LIII

Os melões excelentes e olorosos
Fazem dos próprios ramos galaria.
Também estende os seus muito viçosos
A pevidosa e doce melancia:
Os figos de cor roxa graciosos
Poucos se logram, salvo se à porfia
Se defendem de que com os biquinhos
Os vão picando os leves passarinhos.

LIV

No ananás se vê como formada
Uma coroa de espinhos graciosa,
A superfície tendo matizada
Da cor, que Citeréia deu à rosa:
E sustentando a c'roa levantada
Junto co'a vestidura decorosa,
Está mostrando tanta gravidade,
Que as frutas lhe tributam Majestade.

LV

Também entre as mais frutas as jaqueiras
Dão pelo tronco a jaca adocicada,
Que vindo lá de partes estrangeiras
Nesta Província é fruta desejada:
Não fiquem esquecidas as mangueiras,
Que dão a manga muito celebrada,
Pomo não só ao gosto delicioso,
Mas para o cheiro almíscar oloroso.

LVI

Inumeráveis são os cajus belos,
Que estão dando prazer por rubicundos,
Na cor também há muitos amarelos,
E uns e outros ao gosto são jucundos;
E só bastava para apetecê-los
Serem além de doces tão fecundos,
Que em si têm a Brasílica castanha
Mais saborosa que a que cria Espanha.

LVII

Os araçás diversos e silvestres,
Uns são pequenos, outros são maiores:
Oitis, cajás, pitangas, por agrestes,
Estimadas não são dos moradores:
Aos mar'cujás chamar quero celestes,
Porque contêm no gosto tais primores,
Que se os Antigos na Ásia os encontraram,
Que era o néctar de Jove imaginaram.

LVIII

Outras frutas dissera, mas agora
Têm lugar os legumes saborosos,
Porém por não fazer nisto demora
Deixo esta explicação aos curiosos;
Mas, contudo, dizer quero por ora
Que produz esta Terra copiosos
Mandioca, inhames, favas e carás,
Batatas, milho, arroz e mangarás.

LIX

O arvoredo desta Ilha rica e bela
Em circuito toda a vai ornando,
De tal maneira, que só basta vê-la
Quando já está alegrias convidando:
Os passarinhos que se criam nela
De raminho em raminho andam cantando,
E nos bosques e brenhas não se engana
Quem exercita o oficio de Diana.

LX

Tem duas Freguesias muito extensas,
Das quais uma Matriz mais soberana
Se dedica ao Redentor, que a expensas
De seu Sangue remiu a prole humana;
E ainda que do tempo sinta ofensas
A devoção com ela não se engana,
Porque tem uma Imagem milagrosa
Da Santa Vera-Cruz para ditosa.

LXI

A Santo Amaro a outra se dedica,
A quem venerações o povo rende,
Sendo tão grande a Ilha Itaparica,
Que a uma só Paróquia não se estende:
Mas com estas Igrejas só não fica,
Porque Capelas muitas compreende,
E nisto mostram seus habitadores
Como dos Santos são veneradores.

LXII

Dedica-se a primeira àquele Santo
Mártir, que em vivas chamas foi aflito,
E ao Tirano causou terror e espanto,
Quando por Cristo foi assado e frito.
Também não fique fora de meu canto
Uma, que se consagra a João bendito,
E outra (correndo a Costa para baixo)
Que à Senhora se dá do Bom Despacho.

LXIII

Outra a Antônio Santo e glorioso
Tem por seu Padroeiro e Advogado,
Está fundada num sitio delicioso,
Quer por esta Capela é mais amado.
Em um terreno alegre e gracioso
Outra se fabricou de muito agrado.
Das Mercês à Senhora verdadeira
É desta Capelinha a Padroeira.

LXIV

Também outra se vê, que é dedicada
À Senhora da penha milagrosa,
A qual airosamente situada
Está numa planície especiosa.
Uma também de São José chamada
Há nesta Ilha, por certo gloriosa,
Junta com outra de João, que sendo
Duas, se vai de todo engrandecendo.

LXV

Até aqui, Musa; não me é permitido
Que passe mais avante a veloz pena,
A minha Pátria tenho definido
Com esta descrição breve e pequena;
E se o tê-la tão pouco engrandecido
Não me louva, mas antes me condena,
Não usei termos de Poeta esperto,
Fui historiador em tudo certo.

FIM

 

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Manuel de Santa Maria Itaparica

À Morte de Sua Majestade Fidelíssima

In nidulo meo moriar, & sicut
Phaenix multiplicabo dies meos.
Job. 29.18.

Ambulabimus in viis Domini in
aeternum, & ultra.
Mich. 4.5.


Morreu em fim o Rei dos Lusitanos,
Mas como homem não sentiu a morte,
Como Fênix morreu, que desta sorte.
Acrescentou morrendo os próprios anos.

Um Rei tão singular entre os humanos,
Se acabara de parca ao duro corte,
Fora tão grande o sentimento, e forte,
Que causara no mundo imensos danos.

Mas como a Fênix já desfalecida
Deste modo acrescenta a sua idade,
Não se sente esta morte, é aplaudida:

Oh! mitigue-se a nossa saudade,
Que deu o nosso Rei, perdendo a vida
Tão cedo, mais aumento à eternidade.

EUSTAQUIDOS

Canto Segundo

(...)

IV
Jaz no centro da Terra uma caverna
De áspero, tosco e lúgubre edifício,
Onde nunca do Sol entrou lucerna,
Nem de pequena luz se viu indício.
Ali o horror e a sombra é sempiterna
Por um pungente e fúnebre artifício,
Cujas fenestras, que tu Monstro inflamas,
Respiradouros são de negras chamas.

V
Rodeiam este Alcáçar desditoso
Lagos imundos de palustres águas,
Onde um tremor e horror caliginoso
Penas descobre, desentranha mágoas:
Fontes heladas, fumo tenebroso,
Congelam ondas, e maquinam fráguas.
Mesclando em um confuso de crueldades
Chamas a neve, o fogo frieldades.

VI
Ardente serpe de sulfúreas chamas
Os centros gira deste Alvergue umbroso,
São as faíscas hórridas escamas,
E o fumo negro dente venenoso:
As lavaredas das volantes flamas
Asas compõem ao Monstro tenebroso,
Que quanto queima, despedaça e come,
Isso mesmo alimenta, que consome.

VII
Um negro arroio em pálida corrente
Irado ali se troce tão furioso,
Que é no que morde horrífica serpente,
E no que inficiona Áspide horroroso:
Fétido vapor, negro e pestilente
Exala de seu seio tão raivoso,
Que lá no centro sempre agonizado
De peste e sombras mostra ser formado.

(...)

Canto Quinto

XIII
Em um vasto me achei, e novo Mundo,
De nós desconhecido e ignorado,
Em cujas praias bate um mar profundo,
Nunca ategora de algum lenho arado:
O clima alegre, fértil e jucundo,
E o chão de árvores muitas povoado,
E no verdor das folhas julguei que era
Ali sempre contínua a Primavera.

XIV
Delas estavam pomos pendurados
Diversos na fragrância e na pintura,
Nem dos homens carecem ser plantados,
Mas agrestes se dão, e sem cultura;
E entre os troncos muitos levantados,
Que ainda a fantasia me figura,
Havia um pau de tinta mui fecunda,
Transparente na cor, e rubicunda.

XV
Pássaros muitos de diversas cores
Se viam várias ondas transformando,
E dos troncos suavíssimos licores
Em cópia grande estavam dimanando:
Peixes vi na grandeza superiores,
E animais quadrúpedes saltando,
A Terra tem do metal louro as veias,
Que de alguns rios se acha nas areias.

XVI
E quando a vista estava apascentando
Destas cousas na alegre formosura,
Um velho vi, que andava passeando,
De desmarcada e incógnita estatura:
Com sobressalto os olhos fui firmando
Naquela sempre móvel criatura,
E pareceu-me, se bem reparava,
Que vários rostos sempre me mostrava.

(...)

XVIII
Fiquei desta visão maravilhado,
Como quem de tais Monstros não sabia,
E logo perguntei sobressaltado
Quem era, que buscava, e que queria?
Ele virando o rosto remendado,
De cor da escura noute e claro dia,
Que eu era, respondeu, quem procurava,
E que Póstero, disse, se chamava.

(...)

XXII
Este pois lá num século futuro,
Posto que dela ausente e apartado,
Porque cos filhos sempre foi perjuro
O pátrio chão, e os trata sem agrado,
Por devoção intrínseca, e amor puro,
Talvez do Deus, que adoras, inspirado,
De ti e desses dous dessa pousada
Há de cantar com lira temperada.

XXIII
Aqui fez termo o velho, sufocando
A voz dentro do escuro e oculto peito,
Nunca do seu passeio descansando,
Nem quando me explicava o alto conceito:
Eu do letargo atônito despertando
Me alegrei de ver cousas deste jeito,
E vede que julgais, ó companheiros,
Que os sonhos são

às vezes verdadeiros.

(Apostila 7 de Barroco - Literatura Brasileira)

 

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ANTONIO VIEIRA

Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal Contra as De Holanda (trecho)

Tirais também o Brasil aos portugueses, que assim estas terras vastíssimas, como as remotíssimas do Oriente, as conquistaram à custa de tantas vidas e tanto sangue, mais por dilatar vosso nome e vossa fé — que esse era o zelo daqueles cristianíssimos reis — que por amplificar e estender seu império. Assim fostes servido que entrássemos nestes novos mundos tão honrada e tão gloriosamente, e assim permitis que saiamos agora — quem tal imaginara de vossa bondade — com tanta afronta e ignomínia. — Oh! como receio que não falte quem diga o que diziam os egípcios: Callide eduxit eos, ut interficeret et deleret e terra (18): Que a larga mão com que nos destes tantos domínios e remos não foram mercês de vossa liberalidade, senão cautela e dissimulação de vossa ira, para aqui fora, e longe de nossa pátria, nos matardes, nos destruirdes, nos acabardes de todo. Se esta havia de ser a paga e o fruto de nossos trabalhos, para que foi o trabalhar, para que foi o servir, para que foi o derramar tanto e tão ilustre sangue nestas conquistas? Para que abrimos os mares nunca dantes navegados? Para que descobrimos as regiões e os climas não conhecidos? Para que contrastamos os ventos e as tempestades com tanto arrojo, que apenas há baixio no oceano, que não esteja infamado com miserabilíssimos naufrágios de portugueses? E depois de tantos perigos, depois de tantas desgraças, depois de tantas e tão lastimosas mortes, ou nas praias desertas sem sepultura, ou sepultados nas entranhas dos alarves, das feras, dos peixes, que as terras que assim ganhamos, as hajamos de perder assim? Oh! quanto melhor nos fora nunca conseguir nem intentar tais empresas!

Mais santo que nós era Josué, menos apurada tinha a paciência, e contudo, em ocasião semelhante, não falou — falando convosco — por diferente linguagem. Depois de os filhos de Israel passarem às terras ultramarinas do Jordão, como nós a estas, avançou parte do exército a dar assalto à cidade de Hai, a qual nos ecos do nome já parece que trazia o prognóstico do infeliz sucesso que os israelitas nela tiveram, porque foram rotos e desbaratados, posto que com menos mortos e feridos do que nós por cá costumamos. E que faria Josué à vista desta desgraça? Rasga as vestiduras imperiais, lança-se por terra, começa a clamar ao céu: Heu, Domine Deus, quid voluisti traducere populum istum Jordanem fluvium, ut traderes nos in manus Amorrhaei (Jos. 7,7)? Deus meu e Senhor meu, que é isto? Para que nos mandastes passar o Jordão, e nos metestes de posse destas terras, se aqui nos havíeis de entregar nas mãos dos amorreus, e perder-nos? Utinam mansissemus trans Jordanem! Oh! nunca nós passáramos tal rio! — Assim se queixava Josué a Deus, e assim nos podemos nós queixar, e com muito maior razão que ele. Se este havia de ser o fim de nossas navegações, se estas fortunas nos esperavam nas terras conquistadas: Utinam mansissemus trans Jordanem! Prouvera a vossa divina Majestade, que nunca saíramos de Portugal, nem fiáramos nossas vidas às ondas e aos ventos, nem conhecêramos ou puséramos os pés em terras estranhas. Ganhá-las para as não lograr desgraça foi, e não ventura; possui-las para as perder, castigo foi de vossa ira, Senhor, e não mercê nem favor de vossa liberalidade. Se determináveis dar estas mesmas terras aos piratas de Holanda, por que lhas não destes enquanto eram agrestes e incultas, senão agora? Tantos serviços vos tem feito esta gente pervertida e apóstata, que nos mandastes primeiro cá por seus aposentadores, para lhes lavrarmos as terras, para lhes edificarmos as cidades, e, depois de cultivadas e enriquecidas, lhas entregardes? Assim se hão de lograr os hereges e inimigos da fé dos trabalhos portugueses e dos suores católicos? En queis consevimus agros (19): Eis aqui para quem trabalhamos há tantos anos! — Mas, pois vós, Senhor, o quereis e ordenais assim, fazei o que fordes servido. Entregai aos holandeses o Brasil, entregai-lhes as Índias, entregai-lhes as Espanhas — que não são menos perigosas as conseqüências do Brasil perdido — entregai-lhes quanto temos e possuímos como já lhes entregastes tanta parte — ponde em suas mãos o mundo, e a nós, aos portugueses e espanhóis, deixai-nos, repudiai-nos, desfazei-nos, acabai-nos. Mas só digo e lembro a Vossa Majestade, Senhor, que estes mesmos, que agora desfavoreceis e lançais de vós, pode ser que os queirais algum dia, e que os não tenha

SERMÃO DA SEXAGÉSIMA (trecho)

Já que falo contra os estilos modernos, quero alegar por mim o estilo do mais antigo pregador que houve no Mundo. E qual foi ele? -- O mais antigo pregador que houve no Mundo foi o céu. Coeli enarrant gloriam Dei et opera manuum ejus annuntiat Firmamentum -- diz David. Suposto que o céu é pregador, deve de ter sermões e deve de ter palavras. Sim, tem, diz o mesmo David; tem palavras e tem sermões; e mais, muito bem ouvidos. Non sunt loquellae, nec sermones, quorum non audiantur voces eorum. E quais são estes sermões e estas palavras do céu? -- As palavras são as estrelas, os sermões são a composição, a ordem, a harmonia e o curso delas. Vede como diz o estilo de pregar do céu, com o estilo que Cristo ensinou na terra. Um e outro é semear; a terra semeada de trigo, o céu semeado de estrelas. O pregar há-de ser como quem semeia, e não como quem ladrilha ou azuleja. Ordenado, mas como as estrelas: Stellae manentes in ordine suo. Todas as estrelas estão por sua ordem; mas é ordem que faz influência, não é ordem que faça lavor. Não fez Deus o céu em xadrez de estrelas, como os pregadores fazem o sermão em xadrez de palavras. Se de uma parte há-de estar branco, da outra há-de estar negro; se de uma parte dizem luz, da outra hão-de dizer sombra; se de uma parte dizem desceu, da outra hão-de dizer subiu. Basta que não havemos de ver num sermão duas palavras em paz? Todas hão-de estar sempre em fronteira com o seu contrário? Aprendamos do céu o estilo da disposição, e também o das palavras. As estrelas são muito distintas e muito claras. Assim há-de ser o estilo da pregação; muito distinto e muito claro. E nem por isso temais que pareça o estilo baixo; as estrelas são muito distintas e muito claras, e altíssimas. O estilo pode ser muito claro e muito alto; tão claro que o entendam os que não sabem e tão alto que tenham muito que entender os que sabem. O rústico acha documentos nas estrelas para sua lavoura e o mareante para sua navegação e o matemático para as suas observações e para os seus juízos. De maneira que o rústico e o mareante, que não sabem ler nem escrever entendem as estrelas; e o matemático, que tem lido quantos escreveram, não alcança a entender quanto nelas há. Tal pode ser o sermão: -- estrelas que todos vêem, e muito poucos as medem.

Sim, Padre; porém esse estilo de pregar não é pregar culto. Mas fosse! Este desventurado estilo que hoje se usa, os que o querem honrar chamam-lhe culto, os que o condenam chamam-lhe escuro, mas ainda lhe fazem muita honra. O estilo culto não é escuro, é negro, e negro boçal e muito cerrado. E possível que somos portugueses e havemos de ouvir um pregador em português e não havemos de entender o que diz?!

Enfim, que havemos de pregar hoje aos peixes? Nunca pior auditório. Ao menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam. Uma só cousa pudera desconsolar ao pregador, que é serem gente os peixes que se não há-de converter. Mas esta dor é tão ordinária, que já pelo costume quase se não sente. Por esta causa mão falarei hoje em Céu nem Inferno; e assim será menos triste este sermão, do que os meus parecem aos homens, pelos encaminhar sempre à lembrança destes dois fins.

SERMÃO DE SANTO ANTÔNIO AOS PEIXES - (trecho)

Vos estis sal terrae. Haveis de saber, irmãos peixes, que o sal, filho do mar como vós, tem duas propriedades, as quais em vós mesmos se experimentam: conservar o são e preservá-lo para que se não corrompa. Estas mesmas propriedades tinham as pregações do vosso pregador Santo António, como também as devem ter as de todos os pregadores. Uma é louvar o bem, outra repreender o mal: louvar o bem para o conservar e repreender o mal para preservar dele. Nem cuideis que isto pertence só aos homens, porque também nos peixes tem seu lugar. Assim o diz o grande Doutor da Igreja S. Basílio: Non carpere solum, reprehendereque possumus pisces, sed sunt in illis, et quae prosequenda sunt imitatione: «Não só há que notar, diz o Santo, e que repreender nos peixes, senão também que imitar e louvar.» Quando Cristo comparou a sua Igreja à rede de pescar, Sagenae missae in mare, diz que os pescadores «recolheram os peixes bons e lançaram fora os maus»: Elegerunt bonos in vasa, malos autem foras miserunt. E onde há bons e maus, há que louvar e que repreender. Suposto isto, para que procedamos com clareza, dividirei, peixes, o vosso sermão em dois pontos: no primeiro louvar-vos-ei as vossas virtudes, no segundo repreender-vos-ei os vossos vícios. E desta maneira satisfaremos às obrigações do sal, que melhor vos está ouvi-las vivos, que experimentá-las depois de mortos.

(...)

Antes, porém, que vos vades, assim como ouvistes os vossos louvores, ouvi também agora as vossas repreensões. Servir-vos-ão de confusão, já que não seja de emenda. A primeira cousa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande. Olhai como estranha isto Santo Agostinho: Homines pravis, praeversisque cupiditatibus facti sunt, sicut pisces invicem se devorantes: «Os homens com suas más e perversas cobiças, vêm a ser como os peixes, que se comem uns aos outros.» Tão alheia cousa é, não só da razão, mas da mesma natureza, que sendo todos criados no mesmo elemento, todos cidadãos da mesma pátria e todos finalmente irmãos, vivais de vos comer! Santo Agostinho, que pregava aos homens, para encarecer a fealdade deste escândalo, mostrou-lho nos peixes; e eu, que prego aos peixes, para que vejais quão feio e abominável é, quero que o vejais nos homens.

