Modernismo Reg Braisleiro 1930

10/05/2015 09:13

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Cornélio Pena

Romance psicológico, introspectivo, intimista, introvertido, interiorista... vários foram os termos utilizados ao longo do tempo para tentar conceitualizar a obra inclassificável de CORNÉLIO PENA. Todos esses termos que acenam para o privilégio da subjetividade foram forjados, talvez, com o objetivo de contrapor esse escritor à literatura regionalista e social que imperava quando ele estreou. Trata-se, entretanto, justamente, da superação da subjetividade (e, conseqüentemente, da objetividade) em busca de uma sondagem originária do ser, vivida com todos os conflitos da carnalidade e da paixão: a esse caminho, contínua, solitária e verticalmente, o escritor se entrega, no movimento de realização de sua obra, fazendo dela a manifestação de uma luta existencial cujo fim sabe ser inalcançável. Se a angústia é o preço a ser pago por mergulho tão intenso, há que se acatá-la como o destino irrefutável da experiência humana ao se espantar diante dos mistérios da vida. Uma das prosas mais poéticas da tradição brasileira, a ficção de Cornélio Pena se caracteriza por uma construção a um só tempo unitária e mosaical.

OBRAS

Fronteira (1936); Dois Romances de Nico Horta (1939); Repouso (1948); Menina Morta (1954); Romances Completos (1958).

A Menina Morta - Cornélio Pena - Resumo

O argumento desse romance se esboça através de situações e detalhes, que compõem o ambiente e com ele submergem numa atmosfera que delimita o seu próprio mundo. De repente, todos os seus componentes materiais, humanos e temporais avultam nitidamente em torno de um símbolo de poder unificador e punitivo, a "menina morta". Evocada em sua curta existência, ela deixa entrever a sua missão conciliadora, também inspiradora do perdão e da bondade. Morta, abandona os vivos que se aprisionam cada vez mais nas cadeias do orgulho, do grande latifúndio escravocrata e monocultor, todos surdos aos gemidos da humildade passiva do escravo seviciado e aterrorizado.

A paisagem é a de uma grande fazenda de café no Vale do Paraíba, com seu imenso solar, inúmeros agregados e trezentos escravos. Seus senhores sofrem um drama íntimo, contido pelo orgulho e pelo amor-próprio, que intimidam e impedem qualquer possibilidade de alusão, de quem quer que seja, ao que possa ter acontecido. Ao mesmo tempo pressente-se a iminência da revolução social e econômica, com a extinção do trabalho servil. A criança, que seria a esperança de uma reconciliação humana geral naquela paisagem de riqueza e poderio às vésperas de se extinguir, se converte naquele símbolo da "menina morta". É a sombra punitiva que paira sobre os desumanizados. Tanto que, como num misterioso processo de metempsicose, ela é confundida com a irmã que sobrevive e é feita herdeira da fazenda. É quando esse vasto latifúndio de repente se desola, quase se intemporaliza, para envolver a sobrevivente numa imensa sombra, justamente com sua mãe, física e mentalmente debilitada.

O romance parece então dividir-se em duas partes: a primeira, em que perdura a lembrança da menina morta, coexistindo com o seu retrato a óleo na parede, enquanto ela se faz atuante como verdadeira força catalítica; a segunda preenchida pelo retorno da irmã, coincidindo com a ausência dos pais, até ao entorpecimento sombrio de todo aquele imenso e fervilhante domínio.

 

 

 

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Dois Romances de Nico Horta - Cornélio Pena - (Comentários)

O enredo de Fronteira (1935) nos punha no interior de uma cidadezinha e, dentro desta, no interior de uma casa em decadência. A localização espacial agora se amplia: a pequena cidade concorre com a fazenda, embora tanto numa quanto noutra seja dentro das casas que, de preferência se encontrarão os personagens.

Criados na fazenda do Rio Baixo, os gêmeos Pedro Horta e Nico deslocam-se depois, com a família, para a cidade. Ainda tornam à fazenda e daí, já sozinho, Nico volta à cidade. Este vaivém importa porque se cumpre entre dois termos, dos quais um, a cidadezinha, tendo sido o primeiro ficcionalmente referido, tende a diminuir de importância, até se converter em mero lugar da passagem, Porto Novo, em A Menina Morta, ao passo que o contraposto, a fazenda, de ingresso mais tardio, tornar-se-á o central com o Grotão. Esta ordem de entrada e a mudança de seus pesos indicam a direção da matéria ficcional corneliana: direção ditada pela memória, na (dolorosa) procura de chegar à origem da razão (esquiva) da própria procura.

Dentro do eixo agora estabelecido, os personagens mantêm o sonambulismo que já encontráramos em Fronteira. A maneira como o são porém se complexifica. Malgrado sejam dados secundários, importa-nos sua referência para a rememoração do trajeto que nos impomos. Acentua-se desde logo a dificuldade, ou mesmo a incapacidade que sentem os personagens diante do tempo presente. Ela se acompanha do pressentimento de que algo terrível está prestes (cap.XXXIX). O terrível, contudo, não chegará como uma imposição externa, um acidente transtornante, mas sim como o esperável, porque a vida é sentida como ilegítima, conforme Nico pensa em seus monólogo: “Alguém de muito longe, devia gritar: pare! E ele obedecia, sem ouvir, entretanto, essa ordem... Por que recuara tantas vezes diante da felicidade vulgar, da paz oferecida, da vitória sem sangue... Por que recuara tantas vezes da própria saúde de seu corpo e de seu espírito, como quem se afasta da estrada interditada, do caminho interrompido?”(cap. XXXVIII).

Esta sensação se faz mais aguda em Nico Horta, não pro sua diferença, mas exatamente por ser nele que incide e se concentra a ótica do narrador. Daí o sentimento de estar sendo apontado e perseguido (cap. XXVI), perseguido, na verdade, pelas acusações proferidas por sua memória (cap. LV). É como desdobramento desta incapacidade de estarem inteiros no presente, de serem os personagens os recipientes de uma culpa tanto mais lancinante quanto mais vaga, surgem os fantasmas.

(...)

Ana, mãe de Nico e Pedro, tivera um primeiro marido, Antônio, que morrera deixando-a grávida. Já está pela segunda vez casada. Um terá o nome do pai, o primeiro marido, o segundo, do marido atual. O primeiro mais franzino, será conhecido pelo diminutivo, Nico. O processo de nomeação, já em si estranho, confirma a suspeita que em nós desperta o comentário de D.Ana, aborrecida com o destino que afastara de si Pedro, seu favorito: “Já não tenho junto de mim o pobre Pedro... o meu filho! - exclamou com vingativa raiva: - o culpado de tudo foi o pai dele, o pai dele! - Mas - disse Nico vagarosamente - era também o meu pai...”(cap. LXXXVII)

Na imaginação da mulher, portanto, o pai comum se biparte e cada filho seria descendente de um dos maridos. Sobre a sincronia “real” do nascimento projeta-se a diacronia simbólica, vivida pela mãe. Assim se cria entre os gêmeos uma diferença, que crescerá sob a forma de hostilidade. Ademais, a divisão não existe apenas para Ana. O marido a reforça, hostilizando Nico, preferindo substituir seu nome pelo epíteto de “o meu segundo filho” (cap. X, 196). As lembranças de infância deste reiteram a sua inferioridade. Reserva-se a Pedro o gramofone, que pertencera ao pai, sendo a ele proibido. Como a narrativa se concentra em Nico, só conhecemos o seu sentido hostil, embora a narrativa declare o mútuo antagonismo que os separa (cap.XXVII).

Semelhantes enquanto gêmeos, diversos fisicamente - Nico, franzino, Pedro, forte - e simbolicamnete, pelo desprezo que os pai nutrem por Nico -, neste se cria a sensação de ilegitimidade, a necessidade de odiar o rival e, posteriormente, sua divisão interna: “Nico, assim que perdeu Pedro de vista, correu para o seu quarto, livre da presença importuna da horrível companhia do irmão. (...) E pouco a pouco, abandonando pelo presente, mergulhou de novo em seu sonho. Os medos e as trevas, em silêncio, retomaram o antigo lugar à sua cabeceira. - De súbito, no meio delas, vozes estrondam. - Gritos, chamados, assobios, perseguem um homem que corre, ocultando o rosto. -Com surpresa, com frio terror ele se reconhece no fugitivo. (...)” (cap. XXVI). Está traçado todo o perfil do duplo, que em Fronteira, apenas se delineara.(...) Mas o romancista se descarta do problema, pelo afastamento de Pedro da fazenda, levado como louco para a residência de um médico da cidade. (...) Contudo, o desenvolvimento da narrativa nos mostra que, se o autor se liberara da expressão mais direta do duplo, não se afastara de sua presença. Assim, após o afastamento do irmão, Nico não consegue permanecer na fazenda. Foge para a cidade, deixando Maria Vitória, com quem mantinha um caso amoroso, com a mãe. Nada lhe pesa contra a fuga, como tampouco a cidade aliviará a perseguição de seu demônio interior. No cartório, onde passa a trabalhar, admite o interesse que lhe manifesta a filha do tabelião. Passa a freqüentar sua casa e a família apóia o noivado. Nico, entretanto - não peçamos maiores explicações de seus atos - resolve tornar à fazenda e à pretendente preferida pela mãe. Anuncia-se o casamento com Maria Vitória e então se estabelece outro duplo, entre Rosa, a filha do tabelião, e Vitória.

Nico, que fora vítima do duplo, agora se vinga, tornando-se seu criador. O resultado subtrativo se repete em dose mais forte. No mesmo dia do casamento, Rosa se suicida. Tudo isso deixa transparecer um claro tom de melodrama (camiliano?), mas sua condição não é a de um pastiche. Assim o júbilo com que os esposos são mostrados - muito ortodoxamente religioso que o encontrado na versão sexualizada de Fronteira (cf. final do ca.p XLII) - é, no outro dia, bruscamente interrompido pela subtração radical da vítima do duplo criado por Nico. Matando-se, Rosa impede a sua divisão interna e a transfere para Nico Horta. Trancafiado no quarto, ele sente que “alguém viera em sua perseguição (...), e ficara à sua espera, lá fora, na escuridão do corredor” (cap. XCIII). E percebe ser inútil combatê-lo, “a não ser que expulsasse primeiro, ou matasse, o pequeno monstro que rói o meu coração” (cap. XCIII). Resta ao romancista a última opção: a loucura se esgotara com Pedro, a fuga, no vaivém entre fazenda e cidade; entre as soluções conhecidas por sua obra só permanece a da morte. Mas pela boca do moribundo conhecemos que tampouco se dissipa a onipotência do duplo. Agonizante, Nico Horta percebe o que nunca soubera; apontando para a mãe, para Maria Vitória e para o tabelião, declara: “-esta é minha mãe, esta é minha mulher, este é meu amigo. Conheço-os agora, e sei que existem, que são reais... quero que me aceitem... eu vou ficar bom e viver realmente com vocês, porque os aceito, também”(cap. XCV). (...) Ora, em vida, Nico Horta não se sentia semelhante à vida, mas sim próximo da morte, assim como, na véspera da morte, sente-se semelhante ao corpo desejoso de vida.

Adap.de texto de Luiz Costa Lima, A Perversão da Trapezita: O Romance em Cornélio Pena.

 

 

 

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OS RATOS - Dyonélio Machado - resumo e comentários

Por: Célia N. Passoni - editora Núcleo

Os Ratos teve sua primeira edição em 1935 e, por seus méritos literários, foi homenageado com o "Prêmio Machado de Assis", que Dyonélio Machado recebeu junto com Érico Veríssimo, Marques Rebelo e João Alphonsus. Estava destinado, desde o início, a tornar-se um clássico da 2ª geração modernista.

Dyonélio Machado diplomou-se em Medicina com especialização em Psiquiatria. Dedicou-se também ao jornalismo e à política. De suas atividades profissionais como psiquiatria, herdou a profunda capacidade de observar, o que lhe permitiu mergulhar fundo no interior dos seres humanos, investigando-lhes a essência: pequenos e grandes dramas, angústias que provocam necessidades mais traumatizantes. As atividades de jornalista possibilitam nascer, no escritor, a preocupação com o estilo: rápido, certeiro, bem-dosado, tornando-se um mensageiro perfeito e de linguagem clara e simples, que permite ao leitor penetrar nas mais profundas investigações sobre o homem de maneira cautelosa, mas incisiva. E, finalmente, das suas atividades políticas tornaram-se possíveis as investigações sociais.

Dessas três coordenadas do escritor, pode-se resumir Os Ratos: um relato psicológico, revolvendo a mente atormentada de um pobre homem; e que se alarga porque, de certa forma, reflete toda uma angústia coletiva, angústia presente em uma camada social que sobrevive à mercê de agiotagens, empréstimos, penhores e outros subterfúgios utilizados pelos homens para poder conseguir o dinheiro, que lhes permitirá sobreviver mais um dia, um único e mísero dia. Mas no horizonte há uma estreita realidade, uma malha cheia de fios sempre crescente, sempre torturante que pode ser resumida na certeza de se ter transferido para o dia seguinte a mesma necessidade: a angústia do pagamento de outras dívidas.

A obra pode ser definida como um drama urbano e envolve a vida de um reles funcionário público de baixo escalão, com pequenos rendimentos, pequena família, pequena vida e problemas a serem resolvidos. Acrescenta-se ao quadro a capacidade de condensar toda a ação do volume em um único dia. Seguindo o traçado do Sol no horizonte, o dia tem seu início com a colocação do problema, ao meio-dia intensifica-se, levando o leitor a conhecer e se aprofundar no desespero do protagonista, para, no final, tornar-se mais um problema "resolvido", mas com a pequena e mesquinha solução de somente transferir para mais tarde a resolução definitiva. Um retrato duro do famoso "jeitinho brasileiro" de solucionar problemas.

A narrativa é feita em 3ª pessoa, cuja vantagem é trazer a onisciência para que o leitor possa adentrar ao máximo na problemática, sem encontrar barreiras de espécie alguma. O personagem principal é Naziazeno, pequeno funcionário público, casado com Adelaide, com um filho ainda bebê e que, por isso mesmo, necessita de leite. O problema surge a partir do momento em que o leiteiro se recusa a continuar o fornecimento se Naziazeno não liquidar a conta atrasada. Como o leiteiro exerce uma espécie de domínio sobre o personagem, uma vez que a ele é dada a capacidade de escolher entre entregar ou não o leite, cabe a ele também o papel de coagir o já acuado personagem.

O primeiro capítulo apresenta a situação de desespero que daí para frente aumenta a cada passo que é dado no romance, culminando com um clima de angústia e de desespero para se conseguir o dinheiro necessário para o pagamento da dívida. Em um primeiro instante, a tendência de Naziazeno é desvalorizar o leite:

"Um silêncio

Mexe nos bolsos; dá a volta à peça; vai até o cabide de parede, onde havia colocado o chapéu.

- Me dá o dinheiro – diz, num tom seco, torcendo-se para a mulher, enquanto pega o chapéu.

- E voltando ao ‘seu ponto’, depois de pôr no bolso os níqueis que a mulher lhe trouxera:

- Aqui não! É a disciplina. É a uniformidade. Nem se deixa lugar para o gosto de cada um. Pois fica sabendo que não se há de fazer aqui cegamente o que os outros querem.

A mulher não diz nada. Voltara a esfregar uma qualquer coisinha na tábua da mesa.

Ele se pára bem defronte dela e a interpela:

- Me diz uma coisa: o que é que se perdeu não comendo manteiga, isso, que é mais um pirão de batatas do que manteiga?

Ela não responde.

- E o gelo?... pra que é que se precisava de gelo?...

Faz-se uma pausa. Ele continua:

- Gelo... manteiga... Quanta bobice inútil e dispendiosa...

- Tu queres comparar o gelo e a manteiga com o leite?

- Por que não?

- Com o leite?!

Ele desvia a cara de novo.

- Não digo com o leite – acrescenta depois – mas há muito esbanjamento.

- Aponta o esbanjamento.

- Olha, Adelaide (ele se coloca decisivo na frente dela) tu queres que eu te diga? Outros na nossa situação já teriam suspendido o leite mesmo.

Ela começa a choramingar.

- Pobre do meu filho...

- O nosso filho não haveria de morrer por tão pouco. Eu não morri, e muita vez só o que tinha para tomar era água quente com açúcar.

- Mas, Naziazeno... (A mulher ergue-lhe uma cara branca, redonda, de criança grande chorosa)... tu não vês que uma criança não pode passar sem leite?..."

Naziazeno levanta-se cedo, e cedo toma o bonde que o leva à repartição. Suas lembranças andam soltas: primeiro retoma as conversas de Horácio e Clementino, embora simples serventes, conhecem certos prazeres que a ele são vetados. Por suas lembranças ainda passa a doença do filho, diarréia, desnutrição. Não pagou o médico, porque é de hábito não pagar ninguém. Percorre com o olhar e fixa os olhos em um passageiro do bonde. Um mal-estar o invade ao reconhecer, nas mãos do outro, o leite:

"- Leite. É o meu almoço.

‘- Como é que um homem pode se contentar apenas com um vidro de leite ao meio-dia?’ – pensa Naziazeno. O olhar do ‘leiteiro’ ameaçando-o, insultando-o, e que ele sustenta mal, aparece com nitidez na face atrigueirada, sobre o pescoço forte que emerge da camiseta muito justa...

- E de manhã, que é que você toma?

- Churrasqueio."

Presta atenção nas conversas nos bancos vizinhos, e, ouve falar em jogo, corrida de cavalo, em que ele já havia depositado muita esperança, como todos aqueles que se apegam em dinheiro fácil para salvar suas vidas difíceis. Que esperança! Que tristeza quando não se realiza o grande sonho:

"Naziazeno quanta ‘esperança’ já depositara no betting... Aos sábados era certo munir-se da sua cautela. Tinha um companheiro, o Alcides. Às vezes, quando a crise apertava, faziam sociedade. Um dia tinham tido um susto: faltava conferir apenas um páreo, o primeiro jogo. Alcides começara por longe, pelo último: Macau! Tinha acertado um! e se dá?... Um turbilhão enche-lhe a cabeça. Vamos ver! vamos ver! O outro! – o outro também, a égua Singapura, o grande azar do penúltimo páreo, o seu azar! Alcides levanta-se da mesa. Tem medo de prosseguir, medo mesmo de acertar. Quase desejava ter já errado, acabando aí essa ilusão torturante. Ele ainda se encaminha em direção ao grande quadro negro pregado numa das paredes de café, o passo vago, como num sonho. Mas logo se reincorpora, decidido: e foge dali, não quer saber mais nada, quer ocultar-se e é assim que encontra o amigo.

Esse susto foi memorável."

Mas, a todo momento, sobrepõe aos seus pensamentos a figura superior e inquietante do leiteiro. Naziazeno procura acreditar que parcela de culpa cabe à mulher que não se impõe, porque é tímida, não grita, empalicede e sofre. A mulher não tem a força necessária para lutar, gritar, ir avante. É um ser submisso e infeliz. E o bonde continua. Houve uma brecada horrível por causa de duas crianças que estavam nos trilhos. Alguns comentários e risos distraem o protagonista por alguns instantes, mas o leiteiro o domina pouco depois, sempre lhe vindo à mente a frase Lhe dou mais um dia!. São cinqüenta mil-réis.

O bonde parou e Naziazeno sentiu quase uma atração que o levou para o mercado, onde gastou dois tostões em um café com leite, embora soubesse que era necessário prudência e economia em uma situação como a sua. O café acende seu ânimo, reaquecendo sua esperança.

"Sente-se outro, tem coragem, quer lutar. Longe do bonde (que é um prolongamento do bairro e da casa) não tem mais a ‘morrinha’ daquelas idéias... Naquele ambiente comercial e de bolsa do mercado, quantos lugadores como ele!... Sente-se em companhia, membro lícito duma legião natural."

Monta mentalmente um pequeno plano: pedir emprestado ao diretor, que já o havia socorrido ma vez. Pensou em recorrer ao amigo Duque, que sempre tinha facilidade para safar-se de situações semelhantes. Mas a indecisão, o medo, a incerteza tomam conta de Naziazeno. Mentalmente, quase quixotescamente, constrói as imagens do que seria, mas o fracasso toma conta não só da realidade, mas da fantasia, do "seria possível que".

"Um gelo toma todo o seu corpo. Gelo que é tristeza e desânimo. Voltam-lhe as cenas da manhã, o arrabalde, a casa, a mulher. Tem medo de desfalecer nos seus propósitos. Acha-se sozinho. Aquela multidão que entra e sai pela enorme porta do café lhe é mais do que desconhecida: parece-lhe inimiga. Já acha absurdo agora o seu plano, aquele plano tão simples. Quando pensa em pedir ao diretor sessenta mil-réis emprestados – sessenta! – chega a sentir um vermelhão quente na cara, tão despropositado lhe parece tudo isso. ‘- Sessenta mil-réis! um ordenado quase!... É isso coisa que se peça?!’"

Ao chegar na repartição, o drama recomeça ameaçador e prepotente. Seu trabalho é monótono e consiste em fazer levantamento de fraturas. Algumas poucas contas para um serviço que não precisava estar em dia, e, por isso mesmo, Naziazeno mantinham-o atrasado cerca de dez meses.

Os planos traçados por Naziazeno só ficam na concepção, porque as coisas não acontecem como ele havia planejado. O diretor da repartição nesse dia passa antes pela Secretaria. Procura o Duque, amigo que sempre lhe consegue cavar algum dinheiro, mas não o encontra. No café, encontra o Fraga e o Alcides, fitando a ambos com o olhar vago e triste. Alcides enverga um casaco muito feio e estranho, e explica o fato por ter pedido emprestado, pois fora roubado. Por ser amigo de um repórter, o roubo foi notícia do jornal da tarde.

Para desespero do protagonista, a amigo Duque não foi ao café, agravando ainda mais seu estado psicológico, em que experimenta, mais uma vez, a sensação de amargura e de náusea. Já que o Duque não aparecera, ficou tentado a colocar em prática seu primeiro plano – ir ter com o diretor -, mas Alcides coloca em dúvida se o diretor irá atende-lo. Naziazeno pensa em cavar o dinheiro de outro modo, mas sente-se imóvel, incapaz.

"(...) A sua idéia era sempre ‘uma pessoa’: o diretor, o Duque... como isso o humilhava! Qualquer daqueles seus amigos, com menos cabeça do que ele, mexia-se. Ele se limitava a recorrer a um ou outro... ‘- Eu sei que há muitos homens que arranjam um biscate depois que largam o serviço’ – dissera-lhe uma vez a mulher. ‘- Por que não consegues um para ti?’ – Realmente, por que não ‘produzir’ como os demais, como todo o mundo? Agora mesmo, toda essa manhã perdida em busca de uma e outra pessoa, quando podia estar agenciando, cavando... Certa ocasião ele vira o Duque ganhar oitenta mil-réis pra pagar o aluguel atrasado aproximando dois sujeitos: um que queria vender um terreno, outro que queria compra-lo. Foi um transação limpa e rápida. Ainda os sujeitos ficaram sorrindo pra o Duque, um sorriso de admiração bondosa...

Mas onde estão os negócios? Onde estão? Ele nunca ‘via nada’; era a aptidão que lhe faltava..."

Retornando à repartição, tenta obter empréstimo com o diretor, mas não consegue. Tem preguiça de articular outro plano para obter o dinheiro, só não lhe faltam planos de fuga ou idealizações.

"Idealizar outro plano? Tem uma preguiça doentia. A sua cabeça está oca e lhe arde ao mesmo tempo. Aliás, o sol já vai virando pra a tarde (já luta há meio dia!), perdeu já a sua cor dourada e matinal, uma calmaria suspende a vida da rua e da cidade."

Alcides talvez não o esteja esperando. E o seu desejo mesmo é não encontra-lo, não encontrar ninguém. Não vai voltar pra casa. A questão dos níqueis é o de menos... Não voltará também à repartição, no expediente da tarde. (Os seus papéis ficaram sobre a carteira. Todos os esperam, passam-se as horas. À hora de fechar, o Clementino hesita: guardará ou não?).

(...) Pagar o leiteiro, entregar-lhe a importância: ‘- Tome, é o seu dinheiro.’ Virar-lhe as costas sem dizer mais nada, sem mesmo querer reparar na sua cara espantada, surpresa e o seu tanto arrependida agora... Outra vida ia começar. Iria direto à caminha do filho, criança brincando com criança. ‘Se instalaria’ na mesa pra tomar o café. Tudo era calmo e ao mesmo tempo vivo ao seu redor. Amanhã voltava a ter aquele encanto antigo.

(...)"Tenta pensar no jogo do bicho, esperança de todo brasileiro endividado. Alcides sugere que ele cobre uma antiga dívida sua, bastando, para tanto, procurar a casa de Andrade, mas Naziazeno entorna tudo, ao aceitar passivamente as explicações do devedor. Ao sair, mergulha novamente na angústia que o acomete e na insegurança de poder conseguir o dinheiro. Procura O Mister Rees, indicado por Andrade como um possível pagante, mas ele se encontra no Rio. Já são quase duas horas e o protagonista se descobre com fome. Procura o Restaurante dos Operários, inclusive na esperança de encontrar o Duque. Na falta do Duque, é até possível que recorra ao Dr. Otávio Conti. Procura saber onde é o escritório dele, mas não o encontra. Na volta, é abordado por Costa Miranda, mas só lhe pede emprestado o dinheiro para o almoço, ou talvez tente a sorte no jogo.

"A mão, mergulhada dentro do bolso da calça, ainda segura o dinheiro. É um papel sovado e liso, como se lhe tivessem passado talco. Seus dedos estão ficando suados. Abre então a mãe e retira-a aberta e com precaução, para que não haja perigo dela arrasta-lo para fora e o dinheiro cair, perder-se.

Vem descendo a rua.

Se ele botasse no estômago qualquer coisa, mesmo um cafezinho, ainda agüentaria mais uma hora. E com esses cinco mil-réis tentaria... a sorte!

Esse ‘plano’ veio-lhe de súbito, e perturba-o!

(...) Seu estomago porém está oco. Uma dor lhe sobe por dentro do peito, até ao pescoço, à garganta. Sente uma debilidade na cabeça, espécie duma leve sonolência, como quando tem febre. Entretanto, está com a testa fresca. Sabe que, se comer, tudo isso desaparece. É de haver passado todo esse tempo sem se alimentar.

Mas como perder essa oportunidade?...

Ele vê os seus cinco mil-réis multiplicando-se e a sua entrada em casa, à noite, fatigado e feliz, a boca sorrindo pra a cara muito branca e muito triste da pobre da sua mulher... Pregueia-se-lhe a garganta. Sente uma constrição no rosto... meio sobre os olhos... não sabe explicar exatamente onde..."

Joga na roleta, no número 28 e ganha cento e setenta e cinco mil-réis. Separa quinze e compra mais fichas, mas na tentativa de multiplicar o dinheiro, acaba novamente sem nada.

"Um tumulto e um estado de confusão enchem a cabeça de Naziazeno. Tem apenas uma vaga idéia de que ganhou. O choque é tão brusco que não lhe fica tempo para se arrepender. É quando recebe o dinheiro que faz o cálculo: cinco mil-réis... cento e setenta e cinco!... Tudo resolvido assim num segundo... Fita a cara do croupier, olha pra os lados!... Estará mesmo neste mundo? neste dia?..."

O dia está terminando quando reencontra Alcides. Logo depois encontra o Duque, que reacende suas esperanças. Procuram casas de agiotas, mas não obtêm sucesso ou pelo avançado da hora, ou pelos agenciadores que pararam de trabalhar com dinheiro a juros. O certo é que as esperanças de Naziazeno aumentam ou diminuem conforme o clima, mas tendem a ficar cada vez menores. Por fim surge uma luz. Alcides tinha um anel penhorado com o agiota Martinez. Duque pensou em renovar a penhora com algum outro agiota se conseguisse levanta-lo. O pequeno grupo de amigos se junta e procura Mondina, que aceita "emprestar" o dinheiro para reaverem o anel. Martinez, mesmo depois de encerrado o expediente, levanta a penhora. Mas por essa via Naziazeno também não conseguiu o dinheiro. Já é noite fechada, o comércio está inativo.

Uma outra "luz" surge, quando Duque se lembra de procurar Dupasquier, um comerciante de ouro. Consegue obter trezentos e cinqüenta mil-réis, Duque pensava em penhora, o comerciante pensava em venda. Como Dupasquier não trabalhava com esse tipo de negócio, voltaram todos ao ponto de partida. De mãos vazias novamente, procuram um café para articular talvez o derradeiro plano. Outra parte da vida da cidade se inicia, a noite refrescou. Eram oito horas no relógio do café e o negócio caminha lentamente.

"- A situação é esta – resume finalmente Duque. – Se o sr. quiser até – diz ele, virando-se para o ‘advogado’ – o sr. mesmo fica com o anel como penhor. – E Duque olha para Alcides. – Não se faz mais negócio. Amanhã mesmo volto ao Martinez. Desfaço tudo. Devolvo o seu dinheiro.

- Desfazer, você não pode – observa-lhe o Duque.

Alcides cala-se, emburrado.

- Vamos pensar mais é em achar uma solução – faz Duque, conciliatoriamente.

Os dois nada dizem. Alcides já fechou várias vezes os olhos, colocou-os outras tantas vezes na rua. Mondina tem o olhar brilhante, os lábios fortemente unidos, a face levemente congesta.

Naziazeno sente um sono, um abatimento. Vê-se no bonde, de volta para casa. Bonde quase vazio, no meio da noite, com ele dormitando...

- Venha cá. Eu assumo o compromisso. Me dê esse anel – pede o Duque para Alcides. – Eu entrego-o ao Dr. Mondina em garantia do seu dinheiro. Me inteire trezentos mil-réis: me dê mais cento e vinte. Amanhã ou procuro o Alcides e o sr. pra fazermos o penhor. Assim o sr. fica bem garantido.

- Mas não se trata de garantia... – vai gaguejando o ‘dr.’ Mondina. – O seu amigo não compreendeu. Eu desde o princípio não estive pronto pra auxiliar essa transação...? Não se trata de garantia ou de falta de garantia...

- Mas assim fica muito bem – acrescenta Duque. – É justo aliás que o sr. queira rodear de todas as garantias o negócio.

Outro silêncio.

Alcides não se mexe. Duque mantém o braço estendido, à espera do anel. É um sono agora o que tem Naziazeno. É só um sono..."

Naziazeno chega em casa pouco depois das nove. Carregava alguns embrulhos, trouxe do conserto o sapato da mulher, comprou um brinquedo para o filho, manteiga e um pedaço de queijo. O homem foi invadido por um pouco de paz. Jantou, tomou um copo de vinho, conversou com a mulher, sentou-se, contemplou os dois leõezinhos que havia trazido para o filho. Contaram o dinheiro para o pagamento do leiteiro, colocaram o pagamento embaixo da panela de leite. Naziazeno está cansado, mas sente dificuldade para dormir. Os incidentes do dia são por demais pesados para ele poder se livrar deles com facilidade.

"Aquele endolorimento parece que é mais forte nas pernas, no osso da canela. Aliás, sente como que um peso dos joelhos para baixo. Mas é que não é brinquedo o que caminhou. Devia ter feito umas quatro vezes aquele trajeto da repartição... É verdade: não conseguiu saber o que era quilo daquela luzinha! Amanhã...

A ida ao Andrade arrasou-o.

Não ficou bem explicada essa história.

Não sentiu passar as três ou quatro horas da roleta. Ás vezes, tirava os olhos do jogo, e lá encontrava a cara daquele sujeito sentado, aquele pobre diabo, que ele conhece tanto... dos cafés... Não vira quando ele tinha ido embora... Que estaria fazendo ali? Teria ido com algum conhecido? Estaria esperando alguém?

Nunca, nunca devia ter ido à casa do fornecedor, não devia ter dado aquele passo. Isso ainda vai incomodá-lo...

Mas o melhor é não pensar em nenhuma dessas coisas... Tudo já passou, já passou!..."

O silêncio é grande. Os dias são quentes, mas as noites esfriam muito, e Naziazeno pensa, pensa, remói o dia, e o sono não chega. Já está inquieto, com a cabeça ardendo e os olhos arranhados. Tanto tempo passa e ainda é uma hora. A noite parece um século e, no entanto, ele precisa dormir, precisa descansar, aproveitar o resto da noite. Acontece, em sua mente cansada, uma superposição de imagens e figuras, que ele tenta ordenar.

"(...) O Assunção.. Fernandes... Martinez... Vê-se arrastado pelo Duque dum lado para outro... Caminham numa cadência... numa cadência... Parece que não pisam. Só enxerga o perfil do Duque, um perfil trigueiro, de focinho fino, um pouco caído... Tudo vai se confundindo.. À sua frente, ele só percebe uma atmosfera esbranquiçada, onde já aparecem coisas e formas vagas... que não pode fixar e distinguir...

