Literatura de descobrimento

10/05/2015 08:17

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O Descobrimento do Brasil

Depois de 44 dias de viagem, a frota de Pedro Álvares Cabral vislumbrava terra - mais com alívio e prazer do que com surpresa ou espanto

Na terça-feira à tarde, foram os grandes emaranhados de "ervas compridas a que os mareantes dão o nome de rabo-de-asno." Surgiram flutuando ao lado das naus e sumiram no horizonte. Na quarta-feira pela manhã, o vôo dos fura-buchos, uma espécie de gaivota, rompeu o silêncio dos mares e dos céus, reafirmando a certeza de que a terra se encontrava próxima. Ao entardecer, silhuetados contra o fulgor do crepúsculo, delinearam-se os contornos arredondados de "um grande monte", cercado por terras planas, vestidas de um arvoredo denso e majestoso.
Era 22 de abril de 1500. Depois de 44 dias de viagem, a frota de Pedro Álvares Cabral vislumbrava terra - mais com alívio e prazer do que com surpresa ou espanto. Nos nove dias seguintes, nas enseadas generosas do sul da Bahia, os 13 navios da maior armada já enviada às Índias pela rota descoberta por Vasco da Gama permaneceriam reconhecendo a nova terra e seus habitantes.
O primeiro contato, amistoso como os demais, deu-se já no dia seguinte, quinta-feira, 23 de abril. O capitão Nicolau Coelho, veterano das Índias e companheiro de Gama, foi a terra, em um batel, e deparou com 18 homens "pardos, nus, com arcos e setas nas mãos". Coelho deu-lhes um gorro vermelho, uma carapuça de linho e um sombreiro preto. Em troca, recebeu um cocar de plumas e um colar de contas brancas. O Brasil, batizado Ilha de Vera Cruz, entrava, naquele instante, no curso da história.
O descobrimento oficial do país está registrado com minúcia. Poucas são as nações que possuem uma "certidão de nascimento" tão precisa e fluente quanto a carta que Pero Vaz de Caminha enviou ao rei de Portugal, dom Manuel, relatando o "achamento" da nova terra. Ainda assim, uma dúvida paira sobre o amplo desvio de rota que conduziu a armada de Cabral muito mais para oeste do que o necessário para chegar à Índia. Teria sido o descobrimento do Brasil um mero acaso?
É provável que a questão jamais venha a ser esclarecida. No entanto, a assinatura do Tratado de Tordesilhas que, seis anos antes, dera a Portugal a posse das terras que ficassem a 370 léguas (em torno de 2 mil quilômetros) a oeste de Cabo Verde, a naturalidade com que a terra foi avistada, o conhecimento preciso das correntes e das rotas, as condições climáticas durante a viagem e a alta probabilidade de que o país já tivesse sido avistado anteriormente parecem ser a garantia de que o desembarque, naquela manhã de abril de 1500, foi mera formalidade: Cabral poderia estar apenas tomando posse de uma terra que os portugueses já conheciam, embora superficialmente. Uma terra pela qual ainda demorariam cerca de meio século para se interessarem de fato.


Os Tupiniquins
Ao longo dos dez dias que passou no Brasil, a armada de Cabral tomou contato com cerca de 500 nativos. Eram, se saberia depois, tupiniquins - uma das tribos do grupo tupi-guarani que, no início do século XVI, ocupava quase todo o litoral do Brasil. Os tupi-guaranis tinham chegado à região numa série de migrações de fundo religioso (em busca da "Terra Sem Males"), no começo da Era Cristã. Os tupiniquins viviam no sul da Bahia e nas cercanias de Santos e Betioga, em São Paulo. Eram uns 85 mil. Por volta de 1530, uniram-se aos portugueses na guerra contra os tupinambás-tamoios, aliados dos franceses. Foi uma aliança inútil: em 1570, já estavam praticamente extintos, massacrados por Mem de Sá, terceiro governador-geral do Brasil.

Fonte: Eduardo Bueno/Zero Hora

 

Vasco da Gama e Cabral

Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral: O que devemos a eles?


Por Cristiano Catarin


Introdução

Por 08 décadas os portugueses alimentaram o sonho de conhecer e obter novas terras, dentre elas estava o desejo de dominar a rota das Índias.
Em meio à jornada de Pedro Álvares Cabral, os marinheiros acompanhavam atentos às evidências quanto à proximidade de terra à vista, algas marinhas em volta das naves, e para eles, o mais comum dos sinais desta proximidade era com o barulho das gaivotas fura -- buxos. Para os portugueses, seguir tais aves era certeza do encontro de terras.
No entanto, a história da empresa marítima portuguesa revela uma similaridade desta circunstância com Pedrâ?TAlvares em relação à expedição de Vasco da Gama, pois em 22 de agosto de 1497, como mostra registros do diário de um dos tripulantes da armada de Gama:
"Achamos muitas aves feitas como garçoes, e quando veio à noite tiravam contra o su -- sueste muito rijas, como que eram iam para terra".
Vasco da Gama foi, na verdade, uma espécie de mentor de Cabral, visto que em meio a seus pertences o comandante da nau capitânia levava consigo um manuscrito de Vasco da Gama onde este havia relatado orientações para que a armada cabralina não fosse surpreendida em alto mar, como se fosse um manual para atingir as Índias.
De fato, todo cuidado era necessário, pois em meio ao trajeto a ser realizado pela armada de Cabral havia, pela frente, a necessidade de passar pelo Cabo das Tormentas, assim denominado pelos marinheiros mais expostos. Mas, este termo também foi rebatizado por D. João II por Cabo da Boa Esperança, chamado pelos determinados estudiosos dos mares como. Vasco da Gama conseguiu vencê-lo sempre mantendo o rumo a oeste, contrariando a tese do genovêz Cristóvão Colombo.
Difícil relatar sem revelar o prazer, ou melhor, o alívio de toda tripulação de Cabral no momento da manhã de 22 de abril de 1500, quando na oportunidade, é avistado um monte mui grande e revestido de arvoredos esverdeados, lindos. A armada ancorou-se a 36 Km da costa, ou como na época, à 6 léguas de distancia da hoje denominada Bahia de todos os santos.
O descobrimento do Brasil, ou achamento suscita, ainda em nossos dias, muita polêmica. Eduardo Bueno, não historiador, mas um pesquisador cuidadoso e, sobretudo, competente, afirma que realmente é difícil "decretar" que os portugueses não conheciam, ou não faziam a menor idéia das "novas" terras de Vera Cruz. Pois de acordo com relatos, a "escola" marítima portuguesa já era portadora de convicções de que havia sim novas terras para direção em que de fato, atingiram e lançaram âncoras, isto muito antes de Gama, seguindo a rota dos pássaros.
O grande objetivo português era atingir a Índia, descobrir a rota das riquezas, das cedas, do outro, das especiarias etc. Afinal, qual era o conhecimento, por parte destes perseverantes portugueses, quanto às riquezas, inclusive naturais, existentes do agora Brasil? Nenhuma.
Foram 10 dias ancorados na ilha de Vera Cruz, Pedro Álvares Cabral junto a seus comandados entendiam que estava descoberta, na ocasião, uma nova ilha. Como é bom saber que quase ½ século depois, todo este (detalhe dos portugueses) ganhara uma estrondosa importância para o cenário mundial.
Importância que dera inicio já com a confirmação do fracasso da empresa das Índias, 30 anos depois do "primeiro" contato com o Brasil.
Outro fato interessante fica por conta da grandiosidade da expedição de Cabral, uma empresa: náutica, militar e mercantil, extremamente onerosa. D. Manuel, a exemplo de D. João II, recorreu à iniciativa privada para realização de tal projeto. A Coroa portuguesa não reunia condições suficientes para suprir com todos os gastos envolvidos, tanto para manter toda tripulação nas condições mínimas de sobrevivência, tratava-se de 1500 tripulantes, distribuídos em 13 embarcações. Banqueiros como: Bartolomeu Marchioni e Girulamo Sernige contribuíram com o financiamento da expedição.
Bartolomeu Dias e seu irmão Diogo Dias também estavam presentes: Bartolomeu, no comando da caravela redonda (com velas redondas) enquanto Diogo era capitão da nau dâ?Tel - Rei, eles faziam parte da chamada segunda divisão da esquadra, pois a primeira era formada por 11 naus, sendo a nau capitânia sob comando de Cabral

A Partida

Muita expectativa, tanto dento como também fora das naus, Lisboa, mais precisamente no Porto de Rastelo, encontrava-se totalmente tomado por familiares, pela nobreza, por escravos, pelo povo... , admirando o "desfile" das embarcações.
Muitos marinheiros olhavam para trás com verdadeiro pesar no coração, é sabido que a grande maioria não tinha esperança de um dia poder voltar, pois quase todos tinham conhecimento dos riscos envolvidos em tal jornada.
Dois a cada três jamais voltaram, segundo comparação feita pelo historiador Paulo Miceli, muitos, antes de embarcar, deixaram testamentos prontos.
Em 23 de março de 1500, ocorre a primeira de muitas tragédias em pleno mar, a nau de Vasto de Ataíde que compunha o comboio, desaparece sem deixar qualquer sinal.
A fantástica viagem de Vasco da Gama rumo à Índia é motivo de muito orgulho para os marinheiros portugueses que há 85 anos mantiveram firmes em navegar pelos mares no sentido sul em busca desta terra detentora de muitas riquezas.
Colombo em 1492, seguindo caminho contrário aos feitos lusos, sempre afirmara ter atingido as Índias, quando na verdade havia descoberto um "novo mundo", a América.

 

O descobrimento que não houve

A proximidade do V Centenário de História do Brasil nos incita à reflexão. Sem falar da natureza - num país mestiço - dessa co-memoração, a primeira delas diz respeito à própria redefinição do seu marco de referência, o chamado "Descobrimento do Brasil".
Pode parecer audacioso, e pretensioso, querer contestar, num pequeno artigo, uma tese tão arraigada nos espíritos. Mas a própria enormidade do "equívoco" nos indica que sua correção deve ser tentada no terreno político e informacional.
Mas vamos aos fatos. O evento fundador da história (escrita) do Brasil está mal definido. Considerando-o sob diversos ângulos nós veremos que mesmo do ponto de vista europeu não houve descoberta, ou melhor, o descobrimento não pode ter sido português.
Isto porque Colombo precedeu os portugueses não somente ao "descobrir" as Antilhas, em 1492, como também quando localizou a terra firme (o continente), em sua terceira viagem, em 1498.
Ora, nós temos aí um fato irrefutável: como se trata de territórios contíguos, qualquer outra "descoberta" ao longo da costa desse continente está, evidentemente, subordinada à descoberta espanhola. Se assim não fosse, nós teríamos uma infinidade de descobertas!
Portanto, o "Descobrimento do Brasil" não pode estar desvinculado do "Descobrimento da América". Não pode haver descobrimento em separado. A chegada de Cabral ao Brasil está associada à chegada de Colombo à América e é secundária em relação a esta. (Isto é tão patente que, na Europa, afora Portugal, Cabral é praticamente desconhecido).
Também, de acordo com o contexto da época não se poderia dizer que houve descobrimento especificamente português. Pois é quase impossível - visto a espionagem (e a política de sigilo) - que D. Manuel não tivesse sido informado, ainda em 1498 ou 1499, da localização do continente.
E mesmo que ele não soubesse! A vigência, desde 1494, do Tratado de Tordesilhas, indica que essas terras eram virtuais possessões portuguesas e espanholas. Eles já as vislumbravam: afinal de contas, não é comum legislar sobre quimeras!
A coisa estava tão bem entendida que os espanhóis nem reivindicaram para si essas terras. Apesar de já haverem, inclusive, estado no Brasil pouco antes de Cabral (Vicente Yañez Pinzón e Diego de Lepe, em Pernambuco).
O mais plausível, portanto, é que Cabral tenha vindo com a missão de tomar posse da terra, antes que os perseverantes espanhóis (apesar do Tratado) o fizessem.
Para os índios, em contrapartida, houve verdadeira surpresa: depois do "canoa grande à vista" aquela costa foi tomada pela perplexidade….
A "Descoberta da América" também está mal explicada. Já se sabe que os vikings precederam os espanhóis (na América do Norte) por volta do ano 1000. Logo, pode-se afirmar, mutatis mutandis, que a América foi redescoberta pelos europeus em 1492.
Contudo, na era da globalização exige-se uma visão mais abrangente e racional. Pois bem, do ponto de vista da história humana, a descoberta foi asiática.
Os modernos conhecimentos científicos apontam não só para a unidade global da humanidade, mas também para o fato de que os antepassados dos índios vieram da Ásia e, segundo as teorias mais aceitas, passaram à América há 30 ou 40 mil anos, pelo estreito de Bering.
São os índios os verdadeiros descobridores do continente. Cedo os europeus se deram conta disso, quando ao tentar colonizá-lo (e inclusive delimitar fronteiras) tiveram que contar com os indígenas e sua "ciência".
A atual definição do acontecimento de 1500 carece de sustentação empírica. Como o Brasil não tem apenas 500 anos, é preferível falar em Chegada dos Portugueses, que foi seguida da Conquista.
Mas por que persistir no deliberado engano? A perpetuação do equívoco atesta a existência de beneficiários deste sistema de exclusão. Sim, porque a formulação simbólica do evento basilar de nossa história escrita não é inocente.
Nem é um detalhe! Ela está diretamente relacionada à constelação causal etnocentrismo/ colonialismo/ escravismo/ genocídio/ etnocídio/ racismo. Donde a insidiosa desumanização e desqualificação do Outro. Este "outro" que é parte (da maioria) de nós, pois também nossos ancestrais.
Os caipiras não podem mais se deixar enganar. Momento de reflexão e revivescência de um passado comum o V Centenário de História do Brasil deve ser co-memorado por todos os partícipes da construção do país. É a oportunidade ideal para desencobrir os fatos e simultaneamente renovar a luta contra o (doloroso) racismo, aumentando assim nossa auto-estima.
Porém, a contracorrente dos outros países americanos, que não permitiram que se festejasse Colombo sobre seu território - a grande festa aconteceu em Sevilha -, o governo brasileiro pretende implantar um projeto arcaico, de fatura colonial, que homenageia os Conquistadores, como se o Brasil fosse monoliticamente português e não pluriétnico e mestiço.
No projeto, o Brasil se inscreve como mero coadjuvante de uma vitoriosa campanha diplomática portuguesa, com raízes em Tordesilhas.
A real dimensão do Brasil só virá pela sua inserção no contexto global da história humana. Disso depende a legitimação do continente mestiço. Dessa vez , nós não podemos deixar passar o moderno bonde da história.