Olhai, peixes, lá do mar para a terra. Não, não: não é isso o que vos digo. Vós virais os olhos para os matos e para o sertão? Para cá, para cá; para a cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só os Tapuias se comem uns aos outros? Muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os Brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas; vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão-de comer e como se hão-de comer. Morreu algum deles, vereis logo tantos sobre o miserável a despedaçá-lo e comê-lo. Comem-no os herdeiros, comem-no os testamenteiros, comem-no os legatários, comem-no os acredores; comem-no os oficiais dos órfãos e os dos defuntos e ausentes; come-o o médico, que o curou ou ajudou a morrer; come-o o sangrador que lhe tirou o sangue; come-a a mesma mulher, que de má vontade lhe dá para a mortalha o lençol mais velho da casa; come-o o que lhe abre a cova, o que lhe tange os sinos, e os que, cantando, o levam a enterrar; enfim, ainda o pobre defunto o não comeu a terra, e já o tem comido toda a terra.

Já se os homens se comeram somente depois de mortos, parece que era menos horror e menos matéria de sentimento. Mas para que conheçais a que chega a vossa crueldade, considerai, peixes, que também os homens se comem vivos assim como vós. Vivo estava Job, quando dizia: Quare persequimini me, et carnibus meis saturamini? «Porque me perseguis tão desumanamente, vós, que me estais comendo vivo e fartando-vos da minha carne?» Quereis ver um Job destes?

Vede um homem desses que andam perseguidos de pleitos ou acusados de crimes, e olhai quantos o estão comendo. Come-o o meirinho, come-o o carcereiro, come-o o escrivão, come-o o solicitador, come-o o advogado, come-o o inquiridor, come-o a testemunha, come-o o julgador, e ainda não está sentenciado, já está comido. São piores os homens que os corvos. O triste que foi à forca, não o comem os corvos senão depois de executado e morto; e o que anda em juízo, ainda não está executado nem sentenciado, e já está comido.

SERMÃO DO BOM LADRÃO (trecho)

Suponho finalmente que os ladrões de que falo não são aqueles miseráveis, a quem a pobreza e vileza de sua fortuna condenou a este gênero de vida, porque a mesma sua miséria, ou escusa, ou alivia o seu pecado, como diz Salomão: Non grandis est culpa, cum quis furatus fuerit: furatur enim ut esurientem impleat animam. (10).O ladrão que furta para comer, não vai, nem leva ao inferno; os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são outros ladrões, de maior calibre e de mais alta esfera, os quais debaixo do mesmo nome e do mesmo predicamento, distingue muito bem S. Basílio Magno: Non est intelligendum fures esse solum bursarum incisores, vel latrocinantes in balneis; sed et qui duces legionum statuti, vel qui commisso sibi regimine civitatum, aut gentium, hoc quidem furtim tollunt, hoc vero vi et publice exigunt: Não são só ladrões, diz o santo, os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa: os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. — Os outros ladrões roubam um homem: estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco: estes sem temor, nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam. Diógenes, que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a bradar: — Lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos. — Ditosa Grécia, que tinha tal pregador! E mais ditosas as outras nações, se nelas não padecera a justiça as mesmas afrontas! Quantas vezes se viu Roma ir a enforcar um ladrão, por ter furtado um carneiro, e no mesmo dia ser levado em triunfo um cônsul, ou ditador, por ter roubado uma província. E quantos ladrões teriam enforcado estes mesmos ladrões triunfantes? De um, chamado Seronato, disse com discreta contraposição Sidônio Apolinar: Nou cessat simul furta, vel punire, vel facere: Seronato está sempre ocupado em duas coisas: em castigar furtos, e em os fazer. — Isto não era zelo de justiça, senão inveja. Queria tirar os ladrões do mundo, para roubar ele só.

(Apostila 9 de Barroco - Literatura Brasileira)

 

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PADRE ANTONIO VIEIRA - Sermão da Sexagésima (integral)

Semen est verbum Dei. S. Lucas, VIII, 11.

I

E se quisesse Deus que este tão ilustre e tão numeroso auditório saísse hoje tão desenganado da pregação, como vem enganado com o pregador! Ouçamos o Evangelho, e ouçamo-lo todo, que todo é do caso que me levou e trouxe de tão longe.

Ecce exiit qui seminat, seminare. Diz Cristo que «saiu o pregador evangélico a semear» a palavra divina. Bem parece este texto dos livros de Deus. Não só faz menção do semear, mas também faz caso do sair: Exiit, porque no dia da messe hão-nos de medir a semeadura e hão-nos de contar os passos. O Mundo, aos que lavrais com ele, nem vos satisfaz o que dispendeis, nem vos paga o que andais. Deus não é assim. Para quem lavra com Deus até o sair é semear, porque também das passadas colhe fruto. Entre os semeadores do Evangelho há uns que saem a semear, há outros que semeiam sem sair. Os que saem a semear são os que vão pregar à Índia, à China, ao Japão; os que semeiam sem sair, são os que se contentam com pregar na Pátria. Todos terão sua razão, mas tudo tem sua conta. Aos que têm a seara em casa, pagar-lhes-ão a semeadura; aos que vão buscar a seara tão longe, hão-lhes de medir a semeadura e hão-lhes de contar os passos. Ah Dia do Juízo! Ah pregadores! Os de cá, achar-vos-eis com mais paço; os de lá, com mais passos: Exiit seminare.

Mas daqui mesmo vejo que notais (e me notais) que diz Cristo que o semeador do Evangelho saiu, porém não diz que tornou porque os pregadores evangélicos, os homens que professam pregar e propagar a Fé, é bem que saiam, mas não é bem que tornem. Aqueles animais de Ezequiel que tiravam pelo carro triunfal da glória de Deus e significavam os pregadores do Evangelho que propriedades tinham? Nec revertebantur, cum ambularent: «Uma vez que iam, não tornavam». As rédeas por que se governavam era o ímpeto do espírito, como diz o mesmo texto: mas esse espírito tinha impulsos para os levar, não tinha regresso para os trazer; porque sair para tornar melhor é não sair. Assim argúis com muita razão, e eu também assim o digo. Mas pergunto: E se esse semeador evangélico, quando saiu, achasse o campo tomado; se se armassem contra ele os espinhos; se se levantassem contra ele as pedras, e se lhe fechassem os caminhos que havia de fazer? Todos estes contrários que digo e todas estas contradições experimentou o semeador do nosso Evangelho. Começou ele a semear (diz Cristo), mas com pouca ventura. «Uma parte do trigo caiu entre espinhos, e afogaram-no os espinhos»: Aliud cecidit inter spinas et simul exortae spinae suffocaverunt illud. Outra parte caiu sobre pedras, e secou-se nas pedras por falta de humidade»: Aliud cecidit super petram, et natum aruit, quia non habebat humorem. «Outra parte caiu no caminho, e pisaram-no os homens e comeram-no as aves»: Aliud cecidit secus viam, et conculcatum est, et volucres coeli comederunt illud. Ora vede como todas as criaturas do Mundo se armaram contra esta sementeira. Todas as criaturas quantas há no Mundo se reduzem a quatro gêneros: criaturas racionais, como os homens; criaturas sensitivas, como os animais; criaturas vegetativas, como as plantas; criaturas insensíveis, como as pedras; e não há mais. Faltou alguma destas que se não armasse contra o semeador? Nenhuma. A natureza insensível o perseguiu nas pedras, a vegetativa nos espinhos, a sensitiva nas aves, a racional nos homens. E notai a desgraça do trigo, que onde só podia esperar razão, ali achou maior agravo. As pedras secaram-no, os espinhos afogaram-no, as aves comeram-no; e os homens? Pisaram-no: Conculcatum est. Ab hominibus (diz a Glossa).

Quando Cristo mandou pregar os Apóstolos pelo Mundo, disse-lhes desta maneira: Euntes in mundum universum, praedicate omni creaturae: «Ide, e pregai a toda a criatura». Como assim, Senhor?! Os animais não são criaturas?! As árvores não são criaturas?! As pedras não são criaturas?! Pois hão os Apóstolos de pregar às pedras?! Hão-de pregar aos troncos?! Hão-de pregar aos animais?! Sim, diz S. Gregório, depois de Santo Agostinho. Porque como os Apóstolos iam pregar a todas as nações do Mundo, muitas delas bárbaras e incultas, haviam de achar os homens degenerados em todas as espécies de criaturas: haviam de achar homens homens, haviam de achar homens brutos, haviam de achar homens troncos, haviam de achar homens pedras. E quando os pregadores evangélicos vão pregar a toda a criatura, que se armem contra eles todas as criaturas?! Grande desgraça!

Mas ainda a do semeador do nosso Evangelho não foi a maior. A maior é a que se tem experimentado na seara aonde eu fui, e para onde venho. Tudo o que aqui padeceu o trigo, padeceram lá os semeadores. Se bem advertirdes, houve aqui trigo mirrado, trigo afogado, trigo comido e trigo pisado. Trigo mirrado: Natum aruit, quia non habebat humorem; trigo afogado: Exortae spinae suffocaverunt illud; trigo comido: Volucres caeli comederunt illud; trigo pisado: Conculcutum est. Tudo isto padeceram os semeadores evangélicos da missão do Maranhão de doze anos a esta parte. Houve missionários afogados, porque uns se afogaram na boca do grande rio das Amazonas; houve missionários comidos, porque a outros comeram os bárbaros na ilha dos Aroãs; houve missionários mirrados, porque tais tornaram os da jornada dos Tocatins, mirrados da fome e da doença, onde tal houve, que andando vinte e dois dias perdido nas brenhas matou somente a sede com o orvalho que lambia das folhas. Vede se lhe quadra bem o Notum aruit, quia non habebant humorem! E que sobre mirrados, sobre afogados, sobre comidos, ainda se vejam pisados e perseguidos dos homens: Conculcatum est! Não me queixo nem o digo, Senhor, pelos semeadores; só pela seara o digo, só pela seara o sinto. Para os semeadores, isto são glórias: mirrados sim, mas por amor de vós mirrados; afogados sim, mas por amor de vós afogados; comidos sim, mas por amor de vós comidos; pisados e perseguidos sim, mas por amor de vós perseguidos e pisados.

Agora torna a minha pergunta: E que faria neste caso, ou que devia fazer o semeador evangélico, vendo tão mal logrados seus primeiros trabalhos? Deixaria a lavoura? Desistiria da sementeira? Ficar-se-ia ocioso no campo, só porque tinha lá ido? Parece que não. Mas se tornasse muito depressa a buscar alguns instrumentos com que alimpar a terra das pedras e dos espinhos, seria isto desistir? Seria isto tornar atrás?-- Não por certo. No mesmo texto de Ezequiel com que arguistes, temos a prova. Já vimos como dizia o texto, que aqueles animais da carroça de Deus, «quando iam não tornavam»: Nec revertebantur, cum ambularent. Lede agora dois versos mais abaixo, e vereis que diz o mesmo texto que «aqueles animais tornavam, e semelhança de um raio ou corisco»: Ibant et revertebantur in similitudinem fulgoris coruscantis. Pois se os animais iam e tornavam à semelhança de um raio, como diz o texto que quando iam não tornavam? Porque quem vai e volta como um raio, não torna. Ir e voltar como raio, não é tornar, é ir por diante. Assim o fez o semeador do nosso Evangelho. Não o desanimou nem a primeira nem a segunda nem a terceira perda; continuou por diante no semear, e foi com tanta felicidade, que nesta quarta e última parte do trigo se restauraram com vantagem as perdas do demais: nasceu, cresceu, espigou, amadureceu, colheu-se, mediu-se, achou-se que por um grão multiplicara cento: Et fecit fructum centuplum.

Oh que grandes esperanças me dá esta sementeira! Oh que grande exemplo me dá este semeador! Dá-me grandes esperanças a sementeira porque, ainda que se perderam os primeiros trabalhos, lograr-se-ão os últimos. Dá-me grande exemplo o semeador, porque, depois de perder a primeira, a segunda e a terceira parte do trigo, aproveitou a quarta e última, e colheu dela muito fruto. Já que se perderam as três partes da vida, já que uma parte da idade a levaram os espinhos, já que outra parte a levaram es pedras, já que outra parte a levaram os caminhos, e tantos caminhos, esta quarta e última parte, este último quartel da vida, porque se perderá também? Porque não dará fruto? Porque não terão também os anos o que tem o ano? O ano tem tempo para as flores e tempo para os frutos. Porque não terá também o seu Outono a vida? As flores, umas caem, outras secam, outras murcham, outras leva o vento; aquelas poucas que se pegam ao tronco e se convertem em fruto, só essas são as venturosas, só essas são as que aproveitam, só essas são as que sustentam o Mundo. Será bem que o Mundo morra à fome? Será bem que os últimos dias se passem em flores? -- Não será bem, nem Deus quer que seja, nem há-de ser. Eis aqui porque eu dizia ao princípio, que vindes enganados com o pregador. Mas para que possais ir desenganados com o sermão, tratarei nele uma matéria de grande peso e importância. Servirá como de prólogo aos sermões que vos hei-de pregar, e aos mais que ouvirdes esta Quaresma.

II

Semen est verbum Dei.

O trigo que semeou o pregador evangélico, diz Cristo que é a palavra de Deus. Os espinhos, as pedras, o caminho e a terra boa em que o trigo caiu, são os diversos corações dos homens. Os espinhos são os corações embaraçados com cuidados, com riquezas, com delícias; e nestes afoga-se a palavra de Deus. As pedras são os corações duros e obstinados; e nestes seca-se a palavra de Deus, e se nasce, não cria raízes. Os caminhos são os corações inquietos e perturbados com a passagem e tropel das coisas do Mundo, umas que vão, outras que vêm, outras que atravessam, e todas passam; e nestes é pisada a palavra de Deus, porque a desatendem ou a desprezam. Finalmente, a terra boa são os corações bons ou os homens de bom coração; e nestes prende e frutifica a palavra divina, com tanta fecundidade e abundância, que se colhe cento por um: Et fructum fecit centuplum.

Este grande frutificar da palavra de Deus é o em que reparo hoje; e é uma dúvida ou admiração que me traz suspenso e confuso, depois que subo ao púlpito. Se a palavra de Deus é tão eficaz e tão poderosa, como vemos tão pouco fruto da palavra de Deus? Diz Cristo que a palavra de Deus frutifica cento por um, e já eu me contentara com que frutificasse um por cento. Se com cada cem sermões se convertera e emendara um homem, já o Mundo fora santo. Este argumento de fé, fundado na autoridade de Cristo, se aperta ainda mais na experiência, comparando os tempos passados com os presentes. Lede as histórias eclesiásticas, e achá-las-eis todas cheias de admiráveis efeitos da pregação da palavra de Deus. Tantos pecadores convertidos, tanta mudança de vida, tanta reformação de costumes; os grandes desprezando as riquezas e vaidades do Mundo; os reis renunciando os ceptros e as coroas; as mocidades e as gentilezas metendo-se pelos desertos e pelas covas; e hoje? -- Nada disto. Nunca na Igreja de Deus houve tantas pregações, nem tantos pregadores como hoje. Pois se tanto se semeia a palavra de Deus, como é tão pouco o fruto? Não há um homem que em um sermão entre em si e se resolva, não há um moço que se arrependa, não há um velho que se desengane. Que é isto? Assim como Deus não é hoje menos omnipotente, assim a sua palavra não é hoje menos poderosa do que dantes era. Pois se a palavra de Deus é tão poderosa; se a palavra de Deus tem hoje tantos pregadores, porque não vemos hoje nenhum fruto da palavra de Deus? Esta, tão grande e tão importante dúvida, será a matéria do sermão. Quero começar pregando-me a mim. A mim será, e também a vós; a mim, para aprender a pregar; a vós, que aprendais a ouvir.

III

Fazer pouco fruto a palavra de Deus no Mundo, pode proceder de um de três princípios: ou da parte do pregador, ou da parte do ouvinte, ou da parte de Deus. Para uma alma se converter por meio de um sermão, há-de haver três concursos: há-de concorrer o pregador com a doutrina, persuadindo; há-de concorrer o ouvinte com o entendimento, percebendo; há-de concorrer Deus com a graça, alumiando. Para um homem se ver a si mesmo, são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos. Que coisa é a conversão de uma alma, senão entrar um homem dentro em si e ver-se a si mesmo? Para esta vista são necessários olhos, é necessária luz e é necessário espelho. O pregador concorre com o espelho, que é a doutrina; Deus concorre com a luz, que é a graça; o homem concorre com os olhos, que é o conhecimento. Ora suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende destes três concursos: de Deus, do pregador e do ouvinte, por qual deles devemos entender que falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou por parte de Deus?

Primeiramente, por parte de Deus, não falta nem pode faltar. Esta proposição é de fé, definida no Concílio Tridentino, e no nosso Evangelho a temos. Do trigo que deitou à terra o semeador, uma parte se logrou e três se perderam. E porque se perderam estas três? -- A primeira perdeu-se, porque a afogaram os espinhos; a segunda, porque a secaram as pedras; a terceira, porque a pisaram os homens e a comeram as aves. Isto é o que diz Cristo; mas notai o que não diz. Não diz que parte alguma daquele trigo se perdesse por causa do sol ou da chuva. A causa por que ordinariamente se perdem as sementeiras, é pela desigualdade e pela intemperança dos tempos, ou porque falta ou sobeja a chuva, ou porque falta ou sobeja o sol. Pois porque não introduz Cristo na parábola do Evangelho algum trigo que se perdesse por causa do sol ou da chuva? -- Porque o sol e a chuva são as afluências da parte do Céu, e deixar de frutificar a semente da palavra de Deus, nunca é por falta: do Céu, sempre é por culpa nossa. Deixará de frutificar a sementeira, ou pelo embaraço dos espinhos, ou pela dureza das pedras, ou pelos descaminhos dos caminhos; mas por falta das influências do Céu, isso nunca é nem pode ser. Sempre Deus está pronto da sua parte, com o sol para aquentar e com a chuva para regar; com o sol para alumiar e com a chuva para amolecer, se os nossos corações quiserem: Qui solem suum oriri facit super bonos et malos, et pluit super justos et injustos. Se Deus dá o seu sol e a sua chuva aos bons e aos maus; aos maus que se quiserem fazer bons, como a negará? Este ponto é tão claro que não há para que nos determos em mais prova. Quid debui facere vineae meae, et non feci? -- disse o mesmo Deus por Isaías.

Sendo, pois, certo que a palavra divina não deixa de frutificar por parte de Deus, segue-se que ou é por falta do pregador ou por falta dos ouvintes. Por qual será? Os pregadores deitam a culpa aos ouvintes, mas não é assim. Se fora por parte dos ouvintes, não fizera a palavra de Deus muito grande fruto, mas não fazer nenhum fruto e nenhum efeito, não é por parte dos ouvintes. Provo.