Quer ficar assim muito tempo... muito tempo... quando tem um sobressalto. Um estalo se faz ouvir para o lado da peça da frente. O filho chega também a assustar-se. Quer acordar, tem um chorinho. A mãe, meio dormindo, passa a mão por cima da guarda da caminha. Nana-o. Ele se aquieta. Ela depois dum instante também adormece novamente.

Naziazeno não quis deixar ver que estava acordado."

Na confusão de imagens que surgem a partir da mente adormecida e da vigília, através da memória, Naziazeno recompõe o restante da cena do empréstimo, o bonde, a loja da Dolores, onde comprou os presentes, vai até a casa do sapateiro buscar os sapatos da mulher que haviam ido para o conserto... A obsessão é grande, as imagens não lhe saem da cabeça. Acumulam-se como cartas embaralhadas. E do subconsciente começam a aparecer uma legião de ratos que aumenta conforme passam as horas. Ratos que lhe devoram o dinheiro do leiteiro...

"Um rufar – um pequeno rufar – por sobre a esfera do chiado, no forro... Ratos... são ratos! Naziazeno quer distinguir bem. Atenção. O pequeno rufar – um dedilhar leve – perde-se para um dos cantos do forro...

Ele se põe a escutar agudamente. Um esforço para afastar aquele conjunto amorfo de ruidozinhos, aquele chiado... Lá está, num canto, no chão, o guinchinho, feito de várias notinhas geminadas, fininhas...

São os ratos!... Vai escutar com atenção, a respiração meio parada. Hão de ser muitos: há várias fontes daquele guinchinho, e de quando em quando, no forro, em vários pontos, o rufar...

A casa está cheia de ratos...

Espera ouvir um barulho de ratos nas panelas, nos pratos, lá na cozinha.

O chiado desapareceu. Agora, é um silêncio e os ratos...

Há um roer ali perto... Que é que estarão comendo? É um roer que começa baixinho, vai aumentando, aumentando... Às vezes para, de súbito. Foi um estalo. Assustou o rato. Ele suspende-se... Mas lá vem outra vez o roer, que começa surdo, e vem aumentando, crescendo, absorvendo...

Na cozinha, um barulho, um barulho de tampa, de tampa de alumínio que cai. O filho ali na caminha tem um prisco. Mas não acorda.

São os ratos na cozinha.

Os ratos vão roer – já roeram! – todo o dinheiro!...

Ele vê os ratos em cima da mesa, tirando de cada lado do dinheiro – da presa! – roendo-o, arrastando-o para longe dali, para a toca, às migalhas!...

Tem um desespero nervoso. Vai levantar! Mas depois do baque da tampa caindo, fez-se um silêncio, um grande silêncio... Espera um pouco. O silêncio continua. Nem mesmo o chiado se houve. Há só o silêncio.

Ele está sentado na cama. A seu lado, a mulher dorme, muito pálida, a cara gorda e triste. É um sono sereno, como de morta. Pensa em acorda-la, mas suspende-se: é tudo silêncio outra vez, o guinchinho cessou, cessou aquele roer num dos cantos do assoalho... E, depois, sente um meio ridículo, uma vergonha.

Deita-se. De novo vê o dinheiro ao lado da panela do leite, sobre o tampo muito branco da mesa, no meio dum silêncio quieto..."

Naziazeno está com sono, cansado, mas é preciso continuar, é preciso ser o guardião do dinheiro, até, talvez, o leiteiro chegar. Vagarosamente, contando os minutos, vai vendo chegar a madrugada e com ela os galos cantando, os ruídos da rua e... o leiteiro chegando.

"Está exausto... Tem uma vontade de se entregar, naquela luta que vem sustentando, sustentando... Quereria dormir... Aliás, esse frio amargo e triste que lhe vem das vísceras, que lhe sobe de dentro de si, produz-lhe sempre uma sensação de anulação, de aniquilamento... Quereria dormir...

Não sabe que horas são. De fora, do pátio, chega-lhe um como que pipilar, muito fraco e espaçado.

Quereria dormir...

Mas que é isso?!... Um baque?

Um baque brusco do portão. Uma volta sem cuidado da chave. A porta que se abre com força, arrastando. Mas um breve silêncio, como que uma suspensão... Depois, ele ouve que lhe despejam (o leiteiro tinha, tinha ameaçado cortar-lhe o leite...), que lhe despejam festivamente o leite. (O jorro é forte, cantante, vem de muito alto...) – Fecham furtivamente a porta... Escapam passos leves pelo pátio... Nem se ouve o portão bater...

 

 

 

 

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Louco do Cati - Dyonélio Machado - resumo

O personagem “o louco do cati” é um sujeito misterioso, tratado como louco numa cidadezinha do interior gaúcho. As pessoas do lugar dão ao louco pequenos serviços de limpeza ou de jardinagem que pagam com comida ou hospedagem. Perambulando pela região num “borboleta” (caminhão que levava passageiros na carroceria), Nestor, um dos passageiros, acaba aos poucos, tornando-se protetor desse personagem. Nestor tem a intenção de ir para Florianópolis e acaba levando o louco como companhia, sem saber bem o porquê. O caminho é feito por estradas interrompidas, desvios, chuva, lama, barreiras. Próximo a Araranguá, Nestor é preso, sem muitas explicações pela polícia, que o identifica como um terrorista. Junto com Nestor é preso o louco, mais por estar em companhia de Nestor do que por qualquer outro motivo. Na prisão, Nestor sofre privações e torturas psicológicas. O louco, por sua vez, mostra-se plenamente adaptado ao lugar. A polícia recebe ordens superiores para transferir Nestor e seu companheiro louco para o Rio de Janeiro. A viagem é feita de navio. No Rio de Janeiro, depois de um penoso período na prisão, são soltos de modo tão estranho quanto o que foram presos. Nestor e seu amigo louco decidem ficar numa pensão. Em dado momento, Nestor resolve mandar o louco de volta para o interior do Rio Grande do Sul e para tal intento contará com a ajuda de pessoas amigas que vão para São Paulo e de lá, o louco seria entregue a outras pessoas que o levariam de volta para sua origem. O capitalista e sua mulher são os responsáveis pela primeira parte da viagem. Depois, o dr. Valério é que se encarrega de levar o louco até o seu destino final. O louco e o Dr. Valério pegam um ônibus de Florianópolis até Lajes. A estrada é cheia de precipícios, curvas perigosas, barrancos. Depois de Lajes, o louco já está em companhia de outras pessoas. Numa cidade do interior do Rio Grande do Sul, o louco fica como agregado de uma família que o destina a trabalhos simples de limpeza. Depois desse período, o louco aparece seguindo viagem de trem entre algumas cidades do interior gaúcho (Livramento, Santa Maria). Um certo “coronel” era o “tutor” do louco nesse trecho da viagem, porém, o percurso não é terminado, uma vez que a ferrovia está interrompida devido às fortes chuvas. O comandante Amilívio acaba por convencer o Coronel da possibilidade de se completar o percurso de avião, o que é feito. Porém, uma tempestade força o avião a um pouso de emergência num lugar chamado Santa Cecília, numa clareira na vegetação. O louco então desaparece na mata, o comandante e o coronel saem em busca do louco. O louco é encontrado junto às ruínas de um presídio político e revela-se o seu segredo: O louco do cati era assim chamado, pois, eventualmente tinha crises em que balbuciava a expressão “É o cati! É o cati!” e saía correndo, sem rumo. O “cati” é o cativeiro, a prisão em ruínas que o louco, pelo acaso do destino, reencontrara. Ali, diante dos tijolos que se esfarelam em sua mão, o louco recobra sua sanidade e passa a lembrar que fora preso político, que ali sofrera muitas torturas.

O período histórico retratado na obra é o período da ditadura de Getúlio Vargas. Na obra todos os percursos de viagens realizados pelo louco no seu itinerário sem destino, estão interrompidos por algum motivo: barreiras, pontes caídas, chuvas, estradas incompletas que não levam a lugar algum, etc... Metáfora do regime ditatorial. O personagem principal, e herói da obra, não tem outra fala do que a expressão repetitiva: “É o cati!”, palavra incompleta, que na sua incompletude revela a censura e à restrição à liberdade. O segundo personagem mais importante da obra, Nestor, ficamos sem saber de seu destino e se ele era mesmo um terrorista, um revolucionário, ou tudo não passara de um engano da polícia. Desse modo, Dyonélio Machado constrói um romance cuja arquitetura é a própria denúncia dos dramas psicológicos decorrentes da opressão ditatorial.

 

 

 

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Clarissa - Érico Veríssimo - resumo

PERSONAGENS:

Clarissa: adolescente que morava numa fazenda e foi estudar na cidade grande;

Ondina; a infiel, casada com Barata;

Amaro; um musico que cortejava Clarissa;

Tonico: garoto que perdera as duas pernas num acidente, era muito frágil e acaba morrendo;

Vasco: primo de Clarissa que vive em Jacarecanga;

“Érico Veríssimo principia com uma novela adocicada - Clarissa - da linhagem da Moreninha, Inocência e outras do gênero. Escrita em 1932, numa altura em que a ficção nordestina dava mostras de se engajar na luta social pela emancipação dos humilhados e ofendidos, é uma história suave, de uma adolescente sonhadora. Imprevista nos quadros da ficção moderna, onde predominava a prosa de 22 ou o regionalismo de Raquel de Queirós, José Américo de Almeida e outros, é quase uma narrativa para jovens. Expressão típica do Rio Grande do Sul, antípoda do Nordeste, de forma que Clarissa seria a contraface da protagonista dO Quinze? O certo é que a heroína de Érico Veríssimo é uma menina-moça romântica, que facilmente converte em lágrimas suas reações e pessoas e acontecimentos. Encarna o cotidiano simples duma cidade tranqüila e provinciana, a ponto de a narrativa se pretender sinônimo de vida.” (Massaud Moisés, História da Literatura Brasileira, O Modernismo, p. 224)

Clarissa é uma jovem de 13 anos que mora na pensão da tia enquanto estuda em Porto Alegre. Ela é uma jovem curiosa, descobrindo o mundo, a adolescência e a vida. Não gosta muito de escola, sente saudades da fazenda em sua cidade natal, Jacarecanga e observa as pessoas que moram na pensão da tia e na vizinhança: Ondina, a infiel esposa de Barata; Amaro, o músico triste e contemplativo; o distraído major; a conservadora tia e seu desempregado marido; a família rica que mora ao lado e a viúva com o filho mutilado. Este último, Tonico, perdeu as duas pernas num acidente de bonde e sonha em marchar com exércitos. Frágil, acaba morrendo.

Quanto a Amaro, este sempre contempla Clarissa, sua juventude, sua inocência, sua beleza aflorando da menina que vai se tornando moça. Clarissa faz 14 anos (e ganha permissão para usar salto alto) e passa de ano na escola. O livro acaba com Clarissa voltando para Jacarecanga (e encontrar o primo Vasco) enquanto Amaro fica triste na pensão a pensar nela.

O primeiro romance de Érico Veríssimo, Clarissa apresenta um panorama da vida de uma jovem na Porto Alegre de 1932 e começa a história que se estenderá por seus romances da primeira fase.

 

 

 

 

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Ana Terra - Érico Veríssimo - resumo

Ana Terra era uma moça que morava com sua família em um sítio muito longe da cidade e tinha uma vida sofrida, e a única coisa que Ana e sua família faziam era trabalhar. Embora Ana tinha o desejo de abraçar e beijar algum homem. O princípio de seu desejo veio com a chegada do índio Pedro Missioneiro, e que lentamente foi crescendo na sua condição de macho: uma cara moça e trigueira, de maçãs salientes. Ana, quando o via sentia uma coisa que não podia explicar: um mal-estar sem nome, mistura de acanhamento, nojo e fascinação. Em sua singeleza, atraía-se pelo estranho, confirmando-se como aquela mulher desejável que enxergara no fundo das águas. Entregar-se àquele desconhecido foi um passo tão natural como o suceder das estações naqueles ermos. Antes, arriscou um jogo delicioso de avanços e recuos, sabendo que, quisesse ou não quisesse, agindo a favor ou contra a lei paterna, seria daquele homem. E, numa tarde, considerou-se pronta, e o desejo palpitava em todas as sua artérias; encaminhou-se para a barraca do índio, o reino de Pedro Missioneiro. E lá aconteceu algo que Ana queria. Os dias seguintes foram de medo, pânico misturado à vergonha e depois disso, logo soube que estava grávida, e o isso tornou-se um espaço de lágrimas. Carregou o segredo o quanto pôde, mas um dia, não se contendo mais, revelou tudo à mãe. Dona Henriqueta nem teve tempo de consolá-la: e o pai declarou já saber de tudo e foi como se um trovão cortasse os céus. Nada mais poderia ser feito: cumprindo um código ancestral, ele convocou os dois filhos, e esses mataram Pedro Missioneiro. Sabia que sua vida naquela casa dali por diante seria um inferno. De um instante para outro tornou-se invisível aos olhos do Pai, transfigurando-se numa entidade pecadora. Simbolicamente expulsa de sua casa, procurou fazer-se pequena, para que sua pequenez diminuísse a dor da culpa; tratava-se, porém, de uma culpa mais aceita do que entendida. Logo aconteceu o nascimento do filho de Ana Terra e, Dona Henriqueta assistiu-a, cortando o cordão umbilical do menino Pedro. Mesmo assim, os pais e irmãos não tomaram conhecimento do novo ser que habitaria o rancho. Contra toda as possibilidades, Pedrinho cresceu, e a vida seguiu seu rumo. Os irmãos casaram-se, e, para Ana, cada dia era a repetição do dia anterior. Depois disso, sua mãe morreu, de nó nas tripas, mas esta morte não abalou muito à Ana. Então vieram vários castelhanos, assassinando, incendiando, violando. Ana mandou a esposa de seu irmão e as duas crianças irem se esconder no mato, e fingindo ser a única mulher da casa, imola-se voluntariamente à sanha dos bandidos. Foi estuprada várias vezes, e ao acordar de seu desfalecimento, encontrou um quadro de horrores: o pai, o irmão Antônio, os escravos, todos estavam mortos no meio da casa já destruída. Ana entendia naquele momento que estava liberta de sua mancha original, e pela forma mais bárbara e purificadora. Nada lhe fora poupado em sofrimento, e pelo sofrimento reconciliava-se com a vida. Numa exaltação próxima a uma feroz alegria, aceitou o convite de um forasteiro para ir formar o núcleo inicial de uma nova vida, e uma longa viagem a levou para um planalto. Lá ela construiu uma casa, morando com seu filho, que logo teve que ir para uma guerra contra os castelhanos. Voltando da guerra vivo, casou-se com uma moça, teve um filho e logo teve que voltar para a guerra, com o compromisso de voltar vivo, pois agora ele tinha uma mulher e um filho para cuidar.

 

 

 

 

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INCIDENTE EM ANTARES - Érico Veríssimo - Resumo

Extraído de estudo e resumo do professor Teotônio Marques Filho

Primeira parte: Antares

A bem dizer, Antares é uma cidadezinha perdida no mapa do Rio Grande do Sul, às margens do rio Uruguai, “na fronteira do Brasil com a Argentina”. Essa cidadezinha será palco, em 1963, numa sexta-feira, de “um drama talvez inédito nos anais da espécie humana” (p. 3).

A origem de Antares remonta há muitos anos atrás, conforme reza um relato do naturalista francês Gaston Gontran, em seu livro Voyage Pittoresque au Sud du Brésil (1830-1831). Deslumbrado com a beleza do lugar, o naturalista mostra a seu hospedeiro, Francisco Vacariano a estrela Antares. “É um bonito nome para um povoado” (p. 6). E em 1853, quando o povoado é elevado à categoria de vila, Antares substituirá o nome primitivo “Povinho da Caveira”. Para muitos, entretanto, Antares significava “lugar das antas” (p.9).

Senhor absoluto da cidadezinha até então, Chico Vacariano é ameaçado no seu reinado por Anacleto Campolargo, “criador de gado e homem de posses” (p.10), que passa a disputar com o pioneiro (Chivo Vacariano) o domínio daquele feudo. Há lutas de mortes e o ódio se estabelece entre os dois clãs por gerações sucessivas, com atos de violência e atrocidades inimagináveis. A rivalidade entre as duas dinastias durou “quase sete decênios, com períodos de maior ou menos intensidade” (p. 11).

A década de 20 trouxe para Antares muito progresso, tanto na ordem material como intelectual” (p. 29), e a cidade “até então um município exclusivamente agropastoril, começava auspiciosamente a industrializar-se. O telégrafo, o cinema, os jornais e revistas que vinham de fora, a estrada de ferro e, depois de 1925, o rádio – contribuíram decisivamente para aproximar o mundo de Antares ou vice-versa (p. 29).

A rivalidade, contudo, entre os dois clãs (Vacariano X Campolargo) domina a cidade a política local. Após um período de turbulência e atrocidades engendradas por Xisto Vacariano e Benjamin Campolargo, chega à cidade de Antares, com a missão de estabelecer a paz entre as duas famílias beligerantes, “um membro da prestigiosa família Vargas, de São Borja” (p. 33): era Getúlio Vargas, a essa época, deputado federal. Usando de artimanhas, Getúlio consegue aproximar os dois chefes políticos, ponderando: “Os amigos hão de concordar em que os tempos estão mudando. O mundo se encontra diante da porteira duma nova Era. Essas rivalidades entre maragatos e republicanos serão um dia coisas do passado. Precisamos pacificar definitivamente o Rio Grande para podermos enfrentar unidos o que vem por aí...” (p. 35).

Os dois velhos próceres, agora apaziguados serão substituídos por Zózimo Campolargo, casado com D. Quitéria (D. Quita) e Tibério Vacariano, casado com D. Briolanja (D. Lanja). De boa paz e meio indolente, Zózimo “era um homem sem nenhuma vocação para liderança” (p. 38). Dessa forma, a chefia política da cidade acaba sendo assumida por Tibério e D. Quita, “criatura enérgica e inteligente, senhora de razoáveis leituras, e até duma certa astúcia política” (p. 38). D. Quita, pois, diante da indolência do marido, acaba-se tornando a “eminência parda, o poder por trás do trono”. Com o “tratado de paz” entre as duas famílias, engendrado por Getúlio, uma grande amizade é cultivava entre os dois casais.

Com a ascensão política de Getúlio Vargas, que inaugura o Estado Novo no Brasil, Tibério se estabelece no Rio de Janeiro e vai-se enriquecendo através de negociatas e atividades escusas. “Além de advocacia administrativa, ganhava dinheiro em transações imobiliárias e ocasionalmente no câmbio negro. A Segunda Guerra Mundial proporcionou-lhe oportunidades para bons negócios, uns lícitos, outros ilícitos. Habituara-se a viver à sócios, e para si mesmo. E, como tantos de seus pares, já possuía, num banco de Zurique, uma conta corrente numerada, cada vez mais gorda em dólares” (p. 48).

Com o fim do Estado Novo e a que da de Getúlio Vargas, incompatibiliza-se com ele e volta para Antares, onde vai consolidando o seu império: atrai para a região uma empresa de óleos comestíveis de Mr. Chang Ling, a qual se alimentava da soja de sua produção: era a “Cia. De Óleos Sol do Pampa, da qual Tibério Vacariano possuía 500 ações que não lhe aviam custado um vintém” (p. 65). Por outro lado, dando vazão aos seus instintos de garanhão constitui outra família, envolvendo-se com a exuberante Cleo, que passa a ser sua “teúda e manteúda”.

Após as marchas e contramarchas da política nacional, em que tem lugar o governo do Presidente Dutra, Getúlio Vargas retorna triunfante, em 1951, agora “nos braços do povo”. É um período de turbulência política, em que a UDN de Carlos Lacerda combate tenazmente “o pai dos pobres”. O atentado a Lacerda, em 1954, ao que tudo indica comandado por Gregório Fortunato (escudeiro do Presidente) precipita a queda de Getúlio, que tenta resistir: “Daqui só saio morto. Estou muito velho para ser desmoralizado e já não tenho razões para temer a morte” (p. 80).

O suicídio, a forma honrosa encontrada pelo Presidente para “sair da vida e entrar na História”, desperta no país profunda comoção popular. Pressionado e abandonado, ao morrer, Getúlio escreveu: “À sanha de meus inimigos deixo o legado da minha morte. Levo o pesar de não ter podido fazer pelos humildes tudo aquilo que desejava”. A sua carta-testamento, redigida em estilo grandiloqüente, confere grandeza à sua morte: “Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram o meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo na caminhada da eternidade e saio da vida para entrar na História” (p. 90).

Os acontecimentos políticos são acompanhadas com atenção em Antares: cada vez que a sirena de “A Verdade” (o jornal da cidade, de Lucas Faia) tocava, lá vinha notícia urgente e em primeira mão. Assim é que o povo de Antares vai acompanhando e discutindo (sobretudo a turma da Farmácia Imaculada Conceição) os acontecimentos políticos do cenário nacional: a eleição de JK e a posse tumultuada, o seu governo de prosperidade e progresso (cinqüenta anos em cinco), a construção de Brasília, a industrialização do país. É por essa ocasião que morre Zózimo, no Rio, onde fora transportado em busca de cura.

Candidato da UDN e a parte do PSD dissidente, Jânio Quadros, o candidato de Tibério Vacariano, vence as eleições e renuncia poucos meses depois, levado por “forças terríveis”. Uma decepção para Tibério. A renúncia de Jânio mergulhou o país no caos e na incerteza, pois o Jango, o vice-presidente, de tendência socialista, não era bem visto pelos militares e as forças conservadoras. Tudo foi contornado com o artifício do parlamentarismo, que teria, contudo, vida curta.

Mergulhado na incerteza, com greves e agitações, com Brizola, fazendo barulho, o governo de João Goulart era um convite ao golpe, - o que não demorou a acontecer: era março de 1964.

Enquanto isso, Antares era objeto de uma radiografia: o Prof. Martim Francisco Terra e sua equipe escolheram exatamente Antares para realizar a sua “anatomia duma cidade gaúcha de fronteira”. O objetivo da pesquisa como expõe o professor, era “saber que tipo de cidade é Antares, como vive a sul população, qual seu nível econômico, cultural e social, os seus hábitos, gostos, opiniões políticas, crenças religiosas” etc. (p. 128). Publicado em livro, o resultado da pesquisa revelou-se desastroso para a imagem da cidade, que esperava exatamente o contrário: Antares era uma cidade prosaica, com gente desconfiada e preconceituosa, com vícios de alimentação e um enorme problema social ao seu redor – a favela Babilônia, “um arraial de miséria e desesperança” (p. 138)

Incompatibilizando com a cidade, taxado de comunista, o Prof. Martim passa a ser “personna non grata” na cidade. Mais tarde, será perseguido pela Revolução de 1964 e tem que se exilar do país.

Ao lado da “anatomia” de Antares, realizada pelos pesquisadores do Prof. Martim (inclusive Xisto, neto do coronel Tibério), as personagens gradas do livro são apresentadas através do diário do professor: o coronel Tibério, dono da cidade; D. Quitéria, matriarca dos Campolargos; Vivaldino Brazão, prefeito da cidade; Dr. Quintiliano do Vale, o meritíssimo juiz, o delegado truculento Inocêncio Pigarço; os médicos Dr. Lázaro (da família Vacariano) e Dr. Falkenburg (dos Campolargos); o jornalista Lucas Faia, de “A Verdade”, com o cronista social Scorpio; Pe. Gerôncio, de linha tradicional, e o Pe. Pedro-Paulo, moderno, de linha socialista, taxado de comunista; o promotor Dr. Mirabeau; o fotógrafo de origem checa Yaroslav; o paranóico teuto-brasileiro Egon Sturm, neonazista; o maestro solitário Menandro de Olinda; o Prof. Libindo Olivares, com a sua fama de grande latinista, helenista, matemático e filósofo.

Segunda Parte: o incidente

Comandada por Geminiano Ramos, uma greve geral paralisa todas as atividades em Antares: reivindicando melhoria salarial, cruzam os braços os operários do Frigorífico Pan-Americano (de Mr. Jefferson Monroe III), da Cia. Franco Brasileira de Lãs (de M. Jean François Duplessis), da Cia. De Óleos Comestíveis Sol do Pampa (de Mr. Chang Ling) e também os encarregados da Usina Termo-elétrica Municipal, deixando a cidade às escuras. Era o dia 11 de dezembro de 1963, uma quarta-feira.

Por outro lado, nesse mesmo dia, vem a falecer a veneranda matriarca D. Quitéria (enfarte do miocárdio) e mais seis outras pessoas: Dr Cícero Branco (derrame cerebral), advogado das falcatruas do Cel. Tibério e do Prefeito Vivaldino; o anarco-sindicalista José Ruiz, vulgo Barcelona; o “subversivo” João Paz, torturado pelo delegado Inocêncio; o maestro Menandro, que suicidou, cortando os punhos; o bêbado Pudim de Cachaça, envenenado pela mulher; e a prostituta Erotildes, que morreu vitimada pela tuberculose, na ala dos indigentes do Hospital “Salvator Mundi”, do Dr. Lázaro.

Irredutíveis na sua greve, os operários, com a solidariedade dos coveiros, interditam o cemitério e impedem o enterro, ficando insepultos os sete defuntos. E é aí que acontece o fantástico: os defuntos se erguem dos seus caixões e, após as apresentações, comandados pelo Dr. Cícero, arquitetam um plano, exigindo das autoridades o sepultamento a que tinham direito: “ou nos enterram dentro do prazo máximo de vinte e quatro horas ou nós ficaremos apodrecendo no coreto, o que será para Antares um enorme inconveniente do ponto de vista higiênico, estético... e moral, naturalmente” (p. 250).

Dispostos em ordem hierárquica, os defuntos descem até o centro da cidade, provocando pânico e horror por onde passavam, e estabelecem o caos em Antares. Como ficara combinado, cada um poderia dispor do tempo como quisesse até ao meio-dia em ponto-horário do ultimato ao Prefeito.

D. Quitéria, numa visita aos genros e filhas, já exalando o mau cheiro do corpo em decomposição, assiste à discussão e brigas pelo seu espólio; o Dr. Cícero surpreende a esposa em flagrante adultério com um rapazinho louro, e depois dirige-se à casa do prefeito; Barcelona afugenta os policiais e dá uma lição no delegado Inocêncio Pigarço; Menandro toca enfim a “Apassionata” de Beethoven; Erotildes visita a amiga Rosinha que a recebe, na sua humilde, sem nenhum medo (certamente porque não tinha nada a temer...); Pudim de Cachaça vai ao encontro do velho amigo de bebida Alambique, que o recebe também sem medo (é comovente o amor que demonstra pela esposa que o envenenara); Joãozinho Paz inicialmente conversa com o Pe. Pedro-Paulo, na praça, e depois tem um encontro comovente com a esposa grávida (Ritinha).

Por outro lado, reunido com seus pares, o prefeito busca uma solução para o problema. Até mesmo o Pe. Pedro-Paulo é ouvido na reunião; depois se retira. Após muitas falações, em que o “sábio Prof Libindo tenta explicar o fenômeno como um caso de ‘alucinação coletiva’ “, as opiniões se divergem: o delegado Inocêncio e o Cel. Tibério propõem uma solução violenta, pela força; os outros tendem para a parlamentação com os mortos – proposta que sai vitoriosa.

O encontro entre vivos e mortos se dá exatamente ao meio-dia, com a praça apinhada de gente, sob um sol escaldante. Tem lugar, então, um autêntico julgamento dos vivos, em que os mortos, através do seu advogado constituído, expõem os podres sobretudo das pessoas gradas da cidade: as falcatruas do Cel. Tibério e do Prefeito; a truculência do delegado Inocêncio; a pederastia e vaidade do Prof. Libindo; a caridade falsa do Dr. Lázaro; a magnanimidade hipócrita do Dr. Quintiliano. AO expor essas mazelas da fina sociedade antarense, o Dr. Cícero arrancava aplausos sobretudo dos estudantes que estavam pendurados nas árvores. Tomando a palavra, Barcelona, sem papas na língua, revela casos de adultério de damas insuspeitas e honradas de Antares. O mau cheiro (dos cadáveres em decomposição e sobretudo daquela sociedade podre) atrai urubus e, depois, Antares é invadida por ratos que empestam ainda mais a cidade.

Esse “fenômeno” provoca em Antares uma verdadeira revolução: Dr. Lázaro procura o Pe. Pedro-Paulo para fazer confidências; o Maj. Vivaldino tem que dar explicação à mulher; Dr. Mirabeau se preocupa por ter sido chamado de “fresco” e quer provar o contrário (por sinal, não consegue...); Dr. Quintiliano não consegue dominar mais Valentina, sua esposa, que se revela “pantera acoimada”; o delegado Inocêncio briga com o filho (Mauro), que se manda da cidade; Pe. Gerôncio balança a cabeça, perplexo. Enfim, a cidade de Antares foi sacudida nas suas entranhas com a presença mortos que apodreciam no coreto.

Conforme prometera a Joãozinho, o Pe. Pedro-Paulo transporta Ritinha para o outro lado do rio Uruguai (Argentina), onde estaria a salvo da truculência do delegado. É nessa oportunidade que fica sabendo do amor do Mendes, secretário subserviente do Prefeito, pela mulher de Joãozinho

Atacados a pedradas e garrafadas pelos “embuçados da alvorada” (bando de Tranqüilino Almeida), os defuntos se rendem e voltam para os seus esquifes. Por outro lado, comandada por Germiniano, uma assembléia encerra a greve e os mortos são, enfim, enterrados.

Sepultados os mortos, um vento forte sobra sobre Antares e carrega o mau cheiro que empestava a cidade: aos poucos tudo vai voltado à normalidade e as pessoas vão retomando as suas máscaras. Dessa forma, quando o pessoal da imprensa de Porto Alegre chega a Antares para documentar o fenômeno, o prefeito nega tudo e inventa outra estória: tudo fora um artifício para promover a cidade. Em vão os jornalistas tentam entrevistar outras pessoas. Procurado, o Pe. Pedro-Paulo mostra-lhes a favela miserável da Babilônia.

Numa reunião convocada pelo Prefeito, o Prof Libindo propõe a “operação borracha”, para desespero do Lucas Faia que escrevera um artigo brilhante sobre o “fenômeno”. Coroada de êxito, a “operação borracha” se encerra com um grande banquete em que a sociedade antarense, apaziguada pelo tempo, repõe as suas velhas máscaras.

Retornando à cidade com Xisto, o Prof. Martim Francisco é ameaçado e aconselhado pelo velho Cel. Tibério e pelo Prefeito a sair da cidade. Na despedida, acompanhado pelos seus amigos Xisto e Pe. Pedro-Paulo, ele antevê a chegada da revolução de 64 que está na iminência de acontecer.

Enfim chega março de 1964 e a revolução se instala para ficar e reafirmar os valores da sociedade capitalista, empurrando para longe os anseios socialistas. Cada um vai seguindo o seu destino ou o destino que lhe foi imposto; uns morrem (Cel. Tibério, Pe. Gerôncio); alguns são promovidos (Delegado Inocêncio, o juiz Dr. Quintiliano); o Prefeito Maj. Vivaldino Brazão “entrou num período de hibernação política” e foi cuidar de suas orquídeas; outros foram perseguidos, pelo novo governo (Geminiano, Pe. Pedro-Paulo, Prof. Martim).

Em suma, a julgar pelas aparências, “Antares é hoje em dia uma comunidade próspera e feliz” (p. 484). Entretanto, uma criança que estava começando a aprender a ler, soletra uma palavra perigosa, pichada no muro: “LIBER--- Não terminou: em pânico, o pai arrasta-o e silencia-o com um safanão”.

ORGANIZAÇÃO – ESTRUTURA – PERSONAGENS

1) Como se viu, Incidente em Antares vem dividido em duas partes. Na primeira (“Antares”). “o leitor fica conhecendo a história dessa localidade, bem como as das duas oligarquias rivais que a dominaram política e economicamente por mais de cem anos. Trata-se, em suma, de uma espécie de apresentação do palco, do cenário, bem como das personagens principais e da numerosa comparsaria que, através de seus descendentes, serão envolvidos no dramático ‘incidente’ da sexta-feira, 13 de dezembro de 1963.” (contra-capa).

“A segunda parte, cuja duração é muito menor em tempo de calendário, embora ocupem ais espaço tipográfico, mostra o incidente propriamente dito e suas conseqüências” (contra-capa). Utilizando-se do fantástico como forma de expressão (a animização dos mortos insepultos), Érico Veríssimo revela, a decomposição social e moral da sociedade humana através do microcosmo enfocado (a cidade de Antares).

2) Os fatos são narrados em terceira pessoa por um narrado onisciente e onipresente. Esse narrados, contudo, ao longo da narrativa, vai simulando transcrições de pseudo-autores, como o relato do naturalista francês Gaston Gontran d’Auberville (p. 3); a carta do Pe. Juan Bautista Otero (p. 7); os diários do Pe. Pedro-Paulo e do Prof. Martim Francisco Terra (na apresentação das personagens, por exemplo); os artigos de Lucas Faia no jornal “A Verdade”; e excertos do livro Anatomia duma cidade gaúcha de fronteira, organizado pelo Prof. Martim e sua equipe.