 

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História Geral - O Renascimento

O Renascimento foi uma nova visão de mundo estimulada pela burguesia em ascensão. Suas principais características eram o racionalismo (em oposição à fé), o antropocentrismo (em oposição ao teocentrismo) e o individualismo (em oposição ao coletivismo cristão).

O Humanismo foi um movimento intelectual que pregava a pesquisa, a crítica e a observação, em oposição ao princípio da autoridade.

O Renascimento e o Humanismo nasceram na Itália, em função da riqueza das cidades italianas, da presença de sábios bizantinos, da herança clássica da Antiga Roma e da difusão do mecenato. A invenção da Imprensa contribuiu muito para a divulgação de novas idéias.

Principais figuras do Renascimento

I. Itália -- Dante Alighieri, Francesco Petrarca, Giovanni Boccaccio, Nicolau Maquiavel, Leonardo da Vinci, Rafael Sanzio, Michelangelo Buonarroti.

II. França -- François Rabelais, Michael de Montaigne.

III. Inglaterra -- Thomas Morus, William Shakespeare.

IV. Holanda -- Erasmo de Rotterdam, Jan Van Eyck, Pieter Bruegel, Rembrandt.

V. Alemanha -- Albrecht Dürer, Hans Holbein.

VI. Portugal -- Luís Vaz de Camões.

VII. Espanha -- Miguel de Cervantes.

A pesquisa científica evoluiu muito no período graças, entre outros, a figuras como: Leonardo da Vinci, Nicolau Copérnico, Galileu Galilei, Johannes Kepler, André Vesálio, Miguel de Servet e William Harvey.

FILOSOFIA HUMANISTA - RENASCIMENTO CIENTÍFICO E CULTURAL

Os estudos humanísticos tornavam indispensável à aprendizagem do grego e do latim para uma leitura direta dos textos dos autores da Antiguidade greco-romana, sem a interferência da teologia cristã, dominante durante a Idade Média, Os humanistas procuraram reinterpretar os Evangelhos à luz dos valores da Antiguidade, que exaltavam o homem como ser dotado de liberdade, de vontade e de capacidade individual.

A filosofia humanista deu origem a um homem de mentalidade renovada que tinha como principais virtudes à coragem, a eficiência, a inteligência e o talento para acumular riquezas elementos esses inteira mente de acordo com a ordem econômica introduzida pela burguesia, Esse "novo indivíduo'', liberto das tradições feudais, era capaz de expandir livremente a sua energia criadora e de procurar explicações racionais sobre o universo que o cercava, graças as suas qualidades pessoais e intransferíveis".

0 Humanismo combateu a ordem e a hierarquia do mundo medieval, no qual, o papel do homem era sempre determinado pelo nascimento e pela Igreja. Sua perspectiva antropocêntrica trouxe o interesse pela investigação da natureza e o culto à razão e à beleza característicos da cultura greco-romana, criando ás bases dá Renascimento artístico e científico dos séculos XV e XVI.

Renascimento Cultural


História do Renascimento Cultural, artistas do Renascimento Artístico, Renascimento Científico, Arte na Renascença Italiana, grandes obras de artistas italianos


Durante os séculos XV e XVI intensificou-se, na Europa, a produção artística e científica. Esse período ficou conhecido como Renascimento ou Renascença. As características principais deste período são as seguintes :

- Valorização da cultura greco-romana. Para os artistas da época renascentista, os gregos e romanos possuíam uma visão completa e humana da natureza, ao contrário dos homens medievais;
- As qualidades mais valorizadas no ser humano passaram a ser a inteligência, o conhecimento e o dom artístico;

- Enquanto na Idade Média a vida do homem devia estar centrada em Deus ( teocentrismo ), nos séculos XV e XVI o homem passa a ser o principal personagem (antropocentrismo).
- A razão e a natureza passam a ser valorizadas com grande intensidade. O homem renascentista, principalmente os cientistas, passam a utilizar métodos experimentais e de observação da natureza e universo.

Durante os séculos XIV e XV, as cidades italianas como, por exemplo, Gênova, Veneza e Florença, passaram a acumular grandes riquezas provenientes do comércio. Estes ricos comerciantes começaram a investir nas artes, aumentando assim o desenvolvimento artístico e cultural. Por isso, a Itália é conhecida como o berço do Renascentismo. Porém, este movimento cultural não se limitou à Península Itálica. Espalhou-se para outros países europeus como, por exemplo, Inglaterra, Espanha, Portugal, França e Países Baixos.

Principais representantes do Renascimento Italiano e suas principais obras:
- Michelângelo Buonarroti (1475-1564)- destacou-se em arquitetura, pintura e escultura.Obras principais: Davi, Pietá, Moisés, pinturas da Capela Sistina.
- Rafael Sanzio (1483-1520) - pintou várias madonas (representações da Virgem Maria com o menino Jesus).

- Leonardo da Vinci (1452-1519)- pintor, escultor, cientista, engenheiro, físico, escritor, etc. Obras principais :Mona Lisa, Última Ceia.

Na área científica podemos mencionar a importância dos estudos de astronomia do polonês Nicolau Copérnico. Este defendeu a revolucionária idéia do heliocentrismo (teoria que defendia que o Sol estava no centro do sistema solar).Copérnico também estudou os movimentos das estrelas.

Nesta mesma área, o italiano Galileu Galilei desenvolveu instrumentos ópticos, além de construir telescópios para aprimorar o estudo celeste. Este cientista também defendeu a idéia de que a Terra girava em torno do Sol. Este motivo fez com que Galilei fosse perseguido, preso e condenado pela Inquisição da Igreja Católica, que considerava esta idéia como sendo uma heresia. Galileu teve que desmentir suas idéias para fugir da fogueira.

Contexto Histórico

As conquistas marítimas e o contato mercantil com a Ásia ampliaram o comércio e a diversificação dos produtos de consumo na Europa a partir do século XV. Com o aumento do comércio, principalmente com o Oriente, muitos comerciantes europeus fizeram riquezas e acumularam fortunas. Com isso, eles dispunham de condições financeiras para investir na produção artística de escultores, pintores, músicos, arquitetos, escritores, etc.

Os governantes europeus e o clero passaram a dar proteção e ajuda financeira aos artistas e intelectuais da época. Essa ajuda, conhecida como mecenato, tinha por objetivo fazer com que esses mecenas (governantes e burgueses) se tornassem mais populares entre as populações das regiões onde atuavam. Neste período, era muito comum as famílias nobres encomendarem pinturas (retratos) e esculturas junto aos artistas.

Foi na Península Itálica que o comércio mais se desenvolveu neste período, dando origem a uma grande quantidade de locais de produção artística. Cidades como, por exemplo, Veneza, Florença e Gênova tiveram um expressivo movimento artístico e intelectual. Por este motivo, a Itália passou a ser conhecida como o berço do Renascimento.

 

 

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Pero Vaz de Caminha

Autor da “Carta ao rei D. Manuel” anunciando a descoberta da nova terra. Escrivão da armada de Pedro Álvares descreve como foram os primeiros contatos entre os portugueses e os nativos. Momento histórico carregado de simbologia que foi motivo de inspiração para discussões acerca do sentido cultural e da formação do Brasil em diversos momentos, como por exemplo, na poesia de Oswald de Andrade, no cinema e no teatro, como atesta a expressão que muitas vezes é utilizada para se referir a ela: “certidão de nascimento do Brasil”. O documento permaneceu esquecido até 1817. Transcrevemos um parágrafo em que se pode encontrar as frases que foram reaproveitadas por Oswald de Andrade, Murilo Mendes e Mário de Andrade para confecção de alguns aspectos de suas obras.

Trechos:

“Senhor,

Mesmo que o capitão-mor desta vossa frota, e assim os outros capitães, escrevam a Vossa Alteza a nova do achamento desta vossa terra nova, que nesta navegação agora se achou, não deixarei também de dar minha conta disso a Vossa Alteza, o melhor que eu puder, ainda que, para o bem contar e falar, o saiba fazer pior que todos. Tome Vossa Alteza, porém, minha ignorância por boa vontade, e creia bem por certo que, para alindar nem afear, não porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu.

Da marinhagem e singraduras do caminho não darei aqui conta a Vossa Alteza, porque o não saberei fazer, e os pilotos devem ter esse cuidado. Portanto, Senhor, do que hei de falar começo e digo: a partida de Belém, como Vossa Alteza sabe, foi, segunda-feira, 9 de março. Sábado, 14 do dito mês, entre as oito e as nove horas, nos achamos entre as Canárias, mais perto da Grã-Canária, onde andamos todo aquele dia em calma, à vista delas, obra de três a quatro léguas. E domingo, 22 do dito mês, às dez horas, pouco mais ou menos, houvemos vista das ilhas de Cabo Verde, ou melhor, da ilha de S. Nicolau, segundo o dito Pero Escolar, piloto.

Na noite seguinte, segunda-feira, ao amanhecer, se perdeu da frota Vasco de Ataíde com sua nau, sem haver tempo forte nem contrário para que tal acontecesse. Fez o capitão suas diligências para o achar, a uma e outra parte, mas não apareceu mais. E assim seguimos nosso caminho por este mar, de longo, até que, terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram vinte e um dias de abril, estando da dita ilha obra de 660 léguas, segundo os pilotos diziam, topamos alguns sinais de terra, os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, assim como outras a que dão o nome de rabo-de-asno. E quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves a que chamam fura-buxos. Neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos: ao monte alto o capitão pôs nome, o Monte Pascoal, e à terra, a Terra da Vera Cruz. Mandou lançar o prumo. Acharam vinte e cinco braças; e, ao sol posto, obra de seis léguas da terra, surgimos âncoras, em dezenove braças — ancoragem limpa. Ali permanecemos toda aquela noite. E à quinta-feira, pela manhã, fizemos vela e seguimos direitos à terra, indo os navios pequenos diante, por dezessete, dezesseis, quinze, quatorze, treze, doze, dez e nove braças, até a meia légua da terra, onde todos lançamos âncoras em frente à boca de um rio. E chegaríamos a esta ancoragem às dez horas pouco mais ou menos.” (...)

“E estando Afonso Lopes, nosso piloto, em um daqueles navios pequenos, por mandado do capitão, por ser homem vivo e destro para isso, meteu-se logo no esquife a sondar o porto dentro; e tomou dois daqueles homens da terra, mancebos e de bons corpos, que estavam numa almadia. Um deles trazia um arco e seis ou sete setas; e na praia andavam muitos com seus arcos e setas; mas de nada lhes serviram. Trouxe-os logo, já de noite, ao capitão, em cuja nau foram recebidos com muito prazer e festa.

A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Não fazem o menor caso de encobrir ou de mostrar suas vergonhas; e nisso têm tanta inocência como em mostrar o rosto. Ambos traziam os beiços de baixo furados e metidos neles seus ossos brancos e verdadeiros, do comprimento duma mão travessa, da grossura dum fuso de algodão, agudos na ponta como furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre o beiço e os dentes é feita como roque de xadrez, ali encaixado de tal sorte que não os molesta, nem os estorva no falar, no comer ou no beber. Os cabelos seus são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta, mais que de sobre-pente, de boa grandura e rapados até por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte para detrás, uma espécie de cabeleira de penas de ave amarelas, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena e pena, com uma confeição branda como cera (mas não era), de maneira que a cabeleira ficava mui redonda e mui basta, e mui igual, e não fazia míngua mais lavagem para a levantar. O capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, bem vestido, com um colar de ouro mui grande ao pescoço, e aos pés uma alcatifa por estrado. Sancho de Tovar, Simão de Miranda, Nicolau Coelho, Aires Correia, e nós outros que aqui na nau com ele vamos, sentados no chão, pela alcatifa. Acenderam-se tochas. Entraram. Mas não fizeram sinal de cortesia, nem de falar ao capitão nem a ninguém. Porém um deles pôs olho no colar do capitão, e começou de acenar com a mão para a terra e depois para o colar, como que nos dizendo que ali havia ouro. Também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal como se lá também houvesse prata. Mostraram-lhes um papagaio pardo que o capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como quem diz que os havia ali. Mostraram-lhes um carneiro: não fizeram caso. Mostraram-lhes uma galinha; quase tiverem medo dela: não lhe queriam pôr a mão; e depois a tomaram como espantados. Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel e figos passados. Não quiserem comer quase nada daquilo; e, se alguma coisa provaram, logo a lançavam fora. Trouxeram-lhes vinho numa taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram nada, nem quiseram mais.

Trouxeram-lhes água em uma albarrada. Não beberam. Mal a tomaram na boca, que lavaram, e logo a lançaram fora. Viu um deles umas contas de rosário, brancas; acenou que lhes dessem, folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço. Depois tirou-as e enrolou-as no braço e acenava para a terra e de novo para as contas e para o colar do capitão, como dizendo que dariam ouro por aquilo.” (...)

“Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha.

Ali por então não houve mais fala nem entendimento com eles, por a berberia deles ser tamanha que se não entendia nem ouvia ninguém. Acenamos-lhes se fossem; assim o fizeram e passaram-se além do rio. Saíram três ou quatro homens nossos dos batéis, e encheram não sei quantos barris de água que nós levávamos e tornamo-nos às naus. Mas quando assim vínhamos, acenaram-nos que tornássemos. Tornamos e eles mandaram o degredado e não quiseram que ficasse lá com eles. Este levava uma bacia pequena e duas ou três carapuças vermelhas para lá as dar ao senhor, se o lá houvesse. Não cuidaram de lhe tirar coisa alguma, antes o mandaram com tudo. Mas então Bartolomeu Dias o fez outra vez tornar, ordenando que lhes desse aquilo. E ele tornou e o deu, à vista de nós, àquele que da primeira vez o agasalhara. Logo voltou e nós trouxemo-lo. Esse que o agasalhou era já de idade, e andava por louçainha todo cheio de penas, pegadas pelo corpo, que parecia asseteado como S. Sebastião. Outros traziam carapuças de penas amarelas; outros, de vermelhas; e outros de verdes. E uma daquelas moças era toda tingida, de baixo a cima daquela tintura; e certo era tão bem feita e tão redonda, e sua vergonha (que ela não tinha) tão graciosa, que a muitas mulheres da nossa terra, vendo-lhe tais feições, fizera vergonha, por não terem a sua como ela. Nenhum deles era fanado, mas todos assim como nós. E com isto tornamos e eles foram-se.”