Os ouvintes ou são maus ou são bons; se são bons, faz neles fruto a palavra de Deus; se são maus, ainda que não faça neles fruto, faz efeito. No Evangelho o temos. O trigo que caiu nos espinhos, nasceu, mas afogaram-no: Simul exortae spinae suffocaverunt illud. O trigo que caiu nas pedras, nasceu também, mas secou-se: Et natum aruit. O trigo que caiu na terra boa, nasceu e frutificou com grande multiplicação: Et natum fecit fructum centuplum. De maneira que o trigo que caiu na boa terra, nasceu e frutificou; o trigo que caiu na má terra, não frutificou, mas nasceu; porque a palavra de Deus é tão funda, que nos bons faz muito fruto e é tão eficaz que nos maus ainda que não faça fruto, faz efeito; lançada nos espinhos, não frutificou, mas nasceu até nos espinhos; lançada nas pedras, não frutificou, mas nasceu até nas pedras. Os piores ouvintes que há na Igreja de Deus, são as pedras e os espinhos. E porquê? -- Os espinhos por agudos, as pedras por duras. Ouvintes de entendimentos agudos e ouvintes de vontades endurecidas são os piores que há. Os ouvintes de entendimentos agudos são maus ouvintes, porque vêm só a ouvir sutilezas, a esperar galantarias, a avaliar pensamentos, e às vezes também a picar a quem os não pica. Aliud cecidit inter spinas: O trigo não picou os espinhos, antes os espinhos o picaram a ele; e o mesmo sucede cá. Cuidais que o sermão vos picou e vós, e não é assim; vós sois os que picais o sermão. Por isto são maus ouvintes os de entendimentos agudos. Mas os de vontades endurecidas ainda são piores, porque um entendimento agudo pode ferir pelos mesmos fios, e vencer-se uma agudeza com outra maior; mas contra vontades endurecidas nenhuma coisa aproveita a agudeza, antes dana mais, porque quanto as setas são mais agudas, tanto mais facilmente se despontam na pedra. Oh! Deus nos livre de vontades endurecidas, que ainda são piores que as pedras! A vara de Moisés abrandou as pedras, e não pôde abrandar uma vontade endurecida: Percutiens virga bis silicem, et egressae sunt aquae largissimae. Induratum est cor Pharaonis. E com os ouvintes de entendimentos agudos e os ouvintes de vontades endurecidas serem os mais rebeldes, é tanta a força da divina palavra, que, apesar da agudeza, nasce nos espinhos, e apesar da dureza nasce nas pedras.

Pudéramos argüir ao lavrador do Evangelho de não cortar os espinhos e de não arrancar as pedras antes de semear, mas de indústria deixou no campo as pedras e os espinhos, para que se visse a força do que semeava. É tanta a força da divina palavra, que, sem cortar nem despontar espinhos, nasce entre espinhos. É tanta a força da divina palavra, que, sem arrancar nem abrandar pedras, nasce nas pedras. Corações embaraçados como espinhos corações secos e duros como pedras, ouvi a palavra de Deus e tende confiança! Tomai exemplo nessas mesmas pedras e nesses espinhos! Esses espinhos e essas pedras agora resistem ao semeador do Céu; mas virá tempo em que essas mesmas pedras o aclamem e esses mesmos espinhos o coroem.

Quando o semeador do Céu deixou o campo, saindo deste Mundo, as pedras se quebraram para lhe fazerem aclamações, e os espinhos se teceram para lhe fazerem coroa. E se a palavra de Deus até dos espinhos e das pedras triunfa; se a palavra de Deus até nas pedras, até nos espinhos nasce; não triunfar dos alvedrios hoje a palavra de Deus, nem nascer nos corações, não é por culpa, nem por indisposição dos ouvintes.

Supostas estas duas demonstrações; suposto que o fruto e efeitos da palavra de Deus, não fica, nem por parte de Deus, nem por parte dos ouvintes, segue-se por consequência clara, que fica por parte do pregador. E assim é. Sabeis, cristãos, porque não faz fruto a palavra de Deus? Por culpa dos pregadores. Sabeis, pregadores, porque não faz fruto a palavra de Deus? -- Por culpa nossa.

IV

Mas como em um pregador há tantas qualidades, e em uma pregação tantas leis, e os pregadores podem ser culpados em todas, em qual consistirá esta culpa? -- No pregador podem-se considerar cinco circunstâncias: a pessoa, a ciência, a matéria, o estilo, a voz. A pessoa que é, e ciência que tem, a matéria que trata, o estilo que segue, a voz com que fala. Todas estas circunstâncias temos no Evangelho. Vamo-las examinando uma por uma e buscando esta causa.

Será porventura o não fazer fruto hoje a palavra de Deus, pela circunstância da pessoa? Será porque antigamente os pregadores eram santos eram varões apostólicos e exemplares, e hoje os pregadores são eu e outros como eu? -- Boa razão é esta. A definição do pregador é a vida e o exemplo. Por isso Cristo no Evangelho não o comparou ao semeador, senão ao que semeia. Reparai. Não diz Cristo: saiu a semear o semeador, senão, saiu a semear o que semeia: Ecce exiit, qui seminat, seminare. Entre o semeador e o que semeia há muita diferença. Uma coisa é o soldado e outra coisa o que peleja; uma coisa é o governador e outra o que governa. Da mesma maneira, uma coisa é o semeador e outra o que semeia; uma coisa é o pregador e outra o que prega. O semeador e o pregador é nome; o que semeia e o que prega é ação; e as ações são as que dão o ser ao pregador. Ter o nome de pregador, ou ser pregador de nome, não importa nada; as ações, a vida, o exemplo, as obras, são as que convertem o Mundo. O melhor conceito que o pregador leva ao púlpito, qual cuidais que é? -- o conceito que de sua vida têm os ouvintes.

Antigamente convertia-se o Mundo, hoje porque se não converte ninguém? Porque hoje pregam-se palavras e pensamentos, antigamente pregavam-se palavras e obras. Palavras sem obra são tiros sem bala; atroam, mas não ferem. A funda de David derrubou o gigante, mas não o derrubou com o estalo, senão com a pedra: Infixus est lapis in fronte ejus. As vozes da harpa de David lançavam fora os demônios do corpo de Saul, mas não eram vozes pronunciadas com a boca, eram vozes formadas com a mão: David tollebat citharam, et percutiebat manu sua. Por isso Cristo comparou o pregador ao semeador. O pregar que é falar faz-se com a boca; o pregar que é semear, faz-se com a mão. Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração, são necessárias obras. Diz o Evangelho que a palavra de Deus frutificou cento por um. Que quer isto dizer? Quer dizer que de uma palavra nasceram cem palavras? -- Não. Quer dizer que de poucas palavras nasceram muitas obras. Pois palavras que frutificam obras, vede se podem ser só palavras! Quis Deus converter o Mundo, e que fez? -- Mandou ao Mundo seu Filho feito homem. Notai. O Filho de Deus, enquanto Deus, é palavra de Deus, não é obra de Deus: Genitum non factum. O Filho de Deus, enquanto Deus e Homem, é palavra de Deus e obra de Deus juntamente: Verbum caro factum est. De maneira que até de sua palavra desacompanhada de obras não fiou Deus a conversão dos homens. Na união da palavra de Deus com a maior obra de Deus consistiu a eficácia da salvação do Mundo. Verbo Divino é palavra divina; mas importa pouco que as nossas palavras sejam divinas, se forem desacompanhadas de obras. A razão disto é porque as palavras ouvem-se, as obras vêem-se; as palavras entram pelos ouvidos, as obras entram pelos olhos, e a nossa alma rende-se muito mais pelos olhos que pelos ouvidos. No Céu ninguém há que não ame a Deus, nem possa deixar de o amar. Na terra há tão poucos que o amem, todos o ofendem. Deus não é o mesmo, e tão digno de ser amado no Céu e na Terra? Pois como no Céu obriga e necessita a todos a o amarem, e na terra não? A razão é porque Deus no Céu é Deus visto; Deus na terra é Deus ouvido. No Céu entra o conhecimento de Deus à alma pelos olhos: Videbimus eum sicut est; na terra entra-lhe o conhecimento de Deus pelos ouvidos: Fides ex auditu; e o que entra pelos ouvidos crê-se, o que entra pelos olhos necessita. Viram os ouvintes em nós o que nos ouvem a nós, e o abalo e os efeitos do sermão seriam muito outros.

Vai um pregador pregando a Paixão, chega ao pretório de Pilatos, conta como a Cristo o fizeram rei de zombaria, diz que tomaram uma púrpura e lha puseram aos ombros; ouve aquilo o auditório muito atento. Diz que teceram uma coroa de espinhos e que lha pregaram na cabeça; ouvem todos com a mesma atenção. Diz mais que lhe ataram as mãos e lhe meteram nelas uma cana por ceptro; continua o mesmo silêncio e a mesma suspensão nos ouvintes. Corre-se neste espaço uma cortina aparece a imagem do Ecce Homo; eis todos prostrados por terra, eis todos a bater no peito eis as lágrimas, eis os gritos, eis os alaridos, eis as bofetadas. Que é isto? Que apareceu de novo nesta igreja? Tudo o que descobriu aquela cortina, tinha já dito o pregador. Já tinha dito daquela púrpura, já tinha dito daquela coma e daqueles espinhos, já tinha dito daquele ceptro e daquela cana. Pois se isto então não fez abalo nenhum, como faz agora tanto? -- Porque então era Ecce Homo ouvido, e agora é Ecce Homo visto; a relação do pregador entrava pelos ouvidos a representação daquela figura entra pelos olhos. Sabem, Padres pregadores, porque fazem pouco abalo os nossos sermões? -- Porque não pregamos aos olhos, pregamos só aos ouvidos. Porque convertia o Baptista tantos pecadores? -- Porque assim como as suas palavras pregavam aos ouvidos, o seu exemplo pregava aos olhos. As palavras do Baptista pregavam penitência: Agite poenitentiam. «Homens, fazei penitência» -- e o exemplo clamava: Ecce Homo: «eis aqui está o homem» que é o retrato da penitência e da aspereza. As palavras do Baptista pregavam jejum e repreendiam os regalos e demasias da gula; e o exemplo clamava: Ecce Homo: eis aqui está o homem que se sustenta de gafanhotos e mel silvestre. As palavras do Baptista pregavam composição e modéstia, e condenavam a soberba e a vaidade das galas; e o exemplo clamava: Ecce Homo: eis aqui está o homem vestido de peles de camelo, com as cordas e cilício à raiz da carne. As palavras do Baptista pregavam despegos e retiros do Mundo, e fugir das ocasiões e dos homens; e o exemplo Clamava: Ecce Homo: eis aqui o homem que deixou as cortes e as sociedades, e vive num deserto e numa cova. Se os ouvintes ouvem uma coisa e vêem outra, como se hão-de converter? Jacob punha as varas manchadas diante das ovelhas quando concebiam, e daqui procedia que os cordeiros nasciam malhados. Se quando os ouvintes percebem os nossos conceitos, têm diante dos olhos as nossas manchas, como hão-de conceber virtudes? Se a minha vida é apologia contra a minha doutrina, se as minhas palavras vão já refutadas nas minhas obras, se uma cousa é o semeador e outra o que semeia, como se há-de fazer fruto?

Muito boa e muito forte razão era esta de não fazer fruto a palavra de Deus; mas tem contra si o exemplo e experiência de Jonas. Jonas fugitivo de Deus, desobediente, contumaz, e, ainda depois de engolido e vomitado iracundo, impaciente, pouco caritativo, pouco misericordioso, e mais zeloso e amigo da própria estimação que da honra de Deus e salvação das almas, desejoso de ver subvertida a Nínive e de a ver subverter com seus olhos, havendo nela tantos mil inocentes; contudo este mesmo homem com um sermão converteu o maior rei, a maior corte e o maior reinado do Mundo, e não de homens fiéis senão de gentios idólatras. Outra é logo a causa que buscamos. Qual será?

V

Será porventura o estilo que hoje se usa nos púlpitos? Um estilo tão empeçado, um estilo tão dificultoso, um estilo tão afectado, um estilo tão encontrado a toda a arte e a toda a natureza? Boa razão é também esta. O estilo há-de ser muito fácil e muito natural. Por isso Cristo comparou o pregar ao semear: Exiit, qui seminat, seminare. Compara Cristo o pregar ao semear, porque o semear é uma arte que tem mais de natureza que de arte. Nas outras artes tudo é arte: na música tudo se faz por compasso, na arquitectura tudo se faz por regra, na aritmética tudo se faz por conta, na geometria tudo se faz por medida. O semear não é assim. É uma arte sem arte caia onde cair. Vede como semeava o nosso lavrador do Evangelho. «Caía o trigo nos espinhos e nascia» Aliud cecidit inter spinas, et simul exortae spinae «Caía o trigo nas pedras e nascia»: Aliud cecidit super petram, et ortum. «Caía o trigo na terra boa e nascia»: Aliud cecidit in terram bonam, et natum. Ia o trigo caindo e ia nascendo.

Assim há-de ser o pregar. Hão-de cair as coisas hão-de nascer; tão naturais que vão caindo, tão próprias que venham nascendo. Que diferente é o estilo violento e tirânico que hoje se usa! Ver vir os tristes passos da Escritura, como quem vem ao martírio; uns vêm acarretados, outros vêm arrastados, outros vêm estirados, outros vêm torcidos, outros vêm despedaçados; só atados não vêm! Há tal tirania? Então no meio disto, que bem levantado está aquilo! Não está a coisa no levantar, está no cair: Cecidit. Notai uma alegoria própria da nossa língua. O trigo do semeador, ainda que caiu quatro vezes, só de três nasceu; para o sermão vir nascendo, há-de ter três modos de cair: há-de cair com queda, há-de cair com cadência há-de cair com caso. A queda é para as coisas, a cadência para as palavras, o caso para a disposição. A queda é para as coisas porque hão-de vir bem trazidas e em seu lugar; hão-de ter queda. A cadência é para as palavras, porque não hão-de ser escabrosas nem dissonantes; hão-de ter cadência. O caso é para a disposição, porque há-de ser tão natural e tão desafectada que pareça caso e não estudo: Cecidit, cecidit, cecidit.

Já que falo contra os estilos modernos, quero alegar por mim o estilo do mais antigo pregador que houve no Mundo. E qual foi ele? -- O mais antigo pregador que houve no Mundo foi o céu. Coeli enarrant gloriam Dei et opera manuum ejus annuntiat Firmamentum -- diz David. Suposto que o céu é pregador, deve de ter sermões e deve de ter palavras. Sim, tem, diz o mesmo David; tem palavras e tem sermões; e mais, muito bem ouvidos. Non sunt loquellae, nec sermones, quorum non audiantur voces eorum. E quais são estes sermões e estas palavras do céu? -- As palavras são as estrelas, os sermões são a composição, a ordem, a harmonia e o curso delas. Vede como diz o estilo de pregar do céu, com o estilo que Cristo ensinou na terra. Um e outro é semear; a terra semeada de trigo, o céu semeado de estrelas. O pregar há-de ser como quem semeia, e não como quem ladrilha ou azuleja. Ordenado, mas como as estrelas: Stellae manentes in ordine suo. Todas as estrelas estão por sua ordem; mas é ordem que faz influência, não é ordem que faça lavor. Não fez Deus o céu em xadrez de estrelas, como os pregadores fazem o sermão em xadrez de palavras. Se de uma parte há-de estar branco, da outra há-de estar negro; se de uma parte dizem luz, da outra hão-de dizer sombra; se de uma parte dizem desceu, da outra hão-de dizer subiu. Basta que não havemos de ver num sermão duas palavras em paz? Todas hão-de estar sempre em fronteira com o seu contrário? Aprendamos do céu o estilo da disposição, e também o das palavras. As estrelas são muito distintas e muito claras. Assim há-de ser o estilo da pregação; muito distinto e muito claro. E nem por isso temais que pareça o estilo baixo; as estrelas são muito distintas e muito claras, e altíssimas. O estilo pode ser muito claro e muito alto; tão claro que o entendam os que não sabem e tão alto que tenham muito que entender os que sabem. O rústico acha documentos nas estrelas para sua lavoura e o mareante para sua navegação e o matemático para as suas observações e para os seus juízos. De maneira que o rústico e o mareante, que não sabem ler nem escrever entendem as estrelas; e o matemático, que tem lido quantos escreveram, não alcança a entender quanto nelas há. Tal pode ser o sermão: -- estrelas que todos vêem, e muito poucos as medem.

Sim, Padre; porém esse estilo de pregar não é pregar culto. Mas fosse! Este desventurado estilo que hoje se usa, os que o querem honrar chamam-lhe culto, os que o condenam chamam-lhe escuro, mas ainda lhe fazem muita honra. O estilo culto não é escuro, é negro, e negro boçal e muito cerrado. E possível que somos portugueses e havemos de ouvir um pregador em português e não havemos de entender o que diz?! Assim como há Lexicon para o grego e Calepino para o latim, assim é necessário haver um vocabulário do púlpito. Eu ao menos o tomara para os nomes próprios, porque os cultos têm desbaptizados os santos, e cada autor que alegam é um enigma. Assim o disse o Ceptro Penitente, assim o disse o Evangelista Apeles, assim o disse a Águia de África, o Favo de Claraval, a Púrpura de Belém, a Boca de Ouro. Há tal modo de alegar! O Ceptro Penitente dizem que é David, como se todos os ceptros não foram penitência; o Evangelista Apeles, que é S. Lucas; o Favo de Claraval, S. Bernardo; a Águia de África, Santo Agostinho; a Púrpura de Belém, S. Jerónimo; a Boca de Ouro, S. Crisóstomo. E quem quitaria ao outro cuidar que a Púrpura de Belém é Herodes que a Águia de África é Cipião, e que a Boca de Ouro é Midas? Se houvesse um advogado que alegasse assim a Bártolo e Baldo, havíeis de fiar dele o vosso pleito? Se houvesse um homem que assim falasse na conversação, não o havíeis de ter por néscio? Pois o que na conversação seria necessidade, como há-de ser discrição no púlpito?

Boa me parecia também esta razão; mas como os cultos pelo pulido e estudado se defendem com o grande Nazianzeno, com Ambrósio, com Crisólogo, com Leão, e pelo escuro e duro com Clemente Alexandrino, com Tertuliano, com Basílio de Selêucia, com Zeno Veronense e outros, não podemos negar a reverência a tamanhos autores posto que desejáramos nos que se prezam de beber destes rios, a sua profundidade. Qual será logo a causa de nossa queixa?

VI

Será pela matéria ou matérias que tomam os pregadores? Usa-se hoje o modo que chamam de apostilar o Evangelho, em que tomam muitas matérias, levantam muitos assuntos e quem levanta muita caça e não segue nenhuma não é muito que se recolha com as mãos vazias. Boa razão é também esta. O sermão há-de ter um só assunto e uma só matéria. Por isso Cristo disse que o lavrador do Evangelho não semeara muitos géneros de sementes, senão uma só: Exiit, qui seminat, seminare semen. Semeou uma semente só, e não muitas, porque o sermão há-de ter uma só matéria, e não muitas matérias. Se o lavrador semeara primeiro trigo, e sobre o trigo semeara centeio, e sobre o centeio semeara milho grosso e miúdo, e sobre o milho semeara cevada, que havia de nascer? Uma mata brava, uma confusão verde. Eis aqui o que acontece aos sermões deste género. Como semeiam tanta variedade, não podem colher coisa certa. Quem semeia misturas, mal pode colher trigo. Se uma nau fizesse um bordo para o norte, outro para o sul, outro para leste, outro para oeste, como poderia fazer viagem? Por isso nos púlpitos se trabalha tanto e se navega tão pouco. Um assunto vai para um vento, outro assunto vai para outro vento; que se há-de colher senão vento? O Baptista convertia muitos em Judeia; mas quantas matérias tomava? Uma só matéria: Parate viam Domini: a preparação para o Reino de Cristo. Jonas converteu os Ninivitas; mas quantos assuntos tomou? Um só assunto: Adhuc quadraginta dies, et Ninive subvertetur: a subversão da cidade. De maneira que Jonas em quarenta dias pregou um só assunto; e nós queremos pregar quarenta assuntos em uma hora? Por isso não pregamos nenhum. O sermão há-de ser de uma só cor, há-de ter um só objecto, um só assunto, uma só matéria.