O autor, pois, utiliza-se de todos esses recursos para organizar a sua narrativa, dando, dessa forma, a impressão de que tudo aconteceu e é verdade.

3) Visto globalmente, Incidente em Antares é, sem dúvida, um romance. A primeira parte, contudo, dada sua linearidade e sucessividade episódica, lembra a espécie literária que chamamos de novela: cerca de um século de história fui cronologicamente, antes de o autor se deter na sua análise, em profundidade, da sociedade antarense.

PERSONAGENS

As personagens de Incidente em Antares podem ser agrupadas de acordo com as suas convicções políticas e a sua condição social.

1) Representando a ordem social tradicional, marcadamente conservadora e aristocrática, os dois clãs rivais (Vacarianos e Campolargos) dominam a cidade. É em torno dessa aristocracia, em que predomina o sistema patriarcal, que se organizam as pessoas gradas de Antares, as quais forma e revelam-se podres e em adiantado estado de decomposição moral, exalando um mau cheiro pior que o dos mortos do coreto na praça nobre da cidade. Ao levantar a tampa do “caixão”, retirando a máscara que envolvia cada um desses honrados cidadãos, Érico Veríssimo revela a podridão daquela sociedade carcomida nas suas entranhas. Como se viu pela síntese que fizemos, a verdade não convinha a esses aristocratas, e a solução foi lacrar os caixões e enterrar a verdade com os sete mortos.

2) As personagens femininas, com exceção de D. Quitéria, a matriarca dos Campolargos, vivem à sombra dos seus maridos, submissas e alienadas, aceitando passivamente a ordem estabelecida. Uma exceção a essa passividade e alienação é Valentina, mulher do Dr. Quintiliano. Influenciada por leitura perigosas e possivelmente pelo Pe. Pedro-Paulo, ela se rebela consciente e politizada, questionando o marido e não aceitando as imposições. Era, sem dúvida, um avanço naquela sociedade rigidamente patriarcal. Valentina, contudo, é ainda uma “pantera açaimada” (expressão do Prof. Martim) que não tem condições de se libertar plenamente.

3) As personagens esquerdistas, taxadas de comunistas naquela sociedade conservadora, defendem o socialismo e lutam por um ordem social mais justa e um mundo melhor. Evidentemente, esses progressistas chocam-se com os interesses da aristocracia dominante e são perseguidos. Entre outros, destacam-se aqui o Pe. Pedro-Paulo, o Prof. Martim, Joãozinho Paz com sua mulher (Ritinha), Geminiano ramos, Barcelona, o anarco-sindicalista, e mesmo Xisto, neto do Cel. Tibério.

4) Entre os humildes, constituindo a ralé da sociedade antarense, está o submundo da favela Babilônia. Nessa linha, incluem-se a prostituta Erotildes e o bêbado Pudim da Cachaça. Essas personagens, apesar de discriminadas e marginalizadas, revelam, na sua humilde e singeleza, uma grandeza comovente. Certamente por isso, não assustam os amigos visitados depois de mortos (Rosinha e Alambique).

5) Mais ou menos marginalizados, enclausurados, nos seus dramas pessoais e nos seus traumas, destacam-se o maestro Menandro, o neonazista Egon Sturm e certamente o subserviente secretário do Prefeito (o Mendes). Nessa lista, em falta de outro lugar, talvez possa entrar aqui também o fotógrafo checo Yaroslav.

ESTILO DA ÉPOCA

Publicado em 1971, Incidente em Antares se enquadra no estilo modernista não só pelas inúmeras referências e fatos e pessoas da época atual, como também pela presença de ingredientes que configuram, no livro, o gosto modernista.

1) A fundamentação na cultura nacional revela bem uma das tendências do Modernismo: a valorização de elementos folclóricos e tradicionais, bem como de costumes regionais, é uma das metas modernistas. Esse nacionalismo aparente, contudo, quase sempre esconde dramas existenciais que têm dimensão universal. No livro de Érico Veríssimo, Antares é, sem dúvida, um símbolo de um universo maior. Aliás, essa idéia aparece, numa conotação política, pichada nos muros da cidade: “A sociedade de Antares está podre. Antares é o símbolo da burguesia capitalista decadente” (p. 459).

2) Outro aspecto do livro que configura o Modernismo é o fantástico, que se manifesta em Incidente em Antares através dos sete defuntos insepultos. Embora autores não-modernistas tenham-se utilizado desse recurso também (Machado de Assis em Memórias Póstumas por exemplo), esse é um gosto mais freqüente do Modernismo. Esse truque evidentemente tem o seu sentido: é através do morto (fora, portanto, do palco da vida) que se vê melhor. Ficando fora do círculo da vida, desataviado da máscara e convenções sociais, é possível ver com maior nitidez e mais objetividade.

A invasão dos ratos, sem dúvida é outro elemento bem ao gosto da literatura fantástica.

3) No que diz respeito à linguagem, são constantes os registros da fala coloquial, como é comum no Modernismo. Isso, sem dúvida, confere maior autenticidade à personagem.

“- Me prenda, coronel, me rebaixe de posto, mas uma coisa dessas eu não faço (p. 20).

- Ele vai acabar levando o Brasil pro lado de Moscou (p. 73).

- Também fingi que não tinha visto ele e fiz meia volta (p. 75).

- Uma das meninas me telefonou ind’agorinha (p. 203).

Fiel a esse registro da linguagem coloquial, muitas vezes aparece palavrão e pronúncias típicas do Rio Grande, além de regionalismos.

- Não hai bem que sempre dure nem mal que nunca se acabe. (p. 287).

- Desculpe lê tirar da cama a esta hora, governador (p. 192)

-Se algum filho da pota me fizer qualquer provocação, traço-lhe bala (p. 123).

4) Outro aspecto que se destaca no estilo modernista é a postura engajada assumida pelo autor em relação a problemas de ordem política ou social. Em Incidente em Antares, o autor denuncia não só as falcatruas e negociatas escusas, como também a truculência e atrocidades da polícia, que espanca e tortura em nome da ordem e da segurança social. O caso de Joãozinho Paz e sua mulher gráfica (Ritinha) é dos mais ilustrativos.

O autor modernista, pois, não é um alienado – participa ativamente dos problemas da sociedade em que vive, denunciando as arbitrariedades, desmandos e injustiças.

5) Atenda às novidades e ao progresso, na década de vinte, Antares toma conhecimento do movimento modernista através de versos de Mário e Oswald de Andrade que são receitados num sarau de arte por um forasteiro: “Num sarau de arte, no Solar dos Campolargos, um forasteiro recitou versos modernos – que ninguém entendeu – de Oswald e Mário de Andrade” (p. 30).

ESTILO DO AUTOR / LINGUAGEM

Ao longo da narrativa de Incidente em Antares, Érico Veríssimo revela algumas características estilísticas que configuram a sua maneira de escrever.

1) Como já observamos na “organização e estrutura”, o escritor constrói a sua narrativa intercalando, no romance, textos de pseudo-autores. Essa simulação, em que Érico Veríssimo transcreve relatos, diários e artigos de jornais, imprime à narrativa uma atmosfera de verdade, dá a impressão de que a estória é verdadeira.

É claro que, ao lado da ficção, há fatos históricos, registrados por ele, que realmente aconteceram. Aliás, é o próprio autor quem observa numa “nota”, logo no início do romance: “Neste romance as personagens e localidades imaginárias aparecem disfarçadas sob nomes fictícios, ao passo que as pessoas e os lugares que na realidade existem ou existiram, são designados pelos seus nomes verdadeiros.”

Essa mistura de ficção e história (ou de estória com história) sempre foi uma das grandes características do estilo Érico Veríssimo).

2) Combinado com o sarcasmo e espírito critico que perpassa o livro, o autor revela-se irônico e mordaz ao longo do romance, caricaturando gente, linguagem e instituições. O Prof. Libindo, por exemplo, e outros eruditos da cidade sofrem sob a pena do escritor. Os discursos da palavras bonitas, os artigos de estilo grandiloqüente e pomposo (de Lucas Faia) vêm sempre perpassados de zombaria e sarcasmo. Veja bem a passagem abaixo, em que o sábio Prof. Libindo digladia verbalmente com o meritíssimo juiz Dr. Quintiliano, a propósito do lema dos “Legionários da Cruz”, da D. Quita: “Meu caro magistrado, quem defende a Pátria defende precipuamente a Lei e a Ordem contidas ambas no vocábulo oceânico Pátria (...)”. “Pois se a coisa é assim”, retrucou o juiz, “bastaria então que no lema dos Legionários da Cruz se falasse apenas em Deus, pois a idéia de Deus, na sua universalidade incomensurável, abrande tudo: Ele próprio, as suas leis, a sua ordem cósmica e moral, a Pátria, a Família, a Humanidade”. Ficava de fora a Propriedade, o que levou o Cel. Tibério a gritar: “E a prosperidade?” (p. 180).

Quase sempre com essa conotação irônica, vêm aí informações entre parênteses, como a que vamos transcrever que reproduz uma discussão entre os mortos, em que Dr. Cícero, ante a proposta de votação de Barcelona, diz: “- Não direi que aqui em cima estejamos numa democracia. Imaginemos que isto é uma... uma tanatocracia. (E os sociólogos do futuro terão de forçosamente reconhecer este novo tipo de regime)” (p. 250).

Assim, pois, combinando com a mordacidade que perpassa a obra, o autor ironiza e caricaturiza máscara da sociedade antarense na sua fala gongórica e vazia, na sua postura fingida e hipócrita. Só os humildes e sinceros escapam da “pena da galhofa” de Érico Veríssimo.

3) Outro aspecto que se destaca na linguagem do livro é a tendência do autor para criar tempos novos, quase sempre da formação erudita, com base nos radicais gregos e latinos. Além de “tanatocracia” (= morte+governo), que acabamos de ver no item anterior, veja-se ainda:

“- Vivemos numa cafajestocracia, isso é que é”. (p. 94) (hibridismo: cafajeste+governo).

“- Democracia qual nada, governador! O que temos no Brasil é uma merdocracia” (p. 193) (hibridismo: merda+governo).

Além desses, chama a atenção também para as lições do Prof. Libindo que vai ensinando ao longo do romance:

“O Prof. Libindo me garante que a palavra orquídea vem do grego e significa testículo” (p. 158).

“O Prof. Libindo, num aparte forçado, pergunta se os presentes sabem que a palavra canícula significa na realidade ‘cadela’ e que era o antigo nome da estrela Sírio” (p. 321).

Digno de nota também é o verbo “filho-da-putear”, usado na página 79: “... depois de se filho-da-putearem abundantemente, estavam já de revólver na mão”.

4) Além dessa erudição demonstrada (adquirida de forma autodidata, pois Érico Veríssimo não chegou à universidade, não tenho nem mesmo acabado o curso ginasial), o escritor entremeia a sua narrativa, sempre pela boca de suas personagens eruditas, de latim, francês, inglês e outras línguas.

5) Embora gaúcho, Érico Veríssimo usa com parcimônia vocábulos regionais. Uma ou outra palavra trai o regionalismo gaúcho, como a pronúncia de pronome “lhe” (=lê), o uso de formas que lembram o espanhol, como “Bueno” (p. 200) e “personalmente” (p. 201) e a pronúncia com “e” e “o” do Cel. Tibério, quando usa o palavrão “filho-da-puta”: “Felhos da pota” (p. 204).

ASPECTOS TEMÁTICOS MARCANTES

São muitos os aspectos temáticos que podem ser detectados no romance Incidente em Antares:

1) De conotação política, destacam-se no romance, entre outros, os seguintes aspectos:

a) Érico Veríssimo tece no livro um verdadeiro painel sócio-político, não só no Rio Grande do Sul como do país. Como vimos, o seu mapeamento abrange mais de cem anos e, através dele, pode-se acompanhar as marchas e contramarchas da política nacional. Sobretudo na primeira parte, a impressão que se tem é de que o autor faz mais história do que ficção.

b) Nesse contexto político, além de outros, sobressai a figura de Getúlio Vargas com seu carisma, com seu nacionalismo, com o seu populismo e mesmo com seu fascismo. Com a sua auréola de “pai dos pobres”, chega a ser impiedosamente ironizado por Tibério, quando do seu suicídio, ao ser inquirido por sua empregada sobre o que seria dos pobres: “- Os pobres vão continuar tão pobres como no tempo em que ele estava vivo” (p. 85).

Mas, apesar da frase de Tibério, dita com “perverso despeito”, Getúlio tornou-se um mito para as pessoas simples e humildes, como a preta Acácia, que adorava o pai dos pobres “como se ele fosse um santo” (p. 301). Chega a fazer oração a ele por um melhor salário: “Meu ganhame aqui é pouco e o trabalho muito, Presidente. Mande essa gente me pagarem mais. Amém!” (p. 302).

c) Não obstante, entre os protegidos de Getúlio, a corrupção alastrava com negociatas escusas (contrabandos) e negócios ilícitos. Muitos, como Tibério Vacariano, enriqueceram-se e matinham contas numeradas em bancos da Suíça, favorecidos por negócios falcatruosos e empréstimos com fundo perdido no Banco do Brasil.

Numa conversa em casa dos Campolargos, por exemplo, o Tibério faz esta denúncia: “Em matéria de dinheiro o Getúlio é um homem honesto. Mas finge que não vê certas safadezas que se fazem ao seu redor. A sua técnica é a de corromper para governar. E nunca se roubou tanto, nunca se fez tanta negociata à sombra de Getúlio e em nome dele como neste seu atual quatriênio” (p. 74). Mas o Tibério era suspeito para falar, como pensava com seus botões a D. Quitéria: “Olhem só quem está falando em negociatas” (ib. id.).

d) Priorizando a política desenvolvimentista e a industrialização, vão-se instalando no país (período sobretudo de JK) as multinacionais e, com elas, a espoliação do país e a exploração do proletariado, como revela muito bem a fala humilde da negra Acácia (item b) na sua oração ao Presidente Vargas: “Meu ganhame aqui é pouco e o trabalho muito, Presidente”.

A greve geral decretada pelos operários das multinacionais de Antares é uma resposta dos trabalhadores à exploração e ao salário da miséria que recebiam para enriquecer os abastados. A fala de Geminiano, líder dos grevistas, numa reunião com os patrões e o prefeito revela exatamente isto: “reivindicações salariais”. (p. 200).

e) Combatendo o modelo capitalista, socialmente injusto e perverso, vão-se proliferando os esquerdistas, simpatizantes do socialismo, que se identificam com os pobres e operários e por isso taxados de comunistas e vermelhos. O momento político (de Jango e Brizola) favorecia a esquerdização e os “subversivos” iam-se proliferando, para desespero da sociedade capitalista e conservadora que não aceitava mudanças e reprimia o movimento.

Como observa o Pe. Pedro-Paulo ao Pe. Gerôncio, numa conversa, “comunista é o pseudônimo que os conservadores, os conformistas e os saudosistas do fascismo inventaram para designar simplisticamente todo o sujeito que clama e luta por justiça social” (p. 384). Numa outra passagem, esse mesmo padre lembrou ao delegado Inocêncio a postura “rebelde” de Cristo em face das arbitrariedades impetradas pela sociedade da época, dominada pelo império romano, e desafia o delegado torturador de Joãozinho Paz: “- Prenda Jesus, delegado, prenda-o o quanto antes! Interrogue-º Faça-o confessar tudo, dizer o nome de todos os seus discípulos e cúmplices... Se ele não falar, torture-o em nome da Civilização Cristão Ocidental!” (p. 321).

f) Diante do perigo “comunista” ameaçada na sua ordem secular, a caça às bruxas é uma conseqüência lógica, engendrada e executada pela sociedade conservadora e capitalista. A punição através da tortura e mesmo a morte, no sentido de reprimir esse clamor que exige justiça e liberdade, é antigo milenar. Basta lembrar Cristo crucificado ou, em nosso caso, o Tiradentes do Romanceiro de Cecília de Meireles.

Joãozinho Paz, sem dúvida, é aqui o bode expiatório, executado pela sanha do delegado Inocêncio Pigarço, em nome da ordem e da segurança da classe dominante. Conforme vem registrado no diário do Pe. Pedro-Paulo, “Joãozinho foi torturado barbaramente. Seu rosto está quase irreconhecível. Um braço e uma perna partidos” (p. 295). Por outro lado, detalhes da tortura vêm denunciados pelo morto Dr. Cícero, voz insuspeita do além-túmulo, no julgamento da praça nobre de Antares: “Vêm então a fase requintada. Enfiam-lhe um fio de cobre na uretra e outro no ânus e aplicam-lhe choques elétricos. O prisioneiro desmaia de dor. Metem-lhe a cabeça num balde d’água gelada e, uma hora depois, quando ele está de novo em condições de entender o que lhe dizem e de falar, os choques elétricos são repetidos...” (p. 369).

Como observou o Barcelona, do além-túmulo, “o delegado Inocêncio tinha aproveitado bem a sua ‘bolsa de estudos’ com a polícia do Estado Novo” (p. 254).

2) Numa divisão meramente didática, destacava-se também no romance a análise da sociedade antarense, que tem obviamente conotação simbólica, objetivo esse empreendido e executado com maestria pelo escritor:

a) A sociedade enfocada no livro, como se tem mostrado, caracteriza-se pelo conservadorismo, apegada às aparências e fachadas, coisa de suas tradições e costumes seculares. Através da pesquisa organizada pelo Prof. Martim e sua equipe, Érico Veríssimo faz uma verdadeira anatomia da sociedade local, que é também, no fundo, o retrato de tantas outras.

Conforme registra Prof. Martim no seu diário, o juiz Quintiliano é bem um símbolo dessa “sociedade simétrica, policiada, regida por leis inflexíveis e imutáveis, cada coisa no seu lugar (e quem determina o ‘lugar exato’ é a tradição, e tradição para ele é algo que tem a ver com seus ancestrais – pai, avô, bisavô, trisavô, etc). Está sempre, notei, do lado do oficial, do consagrado, do legal” (p. 417)

b) Organizada pelo macho, impera na sociedade antarense o sistema patriarcal e machista, em que o poder é exercido pelo homem, de forma despótica e absoluta. Sua vontade é a lei, o seu querer tem que ser respeitado, a sua voz tem que ser ouvida. O Cel. Tibério é certamente o grande senhor patriarcal do livro. Sempre armado, o coronel tinha o hábito de resolver tudo a bala. Até mesmo no caso dos mortos, a sua sugestão, bem como a do delegado, era de fazer os mortos retornarem ao cemitério, à força.

c) Posta nesse contexto, a mulher vive à sombra do macho, em tudo submissa, passiva e subserviente, aceitando a ordem estabelecida. Poucas reagem contra essa ordem em que fazem o papel de “matrona romana”. Como já observamos, o exemplo de Valentina, com seu gesto de rebeldia, é uma tentativa ainda tímida de ruptura na ordem machista. Outro exemplo é a hatiana Dominique, mulher de M. Duplessis, a qual costumava “aprontar” nos rituais vudu.

Entretanto, integrada no “baile de máscaras” da sociedade, como diz Dr. Quintiliano a Valentina, é importante, para a mulher parecer honesta: - “Valentina, não basta a uma mulher ser honesta. É preciso também parecer” (p. 429)

d) Organizada assim – valorizando as aparências e fachadas – está claro que pobres e humildes serão objeto de discriminação e desprezo. Aqui entram as prostituas, bêbados, a favela Babilônia, os loucos e desafortunados da sorte; aqui entram até mesmo os “subversivos”, como Pe. Pedro-Paulo, sempre mal visto e rejeitado pela sociedade; e também entram aqui os infelizes e solitários – os que sofrem de amor, como o Mendes, e os que sofreram trauma da frustração da derrota, como o maestro Menandro. Isso é o inferno – o inferno estava em Antares sob a forma do preconceito, e do desprezo, conforme dizia a D. Quita, no além-túmulo:

“- D. Quitéria, eu tive em Antares uma amostra do inferno. A incompreensão, o sarcasmo, a impiedade dos antarenses me doíam fundo. O inferno não pode ser pior que Antares” (p. 246).

e) Convivendo com essa podridão, conivente muitas vezes com falcatruas e arbitrariedades, parada no tempo, a igreja de Pe. Gerôncio ia rezando suas missas em latim, encomendando os seus defuntos à espera do Juízo Final, acomodada e fiel as tradições milenares, insensível aos problemas sociais e às vozes que clamam por justiça.

Esta é a imagem da religião tradicional, moldada à imagem e semelhança da sociedade aristocrática de Antares. A ela se contrapõe a igreja de Cristo, voltada para os pobres e miseráveis da vida; no lugar das rezas convencionais e da liturgia teatral dos milênios, surge o clamor de vozes que buscam a justiça e a libertação das garras do inferno, - inferno que é a vida degradante de milhões de miseráveis que jazem à margem de Antares.

Identificada com os pobres, chamando por justiça social, combatendo a truculência e as arbitrariedades humanas, esta é a igreja de Cristo, como diz o Pe. Pedro-Paulo ao Pe. Gerôncio:

“- Padre, enquanto Deus não nos disser claramente o que Ele pensa de tudo isso, nós devíamos em nome de Cristo, que era e é deste mundo, combater tipos como Inocêncio Pigarço, que matam em nome da Justiça, do Capitalismo, do Comunismo, do Fascismo, da Família, da Pátria e (não ria!) até mesmo de Deus”.

f) Em suma, nesse grande painel que é Incidente de Antares, Érico Veríssimo se revela imparcial, acima de ideologias e faz uma crítica contundente e mordaz à sociedade. Através do truque utilizado, em que os mortos insepultos exigem o sepultamento, ele expõe os podres daquela sociedade em decomposição, hipócrita e carcomida nas suas entranhas. Os mortos insepultos e o mau cheiro exalado, sem dúvida, constituem um símbolo e revelam bem a decomposição moral da sociedade.

Nada escapa à crítica do escritor. Ao erguer a tampa do caixão, ele destila o fel da sua mordacidade e desmascara a nata da sociedade antarense: nada escapa – nem a direita nem a esquerda; nem mesmo a medicina com sua falsa filantropia; nem muito menos a imprensa que com sua bisbilhotice; nem muito menos Rotary e o Lions com seu espírito fraternal; não escapam muito menos os doutores e professores com sua fala erudita e gongórica; também as senhoras honradas e impolutas são devassadas nos seus segredos de alcovas, flagradas em delitos de cama; nem mesmo o venerado ancião da estátua, exemplo-mor para descendentes e ascendentes, escapa à devassa realizada pelo escritor.

Entretanto, com o sepultamento dos mortos, a verdade também foi encerrada e a mentira, vitoriosa e triunfante, retoma o seu lugar no baile dos mascarados e na estátua da praça nobre da cidade.

CONCLUSÃO

É impossível ler um livro como Incidente em Antares e não se sentir assustado, não com os mortos que descem para a cidade, mas com a mentira que jaz subjacente em cada um de nós. É impossível ler um livro como este e não mexer, no sentido de combater e extirpar, da face da terra, a truculência e a mentira. É impossível sair da leitura deste livro insensível à causa do Pe. Pedro-Paulo e de Joãozinho Paz, em busca da justiça e do amor. É impossível ler este livro e sair dele sem se emocionar com o drama comovente de Joãozinho Paz e seu amor à vida, como diz ao Pe. Pedro-Paulo.

“Eu quisera acreditar em Deus e na vida eterna. Mas não posso. Nunca pude. Mas acredito na vida. E como! Tenho esperança num futuro melhor para nossa terra, para o mundo. Quero que meu filho nasça, cresça e viva para participar desse mundo” (p. 294)

Redimido pela leitura de Incidente em Antares, o filho de Joãozinho Paz crescerá nas nossas entranhas. Viverá e frutificará. Salvará o mundo da truculência e da mentira.

Que fique também, em cada um de nós, a lição do Pe. Pedro-Paulo com seu amor à vida e a sua luta em favor do Império do Amor:

“- Padre, espero não estar pecando quando sinta a alegria de estar vivo. Gosto da vida. É um desafio permanente. Se ela é absurda, sem sentido, então procuremos dar-lhe um sentido. Eu acho que a senha é o Amor” (p. 338).

Sem dúvida, é possível fazer tudo isso. Existe em cada um de nós um “menino do dedo verde” – capaz de amar e transformar o mundo. O ser humano não é o que parece, como dizia um tropeiro ao Pe. Pedro-Paulo (p. 439): “Olhe, moço, ninguém é o que parece. Nem Deus”.

Oxalá este livro possa provocar em cada um de nós o incidente do Amor e nos despertar para a Beleza da vida!

 

 

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O Tempo e o Vento - Érico Veríssimo - resumo

O Tempo e O Vento é a maior obra do escritor Érico Veríssimo. Ela conta a história da família Terra Cambará durante dois séculos, começando nas Missões e seguindo pelo século XX. Sob o ponto de vista desta família passa a história do Rio Grande do Sul e o drama de seu povo, na cidade fictícia de Santa Fé.

O Continente I

Intercalada pela história do sítio ao sobrado, onde morre Florêncio Terra e a filha recém-nascida de Licurgo, durante uma revolta em 1895, onde aparecem também os jovens Rodrigo e Toríbio Terra Cambará. Conta-se 150 anos da história do RS até aquele ponto pela vida da família Terra Cambará.

A primeira parte é A Fonte, já que o que se segue é a história do personagem que se torna a fonte do qual surge toda a família. É a história do mameluco Pedro Missionerio , que nasceu em 1745, morou nos Sete Povos das Missões e adquiriu de um padre (seu padrinho, que o batizou com o nome de um homem que um dia quis matar pela amante antes de se tornar padre) uma adaga que passa pela família. Pedro tinha visões que se realizavam, dizia ser filho da Virgem Maria e sai da Missão três meses após a morte de Sepé Tiaraju .

A segunda parte é Ana Terra. Ana é a jovem filha de Maneco Terra que ajuda Pedro Missioneiro a se curar após cair ferido, já homem, em seu rancho. Ana Terra se apaixona por Pedro e dele engravida, passando assim a ser desprezada pelo pai e os irmãos, que matam Pedro. Quando o rancho é atacado, seu pai, seu irmão (o outro se mudara e abrira uma venda) e dois escravos são mortos e ela é estuprada, mas sua cunhada e as crianças se salvam disto tudo escondidos. Após enterrar os cadáveres, ela segue para as terras do Coronel Amaral para ajudar na fundação de um povoado chamado Santa Fé. Lá se torna a parteira.

Já Um certo Capitão Rodrigo conta a história de Rodrigo Cambará, um anti-herói que chega ao povoado de Santa Fé e se apaixona por Bibiana, neta de Ana Terra e filha de seu único filho Pedro. Bibiana era disputada pelo jovem Bento Amaral, o que leva Rodrigo e ele a duelarem de arma branca. Rodrigo entalha um P na cara do outro, mas leva um tiro traiçoeiro antes de por a perninha do R. Quando o padre lhe visita para dar a extrema-unção, Rodrigo lhe dá uma figa e começa a melhorar. Rodrigo mais tarde se casa com Bibiana, também apaixonada, apesar de contrariada pelo pai Pedro Terra. Rodrigo abre um negócio com Juvenal Terra, primo de Bibiana e começa a se degenerar, traindo Bibiana, bebendo e jogando. Quando uma das filhas do casal, Anita, morre, Rodrigo está jogando e é avisado do estado da menina, mas demora a ir para casa. Quando o faz, revolta-se em negação mas finalmente sucumbe ao choro. Redime-se e torna-se melhor que antes, bebendo após isso tudo um único gole, quando nasce sua nova filha, Leonor, que passa a ser companhia de seu primeiro filho Bolívar. Rodrigo vai então para a Guerra dos Farrapos e, ainda durante a guerra, volta para Santa Fé atacar a residência dos Amarais. Ele ama Bibiana mais uma vez e promete voltar, mas cai com um tiro no peito durante um ataque.

O Continente II

A Teiniaguá conta sobre Luzia, Florêncio e Bolívar. Florêncio é o folho de Juvenal e melhor amigo de Bolívar durante a infância. Luzia é a neta de um agiota que se estabelece em Santa Fé. Doente mental, Luzia é sádica, como a teiniaguá, uma lenda gaúcha que conta de uma princesa moura transformada em cobra com cabeça de diamante que gosta de ver outros sofrerem, mas sua beleza atrai todos os homens, incluindo Florêncio e Bolívar. Ela se casa com Bolívar depois que este volta da guerra, muito perturbado. Lentamente eles começam a se afastar dos amigos. Por fim (quase tudo isto observado pelo ponto de vista do médico da cidade, Carl Winter ela demonstra todo sadismo ao continuar em Porto Alegre durante uma visita mesmo estando uma epidemia do cólera acontecendo. Ao voltarem, ambos se trancam no quarto após uma violenta discussão de Luzia com Bibiana. Luzia se sente presa a Santa Fé. Bibiana, que estimulara a união para passara a viver no Sobrado, construído no terreno da casa de seu pai e tomado pelo agiota, sabe como Luzia é má. O doutor finalmente fala com Bolívar e este revela que tudo que queria era fugir para uma guerra. Como eles estão de quarentena no Sobrado, obra de vingança do Coronel Bento Amaral por ser Bolívar filho do homem que lhe talhou o rosto, Rodrigo sai atirando do Sobrado contra os homens que lhe prendiam humilhantemente em casa e cai morto, enviuvando Luzia e deixando órfão de pai seu filho Licurgo.

A Guerra conta a história dos anos finais de Luzia e sua disputa com Bibiana pelo amor de Licurgo enquanto este cresce. Luzia está na época com um tumor no estômago, e a preocupação principal de Bibiana é permanecer no Sobrado. Luzia, ao final, perde a guerra não declarada, pois o que queria era um filho cosmopolita, e Licurgo continua em Santa Fé.

Ismália conta a história de Licurgo já mais velho trabalhando em Santa Fé com seu melhor amigo, o jornalista Toríbio, pela proclamação da República, tudo enquanto envolvido com o casamento com a prima Alice, filha de Florêncio Terra e a amásia, Ismália . Ismália é uma china (palavra usada até hoje em partes do Rio Grande do Sul que designa uma "mulher da vida") submissa a Licurgo do qual este gosta e permanece assim pelos anos que seguem e engravida dele. A luta pela República enfim tem sucesso e a rivalidade dos Terra Cambará com os Amaral continua com Alvarino e Licurgo, como antes fora com Bento e Rodrigo.

As continuações são O Retrato e O Arquipélago.

O Retrato Dividido em quatro partes, conta a história da família Terra Cambará até 1945, completando junto com o Arquipélago mais 50 anos da história do RS.

Rosa-dos-ventos conta da chegada de Rodrigo Cambará do RJ logo após a deposição de Getúlio Vargas em 1945, visto apenas sob o ponto de vista dos habitantes da cidade fofocando sobre seu passado e sobre sua atual situação de saúde, política e família, com opiniões variadíssimas . Aparece aqui a explicação para o título do livro: o retrato é uma pintura feita por um pintor de Rodrigo com vinte e quatro anos em que a própria personalidade de Rodrigo, junto com seu passado presente e futuro, parece transpirar. Chantecler mostra o jovem Doutor Rodrigo Terra Cambará chegando a Santa Fé em fins de 1909, idealista, pensando em revolucionar a cidade. Sua primeira empreitada é a campanha civilista pelo candidato Rui Barbosa para presidente, pela qual ele funda o jornal A Farpa. Usando "A Farpa" Rodrigo e seus amigos, especialmente o pintor espanhol anarquista Pepe Garcia, que como o Doutor Winter se sente preso misteriosamente à Santa Fé. Pepe trabalha como tipógrafo n' A Farpa e Rodrigo escreve artigos em favor de Barbosa. Mas Hermes da Fonseca vence a eleição e Rodrigo se desilude com a política. Rodrigo também age com um desprendimento total em relação a dinheiro, presenteando e ajudando muitos, como o jovem Marco a quem ele dá dinheiro para começar uma fábrica, e os vários pobres das favelas de Santa Fé aos quais ele atende gratuitamente, distribuindo comida e alimentos no inverno, apesar da reprovação do anarquista Pepe e de seu positivista amigo, o Tenente Rubim . No plano romântico Rodrigo se enamora de Flora e corteja-a do modo tradicional, muito a contragosto. Sua carne é fraca, no entanto, e ele acaba por se deitar algumas vezes com uma jovem Caré tal qual o pai e outras jovens. Mas ainda assim continua pensando em sua Flora, filha de um arruinado estancieiro, Aderbal Quadros. Também deve se destacar que Santa Fé está toda preocupada com a passagem do cometa Halley, já que diziam que este destruiria a Terra ou envenenaria a todos com sua cauda. O título deste segmento, Chantecler, deve-se ao personagem de uma peça de Rostand que estréia em Paris durante esta época, no qual o personagem principal é um galo imponente que se ilude achando que o sol não nasce sem o seu cantar, tal qual Rodrigo se vê como uma figura capaz de corrigir todos os males de Santa Fé.