Comentário:

É Pero Vaz Caminha um narrador com dotes de bom cronista. Homem formado no pensamento medieval, dominado pela lógica do Cristianismo de sua época, de certo modo estava despreparado para compreender a cultura indígena que se lhe mostrava como um espetáculo humano dos mais ricos. Porém, longe de se mostrar indiferente ou preconceituoso, ante o que se lê nas páginas de sua carta é o depoimento de uma simpatia pela ingenuidade e pela simplicidade que os gestos dos indígenas parecem significar para ele. Assim é que faz reiteradas alusões ao modo natural como os índios encaram a nudez, principalmente das mulheres. Caminha é um ingênuo também, a considerar que o gesto imitativo dos índios aos dos portugueses no momento da primeira missa seriam demonstrativos do poder da cruz. Assim, seu texto, dotado de alguns elementos de bom narrador é um texto que se insere no pensamento humanista português e pode ser tomado como um dos mais belos exemplos desse momento em relação às descobertas portuguesas nos mares.

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Pero de Magalhães Gandavo.

Nasceu em Braga (Portugal) foi Provedor da Fazenda Real no Brasil. Deixou dois livros dedicados ao Brasil: Tratado da Terra do Brasil (escrito em 1570 e só publicado em 1826 pela Academia Real de Ciências de Lisboa) e História da Província de Santa Cruz , A que Vulgarmente Chamamos Brasil (1576). Gandavo era amigo de Camões, e este chegou a escrever que o texto do cronista era de estilo claro e de “engenho curioso”. Nas duas obras busca fazer a descrição de tudo quanto viu e aprendeu, deixa-se contagiar pela exuberância da natureza e existe inclusive uma certa emoção narrativa quando, por exemplo, descreve a morte de um leão marinho (provavelmente) na Capitania de São Vicente em 1564. Não demonstra propriamente simpatia pelo índio, mas se compraz em descrever o que nele julga de virtude ou defeito. Parece ser Gandavo o primeiro a construir o ditado do qual se diz a respeito da língua tupi que: “Carece de três letras, convém a saber, não se acha nela, f, nem l, nem R, coisa digna de espanto, porque assim não têm Fé, nem Lei, nem Rei; e desta maneira vivem desordenadamente sem terem além disto conta nem peso, nem medida.”

Trechos:

“Esta província Santa Cruz está situada naquela grande América, uma das quatro partes do mundo. Dista o seu princípio dois graus da equinocial para a banda do sul, e daí se vai estendendo para o mesmo sul até quarenta e cinco graus. De maneira que parte dela fica situada debaixo da zona tórrida e parte debaixo da temperada. Está formado esta província à maneira de uma harpa, cuja costa pela banda do norte corre do oriente ao ocidente e está olhando diretamente a equinocial; e pela do sul confina com outras províncias da mesma América povoadas e possuídas de povo gentílico, com que ainda não temos comunicação. E pela do oriente confina com o mar oceano Áfrico, e olha direitamente os reinos do Congo e Angola até o cabo da Boa Esperança, que é o seu oposto. E pela do ocidente confina com as altíssimas serra dos Andes e fraldas do Peru, as quais são tão soberbas em cima da terra que se diz terem as aves trabalho em as passar. E até hoje um só caminho lhe acharam os homens vindos do Peru a esta província, e este tão agro, que em o passar perecem algumas pessoas caindo do estreito caminho que trazem, e vão parar os corpos mortos tão longe dos vivos que nunca os mais vêem, nem podem que queiram dar-lhe sepultura.

Destes e doutros extremos semelhantes carece esta Província Santa Cruz: porque com ser tão grande não tem serras, ainda que muitas nem desertos nem alagadiços que com facilidade se não possam atravessar. Além disto, é esta província sem contradição a melhor para a vida do homem que cada uma das outras da América, por ser comumente de bons ares e fertilíssima e, em grande maneira, deleitosa e aprazível à vista humana. O ser ela tão salutífera e livre de enfermidades, procede dos ventos que geralmente cursam nela: os quais são nordestes e suis, e algumas vezes lestes e leste-oestes. E como todos estes procedam da parte do mar, vêm tão puros e coados, que não somente não danam, mas recreiam e acrescentam a vida do homem.” (Tratado da Terra do Brasil).

“Nisto conheceu o mancebo que era aquilo coisa do mar e antes que nele se metesse, acudiu com muita presteza a tomar-lhe a dianteira, e vendo o monstro que lhe embargava o caminho, levantou-se direito para cima como um homem ficando sobre as barbatanas do rabo, e estando assim a par com ele, deu-lhe uma estocada pela barriga, e dando-lha no mesmo instante se desviou para uma parte com tanta velocidade, que não pode o monstro leva-lo debaixo de si: porém não pouco afrontado, porque o grande torno de sangue que saiu da ferida lhe deu no rosto com tanta força que quase ficou sem nenhuma vista: e tanto que o monstro se lançou em terra deixa o caminho que levava e assim ferido urrando com a boca aberta sem nenhum medo, remeteu a ele, e indo para o tragar as unhas, e a dentes, deu-lhe na cabeça uma cutilada mui grande, com a qual ficou já mui débil, e deixando sua vã porfia tornou então a caminhar outra vez para o mar. Neste tempo acudiram alguns escravos aos gritos da índia que estava em vela: e chegando a ele, o tomaram todos já quase morto e dali o levaram à povoação onde esteve o dia seguinte à vista de toda a gente da terra.

E como esse mancebo se haver mostrado neste caso tão animoso como se mostrou, e ser tido na terra por muito esforçado saiu todavia desta batalha tão sem alento e com a visão deste medonho animal ficou tão perturbado e suspenso, que perguntando-lhe o pai, que era o que lhe havia sucedido não lhe ponde responder, e assim como assombrado sem falar coisa alguma por um grande espaço. O retrato, é este que no fim do presente capítulo se mostra, tirado pelo natural. Era quinze palmos de comprido e semeado de cabelos pelo corpo, e no focinho tinha umas sedas mui grandes como bigodes.

Os índios da terra lhe chamam em sua língua Ipupiara, que quer dizer demônio d’água.” (História da Província de Santa Cruz)

 

 

 

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Hans Staden

Um viajante alemão que em 1550 naufragou nas costas do Brasil e acabou aprisionado por uma tribo de índios tupinambás em Ubatuba. Por pouco não foi vítima de um ritual de canibalismo, uma vez que fora tomado pelos índios como português, com quem essa tribo estava em guerra. Conseguindo provar sua origem, viveu um bom tempo entre os índios até ser resgatado em 1554. Faz uma segunda viagem ao Brasil em que faz um levantamento da flora e da fauna. Sua obra Duas Viagens ao Brasil foi publicado em Marburgo, Alemanha, em 1557, tornado-se o que se pode chamar de o primeiro grande “best-seller” de aventuras nas selvas brasileiras. Hans Staden não foi o primeiro alemão e viajar pelo Brasil, antes dele um certo Ulrich Schmidel contou sua aventura junto de espanhóis que tentavam encontrar a tribo das índias Amazonas e o lendário Eldorado nas florestas da Amazônia. A aventura de Hans Staden está colocada no filme de Luiz Alberto Pereira (Hans Staden, 1999) em que valoriza-se a linguagem tupi. A obra de Staden cativa pela narrativa, principalmente a primeira parte e ajudou a criar no Europeu a imagem de uma selva brasileira exuberante mas cheia de perigos e de uma cultura indígena estranha, ingênua e desconhecida.

Trechos:

“No dia seguinte – às ave-maria a julgar pelo sol – avistamos suas habitações. Tínhamos levado três dias de caminho e percorrido de Bertioga onde eu tinha sido aprisionado, trinta milhas.

Quando nos aproximamos, vimos uma pequena aldeia de sete choças. Chamavam-na Ubatuba. Dirigimo-nos para uma praia, abert ao mar. Bem perto trabalhavam as mulheres numa cultura de plantas de raízes, que eles chamam mandioca. Estavam aí uma delas, que arrancava, raízes, e tive que lhes gritar em sua língua: ‘Aju ne xê peê remiurama’, isto é: ‘Estou chegando eu, vossa comida’

Fomos à terra. Acudiram então todos, moços e velhos, das cabanas, que ficavam num outeiro, e queriam ver-me. Os homens se retiraram com os arcos e flechas para suas moradias e deixaram-me com as mulheres, que me rodearam. Algumas foram à minha frente, outras atrás, dançando e cantando uma canção que, segundo seu costume, entoavam aos prisioneiros que tencionavam devorar. Assim trouxeram-me elas até a caiçara, fortificação de estacas longas e grossas que rodeia suas choupanas como a cerca dum jardim. Utilizam-na como anteparo contra o inimigo. No interior da caiçara arrojaram-se as mulheres todas sobre mim, dando-me socos, arrepelando-me a barba, e diziam em sua linguagem: ‘Xé anama poepika aé!’ ‘Com esta pancada vingo-me pelo homem que os teus amigos nos mataram’”. (Duas Viagens ao Brasil).

“A maior parte deles tem só uma mulher; outros têm mais. Mas alguns dos seus principais têm 13 ou 14 mulheres. O principal a quem me deram da última vez, e de quem os franceses me compraram, chamado Abbati Bossange, tinha muitas mulheres e a que fora a primeira era a superiora entre elas. Cada uma tinha o seu aposento na cabana, seu próprio fogo e sua própria plantação de raízes; e aquela com quem ele vivia, e em cujo aposento ficava é que lhe servia de comer; e assim passava de uma para outra. As crianças que lhe nascem, enquanto meninos pequenos, educam-nos para a caça; e o que os meninos trazem, cada qual dá a sua mãe. Elas então cozinham e partilham com os outros; e as mulheres se dão bem entre si.

Também têm o costume de fazer presentes de suas mulheres, quando aborrecidos delas. Fazem do mesmo modo presentes de uma filha ou irmã.” (Duas Viagens ao Brasil)

“Do lugar onde me haviam raspado as sobrancelhas, conduziram-me as mulheres em frente da choça em que estavam os seus ídolos, os maracás, e fizeram uma roda em volta de mim. Fiquei no meio. Duas mulheres amarraram-me com um cordel alguns chocalhos a uma perna e por detrás, no pescoço, de modo que me ficasse acima da cabeça, um leque quadrangular de penas de cauda de papagaios, que eles chamam araçoiá. Depois começaram elas todas a cantar. De acordo com seu compasso, devia eu bater o pé com a perna à qual estavam atados os chocalhos, de modo que chocalhasse acompanhando o seu canto. E a perna ferida doía-me tanto que mal me podia ter em pé, pois ainda não estava pensada.” (Duas Viagens ao Brasil)

“Não existe entre eles propriedade particular, nem conhecem dinheiro. Seu tesouro são penas de pássaros. Quem as tem muitas, é rico e quem tem cristais para os lábios, é dos mais ricos. Cada família tem, para comer, a mandioca que lhe é própria.” (Duas Viagens ao Brasil)

“Considera um homem sua maior honra capturar e matar muitos inimigos, o que entre eles é habitual. Traz tantos nomes quantos inimigos matou, e os mais nobres entre eles são aqueles que têm muitos nomes.” (Duas Viagens ao Brasil)

 

HANS STADEN - O FILME

Ano de Lançamento em dvd: 2001 Ano de Lançamento em filme: 2000 Diretor: Luiz Alberto Pereira O filme conta a história de Hans Staden, viajante alemão que, em 1550, naufragou no litoral de Santa Catarina. Dois anos depois, conseguiu chegar em São Vicente, reduto da colonização portuguesa. Ali ficou dois anos trabalhando como artilheiro do Forte de Bertioga.

Em janeiro de 1554, dias antes de sua volta à Europa, resolveu procurar seu escravo, um índio Carijó, que ha via saído para pescar nas imediações do Forte e havia desaparecido.

Navegando com sua canoa em um rio onde o escravo costumava pescar, Staden cacabou aprisionado por índios Tupinambás, tribo inimiga dos portugueses.

Foi então levado para a aldeia de Ubatuba, onde seria morto e devorado em um ritual antropofágico.

 

Ficha Técnica

 

Direção
Luiz Alberto Pereira

Elenco
Carlos Evelyn
Ariana Messias
Darci Figueiredo
Beto Simas
Milton de Almeida
Reynaldo Puebla
Jefferson Primo
Sérgio Mamberti
Stênio Garcia
Cláudia Liz
Valdir Ramos
Carol Li
Macsuara Kadwell
Jurandir Siridiwê
Valdir Raimundo
Alfredo Penteado
Antonio Peyr
Daniel Portela

Índias da saudação lacrimosa
Fátima Ribeiro
Tânia Freire
Luiza Albuquerque
Sônia Ribeiro
Lena Sá

Índias velhas
Tereza Convá
Maria de Oliveira
Olga da Silva

Equipe Técnica

Roteiro e produção:
Luiz Alberto Pereira
Diretor de produção: Ivan Teixeira
Casting: Walderez Cardoso
Direção de arte: Chico de Andrade
Figurino: Cleide Fayad
Cenografia:Zeca Nolf e Clíssia Morais
Maquiagem: Sonia Silva e Uirandê de Hollanda
Versão para Tupi: Eduardo Navarro e Helder Ferreira
Canto e dança indígena: Marlui Miranda
Preparação do elenco: Fátima Toledo
Direção de fotografia: Uli Burtin
Som direto: Jorge Vaz
Still: Selene Lanzoni
Música: Marlui Miranda e Lelo Nazário
Montagem: Verônica Kovensky
Edição de som: Nério Marbéris
Construção da aldeia tupinambá: França e Ezequias Libório
Produção executiva em Portugal: Jorge Neves
Diretor de produção em Portugal: Henrique Espírito Santo
Patrocínio: Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo-Programa de Incentivo ao Cinema/TV Cultura de São Paulo
Apoio Financeiro: Instituto Português de Artes Cinematográficas e Audiovisuais/IPACA
Co-produção: Jorge Neves Produções Audiovisuais Porto/Portugal, 3º Prêmio HBO de Cinema de 1998 e Ministério da Cultura do Brasil
Ano de produção: 1999
Duração: 92 minutos
Distribuição em cinema: Riofilme
Distribuição em DVD: Riofilme e Versátil

 

 

 

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PADRE MANOEL DA NÓBREGA

Nasceu em Portugal em 1517. Fez os estudos em Salamanca e em Coimbra. Ao que parece, queria ser professor da Universidade daquela cidade, mas não foi aceito por ser gago. Ingressou então na Companhia de Jesus. Em 1549 vem ao Brasil na expedição de Tomé de Sousa. Participa da fundação das cidades de Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. Deixou duas obras: As Cartas do Brasil, conjunto de cartas em que descreve a terra, os índios e dá conselhos sobre como o colonizador deve trabalhar na nova terra. Têm um valor principalmente historiográfico. Mas a outra obra, Diálogo da Conversão do Gentio, já tem pretensões literárias. Escrita na forma de um diálogo, forma literária valorizada na Idade Média e por Platão. Dois interlocutores, Gonçalo Álvares, curador dos índios, e Mateus Nogueira, religioso. Os dois personagens eram vivos à época de Nóbrega, mas a obra não é apenas uma transposição da conversa de dois homens vivos. Antes, tudo parece criação de Nóbrega, inclusive o estilo de cada interlocutor. Esse recurso de se basear em personagens verdadeiras era comum no teatro medieval, o que corrobora as pretensões literárias da obra.