Há-de tomar o pregador uma só matéria; há-de defini-la, para que se conheça; há-de dividi-la, para que se distinga; há-de prová-la com a Escritura; há-de declará-la com a razão; há-de confirmá-la com o exemplo; há-de amplificá-la com as causas, com os efeitos, com as circunstâncias, com as conveniências que se hão-de seguir, com os inconvenientes que se devem evitar; há-de responder às dúvidas, há-de satisfazer às dificuldades; há-de impugnar e refutar com toda a força da eloquência os argumentos contrários; e depois disto há-de colher, há-de apertar, há-de concluir, há-de persuadir, há-de acabar. Isto é sermão, isto é pregar; e o que não é isto, é falar de mais alto.

Não nego nem quero dizer que o sermão não haja de ter variedade de discursos, mas esses hão-de nascer todos da mesma matéria e continuar e acabar nela. Quereis ver tudo isto com os olhos? Ora vede. Uma árvore tem raízes, tem tronco, tem ramos, tem folhas, tem varas, tem flores, tem frutos. Assim há-de ser o sermão: há-de ter raízes fortes e sólidas, porque há-de ser fundado no Evangelho; há-de ter um tronco, porque há-de ter um só assunto e tratar uma só matéria; deste tronco hão-de nascer diversos ramos, que são diversos discursos, mas nascidos da mesma matéria e continuados nela; estes ramos hão-de ser secos, senão cobertos de folhas, porque os discursos hão-de ser vestidos e ornados de palavras. Há-de ter esta árvore varas, que são a repreensão dos vícios; há-de ter flores, que são as sentenças; e por remate de tudo, há-de ter frutos, que é o fruto e o fim a que se há-de ordenar o sermão. De maneira que há-de haver frutos, há-de haver flores, há-de haver varas, há-de haver folhas, há-de haver ramos; mas tudo nascido e fundado em um só tronco, que é uma só matéria. Se tudo são troncos, não é sermão, é madeira. Se tudo são ramos, não é sermão, são maravalhas. Se tudo são folhas, não é sermão, são versas. Se tudo são varas, não é sermão, é feixe. Se tudo são flores, não é sermão, é ramalhete. Serem tudo frutos, não pode ser; porque não há frutos sem árvore. Assim que nesta árvore, à que podemos chamar «árvore da vida», há-de haver o proveitoso do fruto, o formoso das flores, o rigoroso das varas, o vestido das folhas, o estendido dos ramos; mas tudo isto nascido e formado de um só tronco e esse não levantado no ar, senão fundado nas raízes do Evangelho: Seminare semen. Eis aqui como hão-de ser os sermões, eis aqui como não são. E assim não é muito que se não faça fruto com eles.

Tudo o que tenho dito pudera demonstrar largamente, não só com os preceitos dos Aristóteles, dos Túlios, dos Quintilianos, mas com a prática observada do príncipe dos oradores evangélicos, S. João Crisóstomo, de S. Basílio Magno, S. Bernardo. S. Cipriano, e com as famosíssimas orações de S. Gregório Nazianzeno, mestre de ambas as Igrejas. E posto que nestes mesmos Padres, como em Santo Agostinho, S. Gregório e muitos outros, se acham os Evangelhos apostilados com nomes de sermão e homilias, uma coisa é expor, e outra pregar; uma ensinar e outra persuadir, desta última é que eu falo, com a qual tanto fruto fizeram no mundo Santo António de Pádua e S. Vicente Ferrer. Mas nem por isso entendo que seja ainda esta a verdadeira causa que busco.

VII

Será porventura a falta de ciência que há em muitos pregadores? Muitos pregadores há que vivem do que não colheram e semeiam o que não trabalharam. Depois da sentença de Adão, a terra não costuma dar fruto, senão a quem come o seu pão com o suor do seu rosto. Boa razão parece também esta. O pregador há-de pregar o seu, e não o alheio. Por isso diz Cristo que semeou o lavrador do Evangelho o trigo seu: Semen suum. Semeou o seu, e não o alheio, porque o alheio e, o furtado não é bom para semear, ainda que o furto seja de ciência. Comeu Eva o pomo da ciência, e queixava-me eu antigamente desta nossa mãe; já que comeu o pomo, por que lhe não guardou as pevides? Não seria bem que chegasse a nós a árvore, já que nos chegaram os encargos dela? Pois por que não o fez assim Eva? Porque o pomo era furtado, e o alheio é bom para comer, mas não é bom para semear: é bom para comer, porque dizem que é saboroso; não é bom para semear, porque não nasce. Alguém terá experimentado que o alheio lhe nasce em casa, mas esteja certo, que se nasce, não há-de deitar raízes, e o que não tem raízes não pode dar fruto. Eis aqui por que muitos pregadores não fazem fruto; porque pregam o alheio, e não o seu: Semen suum. O pregar é entrar em batalha com os vícios; e armas alheias, ainda que sejam as de Aquiles, a ninguém deram vitória. Quando David saiu a campo com o gigante, ofereceu-lhe Saul as suas armas, mas ele não as quis aceitar. Com armas alheias ninguém pode vencer, ainda que seja David. As armas de Saul só servem a Saul, e as de David a David; e mais aproveita um cajado e uma funda própria, que a espada e a lança alheia. Pregador que peleja com as armas alheias, não hajais medo que derrube gigante.

Fez Cristo aos Apóstolos pescadores de homens, que foi ordená-los de pregadores; e que faziam os Apóstolos? Diz o texto que estavam: Reficientes retia sua: «Refazendo as redes suas; eram as redes dos Apóstolos, e não eram alheias. Notai: Retia sua: Não diz que eram suas porque as compraram, senão que eram suas porque as faziam; não eram suas porque lhes custaram o seu dinheiro, senão porque lhes custavam o seu trabalho. Desta maneira eram as redes suas; e porque desta maneira eram suas, por isso eram redes de pescadores que haviam de pescar homens. Com redes alheias, ou feitas por mão alheia, podem-se pescar peixes, homens não se podem pescar. A razão disto é porque nesta pesca de entendimentos só quem sabe fazer a rede sabe fazer o lanço. Como se faz uma rede? Do fio e do nó se compõe a malha; quem não enfia nem ata, como há-de fazer rede? E quem não sabe enfiar nem sabe atar, como há-de pescar homens? A rede tem chumbada que vai ao fundo, e tem cortiça que nada em cima da água. A pregação tem umas coisas de mais peso e de mais fundo, e tem outras mais superficiais e mais leves; e governar o leve e o pesado, só o sabe fazer quem faz a rede. Na boca de quem não faz a pregação, até o chumbo é cortiça.

As razões não hão-de ser enxertadas, hão-de ser nascidas. O pregar não é recitar. As razões próprias nascem do entendimento, as alheias vão pegadas à memória, e os homens não se convencem pela memória, senão pelo entendimento.

Veio o Espírito Santo sobre os Apóstolos, e quando as línguas desciam do Céu, cuidava eu que se lhes haviam de pôr na boca; mas elas foram-se pôr na cabeça. Pois por que na cabeça e não na boca, que é o lugar da língua? Porque o que há-de dizer o pregador, não lhe há-de sair só da boca; há-lhe de sair pela boca, mas da cabeça. O que sai só da boca pára nos ouvidos; o que nasce do juízo penetra e convence o entendimento. Ainda tem mais mistério estas línguas do Espírito Santo. Diz o texto que não se puseram todas as línguas sobre todos os Apóstolos, senão cada uma sobre cada um: Apparuerunt dispertitae linguae tanquam ignis, seditque supra singulos eorum. E por que cada uma sobre cada um, e não todas sobre todos? Porque não servem todas as línguas a todos, senão a cada um a sua. Uma língua só sobre Pedro, porque a língua de Pedro não serve a André; outra língua só sobre André, porque a língua de André não serve a Filipe; outra língua só sobre Filipe, porque a língua de Filipe não serve a Bartolomeu, e assim dos mais. E senão vede-o no estilo de cada um dos Apóstolos, sobre que desceu o Espírito Santo. Só de cinco temos escrituras; mas a diferença com que escreveram, como sabem os doutos, é admirável. As penas todas eram tiradas das asas daquela pomba divina; mas o estilo tão diverso, tão particular e tão próprio de cada um, que bem mostra que era seu. Mateus fácil, João misterioso, Pedro grave, Jacob forte, Tadeu sublime, e todos com tal valentia no dizer, que cada palavra era um trovão, cada cláusula um raio e cada razão um triunfo. Ajuntai a estes cinco S. Lucas e S. Marcos, que também ali estavam, e achareis o número daqueles sete trovões que ouviu S. João no Apocalipse. Loquuti sunt septem tonitrua voces suas. Eram trovões que falavam e desarticulavam as vozes, mas essas vozes eram suas: Voces suas; «suas, e não alheias», como notou Ansberto: Non alienas, sed suas. Enfim, pregar o alheio é pregar o alheio, e com o alheio nunca se fez coisa boa.

Contudo eu não me firmo de todo nesta razão, porque do grande Baptista sabemos que pregou o que tinha pregado Isaías, como notou S. Lucas, e não com outro nome, senão de sermões: Praedicans baptismum poenitentiae in remissionem peccatorum, sicut scriptum est in libro sermonun Isaiae prophetae. Deixo o que tomou Santo Ambrósio de S. Basílio; S. Próspero e Beda de Santo Agostinho; Teofilato e Eutímio de S. João Crisóstomo.

VIII

Será finalmente a causa, que tanto há buscamos, a voz com que hoje falam os pregadores? Antigamente pregavam bradando, hoje pregam conversando. Antigamente a primeira parte do pregador era boa voz e bom peito. E verdadeiramente, como o mundo se governa tanto pelos sentidos, podem às vezes mais os brados que a razão. Boa era também esta, mas não a podemos provar com o semeador, porque já dissemos que não era ofício de boca. Porém o que nos negou o Evangelho no semeador metafórico, nos deu no semeador verdadeiro, que é Cristo. Tanto que Cristo acabou a parábola, diz o Evangelho que começou o Senhor a bradar: Haec dicens clamabat. Bradou o Senhor, e não arrazoou sobre a parábola, porque era tal o auditório, que fiou mais dos brados que da razão.

Perguntaram ao Baptista quem era? Respondeu ele: Ego vox clamantis in deserto: Eu sou uma voz que anda bradando neste deserto. Desta maneira se definiu o Baptista. A definição do pregador, cuidava eu que era: voz que arrazoa e não voz que brada. Pois por que se definiu o Baptista pelo bradar e não pelo arrazoar; não pela razão, senão pelos brados? Porque há muita gente neste mundo com quem podem mais os brados que a razão, e tais eram aqueles a quem o Baptista pregava. Vede-o claramente em Cristo. Depois que Pilatos examinou as acusações que contra ele se davam, lavou as mãos e disse: Ego nullam causam invenio in homine isto: Eu nenhuma causa acho neste homem. Neste tempo todo o povo e os escribas bradavam de fora, que fosse crucificado: At illi magis clamabant, crucifigatur. De maneira que Cristo tinha por si a razão e tinha contra si os brados. E qual pôde mais? Puderam mais os brados que a razão. A razão não valeu para o livrar, os brados bastaram para o pôr na Cruz. E como os brados no Mundo podem tanto, bem é que bradem alguma vez os pregadores, bem é que gritem. Por isso Isaías chamou aos pregadores «nuvens»: Qui sunt isti, qui ut nubes volant? A nuvem tem relâmpago, tem trovão e tem raio: relâmpago para os olhos, trovão para os ouvidos, raio para o coração; com o relâmpago alumia, com o trovão assombra, com o raio mata. Mas o raio fere a um, o relâmpago a muitos, o trovão a todos. Assim há-de ser a voz do pregador, um trovão do Céu, que assombre e faça tremer o Mundo.

Mas que diremos à oração de Moisés? Concrescat ut pluvia doctrina mea: fluat ut ros eloquim meum: Desça minha doutrina como chuva do céu, e a minha voz e as minhas palavras como orvalho que se destila brandamente e sem ruído. Que diremos ao exemplo ordinário de Cristo, tão celebrado por Isaías: Non clamabit neque audietur vox ejus foris? Não clamará, não bradará, mas falará com uma voz tão moderada que se não possa ouvir fora. E não há dúvida que o praticar familiarmente, e o falar mais ao ouvido que aos ouvidos, não só concilia maior atenção, mas naturalmente e sem força se insinua, entra, penetra e se mete na alma. Em conclusão que a causa de não fazerem hoje fruto os pregadores com a palavra de Deus, nem é a circunstância da pessoa: Qui seminat: nem a do estilo: Seminare; nem a da matéria: Semen; nem a da ciência: Suum; nem a da voz: Clamabat. Moisés tinha fraca voz; Amós tinha grosseiro estilo; Salamão multiplicava e variava os assuntos; Balaão não tinha exemplo de vida; o seu animal não tinha ciência; e contudo todos estes, falando, persuadiam e convenciam. Pois se nenhuma destas razões que discorremos, nem todas elas juntas são a causa principal nem bastante do pouco fruto que hoje faz a palavra de Deus, qual diremos finalmente que é a verdadeira causa?

IX

As palavras que tomei por tema o dizem. Semen est verbum Dei. Sabeis, Cristãos, a causa por que se faz hoje tão pouco fruto com tantas pregações? É porque as palavras dos pregadores são palavras, mas não são palavras de Deus. Falo do que ordinariamente se ouve. A palavra de Deus (como diria) é tão poderosa e tão eficaz, que não só na boa terra faz fruto, mas até nas pedras e nos espinhos nasce. Mas se as palavras dos pregadores não são palavras de Deus, que muito que não tenham a eficácia e os efeitos da palavra de Deus? Ventum seminabunt, et turbinem colligent, diz o Espírito Santo: «Quem semeia ventos, colhe tempestades». Se os pregadores semeiam vento, se o que se prega é vaidade, se não se prega a palavra de Deus, como não há a Igreja de Deus de correr tormenta, em vez de colher fruto?

Mas dir-me-eis: Padre, os pregadores de hoje não pregam do Evangelho, não pregam das Sagradas Escrituras? Pois como não pregam a palavra de Deus? Esse é o mal. Pregam palavras de Deus, mas não pregam a palavra de Deus: Qui habet sermonem meum, loquatur sermonem meum vere, disse Deus por Jeremias. As palavras de Deus, pregadas no sentido em que Deus as disse, são palavras de Deus; mas pregadas no sentido que nós queremos, não são palavras de Deus, antes podem ser palavras do Demónio. Tentou o Demónio a Cristo a que fizesse das pedras pão. Respondeu-lhe o Senhor: Non in solo pane vivit homo, sed in omni verbo, quod procedit de ore dei. Esta sentença era tirada do capítulo VIII do Deuteronómio. Vendo o Demónio que o Senhor se defendia da tentação com a Escritura, leva-o ao Templo, e alegando o lugar do salmo XC, diz-lhe desta maneira: Mille te deorsum; scriptum est enim, quia Angelis suis Deus mandavit de te, ut custodiant te in omnibus viis tuis: «Deita-te daí abaixo, porque prometido está nas Sagradas Escrituras que os anjos te tomarão nos braços, para que te não faças mal.» De sorte que Cristo defendeu-se do Diabo com a Escritura, e o Diabo tentou a Cristo com a Escritura. Todas as Escrituras são palavra de Deus: pois se Cristo toma a Escritura para se defender do Diabo, como toma o Diabo a Escritura para tentar a Cristo? A razão é porque Cristo tomava as palavras da Escritura em seu verdadeiro sentido, e o Diabo tomava as palavras da Escritura em sentido alheio e torcido; e as mesmas palavras, que tomadas em verdadeiro sentido são palavras de Deus, tomadas em sentido alheio, são armas do Diabo. As mesmas palavras que, tomadas no sentido em que Deus as disse, são defesa, tomadas no sentido em que Deus as não disse, são tentação. Eis aqui a tentação com que então quis o Diabo derrubar a Cristo, e com que hoje lhe faz a mesma guerra do pináculo do templo. O pináculo do templo é o púlpito, porque é o lugar mais alto dele. O Diabo tentou a Cristo no deserto, tentou-o no monte, tentou-o no templo: no deserto, tentou-o com a gula; no monte, tentou-o com a ambição; no templo, tentou-o com as Escrituras mal interpretadas, e essa é a tentação de que mais padece hoje a Igreja, e que em muitas partes tem derrubado dela, senão a Cristo, a sua fé.

Dizei-me, pregadores (aqueles com quem eu falo indignos verdadeiramente de tão sagrado nome), dizei-me: esses assuntos inúteis que tantas vezes levantais, essas empresas ao vosso parecer agudas que prosseguis, achaste-las alguma vez nos Profetas do Testamento Velho, ou nos Apóstolos e Evangelistas do Testamento Novo, ou no autor de ambos os Testamentos, Cristo? É certo que não, porque desde a primeira palavra do Génesis até à última do Apocalipse, não há tal coisa em todas as Escrituras. Pois se nas Escrituras não há o que dizeis e o que pregais, como cuidais que pregais a palavra de Deus? Mais: nesses lugares, nesses textos que alegais para prova do que dizeis, é esse o sentido em que Deus os disse? É esse o sentido em que os entendem os padres da Igreja? É esse o sentido da mesma gramática das palavras? Não, por certo; porque muitas vezes as tomais pelo que toam e não pelo que significam, e talvez nem pelo que toam. Pois se não é esse o sentido das palavras de Deus, segue-se que não são palavras de Deus. E se não são palavras de Deus, que nos queixamos que não façam fruto as pregações? Basta que havemos de trazer as palavras de Deus a que digam o que nós queremos, e não havemos de querer dizer o que elas dizem?! E então ver cabecear o auditório a estas coisas, quando devíamos de dar com a cabeça pelas paredes de as ouvir! Verdadeiramente não sei de que mais me espante, se dos nossos conceitos, se dos vossos aplausos? Oh, que bem levantou o pregador! Assim é; mas que levantou? Um falso testemunho ao texto, outro falso testemunho ao santo, outro ao entendimento e ao sentido de ambos. Então que se converta o mundo com falsos testemunhos da palavra de Deus? Se a alguém parecer demasiada a censura, ouça-me.

Estava Cristo acusado diante de Caifás, e diz o Evangelista S. Mateus que por fim vieram duas testemunhas falsas: Novissime venerunt duo falsi testes. Estas testemunhas referiram que ouviram dizer a Cristo que, se os Judeus destruíssem o templo, ele o tornaria a reedificar em três dias. Se lermos o Evangelista S. João, acharemos que Cristo verdadeiramente tinha dito as palavras referidas. Pois se Cristo tinha dito que havia de reedificar o templo dentro em três dias, e isto mesmo é o que referiram as testemunhas, como lhes chama o Evangelista testemunhas falsas: Duo falsi testes? O mesmo S. João deu a razão: Loquebatur de templo corporis sui. Quando Cristo disse que em três dias reedificaria o templo, falava o Senhor do templo místico de seu corpo, o qual os Judeus destruíram pela morte e o Senhor o reedificou pela ressurreição; e como Cristo falava do templo místico e as testemunhas o referiram ao templo material de Jerusalém, ainda que as palavras eram verdadeiras, as testemunhas eram falsas. Eram falsas, porque Cristo as dissera em um sentido, e eles as referiram em outro; e referir as palavras de Deus em diferente sentido do que foram ditas, é levantar falso testemunho a Deus, é levantar falso testemunho às Escrituras. Ah, Senhor, quantos falsos testemunhos vos levantam! Quantas vezes ouço dizer que dizeis o que nunca dissestes! Quantas vezes ouço dizer que são palavras vossas, o que são imaginações minhas, que me não quero excluir deste número! Que muito logo que as nossas imaginações, e as nossas vaidades, e as nossas fábulas não tenham a eficácia de palavra de Deus!