A sombra do anjo conta a história de Rodrigo já casado e com dois filhos em 1914-15, numa Santa Fé sem Pepe e com adversários inertes. Rodrigo continua fazendo clínica e morando na cidade, enquanto o pai e o irmão passam a maior parte do tempo no Angico, a fazenda da família. O que move a história é, no plano político, a candidatura ao Senado do Marechal Hermes da Fonseca, seu desafeto, e no plano pessoal a paixão que Rodrigo sente por Toni Weber. A família Weber é uma família de músicos austríacos que chegam a Santa Fé, com quem Rodrigo primeiro não simpatiza por serem da pátria aliada a Alemanha a quem odeia em tempos de guerra. Mas após ouvi-la passa a simpatizar com ela e se apaixona por Toni . Quando estes são roubados por seu empresário, Rodrigo arranja que possam permanecer na cidade, trabalhando no cinema às custas de Rodrigo. Numa das visitas ao Sobrado ele finalmente conquista Toni, que também o ama. Eles passam a se encontrar, pouco mas intensamente na casa dela. Um dia ela vai ao hospital de Rodrigo (ele clinicava lá e o doutor Carbone operava) e conta a ele que está grávida. Rodrigo pensa em aborto, em casa-la, em tudo. Mas nada adianta, pois quando ela está para se casar com um colono, ela se mata. Rodrigo confessa ao irmão e ao padre, que cuidam dele. Quando ele vai para o Angico, tenta disfarçar, mas acaba contando ao pai, que se desaponta com ele. Rodrigo fica então em sua cama, quase enlouquecido, pensando, delirando, com o mal que fizera àquela que ama.

Uma vela para o Negrinho conta já em 1945 sobre os filhos de Rodrigo Cambará reagindo a conjuntura político- familiar do momento. Floriano está a visitar o cemitério e vê a tumba de Toni Weber sem conhecer a história por trás da moça, pensando numa história para escrever. Fala com Pepe no bar, que diz que Rodrigo o traiu e traiu o Retrato. Depois começa a inventariar a família e a pensar no irmão mais novo, o comunista Eduardo. Eduardo está enquanto isto a fazer um discurso comunista na praça a frente do Sobrado enquanto Rodrigo convalesce. Após o discurso Floriano e Eduardo discutem e Rodrigo chama Eduardo para conversar. Floriano vai até o pátio com Maria Valéria, que acende uma vela para o Negrinho do Pastoreio (reza a tradição que ele acha o que foi perdido) para que os Terra Cambará encontrem o que perderam.

O Arquipélago continua coma história da família Terra Cambará com o Dr. Rodrigo. Entrelaçada por Reunião de Família, a história da família se reunindo após a queda de Vargas, com Rodrigo a beira da morte em 1945 continua a história de Rodrigo e Toríbio. Depois de dois infartos e sofrendo de edema pulmonar, Rodrigo passa ao tempo todo acamado, com a amante num hotel da cidade (ela veio do Rio de Janeiro por conta própria), e os filhos desentendidos. Floriano, o intelectual passivo está apaixonado por Sílvia, mulher de seu irmão Jango, um homem simples. Eduardo milita o comunismo e ataca o pai até em praça pública, enquanto Bibi simplesmente se sente deslocada em Santa Fé, com o segundo marido. Maria Valéria está cega e Flora mantém um casamento apenas de fachada com Rodrigo. A maioria do tempo vêem-se discussões políticas entre Rodrigo, Tio Bicho (amigo da família e confessor de Floriano), Irmão Zeca (filho bastardo de Toríbio que se tornou irmão marista ), Terêncio Prates (sociólogo formado pela Sorbonne e estancieiro), acabando sempre na figura de Getúlio Vargas que Rodrigo tanto defende. Rodrigo enquanto isto também desobedece às ordens de Dante Camerino, seu médico (ele chegou a ter um encontro com a amante) e Floriano confessa a Tio Bicho o que sente por Rodrigo. As anotações (Caderno de Pauta Simples) de seu filho mais velho, o escritor Floriano, também intercalam a história. Elas são um preenchimento de lacunas sobre acontecimentos menores da história; reminiscências de infância e adolescência, onde se lembra como se sentia por Rodrigo, o colégio interno onde era um dos amantes da mulher do diretor (eram ambos pederastas); impressões sobre o dia-a-dia daquela reunião; memórias de quando era professor universitário de Literatura Brasileira em São Francisco, onde reencontra Mandy Patterson, a americana que namorara no RJ e o afastou de Sílvia. E aparece também um germe para o romance que pretende escrever, fechando duzentos anos de história, que é na verdade a história da própria família Terra Cambará, dando caráter autobiográfico ao personagem (ele vai afinal, escrever o livro que agora lemos), começando pela história de Pedro Missioneiro, uma que ele não chegou a conhecer já que Ana Terra nunca revelou. Essas duas últimas citações dão caráter autobiográfico a Floriano, já que o autor foi professor de Literatura Brasileira e, bem, escreveu esta história. A primeira parte é O deputado, que conta sobre Rodrigo em 1922, deputado estadual chimango. Mas a desilusão com o partido, que ele e seu pai passam a sofrer, leva-o a renunciar ao cargo com um discurso inflamado na assembléia municipal. Passa então mais uma noitada no Rio e volta para Santa Fé e discute política com os amigos e se prepara psicologicamente com o irmão para a revolução que eles temem que virá. Lenço encarnado conta sobre a revolução de 23 e a participação dos Cambarás. Por causa das fraudes nas eleições estaduais, começas uma luta entre os borgistas (chimangos, situação, inimigos dos Cambarás) e assisistas (maragatos, oposição, derrotados pela fraude, ironicamente com a participação dos ex - inimigos jurados dos Cambarás) A revolução começa em janeiro e as tropas dos maragatos se reúnem, mas só partem com o consentimento e sob o comando de Licurgo quando Alvarino Amaral decide lutar separado. É um sinal das cicatrizes que ficaram da revolução de 95, quando a filha de Licurgo, seu sogro e um agregado morreram. A coluna dos Cambará leva Miguel Ruas, o promotor que nem sequer gaúcho era; Liroca, quixotesco; a Cacique Fagundes e Juquinha Macedo, dois chefes tradicionais (o primeiro morre); caboclos pegos no meio do caminho (vários dos quais morrem); Rodrigo, Toríbio e Licurgo. Eles marcham pelo estado, andando mais que lutando, e por estas batalhas caem uns e tomam-se munição e outras coisas. Ruas morre na tomada de Santa Fé e Licurgo numa das últimas batalhas, com Rodrigo ao seu lado gritando por um médico, esquecido que ele mesmo era um. Por todo este tempo as mulheres e crianças ficam no Sobrado, Flora desesperada (este capítulo revela que Flora conhece as escapadas do marido, a de Toni Weber em especial) e Maria Valéria cuidando de tudo. A revolução acaba em outubro, com vários mortos e uma paz que manda que o governador reeleito Borges de Medeiros não o seja mais e outras concessões. Um certo Major Toríbio é a parte que relata sobre os três anos seguintes, as revoltas contra Artur Bernardes , presidente na maioria do tempo em que isto se passa (Washington Luís toma posse mais para o fim). Toríbio se junta, contra a vontade de Rodrigo, a Coluna Prestes. Mas ele só é visto mais ao final da história, que se passa a volta de Rodrigo, chocado pela morte da filha (ele leva um ano para se recuperar, ainda assim nem muito) e ainda perturbado com a do pai. Mostra também a partida do quieto Floriano, já com jeito para letras, para estudar em Porto Alegre. Quando finalmente recebe notícias de seu irmão, vindas do já tenente-coronel Rubim, Rodrigo parte para o Rio e Toríbio é liberto da prisão. Chegando ao Sobrado, Toríbio conta de sua experiência com a Coluna Prestes aos mais chegados e como só se salvara de morrer porque um militar cuja vida Rodrigo salvou era o responsável pela execução. Mas foi preso ainda assim. É importante dizer também que, desiludido com a medicina após a morte de Alicinha, Rodrigo vende a farmácia e a Casa de Saúde aos médicos que o ajudavam, Dante Camerino e Carlo Carbone, fecha o consultório e entrega a administração do Angico ao sogro. O cavalo e o obelisco é a história da Revolução de 1930, mostrada desde poucos meses antes até poucos dias depois. A medida que a tensão cresce vai mostrando-se a confusão de sentimentos sobre o Getúlio Vargas que Rodrigo desgosta e vem a admirar tanto mais tarde. Como o pai, Rodrigo é obrigado a se aliar com os antigos inimigos (Laco Madruga dessa vez) relutantemente. Floriano, já mais velho, parasitando de modo ainda mais relutante em Rodrigo e sentindo-se mal por isso é obrigado pelo pai. Homem de paz, quando durante a tomada da guarnição federal de Santa Fé o pai é ameaçado de morte por um homem que era amigo, Floriano não o mata em defesa do pai, mesmo depois que este já havia sido alvejado pelo Tenente no ombro. Floriano foge então sendo chamado de covarde pelo pai. O homem, Tenente Bernardo Quaresma, estava acuado no escritório, não tendo sentido a explosão das granadas por estar acompanhado de um cachorro, que depois assombrou Santa Fé. Rodrigo acaba por dar o primeiro dos tiros que mata este Tenente, que era apaixonado pela mulher com quem Rodrigo estava traindo Flora na época, uma poetisa. Rodrigo passa a se atormentar pela morte de Quaresma a partir daquele dia. Depois ele se encontra com Getúlio Vargas na estação, faz um discurso dramático e parte para o Rio de Janeiro.

Noite de Ano-Bom mostra um único dia: 31/12/1937. Começando com o enterro da mãe de Arão Stein, que se encontra na Guerra Civil na Espanha, financiado por Rodrigo. Eduardo, influenciado por Stein, já principia a militar o comunismo. Floriano se sente um covarde por não ter revelado à Sílvia seus sentimentos, que agora percebe o quanto eram profundos ao vê-la, no dia de seu noivado com Jango. Então se lembra do relacionamento com a americana no RJ que o afastou de Sílvia. Já aqui a história se foca mais em Floriano que Rodrigo e mostra o quão corrompida foi a família desde 1930. O noivado realiza-se sob um clima pesado com Rodrigo defendendo, apesar de ainda não ter digerido, o Estado Novo de todos, inclusive seu irmão Toríbio. Escala também o nazi-fascismo em Santa Fé. Corre tudo relativamente bem, exceto pelo desentendimento entre Toríbio e Rodrigo, até que alguém propõem um brinde à Getúlio Vargas e ao Estado Novo. Toríbio se revolta, faz um pequeno escândalo e sai com Floriano para um baile numa das favelas de Santa Fé. Tentando seduzir uma jovem mulata, mete-se numa briga com o outro pretendente. Floriano ainda ataca um de seus inimigos com uma garrafada (gesto que não pode realizar em prol do pai), mas muita tarde. Toríbio é ferido na virilha e se esvai em sangue, chegando morto ao hospital, suas últimas palavras sendo "Um piazinho de merda..". Do diário de Sílvia vem o preenchimento dos anos seguintes à tragédia, com impressões sobre seus sentimentos em relação a Floriano, quase idênticos aos que este sentia; o casamento infeliz e sem amor com Jango; as dúvidas quanto a sua religiosidade; a correspondência com Floriano; as confidências com e de Arão Stein (de volta da Espanha. Mais tarde expulso do PC, começa a enlouquecer) e Zeca (já usando o nome de Irmão Toríbio). Lembra-se também da infância infeliz e como idolatrava a "gente do Sobrado", sentindo-se em incesto quando dorme com Jango. E registra as reações em relação à guerra, a volta de Pepe Garcia e o que Floriano lhe escreve dos EUA.

Encruzilhada, a última parte, tem um título que define a situação em que a família, p país se encontra naquele final de 1945: estão numa encruzilhada da vida. Começa a história com Arão Stein, enlouquecido pela expulsão do PC se matando, enforcado na figueira na praça central de Santa Fé. Em seguida passa-se seu funeral e enterro (Rodrigo não fica sabendo), onde Rodrigo, Zeca e Roque Bandeira discutem mais uma vez. Stein é enterrado sem ter a alma encomendada, como todo suicida. No Sobrado, Floriano se cruza com Sílvia, abraça-a e beija-a, mas ambos se separam e ela foge. Depois ele e Sílvia tem uma conversa séria e ela lhe entrega para ler seu diário. Antes de lê-lo, Floriano tem a conversa definitiva no qual desabafa tudo o que pensava e sentia sobre sua relação com o pai, cortando definitivamente o cordão umbilical que os prendia, reconciliando-se com ele e consigo mesmo. Rodrigo, já liberado por Dante para voltar ao Rio, manda Sônia, sua amante de volta antes e planeja romper com ela. Floriano sobe até seu refúgio no sótão e lê o diário de Sílvia, sente-se afinado, inveja Zeca por ter com ela uma intimidade que ele nunca terá e finalmente lê a última frase onde ela revela estar grávida. Rodrigo e Flora ouvem isto e ficam felizes. Rodrigo prepara-se então para voltar ao RJ, mas morre antes. Seu funeral se processa como era de se esperar. Na noite de Ano - Bom acontece a festa tradicional, morre Laco Madruga, vê-se todos os personagens por uma última vez e muito é revelado. Floriano planeja construir as pontes que ligarão sua ilha a este Arquipélago de pessoas. E ao final, enquanto o neto de Alvarino Amaral, admirador do escritor e conterrâneo Floriano Cambará, compõem seu primeiro poema e pensa em se aconselhar com ele, Floriano escreve as primeiras linhas de seu romance que contará a história de sua família: as primeiras palavras de O Tempo e O Vento.

 

 

 

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Olhai os Lírios do Campo - Érico Veríssimo

Olhai os lírios do campo é um dos romances mais famosos de Érico Veríssimo. Um verdadeiro best-seller que resultou até em novela na Argentina. A narrativa da primeira parte é feita em flashback. Eugênio vai lembrando de momentos da sua vida enquanto se dirige ao hospital onde está Olívia.
Eugênio era um menino tímido e medroso. Teve uma infância pobre, era ridicularizado na escola e tinha como objetivo máximo a ascensão social, faria de tudo para um dia vencer na vida. Achava que o que tinha era feio e sem graça, das roupas até o seu próprio corpo. Não se entrosava com os demais colegas de classe e por isso devotava todo o seu tempo aos estudos. Sonhava em deixar de ser simplesmente o Genoca para ser o Dr. Eugênio Fontes.

Tinha pena do pai, o alfaiate Ângelo, com quem não conseguia se comunicar facilmente. O seu irmão, Ernesto, não esmerava-se na educação e acabou perdido na vida. Com muito esforço, Eugênio consegue cursar Medicina. Na Faculdade conhece Olívia - única mulher da turma. Na festa de formatura os dois se aproximam e fazem sonhos e confissões juntos, sobre o futuro. Tornam-se grandes amigos.
Durante a revolução de 30, após uma operação mal sucedida no hospital militar, Olívia convida Eugênio a sua casa e passam uma noite de amor. Dias depois, Olívia recebe uma proposta para trabalhar em Nova Itália, e novamente se entrega aos braços de Eugênio.

Durante um atendimento médico, Eugênio conhece Eunice Cintra - filha de um riquíssimo proprietário. Eugênio casa-se com Eunice com objetivo único de ascender socialmente. O sogro trata de arranjar um emprego de fachada ("assinar documentos") numa de suas fábricas. Eugênio começa a freqüentar a alta sociedade, mas não se sente parte dela. O seu complexo de inferioridade aumenta ao ver os contrastes desse outro mundo, de emoções contidas, de meias-palavras. Conhece pessoas como Filipe Lobo, construtor obstinado a construir o "Megatério", um arranha-céu, mas não se importava com a família. Infeliz e perturbado, Eugênio reencontra Olívia que lhe apresenta a sua filha, fruto do último encontro dos dois, Anamaria. Ao chegar no Hospital onde estava Olívia, recebe a notícias de sua morte.
A segunda parte passa-se após a morte de Olívia e é intercalada com a leitura das cartas que ela escreveu para Eugênio sem nunca ter enviado. Eugênio toma coragem e separa-se de Eunice - apesar de todos os inconvenientes sociais. Vai além, passa a ser um médico popular, com idéias de socializar a medicina. Trabalha com o Dr Seixas, um velho médico que sempre atendeu aos pobres. A memória de Olívia, nas cartas, nas fotos ou no olhar de Anamaria, o fortalece quando pensa nas dificuldades.
O original da obra, com correções à mão feitas por Érico Veríssimo, encontra-se hoje na gigantesca biblioteca de José Midlin.

 

 

 

 

 

 

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Caetés - Graciliano Ramos - resumo

Narrado em primeira pessoa, por João Valério. A ação desenvolve-se em Palmeira dos Índios.

João Valério, o personagem principal, introvertido e fantasioso, apaixona-se por Luisa, mulher de Adrião, dono da firma comercial, onde trabalha. O caso amoroso é denunciado por uma carta anônima, levando o marido traído ao suicídio. Arrependido, e arrefecidos os sentimentos, João Valério afasta-se de Luisa, continuando, porém como sócio da firma. O título do Livro, Caetés, é a aproximação que faz o Autor com selvagem caeté, devorando o Bispo Sardinha (1602-1656) numa correspondência simbólica com a antropofagia de João Valério "devorando" Adrião, o rival. João Valério é, ao mesmo tempo, homem e selvagem: "Não ser selvagem! Que sou eu senão um selvagem, ligeiramente polido, com uma tênue camada de verniz por fora? Quatrocentos anos de civilização, outras raças, outros costumes. É eu disse que não sabia o que se passava na alma de um caeté! Provavelmente o que se passa na minha com algumas diferenças."

Caetés dá a impressão, quanto ao estilo e análise, de deliberado preâmbulo; um exercício de técnica literária mediante o qual pôde aparelhar-se para os grandes livros posteriores. Publicado em pleno surto nordestino (1933), contrasta com os livros talentosos e apressados de então pelo cuidado da escrita e o equilíbrio do plano. Dá idéia de temporão, de livro nascido aos dez meses, espiritualmente vinculado ao galho já cedido do pós-naturalismo, cujo medíocre fastígio foi depois de Machado de Assis e antes de 1930. Nele, vemos aplicadas as melhores receitas da ficção realista tradicional, quer na estrutura literária , quer na concepção da vida.

A atmosfera geral do livro se liga também à lição pós-naturalista, onde encontramos a celebração dos aspectos mais banais e intencionalmente anti-heróicos do quotidiano. A intenção do autor parece Ter sido horizontalizar ao máximo a vida dos personagens, as relações que mantém uns com os outros. Exceto o narrador, João Valério, os demais são delineados por meio de aspectos exteriores, em que se vão progressivamente revelando. O autor não apenas procura conhecê-los através do comportamento , como se revela amador pitoresco da morfologia corporal, definindo-lhe o modo de ser em ligação estreita às características somáticas: fisionomia, tiques, mãos, papada de um olho esbugalhado de outro, barbicha de um terceiro. Apresenta-os por esta edição de pequenos sinais externos, completando-os aos poucos no decorrer do livro, não sem alguma confusão, que requer esforço do leitor para identificar os nomes chamados à baila. E assim vemos de que modo a minúcia descritiva do naturalismo colide neste livro com uma qualidade que se tornará clara nas obras posteriores: a discrição e a tendência à elipse psicológica, cujo correlativo formal é a contenção e a síntese do estilo. "Com a pena irresoluta, muito tempo contemplei destroços flutuantes. Eu tinha confiado naquele naufrágio, idealizara um grande naufrágio cheio de adjetivos enérgicos, e por fim me aparecia um pequenino naufrágio inexpressivo, um naufrágio reles. E outro: dezoito linhas de letra espichada, com emendas." A vocação para a brevidade e o essencial aparece aqui na busca do efeito máximo por meio dos recursos mínimos, que terá em São Bernardo a expressão mais alta. E se Caetés ainda não tem a sua prosa áspera, já possui sem dúvida a parcimônia de vocábulos, a brevidade dos períodos, devidos à busca do necessário, ao desencanto seco e humor algo cortante, que se reúnem para definir o perfil literário do autor.

 

 

 

 

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Angústia - Graciliano Ramos- Resumo

Publicado em 1936, Angústia, de Graciliano Ramos, é dos romances mais ricos que a Literatura Brasileira produziu, pois consegue passear tanto pelo campo social, quanto pelo existencial, psicológico e até metalingüístico.

Primeiramente, pode-se interpretar a obra como reveladora da crise resultante da mudança de sistema, o que se vê pelas transformações que se processaram geração após geração, de Trajano, senhor de terras que fora poderoso, passando por seu filho, Camilo, que sedimenta a derrocada, terminando em Luís da Silva, o narrador, fruto de todo esse declínio.

Nesse contexto, o conflito que se estabelece entre o protagonista e Julião Tavares, este tomando daquele a posse da afeição de Marina, pode ser entendido como representação de uma nova ordem que se está estabelecendo e para a qual Luís da Silva estava completamente inadaptado.

Tal metamorfose abre caminho para um tema típico de Graciliano Ramos, que é a opressão, representada por Julião Tavares, descendente de uma família de ricos comerciantes, e que usa o dinheiro para conquistar mulheres, aproveitar-se delas e depois largá-las em meio à desonra sexual (antes mesmo de estabelecer seu relacionamento com Marina, Julião Tavares já carregava uma história escandalosa com outra moça pobre. Livrara-se do transtorno graças ao seu poder econômico).

Como oposição, Luís da Silva é o oprimido, tendo tudo em seu histórico caminhando para o seu rebaixamento. Além de ser preterido por Marina sem qualquer justificativa, tem um histórico de vida recheado de dificuldades. Com a morte do pai, vê-se desamparado, vivendo de favor de casa em casa. Parte, tornando-se retirante, chegando a dormir nos bancos de praça e a pedir esmolas. Até que vira um humilde funcionário público, o que lhe dá um equilíbrio precário, pois se atola em dívidas, aumentadas com as despesas iniciais para o parco enxoval do casamento que havia assumido. Mora numa casa decrépita em uma vizinhança mais decrépita ainda, exageradamente preocupada em cuidar da vida alheia. Tem como empregada uma senhora cheia de manias, que acompanha pelos jornais com paixão as chegadas e partidas de navios e enterra seus trocados no fundo do quintal (tal oposição fica bem simbolizada pelo relato que o narrador faz do comportamento dele e de Julião Tavares nos bancos do bonde. Este sempre tomava de forma desabrida mais de um lugar. Aquele fazia o máximo possível para não incomodar ninguém, chegando até a repousar de forma dolorosa meia nádega).

No entanto, Luís da Silva é um oprimido não de todo submisso. Por pressões de toda a sua criação e do histórico de vida, aprendeu a ser humilde; porém, tem a vontade de oprimir também, mas essa fica sufocada. Ainda assim, seu vocabulário e as opiniões que expressa sobre as pessoas revelam um caráter rude, amargo e, principalmente, déspota, denunciador de uma personalidade que remói uma decepção em relação ao meio em que vive e à sua existência (de uma certa forma, esses dois aspectos, o pessoal e o social, estão fortemente ligados).

Essa sua índole faz-nos desconfiar, portanto, dos ideais revolucionários (tênues, por sinal) que chega a alimentar. Tem a expectativa de que o socialismo, tão pregado por Moisés, um amigo judeu, efetive-se. Assim, Julião seria enforcado e Marina se dedicaria a trabalhos assistenciais. Na realidade, não há preocupação com justiça social, mas apenas desejo de desforra, de vingança. Tanto que o próprio narrador tem uma postura misantropa, achando-se superior à massa, ao proletariado, principalmente quanto ao domínio da linguagem. Outro argumento que põe em dúvida seus ímpetos socialistas é o fato de achar ruim Julião Tavares espalhar filhos pelo mundo e não ter juízo negativo quanto ao seu próprio avô, Trajano, que fez o mesmo entre as mulheres que andavam em suas terras.

Aliás, a preocupação com o domínio das técnicas de comunicação, principalmente a escrita, perpassa todo o romance. O narrador avalia as demais personagens pela relação que estabelecem com o código lingüístico. Marina tem sua futilidade em parte causada pelas leituras que realiza (seria uma referência a Luísa, de O Primo Basílio, romance de Eça de Queirós? Lembre-se de que é notória a ligação de Graciliano Ramos à literatura do grande escritor realista português). Julião Tavares possui linguagem empolada, dotada do formalismo oficial, excelente para expressar seu patriotismo vazio, retórico (referência ao Conselheiro Acácio, de O Primo Basílio?). Moisés não tem o Português como língua mãe, o que torna o seu falar carregado de sotaque e em momentos cheio de perífrases que substituem uma expressão exata que provavelmente não consegue encontrar. Seu Ramalho, pai de Marina, tem sempre as mesmas histórias, contadas da mesma forma, sem colorido.

No campo da linguagem, de fato, Graciliano Ramos constrói um romance muito bem sucedido. Tudo é de uma economia surpreendente, nada é desperdiçado, nada é gratuito, cada detalhe contribuindo para o sentido geral da obra. O vermelho da maquiagem de Marina, seus sapatos, suas roupas contribuem para que se vislumbre uma personagem por demais sensualizada, estouvada e vazia, já que se preocupa apenas com as aparências. As pulgas, percevejos e principalmente os ratos que infestam o ambiente em que mora o protagonista não só representam a situação falida em que se encontra, como também simbolizam o aspecto baixo, degradante das pessoas que o cercam, ou como ele as vê.

Mas a principal simbologia é aquela que antecipa (dentro da extrema economia do romance, há muitas simbologias que servem para antecipar fatos. Lembre-se da grávida em quem Luís da Silva esbarra na rua. É um elemento que funciona como uma premonição. Já ficamos preparados para a bombástica notícia da gravidez de Marina) o crime que será cometido no final da narrativa. Fala-se constantemente dos fios da companhia de energia elétrica ou então do cano que está vazando (aliás, as idéias de umidade, oleosidade e viscosidade, presentes em água, urina, saliva, suor, entre outros aspectos citados no romance, é muito comum na obra) na casa do protagonista ou, até de forma obsessiva, da cobra que se havia enroscado no pescoço de Trajano. Todos esses objetos estão ligados à corda que o pedinte Ivo dá para Luís da Silva, despertando neste, desejos homicidas.

Sua vontade será saciada. Sufocado com a idéia de ter sido abandonado, indignado com o fato de Marina ter sido largada pelo cortejador, o que apressou nela um processo de decadência que culminou até no recurso criminoso do aborto, o protagonista atinge o ponto de ebulição quando toma conhecimento de que Julião Tavares estava impunemente de caso novo. De maneira doentia vigia os passos do seu oponente, até que numa madrugada surpreende-o voltando da casa da amante recente. Com a corda, que não saía do seu bolso, estrangula-o. Deixa-o pendurado numa árvore, a simular um enforcamento.

Tal delito, como se percebe, mostrava-se fruto de uma angústia em que se via Luís da Silva. É interessante lembrar que esse sentimento, freudianamente, é resultado de um desejo sexual não realizado. Pode parecer extrapolação de interpretação, mas vale a pena lembrar que a sexualização é outro elemento recorrente na obra. A maneira como o protagonista deseja Marina atinge um nível quase insano. D. Mercedes, vizinha do narrador, é amásia de um figurão da sociedade, o que lhe garante seu sustento. Veste-se de forma chamativa, de forma a angariar a admiração de Marina. Um dos seus vizinhos, o mais recluso e apelidado de Lobisomem, é vítima da maledicência da rua, que o acusa de abusar de suas próprias filhas. Ou então a forma ruidosa – a ponto de toda a vizinhança ouvir – em que D. Rosália e seu marido faziam amor.

Toda essa erotização acumula-se de forma torturante em Luís da Silva, inspirando-lhe críticas moralistas as mais ácidas, mas que no fundo revelam ser recalques, ou seja, resultado de desejos não realizados. Tudo se torna uma bomba de efeito retardado, que, enquanto não é detonada, vai massacrando a existência do narrador, mergulhando-o numa verdadeira angústia obsessiva. Quando se pensa que é descarregada graças ao assassinato de Julião Tavares, descobre-se que a situação não está resolvida, pois o protagonista cai em outra tortura mental, um misto de culpa e medo de ser descoberto. Não tira mais da cabeça a idéia de conseguir perder a consciência. Cai, portanto, mais uma vez, na angústia, piorada pelo fato de não poder livrar-se de sua agonia.

Esse aspecto é tão forte a ponto de nortear a narrativa, que se mostra circular, não-linear (mas bastante coesa). Começa-se o livro em meio às reflexões de Luís da Silva, de mãos feridas, que não consegue realizar o seu serviço, pois em todo canto vê o rosto de Julião Tavares e se lembra do esganamento. Acompanhamo-lo, então, em seu mergulho na rememoração de todo o contexto que gerou o assassinato. É uma sondagem existencial que vai vasculhar a memória do narrador (o mais interessante é que, como dizia um crítico, quando realiza uma fuga para a infância, não percebe que está indo justamente na direção das causas de todos os seus problemas), o que faz de Angústia uma obra que antecipa o romance intimista ou o psicológico. Nesse ponto, é interessante ver como os fatos vão puxando outros e compondo, no final de uma narrativa impressionantemente em nada caótica, o todo de uma personalidade em que o aspecto psicológico interpenetra-se ao social.

É bastante significativo, quanto a essa técnica de efabulação, o modo em que o elemento exterior acaba-se misturando ao interior, comunicando-se. Veja como isso ocorre no trecho abaixo.

Não me continha: saía de casa e andava à toa por estas ruas, fatigando-me em caminhadas longas. O inverno tinha começado, quase sempre caía uma chuvinha renitente. Ia sentar-me num banco da Praça dos Martírios, e os pingos que tombavam da folhagem das árvores molhavam-me a cabeça descoberta e escaldada. A sentinela cochilava no portão do palácio. Ao pé do morro, pedaços da igreja fechada apareciam entre os ramos. Um barulho horrível de motores e rodas. Automóveis a roncar. Todos queimavam gasolina misturada com perfume. Depois um rádio começava a trovejar óperas. O cheiro e o som tornavam-se insuportáveis. Esforçava-me por esquecer o nariz e o ouvido, abria os olhos. A sentinela cochilava encostada ao fuzil. Serviço pau. Um pobre homem dormindo em pé. Acordava, escancarava a boca, via com tédio as grades do jardim, o hall deserto, a escada ao fundo, vermelha. O tapete vermelho da escada me dava impressão desagradável. Podia ser de outra cor. As luzes do farol mudavam de minuto a minuto, branca, vermelha, branca, vermelha. Porque não aparecia uma terceira cor? Aquilo era irritante, mas o farol me atraía. Pelo menos variava mais que a sentinela, tinha mais vida que a sentinela.

Nesse excerto, Luís da Silva está atormentado com a idéia de Marina ir de carro à ópera na companhia de Julião Tavares. As lembranças da moça vestida de forma chique e seu perfume misturando-se à gasolina do veículo, além do vermelho, cor predileta dela e sua marca registrada, vão-se fundir de forma obsessiva, ecoando em vários elementos da praça. O mundo externo, na verdade, passa a ser visto filtrado e reinterpretado pelo transtorno mental do narrador. Ou melhor, deturpado.

Essa confusão mental constrói-se de forma tão intensa que monta um processo de esquizofrenia no qual o protagonista extrapola na mistura entre realidade e imaginação, o que revela uma mente doente e massacrada pelo meio, já que, alijada do sistema a que pertence e de suas benesses, acaba se tornando aleijada. É o que se percebe no excerto a seguir.

“Como seria a cara de d. Albertina? Imaginei-a magra, pálida, séria, correta. Não havia motivo para Marina esconder os olhos.

- Faça o favor de descobrir o rosto. Não se acanhe. Tão natural!

Depois voltariam as regras.

- Dois meses? Perfeitamente. Agora a senhora toma precauções, usa isto, usa aquilo.

Exatamente como se Marina estivesse no consultório de um médico, sarjando um tumor. Nenhum sinal de crime ou de ação proibida. A seringa na água que borbulhava, um frasco sobre a mesa da cabeceira, quadros de anatomia nas paredes, a chama do álcool tremendo, a voz calma de d. Albertina a prescrever medidas de segurança. Uma senhora pálida e franzina, de rosto sereno e boas intenções.

- Não se acanhe. Fique à vontade.

Nenhuma alusão a qualquer espécie de falta. Direita, fria, falando baixinho, empregando termos escolhidos.