Trechos:

“Gonçalo Álvares – Estes têm alma como nós?

Mateus Nogueira – Isso é claro, pois a alma tem três potências, entendimento, memória, vontade, que todos têm. Eu cuidei que vós éreis mestre já em Israel, e vós não sabeis isso! Bem parece que as teologias, que me dizíeis arriba, eram postiças do P. Brás Lourenço, e não vossas. Quero-vos dar um desengano, meu Irmão Gonçalo Álvares; que tão ruim entendimento tendes vós para entender o que vos queira dizer, como este gentio para entender as coisas de nossa fé.

Gonçalo Álvares – Tendes muita razoa, e não é muito, porque eu ando na água aos peixes-bois e trato no mato com brasil. Não é muito ser frio! E vós andais sempre no fogo, razão é que vos aquentais. Mas não deixeis de prosseguir adiante, pois uma das obras de misericórdia é ensinar aos ignorantes.

Mateus Nogueira – Pois estai atento. Depois que nosso pai Adão pecou, como diz o salmista, não conhecendo a honra que tinha, foi tornado semelhante à besta, de maneira que todos, assim portugueses, como castelhanos, como tamoios, como aimorés, ficamos semelhantes a bestas por natureza corrupta, e nisto todos somos iguais, nem dispensou a natureza mais com uma geração que com outra, posto que em particular dá melhor entendimento a um que a outro. Façamos logo do ferro todo um, frio e sem virtude, sem se poder volver a nada, porém metido na forja, o fogo o torna que mais parece fogo que ferro; assim todas as almas, sem graça e caridade de Deus, são ferro frio sem proveito, mas quanto mais se aquenta no fogo, tanto mais fazeis dele o que quereis. E bem se vê em um, que está pecado mortal, fora da graça de Deus, que para nada presta das coisas que tocam a Deus, não pode rezar, não pode estar na igreja, a toda a coisa espiritual tem fastio, não tem vontade para fazer coisa boa nenhuma; e se por medo ou por obediência, ou por vergonha a faz, é tão tristemente e tão preguiçosamente, que não vale nada, porque está escrito que ao dador com alegria recebe Deus.” (Diálogo da Conversão do Gentio).

“Gonçalo Álvares - Isso é verdade. Mas os padres, que lhes falam com tanto amor, por que os não crêem?

Mateus Nogueira - Porque até agora não têm os índios visto essa diferença entre os padres e os outros cristãos. Seja logo esta a conclusão, que quando São Tiago, com correr toda a Espanha e falar mui bem a língua e ter grande caridade, e fazer muitos milagres, não converteu mais que nove discípulos: e vós quereis e os padres, sem fazer milagres, sem saber sua língua, nem entender-se com eles, com terdes presunção de apóstolo, e pouca confiança e fé em Deus, e pouca caridade, que sejam logo bons cristãos? Porém, por vos fazer a vontade, vos contarei que já vimos índios desta terra com mui claros sinais de terem verdadeira fé no coração; e amostraram-no por obra, não somente dos meninos que criamos conosco, mas também dos outros, grandes, de mui pouco tempo conversados.

Quem viu na Capitania de São Vicente, que é terra onde se mais tratou com os índios, que nenhuma do Brasil, a morte gloriosa e Pero Lopes? Quem viu suas lágrimas, os abraços de amor aos Irmãos e padres? Diaga-o quem viu a virtude tão viva de sua mulher, quão fora dos costumes que antes tinha, quão honesta viúva e quão cristamente vive, tanto que pareceu a todos digna de lhe darem o SS.Sacramento! Pois que direi de suas filhas, duas, a qual melhor cristã!

Que direi da fé do grão velho Caiubi, que deixou sua aldeia e suas roças e se veio morrer de fome em Piratininga por amor de nós, cuja vida e costumes e obediência a mostra bem a fé do coração!

Quem viu vir Fernão Correia de tão longe, com fervor de fé vir pedir o batismo e depois de tomado levá-lo Nosso Senhor! E muitos outros da aldeia, os quais ainda que alguns não deixem a vida viciosa por exemplo de outros maus cristãos que vêem, todavia se crê deles terem fé, pois o principal pecado e que lhes mais estranham, deixaram, que é matarem em terreiro e comerem carne humana. Quem não sabe que indo à guerra estes e tomando contrários os mataram e enterraram? E para mais vos alegrar, também vos direi que se viu na Maniçoba, onde se matavam uns índios carijós, outro índio, que com os padres andava, oferecer-se com grande fervor e lágrimas a morrer pela fé, só porque aqueles morressem cristãos. E outros muitos casos particulares que acontecem cada dia, que seria largo contar. Pois, entre tão poucos, colher-se logo tal fruto, e com tão fracos obreiros: como será possível se N. Senhor mandar bons obreiros à sua vinha, com as partes necessárias, não se colher muito fruto?

Por certo tenho que se vos acháreis no tempo dos Mártires e víreis aquelas carniçarias daqueles infiéis, que não bastavam tantos milagres e maravilhas para os amolentar nem tão boas pregações e razões, vós e eu disséramos: nunca hão de ser bons!

Resolvendo-me logo digo: enfim razões! Que o negócio de converte é principalmente de Deus. E ninguém traz a conhecimento de Jesus Cristo senão quem seu Pai traz; e, quando ele quer, faz de pedras filhos de Israel; como tampouco ninguém pode salvar-se nem ter graça sem ele.” (Diálogo da Conversão do Gentio)

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Fernão Cardim

Supõe-se que tenha nascido em 1548 em Portugal. Ainda menino entrou para a Companhia de Jesus. Em 1584 está no Brasil. Percorre as principais capitanias e locais de povoação, até que em 1590 é nomeado reitor do Colégio de S.Sebastião, Rio de Janeiro. Quando retornava a Lisboa em 1601 seu barco foi atacado por piratas ingleses. Seus manuscritos foram confiscados e tempos depois, editados numa versão inglesa com autoria errônea pelo colecionador Samuel Purchas. Só em fins do século XIX graças ao trabalho de Capistrano de Abreu revelou-se a autoria daqueles manuscritos. A obra de Fernão Cardim compreende três livros: Do Princípio e Origem dos Índios do Brasil; Narrativa Epistolar de uma Viagem e Missão Jesuítica pela Bahia, Ilhéus, Porto Seguro, Pernambuco, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Vicente, etc. e Do Clima e Terra do Brasil.

Suas descrições e sua narrativa demonstram o espírito de alguém que se encantou pela exuberância da natureza e demonstra também simpatia por aspectos da simplicidade e da ingenuidade da vida indígena. De certa forma é ele também um ingênuo. Sua visão das coisas é primeiramente estética. Obra de um jesuíta embebido por um pensamento mais aberto e humanista.

“Há outras castas destes animais que não têm tão mau cheiro; criam-se em casa, e ficam domésticos, e os índios os estimam.

Preguiça – A preguiça que chamam do Brasil é animal para ver, parece-se com cães felpudos, os perdigueiros; são muito feios, e o rosto parece de mulher mal toucada; têm as mãos e pés compridos, e grandes unhas, e cruéis, andam com o peito pelo chão, e os filhos abraçados na barriga, por mais que lhe dêem, andam tão devagar que hão mister muito tempo pra subir a uma árvore, e por isso são tomados facilmente: sustentam-se de certas folhas de figueiras, e por isso não podem ir a Portugal, porque como lhes faltam, morrem logo.” (Do Clima e Terra do Brasil)

“Este gentio come em todo o tempo, de noite e de dia, e a cada hora e momento, e como tem que comer não o guardam muito tempo, mas logo comem tudo o que têm e repartem com seus amigos, de modo que de um peixe que tenham repartem com todos, e têm por grande honra e primor serem liberais, e por isso cobram muita fama e honra, e a pior injúria que lhes podem fazer é terem-no por escassos, ou chamarem-lho, e quando não têm que comer são muito sofridos com fome e sede.

Não têm dias em que comam carne e peixe; comem todo gênero de carne, ainda de animais imundos, como cobras, sapos, ratos, e outros bichos semelhantes, e também comem todo gênero de frutas, tirando algumas peçonhentas, e sua sustentação é ordinariamente do que dá a terra sem a cultivarem, como caças e frutas; porém têm certo gênero de mantimentos de boa substância, e sadio, e outros muito legumes de que abaixo se fará menção. De ordinário não bebem enquanto comem, mas depois de comer bebem água, ou vinho que fazem de muitos gêneros de frutas e raízes, como abaixo se dirá, do qual bebem sem regra, nem modo até caírem.” (Do Princípio e Origem dos Índios do Brasil)

“Veado - Na língua brasílica se chama sugoaçu; há uns muito grandes, como formosos cavalos; têm grande armação, e alguns têm dez e doze pontas; estes são raros, e acham-se no rio de São Francisco e na Capitania de São Vicente; estes se chamama suaçuapara, são estimados dos cariós e das pontas e nervos fazem os bicos das flechas, eumas bolas de arremessar que usam para derrubar animais ou homens.

Há outros mais pequenos; também têm cornos, mas de uma ponta só. Além destes há três ou quatro espécies, uns que andam somente nos matos, outros somente nos campos em bandos. Das peles fazem muito caso, e da carne.

Tapyretê - Estas sãos as antas,de cuja pele se fazem as adargas, parecem-se com vacas e muito mais com mulas, o rabo é de um dedo, não tem cornos, têm uma tromaba de comprimento de um palmo que encolhe e estende. Nadam e mergulham muito, mas em mergulhando logo tomam fundo, e andando por ele saem por outra parte. Há grande cópia delas nesta terra.” (Trado da Terra e Gente do Brasil)

“Neste Brasil há arvoredos em que se acham árvores de notável grossura, e comprimento, de que se fazem mui grandes canoas, de largura de 7 e 8 palmos de vão, e de comprimento de cinqüenta e mais palmos, que carregam como uma grande barca, e levam 20 e 30 remeiros; também se fazem mui grandes gangorras para os engenhos. Há muitos paus como incorruptíveis que metidos na terra não apodrecem, e outros metidos n’água cada vez são mais verdes, e rijos. Há pau santo, de umas águas brancas de que se fazem leitos muito ricos, e formosos. Pau do Brasil, de que se faz tinta vermelha, e outras madeiras de várias cores, de que se fazem tintas muito estimadas, e todas as obras de torno e marcenaria. Há paus de cheiro, como o Jacarandá, e outros de muito preço e estima. Acham-se sândalos brancos em quantidade. Pau daquila em grande abundância que se fazem navios dele, cedros, pau’angelim, e árvore de noz-moscada;e ainda que estas madeiras sejam tão finas, e de tão grande cheiro como as da Índia, todavia falta-lhes pouco, e são de grande preço, e estima.”(Tratado da Terra e Gente do Brasil)

(Apostila 2 de Literatura Informativa sobre o Brasil)

 

 

 

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JOSÉ DE ANCHIETA - POESIAS

Ao Santíssimo Sacramento

Oh que pão, oh que comida,

Oh que divino manjar

Se nos dá no santo altar

Cada dia.

Filho da Virgem Maria

Que Deus Padre cá mandou

E por nós na cruz passou

Crua morte.

E para que nos conforte

Se deixou no Sacramento

Para dar-nos com aumento

Sua graça.

Esta divina fogaça

É manjar de lutadores,

Galardão de vencedores

Esforçados.

Deleite de enamorados

Que com o gosto deste pão

Deixem a deleitarão

Transitória.

Quem quiser haver vitória

Do falso contentamento,

Goste deste sacramento

Divinal.

Ele dá vida imortal,

Este mata toda fome,

Porque nele Deus é homem

Se contêm.

É fonte de todo bem

Da qual quem bem se embebeda

Não tenha medo de queda

Do pecado.

Oh! que divino bocado

Que tem todos os sabores,

Vindes, pobres pecadores,

A comer.

Não tendes de que temer

Senão de vossos pecados;

Se forem bem confessados,

Isso basta.

Que este manjar tudo gasta,

Porque é fogo gastador,

Que com seu divino ardor

Tudo abrasa.

É pão dos filhos de casa

Com que sempre se sustentam

E virtudes acrescentam

De contino.

Todo al é desatino

Se não comer tal vianda,

Com que a alma sempre anda

Satisfeita.

Este manjar aproveita

Para vícios arrancar

E virtudes arraigar

Nas entranhas.

Suas graças são tamanhas,

Que se não podem contar,

Mas bem se podem gostar

De quem ama.

Sua graça se derrama

Nos devotos corações

E os enche de benções

Copiosas.

Oh que entranhas piedosas

De vosso divino amor!

Ó meu Deus e meu Senhor

Humanado!

Quem vos fez tão namorado

De quem tanto vos ofende?!

Quem vos ata, quem vos prende

Com tais nós?!

Por caber dentro de nós

Vos fazeis tão pequenino

Sem o vosso ser divino,

Se mudar.

Para vosso amor plantar

Dentro em nosso coração

Achastes tal invenção

De manjar,

Em o qual nosso padar

Acha gostos diferentes

Debaixo dos acidentes

Escondidos.

Uns são todos incendidos

Do fogo de vosso amor,

Outros cheios de temor

Filial,

Outros com o celestial

Lume deste sacramento

Alcançam conhecimento

De quem são,

Outros sentem compaixão

De seu Deus que tantas dores

Por nos dar estes sabores

Quis sofrer.

E desejam de morrer

Por amor de seu amado,

Vivendo sem ter cuidado

Desta vida.

Quem viu nunca tal comida

Que é o sumo de todo bem,

Ai de nós que nos detém

Que buscamos!

Como não nos enfrascamos

Nos deleites deste Pão

Com que o nosso coração

Tem fartura.

Se buscarmos formosura

Nele está toda metida,

Se queremos achar vida,

Esta é.

Aqui se refina a fé,

Pois debaixo do que vemos,

Estar Deus e homem cremos

Sem mudança.

Acrescenta-se a esperança,

Pois na terra nos é dado

Quanto lá nos céus guardado

Nos está.

A claridade que lá

Há de ser aperfeiçoada,

Deste pão é confirmada

Em pureza.