Miseráveis de nós, e miseráveis dos nossos tempos! Pois neles se veio a cumprir a profecia de S. Paulo: Erit tempus, cum sanam doctrinam non sustinebunt: Virá tempo, diz S. Paulo, «em que os homens não sofrerão a doutrina sã. Sed ad sua desideria coacervabunt sibi magistros prurientes auribus: Mas para seu apetite terão grande número de pregadores feitos a montão e sem escolha, os quais não façam mais que adular-lhes as orelhas. A veritate quidem auditum avertent, ad fabulas auten convertentur: Fecharão os ouvidos à verdade, e abri-los-ão às fábulas». Fábula tem duas significações: quer dizer fingimento e quer dizer comédia; e tudo são muitas pregações deste tempo. São fingimento, porque são sutilezas e pensamentos aéreos, sem fundamento de verdade; são comédia, porque os ouvintes vêm à pregação como à comédia; e há pregadores que vêm ao púlpito como comediantes. Uma das felicidades que se contava entre as do tempo presente era acabarem-se as comédias em Portugal; mas não foi assim. Não se acabaram, mudaram-se; passaram-se do teatro ao púlpito. Não cuideis que encareço em chamar comédias a muitas pregações das que hoje se usam. Tomara ter aqui as comédias de Plauto, de Terêncio, de Séneca, e veríeis se não acháveis nelas muitos desenganos da vida e vaidade do Mundo, muitos pontos de doutrina moral, muito mais verdadeiros, e muito mais sólidos, do que hoje se ouvem nos púlpitos. Grande miséria por certo, que se achem maiores documentos para a vida nos versos de um poeta profano, e gentio, que nas pregações de um orador cristão, e muitas vezes, sobre cristão, religioso!

Pouco disse S. Paulo em lhe chamar comédia, porque muitos sermões há que não são comédia, são farsa. Sobe talvez ao púlpito um pregador dos que professam ser mortos ao mundo, vestido ou amortalhado em um hábito de penitência (que todos, mais ou menos ásperos, são de penitência; e todos, desde o dia que os professamos, mortalhas); a vista é de horror, o nome de reverência, a matéria de compunção, a dignidade de oráculo, o lugar e a expectação de silêncio; e quando este se rompeu, que é o que se ouve? Se neste auditório estivesse um estrangeiro que nos não conhecesse e visse entrar este homem a falar em público naqueles trajos e em tal lugar, cuidaria que havia de ouvir uma trombeta do Céu; que cada palavra sua havia de ser um raio para os corações, que havia de pregar com o zelo e com o fervor de um Elias, que com a voz, com o gesto e com as ações havia de fazer em pó e em cinza os vícios. Isto havia de cuidar o estrangeiro. E nós que é o que vemos? Vemos sair da boca daquele homem, assim naqueles trajos, uma voz muito afectada e muito polida, e logo começar com muito desgarro, a quê? A motivar desvelos, a acreditar empenhos, a requintar finezas, a lisonjear precipícios, a brilhar auroras, a derreter cristais, a desmaiar jasmins, a toucar primaveras, e outras mil indignidades destas. Não é isto farsa a mais digna de riso, se não fora tanto para chorar? Na comédia o rei veste como rei, e fala como rei; o lacaio, veste como lacaio, e fala como lacaio; o rústico veste como rústico, e fala como rústico; mas um pregador, vestir como religioso e falar como... não o quero dizer, por reverência do lugar. Já que o púlpito é teatro, e o sermão comédia se quer, não faremos bem a figura? Não dirão as palavras com o vestido e com o ofício? Assim pregava S. Paulo, assim pregavam aqueles patriarcas que se vestiram e nos vestiram destes hábitos? Não louvamos e não admiramos o seu pregar? Não nos prezamos de seus filhos? Pois por que não os imitamos? Por que não pregamos como eles pregavam? Neste mesmo púlpito pregou S. Francisco Xavier, neste mesmo púlpito pregou S. Francisco de Borja; e eu, que tenho o mesmo hábito, por que não pregarei a sua doutrina, já que me falta o seu espírito?

X

Dir-me-eis o que a mim me dizem, e o que já tenho experimentado, que, se pregamos assim, zombam de nós os ouvintes, e não gostam de ouvir. Oh, boa razão para um servo de Jesus Cristo! Zombem e não gostem embora, e façamos nós nosso ofício! A doutrina de que eles zombam, a doutrina que eles desestimam, essa é a que lhes devemos pregar, e por isso mesmo, porque é mais proveitosa e a que mais hão mister. O trigo que caiu no caminho comeram-no as aves. Estas aves, como explicou o mesmo Cristo, são os demónios, que tiram a palavra de Deus dos corações dos homens: Venit Diabolus, et tollit verbum de corde ipsorum! Pois por que não comeu o Diabo o trigo que caiu entre os espinhos, ou o trigo que caiu nas pedras, senão o trigo que caiu no caminho? Porque o trigo que caiu no caminho: Conculcatum est ab hominibus: Pisaram-no os homens; e a doutrina que os homens pisam, a doutrina que os homens desprezam, essa é a de que o Diabo se teme. Dessoutros conceitos, dessoutros pensamentos, dessoutras sutilezas que os homens estimam e prezam, dessas não se teme nem se acautela o Diabo, porque sabe que não são essas as pregações que lhe hão-de tirar as almas das unhas. Mas daquela doutrina que cai: Secus viam: daquela doutrina que parece comum: Secus viam; daquela doutrina que parece trivial: Secus viam; daquela doutrina que parece trilhada: Secus viam; daquela doutrina que nos põe em caminho e em via da nossa salvação (que é a que os homens pisam e a que os homens desprezam), essa é a de que o Demónio se receia e se acautela, essa é a que procura comer e tirar do Mundo; e por isso mesmo essa é a que deviam pregar os pregadores, e a que deviam buscar os ouvintes. Mas se eles não o fizerem assim e zombarem de nós, zombemos nós tanto de suas zombarias como dos seus aplausos. Per infamiam et bonam famam, diz S. Paulo: O pregador há-de saber pregar com fama e sem fama. Mais diz o Apóstolo: Há-de pregar com fama e com infâmia. Pregar o pregador para ser afamado, isso é mundo: mas infamado, e pregar o que convém, ainda que seja com descrédito de sua fama?, isso é ser pregador de Jesus Cristo.

Pois o gostarem ou não gostarem os ouvintes! Oh, que advertência tão digna! Que médico há que repare no gosto do enfermo, quando trata de lhe dar saúde? Sarem e não gostem; salvem-se e amargue-lhes, que para isso somos médicos das almas. Quais vos parece que são as pedras sobre que caiu parte do trigo do Evangelho? Explicando Cristo a parábola, diz que as pedras são aqueles que ouvem a pregação com gosto: Hi sunt, qui cum gaudio suscipiunt verbum. Pois será bem que os ouvintes gostem e que no cabo fiquem pedras?! Não gostem e abrandem-se; não gostem e quebrem-se; não gostem e frutifiquem. Este é o modo com que frutificou o trigo que caiu na boa terra: Et fructum afferunt in patientia, conclui Cristo. De maneira que o frutificar não se ajunta com o gostar, senão com o padecer; frutifiquemos nós, e tenham eles paciência. A pregação que frutifica, a pregação que aproveita, não é aquela que dá gosto ao ouvinte, é aquela que lhe dá pena. Quando o ouvinte a cada palavra do pregador treme; quando cada palavra do pregador é um torcedor para o coração do ouvinte; quando o ouvinte vai do sermão para casa confuso e atónito, sem saber parte de si, então é a preparação qual convém, então se pode esperar que faça fruto: Et fructum afferunt in patientia.

Enfim, para que os pregadores saibam como hão-de pregar e os ouvintes a quem hão-de ouvir, acabo com um exemplo do nosso Reino, e quase dos nossos tempos. Pregavam em Coimbra dois famosos pregadores, ambos bem conhecidos por seus escritos; não os nomeio, porque os hei-de desigualar. Altercou-se entre alguns doutores da Universidade qual dos dois fosse maior pregador; e como não há juízo sem inclinação, uns diziam este, outros, aquele. Mas um lente, que entre os mais tinha maior autoridade, concluiu desta maneira: «Entre dois sujeitos tão grandes não me atrevo a interpor juízo; só direi uma diferença, que sempre experimento: quando ouço um, saio do sermão muito contente do pregador; quando ouço outro, saio muito descontente de mim.»

Com isto tenho acabado. Algum dia vos enganastes tanto comigo, que saíeis do sermão muito contentes do pregador; agora quisera eu desenganar-vos tanto, que saíreis muito descontentes de vós. Semeadores do Evangelho, eis aqui o que devemos pretender nos nossos sermões: não que os homens saiam contentes de nós, senão que saiam muito descontentes de si; não que lhes pareçam bem os nossos conceitos, mas que lhes pareçam mal os seus costumes, as suas vidas, os seus passatempos, as suas ambições e, enfim, todos os seus pecados. Contanto que se descontentem de si, descontentem-se embora de nós. Si hominibus placerem, Christus servus non essem, dizia o maior de todos os pregadores, S. Paulo: Se eu contentara aos homens, não seria servo de Deus. Oh, contentemos a Deus, e acabemos de não fazer caso dos homens! Advirtamos que nesta mesma Igreja há tribunas mais altas que as que vemos: Spectaculum facti sumus Deo, Angelis et hominibus. Acima das tribunas dos reis, estão as tribunas dos anjos, está a tribuna e o tribunal de Deus, que nos ouve e nos há-de julgar. Que conta há-de dar a Deus um pregador no Dia do Juízo? O ouvinte dirá: Não mo disseram. Mas o pregador? Vae mihi, quia tacui: Ai de mim, que não disse o que convinha! Não seja mais assim, por amor de Deus e de nós.

Estamos às portas da Quaresma, que é o tempo em que principalmente se semeia a palavra de Deus na Igreja, e em que ela se arma contra os vícios. Preguemos e armemo-nos todos contra os pecados, contra as soberbas, contra os ódios, contra as ambições, contra as invejas, contra as cobiças, contra as sensualidades. Veja o Céu que ainda tem na terra quem se põe da sua parte. Saiba o Inferno que ainda há na terra quem lhe faça guerra com a palavra de Deus, e saiba a mesma terra que ainda está em estado de reverdecer e dar muito fruto: Et fecit fructum centuplum.

 

 

 

 

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PADRE ANTONIO VIEIRA - Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal Contra as de Holanda

Exurge, quare obdormis, Domine? Exurge, et ne repellas in finem. Quare faciem tuas avertis? Oblivisceris inopiae nostrae et tribulationis nostrae? Exurge, Domine, adjuva nos, et redime nos propter nomem tuum (1).


 

I

Com estas palavras piedosamente resolutas, mais protestando que orando, dá fim o profeta rei ao salmo quarenta e três, salmo que desde o princípio até o fim não parece senão cortado para os tempos e ocasião presente. O Doutor Máximo, São Jerônimo, e depois dele os outros expositores, dizem que se entende a letra de qualquer reino ou província católica destruída e assolada por inimigos da fé. Mas entre todos os reinos do mundo, a nenhum lhe quadra melhor que ao nosso Reino de Portugal, e entre todas as províncias de Portugal, a nenhuma vem mais ao justo, que à miserável província do Brasil. Vamos lendo todo o salmo, e em todas as cláusulas dele veremos retratadas as da nossa fortuna, o que fomos e o que somos.

Deus, auribus nostris audivimus; patres nostri annuntiaverunt nobis, opus quod opera tus es in diebus eorum, et in diebus antiquis (2): Ouvimos — começa o profeta — a nossos pais, lemos nas nossas histórias, e ainda os mais velhos viram, em parte, com seus olhos as obras maravilhosas, as proezas, as vitórias, as conquistas, que por meio dos portugueses obrou em tempos passados vossa onipotência, Senhor. Manus tua gentes disperdidit, et plantasti eos: afflixisti populos, et expulisti eos (3): Vossa mão foi a que venceu e sujeitou tantas nações bárbaras belicosas e indômitas, e as despojou do domínio de suas próprias terras, para nelas os plantar, como plantou com tão bem fundadas raízes, e para nelas os dilatar, como dilatou e estendeu em todas as partes do mundo, na África, na Ásia, na América. Nec enim in gladio suo possederunt terram, et brachium eorum non salvavit eos, sed dextera tua et brachium tuum, et iliuminatio vultus tui, quoniam complacuisti in eis (4): Porque não foi a força do seu braço, nem a da sua espada a que lhes sujeitou as terras que possuíram, e as gentes e reis que avassalaram, senão a virtude de vossa destra onipotente, e a luz e o prêmio supremo de vosso beneplácito, com que neles vos agradastes e dele vos servistes. — Até aqui a relação ou memória das felicidades passadas, com que passa o profeta aos tempos e desgraças presentes.

Nunc autem repulisti et confudisti nos, et non egredieris, Deus, in virtutibus nostris (5): Porém agora, Senhor, vemos tudo isto tão trocado, que já parece que nos deixastes de todo, e nos lançastes de vós, porque já não ides diante das nossas bandeiras, nem capitaneais como dantes os nossos exércitos: Avertisti nos retrorsum post inimicos nostros; et qui oderuni nos diripiebant sibi (6): Os que tão acostumados éramos a vencer e triunfar, não por fracos, mas por castigados, fazeis que voltemos as costas a nossos inimigos — que, como são açoite de vossa justiça, justo é que lhes demos as costas — e, perdidos os que antigamente foram despojos do nosso valor, são agora roubo da sua cobiça. Dedisti nos tanquam oves escarum, et in gentibus dispersisti nos (7): Os velhos, as mulheres, os meninos, que não têm forças nem armas com que se defender, morrem como ovelhas inocentes às mãos da crueldade herética, e os que podem escapar à morte, desterrando-se a terras estranhas, perdem a casa e a pátria. Possuisti nos opprobrium vicinis nostris, subsannationem et derisum his qui sunt in circuitu nostro(8): Não fora tanto para sentir, se perdidas fazendas e vidas, se salvara ao menos a honra; mas também esta, a passos contados se vai perdendo; e aquele nome português, tão celebrado nos anais da fama, já o herege insolente, com as vitórias o afronta, e o gentio, de que estamos cercados, e que tanto o venerava e temia, já o despreza.

Com tanta propriedade como isto descreve Davi neste salmo nossas desgraças, contrapondo o que somos hoje ao que fomos enquanto Deus queria, para que na experiência presente cresça a dor por oposição com a memória do passado. Ocorre aqui ao pensamento o que não é lícito sair à língua, e não falta quem discorra tacitamente que a causa desta diferença tão notável foi a mudança da monarquia. Não havia de ser assim dizem — se vivera um Dom Manoel, um Dom João, o Terceiro, ou a fatalidade de um Sebastião não sepultara com ele os reis portugueses. Mas o mesmo profeta, no mesmo salmo nos dá o desengano desta falsa imaginação: Tu es ipse Rex meus et Deus meus, qui mandas salutes Jacob (9). O Reino de Portugal, como o mesmo Deus nos declarou na sua fundação, é reino seu, e não nosso: Volo enim in te, et in semine tuo imperium mihi stabilire(10)e como Deus é o Rei: Tu es ipse rex meus et Deus meus — e este rei é o que manda e o que governa: Qui mandas salutes, Jacob — ele, que não se muda, é o que causa estas diferenças, e não os reis que se mudaram. À vista pois desta verdade certa e sem engano esteve um pouco suspenso o nosso profeta na consideração de tantas calamidades, até que para remédio delas o mesmo Deus, que o alumiava, lhe inspirou um conselho altíssimo, nas palavras que tomei por tema.

Exurge, quare obdormis Domine? Exurge, et ne repellas in finem. Quare faciem tuam avertis? Oblivisceris inopiae nostrae et tribulationis nostrae? Exurge, Domine, adjuva nos, et redime nos propter nomem tuum. Não prega Davi ao povo, não o exorta ou repreende, não faz contra ele invectivas, posto que bem merecidas; mas todo arrebatado de um novo e extraordinário espírito, se volta não só a Deus, mas, piedosamente atrevido, contra ele. Assim como Marta disse a Cristo: Domine, non est tibi curae (11)? — assim estranha Davi reverentemente a Deus, e quase o acusa de descuidado. Queixa-se das desatenções da sua misericórdia e providência, que isso é considerar a Deus dormindo: Exurge, quare obdormis Domine? Repete-lhe que acorde e que não deixe chegar os danos ao fim, permissão indigna de sua piedade: Exurge, et ne repellas infinem. Pede-lhe a razão por que aparta de nós os olhos e não volta o rosto: Quare faciem tuam avertis, — e por que se esquece da nossa miséria, e não faz caso de nossos trabalhos: Oblivisceris inopiae nostrae et tribulationis nostrae. E não só pede de qualquer modo esta razão do que Deus faz e permite, senão que insta a que lhe dê uma e outra vez: Quare obdormis? Quare oblivisceris? Finalmente, depois destas perguntas, a que supõe que não tem Deus resposta, e destes argumentos, com que presume o tem convencido, protesta diante do tribunal de sua justiça e piedade, que tem obrigação de nos acudir, de nos ajudar e de nos libertar logo: Exurge, Domine, adjuva nos, et redime nos. E para mais obrigar ao mesmo Senhor, não protesta por nosso bem e remédio, senão por parte da sua honra e glória: Propter nomen tuum.

Esta é — todo-poderoso e todo misericordioso Deus — esta é a traça de que usou para render vossa piedade quem tanto se conformava com vosso coração. E desta usarei eu também hoje, pois o estado em que nos vemos mais é o mesmo, que semelhante. Não hei de pregar hoje ao povo, não hei de falar com os homens: mais alto hão de sair as minhas palavras ou as minhas vozes; a vosso peito divino se há de dirigir todo o sermão. E este o último de quinze dias contínuos em que todas as igrejas desta metrópole, a esse mesmo trono de vossa patente Majestade têm representado suas deprecações; e pois o dia é o último, justo será que nele se acuda também ao último e único remédio. Todos estes dias se cansaram debalde os oradores evangélicos em pregar penitência aos homens; e pois eles se não converteram, quero eu, Senhor, converter-vos a vós. Tão presumido venho de vossa misericórdia, Deus meu, que, ainda que nós somos os pecadores, vós haveis de ser o arrependido.