Mas porque era que d. Albertina, parteira diplomada, com longa prática, deveria ser assim e não de outra forma? Talvez fosse diferente. Os anúncios não valem nada, papel agüenta tudo (A desconfiança e a depreciação da linguagem escrita é um tema muito comum na obra de Graciliano Ramos. Lembre-se de que em Vidas Secas Fabiano pensa que as palavras difíceis (comuns na forma impressa), apesar de sedutoras, deviam esconder ladroagens. Paulo Honório, em São Bernardo, considerando-se homem prático, acha o discurso literário e seus “floreios” algo inútil. Luís da Silva não escapa dessa mitologia, o que é interessante, pois é uma personagem que está do outro lado da questão, já que domina o código impresso. Está acostumado a redigir textos agressivos com opiniões das quais não participa, muitas vezes até contraditórias entre si; fá-lo apenas porque está sendo pago. Por isso chega a pôr descrédito em relação ao que abstratamente se chama “opinião pública”, montada que é de uma forma tão inautêntica), como dizem os matutos. D. Albertina era uma velha gorda e mole, sem diploma nem prática, de óculos ordinários e hálito desagradável, mal-educada, resmungona. Marina estava deitada numa cama nojenta; nas paredes nojentas não havia gravuras de anatomia: havia quadros de santos, retratos coloridos, páginas de revistas. Sem lavar as mãos duras, de unhas compridas e negras, d. Albertina examinava brutalmente o corpo de Martina, arranhando-a,machucando-a, rosnando:

- Era melhor deixar-se de vergonhas e descobrir a cara. Quando andam na pândega, não têm esses luxos. E depois parem bem na bananeira. Feias coisas.

Mostrava os dentes amarelos de selvagem. Seria assim d. Albertina? A cliente mordia as cobertas sujas, continha a respiração, fechava os olhos, apertava as coxas e engolia o choro.

- Abras as pernas, criatura. Donde vêm esses dengues? Assim ninguém pode trabalhar.

O dinheiro do trabalho fora recebido adiantadamente. Marina dera nome falso e endereço errado, temendo a exploração de d. Albertina.

- Não vale a pena a senhora se incomodar. Eu apareço, compreende? Se houver necessidade, eu apareço.

- Quanto devo?

O homem cabeludo deu a conta. Joguei uns níqueis no balcão, disse frases sem sentido (...)”

É importante reparar como a imaginação de Luís da Silva, ao retratar a parteira que fará o aborto em Marina, oscila radicalmente entre o idealizado e o grotesco em questão de instantes, enquanto está no bar em frente, espionando sua ex-noiva em sua “consulta”. E o faz de maneira tão viva que é como se o imaginário fosse de fato real. Além disso, reforçando o que foi dito anteriormente, há ainda a mistura, no último discurso direto, entre o plano interno-imaginário (a quantia a ser paga pelo aborto) e o planto externo-real (a quantia a ser paga pela bebida).

Enfim, por todos esses motivos Angústia encaixa-se facilmente entre os tesouros que a Literatura Brasileira apresentou até agora, merecendo ser mais do que lido – tem de ser degustado em outras situações que não a sufocante em que todo vestibulando se encontra.

 

 

 

 

 

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Memórias do Cárcere - Graciliano Ramos - resumo

Durante o período que permaneceu na secretaria da educação revolucionou os métodos de ensino da época. No entanto, devido as suas idéias, consideradas "extremistas", foi demito em 1936.

Ainda nesse ano, precisamente no dia 3 de março, é preso sob a acusação de ligação com o Partido Comunista. A acusação é falsa, pois Graciliano se entraria para o PCB em 1945. Mesmo sem acusação formal ou julgamento, é deportado para o Rio de Janeiro, onde permanece encarcerado até 1937. Dessa experiência resultou a obra "Memórias do cárcere", que só começou a ser escrita em 1946 “Resolvo-me a contar, depois de muita hesitação, casos passados há dez anos”.

A obra "Memórias do cárcere", publicada somente 1953, foi transformada em filme por Nelson Pereira dos Santos.

Depois de ser libertado da prisão, Graciliano ficou morando no Rio de Janeiro em um quarto de pensão, com a mulher e os filhos menores.

“Estou a descer para a cova, este novelo de casos em muitos pontos vai emaranhar-se, escrevo com lentidão - e provavelmente isto será publicação póstuma como convém a um livro de memórias.”

Em Memórias do Cárcere, publicação póstuma, Graciliano Ramos ocupou seus últimos anos, tornando públicos, “depois de muita hesitação”, acontecimentos da sua e da vida de outras pessoas, políticos ou não, intelectuais ou não, homens e mulheres, presos durante o Estado Novo.

Nos três primeiros parágrafos do livro ele se explica, justificando a demora de dez anos. E, depois, resolvido a escrever, sabe que sua narrativa será amarga: “Quem dormiu no chão deve lembra-se disto, impor-se disciplina, sentar-se em cadeiras duras, escrever em tábuas estreitas. Escreverá talvez asperezas, mas é delas que a vida é feita: inútil negá-las, contorná-las, envolvê-las em gaze”.

O intuito de Graciliano se realizou. Fiel aos acontecimentos, não escondeu, não negou, não exagerou: “Escreveu, realmente, com exatidão espantosa, com rigor excepcional. Tudo o que é negro, em sua narração, é negro pela própria natureza, o que é sórdido porque nasceu sórdido, o que é feio é mesmo feio. Não há pincelada do narrador no sentido de frisar traços, de agravar condições, de destacar minúcias denunciadoras.”(Nélson Werneck Sodré, prefácio de Memórias do Cárcere).

Em 1936, quando esteve preso no pavilhão dos primários, na Casa de Detenção, Graciliano conheceu Vanderlino, “um homem útil”, habilidoso, capaz de esculpir peças de um jogo de xadrez depois de dividir um cabo de vassoura em 32 pedaços iguais. Criminoso comum, homem humilde, foi ele quem, mais tarde, na Colônia Correcional, apresentou um amigo a Graciliano. “Admirou-me a franqueza de Vanderlino ao dizer o nome e o ofício do personagem: -Gaúcho, ladrão, arrombador.”

Gaúcho virou amigo de Graciliano, querendo aparecer em seus livros (“Eu queria que saísse o meu retrato”) e, além de personagem em Memórias do Cárcere, é citado também no conto “Um Ladrão”, de Insônia, história da ineficiência de um aprendiz seu num roubo que fizeram juntos. Esta foi uma das muitas histórias que Gaúcho contou a Graciliano, ouvinte atento. E assim a amizade entre eles cresceu, dentro dos muros, desinteressada e sincera.

Quando estuda o testemunho de Graciliano sobre a prisão, Nélson Werneck Sodré lembra que “Cubano e Gaúcho”, criminosos comuns, saltam destas páginas para adquirirem dimensões humanas, denunciam-se como criaturas, apesar de terem vivido sempre entre comparsas.” (Adaptado de Viviana de Assis Viana, em Lit. Comentada: Graciliano Ramos).

Do filme de Nélson Pereira dos Santos:

Adaptação de 'Memórias do Cárcere' por Nelson Pereira evoca a tendência do Brasil a ter governos arbitrários INÁCIO ARAUJO
Crítico de Cinema
Filme: Memórias do Cárcere
Produção: Brasil, 1983
Direção: Nelson Pereira dos Santos
Elenco: Carlos Vereza, Glória Pires
Onde: hoje, às 21h, no Espaço Banco Nacional de Cinema
 

É quando não se espera nada de Nelson Pereira dos Santos que ele sai com tudo. "Memórias do Cárcere" sucedeu uma fieira de filmes pelo menos duvidosos e chegou em um momento já declinante do cinema brasileiro.
Havia, portanto, mais de um motivo para duvidar de seu êxito. A surpresa não esperou o fim dos letreiros de apresentação: bastou o achado inicial (a fantasia sobre o Hino Nacional composta por Gottchalk) para que qualquer um na sala notasse que o filme bateria fundo.

O que vem a seguir não desmente a primeira impressão. Sempre usando essa música como leitmotiv, Nelson Pereira reconstitui a aventura de Graciliano Ramos (o filme é baseado em seu livro autobiográfico) com sentido de época apurado (a ditadura Vargas), sem perder de vista o presente.
Falava-se, no fundo, da seqüência de governos arbitrários a que o Brasil é sujeito. E nesse sentido é que a fantasia sobre o hino funciona de maneira formidável. Sem que se diga uma palavra, sem incorrer no vício da presentificação de um tema histórico, o filme consegue ir além do livro e evocar uma espécie de destino nacional, uma continuidade, um mesmo fluxo evocado pelo motivo condutor.
O filme não depende apenas dele. Da interpretação dos atores principais (Carlos Vereza e Glória Pires) 'a evolução de uma trama em que se acumulam episódios por vezes tocantes (a prisão de Olga Benario e seus contatos com Prestes, antes da deportação), Nelson Pereira constitui uma história íntima do Brasil sob o Estado Novo.

Faz dialogar o privado e o público, o pessoal e o político, com uma desenvoltura digna de "Vidas Secas", seu trabalho mais famoso (e também baseado em Graciliano). Não será demais lembrar que esse foi o último grande trabalho de José Medeiros, um dos fotógrafos que mais marcaram o cinema brasileiro desde os anos 60.

 

 

 

 

 

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São Bernardo - Graciliano Ramos - resumo

PERSONAGENS:

Paulo Honório: um dos protagonista da obra, é um capitalista tacanho, ou seja o homem que faz por si mesmo;

Madalena: a outra protagonista, delicada e instruída;

Luis Padilha: proprietário do São Bernardo, filho do ex-patrão de Paulo Honório;

D. Gloria: tia de Madalena;

Casemiro:capanga que ajudou Paulo a matar Mendonça, o velho da fazenda ao lado;

João Nogueira:o advogado;

Ribeiro:o guarda-livros;

Silvestre:o padre;

Gondim:o jornalista;

Abandonado pelo pai, criado por uma negra, a doceira Margarida, Paulo Honório, aos dezoito anos, tem a primeira experiência sexual, de que decorre a primeira violência: esfaqueia João Fagundes, quando este se engraça com Germana, a "cabritinha sarará" que possuiu.

Neste tempo, já pensava em ganhar dinheiro, sendo que trabalhos na enxada até então, dentre outros lugares em São Bernardo, onde permanecera no eito e de que desejava se tornar senhor.

Emprestando dinheiro a juros, negociando no sertão, passando fome e sede, Paulo Honório acumula algum capital e com ele volta à sua terra, município de Viçosa, Alagoas. Aí ficava a fazenda de São Bernardo, cujo novo dono, Luis Padilha - filho do falecido patrão de Paulo, Salustiano Padilha - é beberrão, mulherengo e incompetente.

Aproxima-se então de Padilha com o propósito calculado de tirar-lhe a propriedade. Consegue ter êxito fazendo-se seu amigo, emprestando-lhe dinheiro, dando-lhe maus conselhos sobre o cultivo da fazenda. Quando vence a ultima letra que Padilha devia a Paulo, dirige-se a São Bernardo (fazenda) e praticamente rouba a propriedade de Padilha, que, arruinado, acaba por vendê-la a preço irrisório.

Com violência e determinação, Paulo Honório, começa a reconstruir a fazenda. Através do Capanga Casemiro Lopes, assassina o velho Mendonça, da propriedade vizinha. Invade os domínios vizinhos, compra maquinas, empresta dinheiro de bancos, comete grandes e pequenas violências, ganha causas no fórum graças a trapaças de João Nogueira, o advogado que o protegia.

Além do capanga e do advogado, Paulo Honório contava com o jornalista Gondim, com o Padre Silvestre e com os políticos da terra, que manejava de acordo com os seus interesses, a fim de vencer. Reconstruída a casa, iniciada a pomicultura, a avicultura, a plantação de algodão, e Paulo Honório resolve-se casar-se.

Conhece Madalena, a professora da Vila, e simpatiza com ela. na mesma determinação, no mesmo pragmatismo com que conseguiu a posse e o progresso de São Bernardo, consegue desposá-la. Madalena muda-se para a fazenda em companhia da tia Glória.

A vida de Paulo Honório modifica-se a partir dai num processo lento, mas fatal de ruína: Madalena, humanitária e esclarecida, interfere em sua rotina de domínio e de exploração. Ajuda os empregados e melhora a situação da escola que Paulo Honório construíra na fazenda apenas para "agradar"o governador (cujo o professor era Luis Padilha, o antigo dono da São Bernardo). Trabalha com o guarda-livros, o seu Ribeiro, mostrando uma conduta que Paulo considerava inadequada às mulheres: comunista e intelectual. As brigas entre Madalena e Paulo Honório continuam desde o casamento. Isso por causa da generosidade de Madalena e da violência de Paulo Honório.

Madalena não resiste aos maus tratos do marido e suicida-se. Com a sua morte Paulo Honório vai perdendo outras pessoas: D. Glória, seu Ribeiro, o Padilha, e também a obsessão de produzir e ganhar dinheiro.

A revolução de 30 dificulta-lhe os negócios e ele não reage. São Bernardo fenece sob os olhos indiferentes do proprietário, que começa então a sentir a derrota de sua antiga imponência: a presença de Madalena perseguindo-o, denunciando a coisificação estúpida que imprimiu em tudo de que se aproximou.

Através de lá, a quem a amava, sem conhecer esse sentimento, Paulo Honório compreende o "aleijão" que se tornara. Deformado pela profissão, que o afastou das pessoas e das relações humanas, substituindo-as por relações de posse, de domínio, de poder. Ele reconhece a própria monstruosidade.

Impotente para se transformar, sem ter simpatia pelos infelizes que o rodeiam, inclusive pelo filho de três anos, desconfiado de tudo e de todos, Paulo Honório amarga a solidão e isolamento escrevendo um romance e buscando, assim , o sentido da sua vida.

Composto por trinta e seis capítulos, este romance combina a objetividade e concisão do enredo com a subjetividade e a emoção revelada nos monólogos. Eles intensificam a dramática da narração, interrompendo-a.

São Bernardo - Graciliano Ramos -

adap. do site: A Literatura Kit.net (http://geocities.yahoo.com.br/dariognjr69/resumo/bernardo.html)

O social e o psicológico se fundem em São Bernardo para criar uma obra de profunda análise das relações humanas. Este é, sem dúvida, um dos romances mais densos da literatura brasileira. Uma das obras-primas de Graciliano, é narrado em primeira pessoa por Paulo Honório, que se propõem a contar sua dura vida em retrospectiva, de guia de cego a proprietário da Fazenda São Bernardo. Ele sente uma estranha necessidade de escrever, numa tentativa de compreender, pelas palavras, não só os fatos de sua vida como também a esposa, suas atitudes e seu modo de ver o mundo. A linguagem é seca e reduzida ao essencial. Paulo Honório narra a difícil infância, da qual pouco se lembra excetuando o cego de que foi guia e a preta velha que o acolheu. Chegou a ser preso por esfaquear João Fagundes por causa de uma antiga amante. Possuidor de fino tato para negócios, viveu de pequenos biscates pelo sertão até se aproveitar das fraquezas de Luís Padilha - jogador compulsivo. Comprou-lhe a fazenda São Bernardo onde trabalhara anos antes. Astucioso, desonesto, não hesitando em amedrontar ou corromper para conseguir o que deseja, vê tudo e todos como objetos, cujo único valor é o lucro que deles possa obter.
Trava um embate com o vizinho Mendonça, antigo inimigo dos Padilhas, por demarcação de terra. Mendonça estava avançando suas terras em cima de São Bernardo. Logo depois, Mendonça é morto enquanto Honório está na cidade conversando com Padre Silveira sobre a construção de uma capela na sua fazenda. São Bernardo vive um período de progresso. Diversificam-se as criações, invade terras vizinhas, constrói açude e a capela. Ergue uma escola em vista de obter favores do Governador. Chama Padilha para ser professor.

Estando a fazendo prosperando, Paulo Honório procura uma esposa a fim de garantir um herdeiro. Procura uma mulher da mesma forma que trata as outras pessoas: como objetos. Idealiza uma mulher morena, perto dos trinta anos, e a mais perto da sua vontade é Marcela, filha do juiz. Não obstante conhece uma moça loura, da qual já haviam falado dela. Decide por escolher essa. A moça é Madalena, professora da escola normal. Paulo Honório mostra as vantagens do negócio, o casamento, e ela aceita.
Não muito tempo depois de casado, começam os desentendimentos. Paulo Honório, no início, acredita que ela com o tempo se acostumaria a sua vida. Madalena, mulher humanitária e de opinião própria, não concorda com o modo como o marido trata os empregados, explorando-os. Ela torna-se a única pessoa que Paulo Honório não consegue transformar em objeto. Dotada de leve ideal socialista, Madalena representa um entrave na dominação de Honório. O fazendeiro, sentindo que a mulher foge de suas mãos, passa a ter ciúmes mórbidos dela, encerrando-a num círculo de repressões, ofensas e humilhações. O casal tem um filho mas a situação não se altera. Paulo Honório não sente nada pela sua criança, e irrita-se com seus choros. A vida angustiada e o ciúme exagerado de Paulo Honório acabam desesperando Madalena, levando-a ao suicídio.

É acometido por imenso vazio depois da morte da esposa. Sua imagem o persegue. As lembranças persistem em seus pensamentos. Então, pouco a pouco, os empregados abandonam São Bernardo. Os amigos já não freqüentam mais a casa. Uma queda nos negócios leva a fazenda a ruína. Sozinho, Paulo Honório vê tudo destruído e, na solidão, procura escrever a história da sua vida. Considera-se aleijado, por ter destruído a vida de todos ao seu redor. Reflete a influência do meio quando afirma: "A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste."

Renato Lima

 

 

 

 

 

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Vidas Secas - Graciliano Ramos - resumo

Capítulo 1: Mudança

Os sertanejos Fabiano, o pai, Sinhá Vitória, a mãe, os dois meninos, acompanhados pela cachorra Baleia e o papagaio de estimação atravessavam a Caatinga pernambucana.

Desalentados pela seca, pelo sol forte, pela fome, pela sede, pelo cansaço de existirem seguem arrastando seus mulambos por dentro dos leitos dos rios esturricados. Procuram lugar, o menino mais novo acaba desmaiando diante das tamanhas imposições da vida. Fabiano aperta-lhe com a espingarda, com o facão, com as ameaças guturais, mas o excomungado não se mexe. Fabiano, então se compadecem do filho ao ver os urubus fazendo seus giros entre o sol e o chão esturricado. Carregou-o nas costas, como um pacote; e seguiam. Agora mais vagarosamente, porém ele tinha que seguir viagem. Era sua perseverança. Ele não sabia para onde ir, mas tinha de prosseguir. A morte do papagaio, aquela noite, trouxe a todos uma mistura de alegria trágica e tristeza esperançosa. Afinal, era sempre assim, andavam sempre divididos. Divididos entre a perda e a necessidade. Num dia de sorte, a cachorra baleia caçou um preá dos bons. Aquela caça dava o tom da emoção e da salvação desses viventes. Sinhá Vitória, como se beijasse, lambia o sangue do preá que escorria pelas ventas da cachorra.

Capítulo 2: Fabiano

Os infelizes chegaram, então, a uma fazenda abandonada e seca, em que pouco vivo restava. Restos suficientes para alegrar a todos, sobretudo, Fabiano, que, agora, sentia-se relaxado, sentia-se homem. Ou melhor, um bicho. Sim, um bicho. Orgulhava-se, afinal que importava?! Eles estavam vivos. E somente bichos poderiam sobreviver àquelas circunstâncias. Fabiano orgulhava-se de ser um bicho. Um cabra. Cabra vivendo em terra alheia, cuidando de coisas alheias; ele entendia-se bem com a natureza. Sua vida seca e difícil o reduzira à condição natural: era um bicho, grugunhia como bicho, relacionava-se com a família como um bicho e era feliz assim. Recordava-se de seu antigo patrão: seu Tomás da bolandeira, homem culto, inteligente, só não sabia mandar. Imaginem, em vez de mandar, pedia. Era um absurdo. Pedir?! Isso lá era jeito de tratar empregado. Fabiano admirava seu Tomás, tentava imitá-lo no jeito de falar, tentava imitar palavras difíceis de modo enrolado e incompreensível, de qualquer maneira, pois eram muito melhores que seus poucos bocejos.

Capítulo 3: Cadeia

O dono da fazenda finalmente apareceu. Ainda bem, pois a fazenda estava “cuidadinha”. Deu a Fabiano o cargo de capataz. Agora iriam viver. Teriam até dinheiro.

Fabiano foi então à vila para fazer feira com o dinheiro emprestado e para vender um porco que matara. Porém, o fiscal do governo exigiu-lhe imposto e o impediu de vender a carne.

Na mercearia do seu Inácio, Fabiano acaba se envolvendo em um jogo de cartas com o soldado amarelo. Perdeu o dinheiro. Sentindo-se desolado diante da situação, retirou-se bruscamente do jogo. Como iria explicar à família aquilo?!

O soldado amarelo considerou aquilo uma ofensa, prendeu Fabiano, surrou-o humilhantemente na cadeia. Durante a noite inteira, sua mente não se acerta, fica confusa, uma mistura de revolta e desalento.

Capítulo 4: Sinhá Vitória

Sinhá Vitória está desiludida, a situação do dia-a-dia piora cada vez mais. seu sonho de ter uma cama de couro, como a do antigo patrão, Seu Tomás, fica cada vez mais distante. Como conseguí-la? Gasta tempo tentando dar alguma esperança ao sonho, mas a vida é mais forte. A miséria impõe-se cada vez mais fortemente, já anda perdendo a paciência com os meninos, com a Baleia, com o Fabiano. Tenta a todo custo manter o sonho, o sonho de que um dia viverá com o mínimo de dignidade. Essa possibilidade de que um dia tudo seria diferente já fazia a diferença. Por muitas vezes ela sentia-se quase feliz.

Capítulo 5: O menino mais novo

O menino mais novo sentia realmente afeto pelo pai. Queria, quando adulto, ser vaqueiro como o pai. Não tinha nome, mas isso não tem importância, pois bicho não precisa de nome mesmo. Ficava imaginando o dia em que poderia montar uma égua alazã e guiar o gado, ao lado do pai, fazendo inveja para todos, até para o irmão mais velho.

Resolveu exibir a sua vocação: saiu montado em um bode cavalgando, e lá se foi para o fundo do barranco todo machucado, para as risadas do irmão mais velho, para a repreensão no olhar da Baleia.

Capítulo 6: O menino mais velho

O menino mais velho vivia observando o trabalho da mãe na cozinha. Sinhá Vitória vivia reclamando da vida: ê inferno, sempre dizia. Inferno: a palavra parecia tão carregada, cheia de sentido; o menino precisava saber o seu significado. Perguntava à mãe, foi insistente, perturbador, pois deixou a mãe numa situação muito difícil. A mãe não sabia explicar-lhe. Sentiu-se limitada e indignada acabou descontando seu desgosto no filho, que saiu humilhado e foi se consolar com sua fiel amiga Baleia, que, no entanto, estava concentrada na cozinha, onde sinhá Vitória preparava o osso com medula e até nacos de carne. Ele estava só, impedido de saber, de ter alguém para dividir as suas angústias.

Capítulo 7: Inverno

Com o inverno chegaram as chuvas no sertão. Sentada ao redor do fogo, a família se aquecia à noite. Conversavam continuamente sobre suas miragens: um nordeste sem seca, a caatinga verde, rapadura para comer, o gado gordo. Fabiano regatava-se. Mas mesmo a época de prosperidade não afastava as preocupações de Sinhá Vitória. Preocupava-se, pois, junto com as chuvas poderiam vir também as enchentes.

Capítulo 8: Festa

Fabiano e sua família foram passar o natal na cidade. O aperto das roupas e o desconforto causado pelos sapatos que eram estreados, juntamente com a sensação de ridículo que sentiam por estarem dentro de roupas que não eram de uso comum para eles comprometia a felicidade daquele momento. Felicidade que chegaram a sentir com a sensação de serem pessoas normais.

Na hora da missa, Sinhá Vitória tentava adquirir um vínculo positivo com a situação, tentava participar da cerimônia já os meninos estavam tomados pelo medo. Desolados viam os pais menores do que os santos, menores e mais insignificantes do que já eram, tão menores que aquela gente da cidade, e era tanta gente, tantas coisas novas. Cochichavam as tantas descobertas. Sentiam-se como selvagens, bichos do mato. Sentiam-se como Fabiano se sentia, preso, igual a quando estivera na cadeia. Resolveu então ir à bodega do Seu Inácio. Lá, bebeu, procurou briga, desafiou todos, sem obter resposta. Nem ele nem suas intrigas importavam para os outros. Humilhado, voltou para perto da família para agüentar aquele desconsolo de festa.

Capítulo 9: Baleia

Baleia ficou doente. Seus pêlos caíram, as costelas apareciam na pele rósea, onde manchas escuras convertiam-se em pus e sangravam. As chagas cobriam-lhe a boca de inchaço.

Fabiano resolveu matá-la, Sinhá Vitória achou precipitado, afinal, não estava louca. Fabiano achava que era hidrofobia, por isso não havia escolha.

Os meninos foram levados para dentro. Fabiano chamava a cachorra. Os meninos se desesperaram: vão bulir com a Baleia, não é mãe?!

Fabiano alcançou a cachorra perto do alpendre, estava irritado com a situação. Atirou. A carga atingiu a pata traseira de Baleia. A cachorra saiu de pernas tortas, arrastando-se em três delas para detrás de uma moita de espinhos. Sua consciência sumia-lhe. Era tarde. Precisava descansar.

Com um enorme esforço, tentava vencer o nevoeiro que tomava conta dela. A muito custo abriu os olhos e viu em sua frente Fabiano segurando um objeto ameaçador. Pensou em mordê-lo, mas como podia, depois de ter passado a vida toda na obediência, juntando o gado a um só sinal de seu dono. Ela pertencia a ele. Sabia disso.

Foi então que reparou em todos aqueles bichos soltos. Já era de noite, já era alucinação. Estranhou a ausência dos meninos. Tudo era uma noite de inverno, fria, gelada, nevoenta.

Ela queria dormir ali entre a cozinha e o alpendre, na pedra quente do fogão. Amanhecendo, acordaria feliz, lambendo a mão de um Fabiano enorme, as crianças rolariam com ela em um pátio imenso, o mundo ficaria cheio de preás, gordos, grandes, o nordeste seria um campo verdejante, cheio de árvores e bichos. Tudo seria diferente.

Capítulo 11: Contas

Fabiano foi até a casa do patrão para receber seu pagamento. O patrão apresentou-lhe cálculos que eram muito distintos daqueles que Sinhá Vitória havia preparado. Era tão pouco e injusto. Fabiano, de impulso, reclamou, proferiu com blasfêmias. O patrão tentou justificar-se dizendo que contavam-se ali os juros pelos empréstimos antecipados. Provavelmente, os cálculos estavam certos.

Fabiano aceita a explicação, gente como o patrão não ia ter motivos para prejudicá-lo. Ele sempre fora respeitador e honesto, o patrão devia de ser também.

Porém, o sonho de se firmar naquela fazenda destorcia-se. A idéia de permanecer ali era abalada por uma ameaça, seria demitido?

Fabiano revolta-se. Por que tinha de ser sempre aquilo?!

Capítulo 12: O soldado Amarelo

Passado um ano de sua injusta prisão, Fabiano reencontra-se com o soldado amarelo perdido pela caatinga. Tinha nas mãos a chance de se vingar. Uma facada e ele mandava aquele sujeito para outro mundo. Aquilo era um covarde, se aproveitava da farda e da autoridade. Fabiano respeitava a lei. Por isso deixou aquele mulambo ir embora vivo. Fabiano possuía princípios.

Capítulo 13: O Mundo Coberto de Penas

A presença das aves de arribação representava a aproximação da nova seca. Fabiano tentava espantá-las atirando-nas, porém, em vão. Era a luta contra o destino, contra sua natureza cruel. Sua sina só era comparável à sina de Baleia. Uma desgraça total. Ao pensar no dono da fazenda e no soldado amarelo, Fabiano ficava à beira da loucura. Ele era um homem, ou antes um cabra safado. Se não fosse teria entrado para o cangaço. Tinha feito miséria. Tinha matado aquele fazendeiro injusto e aquele soldado desumano. Mas ele era um cabra safado. Voltou então para casa impotente e fraco.

Capítulo 14: Fuga

Com a nova seca, Fabiano juntou todas as coisas, a sua família e seguiu caminho. Mais uma vez estavam de mudança. Retirantes. Como as aves de arribação. Como bichos. Não tinham escolha. Recordavam-se da Baleia. Desconsolados, fugiam de madrugada. Era bom evitar o confronto com o patrão. Aquilo não era humano. No caminho o passo tinha de ser intenso. Seguiam: Fabiano, Sinhá Vitória, o menino mais velho, o menino mais novo. Para onde? Eles não sabiam. Sabiam que tinham que prosseguir. Estava escrito.

Fonte: Casemiro, Charles Borges

Literatura Comentada: Vestibulares Fuvest 2001

São Paulo: Edições Casemiro; 2000.

Sobre o filme de Nelson Pereira dos Santos:

Por: José Lino Grünewald

Crítica publicada no Jornal das Letras, edição de novembro de 1963

Vidas Secas constitui a melhor obra na filmografia de Nelson Pereira dos Santos, a depuração máxima do seu processo técnico que se inspirou nitidamente no surto do neo-realismo italiano. Isso, desde a primeira fita, Rio Quarenta Graus, embora uma realização desigual, já revelando o seu talento em uma ou outra seqüência. Na época, essa fita andou sendo proibida e combatida por objetivos políticos, sendo até taxada de comunista – era um dos lazeres a que ainda se permitiu o conservadorismo reacionário. Logo depois, tivemos Rio Zona Norte; e, apesar de se manter no âmbito na desigualdade, denotava-se um maior aperfeiçoamento nas soluções artesanais. Terminada essa produção, o diretor permaneceu um certo tempo parado em suas contribuições. Teria realizado Vidas Secas antes, mas surgiu uma série de contratempos e, então, fez primeiro Mandacaru Vermelho, um filme bastante menor, porém sofrendo o ingrato handicap das dificuldades de produção de haver se constituído mesmo numa espécie de película tapa-buraco entre um projeto e outro.

Vidas Secas somente agora chegou, mas valeu a pena esperar. Não vamos, de início, dizer, fazendo eco a um coro tipo torcida organizada, que se trata de um dos maiores filmes de todos os tempos. Seria até injusto para com o cinema, pois os excessos com a falta de senso das medidas só ajuda para prejudicar a necessária compreensão do público, no tocante aos problemas de ordem estética relativos à linguagem cinematográfica. Nem é preciso falar em reforma agrária a fim de tocar os espíritos menos sensíveis ao tema que se descortina durante a fita. Aliás, quando Graciliano Ramos escreveu o seu romance, no qual se baseou o filme, a solução da calamidade subumana do nordeste não era especificamente enquadrada nos prismas da reforma agrária que hoje tanto se fala mas não deixam ainda fazer. O estilo seco daquele que é sem nenhum favor um dos mestres da nossa prosa contemporânea constatava uma dada realidade – o impasse dos personagens devorados pela miséria a fome o êxodo constante – nada mais. Nélson Pereira dos Santos soube encontrar o mood apropriado a fim de proporcionar efeitos cinematográficos análogos ao do romance. E foi buscá-lo mediante uma apropriação muito feliz, consciente ou intuitiva, daquilo que já se denominou como os tempos mortos criados por Michelangelo Antonioni, especialmente em L’Avventura e O Eclipse. Enquanto o cineasta italiano usa o vazio com relação ao impasse de uma elite entologicamente alienada, e nosso transplanta os efeitos similares de duração para dois seres que representam um tipo de vida das massas relegadas à extrema penúria: o homem no campo. Não são poucas as passagens de Vidas Secas que se exasperam na técnica desses vazios estáticos, mas intrinsecamente plenos de significação e que possuem como matriz a já famosa cena dos rochedos em L’Avventura.

O homem, a mulher, os filhos e o cachorro. Nos dois protagonistas adultos, surgem Átila Iório e Maria Ribeiro. É difícil dominar os atores e este é um dos problemas cruciais de direção nos cinemas brasileiros, mesmo porque com a intimidade com o idioma nas maiores nuances, dá maiores oportunidades à crítica de ser implacável em seus juízos no tocante a esse setor. Ainda mais, levando-se em conta que, no caso em foco, os personagens estão constantemente sob a mira da câmera. Nélson Pereira dos Santos soube contornar o âmago do problema através de uma solução bastante inteligente e que não deixa também de ser criativa. Os protagonistas, durante largos trechos do filme, não falam, a câmera e uma voz off se encarregam de situá-los, isto é, formular o seu comportamento. Na hora dos diálogos, a contenção é flagrante. O resultado: Átila Iório, compõe razoavelmente seu tipo, saindo às vezes fora do tom, sobrecarregado por uma dose de inadequação de seu físico para o papel. Maria Ribeiro, sai-se melhor, fornecendo uma interpretação até certo ponto elogiável, embora os altos e baixos. Os meninos, menos solicitados, colaboram nas composições plásticas dos quadros estilizados do sofrimento ou da poesia de um áspero cotidiano. Com isso, o cachorro leva a melhor – pois é um animal bem treinado e amparado pela extrema felicidade do fotógrafo ao captar suas expressões, principalmente, no desfecho, à hora da morte, a morte seca que os insere no destino dos seus donos.