Dele nasce a fortaleza,

Ele dá perseverança,

Pão da bem-aventurança,

Pão de glória.

Deixado para memória

Da morte do Redentor,

Testemunho de Seu amor

Verdadeiro.

Oh mansíssimo Cordeiro,

Oh menino de Belém,

Oh Jesus todo meu Bem,

Meu Amor.

Meu Esposo, meu Senhor,

Meu amigo, meu irmão,

Centro do meu coração,

Deus e Pai.

Pois com entranhas de Mai

Quereis de mim ser comido,

Roubai todo meu sentido

Para vós

Com o sangue que derramasses,

Com a vida que perdesses,

Com a morte que quisesses

Padecer.

Morra eu, por que viver

Vós possais dentro de mim;

Ganha-me, pois me perdi

Em amar-me.

Pois que para incorporar-me

E mudar-me em vós de todo,

Com um tão divino modo

Me mudais.

Quando na minha alma entrais

É dela fazeis sacrário,

De vós mesmo é relicário

Que vos guarda.

Enquanto a presença tarda

De vosso divino rosto,

O saboroso e doce gosto

Deste pão

Seja minha refeição

E todo o meu apetite,

Seja gracioso convite

De minha alma.

Ar fresco de minha calma,

Fogo de minha frieza,

Fonte viva de limpeza,

Doce beijo.

Mitigador do desejo

Com que a vós suspiro, e gemo,

Esperança do que temo

De perder.

Pois não vivo sem comer,

Como a vós, em vós vivendo,

Vivo em vós, a vós comendo,

Doce amor.

Comendo de tal penhor,

Nela tenha minha parte,

E depois de vós me farte

Com vos ver. Amém.

 

A Santa Inês

Na vinda de sua Imagem

Cordeirinha linda,

Como folga o povo,

Porque vossa vinda

Lhe dá lume novo.

 

Cordeirinha santa,

De Jesus querida,

Vossa santa vida

O Diabo espanta.

Por isso vos canta

Com prazer o povo,

Porque vossa vinda

Lhe dá lume novo.

 

Nossa culpa escura

Fugirá depressa,

Pois vossa cabeça

Vem com luz tão pura. 

Vossa formosura

Honra é do povo,

Porque vossa vinda

Lhe dá lume novo.

 

Virginal cabeça,

Pela fé cortada,

Com vossa chegada

Já ninguém pereça;

Vinde mui depressa

Ajudar o povo,

Pois com vossa vinda

Lhe dais lume novo.

 

Vós sois cordeirinha

De Jesus Fermoso;

Mas o vosso Esposo

Já vos fez Rainha.

Também padeirinha

Sois do vosso Povo,

pois com vossa vinda,

Lhe dais trigo novo.

 

Não é de Alentejo

Este vosso trigo,

Mas Jesus amigo

É vosso desejo.

Morro, porque vejo

Que este nosso povo

Não anda faminto

Deste trigo novo.

 

Santa Padeirinha,

Morta com cutelo,

Sem nenhum farejo

É vossa farinha

Ela é mezinha

Com que sara o povo

Que com vossa vinda

Terá trigo novo.

 

O pão, que amassasses

Destro em vosso peito,

É o amor perfeito

Com que Deus amastes. 

Deste vos fartasses,

Deste dais ao povo,

Por que deixe o velho

Pelo trigo novo.

 

Não se vende em praça,

Este pão da vida,

Porque é comida

Que se dá de graça.

Oh preciosa massa!

Oh que pão tão novo

Que com vossa vinda

Quer Deus dar ao povo!

 

Oh que doce bolo

Que se chama graça!

Quem sem ela passa

É mui grande tolo,

Homem sem miolo

Qualquer deste povo

Que não é faminto

Deste pão tão novo.

 

COMPAIXÃO DA VIRGEM NA MORTE DO FILHO

 

Por que ao profundo sono, alma, tu te abandonas,

e em pesado dormir, tão fundo assim ressonas?

 

Não te move a aflição dessa mãe toda em pranto,

que a morte tão cruel do filho chora tanto?

 

O seio que de dor amargado esmorece,

ao ver, ali presente, as chagas que padece?

 

Onde a vista pousar, tudo o que é de Jesus,

ocorre ao teu olhar vertendo sangue a flux.

 

Olha como, prostrado ante a face do Pai,

todo o sangue em suor do corpo se lhe esvai.

 

Olha como a ladrão essas bárbaras hordas

pisam-no e lhe retêm o colo e mãos com cordas.

 

Olha, perante Anás, como duro soldado

o esbofeteia mau, com punho bem cerrado.

 

Vê como, ante Caifás, em humildes meneios,

agüenta opróbrios mil, punhos, escarros feios.

 

Não afasta seu rosto ao que o bate, e se abeira

do que duro lhe arranca a barba e cabeleira.

 

Olha com que azorrague o carrasco sombrio

retalha do Senhor a meiga carne a frio.

 

Olha como lhe rasga a cerviz rijo espinho,

e o sangue puro risca a face toda arminho.

 

Pois não vês que seu corpo, incivilmente leso,

mal susterá ao ombro o desumano peso?

 

Vê como a dextra má finca em lenho de escravo

as inocentes mãos com aguçado cravo.

 

Olha como na cruz finca a mão do algoz cego

os inocentes pés com aguçado prego.

 

Ei-lo, rasgado jaz nesse tronco inimigo,

e c'o sangue a escorrer paga teu furto antigo!

 

Vê como larga chaga abre o peito, e deságua

misturado com sangue um rio todo d'água.

 

Se o não sabes, a mãe dolorosa reclama

para si quanto vês sofrer ao filho que ama.

 

Pois quanto ele aguentou em seu corpo desfeito,

tanto suporta a mãe no compassivo peito.

 

Ergue-te pois e, atrás da muralha ferina

cheio de compaixão, procura a mãe divina.

 

Deixaram-te uma e outro em sinais bem marcada

a passagem: assim, tornou-se clara a estrada.

 

Ele aos rastros tingiu com seu sangue tais sendas,

ela o solo regou com lágrimas tremendas.

 

Procura a boa mãe, e a seu pranto sossega,

se acaso ainda aflita às lágrimas se entrega.

 

Mas se essa imensa dor tal consolo invalida,

porque a morte matou a vida à sua vida,

 

ao menos chorarás todo o teu latrocínio,

que foi toda a razão do horrível assassínio.

 

Mas onde te arrastou, mãe, borrasca tão forte?

que terra te acolheu a prantear tal morte?

 

Ouvirá teu gemido e lamento a colina,

em que de ossos mortais a terra podre mina?

 

Sofres acaso tu junto à planta do odor,

em que pendeu Jesus, em que pendeu o amor?

 

Eis-te aí lacrimosa a curtir pena inteira,

pagando o mau prazer de nossa mãe primeira!

 

Sob a planta vedada, ela fez-se corruta:

colheu boba e loquaz, com mão audaz a fruta.

 

Mas a fruta preciosa, em teu seio nascida,

à própria boa mãe dá para sempre a vida,

 

e a seus filhos de amor que morreram na rega

do primeiro veneno, a ti os ergue e entrega.

 

Mas findou tua vida, essa doce vivência

do amante coração: caiu-te a resistência!

 

O inimigo arrastou a essa cruz tão amarga

quem dos seios, em ti, pendeu qual doce carga.

 

Sucumbiu teu Jesus transpassado de chagas,

ele, o fulgor, a glória, a luz em que divagas.

 

Quantas chagas sofreu, doutras tantas te dóis:

era uma só e a mesma a vida de vós dois!

 

Pois se teu coração o conserva, e jamais

deixou de se hospedar dentro de teus umbrais,

 

para ferido assim crua morte o tragar,

com lança foi mister teu coração rasgar.

 

Rompeu-te o coração seu terrível flagelo,

e o espinho ensangüentou teu coração tão belo.

 

Conjurou contra ti, com seus cravos sangrent

os,

quanto arrastou na cruz o filho, de tormentos.

 

Mas, inda vives tu, morto Deus, tua vida?

e não foste arrastada em morte parecida?

 

E como é que, ao morrer, não roubou teus sentidos,

se sempre uma alma só reteve os dois unidos?

 

Não puderas, confesso, agüentar mal tamanho,

se não te sustentasse amor assim estranho;

 

se não te erguesse o filho em seu válido busto,

deixando-te mais dor ao coração robusto.

 

Vives ainda, ó mãe, p'ra sofrer mais canseira:

já te envolve no mar uma onda derradeira.

 

Esconde, mãe, o rosto e o olhar no regaço:

eis que a lança a vibrar voa no leve espaço.

 

Rasga o sagrado peito a teu filho já morto,

fincando-se a tremer no coração absorto.

 

Faltava a tanta dor esta síntese finda,

faltava ao teu penar tal complemento ainda!

 

Faltava ao teu suplício esta última chaga!

tão grave dor e pena achou ainda vaga!

 

Com o filho na cruz tu querias bem mais:

que pregassem teus pés, teus punhos virginais.

 

Ele tomou p'ra si todo o cravo e madeiro

e deu-te a rija lança ao coração inteiro.

 

Podes mãe, descansar; já tens quanto querias:

Varam-te o coração todas as agonias.

 

Este golpe encontrou o seu corpo desfeito:

só tu colhes o golpe em compassivo peito.

 

Chaga santa, eis te abriu, mais que o ferro da lança,

o amor de nosso amor, que amou sem temperança!

 

Ó rio, que confluis das nascentes do Edém,

todo se embebe o chão das águas que retém!

 

Ó caminho real, áurea porta da altura!

Torre de fortaleza, abrigo da alma pura!

 

Ó rosa a trescalar santo odor que embriaga!

Jóia com que no céu o pobre um trono paga!

 

Doce ninho no qual pombas põem seus ovinhos

e casta rola nutre os tenros filhotinhos!

 

Ó chaga que és rubi de ornamento e esplendor,

cravas os peitos bons de divinal amor!

 

Ó ferida a ferir corações de imprevisto,

abres estrada larga ao coração de Cristo!

 

Prova do estranho amor, que nos força à unidade!

Porto a que se recolhe a barca em tempestade!

 

Refugiam-se a ti os que o mau pisa e afronta:

mas tu a todo o mal és medicina pronta!

 

Quem se verga em tristeza, em consolo se alarga:

por ti, depõe do peito a dura sobrecarga!

 

Por ti, o pecador, firme em sua esperança,

sem temor, chega ao lar da bem-aventurança!

 

Ó morada de paz! sempre viva cisterna

da torrente que jorra até a vida eterna!

 

Esta ferida, ó mãe, só se abriu em teu peito:

quem a sofre és tu só, só tu lhe tens direito.

 

Que nesse peito aberto eu me possa meter,

possa no coração de meu Senhor viver!

 

Por aí entrarei ao amor descoberto,

terei aí descanso, aí meu pouso certo!

 

No sangue que jorrou lavarei meus delitos,

e manchas delirei em seus caudais benditos!

 

Se neste teto e lar decorrer minha sorte,

me será doce a vida, e será doce a morte!

 

 

 

Anchieta, José do Brasil

Chegado ao Brasil em 1553, o padre José de Anchieta aprende a língua dos índios Tupi, elabora uma gramática, observa os costumes e classifica a flora local, evitando atritos com os colonos. Durante a intervenção francesa, negoceia a paz e ocupa-se dos Tamoios, com o padre Manoel da Nóbrega. A escravatura compromete o seu apostalado, mas Anchieta converte-se numa figura mítica...

 

Ficha Técnica

Título Original: Anchieta, José do Brasil
Gênero: Drama/Histórico
Tempo de Duração: 150 min.
Ano de Lançamento (Brasil): 1978
Distribuição: Embrafilme
Direção: Paulo César Saraceni
Roteiro: Paulo César Saraceni
Argumento: Paulo Cezar Saraceni, Marcos Konder Reis e Humberto Mauro
Produção: Embrafilme e Santana Filmes
Música: Sérgio Guilherme Saraceni
Fotografia: Marco Bottino
Desenho de Produção: Ferdy Carneiro
Figurino: Metka Koshak, Vera Barreto Leite e Hélio Braga
Edição: Ricardo Miranda

 

Elenco

Ney Latorroca (José de Anchieta)
Luiz Linhares (Manoel da Nóbrega)
Maurício do Valle (João Ramalho)
Joel Barcellos (Tibirica)
Hugo Carvana (Diogo Álvares)
Paulo César Pereio (Jeandes Bolés)
Maria Gladys
Vera Barreto Leite
Ana Maria Magalhães
Roberto Bonfim
Ana Maria Miranda
Dedé Veloso
Manfredo Colassanti
Carlos Kroeber
Wilson Grey
António Carnera
Ambrósio Fregolente
Rui Pollanah
Rejane Medeiros

 

 

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Gabriel Soares de Sousa

Nascido em Portugal por volta de 1540, aos trinta anos está no Brasil e instala-se na Bahia logo tornando-se senhor de engenho. Como que para preencher o ócio escreve o Tratado Descritivo do Brasil em 1587.

Vai para Madrid em busca de apoio de Cristóvão Moura, pessoa importante da política da Corte espanhola para a colonização. Gabriel tem a intenção de conseguir os direitos de exploração de minas nas cabeceiras do Rio São Francisco, conforme dados coletados da expedição de seu irmão, João Coelho de Sousa, que se supõe teria deixado um mapa para Gabriel umas pepitas de prata. Conseguido o alvará parte numa expedição com 360 homens e 4 padres carmelitas em 1591. Vem a falecer no sertão em busca dos sonhados metais. A autoria do seu tratado só foi confirmada em 1839 por Varnhagen. Dominado por um sentido quase enciclopédico, o tratado de Gabriel Soares de Sousa é uma obra extensa com grande quantidade de informação acerca da fauna, flora, clima, economia e população do Brasil. Seu texto é marcado por uma certa impessoalidade, quase científico. O sentimento de amor à terra não compromete sua observação, antes busca ser fiel ao que vê. A seguir, selecionamos quatro breves trechos da obra de Gabriel. No primeiro se descreve o abacaxi; no segundo, o leão marinho que era relativamente comum no litoral brasileiro; no terceiro, descreve o autor o costume dos índios em furar os beiços para colocar adereços e no quarto se fala dos costumes sexuais dos índios tupinambás.