O que venho a pedir ou protestar, Senhor, é que nos ajudeis e nos liberteis: Adjuva nos, et redime nos. Mui conformes são estas petições ambas ao lugar e ao tempo. Em tempo que tão oprimidos e tão cativos estamos, que devemos pedir com maior necessidade, senão que nos liberteis: Redime nos? E na casa da Senhora da Ajuda, que devemos esperar com maior confiança, senão que nos ajudeis: Adjuva nos? Não hei de pedir pedindo, senão protestando e argumentando, pois esta é a licença e liberdade que tem quem não pede favor, senão justiça. Se a causa fora só nossa, e eu viera a rogar só por nosso remédio, pedira favor e misericórdia. Mas, como a causa, Senhor, é mais vossa que nossa, e como venho a requerer por parte de vossa honra e glória, e pelo crédito de vosso nome: Propter nomem tuum: razão é que peça só razão, justo é que peça só justiça. Sobre este pressuposto vos hei de argüir, vos hei de argumentar, e confio tanto da vossa razão e da vossa benignidade, que também vos hei de convencer. Se chegar a me queixar de vós, e acusar as dilações de vossa justiça ou as desatenções de vossa misericórdia: — Quare obdormis, quare oblivisceris? — não será esta vez a primeira em que sofrestes semelhantes excessos a quem advoga por vossa causa. As custas de toda a demanda, também vós, Senhor, as haveis de pagar, porque me há de dar vossa mesma graça as razões com que vos hei de argüir, a eficácia com que vos hei de apertar, e todas as armas com que vos hei de render. E se para isto não bastam os merecimentos da causa, suprirão os da Virgem Santíssima, em cuja ajuda principalmente confio. Ave Maria.

II

Exurge, quare obdormis, Domine? Querer argumentar com Deus, e convencê-lo com razões, não só dificultoso assunto parece, mas empresa declaradamente impossível, sobre arrojada temeridade. O homo, tu qui es, qui respondeas Deo? Nunquid dicit figmentum ei qui se finxit: Quid mefecisti sic (Rom. 9, 20)? Homem atrevido — diz São Paulo — homem temerário, quem és tu, para que te ponhas a altercar com Deus? Porventura o barro que está na roda e entre as mãos do oficial põe-se às razões com ele, e diz-lhe: por que me fazes assim? — Pois, se tu és barro, homem mortal, se te formaram as mãos de Deus da matéria vil da terra, como dizes ao mesmo Deus: Quare, quare? Como te atreves a argumentar com a Sabedoria divina, como pedes razão à sua providência do que te faz ou deixa de fazer: Quare obdormis? Quare faciem tuam avertis? Venera suas permissões, reverencia e adora seus ocultos juízos, encolhe os ombros com humildade a seus decretos soberanos, e farás o que te ensina a fé e o que deves a criatura. Assim o fazemos, assim o confessamos; assim o protestamos diante de Vossa Majestade infinita, imenso Deus, incompreensível bondade: Justus es, Domine, et rectum judicium tuum (12). Por mais que nós não saibamos entender vossas obras, por mais que não possamos alcançar vossos conselhos, sempre sois justo, sempre sois santo, sempre sois infinita bondade, e ainda nos maiores rigores de vossa justiça, nunca chegais com a severidade do castigo aonde nossas culpas merecem.

Se as razões e argumentos da nossa causa as houvéramos de fundar em merecimentos próprios, temeridade fora grande, antes impiedade manifesta, querer-vos argüir. Mas nós, Senhor, como protestava o vosso profeta Daniel: Neque enim in justificatiombus nostris prosternimus preces ante faciam tuam, sed in miserationibus tuis multis(13). Os requerimentos e razões deles, que humildemente presentamos ante vosso divino conspecto, as apelações ou embargos que entrepomos à execução e continuação dos castigos que padecemos, de nenhum modo os fundamos na presunção de nossa justiça, mas todos na multidão de vossas misericórdias: In miserationibus tuis multis. Argumentamos, sim, mas de vós para vós; apelamos, mas de Deus para Deus: de Deus justo, para Deus misericordioso. E como do peito, Senhor, vos hão de sair todas as setas, mal poderão ofender vossa bondade. Mas porque a dor, quando é grande, sempre arrasta o afeto, e o acerto das palavras é descrédito da mesma dor, para que o justo sentimento dos males presentes não passe os limites sagrados de quem fala diante de Deus e com Deus, em tudo o que me atrever a dizer, seguirei as pisadas sólidas dos que em semelhantes ocasiões, guiados por vosso mesmo espírito, oraram e exoraram vossa piedade.

Quando o povo de Israel no deserto cometeu aquele gravíssimo pecado de idolatria, adorando o ouro das suas jóias na imagem bruta de um bezerro, revelou Deus o caso a Moisés, que com ele estava, e acrescentou irado e resoluto que daquela vez havia de acabar para sempre com uma gente tão ingrata, e que a todos havia de assolar e consumir, sem que ficasse rasto de tal geração: Dimitte me, ut irascatur furor meus contra eos, et deleam eos (14). Não lhe sofreu porém o coração ao bom Moisés ouvir falar em destruição e assolação do seu povo: põe-se em campo, opõe-se à ira divina, e começa a arrazoar assim: Cur Domine, irascitur furor tuus contra populum tuum (Êx. 32,11)? E bem, Senhor, por que razão se indigna tanto a vossa ira contra o vosso povo? — Por que razão, Moisés? E ainda vós quereis mais justificada razão de Deus? Acaba de vos dizer que está o povo idolatrando, que está adorando um animal bruto, que está negando a divindade ao mesmo Deus, e dando-a a uma estátua muda, que acabaram de fazer suas mãos, e atribuindo-lhe a ela a liberdade e triunfo com que os livrou do cativeiro do Egito, e sobre tudo isto ainda perguntais a Deus por que razão se agasta: Cur irascitur furor tuus? Sim, e com muito prudente zelo. Porque, ainda que da parte do povo havia muito grandes razões de ser castigado, da parte de Deus era maior a razão que havia de o não castigar: Ne quaeso — dá a razão Moisés — ne quaeso dicant Aegyptii: Callide eduxit eos, ut interftceret in montibus, et deleret e terra (15). Olhai, Senhor, que porão mácula os egípcios em vosso ser, e quando menos em vossa verdade e bondade. Dirão que cautelosamente e a falsa fé nos trouxestes a este deserto, para aqui nos tirardes a vida a todos, e nos sepultardes. — E com esta opinião divulgada e assentada entre eles, qual será o abatimento de vosso santo nome, que tão respeitado e exaltado deixastes no mesmo Egito, com tantas e tão prodigiosas maravilhas do vosso poder? Convém, logo, para conservar o crédito, dissimular o castigo, e não dar com ele ocasião àqueles gentios e aos outros, em cujas terras estamos, ao que dirão: Ne quaeso dicant. — Desta maneira arrazoou Moisés em favor do povo, e ficou tão convencido Deus da força deste argumento, que no mesmo ponto revogou a sentença, e, conforme o texto hebreu, não só se arrependeu da execução, senão ainda do pensamento: Et paenituit Dominus mali quod cogitaverat facere populo suo (Êx. 32, 14 ex text. Hebr.): E arrependeu-se o Senhor do pensamento e da imaginação que tivera de castigar o seu povo.

Muita razão tenho eu logo, Deus meu, de esperar que haveis de sair deste sermão arrependido, pois sois o mesmo que éreis, e não menos amigo agora, que nos tempos passados, de vosso nome: Propter nomem tuum. Moisés disse-vos: Ne quaeso dicant: Olhai, Senhor, que dirão. — E eu digo, e devo dizer: Olhai, Senhor, que já dizem. — Já dizem os hereges insolentes, com os sucessos prósperos que vós lhes dais ou permitis, já dizem que porque a sua, que eles chamam religião, é a verdadeira, por isso Deus os ajuda, e vencem; e porque a nossa é errada e falsa, por isso nos desfavorece, e somos vencidos. Assim o dizem, assim o pregam, e ainda mal porque não faltará quem o creia. Pois, é possível, Senhor, que hão de ser vossas permissões argumentos contra vossa fé? É possível que se hão de ocasionar de nossos castigos blasfêmias contra vosso nome? Que diga o herege — o que treme de o pronunciar a língua — que diga o herege que Deus está holandês? Oh! não permitais tal, Deus meu, não permitais tal, por quem sois. Não o digo por nós, que pouco ia em que nos castigásseis; não o digo pelo Brasil, que pouco ia em que o destruísseis; por vós o digo, e pela honra do vosso santíssimo nome, que tão imprudentemente se vê blasfemado: Propter nomem tuum. Já que o pérfido calvinista, dos sucessos que só lhe merecem nossos pecados, faz argumento da religião, e se jacta insolente e blasfemo de ser a sua a verdadeira, veja ele na roda dessa mesma fortuna, que o desvanece, de que parte está a verdade. Os ventos e tempestades, que descompõem e derrotam as nossas armadas, derrotem e desbaratem as suas; as doenças e pestes, que diminuem e enfraquecem os nossos exércitos, escalem as suas muralhas e despovoem os seus presídios; os conselhos que, quando vós quereis castigar, se corrompem, em nós sejam alumiados, e neles enfatuados e confusos. Mude a vitória as insígnias, desafrontem-se as cruzes católicas, triunfem as vossas chagas nas nossas bandeiras, e conheça humilhada e desenganada a perfídia, que só a fé romana que professamos é fé, e só ela a verdadeira e a vossa.

Mas ainda há mais quem diga: Ne quaeso dicant Aegyptii. Olhai Senhor, que vivemos entre gentios, uns que o são, outros que o foram ontem. E estes, que dirão? Que dirá o tapuia bárbaro, sem conhecimento de Deus? Que dirá o índio inconstante, a quem falta a pia afeição da nossa fé? Que dirá o etíope boçal, que apenas foi molhado com a água do Batismo, sem mais doutrina? Não há dúvida que todos estes, como não têm capacidade para sondar o profundo de vossos juízos, beberão o erro pelos olhos. Dirão, pelos efeitos que vêem, que a nossa fé é falsa, e a dos holandeses a verdadeira, e crerão que são mais cristãos, sendo como eles. A seita do herege torpe e brutal concorda mais com a brutalidade do bárbaro: a largueza e soltura de vida, que foi a origem e é o fomento da heresia, casa-se mais com os costumes depravados e corrupção do gentilismo; e que paga haverá que se converta à fé que lhe pregamos, ou que novo cristão já convertido, que se não perverta, entendendo e persuadindo-se uns e outros que no herege é premiada a sua lei, e no católico se castiga a nossa? Pois, se estes são os efeitos, posto que não pretendidos, de vosso rigor e castigo justamente começado em nós, se ateia e passa com tanto dano aos que não são cúmplices nas nossas culpas: Cur irascitur furor tuus? Por que continua sem estes reparos o que vós mesmos chamastes furor, e por que não acabais já de embainhar a espada de vossa ira?

Se tão gravemente ofendido do povo hebreu por um que dirão dos egípcios lhe perdoastes, o que dizem os hereges e o que dirão os gentios não será bastante motivo para que vossa rigorosa mão suspenda o castigo e perdoe também os nossos pecados, pois, ainda que grandes, são menores? Os hebreus adoraram o ídolo, faltaram à fé, deixaram o culto do verdadeiro Deus, chamaram deus e deuses a um bezerro, e nós, por mercê de vossa bondade infinita, tão longe estamos e estivemos sempre de menor defeito ou escrúpulo nesta parte, que muitos deixaram a pátria, a casa, a fazenda, e ainda a mulher e os filhos, e passam em suma miséria desterrados, só por não viver nem comunicar com homens que se separaram da vossa Igreja. Pois, Senhor meu e Deus meu, se por vosso amor e por vossa fé, ainda sem perigo de a perder ou arriscar, fazem tais finezas os portugueses: Quare oblivisceris inopiae nostrae et tribulationis nostrae? Por que vos esqueceis de tão religiosas misérias, de tão católicas tribulações? Como é possível que se ponha Vossa Majestade irada contra estes fidelíssimos servos, e favoreça a parte dos infiéis, dos excomungados, dos ímpios?

Oh! como nos podemos queixar neste passo, como se queixava lastimado Jó, quando despojados dos sabeus e caldeus, se viu, como nós nos vemos, no extremo da opressão e miséria: Nunquid bonum tibi videtur, si calumnieris me, et opprimas me opus man um tuarum, et consilium impiorum adjuves (16)? Parece-vos bem, Senhor, parece-vos bem isto? Que a mim, que sou vosso servo, me oprimais e aflijais? E aos ímpios, aos inimigos vossos os favoreçais e ajudeis? Parece-vos bem que sejam eles os prosperados e assistidos de vossa Providência, e nós os deixados de vossa mão, nós os esquecidos de vossa memória, nós o exemplo de vossos rigores, nós o despojo de vossa ira? Tão pouco é desterrar-nos por vós, e deixar tudo? Tão pouco é padecer trabalhos, pobrezas e os desprezos que elas trazem consigo, por vosso amor? Já a fé não tem merecimento? Já a piedade não tem valor? Já a perseverança não vos agrada? Pois, se há tanta diferença entre nós, ainda que maus, e aquele pérfidos, por que os ajudais a eles, e nos desfavoreceis a nós? Nunquid bonum tibi videtur? A vós, que sois a mesma bondade, parece-vos bem isto?


 

III

Considerai, Deus meu, e perdoai-me se falo inconsideradamente. Considerai a quem tirais as terras do Brasil, e a quem as dais. Tirais estas terras aos portugueses, a quem nos princípios as destes, e bastava dizer a quem as destes, para perigar o crédito de vosso nome, que não podem dar nome de liberal mercês com arrependimento. Para que nos disse S. Paulo, que vós, Senhor, quando dais, não vos arrependeis: Sine poenitentia enim sunt dona Dei (17)? Mas, deixado isto a parte, tirais estas terras àqueles mesmos portugueses, a quem escolhestes, entre todas as nações do mundo para conquistadores da vossa fé, e a quem destes por armas, como insígnia e divisa singular, vossas próprias chagas. — E será bem, supremo Senhor e Governador do universo, que às sagradas quinas de Portugal, e às armas e chagas de Cristo, sucedam as heréticas listas de Holanda, rebeldes a seu rei e a Deus? Será bem que estas se vejam tremular ao vento vitoriosas, e aquelas abatidas, arrastadas e ignominiosamente rendidas? Et quid facies magno nomini tuo (Jos. 7,9)? E que fareis — como dizia Josué — ou que será feito de vosso glorioso nome em casos de tanta afronta?

Tirais também o Brasil aos portugueses, que assim estas terras vastíssimas, como as remotíssimas do Oriente, as conquistaram à custa de tantas vidas e tanto sangue, mais por dilatar vosso nome e vossa fé — que esse era o zelo daqueles cristianíssimos reis — que por amplificar e estender seu império. Assim fostes servido que entrássemos nestes novos mundos tão honrada e tão gloriosamente, e assim permitis que saiamos agora — quem tal imaginara de vossa bondade — com tanta afronta e ignomínia. — Oh! como receio que não falte quem diga o que diziam os egípcios: Callide eduxit eos, ut interficeret et deleret e terra (18): Que a larga mão com que nos destes tantos domínios e remos não foram mercês de vossa liberalidade, senão cautela e dissimulação de vossa ira, para aqui fora, e longe de nossa pátria, nos matardes, nos destruirdes, nos acabardes de todo. Se esta havia de ser a paga e o fruto de nossos trabalhos, para que foi o trabalhar, para que foi o servir, para que foi o derramar tanto e tão ilustre sangue nestas conquistas? Para que abrimos os mares nunca dantes navegados? Para que descobrimos as regiões e os climas não conhecidos? Para que contrastamos os ventos e as tempestades com tanto arrojo, que apenas há baixio no oceano, que não esteja infamado com miserabilíssimos naufrágios de portugueses? E depois de tantos perigos, depois de tantas desgraças, depois de tantas e tão lastimosas mortes, ou nas praias desertas sem sepultura, ou sepultados nas entranhas dos alarves, das feras, dos peixes, que as terras que assim ganhamos, as hajamos de perder assim? Oh! quanto melhor nos fora nunca conseguir nem intentar tais empresas!

Mais santo que nós era Josué, menos apurada tinha a paciência, e contudo, em ocasião semelhante, não falou — falando convosco — por diferente linguagem. Depois de os filhos de Israel passarem às terras ultramarinas do Jordão, como nós a estas, avançou parte do exército a dar assalto à cidade de Hai, a qual nos ecos do nome já parece que trazia o prognóstico do infeliz sucesso que os israelitas nela tiveram, porque foram rotos e desbaratados, posto que com menos mortos e feridos do que nós por cá costumamos. E que faria Josué à vista desta desgraça? Rasga as vestiduras imperiais, lança-se por terra, começa a clamar ao céu: Heu, Domine Deus, quid voluisti traducere populum istum Jordanem fluvium, ut traderes nos in manus Amorrhaei (Jos. 7,7)? Deus meu e Senhor meu, que é isto? Para que nos mandastes passar o Jordão, e nos metestes de posse destas terras, se aqui nos havíeis de entregar nas mãos dos amorreus, e perder-nos? Utinam mansissemus trans Jordanem! Oh! nunca nós passáramos tal rio! — Assim se queixava Josué a Deus, e assim nos podemos nós queixar, e com muito maior razão que ele. Se este havia de ser o fim de nossas navegações, se estas fortunas nos esperavam nas terras conquistadas: Utinam mansissemus trans Jordanem! Prouvera a vossa divina Majestade, que nunca saíramos de Portugal, nem fiáramos nossas vidas às ondas e aos ventos, nem conhecêramos ou puséramos os pés em terras estranhas. Ganhá-las para as não lograr desgraça foi, e não ventura; possui-las para as perder, castigo foi de vossa ira, Senhor, e não mercê nem favor de vossa liberalidade. Se determináveis dar estas mesmas terras aos piratas de Holanda, por que lhas não destes enquanto eram agrestes e incultas, senão agora? Tantos serviços vos tem feito esta gente pervertida e apóstata, que nos mandastes primeiro cá por seus aposentadores, para lhes lavrarmos as terras, para lhes edificarmos as cidades, e, depois de cultivadas e enriquecidas, lhas entregardes? Assim se hão de lograr os hereges e inimigos da fé dos trabalhos portugueses e dos suores católicos? En queis consevimus agros (19): Eis aqui para quem trabalhamos há tantos anos! — Mas, pois vós, Senhor, o quereis e ordenais assim, fazei o que fordes servido. Entregai aos holandeses o Brasil, entregai-lhes as Índias, entregai-lhes as Espanhas — que não são menos perigosas as conseqüências do Brasil perdido — entregai-lhes quanto temos e possuímos como já lhes entregastes tanta parte — ponde em suas mãos o mundo, e a nós, aos portugueses e espanhóis, deixai-nos, repudiai-nos, desfazei-nos, acabai-nos. Mas só digo e lembro a Vossa Majestade, Senhor, que estes mesmos, que agora desfavoreceis e lançais de vós, pode ser que os queirais algum dia, e que os não tenhais.