Aliás, mencionar o trabalho fotográfico da fita corresponde admirar a extrema noção em jogar com as tonalidades, os enquadramentos nada forçados, a angulação instigante. Não há dúvida, a faixa visual consiste um dos pontos máximos , a provar que, em matéria de cinema, haja visto outras experiências semelhantes nos últimos tempos, já ultrapassamos uma das fases radicais do b-a-ba na sétima arte. Entrosada com a fotografia, a fixação do décor, tanto nos exteriores, como nos interiores, evidencia uma assimilação convincente, funcional. Os tipos humanos que compõem o supporting-cast, e assim também esse décor, vêm manejados com excepcional destreza: o guarda, o patrão, o companheiro de prisão, etc.

Vidas Secas – porque negar? – representa um marco em nosso cinema. Não tanto um marco de invenção, como é Os Cafajestes, porém uma afirmação poderosa do domínio do instrumento fílmico. Menos espetacular que O Assalto ao Trem pagador, menos successful que O Pagador de Promessas, menos corrido que os filmes de cangaceiro – mas, por outro lado, muito mais uno, conciso, depurado e, mesmo, despretensioso. Não estamos falando de uma obra-prima, mas de uma obra profundamente séria, e cuja emoção é primordialmente estética. A reforma agrária, acreditamos, virá depois, com o sr. Brizola, com o sr. Arrais ou com o próprio João Goulart, e, quem sabe? (o país é uma caixa de surpresas) com o Congresso. Para Nelson Pereira dos Santos registramos o legado em termos de cinema e cujo teor, já nessa altura, é respeitável – ainda mais quando se leva em conta o nosso subdesenvolvimento na indústria cinematográfica. Se ninguém aqui ainda é Resnais, Welles, Hitchcock, Antonioni ou Truffaut não é por falta de genialidades, é por causa de motivos econômico-financeiros mais do que óbvios.

José Lino Grünewald

 

 

 

 

 

 

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Capitães da Areia - Jorge Amado - resumo

PERSONAGENS:

Dalva: prostituta conquistada por Gato;

Dora: a primeira capitã de areia;

Gato: malandro;

João Grande: o bom negro, segundo no comando (apenas atrás de Pedro Bala);

Padre José Pedro: único que se relaciona com os Capitães de Areia;

Pedro Bala: líder do grupo, de cabelos compridos e loiros;

Pirulito: tem grande tendência religiosa;

Professor: lê e desenha vorazmente;

Querido-de-Deus: um capoeirista amigo do grupo;

Sem-pernas: o garoto que serve de espião;

Os Capitães da Areia nos conta sobre um grupo de meninos de rua. O livro é dividido em três partes. Antes delas, no entanto, via uma seqüência de pseudo-reportagens, explica-se que os “Capitães da Areia” é um grupo de menores abandonados e marginalizados, que aterrorizam Salvador. Os únicos que se relacionam com eles são Padre José Pedro e uma mãe-de-santo. O Reformatório é um antro de crueldades e a polícia caçam-nos como os adultos.

A primeira parte em si, conta algumas histórias quase independentes sobre alguns dos principais Capitães da Areia (o grupo chegava a quase cem, morando num trapiche abandonado, mas tinha líderes). Pedro Bala, o líder, de longos cabelos loiros e uma cicatriz no rosto. Uma espécie de pai para os garotos, mesmo sendo tão jovem quanto os outros, e depois descobre ser filho de um líder sindical morto durante uma greve. Volta Seca, afilhado de Lampião, que tem ódio das autoridades e o desejo de se tornar cangaceiro; Professor, que lê e desenha vorazmente, sendo muito talentoso; Gato, que com seu jeito malandro acaba conquistando uma prostituta, Dalva; Sem-Pernas, o garoto coxo que serve de espião se fingindo de órfão desamparado (e numa das casas que vai é bem acolhido, mas trai a família ainda assim, mesmo sem querer fazê-lo de verdade). João Grande, o "negro bom" como diz Pedro Bala, segundo em comando; Querido-de-Deus um capoeirista que é só amigo do grupo; e Pirulito, que tem grande fervor religioso. O ápice da primeira parte vem em duas partes: quando os meninos se envolvem com um carrossel mambembe que chegou na cidade, e exercem sua meninice; e quando a varíola ataca a cidade e acaba matando um deles, mesmo com Padre José Pedro tentando ajudá-los e se encrencando por isso.

A segunda parte, "Noite da Grande Paz, da Grande Paz dos teus olhos", surge uma história de amor quando a menina Dora torna-se a primeira "Capitã da Areia", e mesmo que inicialmente os garotos tentem tomá-la a força, ela se torna como mãe e irmã para todos. (O homossexualismo é comum no grupo, mesmo que em dado momento Pedro Bala tente impedi-lo de continuar). Mas Professor e Pedro bala se apaixonam por ela, e Dora se apaixona por Pedro Bala. Quando Pedro e ela são capturados (ela em pouco tempo passa a roubar como um dos meninos), eles são muito castigados, respectivamente no Reformatório e no Orfanato. Quando escapam, muito enfraquecidos, se amam pela primeira vez na praia e ela morre, marcando o começo do fim para os principais membros do grupo.

"Canção da Bahia, Canção da Liberdade", a terceira parte, vai nos mostrando a desintegração dos líderes. Sem-Pernas se mata antes de ser capturado pela polícia que odeia.

Professor parte para o RJ para se tornar um pintor de sucesso, entristecido com a morte de Dora. Gato se torna uma malandro de verdade, abandonando eventualmente sua amante Dalva, e passando por Ilhéus; Pirulito se torna frade; Padre José Pedro finalmente consegue uma paróquia no interior, e vai para lá ajudar os desgarrados do rebanho do Sertão; Volta Seca se torna um cangaceiro do grupo de Lampião e mata mais de 60 soldados antes de ser capturado e condenado; João Grande torna-se marinheiro; Querido-de-Deus continua sua vida de capoeirista e malandro; Pedro Bala, cada vez mais fascinado com as histórias de seu pai sindicalista, vai se envolvendo com os doqueiros e finalmente os Capitães da Areia ajudam numa greve. Pedro Bala abandona a liderança do grupo, mas antes os transforma numa espécie de grupo de choque. Assim Pedro Bala deixa de ser o líder dos Capitães de Areia e se torna um líder revolucionário comunista.

 

 

 

 

 

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Dona Flor e seus Dois Maridos - Jorge Amado - Resumo

Modernismo de segunda fase. A história é dividida em 5 partes (cada uma aberta por uma lição de culinária de Flor, que é professora desta arte, com exceção da quarta parte, aberta por um programa para o concerto de Teodoro) e um intervalo.

A primeira parte começa com a morte de Vadinho em pleno Domingo de Carnaval. Vestido de baiana, Vadinho cai enquanto dançava e seu funeral é muito concorrido. Nele voltam as lembranças de todos sobre o falecido: os amigos de farra, as possíveis (prováveis) amantes, os conhecidos e principalmente da esposa, Flor. Flor lembra do marido infiel, cheio de lábia, espertalhão, jogador e malicioso que era Vadinho, mas ainda assim extremamente adorável. Na definição de um dos presentes no funeral, Vadinho "Era um porreta".

O anteriormente referido intervalo se trata da discussão que ocorreu na cidade sobre a autoria da elegia a Vadinho, poesia anônima picante.

A segunda parte passa-se durante o período de luto de Flor. Inconsolável com a morte de Vadinho, sua mãe volta para a cidade e a situação piora. Dona Rozilda é o mais perfeito modelo de sogra: odeia o genro, é chata, controladora, exibida e pretende sempre escalar na vida social. Passa a fazer intriga sobre o falecido ("era morte para festa") com várias beatas, enquanto algumas poucas defendem Vadinho (não seus atos) por ele ser uma pessoa excepcional (no sentido de incomum, não o de maravilhoso ou com deficiência mental). Assim em flashback é mais detalhado o passado do casal. A mãe de Flor queria que as filhas se casassem com homens ricos, e Vadinho apareceu. Eles se conheceram numa festa chique (Vadinho entrou de penetra, com a ajuda do tio) e começaram o namoro com a benção de Dona Rozilda, até que ela descobriu quem era o genro. Mais tarde Flor sai de casa e se casa (de azul, porque não teve coragem de por o branco) e começa o casamento. Vadinho é um marido ausente, sempre gastando o dinheiro (dos outros) no jogo e nas mulheres. Certa vez Flor quase adotou um menino que ela achava ser filho de Vadinho (Flor é estéril; o filho era do "xará"). E assim são mostrados os vários acontecimentos, em flashback, da vida matrimonial com aquele adorável cafajeste, generoso gastador, infiel e amantíssimo marido que era Vadinho. O capítulo acaba com Flor pondo flores sobre o túmulo do falecido, superando melhor o passamento dele.

A terceira parte é passada nos meses seguintes. Flor está mais alegre, apesar de manter ainda a fachada de viúva. Todas as beatas competem para achar-lhe um bom pretendente e quem aparece é Eduardo, o Príncipe, calhorda que enganava viúvas para roubar-lhes as economias. Descoberto, Flor passa a se retrair. Seu sono torna-se mais agitado, seu desejo cresce na medida em que ela deixa os homens fora de sua vida pessoal. Mas então o farmacêutico Teodoro Madureira, respeitado solteirão (ele ficara solteiro para cuidar da mãe paralítica, que morreu pouco antes), ele propõe casamento a Dona Flor e eles tem o mais casto dos noivados, nunca ficando juntos sozinhos. O capítulo acaba com o casamento de Flor, desta vez aprovado por sua mãe (que havia saído da cidade no começo do capítulo; nem as outras beatas agüentavam Dona Rozilda).

A quarta parte começa com a lua-de-mel de Dona Flor. Teodoro é diferente do falecido em tudo. Fiel (não compreende mesmo quando uma cliente da farmácia levanta o vestido BEM alto para tentá-lo), regular (sexo às quartas e sábados, bis aos sábados e facultativo às quartas) e inteligente, Teodoro trás a paz de volta à vida de Dona Flor. Teodoro toca fagote numa orquestra de amadores e o maestro compõem uma linda música para ela que Teodoro toca solo (o convite abre o capítulo) e no dia do aniversário de casamento, após os convidados partirem Flor vê Vadinho, nu como o viu na cama no dia de sua morte, a puxá-la e tentá-la. Ela se recusa naquele momento, fiel ao marido. Teodoro vai dormir e Vadinho sai logo depois, quando Flor ia procurá-lo. Começa aqui a parte do livro que o deixou famoso: Flor, Teodoro e Vadinho, vivendo em matrimônio ao mesmo tempo, Vadinho nu, invisível a todos menos Flor.

A quinta parte, que tornou famoso livro, filme, seriado e tantas quanto foram as adaptações desta obra, começa com o Vadinho vindo de volta dos mortos, tentando Flor. Flor sente-se dividida entre o esposo atual e Vadinho, mas este diz-lhe que não há por que o estar: são colegas, casados frente ao juiz e ao padre. Flor vai aos poucos perdendo a resistência e chega a encomendar um trabalho para mandar Vadinho de volta para onde estava. Enquanto isso se passa Vadinho vai manipulando as mesas de jogo, favorecendo velhos amigos, levando Pellanchi Moulas, rei do jogo em Salvador, ao desespero e a todos os "místicos" da Bahia para se livrar do azar. Vadinho só para quando seus amigos cansam (Mirandão, companheiro seu quando era vivo, para de jogar definitivamente, assustado com o repetir de vezes que caía no 17, número de sorte de Vadinho). Por fim Dona Flor sucumbe a Vadinho e passam a viver harmoniosamente os três uma vida conjugal (mesmo que Teodoro não o saiba). Vadinho chega a fazer o milagre de expulsar a sogra quando ela chega de mala e cuia para ficar. Vadinho começa então a desaparecer e Flor se dá conta de que era por causa do feitiço por ela encomendado. Há uma batalha entre vários deuses contra Exu (identificado por alguns como sendo o diabo católico), que protege Vadinho. Quando Exu estava perdendo, o amor e a volúpia de Vadinho ganham a batalha.

A obra acaba com Flor andando feliz com Teodoro e Vadinho (nu, como sempre) ao seu lado, pelas ruas de Salvador.

Esta parte acentua duas características gerais da obra: a religiosidade que mistura ao mesmo tempo o catolicismo e o candomblé, pondo todas as figuras míticas das duas religiões junto e eficientemente simultâneas (algo como é a religiosidade baiana, já que Salvador tem mais igrejas que qualquer outra cidade do Brasil e ainda assim é centro das religiões de origem africana). A outra característica vem a ser o fato de que Vadinho e Teodoro são metáforas para o id e o superego, respectivamente. Vadinho é rebelde, impulsivo, espontâneo e dado ao caos (no seu caso, o jogo); Teodoro é metódico e controlado ("Um lugar para cada coisa e cada coisa em seu lugar" é seu lema, pendurado na farmácia). Assim, a imagem de Flor pacificamente com os dois, totalmente feliz, invoca o ideal de equilíbrio entre os dois.

Cartaz do filme de Bruno Barreto:

 

 

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Gabriela Cravo e Canela - Jorge Amado - Resumo

Modernismo de segunda fase., Gabriela Cravo e Canela é dividido em duas partes, que são em si divididas em outras duas.

A história começa em 1925, na cidade de Ilhéus. A primeira parte é Um Brasileiro das Arábias e sua primeira divisão é O langor de Ofenísia. Vai centrando-se a história nesta parte em dois personagens: Mundinho Falcão e Nacib. Mundinho é um jovem carioca que emigrou para Ilhéus e lá enriqueceu como exportador e planeja acelerar o desenvolvimento da cidade, melhorar os portos e derrubar Bastos, o inepto governante. Nacib é um sírio ("turco é a mãe!") dono do bar Vesúvio, que se vê em meio a uma grande tragédia pessoal: a cozinheira de seu partiu para ir morar com o filho e ele precisa entregar um jantar para 30 pessoas em comemoração a inauguração de uma linha automotiva regular para a cidade de Itabuna. Ele encomenda com um par de gêmeas careiras, mas passa toda a parte procurando por uma nova cozinheira.

No final desta pequena parte aparece Gabriela, uma retirante que planeja estabelecer-se em Ilhéus como cozinheira ou doméstica, apesar dos pedidos do amante que planeja ganhar dinheiro plantando cacau.

A segunda secção desta primeira parte é A solidão de Glória e passa-se apenas em um dia. O dia começa com o amanhecer de dois corpos na praia, frutos de um crime passional (todo mundo dá razão ao marido traído / assassino), segue com as preparações do jantar e a contratação de Gabriela por Nacib. No jantar acirram-se as diferenças políticas e, na prática, declara-se a guerra pelo poder em Ilhéus entre Mundinho Falcão (oposição) e os Bastos (governo). Quando o jantar acaba (em paz), Nacib volta para casa e, quando ia deixar um presente para Gabriela silenciosa mas não inocentemente, tem com ela a primeira noite de amor / luxúria.

A segunda parte chama-se propriamente Gabriela Cravo e Canela e sua primeira parte, o capítulo terceiro, chama-se O segredo de Malvina, terceiro capítulo, passa-se cerca de três meses após o fim do outro capítulo, e três problemas existem: o caso Malvina-Josué-Glória-Rômulo, as complicações políticas e o ciúmes de Nacib. Vamos pela ordem. Josué era admirador de Malvina, filha de um coronel com espírito livre. Esta começa a namorar Rômulo, um engenheiro chamado por Mundinho Falcão para estudar o caso da barra (que impedia que navios grandes atracassem no porto de Ilhéus). Josué se desaponta e se interessa por Glória, amante de um outro coronel. Rômulo foge após um escândalo feito pelo machista (tão machista quanto o resto da sociedade ilheense) pai de Malvina, Malvina faz planos de se libertar e Josué começa um caso em segredo com Glória. Na política, acirra-se a disputa por votos ao ponto do coronel Bastos mandar queimar toda uma tiragem do jornal de Mundinho. Mas Mundinho ganha terreno com a chegada do engenheiro. E perde quando esse foge covarde. E ganha com a promessa da chegada de dragas a Ilhéus. Nacib enquanto isso desenvolveu um caso com Gabriela. Mas está sendo atacado pelos ciúmes (todos querem Gabriela, perfume de cravo, cor de canela). Aos poucos ele percebe que é amor e acaba propondo casamento a Gabriela após a última investida do juiz (alarme falso, ele já havia desistido). Mas foi a tempo, já que até roças do poderoso cacau de Ilhéus já haviam sido oferecidas a Gabriela. O capítulo acaba durante a festa de casamento de Nacib e Gabriela (no civil, já que Nacib é muçulmano não-praticante), quando chegam as dragas no porto de Ilhéus.

A quarta e última parte chama-se O luar de Gabriela. Nesta resolvem-se todos os casos. Pela ordem: Josué e Glória oficializam a relação e Glória é expulsa de sua casa por seu coronel. Na parte da política, após o coronel Ramiro Bastos perder o apoio de Itabuna (e mandar matar, sem sucesso, seu ex-aliado; o quase assassino foge com a ajuda de Gabriela, que o conhecia), ele morre placidamente em seu sono, seus aliados reconhecem que estavam errados (a lealdade era com o homem, não suas idéias) e a guerra política acaba com Mundinho e seus candidatos vencedores. Quanto a Nacib e Gabriela... Gabriela não se adapta de jeito nenhum à vida de "senhora Saad", para desespero de Nacib. Nacib acaba anulando o casamento ao pegá-la na cama com Tonico Bastos, seu padrinho de casamento. Mas ninguém ri de Nacib; pelo contrário, Tonico é humilhado e sai da cidade, o casamento é anulado sem complicações (os papéis de Gabriela eram falsos) e Gabriela sai de casa. Nacib fica amargurado e vai se recuperando. As obras na barra se completam com sucesso e Nacib e Mundinho abrem um restaurante juntos. O cozinheiro chamado pelos dois é... convidado a se retirar da cidade por admiradores de Gabriela, que acaba sendo recontratada por Nacib. Semanas depois, Nacib e ela reiniciam seu caso, tão ardente como era no começo e deixara e ser após o casamento.

Num epílogo, o coronel, assassino dos dois amante da primeira parte, é condenado à prisão. Cheio de uma crítica à sociedade ilheense, a própria linguagem do autor muda quando foca-se a atenção em Gabriela. Torna-se mais cantada, mais típica da região (como é a fala de todos), deixando a leitura cada vez mais saborosa.

Gabriela (1983)
Direção: Bruno Barreto
Elenco principal: Sônia Braga e Marcello Mastroianni.

Baseado no livro "Gabriela Cravo e Canela", de Jorge Amado - que já havia inspirado, em 1975, uma novela de grande sucesso na Rede Globo - o filme narra o romance entre a sensual Gabriela, moça pobre do litoral baiano, e o comerciante Nacib, para quem trabalha como cozinheira. A trilha de Tom Jobim inclui a ótima canção-título, cantada por ele e Gal Costa.

 

 

 

 

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Jubiabá - Jorge Amado - Resumo

O negro Antonio Balduíno lutava contra Ergin, o alemão, "campeão da Europa central", sob os olhos do povo, sentado nos bancos do Largo da Sé. Pretos, brancos e mulatos torciam por Balduíno que, ao final, sagrou-se vencedor.

Antonio se destacava como o chefe das quadrilhas de moleques do “Morro do Capa Negro”. Seus companheiros eram O Gordo, Joaquim, Viriato, o anão, Zé Casquinha, Rozendo e Felipe, o belo. Por volta dos oito anos, seu prazer era olhar a cidade de cima do morro e ver, lá embaixo, as luzes acendendo; sonhava conhecer a cidade de perto. Às vezes, nessa contemplação, perdia o jantar e a surra, dada por sua tia Luísa, o aguardava. A tia foi pai e mãe para o menino, que só conhecia o nome paterno; Valentim, jagunço ligado ao grupo de Antonio Conselheiro, fato que deixava o garoto orgulhoso.
Nas brincadeiras, escolhia sempre o papel do pai. Uma de suas tarefas era ajudar a tia fazer mungunzá e mingau de puba para ser vendido à noite no Terreiro. Luísa sofria, de vez em quando, de severos ataques de dor de cabeça que a tiravam de ação. Jubiabá, o pai-de-santo, era chamado para atender a velha. Antonio Balduíno o temia. Muitas histórias corriam sobre o feiticeiro. Alguns meninos diziam que ele virava lobisomem, outros que prendia o diabo numa garrafa. Além disso, durante as reuniões, na casa do pai-de-santo, saía uma música estranha, uma batucada misteriosa que tirava o sono do menino. Por tudo isso, Balduíno temia Jubiabá.

Em certas noites e dias santificados, muitas pessoas se reuniam na porta de Luísa para contar casos passados e Jubiabá lá também estava, contando histórias que Antonio amava, evitando sair com os amigos para poder ouvi-las. Outro que se juntava ao grupo, era o malandro Zé Camarão, tocador de violão e contador de histórias sobre cangaceiros. O menino o admirava e era seu melhor aluno de capoeira. Desejava, ainda, aprender a tocar violão com o mestre. Essa era a forma de educação que recebia, acreditando que, quando crescesse, certamente teria suas aventuras narradas num ABC.
A vida no Morro do Capa Negro era difícil. Viviam das tarefas no cais, carregando cargas pesadas ou do trabalho em casas ricas. As crianças já sabiam seu destino; o trabalho no cais ou em fábricas enormes. Enquanto isso, os meninos ricos iam ser médicos, advogados, engenheiros, homens ricos. Também, podiam ser escravos desses ricos. Antonio Balduíno queria outro destino, desejava ser livre como Jubiabá e Zé Camarão. Tudo o que fez depois, veio das histórias de valentia ouvidas à porta da casa da tia Luísa. E elas falavam daqueles que se revoltaram contra o trabalho escravo, dedicado ao branco. Mas, Balduíno era também moleque travesso, líder das coisas malfeitas no morro.

Após três anos, Luísa passou a ter, com mais freqüência, fortes dores de cabeça. Nesses ataques tratava muito mal Balduíno e assim que melhorava, arrependida, punha o sobrinho no colo e o agradava. Era difícil para a criança compreender os humores da tia, tendo sempre a sensação de que iria perdê-la.
As dores passaram a ser mais freqüentes e Luísa enlouqueceu de vez, sendo levada para o hospício. Antonio Balduíno foi morar com o comendador Pereira, numa casa na Travessa Zumbi dos Palmares e, pelo caminho, só desejava fugir. Ficou amigo da filha do casal, Lindinalva. A cozinheira Amélia, enciumada porque o tratavam bem, lhe dava surras violentas. Na escola, o moleque chefiava todas as malvadezas, até ser expulso como aluno incorrigível. Jubiabá levou-o até o hospício para visitar a tia. Mas, na segunda visita, foi para acompanhar o enterro de Luísa.

A vida na casa do comendador tornou-se insuportável, porque o ódio da cozinheira aumentava dia a dia. Balduíno tinha agora quinze anos e Amélia inventou que o rapaz ficava olhando as pernas de Lindinalva, além de espiá-la na hora do banho. O comendador, furioso com essa história, lhe deu tremenda surra que Antonio fugiu de casa. Maltrapilho passou a freqüentar as ruas do centro de Salvador e a mendigar.
Tornou-se o líder dos desocupados, especialista em pedir esmolas da maneira mais comovente. O dinheiro apurado era dividido entre os membros do grupo. Mais tarde, dedicaram-se a assaltar as pessoas durante os festejos de carnaval, a festa do Bomfim e as do Rio Vermelho. Assustavam a todos com suas navalhas, punhais e canivetes.

Passaram-se dois anos e os garotos, já homens fortes, não conseguiram mais convencer as pessoas a lhes dar esmolas. Acabaram presos como malandros e desordeiros, apanhando dos soldados até sangrarem, sem nenhum direito de defesa. Foram fichados e ficaram por oito dias na cadeia. Ao saírem livres, voltaram a vagabundear pela cidade, contudo, aos poucos os membros foram se distribuindo em trabalhos diversos. Antonio Balduíno voltou ao morro para malandrear com Zé Camarão, jogar capoeira, tocar violão e ir às macumbas de Jubiabá. Balduíno tornou-se um bamba na capoeira, exímio tocador de violão e bom compositor de sambas, vendidos para serem gravados, com sucesso, por Anísio Pereira, que afirmava ser o compositor de todos eles. Antonio namorava Joana e com o dinheiro recebido por dois sambas vendidos, comprou sapatos para si e um corte de chita para Joana. Toda vez que a amava, no areal, sonhava com o corpo de Lindinalva. O casal freqüentava o bar "Lanterna dos Afogados", mas Joana não gostava do local por ser mal freqüentado. Copeira na casa de D. Vitória, a moça morava num quartinho nas Quintas. Tinha ciúmes de Balduíno, pois sabia que o negrinho amava outras mulatas. Aos dezoito anos, Balduíno tinha grande prestígio entre as empregadas, lavadeiras e negrinhas que vendiam acarajé e abará. O negro levava uma vida boêmia, enquanto Jubiabá trabalhava em seu terreiro, fazendo macumbas, recebendo amigos e pessoas que vinham de fora pedir despachos. Toda sorte de gente procurava o pai-de-santo, de ricos de automóvel a doutores de anel. Uma noite no "Lanterna dos Afogados", Balduíno foi procurado por um gringo, Luigi, que o tinha visto brigar com o soldado Osório por causa da mulata Maria dos Reis que acabou se tornando amante de Balduíno. O homem o convidou para lutar boxe, oferecendo-se para ser seu treinador. Acabou contratado por Luigi e, o companheiro de infância e boemia, o Gordo, se tornou seu ajudante. Seguiram-se várias lutas em que ora perdeu, ora saiu vencedor. Mas a tristeza maior veio quando Maria dos Reis parte com a madrinha para morar no Maranhão. Chora de saudades, porque era a única mulher que não lhe recordava Lindinalva. Acabou campeão da Bahia, tornando-se o Baldo, campeão baiano de todos os pesos. Um empresário do Rio o procurou e pagou cem mil-réis para Baldo perder a luta. O negro aceitou a oferta, exigindo pagamento em adiantado. No dia acertado, venceu mais uma vez, deixando o empresário aturdido. A carreira de boxeador de Balduíno terminou no dia em que leu no jornal sobre o noivado de Lindinalva com o advogado Gustavo Barreiras. Balduíno e o Gordo embarcaram no saveiro de Mestre Manuel e ficaram trabalhando na cidade velha de Cachoeira, onde se fabricava charutos. Vagabundeavam por lá, vendo as tristes mulheres voltando das fábricas. Notaram que, enquanto os homens da terra aguardavam as mulheres do trabalho, pescando ou arranjando uns vinténs com as canoas, os alemães, donos desses estabelecimentos, comiam do bom e do melhor e sonhavam com a futura guerra que venceriam. Balduíno acabou matando o capataz Zequinha, durante uma briga, abandonando seu punhal nas costas do morto, denunciando a autoria do crime. Escondeu-se no mato, acusando Zequinha da briga, porque este o vivia perseguindo por causa de uma menina de 12 anos, Arminda. Os homens da fazenda entraram no mato a sua procura. O assassino os ouviu dizer que a capoeira estava toda cercada e que o fugitivo não teria escolha; ou morreria de fome, ou teria que se entregar para ser preso. Com os pés sangrando e o rosto rasgado por espinho venenoso, Balduíno resolveu enfrentar a situação, pronto para matar ou morrer. Pensava na sua história que seria contada a todos: Antonio Balduíno foi mendigo, boxeur, fazedor de sambas, desordeiro e matou um homem por causa de uma menina, acabando morto diante de vinte homens, lutando valentemente. Apesar de tudo, conseguiu fugir ao cerco, buscando proteção num casebre imundo de um velho que lhe limpou os ferimentos e lhe deu o que comer. Ficou sabendo que Zequinha não morreu, foi apenas ferido e o patrão queria dar em Balduíno uma boa surra. Após a estada de três dias no casebre, conseguiu fugir clandestinamente num trem com destino à Feira de Santana. No vagão, ponderava com outros elementos ali escondidos, a tristeza que era ser pobre. Em Feira de Santana, tentava conseguir uma carona para Salvador, quando deu de repente com Luigi que o levou para ser lutador no circo arruinado de sua propriedade e de Giuseppe. Este, embriagado, caiu do trapézio e morreu. Luigi vendeu o circo e dividiu o dinheiro com os empregados. Balduíno partiu com a dançarina do circo, Rosenda Rosedá. O casal recebeu o urso como pagamento e procurou fazer dinheiro com o animal. Partiram no saveiro "Viajante sem Porto" do mestre Manuel para Salvador, juntando-se lá com os companheiros Joaquim e Gordo.Levaram o urso para a feira. Conseguiram fazer dinheiro com o animal, porque o Gordo bom contador de histórias foi encantando o público com suas narrativas cheias de anjos e peripécias. Balduíno avisava a todos que o urso tinha vindo diretamente das selvas africanas e já tinha matado três domadores, enquanto Rosenda ia lendo as mãos dos homens. Ao chegar à feira, Jubiabá juntou-se ao grupo que comia e bebia o dinheiro arrecadado até que um mulato decidiu colocar um charuto aceso, no nariz do urso. Balduíno deu pancada para todos os lados. Finalmente, todos se aquietaram, felizes pelo divertimento. O tempo passa, Balduíno, cansado de Rosedá a abandonou. Encontrou por acaso com Amélia, a cozinheira que lhe desgraçou a estada na casa do comendador. Ela lhe diz que Lindinalva, o amor da vida de Balduíno, não estava casada, caiu na vida, depois de ter sido seduzida pelo noivo. A mãe de Lindinalva faleceu e o pai gastou toda fortuna com mulheres. Lindinalva, com um filho para educar, era prostituta da pensão Monte Carlo. O filho ficava aos cuidados de Amélia, enquanto a mãe trabalhava, mudando-se cada vez para quartos mais pobres. Uma noite, ao sair com amigos para o "Lanterna dos Afogados", Balduíno encontrou Lindinalva. Meses, mais tarde, a moça, doente à beira da morte, lhe pediu perdão e que ajudasse Amélia a criar seu filho, Gustavo. Balduíno ficou triste com a morte da amada. Quis que seu caixão fosse branco, porque a considerava uma virgem. Dizia que ninguém a possuiu, pois era prostituta e não gostava dessa vida. Ele sim a possuiu no corpo de suas amantes, de todas que dormiram com ele. Decidido a ajudar na educação de Gustavo, Balduíno empregou-se na estiva, no lugar de Clarimundo, morto por um dos guindastes. Estourou a greve dos condutores de bonde e toda cidade foi trabalhar a pé. As padarias acabaram aderindo ao movimento e os entregadores de pão jogaram os cestos na rua. Balduíno brincava com o filho de Lindinalva, quando os amigos vieram procurá-lo, buscando apoio para o movimento. Chegando ao sindicato, o voto do negro decidiu a vitória dos grevistas.Descobriram depois, que tinham votado contra pessoas que nem eram da estiva e muito menos do sindicato. Balduíno estava feliz com a paralisação e radiante por fazer parte da comissão de greve. Tudo estava parado. O negro se sentia o dono da cidade. Sempre desprezou os trabalhadores, preferia se suicidar a juntar-se a eles e, no entanto, agora os admirava, sabia que podiam deixar de ser escravos. Tinham a vida da cidade nas mãos. Essa descoberta o fazia renascer. Durante a assembléia, narrou a vida dos camponeses nas plantações de fumo, descreveu o trabalho das mulheres nas fábricas de charuto, falou dos homens sem mulheres. Saiu carregado em triunfo sob os aplausos dos amigos. Um dos investigadores, que a tudo observava, o fitou para não esquecer aquele rosto. No palácio do governo, o advogado, Gustavo Bandeira, pai do filho de Lindinalva, negociava pelos grevistas, avisando-lhes que a reunião seria prolongada, mas a solução seria honrosa. Lutava para que as reivindicações dos operários fossem atendidas, mas os patrões insistiam em atender apenas 50% delas. A caminho do restaurante, o advogado da Companhia, Dr. Guedes, e o diretor americano, Tomas, convidaram Gustavo para ser o segundo advogado da firma. Diziam que não o estavam comprando, desejavam ter um representante dos trabalhadores na companhia. Defenderia, portanto, os interesses dos operários ao compor o quadro da diretoria. Gustavo pensou na esposa, Zuleika, e no carro que esta tanto desejava, na possibilidade de chegar ao parlamento. O americano Tomas lhe ofereceu oito contos por mês pelo trabalho. O advogado disse que o dinheiro não era o mais importante e, sim, sua condição de ser o representante dos operários. Gustavo veio para a assembléia e apresentou a oferta de 50% dos patrões, falando-lhes que deviam aceitá-la, pois a miséria poderia cair sobre seus lares. Os líderes mais experientes alertavam os trabalhadores, dizendo que estavam sendo enganados e por isso deviam resistir. Os operários saiam às ruas, gritando por greve geral e para impedir que outros trabalhassem. Na Baixa do Sapateiro, o conflito era sério com mortos e feridos por todos os lados. O Gordo enlouqueceu, quando uma das balas dos soldados atingiu uma negrinha, ferindo-a mortalmente. O rapaz saiu gritando pela rua: onde está Deus, estendendo os braços como se a carregasse junto ao corpo. Finalmente, o governo e os patrões comunicaram à comissão de grevistas que lhes concediam o que pediam e a greve se encerrou. Com a vitória, Balduíno visitou Jubiabá que o recebeu como se ele fosse o maior dos santos. O negro disse ao pai-de-santo que tinha descoberto o que os ABCs ensinavam e que tinha achado o caminho certo. Os trabalhadores que antes desprezava eram os verdadeiros donos da cidade. Eram escravos, mas estavam lutando para se libertar. A luta verdadeira era a greve. E isso nem Jubiabá sabia. Sonhava que um dia partiria num navio e faria greve em todos os portos. Sabia que não entraria mais pelo mar, para a morte como fez seu amigo Viriato, o anão. A greve o salvou. Do navio, daria adeus. Ele fez a greve e aprendeu a amar a todos os mulatos, negros e brancos que eram escravos e estavam rebentando as cadeias. Eram todos homens de luta como Zumbi dos Palmares. O ABC que Antonio Balduíno tanto sonhara saiu contando sua vida, era vendido no cais, nos saveiros, nas feiras e Mercado Modelo, trazendo na capa vermelha um retrato do tempo em que o negro era lutador de boxe.