“Ananás é uma fruta do tamanho de uma cidra grande, mas mais comprida; tem olho da feição de alcachofras, e o corpo lavrado como alcachofra molar, e com uma ponta e bico em cada sinal das pencas, mas é todo maciço; e muitos ananases lançam o olho e ao pé do fruto muitos outros tamanhos como alcachofras. A erva em que se criam os ananases é da feição da que em Portugal chamam erva-babosa, e tem as folhas armadas, e do tamanho da erva-babosa, mas são tão grossas; a qual a erva ou ananaseiro espiga cada ano no meio como cardo, e lança um grelo da mesma maneira, e em cima dele nasce o fruto, tamanho como alcachofra, muito vermelho, o qual assim vai crescendo, vai perdendo a cor e fazendo-se verde, e como é maduro conhece-se pelo cheiro, como o melão.”

“Não há dúvida senão que se encontram na Bahia e nos recôncavos dela muitos homens marinhos, a que os índios chamam pela sua língua upupiara, os quais andam pelo rio de água doce pelo tempo do verão, onde fazem muito dano aos índios pescadores e mariscadores que andam em jangada, onde os tomam, e aos que andam pela borda da água, metidos nela; a uns e outros apanham, e metem-nos debaixo da água, onde os afogam; os quais saem à terra com a maré vazia afogados e mordidos na boca, narizes e na sua natura; e dizem outros índios pescadores que viram tomar estes mortos que viram sobre a água uma cabeça de homem lançar um braço fora dela e levar o morto; e os que viram isso viram se recolheram fugindo à terra assombrados, do que ficaram tão atemorizados que não quiseram tornar a pescar daí a muitos dias; o que também aconteceu a alguns negros da Guiné; os quais fantasmas ou homens marinhos mataram por vezes cinco índios meus; e já aconteceu tomar um monstro destes dois índios pescadores de uma jangada e levarem um, e salvar-se o outro tão assombrado que esteve para morrer; e alguns morrem disto.” (...)

“Para se os tupinambás fazerem bizarros usam de muitas bestialidades mui estranhas, como é fazerem depois de homens três e quatro buracos nos beiços de baixo, onde metem pedras, com grandes pontas para fora; e outros furar os beiços de cima, também como os de baixo, onde também metem pedras redondas, verdes e pardas, que ficam inseridas nas faces, como espelhos de borracha; nas quais há alguns que têm nas faces dois e três buracos, em que metem pedras, como pontas para fora; e há alguns que têm todos estes buracos, que com as pedras neles, parecem os demônios; os quais sofrem estas dores por parecerem temerosos a seus contrários.” (...)

“Como os pais e mães vêm os filhos com meneios para conhecer mulher, eles lhas buscam, e os ensinam como saberão servir; as fêmeas muito meninas esperam o macho, mormente as que vivem entre os portugueses. Os machos destes tupinambás não são ciosos; e ainda que achem outrem com as mulheres, não matam a ninguém por isso, e quando muito espancam as mulheres pelo caso. E as que querem bem aos maridos, pelos contentarem, buscam-lhes moças com eles se desenfadem, as quais lhes levam à rede onde dormem, onde lhes pedem muito que se queiram deitar com os maridos, e as peitam para isso; coisa que não faz nenhuma nação de gente, senão estes bárbaros.” (Tratado Descritivo do Brasil em 1587).

 

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Jean de Léry

Jean de Léry (1534-1611) também participou da expedição de Villegaignon ao Brasil no episódio francês da invasão do Rio de Janeiro. Seu relato: Narrativa de uma viagem feita à Terra do Brasil também dita América (costumeiramente chamada de Viagem à Terra do Brasil), parece ser uma resposta ao trabalho André Thévet publicado um ano antes. Léry era calvinista e acabou escrevendo uma obra que na opinião de Claude Lévi-Strauss é uma obra-prima da etnografia. De fato, Léry faz boas descrições da natureza, da terra, dos índios. Nos anexos coloca a transcrição de duas músicas indígenas – sendo esse o primeiro documento da música indígena que se conhece – além de dar em alguns pontos de sua narrativa o sabor da literariedade ao acrescentar diálogos entre os índios. Como observa Massaud Moisés o estilo de Léry é feito de “argúcia na observação, sensatez, liberdade no exame dos fatos, larga diversificação de pontos observados, e, acima de tudo, um estilo límpido e corrente, vivo e saltitante, que se acompanha com agrado.” A primeira edição de seu trabalho foi em 1578, depois foi vertida para o holandês, alemão e latim, tornando-se uma das principais fontes de consulta acerca do Brasil naquela época.

Selecionamos três trechos, nos dois primeiros Léry fala acerca do preparo e consumo do cauim, bebida dos índios e no terceiro ele explica o modo como se preparava o corpo do prisioneiro morto no ritual de canibalismo.

Trechos:

“Voltando ao meu assunto, antes de falar nas carnes, peixes, frutas e outros mantimentos bem diversos dos da Europa, direi qual a bebida que usam os selvagens e o modo de faze-la. Cumpre, desde logo, notar que os homens não se envolvem de maneira nenhuma na preparação da bebida, a qual, como a farinha, está a cargo das mulheres. As raízes de aipim e mandioca, que servem de principal alimento aos selvagens, são também utilizadas no preparo de uma bebida usual. Depois de as cortarem em rodelas finas, como fazemos com os rabanetes, as mulheres fervem em grandes vasilhas de barro cheias de água, até que amoleçam; tiram-nas então do fogo e as deixam esfriar. Feito isso acocoram-se em torno das vasilhas e mastigam as rodelas jogando-as depois em outra vasilha, em vez de as engolir, para uma nova fervura, mexendo-as com um pau até que tudo esteja bem cozido. Feito isso, tiram do fogo a pasta e a põem a fermentar em vasos de barro de capacidade igual a uma pipa de vinho de Borgonha. Quando tudo fermenta e espuma, cobrem os vasos e fica a bebida pronta para o uso. Esses vasos têm o feitio das grandes cubas de barro nas quais vi fazer-se a lixívia em alguns lugares do Bourbonais e da Auvergne; são entretanto mais estreitas no alto que no bojo.

Fazem o mesmo com a avati, a fim de preparar uma bebida do milho. São as mulheres, como já disse, que tudo fazem nessa preparação, tendo os homens a firme opinião de que se eles mastigarem as raízes ou o milho a bebida não sairá boa.” (Viagem à Terra do Brasil)

“Antes de terminar tal assunto, e a fim de que os leitores se convençam de que se tivessem vinho à vontade enxugariam galhardamente o copo, vou contar uma história tragicômica, que em sua aldeia me contou um mussacá, isto é, um bom e hospitaleiro pai de família.

‘Surpreendemos uma vez, disse ele na sua rude linguagem, uma caravela de pêros (isto é, portugueses, que como já referi são inimigos mortais dos nossos tupinambás) na qual, de mortos e comidos todos os homens e recolhida a mercadoria existente, encontramos grandes caramemos (tonéis e outras vasilhas de madeira) cheias de bebida que logo tratamos de provar. Não sei qual qualidade de cauim era, nem se o tendes no vosso país; só sei dizer que depois de bebermos ficamos por três dias de tal forma prostrados e adormecidos que não podíamos despertar.’ É verossímil que fossem tonéis de bom vinho da Espanha, com os quais os selvagens, sem o saber, festejaram a Baco. Não é pois de admirar que o nosso homem se tivesse sentido tão repentinamente atordoado.

No que diz nos diz respeito, ao chegarmos a esse país procuramos evitar a mastigação no preparo do cauim e faze-lo de modo mais limpo. Por isso pilamos raízes de aipim e mandioca com milho, mas, para dizer a verdade, a experiência não provou bem. Pouco a pouco, nos habituamos a beber o cauim da outra espécie, embora não o fizéssemos comumente, pois tendo cana à vontade punhamo-la de infusão por alguns dias na água depois de refresca-la um pouco por causa do grande calor; e assim açucarada bebíamos a água com grande prazer.” (Viagem à Terra do Brasil)

“Imediatamente depois de morto o prisioneiro, a mulher (já disse que a concedem a alguns) coloca-se junto do cadáver e levanta curto pranto; digo propositadamente curto pranto porque essa mulher, tal qual o crocodilo que mata o homem e chora junto dele antes de comê-lo, lamenta-se e derrama fingidas lágrimas sobre o marido mas sempre na esperança de comer-lhe um pedaço. Em seguida, as outras mulheres, sobretudo as velhas, que são mais gulosas da carne humana e anseiam pela morte dos prisioneiros chegam com a água fervendo, esfregam e escaldam o corpo a fim de arrancar-lhe a epiderme; e o tornam tão branco como na mão de cozinheiros os leitões que vão para o forno. Logo depois o dono da vítima e alguns ajudantes abrem o corpo e o espostejam com tal rapidez que não faria melhor um carniceiro de nossa terra ao esquartejar um carneiro. E então, incrível crueldade, assim como os nossos caçadores jogam a carniça aos cães para torna-los mais ferozes, esses selvagens pegam os filhos uns após outros e lhes esfregam o corpo, os braços, e as pernas com o sangue inimigo a fim de torna-los mais valentes.

Depois da chegada dos cristãos a esse país, principiaram os selvagens a cortar e retalhar o corpo dos prisioneiros, animais e outras presas com facas e ferramentas dadas pelo estrangeiro, o que faziam antes com pedras aguçadas como me foi dito por um ancião.

Todas as partes do corpo, inclusive as tripas depois de bem lavadas, são colocadas no moquém, em torno do qual as mulheres, principalmente as gulosas velhas, se reúnem para recolher a gordura que escorre pelas varas dessas grandes e altas grelhas de madeira; e exortando os homens a procederem de modo que elas tenham sempre tais petiscos, lambem os dedos e dizem: iguatu, o que quer dizer ‘está muito bom’.” (Viagem à Terra do Brasil)

 

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Claude D’Abbeville

Capuchinho francês que em 1612 participou da invasão francesa ao Maranhão. Ficou no Brasil apenas quatro meses, mas nesse curto espaço de tempo levantou com argúcia uma grande quantidade de dados que serviram para compor a sua obra: História da Missão dos Padres Capuchinhos na Ilha do Maranhão e Terras Circunvizinhas, publicada em 1614. Sua narrativa inclui diálogos entre as personagens tanto em discurso indireto quanto direto. Inclui não só os episódios mais significativos da permanência dos franceses no Maranhão (edificação da cidade de São Luís, por exemplo) mas vários casos do cotidiano dos índios como é o que se pode ler em capítulos como “de uma escrava de Japi-Açu encontrada em adultério” ou “História de um certo personagem que dizia ter descido do céu”. Apresenta também informações sobre a astronomia indígena. Outro aspecto que se sobressai dessa obra é a intenção de Claude D’Abbeville em demonstrar como o índio podia ser batizado e de como isso parecia ser uma condição natural para o salvamento da alma. Em dois episódios intitulados “De um índio velho batizado em Coieup e de sua morte” e “De um menino curado milagrosamente pelo batismo” isso fica evidente. Oswald de Andrade aproveitou alguns trechos do livro de Claude D’Abbeville para compor quatro poemas em seu Poesia Pau-Brasil, mantendo a escrita original em francês.

“Atravessamos sem parar Juniparã-Pequeno para mais depressa chegarmos a Juniparã-Grande onde nos esperavam nesse dia.

Os filhos do principal, que é o primeiro de todo o país, certos de que não deixaríamos de vir, vieram ao nosso encontro com alguns outros índios e, apenas nos viram, começaram a abraçar-nos e fazer-nos mil agrados, alegrando-se extremamente com a nossa chegada; assim nos conduziram até a aldeia onde entramos todos juntos. O corneteiro ia à frente, tocando como costumava faze-lo à entrada de cada aldeia; meu companheiro e eu empunhávamos nossos bastões com os crucifixos. E depois de termos feita a volta das cabanas juntamente com o sr. De Rasilly, entramos na residência do principal e de sua família, o qual logo nos veio abraçar com incrível afeição, mandando imediatamente armar nossas redes no lugar das suas colocando a dele junto das nossas.

No mesmo instante vieram todos os índios da aldeia, até as crianças, cumprimentar-nos uns após outros. Beijando as próprias mãos, no-las apresentavam, dizendo muito amistosamente e com brandura: Eré jupé pai, ereicobepe, isto é, ‘chegastes, profetas? Ou sede bem-vindos, meu Pai, estais bom?’ E logo cada qual tratou de obsequiar-nos. Começamos então a conversar com o principal, Japi-Açu, o maior de todo o país, que governa os demais, os quais nunca empreendem coisa alguma importante sem consulta-lo.”

“Pensam muitos ser cousa detestável ver esse povo nu, e perigoso viver entre as índias, porquanto a nudez das mulheres e raparigas não pode deixar de constituir um objeto de atração, capaz de jogar quem as contempla no precipício do pecado.

Em verdade, tal costume é horrível, desonesto e brutal, porém o perigo é mais aparente do que real, e bem menos perigoso é ver a nudez das índias que os atrativos lúbricos das mundanas de França. São as índias tão modestas e discretas em sua nudez, que nelas não se notam movimentos, gestos, palavras, atos ou cousa alguma ofensivos ao olhar de quem as observa; ademais, muito ciosas da honestidade no casamento, nada fazem em público suscetível de causar escândalo. Se tivermos ainda em conta a deformidade habitual, até certo ponto repugnante, concluiremos que essa nudez não é em si atraente, ao contrário, dos requebros, lubricidades e invenções das mulheres de nossa terra, que dão origem a maior número de pecados mortais e arruínam mais almas do que as índias com sua nudez brutal e desprezível.”

“A certa estrela chamam os índios januare, cão. É muito vermelha e acompanha a lua de perto. Dizem, ao verem a lua deitar-se, que a estrela late ao seu encalço como um cão, para devora-la. Quando a lua permanece muito tempo escondida durante o tempo das chuvas, acontece surgir vermelha como sangue da primeira vez que se mostra. Afirmam então os índios que é por causa da estrela januare que a persegue para devora-la. Todos os homens pegam então seus bastões e voltam-se para a lua batendo no chão com todas as forças e gritando, eicobé cheramoin goé, goé, goé; eicobé cheramoin goé, ‘au,au,au, boa saúde meu avô, au, au, au, boa saúde meu avô’. Entrementes as mulheres as crianças gritam e gemem e rolam por terra batendo com as mãos e a cabeça no chão.

Desejando conhecer o motivo dessa loucura e diabólica superstição vim a saber que pensam morrer quando vêem a lua assim sanguinolenta após as chuvas. Os homens batem então no chão e sinal de alegria porque vão morrer e encontrar o avô a quem desejam boa saúde, por estas palavras: eicobé cheramoin goé, goé, goé; eicobé, cheramoin goé, au, au, au, boa saúde, meu avô, boa saúde. As mulheres, porém, têm medo da morte e porisso gritam, choram e se lamentam.