Não me atrevera a falar assim, se não tirara as palavras da boca de Jó que, como tão lastimado, não é muito entre muitas vezes nesta tragédia. Queixava-se o exemplo da paciência a Deus — que nos quer Deus sofridos, mas não insensíveis — queixava-se do tesão de suas penas, demandando e altercando porque se lhe não havia de remitir e afrouxar um pouco o rigor delas, e como a todas as réplicas e instâncias o Senhor se mostrasse inexorável, quando já não teve mais que dizer, concluiu assim: Ecce nunc in pulvene dormiam, et si mane me quoesieris, non subsistam (Jó 7,21): Já que não quereis, Senhor, desistir ou moderar o tormento, já que não quereis senão continuar o rigor, e chegar com ele ao cabo, seja muito embora, matai-me, consumi-me, enterrai-me: Ecce nunc in pulvere dormiam. Mas só vos digo e vos lembro uma coisa, que se me buscardes amanhã, que me não haveis de achar: Et si mane me quoesieris, non subsistam. Tereis aos sabeus, tereis aos caldeus, que sejam o roubo e o açoite de vossa casa, mas não achareis a um Jó que a sirva, não achareis a um Jó que a venere, não achareis a um Jó que, ainda com suas chagas, a não desautorize. — O mesmo digo eu, Senhor, que não é muito rompa nos mesmos afetos que se vê no mesmo estado. Abrasai, destruí, consumi-nos a todos; mas pode ser que algum dia queirais espanhóis e portugueses, e que os não acheis. Holanda vos dará os apostólicos conquistadores, que levem pelo mundo os estandartes da cruz; Holanda vos dará os pregadores evangélicos, que semeiem nas terras dos bárbaros a doutrina católica e a reguem com o próprio sangue; Holanda defenderá a verdade de vossos Sacramentos e a autoridade da Igreja Romana; Holanda edificará templos, Holanda levantará altares, Holanda consagrará sacerdotes, e oferecerá o sacrifício de vosso Santíssimo Corpo; Holanda, enfim, vos servirá e venerará tão religiosamente, como em Amsterdã, Meldeburg e Flisinga, e em todas as outras colônias daquele frio e alagado inferno, se está fazendo todos os dias.


 

IV

Bem vejo que me podeis dizer, Senhor, que a propagação de vossa fé, e as obras de vossa glória não dependem de nós, nem de ninguém, e que sois poderoso, quando faltem homens, para fazer das pedras filhos de Abraão. Mas também a vossa sabedoria e a experiência de todos os séculos nos tem ensinado que depois de Adão não criastes homens de novo, que vos servis dos que tendes neste mundo, e que nunca admitis os menos bons, senão em falta dos melhores. Assim o fizestes na parábola do banquete. Mandastes chamar os convidados que tínheis escolhido, e porque eles se escusaram e não quiseram vir, então admitistes os cegos e mancos, e os introduzistes em seu lugar: Caecos et claudos introduc huc (20). Se esta é, Deus meu, a regular disposição de vossa Providência divina, como a vemos agora tão trocada em nós, e tão diferente conosco? Quais foram estes convidados, e quais são estes cegos e mancos? Os convidados somos nós, a quem primeiro chamastes para estas terras, e nelas nos pusestes a mesa tão franca e abundante, como de vossa grandeza se podia esperar. Os cegos e mancos são os luteranos e os calvinistas, cegos sem fé e mancos sem obras, na reprovação das quais consiste o principal erro da sua heresia. Pois, se nós, que somos os convidados, não nos escusamos nem duvidamos de vir, antes rompemos por muitos inconvenientes, em que pudéramos duvidar, se viemos e nos assentamos à mesa, como nos excluis agora, e lançais fora dela, e introduzis violentamente os cegos e mancos, e dais os nossos lugares ao herege? Quando em tudo o mais foram eles tão bons como nós, ou nós tão maus como eles, por que nos não há de valer pelo menos o privilégio e prerrogativa da fé? Em tudo parece, Senhor, que trocais os estilos de vossa Providência e mudais as leis de vossa justiça conosco.

Aquelas dez virgens do nosso Evangelho, todas se renderam ao sono, todas adormeceram, todas foram iguais no mesmo descuido: Dormitaverunt omnes, et dormierunt (21). E, contudo, a cinco delas passou-lhes o esposo por este defeito, e só porque conservaram as lâmpadas acesas, mereceram entrar às bodas, de que as outras foram excluídas. Se assim é, Senhor meu, se assim o julgastes então — que vós sois aquele esposo divino — por que não nos vale a nós também conservar as lâmpadas da fé acesas, que no herege estão tão apagadas e tão mortas? É possível que haveis de abrir as portas a quem traz as lâmpadas apagadas, e que as haveis de fechar a quem as tem acesas? Reparai, Senhor, que não é autoridade do vosso divino tribunal, que saiam dele no mesmo çaso duas sentenças tão encontradas. Se às que deixaram apagar as lâmpadas se disse: Nescio vos (22),se para elas se fecharam as portas: Clausa est janua (23), quem merece ouvir de vossa boca um nescio vos tremendo, senão o herege que vos não conhece? E a quem deveis dar com a porta nos olhos, senão ao herege, que os tem tão cegos? Mas eu vejo que nem esta cegueira, nem este desconhecimento, tão merecedores de vosso rigor, lhes retarda o progresso de suas fortunas, antes a passo largo se vêm chegando a nós suas armas vitoriosas, e cedo nos baterão às portas desta vossa cidade. Desta vossa cidade, disse, mas não sei se o nome do Salvador, com que a honrastes, a salvará e defenderá, como já outra vez não defendeu; nem sei se estas nossas deprecações, posto que tão repetidas e continuadas, acharão acesso a vosso conspecto divino, pois há tantos anos que está bradando ao céu a nossa justa dor, sem vossa demência dar ouvidos a nossos clamores.

Se acaso for assim — o que vós não permitais — e está determinado em vosso secreto juízo, que entrem os hereges na Bahia, o que só vos represento humildemente, e muito deveras, é que, antes da execução da sentença, repareis bem, Senhor, no que vos pode suceder depois, e que o consulteis com vosso coração enquanto é tempo, porque melhor será arrepender agora, que quando o mal passado não tenha remédio. Bem estais na intenção e alusão com que digo isto, e na razão, fundada em vós mesmo, que tenho para o dizer. Também antes do dilúvio estáveis vós mui colérico e irado contra os homens, e por mais que Noé orava em todos aqueles cem anos, nunca houve remédio para que se aplacasse vossa ira. Romperam-se enfim as cataratas do céu, cresceu o mar até os cumes dos montes, alagou-se o mundo todo: já estaria satisfeita vossa justiça, senão quando ao terceiro dia começaram a boiar os corpos mortos, e a surgir e aparecer em multidão infinita aquelas figuras pálidas, e então se representou sobre as ondas a mais triste e funesta tragédia que nunca viram os anjos, que homens que a vissem, não os havia. Vistes vós também — como se o vísseis de novo — aquele lastimosíssimo espetáculo, e posto que não chorastes, porque ainda não tínheis olhos capazes de lágrimas, enterneceram-se porém as entranhas de vossa divindade, com tão intrínseca dor: Tactus dolore cordis intrinsecus (24), que do modo que em vós cabe arrependimento, vos arrependestes do que tínheis feito ao mundo, e foi tão inteira a vossa contrição, que não só tivestes pesar do passado, senão propósito firme de nunca mais o fazer: Nequaquam ultra maledicam terrae propter homines(25). Este sois, Senhor, este sois; e pois sois este, não vos tomeis com vosso coração. Para que é fazer agora valentias contra ele, se o seu sentimento e o vosso as há de pagar depois? Já que as execuções de vossa justiça custam arrependimento à vossa bondade, vede o que fazeis antes que o façais; não vos aconteça outra. E para que o vejais com cores humanas, que já vos não são estranhas, dai-me licença que eu vos represente primeiro ao vivo as lástimas e misérias deste futuro dilúvio, e se esta representação vos não enternecer, e tiverdes entranhas para o ver sem grande dor, executai-o embora.

Finjamos pois — o que até fingido e imaginado faz horror, finjamos que vem a Bahia e o resto do Brasil a mãos dos holandeses: que é o que há de suceder em tal caso? Entrarão por esta cidade com fúria de vencedores e de hereges; não perdoarão a estado, a sexo nem a idade; com os fios dos mesmos alfanjes medirão a todos. Chorarão as mulheres, vendo que se não guarda decoro à sua modéstia; chorarão os velhos, vendo que se não guarda respeito às suas cãs; chorarão os nobres, vendo que se não guarda cortesia à sua qualidade; chorarão os religiosos e veneráveis sacerdotes, vendo que até as coroas sagradas os não defendem; chorarão, finalmente, todos, e entre todos mais lastimosamente os inocentes, porque nem a estes perdoará — como em outras ocasiões não perdoou — a desumanidade herética. Sei eu, Senhor, que só por amor dos inocentes dissestes vós alguma hora que não era bem castigar a Nínive. Mas não sei que tempos nem que desgraça é esta nossa, que até a mesma inocência vos não abranda. Pois também a vós, Senhor, vos há de alcançar parte do castigo — que é o que mais sente a piedade cristã — também a vós há de chegar.

Entrarão os hereges nesta igreja e nas outras; arrebatarão esta custódia em que agora estais adorado dos anjos; tomarão os cálices e vasos sagrados, e aplicá-los-ão a suas nefandas embriaguezes. Derrubarão dos altares os vultos e estátuas dos santos, deformá-las-ão a cutiladas, e metê-las-ão no fogo, e não perdoarão as mãos furiosas e sacrílegas nem as imagens tremendas de Cristo crucificado, nem as da Virgem Maria. Não me admiro tanto, Senhor, de que hajais de consentir semelhantes agravos e afrontas nas vossas imagens, pois já as permitistes em vosso sacratíssimo corpo; mas nas da Virgem Maria, nas de vossa Santíssima Mãe, não sei como isto pode estar com a piedade e amor de Filho. No Monte Calvário esteve esta Senhora sempre ao pé da cruz, e com serem aqueles algozes tão descorteses e cruéis, nenhum se atreveu a lhe tocar nem a lhe perder o respeito. Assim foi e assim havia de ser, porque assim o tínheis vós prometido pelo profeta: Flagellum non apropinquabit tabernaculo tuo(26). Pois, Filho da Virgem Maria, se tanto cuidado tivestes então do respeito e decoro de vossa Mãe, como consentis agora que se lhe façam tantos desacatos? Nem me digais, Senhor, que lá era a pessoa, cá a imagem. Imagem somente da mesma Virgem era a Arca do Testamento, e só porque Oza a quis tocar, lhe tirastes a vida. Pois, se então havia tanto rigor para quem ofendia a imagem de Maria, por que o não há também agora? Bastava então qualquer dos outros desacatos às coisas sagradas, para uma severíssima demonstração vossa, ainda milagrosa. Se a Jeroboão, porque levantou a mão para um profeta, se lhe secou logo o braço milagrosamente, como aos hereges, depois de se atreverem a afrontar vossos santos, lhes ficam ainda braços para outros delitos? Se a Baltasar, por beber pelos vasos do templo, em que não se consagrava vosso sangue, o privastes da vida e do reino, por que vivem os hereges, que convertem vossos cálices a usos profanos? Já não há três dedos que escrevam sentença de morte contra sacrílegos?

Enfim, Senhor, despojados assim os templos, e derrubados os altares, acabar-se-á no Brasil a cristandade católica, acabar-se-á o culto divino, nascerá erva nas igrejas como nos campos, não haverá quem entre nelas. Passará um dia de Natal, e não haverá memória de vosso nascimento; passará a Quaresma e a Semana Santa, e não se celebrarão os mistérios de vossa Paixão. Chorarão as pedras das ruas, como diz Jeremias que choravam as de Jerusalém destruída: Viae Sion lugent, eo quod non sint qui veniant ad solemnitatem (27). Ver-se-ão ermas e solitárias, e que as não pisa a devoção dos fiéis, como costumava em semelhantes dias. Não haverá missas, nem altares, nem sacerdotes que as digam; morrerão os católicos sem confissão nem sacramentos; pregar-se-ão heresias nestes mesmos púlpitos, e, em lugar de São Jerônimo e Santo Agostinho, ouvir-se-ão e alegar-se-ão neles os infames nomes de Calvino e Lutero; beberão a falsa doutrina os inocentes que ficarem, relíquias dos portugueses, e chegaremos a estado, que, se perguntarem aos filhos e netos dos que aqui estão: — Menino, de que seita sois? — um responderá: — Eu sou calvinista — outro: Eu sou luterano. — Pois isto se há de sofrer, Deus meu? Quando quisestes entregar vossas ovelhas a São Pedro, examinaste-lo três vezes se vos amava: Diligis me, diligis me, diligis me (Jo. 21,15 s)? E agora as entregais desta maneira, não a pastores, senão aos lobos? Sois o mesmo, ou sois outro? Aos hereges o vosso rebanho? Aos hereges as almas? Como tenho dito e nomeei almas, não vos quero dizer mais. Já sei, Senhor, que vos haveis de enternecer e arrepender, e que não haveis de ter coração para ver tais lástimas e tais estragos. E se assim é — que assim o estão prometendo vossas entranhas piedosíssimas — se é que há de haver dor, se é que há de haver arrependimento depois, cessem as iras, cessem as execuções agora, que não é justo vos contente antes o de que vos há de pesar em algum tempo.

Muito honrastes, Senhor, ao homem na criação do mundo, formando-o com vossas próprias mãos, informando-o e animando-o com vosso próprio alento, e imprimindo nele o caráter de vossa imagem e semelhança. Mas parece que logo, desde aquele mesmo dia, vos não contentastes dele, porque de todas as outras coisas que criastes, diz a Escritura que vos pareceram bem: Vidit Deus quod esset bonum (28)e só do homem o não diz. Na admiração desta misteriosa reticência andou desde então suspenso e vacilando o juízo humano, não podendo penetrar qual fosse a causa por que, agradando-vos com tão pública demonstração todas as vossas obras, só do homem, que era a mais perfeita de todas, não mostrásseis agrado. Finalmente, passados mais de mil e setecentos anos, a mesma Escritura, que tinha calado aquele mistério, nos declarou que vós estáveis arrependido de ter criado o homem: Poenituit eum quod hominem fecisset in terra(29)e que vós mesmo dissestes que vos pesava: Poenitet me fecisse eos (30)e então ficou patente e manifesto a todos o segredo que tantos tempos tínheis ocultado. E vós, Senhor, dizeis que vos pesa e que estais arrependido de ter criado o homem, pois essa é a causa por que logo, desde o princípio de sua criação vos não agradastes dele nem quisestes que se dissesse que vos parecera bem, julgando, como era razão, por coisa muito alheia de vossa Sabedoria e Providência, que em nenhum tempo vos agradasse nem parecesse bem aquilo de que depois vos havíeis de arrepender e ter pesar de ter feito: Poenitet me fecisse. Sendo, pois, esta a condição verdadeiramente divina, e a altíssima razão de estado de vossa Providência, não haver jamais agrado do que há de haver arrependimento, e sendo também certo, nas piedosíssimas entranhas de vossa misericórdia, que se permitirdes agora as lástimas, as misérias, os estragos que tenho representado, é força que vos há de pesar depois e vos haveis de arrepender, arrependei-vos, misericordioso Deus, enquanto estamos em tempo, ponde em nós os olhos de vossa piedade, ide à mão à vossa irritada justiça, quebre vosso amor as setas de vossa ira, e não permitais tantos danos, e tão irreparáveis. Isto é o que vos pedem, tantas vezes prostradas diante de vosso divino acatamento, estas almas tão fielmente católicas, em nome seu e de todas as deste estado. E não vos fazem esta humilde deprecação pelas perdas temporais, de que cedem, e as podeis executar neles por outras vias, mas pela perda espiritual eterna de tantas almas, pelas injúrias de vossos templos e altares, pela exterminação do sacrossanto sacrifício de vosso Corpo e Sangue, e pela ausência insofrível, pela ausência e saudades desse Santíssimo Sacramento, que não sabemos quanto tempo teremos presente.

V

Chegado a este ponto, de que não sei, nem se pode passar, parece-me que nos está dizendo vossa divina e humana bondade, Senhor, que o fizéreis assim facilmente, e vos deixaríeis persuadir e convencer destas nossas razões, senão que está clamando, por outra parte, vossa divina justiça, e, com o sois igualmente justo e misericordioso, que não podeis deixar de castigar, sendo os pecados do Brasil tantos e tão grandes. Confesso, Deus meu, que assim é, e todos confessamos que somos grandíssimos pecadores. Mas tão longe estou de me aquietar com esta resposta, que antes estes mesmos pecados, muitos e grandes, são um novo e poderoso motivo, dado por vós mesmo, para mais convencer vossa bondade.

A maior força dos meus argumentos não consistiu em outro fundamento até agora, que no crédito, na honra e na glória de vosso santíssimo nome: Propter nomem tu um. E que motivo posso eu oferecer mais glorioso ao mesmo nome, que serem muitos e grandes os nossos pecados? Propter nomem tuum, Domine, propitiaberis peccato meo: multum est enim (Sl. 24, 11): Por amor de vosso nome, Senhor, estou certo — dizia Davi — que me haveis de perdoar meus pecados, porque não são quaisquer pecados, senão muitos e grandes: Multum est enim. — Oh! motivo digno só do peito de Deus! Oh! conseqüência, que só na suma bondade pode ser forçosa! De maneira que, para lhe serem perdoados seus pecados, alegou um pecador a Deus, que são muitos e grandes? Sim, e não por amor do pecador, nem por amor dos pecados, senão por amor da honra e glória do mesmo Deus, a qual, quanto mais e maiores são os pecados que perdoa, tanto maior é, e mais engrandece e exalta seu santíssimo nome: Propter nomem tuum, Domine, propitiaberis peccato meo: multum est enim. O mesmo Davi distingue na misericórdia de Deus grandeza e multidão; a grandeza: Secundum magnam misericordiam tuam; a multidão: Et secundum multitudinem miserationum tuarum (31). E como a grandeza da misericórdia divina é imensa, e a multidão de suas misericórdias infinitas, e o imenso não se pode medir, nem o infinito contar, para que uma e outra, de algum modo, tenha proporcionada matéria de glória, importa à mesma grandeza da misericórdia que os pecados sejam grandes, e à mesma multidão das misericórdias que sejam muitos: Multum est enim. Razão tenho eu logo, Senhor, de me não render à razão de serem muitos e grandes nossos pecados. E razão tenho também de instar em vos pedir a razão por que não desistis de os castigar: Quare obdormis? Quare faciem tuam avertis? Quare oblivisceris inopiae nostrae et tribulationis nostrae(32)?

Esta mesma razão vos pediu Jó, quando disse: Cur non tollis peccatum meum, et quare non aufers iniquitatem meam (33)? E posto que não faltou um grande intérprete de vossas Escrituras que argüisse por vossa parte, enfim se deu por vencido, e confessou que tinha razão Jó em vo-la pedir: Criminis in loco Deo impingis, quod ejus, qui deli quit, non miseretur? — diz São Cirilo Alexandrino. Basta, Jó, que criminais e acusais a Deus de que castiga vossos pecados? Nas mesmas palavras confessais que cometestes pecados e maldades, e com as mesmas palavras pedis razão a Deus porque as castiga? Isto é dar a razão, e mais pedi-la. Os pecados e maldades, que não ocultais, são a razão do castigo: pois, se dais a razão, por que a pedis? Porque ainda que Deus, para castigar os pecados, tem a razão de sua justiça, para os perdoar e desistir do castigo, tem outra razão maior, que é a da sua glória: Qui enim misereri consuevit, et non vulgarem in eo gloriam habei, obquam causam mei non miseretur? Pede razão Jó a Deus, e tem muita razão de a pedir — responde por ele o mesmo santo que o argüiu — porque se é condição de Deus usar de misericórdia, e é grande e não vulgar a glória que adquire em perdoar pecados, que razão tem, ou pode dar bastante, de os não perdoar? O mesmo Jó tinha já declarado a força deste seu argumento nas palavras antecedentes, com energia para Deus muito forte: Peccavi, quid faciam tibi (34)? Como se dissera: — Se eu fiz, Senhor, como homem em pecar, que razão tendes vós para não fazer como Deus em me perdoar? — Ainda disse e quis dizer mais: Peccavi, quid faciam tibi? Pequei, que mais vos posso fazer? — E que fizestes vós, Jó, a Deus em pecar? — Não lhe fiz pouco, porque lhe dei ocasião a me perdoar, e, perdoando-me, ganhar muita glória. Eu dever-lhe-ei a ele, como a causa, a graça que me fizer, e ele dever-me-á a mim, como a ocasião, a glória que alcançar.