 

 

 

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Mar Morto - Jorge Amado - Resumo comentado

Mar Morto pertence a primeira fase do autor: depoimentos líricos, com predominância do elemento sentimental, sobre rixas, e amores de marinheiros.

A história se passa no Cais da Bahia, onde viviam os marinheiros, e um dos mais antigos era Seu Francisco que criava o sobrinho Guma, ensinando-lhe as leis do mar. Guma, com o tempo, tomou conta do saveiro chamado Valente. A fama de Guma no cais ocorreu em uma noite de tempestade, onde Guma, com o seu Valente, salvou um navio (Canavieiras) que iria naufragar. Depois disso, Guma conheceu Lívia, uma das moças mais bonitas do cais, casou-se com ela e foram morar com Seu Francisco, onde ao lado deles foram morar Rufino (um grande amigo de Guma) e Esmeralda.

Viviam muito bem, até que Guma envolveu-se com Esmeralda que o perseguia, Rufino descobriu, matou Esmeralda e depois matou-se de desgosto. Logo depois, Lívia descobriu que estava grávida. Guma, com remorso de ter traído Rufino e Lívia, pegou o Valente e foi para o mar e bateu nas pedras. Não morreu, mas o Valente ficou totalmente destruído. Lívia teve o filho que se chamava Frederico e Guma estava feliz com o filho, mas ao mesmo tempo arruinado por ter perdido seu saveiro. Sem escolha, começou a contrabandear seda (já tinha comprado outro saveiro) para os árabes. Numa dessas viagens, o filho de um dos árabes tinha ido junto para Porto de Santo Antônio, mas caiu no mar. Guma pulou no mar e conseguiu salvá-lo, mas morreu com seu ato de coragem. Lívia ficou com Frederico e o Seu Francisco, e tomaram conta do saveiro (de nome Paquete Voador) apenas com a lembrança de Guma que ficará na memória do cais, principalmente porque após sua morte as águas do mar se tornaram calmas e mortas, mas também por ele ter sido um homem de coragem e bom coração.

1ª parte

A primeira parte da obra denomina-se IEMANJÁ, Dona dos Mares e dos Saveiros, e possui doze capítulos:

Primeiro capítulo - Tempestade

Jorge Amado destaca a chegada da noite com tempestade, carregada de nuvens, lavando o cais, amassando a areia, balançando os navios atracados e maltratando, sem piedade, os negros da estiva. Todos abandonaram o cais. O preto Rufino, diante do copo de cachaça, sabia que, com a tempestade, Esmeralda não viria ao encontro dele. Mestre Manuel resolveu não sair com seu saveiro, preferiu ficar amando Maria Clara. Lívia ficou, aflita, à beira do cais, sob a chuva e o vento, esperando Guma que vinha no "Valente", desafiando a fúria dos ventos. Um saveiro virou no mar e dois homens (Raimundo e Jacques) caíram na água e morreram.

Segundo capítulo - Cancioneiro do Cais

Cessada a tempestade, Lívia continua esperando Guma e ouve os gemidos de Maria Clara dentro do saveiro com mestre Manuel. Breve ela também estaria nos braços de Guma, pois há oito dias não o via. Rufino conta a Lívia que Raimundo e Jacques morreram afogados, tendo sido seus corpos encontrados por Guma. Todos passam a compartilhar do sofrimento de Judith, mulher de Jacques, uma mulata que ficou com um filho na barriga. Maria Clara ainda soluça de amor. Judith não terá amor esta noite nem nunca mais, pois seu homem morreu no mar. Do forte abandonado, vem a música cantada pelo velho soldado Jeremias, voz possante de preto:

"A noite é para o amor...

"Vem amar nas águas, que a lua brilha...

"É doce morrer no mar...

Terceiro capítulo - Terras do sem fim

Agora, o velho soldado Jeremias entoa uma canção que diz "desgraça é a mulher que casa com um homem do mar, seu destino será infeliz". O velho Francisco conhece essa canção, pois foram quarenta anos num saveiro, e era amigo de todos daquela região. Uma vez, ao salvar uma tripulação, viu o vulto de Iemanjá. Já teve três saveiros, mas agora vivia de remendar velas e do que lhe dava Guma. Frederico, seu irmão e pai de Guma, morreu na tempestade para salvá-lo. Sua mulher Rita morreu do coração quando soube do acidente com o marido.

A mãe de Guma, que o entregou ao pai logo que ele nasceu, chega de Recife para levar o menino. Frederico, mulherengo que nem macaco, passando um mês em Aracaju e prometendo-lhe mundos e fundos, deixou-a naquele estado. Havia morrido, Guma era um filho sem pai e seria criado por ela. O velho Francisco não entregaria o seu sobrinho para uma mulher da vida. Quando foi apresentá-la ao filho, Guma pensou que aquela fosse a mulher que seu tio lhe prometera, que deitaria com ele numa cama, mesmo tendo apenas onze anos. Guma assusta-se ao saber que aquela mulher tão esperada por ele era sua mãe, pois nunca lhe tinham falado dela. Ela o chama de filho e só então Guma sente um pouco de ternura por aquela mulher. Despediu-se e nunca mais voltou. Não iria jamais com ela. Seu destino era o mar. Uma noite, Velho Francisco deixou uma mulata para Guma no saveiro. Depois, vieram outras. Somente quando Guma tinha dezoito anos, o tio contou ao sobrinho as peripécias do irmão, que vivia pelo mundo e uma vez voltou trazendo a vida de um homem na ponta da faca. Guma já era homem, pois manobrava muito bem um saveiro.

Quarto capítulo - Acalanto de Rosa Palmeirão

Neste capítulo, Jorge Amado dá ênfase à história dessa mulata que possuía um ABC com as suas aventuras, contadas por todos, principalmente pelo velho Francisco. Sua fama corria o mundo, e todo marinheiro a conhecia: navalha na saia, punhal no peito, deu em seis soldados, comeu vinte prisões, bateu em muito homem. Andava pelo Recôncavo, sul do Estado e Rio de Janeiro. Uma flor (uma rosa palmeirão) que trazia sempre no vestido herdou-lhe o nome. Não aparecia há anos.

Certa vez, na terceira classe de um navio, chegou do Rio de Janeiro e foi o centro das atenções, reviu a todos e conheceu Guma (tinha-o visto ainda menino) a quem confessou que queria ter um filho e com quem viveu uns tempos. Dessa vez, contou que, vivendo com um tal de Juca, um cabra frouxo que havia apanhando dela invadiu a casa com mais seis homens querendo bater no Juca e abrir a vela. Todos apanharam. Na delegacia, o delegado, que era baiano, já conhecia sua a fama de Rosa Palmeirão. Juca foi-se embora de medo.

Quinto capítulo - Lei

Uma nova tempestade assustou os homens do cais, proibindo viagens e dando prejuízos. Num dia igual a esse, morreu João Pequeno, o mestre de saveiro que mais conhecia a profissão naquele cais. O governo deu uma pensão à mulher dele, cortada por economia. Aparecia nas noites de tempestade.

Xavier, mulato troncudo, chegou no seu saveiro Caboré. Quando lhe perguntam o porquê daquele nome, ele explica, meio alterado: "Foi por causa de uma mulher". Ela o chamava de Caboré, mas ele não sabia por quê. Um dia, sem nenhum motivo, foi embora.

Godofredo, comandante da Companhia, odiado no cais por perseguir a todos, ofereceu duzentos mil réis, mais cem mil réis do seu bolso, para um prático que trouxesse o "Canavieiras", que estava fora, sem poder entrar e pedindo socorro. Seus dois filhos estavam dentro. Guma aceitou o desafio, resgatou o saveiro e salvou a tripulação. A partir desse episódio, ganhou fama no cais da Bahia.

Sexto capítulo - Iemanjá dos cinco nomes

Ninguém no cais tinha um só nome, inclusive Iemanjá, que tinha cinco nomes doces, conhecidos por todos:

IEMANJÁ, seu verdadeiro nome, dona das águas, senhora dos oceanos.

DONA JANAÍNA, para os canoeiros.

INAÊ, para os pretos, seus filhos mais diletos.

PRINCESA DE AIOCÁ, para quem os pretos também faziam suas súplicas.

DONA MARIA, para as mulheres do cais, as mulheres da vida, as mulheres casadas, as moças que esperam noivos.

O pai de santo Anselmo era quem organizava as festas de Iemanjá, presidia as macumbas e, com ordem dela, curava as doenças. No Dique, nas Cabeceiras, em mar Grande, em Gameleira, em Dom Despacho e na Amoeira, seu dia é 2 de fevereiro. Já em Monte Serrat, onde a festa é a maior, seu dia é 20 de outubro. Porém todos se uniam para festejar Iemanjá.

Sétimo capítulo - Um navio ancorou no cais

"Um navio ancorou no cais e nele Rosa Palmeirão foi embora." Alguém a chama de bicha doida, pois só vivia correndo o mundo. Num grupo de conhecidos, Guma, cabisbaixo, é zombado por Maneca e Severiano que, ao ser socado por Guma, puxou de uma faca.

"Severiano encostou-se na parede do mercado, faca na mão, e gritou para Guma:

- Manda Rosa brigar comigo que tu não é homem."

Apesar de Guma pular, o pé de Severiano alcançou-o na boca do estômago. Rodolfo interveio e salvou Guma da morte. Rodolfo, malvisto no cais, chamado por muitos de ladrão, conta a Guma as aventuras do velho Concórdia, seu pai, que tinha uma filha, agora sua irmã, que ele não conhecia. Ela queria ver Guma para agradecer-lhe, pois alguns da tripulação do "Canavieiras" (navio salvo por Guma) eram seus parentes. Na saída, Guma pergunta:

"- Como é o nome dela?

- Lívia!" - respondeu Rodolfo.

Traíra morreu, vítima de um tiro, numa confusão, em um prostíbulo, em uma das cidadezinhas do Recôncavo (Cachoeira), após ter sido socorrido por Guma, que o conheceu na ocasião. No momento da morte, lembrou-se das filhas: Marta, Margarida e Rachel.

Oitavo capítulo - Marta, Margarida e Rachel

Aqui, o autor destaca dr. Rodrigo, que era de família de marinheiros. Seus pais e avós cruzaram os mares como meio de vida. Era magro e fraco, incapaz de levar um saveiro pelas águas; por isso, tratava da moléstia dos marinheiros e tirava até gente da cadeira. Era estimado no cais. Era também poeta, mas somente a professora Dulce sabia que ele fazia poemas sobre o mar. Todos esperavam que os dois se casassem; até saíam e conversavam.

Jorge Amado destaca também as filhas de Traíra (o que morreu com um tiro, em Cachoeira). Marta tinha dezoito anos, cosia peças, estava preparando um enxoval à espera de um noivo. Margarida nadava na beira do rio; Rachel era a menor, de quatro anos, brincava com uma boneca e não sabia pronunciar direito as palavras.

Nono capítulo - Viscondes, Condes, Marqueses e Besouro

Coloca-se em evidência a cidade de Santo Amaro, pátria de muito barão do Império, viscondes, condes e marqueses. Pátria também de gente humilde do cais, pátria de Besouro, o mais valente dos negros do cais, que derramou sangue, esfaqueou, atirou, lutou capoeira e foi morto perto dali, à traição, em Maracangalha, cortado todinho de facão. Virou uma estrela.

No dia em que Traíra morreu, Guma estava para ir ver Lívia, que foi à festa de Iemanjá somente para vê-lo. Lívia nasceu na capital, a cidade das sete portas, onde nascem as mulheres mais lindas do cais. Guma assumiu um compromisso com Rosa Palmeirão: ter um filho com Lívia para Rosa ajudar a criar.

Décimo capítulo - Melodia

Guma fez boa viagem em busca de Lívia, a mais bela mulher que seria oferecida ao mar. O "Valente" correu, e já brilham as luzes da Bahia, Guma já ouve o baticum dos candomblés, parecia ouvir a risada clara de Lívia.

Décimo primeiro capítulo - Rapto de Lívia

Guma alimentava seis meses de um desejo intenso. Chegando de Santo Amaro, Rodolfo levou-o para ver Lívia, que estava bela e tímida. Os tios dela, que tinham uma pequena quitanda e que foram salvos por Guma no acidente com o "Canavieiras", não aceitavam o relacionamento, queriam que ele fosse embora, pois Lívia não podia esperar nada de um marinheiro mais pobre que eles.

Guma entregou a ela uma carta; na verdade, foi escrita pelo doutor Filadélfio, conhecido por todos como doutor, escrevia histórias em versos, ABCs do cais, cantigas. A resposta de Lívia veio quando ele voltava: "- Estou preparando o enxoval."

Os tios proibiram Guma de visitá-la, e Rodolfo sugeriu que ele a raptasse, que a levasse para Cachoeira e casasse na volta. Combinaram tudo para uma semana. E assim se fez. Na ida, preso ao leme do "Valente", sente as carícias dos cabelos dela.

Décimo segundo capítulo - Marcha nupcial

Rodolfo acalma os tios de Lívia, que estavam revoltados, e pede a Guma que faça sua irmã feliz. O casamento seria daí a sete dias, na igreja de Monte Serrat e no fórum.

O velho Francisco ficou danado, pois sabia que um marinheiro não se devia casar. Iria embora. A mulher de Guma poderia não gostar de que ele continuasse morando ali. Mas não foi. Ali mandava Guma. Doutor Filadélfio bebeu no Farol das Estrelas à saúde de Guma e de sua futura.

No dia do casório, o cortejo entrou na casa de Guma. Jeremias trouxera o violão, e o negro Rufino, sua viola. Cantaram as canções do mar; desde aquele dia, que a noite é para o mar. Lívia jurou que seu filho não seria marinheiro.

2ª parte

A segunda parte da obra denomina-se O PAQUETE VOADOR (nome do segundo barco de Guma) e compõe-se de nove capítulos.

Primeiro capítulo - Roteiro do mar grande

Meses de dificuldades no cais. Poucas viagens. Trabalho só para a bóia. Quando Guma estava de bom humor, Lívia acompanhava-o, às vezes ficava sozinha, com o velho Francisco, ouvindo as histórias do cais. Sabia que o marido estava no mar e que podia não voltar. Gostou quando Esmeralda, amásia de Rufino, veio morar junto dela. Era uma mulata bonita e peituda.

Às vezes, a professora Dulce passava por lá e dava dois dedos de prosa. Esmeralda não gostava de Rufino que, se morresse no mar, ela arranjaria outro, ele já era o quarto. E ficava com insinuações para cima de Guma, que evitava, pois ela era amásia de Rufino, que era seu amigo.

Guma no "Valente" e mestre Manuel no "Viajante sem Porto" apostam corrida. Guma ganha. Andando pela praia, Lívia e Maria Clara encontram duas ciganas, e uma delas disse a Lívia que eles, ela e o marido, estavam passando por dificuldades, que as coisas iriam melhorar, que Guma corria grande perigo. Já há um ser que se move dentro de Lívia.

Segundo capítulo - Esmeralda

Grávida, Lívia procura Dr. Rodrigo, que ajudava as mulheres do cais e não se negava, inclusive, a fazer anjos, pois era um favor para muitas daquelas mulheres que passavam fome.

Guma, ao saber que ia ser pai, avisou a todos, primeiro a Rufino, e foi comemorar no Farol das Estrelas. Esmeralda falou a Guma que não tinha topado ainda com um homem que lhe fizesse um filho. Não queria um filho de Rufino. Ela era preta e queria melhorar a família. E mais uma vez, insinuou-se para Guma. Lívia passou mal e quase abortou. Guma chamou Esmeralda e doutor Rodrigo para ajudá-lo.

Enquanto Lívia dorme, Guma, sozinho com Esmeralda, deita-se com a amásia do seu melhor amigo. Depois, num momento de cólera, ameaça matá-la, quando ouve os passos dos tios de Lívia que chegavam com o velho Francisco. Lívia passava bem.

Terceiro capítulo - Eram cinco meninos

Após a melhora de Lívia, Guma viajou, fugindo das perseguições de Esmeralda e tentando evitar Rufino, pois havia quebrado a lei do cais, traindo seu melhor amigo. Sentia vergonha. Encontrou Rufino no mar com a canoa engolindo água, parte da carga de açúcar perdida, que foi removida para o "Valente". Lívia e Esmeralda esperam os seus homens no cais. Somente Guma chega e, ao subir a ladeira com Lívia, Esmeralda sente ciúme. Guma fugia dela.

Leôncio, dado como morto, irmão do velho Francisco e tio de Guma, chega misteriosamente. Todos se assustam, principalmente o velho Francisco que pede que ele vá embora, mas Lívia permite que ele fique por duas noites. Saiu para andar pelo porto e nunca mais voltou. Guma tem receio de que Esmeralda conte a Rufino o seu relacionamento com ele. Esmeralda tinha os seios pontudos, e Rufino estava enrabichado por ela.

Na viagem seguinte, Rufino perguntou a Guma se ele já tinha ouvido falar de Esmeralda no cais. Vêem os destroços de três saveiros. Salvam a tripulação. Eram cinco crianças que o pai esperava. Só sobrou uma.

Quarto capítulo - Água mansa

Depois do novo desaparecimento de Leôncio, velho Francisco pouco parava em casa, vivia no cais, bebia no Farol das Estrelas, voltava sempre bêbedo. Rufino já desconfiava de que Esmeralda andava enganando-o, de que era corno. Achou uma carta dela endereçada a um marinheiro do "Miranda".

Num passeio de canoa, com troca de acusações, Esmeralda, sabendo que ia morrer, conta em detalhes o seu envolvimento com Guma, mas Rufino não acreditou. E ela ria. E foi rindo que morreu. Rufino abriu a cabeça dela com o remo: matou-a e, depois, jogou-se no mar para ser comido pelos tubarões. Morreu sem alegria. Só encontraram, depois, pedaços dos cadáveres.

Guma trabalhando no mar, Lívia achava cada vez mais que a vida dele corria perigo. Os tios dela iam visitá-la, queriam que Guma deixasse aquela vida do cais e fosse trabalhar na cidade alta.

Quinto capítulo - O "Valente"

" Valente" era o nome do saveiro de Guma. Aqui, Jorge Amado destaca a volta de Chico Tristeza, um negro que fora embora há muito tempo e, agora, voltava hercúleo, contando histórias. Trouxe um xale de seda para a sua mãe que vendia cocada.

A história que mais impressionou a todos foi a da África. Ali, vida de negro era pior que vida de cachorro. Lá, num descarregamento do Lloyd Brasileiro, os negros trabalhavam sob o chicote do branco. Aí, um preto que era foguista do navio, de nome Bagé, viu um negro ser chicoteado. Tomou o chicote das mãos do branco francês e, à frente de todos, deu-lhe uma surra. Nunca ninguém tinha visto aquilo. Chico Tristeza foi embora. Seu navio só demorou dois dias.

Sexto capítulo - O Filho

O Dr. Rodrigo foi chamado, pois Guma, no acidente, ficou com um ferimento na cabeça, mas primeiro teve que atender Lívia. Nasceu o filho de Guma. Ao invés de ficar alegre, Guma estava triste: seu filho nasceu, e ele não tinha um saveiro. Com a ajuda do dr. Rodrigo, comprou de João Caçula, para pagar em parcelas, o "Roncador", que passou a chamar de "Paquete Voador".

Sétimo capítulo - Toufick, o árabe

Nesse capítulo, aparece a figura do árabe Toufick, que chegou na terceira classe de um navio e vivia em uma aldeia entre os desertos. Com sua mala de mascate, sem conhecer direito a língua, já vendia sombrinhas, seda barata e bolsas às empregadas e criadas da Bahia. Aos poucos, foi conhecendo a cidade; morava num bairro árabe da Ladeira do Pelourinho.

Por suas qualidades de comerciante, foi trabalhar para F. Murad, o árabe mais rico da cidade, dono de uma casa de tecido que tomava quase todo um quarteirão e contrabandista de seda.

Oitavo capítulo - Contrabandista

Frederico, o filho de Guma e Lívia, já começava a andar, mas não queria saber de brincar com trenzinho, ursinho ou palhaço. Preferia brincar com um barquinho numa bacia de água, prenúncio de que teria o destino do pai.

O "Roncador", comprado a prazo de João Caçula, havia-se transformado em "Paquete Voador". Guma devia a dr. Rodrigo, que não cobrava, mas João Caçula vivia no seu pé, querendo que ele vendesse o barco para lhe pagar o que devia.

Toufick propõe a Guma que aceite transportar o contrabando de sedas, serviço feito por Xavier, que o deixou na mão. Guma podia ganhar, de uma só vez, até quinhentos mil réis e pagar o seu saveiro em dois ou três meses. Guma reluta, mas, por extrema necessidade, aceita o serviço, recebendo cem mil réis de adiantamento. Na primeira viagem, conhece Haddad, outro contrabandista, e F. Murad, o árabe mais rico da cidade.

Rodolfo e Lívia já desconfiavam de que Guma estava metido no negócio de contrabando, até que ele, encurralado e sem argumentos, diz a ela que, quando acabasse de pagar o "Paquete Voador", deixaria aquela vida.

Guma pagou o saveiro. Tomou amizade ao árabe Toufick. A vida havia melhorado. Guma tinha duzentos e cinqüenta mil réis em casa e estava livre de dívidas. Em breve, quando juntassem um conto de réis, deixariam aquela vida para morar na cidade alta. Dariam um destino melhor para o filho.

Nono capítulo - Terras de Aiocá

Guma manda avisar a Rosa Palmeirão, nas terras do Norte, que o "neto" dela já havia nascido. Lívia a recebeu como uma irmã. Guma, enfrentando um grande temporal, numa das viagens de contrabando, com Toufick, Haddad e, desta vez, com Antônio, jovem árabe e filho de F. Murad, naufraga com o "Paquete Voador". Os tubarões devoram Haddad, Guma salva Toufick e fica ouvindo os gritos e F. Murad, na praia, pedindo pelo filho. Guma volta ao mar, pega o jovem que é jogado na praia pela forte correnteza.

Numa luta mortal com tubarões, Guma desaparece. O vento joga o "Paquete Voador" na areia do porto.

3ª parte

A terceira parte da obra denomina-se MAR MORTO e possui quatro capítulos.

Primeiro capítulo - O mar é doce amigo

No "Viajante sem Porto", mestre Manuel, dr. Rodrigo, o velho Francisco, Maneca, Maria Clara e Lívia chegam ao local onde Guma desapareceu. O velho Francisco acende uma vela. Onde o pires parasse, lá estaria o corpo. Era só mergulhar. Todas as tentativas foram em vão. Guma desapareceu salvando dois, teve a morte mais heróica do cais.

Segundo capítulo - A noite é para o mar

Aqui, temos a volta da mãe de Guma, depois de vinte anos, velha e trôpega, meio cega. Toufick agradece a Lívia por Guma ter salvado a vida dele e a de Antônio. Murad, pai de Antônio, mandara uma certa quantia em dinheiro. Em certa estação de rádio da Bahia, alguém pede às mulheres que rezem para encontrar o corpo de uma marinheiro que morreu afogado. Lívia assume o comando do "Paquete Voador".

Terceiro capítulo - Hora da noite

Lívia sente o peso da solidão. O seu homem estava longe, morto no mar. Outros homens rondavam a sua porta. Para ela, a noite continua. A noite sem estrelas do mar morto.

Quarto capítulo - Estrela

A professora Dulce olha da escola. Os saveiros saem. Lívia, bem frágil, e Rosa Palmeirão, de navalha na saia e punhal no peito, seguem no veleiro. Rosa Palmeirão parece um homem em cima do "Paquete Voador".

O velho Francisco, olhando para o mar, vê Lívia em pé, no "Paquete Voador". E grita para os outros no cais: "- Vejam! Vejam! É Janaína."

Era a segunda vez que ele a via. Segundo Jorge Amado, "assim contavam na beira do cais."

 

 

 

 

 

 

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Tocaia Grande - Jorge Amado - resumo

A narrativa de Tocaia Grande nos leva para o nordeste dos jagunços e coronéis. Da religiosidade e misticismos. Das mulheres-damas e esposas atreladas aos desígnios de seus senhores. Dos plantadores de cacau.

Enfim, Tocaia Grande é a saga do jagunço Natário da Fonseca, caboclo de feições carrancudas que serve ao coronel Boaventura, livrando-o de emboscadas e tocaias, em questões de posse de terras do sertão devoluto. Por ser um empregado honesto e leal, será mercador de um pedaço de terra nos confins-do-judas do sertão nordestino.

A narrativa inicia-se quando o jagunço Notário, ao arquitetar uma emboscada, por problemas políticos, a inimigos do coronel Boaventura, delimita a localização e a posição dos jagunços pedindo ao coronel que lhe faça o favor de deixá-lo tomar um pedaço de terras nas cercanias; pois o caboclo tem a intenção de plantar pequena roça de cacau, para poder, no futuro, ser dono do seu próprio nariz, com o empenho da palavra que sempre servirá ao coronel, pois ele que lhe deu guarida quando apareceu naquelas bandas, foragido de outra cidade. Em resposta o coronel lhe diz que só não lhe permitirá que posse das terras como o fará capitão.

Após a tocaia dos inimigos, com vitória do capitão Natário, este domina o lugar de Tocaia Grande.

Com o passar dos tempos, afluem para a localidade de Tocaia Grande um turco de nome Fadul Abdala, que logo abriu um pequeno comércio para venda de cachaça, rapaduras, farinha,... e algumas mulheres-damas para o deleite dos tropeiros que começaram a fazer de Tocaia Grande cominho de passagem em suas idas e vindas, o que transformou o lugar em lugar de pernoite.

E Tocaia Grande começa a crescer: de lugar de pernoite, passa a arruado, a lugarejo, a arraial, a povoado, a cidadela e a cidade de Irisópolis. Mas, para chegar a cada posto teve de enfrentar de tudo um pouco: enchentes, peste, e a tocaia maior contra o povo tocaiagrandense, a mando do filho do coronel Boaventura, para satisfazer os caprichos de uma russa com ares de madame, porém que não passava de uma bisca sem vergonha.

No desenrolar da narrativa vamos topando com Castor Abdium, mais conhecido por Tião, que vai dar em Tocaia Grande por estar sendo perseguido pelos homens do Barão, sendo ao qual servia, mas por ter traçado a esposa e a empregada predileta deste e o mesmo ter presenciado tal descaramento, se põe em fuga; Bernarda, afilhada do Capitão Natário que após a morte de sua mãe, depois de ter sido estuprada e seviciada pelo pai, foge para as paragens de Tocaia Grande, tornando-se amante do Capitão Natário, com o qual tem um filho, além de continuar na labuta como prostituta. Jacinta Coroca que passa da condição de velha prostituta a parteira; uma família de sergipanos que expulsos da fazenda onde moravam e eram agregados, se põem na estrada em busca de melhor lugar para viverem; no caminho topam com o Capitão Natário que lhes fala de Tocaia Grande e lhes diz que lá eles serão donos de suas terras. Ninguém mandará neles, muito menos os expulsarão. Nesta família de sergipanos encontramos Diva, menina que ao transformar-se em moça acaba sendo motivo de apostas em Tocaia Grande, pois tem dois pretendentes: Tição, negro ferreiro e Bastião da Rosa, carpinteiro loiro de olhos azuis. É com Tição que Diva se amasia e tem um filho.

Em Tocaia Grande quem se gosta se amasia, pois o lugar não tem igreja, não tem padre. É um porto livre dos tabus e moralidades da sociedade. As coisas acontecem de acordo com as conveniências e necessidades.

Outro personagem a destacar é Zilda, esposa do Capitão Natário, que tem com ele dois filhos, e outros tantos que recolhe e cria como se fossem seus. Todos tinham cara de Natário.

O primeiro incidente que ocorreu no lugar foi o assalto à bodega do turco Fadul; enquanto este houvera se ausentado para comprar mercadorias em Itabuna e colocar novidades em dia. Ao regressar, sabe do saque e se desilude com seus companheiros, que nada fizeram para impedir o ocorrido. A se ressaltar que os mesmo nada fizeram devido à fama dos saqueadores: jagunços impiedosos. Fadul amaldiçoa tudo e todos e culpa seu deus – dos maronitas – por não ter protegido seu negócio dos vândalos inconseqüentes que por não terem achado o dinheiro que pensavam ter o turco escondido na venda, quebram, estragam e põem fogo nos pertences, como forma de reprimenda, prometendo voltar quando o proprietário estivesse no recinto, pois só assim teriam certeza que o assalto seria bem sucedido.

Numa visita do Capitão Natário, ao lugarejo, este conversa com o amigo Fadul; entretanto não há demonstrações de se importar com o ocorrido. Quando está indo embora, antes de esporear o cavalo, informa Fadul que já sabia do saque o que também já tinha resolvido a pendenga, dando cabo dos jagunços, pois aqueles eram bichos ruins, não tinham préstimo nenhum.

O segundo acontecimento memorável foi a enchente que dizimou a localidade, levando em suas águas lamacentas a vida de cão, adolescente lerda das idéias e de Cícero, representante de uma das principais casas exportadoras de cacau, que adorava traçar empregadas das fazendas e mocinhas recém-defloradas, pois só assim tinha certeza que não pegava doenças de puteiros; e a cadela oferecida, presente de Zilda a Tição, para amenizar a solidão de Alma penada, cachorro vira-latas que apareceu sem mais nem menos na casa do ferreiro.

O terceiro grave, porém não pior, foi a peste negra que se abateu sobre a população de Tocaia Grande, levando consigo nove vidas, deixando a sua pequena população em polvorosa, o que levou muitos a arribar para outros lugares. Os que ficaram foi por teimosia e por não terem para onde ir.

Quarto acontecimento, de alegrias, pois Tocaia Grande também teve seus dias de glórias e felicidades, foi à festa de reisado promovido por sai Leocádia, estancieira adentrada em anos, mas que nem por isso desanimava. Era uma das mais alegres do lugar. Transformou o seu reisado (variante do nosso boi-de-mamão), num acontecido de alegrias. Da festa nasceu namorados e amasiados, por conta da felicidade da comemoração.

Coronel Boaventura morre e pede a Natário um único favor: que se encarregue da moça Sacramento, derradeira alegria do Coronel, encaminhando-a da melhor forma possível.

Com a morte do Coronel, seu filho Boaventurinha é obrigado a largar de sua boa vida na Europa, regressar para casa, assumir as finanças e a política deixadas pelo pai. Ao saber que o Capitão Natário não irá mais lhe assessorar, pois o seu compromisso era com o pai e com a morte dele cessou suas obrigações, se revolta e vai à cata de vingança. Assim que chega à Itabuna, trazendo com suas bagagens a russa que encontrou em casas noturnas em Paris e o irmão desta, leva estes a uma visita de reconhecimento pela cidade de Itabuna, Ilhéus e ao povoado de Tocaia Grande. A russa fica maravilhada com tudo o que vê e pensa ser aquelas maravilhas, de propriedade de Venturinha. Pensando assim, pede-lhe que este lhe dê Tocaia Grande como forma de agrado e reconhecimento por toda a felicidade que lhe proporcionou.

Neste ínterim chega a Tocaia Grande a Santa Missão, composta por dois freis, com o intuito de redimir aquele antro de pecado e pecaminosidade. Os dois, apesar dos esforços, e do bom palavrear passam por Tocaia Grande deixando tão somente a legalidade dos amasiados, transformando-os em casados, nos conformes da lei de Deus, o batismo dos pagãos e o Cruzeiro, local destas cerimônias.

Em Itabuna as coisas começam a ferver. Começa a arribar para lá jagunços dos mais temidos das localidades e redondezas, com o intuito de tocaiar os tocaiagrandenses.