Conhecem também a estrela da manhã e chamam-na jaceí-tatá-uaçu, grande estrela. Dão à estrela vespertina o nome de pirapaném e dizem que é quem guia a lua e lhe vai à frente. Conhecem ainda outra estrela que se acha sempre diante do sol e lhe dão o nome de iapucã, ‘sentada em seu lugar’. Com o início das chuvas perdem essa estrela de vista. Conhecem também o Cruzeiro, bela constelação de quatro estrelas muito brilhantes dispostas em cruz. Chamam-na criçá, cruz.”(História da Missão dos Padres Capuchinhos na Ilha do Maranhão e Terras Circunvizinhas).

(Apostila 1 de Literatura Informativa sobre o Brasil)

 

 

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Resumo: Auto de São Lourenço

A peça está dividida em 5 atos. No primeiro desenvolve a cena do martírio de São Lourenço que morre na fogueira: “Nestas brasas morro assado / Com fogo do seu amor. / / Bom Jesus, quando te vejo / Na cruz, por mim flagelado, / Eu por ti vivo e queimado / Mil vezes morrer desejo.” No segundo ato entram três diabos (Guaixará, Aimbirê e Saravaia) que querem destruir a aldeia indígena com pecados. Tentam convencer os índios a continuarem no costume das bebedeiras, do canibalismo e dos vícios: “Guaixará: Que bom costume é bailar! / Adornar-se, andar pintado, / tingir pernas, empenado / fumar e curandeirar, / andar de negro pintado. // Andar matando de fúria, amancebar-se, comer / um ao outro” A intenção didático-religiosa aqui é clara, uma vez que a cultura do índio é representada na fala de Guaixará. São Lourenço e São Sebastião com o auxílio do Anjo da Guarda livram a aldeia dos diabos: “Alegrem-se os nossos filhos / por Deus os ter libertado. / Guaixará seja queimado, / Aimbirê vá para o exílio, / Saravaia condenado!” No terceiro ato, o Anjo da Guarda chama os demônios presos (Aimbirê e Saravaia) para que queimem os imperados romanos Décio e Valeriano (martirizadores de São Lourenço): “Anjo [para Aimbirê]: - Reservei-te uma surpresa / para dar-te como presa. / de Lourenço, em chama acesa, / foram eles matadores.” Os dois diabos com o auxílio de quatro diabos menores (Tataurana, Urubu, Jaguaruçu e Caborê) queimam os dois imperados num ritual de canibalismo: “Saravaia: -Velhos, moços, jovens, damas, / tenho sempre devorado. / Do bom algoz tenho fama.” No quarto ato o corpo de São Lourenço é colocado na tumba. O Anjo apresenta as personagens alegóricas Temor de Deus e Amor de Deus: “Um fogo foi o temor do bravo fogo infernal, /e, como servo leal, / por honrar a seu Senhor, fugiu da culpa mortal. // Outro foi o Amor fervente / de Jesus, que tanto amava, / que muito mais se abrasava / com esse fervor ardente / que co’o fogo, em que se assava.” A seguir cada uma das personagens alegóricas tem sua fala. No quinto ato entram doze meninos que dançam e se canta em louvor de São Lourenço.

AUTO DE SÃO

LOURENÇO

JOSÉ DE

ANCHIETA

PERSONAGENS

GUAIXARÁ - rei dos diabos

AIMBIRÊ

SARAVAIA - criados de Guaixará

TATAURANA

URUBU

JAGUARUÇU - companheiros dos diabos

VALERIANO

DÉCIO - Imperadores romanos

SÃO SEBASTIÃO - padroeiro do Rio de Janeiro

SÃO LOURENÇO - padroeiro da aldeia de São Lourenço

VELHA

ANJO

TEMOR DE DEUS

AMOR DE DEUS

CATIVOS E ACOMPANHANTES

TEMA

Após a cena do martírio de São Lourenço, Guaixará chama Aimbirê

e Saravaia para ajudarem a perverter a aldeia. São Lourenço a

defende, São Sebastião prende os demônios. Um anjo manda-os

sufocarem Décio e Valeriano. Quatro companheiros acorrem para

auxiliar os demônios. Os imperadores recordam façanhas, quando

Aimbirê se aproxima. O calor que se desprende dele abrasa os

imperadores, que suplicam a morte. O Anjo, o Temor de Deus, e o

Amor de Deus aconselham a caridade, contrição e confiança em São

Lourenço. Faz-se o enterro do santo. Meninos índios dançam.

PRIMEIRO ATO

(Cena do martírio de São Lourenço)

Cantam:

Por Jesus, meu salvador,

Que morre por meus pecados,

Nestas brasas morro assado

Com fogo do meu amor

Bom Jesus, quando te vejo

Na cruz, por mim flagelado,

Eu por ti vivo e queimado

Mil vezes morrer desejo

Pois teu sangue redentor

Lavou minha culpa humana,

Arda eu pois nesta chama

Com fogo do teu amor.

O fogo do forte amor,

Ah, meu Deus!, com que me amas

Mais me consome que as chamas

E brasas, com seu calor.

Pois teu amor, pelo meu

Tais prodígios consumou,

Que eu, nas brasas onde estou,

Morro de amor pelo teu.

SEGUNDO ATO

(Eram três diabos que querem destruir a aldeia com pecados, aos

quais resistem São Lourenço, São Sebastião e o Anjo da Guarda,

livrando a aldeia e prendendo os tentadores cujos nomes são:

Guaixará, que é o rei; Aimbirê e Saravaia, seus criados)

GUAIXARÁ

Esta virtude estrangeira

Me irrita sobremaneira.

Quem a teria trazido,

com seus hábitos polidos

estragando a terra inteira?

Só eu

permaneço nesta aldeia

como chefe guardião.

Minha lei é a inspiração

que lhe dou, daqui vou longe

visitar outro torrão.

Quem é forte como eu?

Como eu, conceituado?

Sou diabo bem assado.

A fama me precedeu;

Guaixará sou chamado.

Meu sistema é o bem viver.

Que não seja constrangido

o prazer, nem abolido.

Quero as tabas acender

com meu fogo preferido

Boa medida é beber

cauim até vomitar.

Isto é jeito de gozar

a vida, e se recomenda

a quem queira aproveitar.

A moçada beberrona

trago bem conceituada.

Valente é quem se embriaga

e todo o cauim entorna,

e à luta então se consagra.

Quem bom costume é bailar!

Adornar-se, andar pintado,

tingir pernas, empenado

fumar e curandeirar,

andar de negro pintado.

Andar matando de fúria,

amancebar-se, comer

um ao outro, e ainda ser

espião, prender Tapuia,

desonesto a honra perder.

Para isso

com os índios convivi.

Vêm os tais padres agora

com regras fora de hora

prá que duvidem de mim.

Lei de Deus que não vigora.

Pois aqui

tem meu ajudante-mor,

diabo bem requeimado,

meu bom colaborador:

grande Aimberê, perversor

dos homens, regimentado.

(Senta-se numa cadeira e vem uma velha chorar junto dele. E ele a

ajuda, como fazem os índios. Depois de chorar, achando-se

enganada, diz a velha)

VELHA

O diabo mal cheiroso,

teu mau cheiro me enfastia.

Se vivesse o meu esposo,

meu pobre Piracaê,

isso agora eu lhe diria.

Não prestas, és mau diabo.

Que bebas, não deixarei

do cauim que eu mastiguei.

Beberei tudo sozinha,

até cair beberei.

(a velha foge)

GUAIXARÁ

(Chama Aimberê e diz:)

Ei, por onde andavas tu?

Dormias noutro lugar?

AIMBIRÊ

Fui as Tabas vigiar,

nas serras de norte a sul

nosso povo visitar.

Ao me ver regozijaram,

bebemos dias inteiros.

Adornaram-se festeiros.

Me abraçaram , me hospedaram,

das leis de deus estrangeiros.

Enfim, confraternizamos.

Ao ver seu comportamento,

tranqüilizei-me. Ó portento!

Vícios de todos os ramos

tem seus corações por dentro.

GUAIXARÁ

Por isso

no teu grande reboliço

eu confio, que me baste

os novos que cativaste,

os que corrompeste ao vício.

Diz os nomes que agregaste.

AIMBIRÊ

Gente de maratuauã

no que eu disse acreditaram;

os das ilhas, nestas mãos

deram alma e coração;

mais os paraibiguaras.

É certo que algum perdi,

que os missionários levaram

a Mangueá. Me irritaram.

Raivo de ver os tupis

que do meu laço escaparam.

Depois

dos muitos que nos ficaram

os padres sonsos quiseram

com mentiras seduzir.

Não vê que os deixei seguir -

ao meu apelo atenderam.

GUAIXARÁ

De que recurso usaste

para que não nos fugissem?

AIMBIRÊ

Trouxe aos tapuias os trastes

das velhas que tu instruíste

em Mangueá. Que isto baste.

Que elas são de fato más,

fazem feitiço e mandinga,

e esta lei de Deus não vinga.

Conosco é que buscam a paz,

no ensino de nossa língua.

E os tapuias por folgarem,

nem quiseram vir aqui.

De dança os enlouqueci

para a passagem comprarem

para o inferno que acendi.

GUAIXARÁ

Já chega.

Que tua fala me alegra,

teu relatório me encanta.

AIMBIRÊ

Usarei de igual destreza

para arrastar outras presas

nesta guerra pouco santa.

O povo Tupinambá

que em Paraguaçu morava,

e que de Deus se afastava,

deles hoje um só não há,

todos a nós se entregaram.

Tomamos Moçupiroca,

Jequei, Gualapitiba,

Niterói e Paraíba,

Guajajó, Carijó-oca,

Pacucaia, Araçatiba

Todos os tamoios foram

Jazer queimando no inferno.

Mas há alguns que ao Padre Eterno

fiéis, nesta aldeia moram,

livres do nosso caderno.

Estes maus Temiminós

nosso trabalho destroem.

GUAIXARÁ

Vem tentá-los que se moem

a blasfemar contra nós.

Que bebam, roubem e esfolem.

Que provoquem muitas lutas,

muitos pecados cometam,

por outro lados se metam

longe desta aldeia, à escuta

dos que as nossas leis prometam.

AIMBIRÊ

É bem difícil tentá-los.

Seu valente guardião

me amedronta.

GUAIXARÁ

E quais são?

AIMBIRÊ

É São Lourenço a guiá-los,

de Deus fiel Capitão.

GUAIXARÁ

Qual? Lourenço o consumado

nas chamas qual somos nós?

AIMBIRÊ

Esse.

GUAIXARÁ

Fica descansado.

Não sou assim tão covarde,

será logo afugentado.

Aqui está quem o queimou

e ainda vivo o cozeu.

AIMBIRÊ

`Por isso o que era teu

ele agora libertou

e na morte te venceu.

Há também o seu amigo

Bastião, de flechas crivado.

GUAIXARÁ

O que eu deixei transpassado?

Não faças broma comigo

que sou bem desaforado.

Ambos fugirão logo

aqui me virem chegar.

AIMBIRÊ

Olha que vais te enganar!

GUAIXARÁ

Tem confiança, te rogo,

que horror lhes vou inspirar.

Quem como eu nas terras existe

que até Deus desafiou?

AIMBIRÊ

Por isso Deus te expulsou,

e do inferno o fogo triste

para sempre te abrasou.

Eu lembro de outra batalha

em que Guaixará entrou.

Muito povo te apoiou,

e, inda que lhes desses forças,

na fuga se debandou.

Não eram muitos cristãos.

Contudo nada ficou

da força que te inspirou,

pois veio Sebastião,

na força fogo ateou.

GUAIXARÁ

Por certo aqueles cristãos

tão rebeldes não seriam.

Mas esses que aqui estão

desprezam a devoção

e a Deus não reverenciam.

Vais ver como em nossos laços

caem, logo estes malvados!

De nossos dons confiados,

as almas cederam passo

para andar do nosso lado.

AIMBIRÊ

Assim mesmo tentarei.

Um dia obedecerão.

GUAIXARÁ

Ao sinal de minha mão

os índios te entregarei.

E à força sucumbirão.

AIMBIRÊ

Preparemos a emboscada.

Não te afobes. Nosso espia

verá em cada morada

que armas nos são preparadas

na luta que se inicia.

GUAIXARÁ

Muito bem

és capaz disso

Saravaia meu vigia?

SARAVAIA

Sou demônio da alegria

e assumi tal compromisso.

Vou longe nesta porfia.

Saravaiaçu me chamo.

Com que tarefa me aprazas?

GUAIXARÁ

Ouve as ordens de teu amo,

quero que espies as casas

e voltes quando te chame.

Hoje vou deixar que leves

os índios aprisionados.

SARAVAIA

Irei onde me carregues.

E agradeço que me entregues

encargo tão desejado.

Como Saravaia sou,

aos índios que me aliei

enfim aprisionarei.

E neste barco me vou.

De cauim me embriagarei.

GUAIXARÁ

Anda logo! vai ligeiro!

SARAVAIA

Como um raio correrei!

(Sai)

GUAIXARÁ

(Passeia com Aimbirê e diz:)

Demos um curto passeio

Quando volte o mensageiro

a aldeia destroçarei.

(Volta Saravaia e Aimberê diz:)

AIMBIRÊ

Danado! Voltou voando!

GUAIXARÁ

Demorou menos que um raio!

Foste mesmo, Saravaia?

SARAVAIA

Fui. Já estão comemorando

os índios nossa vitória.

Alegra-te!

Transbordava o cauim,

o prazer regurgitava.

E a beber, as igaçabas

esgotam até o fim.

GUAIXARÁ

E era forte?

SARAVAIA

Forte estava.

E os rapazes beberrões

que pervertem esta aldeia,

caiam de cara cheia.

Velhos, velhas, mocetões

que o cauim desnorteia.

GUAIXARÁ

Já basta. Vamos mansinho

tomá-los todos de assalto.

Nosso fogo arda bem alto.

(Vem São Lourenço com dois companheiros. Diz Aimbirê:)

AIMBIRÊ

Há um sujeito no caminho

que me ameaça de assalto.

Será Lourenço, o queimado?

SARAVAIA

Ele mesmo, e Sebastião.

AIMBIRÊ

E o outro, dos três que são?

SARAVAIA

Talvez seja o anjo mandado,

desta aldeia o guardião.

AIMBIRÊ

Ai! Eles me esmagarão!

Não posso sequer olhá-los.

GUAIXARÁ

Não te entregues assim não,

ao ataque, meu irmão!

Teremos que amedrontá-los,

As flechas evitaremos,

fingiremos de atingidos.

AIMBIRÊ

Olha, eles vêm decididos

a açoitar-nos. Que faremos?