E se é assim, Senhor, sem licença nem encarecimento, se é assim, misericordioso Deus, que em perdoar pecados se aumenta a vossa glória, que é o fim de todas vossas ações, não digais que nos não perdoais porque são muitos e grandes os nossos pecados, que antes, porque são muitos e grandes, deveis dar essa grande glória à grandeza e multidão de vossas misericórdias. Perdoando-nos e tendo piedade de nós, é que haveis de ostentar a soberania de vossa majestade, e não castigando-nos, em que mais se abate vosso poder, do que se acredita. Vede-o neste último castigo, em que, contra toda a esperança do mundo e de tempo, fizestes que se derrotasse a nossa armada, a maior que nunca passou a equinocial. Pudestes, Senhor, derrotá-la, e que grande glória foi de vossa onipotência poder o que pode o vento? Contra folium, quod vento rapitur; ostendis potentiamt (35). Desplantar uma nação, como nos ides desplantando, e plantar outra, também é poder que vós cometestes a um homenzinho de Anatot: Ecce constitui te super gentes et super regna, ut evellas, et destruas, et disperdas, et dissipes, et aedifices, et plantes (36). O em que se manifesta a majestade, a grandeza e a glória de vossa infinita onipotência, é em perdoar e usar de misericórdia: Qui omnipotentiam tuam, parcendo maxime, et miserando, manifestas. Em castigar, venceis-nos a nós, que somos criaturas fracas, mas em perdoar, venceis-vos a vós mesmo, que sois todo-poderoso e infinito. Só esta vitória é digna de vós, porque só vossa justiça pode pelejar com armas iguais contra vossa misericórdia; e, sendo infinito o vencido, infinita fica a glória do vencedor. Perdoai, pois, benigníssimo Senhor, por esta grande glória vossa: Propter magnam gloriamtuam: Perdoai por esta glória imensa de vosso santíssimo nome: Propter nomem tuum.

E se acaso ainda reclama vossa divina justiça, por certo não já misericordioso, senão justíssimo Deus, que também a mesma justiça se pudera dar por satisfeita com os rigores e castigos de tantos anos. Não sois vós, enquanto justo, aquele justo juiz de quem canta o vosso profeta: Deus, judex justus, fortis et patiens, nunquid irascitur per singulos dies (37)? Pois se a vossa ira, ainda como de justo juiz, não é de todos os dias, nem de muitos, por que se não dará por satisfeita com rigores de anos, e tantos anos? Sei eu, legislador supremo, que nos casos de ira, posto que justificada, nos manda vossa santíssima lei que não passe de um dia, e que, antes de se pôr o sol, tenhamos perdoado: Sol non occidat super iracundiam vestram (38). Pois, se da fraqueza humana, e tão sensitiva, espera tal moderação nos agravos vossa mesma lei, e lhe manda que perdoe e se aplaque em termo tão breve e tão preciso, vós que sois Deus infinito, e tendes um coração tão dilatado como vossa mesma imensidade, e em matéria de perdão vos propondes aos homens por exemplo, como é possível que os rigores de vossa ira se não abrandem em tantos anos, e que se ponha e torne a nascer o sol tantas e tantas vezes, vendo sempre desembainhada e correndo sangue a espada de vossa vingança? Sol de justiça, cuidei eu que vos chamavam as Escrituras (Mal. 4,2), porque, ainda quando mais fogoso e ardente, dentro do breve espaço de doze horas passava o rigor de vossos raios; mas não o dirá assim este sol material que nos alumia e rodeia, pois há tantos dias e tantos anos que, passando duas vezes sobre nós de um trópico a outro, sempre vos vê irado.

Já vos não alego, Senhor, com o que dirá a terra e os homens, mas com o que dirá o céu e o mesmo sol. Quando Josué mandou parar o sol, as palavras da língua hebraica em que lhe falou foram não que parasse, senão que se calasse: Sol, tace contra Gabaon (39). Calar mandou ao sol o valente capitão, porque aqueles resplendores amortecidos, com que se ia sepultar no ocaso, eram umas línguas mudas, com que o mesmo sol o murmurava de demasiadamente vingativo; eram umas vozes altíssimas, com que desde o céu lhe lembrava a lei de Deus, e lhe pregava que não podia continuar a vingança, pois ele se ia meter no Ocidente: Sol non occidat super iracundiam vestram. E se Deus, como autor da mesma lei, ordenou que o sol parasse, e aquele dia — o maior que viu o mundo — excedesse os termos da natureza por muitas horas, e fosse o maior, foi para que, concordando a justa lei com a justa vingança, nem por uma parte se deixasse de executar o rigor do castigo, nem por outra se dispensasse no rigor do preceito. Castigue-se o gabaonita, pois é justo castigá-lo, mas esteja o sol parado até que se acabe o castigo, para que a ira, posto que justa, do vencedor, não passe os limites de um dia. Pois, se este é, Senhor, o termo prescrito de vossa lei, se fazeis milagres, e tais milagres, para que ela se conserve inteira, e se Josué manda calar e emudecer o sol, por que se não queixe e dê vozes contra a continuação de sua ira, que quereis que diga o mesmo sol não parado nem emudecido? Que quereis que diga a lua e as estrelas, já cansadas de ver nossas misérias? Que quereis que digam todos esses céus criados, não para apregoar vossas justiças, senão para cantar vossas glórias: Caeli enarrant gloriam Dei (40)?

Finalmente, benigníssimo Jesus, verdadeiro Josué e verdadeiro sol, seja o epílogo e conclusão de todas as nossas razões o vosso mesmo nome: Propter nomem tuum. Se o sol estranha a Josué rigores de mais de um dia, e Josué manda calar o sol por que lhos não estranhe, como pode estranhar vossa divina justiça que useis conosco de misericórdia, depois da execução de tantos e tão rigorosos castigos, continuados não por um dia ou muitos dias de doze horas, senão por tantos e tão compridos anos, que cedo serão doze? Se sois Jesus, que quer dizer Salvador, sede Jesus e sede Salvador nosso. Se sois sol, e sol de justiça, antes que se ponha o deste dia, deponde os rigores da vossa. Deixai já o signo rigoroso de Leão, e dai um passo ao signo de Virgem, signo propício e benéfico. Recebei influências humanas de quem recebestes a humanidade. Perdoai-nos, Senhor, pelos merecimentos da Virgem Santíssima. Perdoai-nos por seus rogos, ou perdoai-nos por seus impérios, que se como criatura vos pede por nós o perdão, como Mãe vos pode mandar, e vos manda que nos perdoeis. Perdoai-nos, enfim, para que a vosso exemplo perdoemos, e perdoai-nos também a exemplo nosso, que todos, desde esta hora, perdoamos a todos por vosso amor: Dimitte nobis debita nostra, sicut et nos dimittimus debitoribus nosiris. Amen (41).

(1) Levanta-te, por que dormes, Senhor? Levanta-te e não nos desampares para sempre. Por que apartas teu rosto, e te esqueces da nossa miséria e da nossa tribulação? Levanta-te, Senhor, ajuda-nos, e resgata-nos por amor de teu nome (Sl. 43,23,24,26).

(2) Nós, ó Deus, com as nossas orelhas ouvimos: nossos pais nos anunciaram a obra que fizestes nos dias deles e nos dias antigos (Sl. 43,2).

(3) A tua mão exterminou as gentes, e os plantaste a eles; a afligiste os povos, e os lançaste fora (Sl. 43,3).

(4) Porque não com a sua espada que possuíram a terra, e o seu braço não os salvou, senão a tua destra, e o teu braço, e aluz do teu rosto, porque te comprazeste neles. (Sl. 43,4).

(5) Mas agora tu nos lançaste fora e cobriste de confusão, e tu, ó Deus, não andarás à testa dos nossos exércitos (Sl. 43,10).

(6) Tu nos fizeste voltar as costas a nossos inimigos, e que fôssemos presa dos que nos tinham em aborrecimento. (Sl. 43, 11).

(7) Tu nos entregaste como ovelhas de matadouro, e nos espalhaste entre as nações (Sl. 43,12).

(8) Puseste-nos por opróbrio aos nossos vizinhos, por escárnio e zombaria àqueles que estão ao redor de nós (Sl. 43,14).

(9) Tu mesmo és o meu rei, que dispões as salvações de Jacó (Sl. 43,5).

(10) Quero estabelecer em e na tua descedência o meu império.

(11) Senhor, a ti não se te dá? (Lc. 10,40).

(12) Tu és justo, Senhor, e é reto o teu juízo. (Sl. 118, 137).

(13) Não fazemos estas deprecações fundados em alguns merecimentos da nossa justiça, mas sim na multidão das tuas misericórdias. (Dan. 9,18).

(14) Deixa que se acenda o furor da minha indignação contra eles, e que eu os consuma. (Êx. 32,10).

(15) Não permitas, te rogo, que digam os egípcios: Ele os tirou do Egito astutamente para matar nos montes, e para os extinguir da terra. (Êx. 32,12).

(16) Porventura parece-te bem caluniares-me e oprimires-me a mim que sou obra das tuas mãos, e favoreces o desígnio dos ímpios. (Jó 10,3).

(17) Porque os dons de Deus são imutáveis. (Rom. 11,29).

(18) Eles os tirou do Egito astutamente para os matar e para os extinguir da terra. (Êx. 32,12).

(19) Virgil.

(20) Traze-me cá os cegos e os coxos. (Lc. 14,21).

(21) Começaram a toscanejar todas, e assim vieram a dormir. (Mt. 25,5).

(22) Não vos conheço (Mt. 25,12).

(23) Fechou-se a porta (Mt. 25,10).

(24) Tocado interiormente de dor. (Gên. 6,6).

(25) Não amaldiçoarei mais a terra por causa dos homens (Gên. 8,21).

(26) O flagelo não apriximará à tu tenda. (Sl. 90,10).

(27) As ruas de Sião choram, porque não há quem venha às solenidades. (Lam. 1,4).

(28) E viu Deus que isto era bom. (Gên. 1,10).

(29) Pesou-lhe de ter criado o homem na terra. (Gên. 6,6).

(30) Porque me pesa de os ter feito. (Gên. 6,7).

(31) Segundo a tua grande misericórdia, e segundo as muitas mostras da tua clemência. (Sl. 50,3).

(32) Por que dormes? Por que apartas teu rosto? Por que te esqueces da nossa miséria e da nossa tribulação? (Sl. 43,23s).

(33) Por que não me tiras o meu pecado, e por que não apagas a minha iniqüidade (Jó 7,21)?

(34) Pequei, que te farei eu? (Jó 7,20).

(35) Contra uma folha, que é arrebatada ao vento, ostentas o teu poder. (Jó 13,25).

(36) Eis aí te constituí sobre as gentes e sobre os reinos, para arrancares e destruíres, e para arruinares e dissipares, e edificares e plantares. (Jer. 1,10).

(37) Deus, juiz justo, forte e paciente, ira-se acaso todos os dias? (Sl. 7,12).

(38) Não se ponha o sol sobre a vossa ira. (Ef. 4,26).

(39) Sol detém-se sobre Gabaon. (Jos. 10,12).

(40) Os céus publicam a glória de Deus. (Sl. 18,1).

(41) Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também perdoamos aos nossos devedores. (Mt. 6,12).

 

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POETAS DO BARROCO: ALEXANDRE DE GUSMÃO, JOSÉ DA CUNHA CARDOSO E SEBASTIÃO DA ROCHA PITA

ALEXANDRE DE GUSMÃO

A Júpiter Supremo Deus do Olimpo

Nume que tens do mundo o regimento,
Se amas o bem, se odeias a maldade,
Como deixas com prêmio a iniquidade,
E assoçobrado ao são entendimento?

Como hei de crer qu'um imortal tormento,
Castigue a uma mortal leviandade?
Que seja ciência, amor ou piedade
Expor-me ao mal sem meu consentimento?

Guerras cruéis, fanáticos tiranos,
Raios, tremores, e as moléstias tristes,
Enchem o curso de pesados anos;

Se és Deus, s'isto prevês, e assim persistes,
Ou não fazes apreço dos humanos,
Ou qual dizem não és; ou não existes.

A Seus Dois Filhos Persuadindo-lhes o Conhecimento Próprio

Isto não é vaidade; é desengano
A elevação do vosso pensamento:
Dei-vos o ser, e dou-vos documento
Para fugirdes da soberba ao dano.

Esta grandeza, com que ao mundo engano,
Foi da fortuna errado movimento.
Subi; mas tive humilde nascimento:
Assim foi Viriato, assim Trajano.

Quando souberdes ler do mundo a história,
Nos dous heróis, que tomo por empresa,
Contemplareis a vossa e a minha glória.

Humildes quanto ao ser da natureza;
Ilustres nas ações; e esta memória
É só quem pode dar-vos a grandeza.

JOSÉ DA CUNHA CARDOSO

Soneto
Ao Sr. Presidente da Academia Brasílica dos Esquecidos, Sebastião da Rocha Pita

Rocha eminente, cuja prosa e metro
Sobre as asas da fama aos astros voa,
Porque a harmonia, que o teu plectro entoa,
Mais mostra ser do Céu, que do Libetro,

É tanta a majestade do teu plectro,
Que reverente o Sol desce em pessoa
A prostrar aos teus pés cetro, e coroa,
Por honrar a coroa, e mais o cetro.

Quando em prosas discretas tanto avultas,
E tanto excedes do Caístro as aves,
Vejo que a Homero, e Cícero sepultas.

Mais ignoro quais sejam mais suaves,
Se em valente eloqüência as prosas cultas,
Se em furor elegante os versos graves.

Soneto
Uma estátua de Apolo ferida e desfeita por um raio


Da ciência na imagem mais divina,
Do sacro Apolo simulacro augusto,
Emprega as iras com furor injusto
Raio fatal, que Júpiter fulmina.

Acautelado Jove a crer se inclina,
Que saber só lhe pode causar susto;
Pois com razão, e fundamento justo
Sobre os astros o sábio só domina.

Pela origem, que traz do eterno lume,
Com o poder do Deus, que os orbes move,
Só a ciência competir presume.

Por isso sobre a estátua o fogo chove,
Em vingança do susto, e do ciúme
De ir tirar a ciência o cetro a Jove.

Soneto em louvor do Presidente da Academia, o Padre Manuel Serqueyra Leal.

Nos ecos do silêncio retumbante
Sois a pompa do horrísono instrumento,
Do côncavo da Lua o pavimento,
E do Trópico austral a estrela errante.

No calor furibundo e coruscante,
Que é lúbrico da inveja firmamento,
Fostes autor do paradoxo invento,
Raio nos episódios fulminante.

Calcitrante se escrespa, e se aprofunda
Vossa pluma no Letes, excedendo
Ao cultor que de Tróia os campos lavra.

Viste meu Manuel, tal barafunda?
Pois São Pedro me leve, se eu entendo
Disto que aqui vos disse, u'a palavra.

Soneto
A modéstia de Alexandre Magno quando se lhe houveram de apresentar a mulher, mãe e filhas de Dario vencido.


Esse, a cujo poder o orbe rotundo
É por estreito esfera incompetente,
Hoje a glória alcançou mais excelente,
Hoje o troféu primeiro, e sem segundo.

Esse, em cujo valor não se acha fundo,
Em Dario triunfou de um rei potente;
Mas em si, reportado e continente
Triunfou de quem vence a todo o mundo.

Estas são as conquistas verdadeiras,
Brasões maiores, glórias mais altivas,
Que têm do seu exército as bandeiras.

Publique-se em pregões de eternos vivas
Só é capaz de ter tais prisioneiras
Quem sabe as paixões próprias ter cativas.

SEBASTIÃO DA ROCHA PITA

[Mudou o Sol o Berço refulgente]

Mudou o Sol o Berço refulgente,

Ou fez Berço do Túmulo arrogante

Galhardo onde se punha agonizante

Com luz no Ocaso, e sombras no Oriente.

Não morre agora o Sol, quer diferente

No Aspecto, se na vida semelhante

No Oriente nascer menos flamante,

E renascer mais belo no Ocidente.

Fênix de raios a uma, e outra parte

Comunica os incêndios, e fulgores,

Porém com diferença hoje os reparte.

Nasce lá no Oriente só em ardores,

No Ocidente a ilustra Ciência, e Arte

Renasce em luzes, vive em resplandores.

Endechas

[Um belo menino brincando em um Jardim com flores, o mordeu um Áspid, e logo morreu. Assunto lírico da presente Academia]

Seja o verso pequeno,

E breve o estilo

Pois o lírico Assunto

É de um menino.

Bem que belo não fora

Será preciso,

Que o poder do toante

O faço lindo.

De Nácar, e de Neve

Composto vivo,

Era cristal com alma,

Flor com sentidos.

Dera em um Jardim

Pasmo aos Jacintos,

Às Angélicas Xaque,

Mate aos Narcisos.

Ao brincar com todos

Foi de improviso,

Não de Abelha picado,

De Áspid mordido.

Cai logo coberto

De um suor tíbio,

Que por ser de Aljôfar

Era Rocio.

A morte recebeu

Em um solilóquio,

Sem que a vida lhe

Um só suspiro.

Mas ser morto decerto

Eu não o afirmo,

Porque a todos parece

Que está dormindo.

Matar por este modo,

Fraco inimigo

Sendo fatalidade,

Parece brinco.

Em um quadro de flores

Tal paracismo,

Morte foi de Jasmim,

Ou é delírio.

Ser Campo o Jardim

Deste homicídio,

Faz tão feio o lugar

Como o delito.

Das mais fermosas flores

O labirinto

Lamentando o caso

Se pôs marchito.

Um Jardim foi a Vênus

No parto abrigo

Porque sobre as flores

Nasceu Cupido.

Sendo vária a Estânciua

Aos dous Meninos,

Um encontrou afagos,

Outro castigos.

Lá na Quinta dos Padres

Foi o conflito,

Do qual tirou devassa

Padre Ministro.

Desterrou ao Áspid

Do seu distrito,

E ao menino morto

Lhe deu jazigo.

[Amor com Amor se paga, e Amoro com Amor se apaga. Assunto lírico da presente Academia]

Soneto

Deste Apótema vigilante, e cego

Uma parte confirmo, outra reprovo,

Que o Amor com Amor se paga provo,

Que o Amor com Amor se apaga nego.

Tenho os Amores um igual sossego,

Se estão pagando a fé sempre de novo

Mas a crê que se apagam me não movo,

Sendo fogo, e matéria Amor, e emprego.

Se de incêndios costuma Amor nutrir-se,

Uma chama com outra há de aumentar-se,

Que em si mesmas não devem consumir-se.

Com razão deve logo duvidar-se

Quando um Amor com outro sabe unir-se

Como um fogo com outro há de apagar-se?

(Apostila 10 de Barrroco - Literatura Brasileira