As más notícias chegam aos ouvidos do Capitão Natário. Reúne, aos poucos, sua gente, dizendo que ninguém é obrigado a ficar. Os que quiserem ir embora podem ir, para regressarem quando acharem mais conveniente. E muitos vão embora. Na noite de tocaia, sem o saber, o Capitão Natário encontra-se com sua amante e afilhada Bernarda – já havia encaminhado sua esposa, Zilda e os filhos, os seus e os recolhidos, até o de Bernardas, para a casa da roça – quando adentra casa afora um capanga que dispara um tiro, porém Bernarda se interpõe entre a bala e o Capitão Natário, vindo a morrer em seguida, nos braços do único homem que amou, conforme havia profeciado uma cigana em outras datas. O capanga é morto por Sigismundo, cão de guarda do Coronel Boaventura, quando este vivia. Ao escutar num cabaré, em Itabuna, um jagunço mencionar que quem mataria Natário seria ele e não outro, se pôs nos encalços deste vindo dar no ocorrido.

Capitão Natário mandou espalhar o boato, em Itabuna e redondezas, que estava morto. Os outros jagunços se puseram em marcha para Tocaia Grande com o propósito de acabar com todos e com tudo que se interpusesse nos seus caminhos. A maioria da população morre. Natário e Jacinta Coroca, no outeiro do Capitão armaram emboscada para os mandantes daquela desgraça:

"No vislumbre da lua cheia cravada sobre a terra violada, sobre o rio assassinado, sobre a morte desatada, na hora da meio-noite, junto ao pé de mulungu, no alto do outeiro do Capitão, Jacinta Coroca e Natário da Fonseca, ela com a repetição, ele com o parabelo, na tocaia, usufruíram a beleza da paisagem. Lá embaixo, jazia Tocaia Grande ocupada pelos jagunços e pelos cabras da briosa...

Chegou até eles o tropel da comitiva dos notáveis. Vinham da desolação. Vinham da desolação da Baixa dos Sapos: nas choças abandonadas pelas raparigas, os jagunços haviam-se entrincheirados, (...) na casa de madeira, nos barrancos de adobe, o Intendente, o Juiz, o Promotor, o Mandatário e a companhia, a corte altissonante, se abrigam, aguardando o momento de entrada triunfal.

Despontam sob a claridade do luar, uma cavalgada de se ver e bater palmas: gordos, fortes garbosos, bem vestidos, bem dispostos, traziam a lei para implantá-la. Jacinta Coroca apoiou a repetição no galho de árvores. O Capitão Natário de Fonseca repetiu:

- Lugar mais bonito pra viver!

- Não há igual – concordou Coroca.

Montando um esplendo de égua, no centro do cortejo, tendo de um lado o Intendente, do outro a divina Ludmila Gregorióvna, destacava-se o corpanzl do bacharel Boaventura Andrade Júnior, chefe político, mandachuva. A cara aberta em riso.

Natário firmou pontaria, visando a testa de Venturinha. Em mais de vinte anos, não errara um tiro. Com sua licença, Coronel.”


 

 

 

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A Bagaceira - José Américo de Almeida - Resumo

O marco inicial da segunda fase do Modernismo brasileiro é considerado o lançamento do romance A Bagaceira, de José Américo de Almeida, em 1928. Inaugura o ciclo do “romance nordestino” dos anos 30.

O enredo baseia-se no êxodo da seca de 1898, descrito como "(...) Uma ressurreição de cemitérios antigos - esqueletos redivivos, com o aspecto e o fedor das covas podres.(...)".

Obra-prima do romance regionalista moderno, hoje com trinta e duas edições em língua portuguesa, edição crítica e versões em espanhol, francês, inglês e esperanto. Sua obra, com dezessete títulos, abriga ainda ensaios, oratória, crônica, memórias e poesia.

A história se passa entre 1898 e 1915, os dois períodos de seca.

Tangidos pelo sol implacável, Valentim Pereira, sua filha Soledade e o afilhado Pirunga abandonam a fazenda do Bondó, na zona do sertão. Encaminham-se para as regiões dos engenhos, no rejo, onde encontram acolhida no engenho Marzagão, de propriedade de Dagoberto Marçau, cuja mulher falecera por ocasião do nascimento do único filho, Lúcio.

Passando as férias no engenho, Lúcio conhece Soledade, e por ela se apaixona. O estudante retorna à academia e quando de novo volta, em férias, à companhia do pai, toma conhecimento de que Valentim Pereira se encontra preso por ter assassinado o feitor Manuel Broca, suposto sedutor e amante de Soledade. Lúcio, já advogado, resolve defender Valentim e informa o pai do seu propósito: casar-se com Soledade. Dagoberto não aceita a decisão do filho. Tudo é esclarecido: Soledade é prima de Lúcio, e Dagoberto foi quem realmente a seduziu. Pirunga, tomando conhecimento dos fatos, comunica ao padrinho (Valentim) e este lhe pede, sob juramento, velar pelo senhor do engenho (Dagoberto), até que ele possa executar o seu "dever": matar o verdadeiro sedutor de sua filha. Em seguida, Soledade e Dagoberto, acompanhados por Pirunga, deixam o engenho e se dirigem para a fazenda do Bondó. Cavalgando pelos tabuleiros da fazenda, Pirunga provoca a morte do senhor do engenho Marzagão, herdado por Lúcio, com a morte do pai.

Em 1915, por outro período de seca, Soledade, já com a beleza destruída pelo tempo, vai ao encontro de Lúcio, para lhe entregar o filho, fruto do seu amor com Dagoberto.

Personagens:

Dagoberto Marçau - Proprietário do engenho Marzagão, simboliza a prepotência, contrapondo-se à fraqueza dos trabalhadores da bagaceira. Considera-se "dono " da justiça e seu código é simples: "O que está na terra é da terra". Se ele é o senhor da terra, tudo que nela dá é da terra (ou seja, dele próprio). "Se ele é o senhor da terra, tudo que nela se encontra lhe pertence, até os próprios homens que trabalham no engenho. Assim pensa e assim age. Seduz Soledade, vendo na sertaneja semelhança com sua ex-mulher.

Lúcio - Humano, idealista, sonhador, apaixona-se por Soledade, com quem mantém um romance puro. Não compartilha as idéias de seu pai, Dagoberto Marçau, para quem "hoje em dia não se guarda mais na cabeça: só se deve guardar nas algibeiras. "Acreditava que se podia desmontar a estrutura anacrônica do engenho: "Quanta energia mal empregada na desorientação dos processos agrícolas!
A falta de método acarretava uma precariedade responsável pelos apertos da população misérrima. A gleba inesgotável era aviltada por essa prostração econômica. A mediania do senhor rural e a ralé faminta".
Soledade - Filha de Valentim Pereira, representa a beleza agreste do sertão. Aos olhos de Lúcio, a sertaneja. "não correspondia pela harmonia dos caracteres às exigências do seu sentimento do tipo humano. Mas, não sabia por que, achava-lhe um sainete novo na feminilidade indefinível. As linhas físicas não seriam tão puras. Mas o todo picante tinha o sabor esquisito que se requintava em certa desproporção dos contornos e, notadamente, no centro petulante dos olhos originais."... "Era o tipo modelar de uma raça selecionada, sem mescla, na mais sadia consangüinidade."

A presença da sertaneja no engenho colocará uma barreira ainda maior entre Dagoberto e Lúcio. Por Soledade Valentim se torna assassino e Pirunga causa a morte do senhor de engenho.
Valentim Pereira - Representa o sertão: destemido, arrojado e altivo. Como bom sertanejo pune pela honra de uma mulher, mata o feitor Manuel Broca, apontado como sedutor de sua filha. Mas a "idéia fixa da honra sertaneja" vai além: a cicatriz que lhe marcava o rosto era resultado de uma briga mortal com um amigo, que desonrara uma moça, neta de um "velhinho", de quem o tempo quebrara as forças. O diálogo entre Valentim e Brandão de Batalaia (assim se chamava o "velhinho") é bem ilustrativo: "Que é que vossamecê manda? Ele respondeu que só queria era morrer. Eu ajuntei: E por que não quer matar?..."
Pirunga - Filho de criação de Valentim Pereira, a quem tributa lealdade. Ama Soledade, mas seu amor não encontra receptividade. Assim como Valentim, simboliza o sertão: valente, intrépido, altivo... Por ocasião da festa no rancho , vai em defesa de Latomia: enfrentando a polícia.

"O sertanejo fazia frente a toda tropa na confusão do conflito corpo a corpo. Seu olhar fuzilava na treva como um sabre desembainhado."

O relato abre o ciclo do romance de 1930, entre outras razões por sua força de denúncia dos horrores gerados pela seca.

É digno de nota o prefácio que vale tanto ou mais do que próprio texto narrativo. Destaque para o espanto do escritor face às mazelas: "Há uma miséria maior do que morrer de fome no deserto: é não ter o que comer na terra de Canaã."

Na narrativa há um choque de três visões que correspondem a três processos sócio-culturais distintos:
1) Visão rústica dos sertanejos, com seu sentido ético arcaico.

2) Visão brutal e autoritária do senhor de engenho, representando a velha oligarquia.

3) Visão civilizada (moderna, urbana) de Lúcio, traduzindo um novo comportamento de fundo burguês e que logo seria autorizado pela Revolução de 30.

Significativo é o projeto modernizador do personagem Lúcio ao assumir o comando do engenho: alfabetização dos filhos dos trabalhadores, melhores condições de habitação, etc. Ou seja, aquilo que Getúlio Vargas proporia nos anos seguintes como alternativa para o país.

O livro apresenta uma mistura (mal resolvida) de linguagem tradicional - dominada por um tom desagradavelmente sentencioso - com um gosto modernista por elipses e imagens soltas, e ainda pelo uso de algumas expressões coloquiais ou regionais.

Fora sua notável importância histórica, A Bagaceira é um romance frustrado por causa do excesso de análise sociológica. É como se a ânsia do autor em tudo explicar, destruísse todo e qualquer efeito sugestivo da narrativa. Luís Costa Lima explicitou bem esse defeito: " A falha central do novelista é a sua incapacidade de ultrapassar o realismo mais primário."

 

 

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Fogo Morto - José Lins do Rego - resumo

PERSONAGENS:

José Amaro: um dos protagonistas da obra, tem fama de lobisomem;

Sinhá: mulher de José Amaro;

Marta: filha de José Amaro;

Capitão Antonio Silvino: cangaceiro que Marta apoiava;

Floripes: o negro;

Luis Cezar de Holanda: genro de Tomás Cabral de Melo;

Personagens Secundários:

Amélia - esposa de Coronel Lula

Adriana - esposa de Capitão Vitorino

Neném - filha de Coronel Lula

Luís - filho do Capitão Vitorino (o único em ascensão social)

Tenente Maurício: opressor, comanda uma tropa de facínoras.

Negro Passarinho: cantor ingênuo, escravo recém-liberto, corroído pelo vício da bebida.

Coronel José Paulino: senhor de engenho que se alia a todos os governos.

Cego Torquato: agente de ligação com Antônio Silvino

Cabra Alípio: devotado de corpo e alma ao cangaço

A narrativa faz parte do ciclo-de-açúcar e é dividida em três partes, cada uma delas apresentando o que acontece em torno de seus personagens principais: Mestre José Amaro, o engenho de Seu Lula e o Capitão Vitorino Carneiro da Cunha.

A primeira parte enfoca principalmente a figura de um velho seleiro frustrado - Mestre José Amaro. Chegou ao Engenho Santa Fé trazido pelo pai o velho Amaro; "homem valente que viera de Goiana, com uma morte nas costas". Devido às andanças pela noite, Mestre José Amaro ganha fama de lobisomem. Sustentavam que saía em busca de sangue. Culpa toda a sua infelicidade na esposa, Sinhá, e na loucura da filha Marta. Apoiava o cangaceiro Capitão Antônio Silvino, o único que levava justiça aos pobres e colocava medo nos grandes. Devido a uma intriga com o negro Floripes, recebe intimação de deixar a sua casa no Engenho Santa Fé. As brigas com o senhor de engenho somam-se às desilusões com a própria profissão e com a vida familiar. A mulher o abandona, a filha é levada para a Tamarineira. Não suportando as frustrações e a solidão, Mestre José Amaro acaba por suicidar-se.

O engenho de seu Lula é o título da segunda parte e retrata a história do Engenho Santa Fé, erguido pelo capitão Tomás Cabral de Melo. O engenho prosperava no pulso firme de trabalho do capitão. O seu genro Luís César de Holanda Chacon, não gostava de trabalhar para a prosperidade do engenho e só tinha ares aristocráticos e uma compulsão por rezas. O Santa Fé entre em rápido declínio. Seu Lula maltratava os negros e após a abolição todos se retiraram exceto o negro Macário.

A terceira parte tem por título o Capitão Vitorino, compadre de Mestre Amaro e que até a segunda parte do romance era visto apenas como motivo de zombaria. Falava mal de tudo e de todos que não gostava, inclusive dos senhores de engenho. O mestre Amaro considerava-o vagabundo e falador. Contudo, na terceira parte Vitorino é apresentado como verdadeiro herói quixotesco, que vivia lutando e brigando por justiça e igualdade, sempre em defesa dos humildes contra os poderosos da terra. Não media conseqüência em desafiar as autoridades e até mesmo ao cangaceiro Antônio Silvino. Falava o que pensava e sonhava com dia em que governasse.

É notável a habilidade de José Lins do Rego em encadear as três partes narradas, que se direcionam para mostrar a decadência do engenho e o que acontece com seus habitantes.

 

 

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Menino de Engenho - José Lins do Rego - Resumo

Em Menino de Engenho, temos a situação sócio-econômica do engenho de açúcar que marcará a parte mais significativa das produções de José Lins do Rego. As tensões sociais apontadas pelo menino narrador-protagonista da história serão dinamizadas nos romances posteriores, em especial em Fogo Morto. Outros temas de sua obra são aqui indicados: o misticismo e a religiosidade populares, o cangaceirismo; a atmosfera é de tristeza e de decadência.

Publicado em 1932, Menino do Engenho é a estréia em romance de José Lins do Rego e já traz os valores que o consagraram na Literatura Brasileira. O primeiro aspecto é a sua filiação à Prosa Regionalista Modernista.

Durante a década de 30 do século XX, virou moda uma produção que se preocupava em apresentar a realidade nordestina e os seus problemas, numa linguagem nova, introduzida pelos participantes da Semana de Arte Moderna de 22. José Lins do Rego seria o melhor representante dessa vertente, se certas qualidades suas não atenuassem fortemente o tom crítico esperado na época.

A intenção do livro afastou a visão político-social do romance. Nascido com a intenção de ser memórias (o primeiro título de fato ia ser Memórias de um Menino de Engenho), o autor está mais preocupado em reunir flashes do passado do que em produzir uma análise aprofundada de sua realidade (essa técnica faz lembrar o estilo impressionista de O Ateneu, de Raul Pompéia, romance que o próprio José do Lins do Rego cita em Menino de Engenho. No entanto, as comparações só se tornarão mais nítidas na seqüência dessa obra, Doidinho). Dessa forma, tudo será carregado de um saudosismo que tornará a obra melosa, sentimental, próxima da idealização da realidade, muitas vezes até ingenuidade. É o que impossibilitará o fôlego para uma crítica social mais efetiva.

Há quem enxergue nessa inocência um ponto positivo para tornar a obra uma das mais brasileiras de nossa literatura. Existe a idéia, real ou atribuída, de que nosso povo tem um olhar afetivo sobre tudo, o que o torna submisso, passivo, avesso a protestos e revoluções. Idéia questionável, mas interessante.

É o que de fato enxergamos na atitude do seu narrador-protagonista. Talvez seu histórico explique tais atitudes. Quando tinha quatro anos, seu pai, de forma passional, acaba assassinando sua esposa, o que o faz ser preso e depois ser colocado num hospício. Por causa disso, passa a ser criado pelo avô, José Paulino, senhor de engenho.

Recebe todos os mimos, pois é criança da cidade e vítima de tão gigantesco infortúnio. Pouco depois, desenvolve “puxado” (asma), o que o torna mais vulnerável ainda. Somando-se à saudade da mãe e do pai, e à maneira largada com que é criado (só tem atenção mesmo da tia, que pouco depois se casa), acaba tornando-se uma criança melancólica, que passa horas ensimesmada enquanto caça passarinhos em plena solidão.

Em suma, tudo isso contribui para que José Lins do Rego toque na realidade de maneira bastante emotiva, o que camufla problemas graves. Percebemos isso principalmente na idealização que faz do seu avô, José Paulino, um senhor do engenho, dono do Santa Rosa (há quem entenda que um dos problemas está na narração em primeira pessoa, muito utilizada pelo autor, o que torna sua visão limitada, graças à subjetividade. Talvez isso explique por que seus melhores romances são Usina e Fogo Morto, em que se usa a terceira pessoa, garantidora de objetividade, ou seja, espírito crítico aguçado). Na sua visão infantil, não percebe que, como riquíssimo proprietário, é um concentrador de terra e de renda, chegando a achar natural a pobreza dos trabalhadores, não estabelecendo ligação entre os dois fatos.

A inocência (a inocência pode ser justificada pela fidelidade que o narrador manteve em relação ao pensamento infantil. Há momentos em que ele chega a reconhecer as falhas desse tipo de pensamento, demonstrando que, adulto, passou a desenvolver mais criticidade. Mas não é um argumento que possa ser aplicado a todo momento na obra) do protagonista é tamanha que doura a doença e a subnutrição das famílias dos peões, considerando-os superiores, por mais resistentes, a ele próprio.

Pode-se até perdoar o relato da cheia destruidora e assassina como um motivo de festa. Criança agita-se mesmo com tais mudanças de rotina. Ou até as descomposturas que o senhor de engenho passava em seus empregados, mesmo o serviço estando adiantado. Ou mesmo a submissão muda a que estes se submetiam diante do patrão. Mas choca a apresentação de José Paulino como alguém que se intromete nas atribuições do Estado. Tudo bem que resolva medicar seus escravos (cuida da amputação do dedo de um deles) com a mesma medicina tosca com que tratava seus familiares. Mas quando o avô parte para fazer justiça pelas próprias mãos, de forma até violenta, ou influencia o Judiciário quando há julgamentos que envolvam algum seu protegido, a característica de seu poder muda de figura. E o pior é que o narrador, Carlos, ainda diz que seu avô era um santo que plantava cana.

Tudo isso contribui para que José Lins do Rego crie toda uma crença de que o poder gerado pelos senhores de engenho tornava o mundo melhor, talvez uma filosofia, como amplamente demonstrada aqui, baseada numa idealização do passado. O problema é o autor viveu numa época de transição da substituição do sistema do engenho (método de produção de açúcar de cana de forma artesanal) para a usina (produção industrial). Dessa forma, seu saudosismo é um canto para uma sociedade que não existe mais.

Como se disse, se essa emotividade compromete o olhar analítico do autor, que era exigido em sua época, mantém uma presumida fidelidade ao jeito de ser brasileiro. Essa criança, largada no engenho, passa sua infância entre brincadeiras com os primos, os filhos dos empregados, ouve as conversas das negras na cozinha, além das histórias fantásticas e folclóricas da Velha Totonha ou as que narravam os feitos políticos, estas na boca do avô. Nosso país está aqui.

Em meio aos relatos do cotidiano do engenho, suas festas e sua labuta, há espaço para a sexualização precoce do protagonista, que se dá primeiro observando as coberturas dos bovinos e eqüinos e depois presenciando (e quem sabe participando de) bestialidades.

Nesse contexto, fica até interessante a separação que tentará estabelecer entre seu histórico lascivo, aumentado pelas masturbações provocadas pela Negra Luísa, e a paixão que vai desenvolver por uma prima civilizada, de Recife, Maria Clara. Tenta manter a menina longe da imagem sexual, mas sempre explodem em sonhos desejos de forte, apesar de reprimida, conotação carnal.

Dessa forma, o inevitável ocorre. Agarra-se em chamegos a Zefá Cajá, mulher que era caso de quase todo mundo na região. Apesar das resistências dela, que alegava o menino ainda cheirar a leite, acaba se deixando seduzir (provavelmente se faz de ser comprada, graças ao tanto que ele furtava da casa grande para ela) e inicia-o sexualmente. A conseqüência, mais ou menos esperada, é pegar doença venérea.

Torna-se então o símbolo do menino perdido, apesar de bem visto por algumas pessoas, por simbolizar um prodígio de masculinidade. Isso tudo apressa sua ida ao colégio interno, o que acelera o final da narrativa, abrindo caminho para a próxima obra, Doidinho.

 

 

 

 

 

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Riacho Doce - José Lins do Rego - resumo

“Em Riacho Doce, José Lins une amor e petróleo. Um casal de suecos vem para o Brasil, para Alagoas, e a loura Edna se extasia com a força tropical do Brasil, que ela descobre. Apaixona-se por um mestiço nordestino, Nô, uma das figuras mais empolgantes de toda a ficção numerosa de Zé Lins. O amor de Edna e Nô é o núcleo desse romance que é um dos mais ardentemente humanos do mestre José Lins do Rego, esse contador de histórias inesgotável, impregnado de oralidade.

Como em "Pureza", como em "Água Mãe", estamos aqui fora do Ciclo da Ana-de-Açúcar. Mas ainda estamos em pleno Nordeste. A narrativa é de uma atualidade absoluta, porque os suecos vieram para o Nordeste a serviço da exploração do petróleo. Engenharia, petróleo, amor, o simples amor, o puro amor aqui se associam na prosa extremamente vegetal, espontânea, telúrica, flexível de alguém que soube como raros aliar organicamente literatura e vida.

Seu estilo neste romance é um milagre de naturalidade e de intimidade com a natureza ou integração na própria natureza exterior. E há que se salientar o processo de análise psicológica, que consiste na repetição sistemática de certos dados. A figura da Mãe Aninha é perfeita como observação da psicologia supersticiosa.
José Lins uniu como ninguém memória e imaginação, primitivismo e arte, povo e ficção. Personagens nativas e rústicas se misturam a essa estranha sueca, fascinada pelo mundo bárbaro e poderoso de um Nordeste que é todo a verdade vista e vivida. Mãe Aninha e Nô saltam diante dos nossos olhos como criações exatas, inesquecíveis.

José Lins está preso à tradição dos cantadores nordestinos. A sua prosa, de um coloquialismo gostosíssimo, único, é bem a fala autêntica de uma feira do Nordeste. Como em toda a obra ficcional de Lins do Rego, o Nordeste está presente neste romance, de forma dramática.

E a sueca misteriosa vem descobrir sensualmente a força telúrica do Nordeste rústico, o ritmo popular, os sabores e os cheiros, as formas, as cores, a vida intensa de uma região que é o mundo perene desse grande narrador em contato amoroso com a vida.

José Lins do Rego é apaixonadamente povo, é vigorosamente povo nas páginas deste romance forte e ardente, que é um ato de amor à vida sumarenta. Há aqui um fundo lirismo tropical, um instintivismo, um calor humano, um sopro de poesia genuína que faz deste romance de 1939 uma afirmação plena de maturidade artística.” (Antonio C. Villaça)

Desde as primeiras páginas, a narrativa de Riacho Doce se apodera de nós, impondo-nos ao seu ritmo. Em todo ciclo da cana-de-açúcar o que é ação não deixa margem para discussões ociosas, uma vez que apresenta com a força dos fatos consumados, independentes do arbítrio do autor, que é como se apenas os tivesse recolhido. Por isso mesmo, não se queira sujeitar às regras habituais da construção do romance e da composição das figuras uma obra nascida diretamente da vida e que, visivelmente, José Lins do Rego não tem, mais do que nós, o poder de alterar. Ele não é tanto um verdadeiro romancista, mas antes um narrador, o recitador admiravelmente vivo de uma realidade que não lhe é possível senão transpor e revivificar.

Essa conclusão ajusta-se perfeitamente às indicações que o estudo da forma pode fornecer. Para alguns, essa forma é a falta de estilo, seria antes um informe literário, o gênero mal-escrito. Juízo apressado, fruto de lamentável confusão. Por não ser literário, no sentido que hoje se empresta à palavra, o estilo de José Lins do Rego não deixa de existir; é, ao contrário, dos mais característicos, dos mais saborosos, que possuímos. Apenas não é o estilo escrito a que estamos habituados, mas os dos recitadores orais, haurido diretamente na fonte da linguagem viva. É isso, precisamente, que lhe dita o ritmo da narrativa. Dir-se-ia, até, que a própria ação nasce, em grande parte, daí: é o estilo oral que atrai e liga os episódios, que delineia os personagens, que dá unidade à obra e em certo sentido a compõe, não como coisa que escreve, mas como coisa que viveu. É ainda esse estilo que permite ao recitador atingir, como tantas vezes acontece na obra, um plano quase poético, uma interpretação que, no fundo, é lírica, da vida e do mundo das suas criaturas.

A exposição de certos estados subjetivos, tão freqüentes e de tais conseqüências na obra de José Lins do Rego, não é analítica, mas descritiva, e feito nos termos de estilo oral, como que taquigrafado pelo autor, muito mais próximo dos cantadores de todos os tempos que dos romancistas-escritores dos nossos dias.

Em Riacho Doce, José Lins reúne amor e petróleo. Um casal de suecos vem para o Brasil, para Alagoas, e a loura Edna se extasia com a força tropical do Brasil, que ela descobre. Apaixona-se por um mestiço nordestino, Nô, uma das figuras mais empolgantes de toda a ficção numerosa e rica de José Lins. O amor de Edna e Nô é o núcleo desse romance que é um dois mais ardentemente humanos desse contador de histórias inesgotável, impregnado de oralidade.

Seu estilo nesse romance é um milagre de naturalidade e de intimidade com a natureza ou integração na própria natureza exterior. Uniu como ninguém memória e imaginação, primitivismo e arte, povo e ficção. Personagens nativas e rústicas se misturam a essa estranha sueca, fascinada pelo mundo bárbaro e poderoso de um Nordeste que é todo verdade vista e vivida. Mãe Aninha e Nô saltam diante dos nossos olhos como criações exatas, inesquecíveis.

E a sueca misteriosa vem descobrir sensualmente a força telúrica do Nordeste rústico, o ritmo popular, os sabores e os cheiros, as formas, as cores, a vida intensa de uma região que é o mundo perene desse grande narrador em contato amoroso com a vida.

Sem ser porventura uma das suas obras mais individualmente destacáveis, Riacho Doce conserva o mesmo valor documental, a mesma significação crítica, a mesma força novelística e as mesmas belezas das outras obras do escritor.

Em Riacho Doce, José Lins do Rego nos dá a sua visão possante dos desequilíbrios sociais e dos dramas humanos individuais e coletivos, provocados pelo problema do petróleo em Alagoas. Tudo decorre deste trágico problema da nossa vida contemporânea. As marés sucessivas de entusiasmo, de desapego às tradições, provocadas pelo engodo da riqueza, e das desconfianças supersticiosas e cóleras nascidas das desilusões naquela mansa terra de pescadores, são descrições de psicologia coletiva das mais vivas e reais que o romancista já fez. A psicologia de Edna, a fraqueza supercivilizada do engenheiro sueco, a Mãe Aninha que é a melhor análise de psicologia supersticiosa já feita pelo romancista, são todos seres de vida empolgante. De Nô se dirá a mesma coisa, talvez a figura de mestiço, ou melhor, talvez a figura popular mais delicada, mais impressionantemente exposta em todas as incongruências e males de sua condição, da nossa literatura. Não será mais profunda, mais humana que a do moleque Ricardo, mas é de uma delicadeza incomparável.

E páginas como a descrição dos primeiros tempos de Edna no Riacho Doce, numa linguagem saborosa, ou capítulos como o do estouro da Mãe Aninha, em que a maldição é criada com uma intensidade trágica maravilhosa, são verdadeiramente passos geniais.

 

 

 

 

 

 

 

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O Quinze - Rachel de Queirós - resumo

Adapt. De Renato Lima - JC ONLINE - Virtual Book Store - resumos

Primeiro Plano - Vicente e Conceição

O primeiro e mais popular romance de Rachel de Queiroz é O Quinze. O título se refere a grande seca de 1915, vivida pela escritora em sua infância. O romance se dá em dois planos, um enfocando o vaqueiro Chico Bento e sua família, o outro a relação afetiva de Vicente, rude proprietário e criador de gado, e Conceição, sua prima culta e professora.

O enredo é interessante, dramático, mostrando a realidade do Nordeste brasileiro. No interior do Ceará, na fazenda Logradouro, perto de Quixadá, Conceição fora passar suas férias com a avó, que chamava de mãe Nácia. Conceição não chegou em um momento muito feliz, pois a seca estava forte, matando a vegetação e os animais. Vicente, seu primo, que morava com seus pais e suas irmãs em outra fazenda, fazia esforços sobre-humanos para que o gado conseguisse passar pela seca sem que fosse preciso soltá-lo para que morresse longe, como muitos fazendeiros faziam, devido ao desespero. Eles se amavam, mas Conceição estava em dúvida, pois estava acostumada na cidade, havia estudado e Vicente não passava de um fazendeiro semi-analfabeto.

Conceição é apresentada como uma moça que gosta de ler vários livros, inclusive de tendências feministas e socialistas o que estranha a sua avó, Mãe Nácia - representante das velhas tradições. No período de férias, Conceição passava na fazenda da família, no Logradouro, perto do Quixadá. Apesar de ter 22 anos, não dizia pensar em casar, mas sempre se "engraçava" à seu primo Vicente. Ele era o proprietário que cuidava do gado, era rude e até mesmo selvagem.

Com o advento da seca, a família de Mãe Nácia decide ir para cidade e deixar Vicente cuidando de tudo, resistindo. Trabalhava incessantemente para manter os animais vivos. Conceição, trabalhava agora no campo de concentração onde ficavam alojados os retirantes, e descobre que seu primo estava "de caso" com "uma caboclinha qualquer". Enquanto ela se revolta, Mãe Nácia à consola dizendo:
"Minha filha, a vida é assim mesmo... Desde hoje que o mundo é mundo... Eu até acho os homens de hoje melhores."

Vicente se encontra com Conceição e sem perceber confessa as temerosidades dela. Ela começa a trata-lo de modo indiferente. Vicente se ressente disso e não consegue entender a razão.

As irmã de Vicente armam um namoro entre ele e uma amiga, a Mariinha Garcia. Ele porém se espanta ao "saber" que estava namorando, dizendo que apenas era solícito para com ela e não tinha a menor intenção de comprometimento.

Conceição percebe a diferença de vida entre ela e seu primo e a quase impossibilidade de comunicação. A seca termina e eles voltam para o Logradouro.

Segundo Plano - Chico Bento e sua família

Sem dúvida a parte mais importante do livro. Apresenta a marcha trágica e penosa do vaqueiro Chico Bento com sua mulher e seus 5 filhos, representando os retirantes. Ele é forçado a abandonar a fazenda onde trabalhara. Junta algum dinheiro, compra mantimentos e uma burra para atravessar o sertão. Tinham o intuito de trabalhar no Norte, extraindo borracha.

No percurso, em momento de grande fome, Josias, o filho mais novo, come mandioca crua, envenenando-se. Agonizou até a morte. O seu fim está bem descrito nessa passagem:
"Lá se tinha ficado o Josias, na sua cova à beira da estrada, com uma cruz de dois paus amarrados, feita pelo pai.

Ficou em paz. Não tinha mais que chorar de fome, estrada afora. Não tinha mais alguns anos de miséria à frente da vida, para cair depois no mesmo buraco, à sombra das mesma cruz."

No Campo de Concentração, Conceição reconhecia muitas famílias, que moravam perto da fazenda de sua avó; um dia reconheceu seu compadre Chico Bento e sua família, que depois do desespero passado conseguira chegar à cidade; um dos filhos morreu envenenado, o outro desapareceu, sua mulher e o filho mais novo em estado lastimável. Conceição com muita pena, depois de ajudá-los, ficou com seu afilhado, que estava muito doente; tratou-o com carinho e conseguiu que ele se salvasse. Depois de muito desespero, muita fome, crimes cometidos, muito horror, choveu no Ceará.

Uma cena marcante na vida do vaqueiro foi a de matar uma cabra e depois descobrir que tinha dono. Este o chamou de ladrão, e levou o resto da cabra para sua casa, dando-lhes apenas as tripas para saciarem. Léguas após, Chico Bento dá falta do seu filho mais velho Pedro. Chegando ao Aracape, lugar onde supunha que ele pudesse ser encontrado, avista um compadre que era o delegado. Recebem alguns mantimentos mas não é possível encontrar o filho. Ficam sabendo que o menino tinha fugido com comboeiros de cachaça. Notem:

"Talvez fosse até para a felicidade do menino. Onde poderia estar em maior desgraça do que ficando com o pai?"

Ao chegarem no campo de concentração, são reconhecidos por Conceição, sua comadre. Ela arranja um emprego para Chico Bento e passa a viver com um de seus filhos. Conseguem também uma passagem de trem e viajam para São Paulo, desistindo de trabalhar com a borracha.

O mais famoso livro de Rachel de Queiroz é mediano com alguns bons momentos.