Penso que estamos perdidos.

(São Lourenço fala a Guaixará:)

SÃO LOURENÇO

Quem és tu?

GUAIXARÁ

Sou Guaixará embriagado,

sou boicininga, jaguar,

antropófago, agressor,

andirá-guaçu alado,

sou demônio matador.

SÃO LOURENÇO

E este aqui?

AIMBIRÊ

Sou jibóia, sou socó,

o grande Aimbirê tamoio.

Sucuri, gavião malhado,

sou tamanduá desgrenhado,

sou luminosos demônio.

SÃO LOURENÇO

Dizei-me o que quereis desta

minha terra em que nos vemos.

GUAIXARÁ

Amando os índios queremos

que obediência nos prestem

por tanto que lhes fazemos.

Pois se as coisas são da gente,

ama-se sinceramente.

SÃO SEBASTIÃO

Quem foi que insensatamente,

um dia ou presentemente?

os índios vos entregou?

Se o próprio Deus tão potente

deste povo em santo ofício

corpo e alma modelou!

GUAIXARÁ

Deus? Talvez remotamente

pois é nada edificante

a vida que resultou.

São pecadores perfeitos,

repelem o amor de Deus,

e orgulham-se dos defeitos.

AIMBIRÊ

Bebem cuim a seu jeito,

como completos sandeus

ao cauim rendem seu preito.

Esse cauim é que tolhe

sua graça espiritual.

Perdidos no bacanal

seus espíritos se encolhem

em nosso laço fatal.

SÃO LOURENÇO

Não se esforçam por orar

na luta do dia a dia.

Isto é fraqueza, de certo.

AIMBIRÊ

Sua boca respira perto

do pouco que Deus confia.

SARAVAIA

É verdade, intimamente

resmungam desafiando

ao Deus que os está guiando.

Dizem: "Será realmente

capaz de me ver passando?"

SÃO SEBASTIÃO

(Para Saravaia:)

Serás tu um pobre rato?

Ou és um gambá nojento?

Ou és a noite de fato

que as galinhas afugenta

e assusta os índios no mato?

SARAVAIA

No anseio de devorar

as almas, sequer dormi.

GUAIXARÁ

Cala-te! Fale eu por ti.

SARAVAIA

Não vás me denominar,

pra que não me mate aqui.

Esconda-me, antes, dele.

Eu por ti vigiarei.

GUAIXARÁ

Cala-te! Te guardarei!

Que a língua não te revele,

depois te libertarei.

SARAVAIA

Se não me viu, safarei.

Inda posso me esconder.

SÃO SEBASTIÃO

Cuidado que lançarei

o dardo em que o flecharei.

GUAIXARÁ

Deixa-o. Vem de adormecer.

SÃO SEBASTIÃO

A noite ele não dormiu

para os índios perturbar

SARAVAIA

Isso não se há de negar.

(Açoita-o Guaixará e diz:)

GUAIXARÁ

Cala-te! Nem mais um pio,

que ele quer te devorar.

SARAVAIA

Ai de mim!

Por que me bates assim,

pois estou bem escondido?

(Aimbirê com São Sebastião.)

AIMBIRÊ

Vamos! Deixa-nos a sós,

e retirai-vos que a nós

meu povo espera afligido.

SÃO SEBASTIÃO

Que povo?

AIMBIRÊ

Todos os que aqui habitam

desde épocas mais antigas,

velhos, moças, raparigas,

submissos aos que lhes ditam

nossas palavras amigas.

Vou contar todos seus vícios,

Em mim acreditarás?

SÃO SEBASTIÃO

Tu não me convencerás.

AIMBIRÊ

Têm bebida aos desperdícios,

cauim não lhes faltará.

De ébrios dão-se ao malefício,

ferem-se, brigam, sei lá!

SÃO SEBASTIÃO

Ouvem do morubixaba

censuras em cada taba,

disso não os livrarás.

AIMBIRÊ

Censura aos índios? Conversa!

Vem logo o dono da farra,

convida todos à festa,

velhos, jovens, moçocaras

com morubixaba à testa.

Os jovens que censuravam

com morubixaba dançam,

e de comer não se cansam,

e no cauim se lavam,

e sobre as moças avançam.

SÃO SEBASTIÃO

Por isso aos aracajás

vivem vocês freqüentando,

e a todos aprisionando.

AIMBIRÊ

Conosco vivem em paz,

pois se entregam aos desmandos.

SÃO SEBASTIÃO

Uns aos outros se pervertem

convosco colaborando.

AIMBIRÊ

Não sei. Vamos trabalhando,

e ao vícios bem se convertem

à força do nosso mando.

GUAIXARÁ

Eu que te ajude a explicar.

As velhas, como serpentes,

injuriam-se entre dentes,

maldizendo sem cessar.

As que mais calam consentem.

Pecam as inconseqüentes

com intrigas bem tecidas,

preparam negras bebidas

pra serem belas e ardentes

no amor na cama e na vida.

AIMBIRÊ

E os rapazes cobiçosos,

perseguindo o mulherio

para escravas do gentio...

Assim invadem fogosos...

dos brancos o casario.

GUAIXARÁ

Esta história não termina

antes que desponte a lua,

e a taba se contamina.

AIMBIRÊ

E nem sequer raciocinam

que é o inferno que cultuam.

SÃO LOURENÇO

Mas existe a confissão,

bem remédio para a cura.

Na comunhão se depura

da mais funda perdição

a alma que o bem procura.

Se depois de arrependidos

os índios vão confessar

dizendo: "Quero trilhar

o caminho dos remidos".

- o padre os vai abençoar.

GUAIXARÁ

Como se nenhum pecado

tivessem, fazem a falsa

confissão, e se disfarçam

dos vícios abençoados,

e assim viciados passam.

AIMBIRÊ

Absolvidos

dizem: "na hora da morte

meus vícios renegarei".

E entregam-se à sua sorte.

GUAIXARÁ

Ouviste que enumerei

os males são seu forte.

SÃO LOURENÇO

Se com ódio procurais

tanto assim prejudicá-los,

não vou eu abandoná-los.

E a Deus erguerei meus ais

para no transe ampará-los.

Tanto confiaram em mim

construindo esta capela,

plantando o bem sobre ela.

Não os deixarei assim

sucumbir sem mais aquela.

GUAIXARÁ

É inútil, desista disso!

Por mais força que lhes dês,

com o vento, num dois três

daqui lhes darei sumiço.

Deles nem sombra vereis.

Aimbirê

vamos conservar a terra

com chifres, unhas, tridentes,

e alegrar as nossas gentes.

AIMBIRÊ

Aqui vou com minhas garras,

meus longos dedos, meus dentes,

ANJO

Não julgueis, tolos dementes,

por no fogo esta legião,

Aqui estou com Sebastião

e São Lourenço, não tentem

levá-los à danação.

Pobres de vós que irritastes

de tal forma o bom Jesus

Juro que em nome da cruz

ao fogo vos condenastes.

(Aos santos.)

Prendei-os donos da luz!

(Os santos prendem os dois diabos.)

GUAIXARÁ

Basta!

SÃO LOURENÇO

Não! Teu cinismo me agasta.

Destes provas que sobejam

de querer destruir a igreja.

SÃO SEBASTIÃO

(A Aimberê:)

Grita! Lamenta! Te arrasta!

Te prendi!

AIMBIRÊ

Maldito Seja!

(Preso os dois fala o Anjo a Saravaia que ficou escondido.)

ANJO

E tu que está escondido

será acaso um morcego?

Sapo cururu minguá,

ou filhote de gambá,

ou bruxa pedindo arrego?

Sai daí seu fedorendo,

abelha de asa de vento,

zorrilho, maritaca,

seu lesma, tamarutaca.

SARAVAIA

Ai vida, que me aprisionam!

Não vês que morro de sono?

ANJO

Quem és tu?

SARAVAIA

Sou Saravaia

Inimigo dos franceses.

ANJO

Teus títulos são só estes?

SARAVAIA

Sou também mestre em tocaia,

porco entre todas as reses.

ANJO

Por isso és sujo e enlameias

tudo com teu negro rabo.

Veremos como pateias

no fogo que a gente ateia.

SARAVAIA

Não! Por todos os diabos!

Eu te dou ovas de peixe,

farinha de mandioca,

desde que agora me deixas,

te dou dinheiro aos feixes.

ANJO

Não te entendo, maçaroca.

As coisas que me prometes

em troca, de onde roubaste?

Que morada assaltaste

antes que aqui te escondeste?

Muito coisa tu furtaste?

SARAVAIA

Não, somente o que falei.

Da casa dos bons cristãos

foi bem pouco o que apanhei;

Tenho o que trago nas mãos,

por muito que trabalhei.

Aqueles outros têm mais.

Para comprar cauim

aos índios, em boa paz,

dei o que tinha, e demais,

pois pobre acabei assim.

ANJO

Vamos! Restitui-lhes tudo

o que tiveres roubado.

SARAVAIA

Não faças isto, estou bêbedo,

mais do que o demo rabudo

da sogra do meu cunhado.

Tem paciência, me perdoa,

meu irmão, estou doente.

Das minhas almas presente

farei a ti, prá que em boa

hora as cucas lhes rebentes,

Leva o nome destes monstros

e famoso ficarás.

ANJO

E onde lhes foste ao encontro?

SARAVAIA

Fui pelo sertão a dentro,

lacei as almas, rapaz.

ANJO

De que famílias descendem?

SARAVAIA

Desse assunto pouco sei.

Filhos de índios talvez.

Na corda os enfileirei

presos todos de uma vez.

Passei noites sem dormir,

nos seus lares espreitei,

fiz suas casas explodir,

suas mulheres lacei,

pra que não possam fugir.

(Amarra-o o anjo e diz:)

ANJO

Quantas maldades fizeste!

Por isso o fogo te espera.

Viverás do que tramaste

nesta abrasada tapera

em que pro fim te pilhaste.

SARAVAIA

Aimberê!

AIMBIRÊ

Oi!

SARAVAIA

Vem logo dar-me a mão!

Este louco me prendeu.

AIMBIRÊ

A mim também me venceu

o flechado Sebastião.

Meu orgulho arrefeceu.

SARAVAIA

Ai de mim!

Guaixará, dormes assim,

sem pensar em me salvar?

GUAIXARÁ

Estás louco, Saravaia

Não vês que Lourenço ensaia

maneira de me queimar?

ANJO

Bem junto, pois sois comparsas,

ardereis eternamente.

Enquanto nós, Deo Gratias!,

sob a luz da minha guarda

viveremos santamente.

(Faz uma prática aos ouvintes)

Alegrai-vos, filhos meus,

na santa graça de Deus,

pois que dos céus eu desci,

para junto a vós estar

e sempre vos amparar

dos males que há por aqui.

Iluminado esta aldeia

junto de vós estarei,

por nada me afastarei -

pois a isto me nomeia

Deus, Nosso Senhor e Rei!

Ele que a cada um de vós

um anjo seu destinou.

Que não vos deixe mais sós,

e ao mando de sua voz

os demônios expulsou.

Também

São Lourenço o virtuoso,

Servo de Nosso Senhor,

vos livra com muito amor

terras e almas, extremoso,

do demônio enganador.

Também São Sebastião

valente santo soldado,

que aos tamoios rebelados

deu outrora uma lição

hoje está do vosso lado

E mais - Paranapucu,

Jacutinga, Morói,

Sariguéia, Guiriri,

Pindoba, Pariguaçu,

Curuça, Miapei

E a tapera do pecado,

a de Jabebiracica,

não existe. E lado a lado

a nação dos derrotados

no fundo do rio fica.

Os franceses seus amigos,

inutilmente trouxeram

armas. Por nós combateram

Lourenço, jamais vencido,

e São Sebastião flecheiro.

Estes santos, em verdade,

das almas se compadecem

aparando-as, desvanecem

(Ó armas da caridade!)

Do vício que as envilece.

Quando o demônio ameaçar

vossas almas, vós vereis

com que força hão de zelar.

Santos e índios sereis

pessoas de um mesmo lar.

Tentai

velhos vícios extirpar,

e as maldades cá da terra

evitai, bebida e guerra,

adultério, repudiai

tudo o que o instinto encerra.

Amai vosso Criador

cuja lei pura e isenta

São Lourenço representa.

Engrandecei ao Senhor

que de bens vos acrescenta.

Este mesmo São Lourenço

que aqui foi queimado vivo

pelos maus, feito cativo,

e ao martírio foi infenso,

sendo o feliz redivivo.

Fazei-vos amar por ele,

e amai-o quanto puderdes,

que em sua lei nada se perde.

E confiando mais nele,

mais o céu se vos concede.

Vinde

à direita celestial

de Deus Pai, ireis gozar

junto aos que bem vão guardar

no coração que é leal,

e aos pés de Deus repousar.

(Fala com os santos convidando-os a cantar e se despede.)

Cantemos todos, cantemos!

Que foi derrotado o mal!

Esta história celebremos,

nosso reino inauguremos

nessa alegria campal!

(Os santos levam presos os diabos os quais, na última repetição

da cantiga choram.)

CANTIGA

Alegrem-se os nossos filhos

por Deus os ter libertado.

Guaixará seja queimado,

Aimbirê vá para o exílio,

Saravaia condenado!

Guaixará seja queimado,

Aimbirê vá para o exílio,

Saravaia condenado!

(Voltam os santos)

Alegrai-vos, vivei bem,

vitoriosos do vício,

aceitai o sacrifício

que ao amor de Deus convém.

Daí fuga ao Demo-ninguém!

Guaixará seja queimado,

Aimbirê vá para o exílio,

Saravaia condenado!

TERCEIRO ATO

Depois de São Lourenço morto na grelha o Anjo fica em sua guarda,

e chama os dois diabos, Aimbirê e Saravaia, que venham sufocar os

imperadores Décio e Valeriano que estão sentados em seus tronos.

ANJO

Aimbirê!

Estou chamando você.

Apressa-te ! Corre! Já!

AIMBIRÊ

Aqui estou! Pronto! O que há!

Será que vai me pender

de novo este passarão?

ANJO

Reservei-te uma surpresa:

tenho dois imperadores

para dar-te como presa.

De Lourenço, em chama acesa,

foram ele os matadores.

AIMBIRÊ

Boa! Me fazes contente!

À força os castigarei,

e no fogo os queimarei

como diabo eficiente.

Meu ódio satisfarei.

ANJO

Eia, depressa a afogá-los.

Que para o sol sejam cegos!

Ide ao fogo cozinhá-los.

Castiga com teus vassalos

estes dois sujos morcegos.

AIMBIRÊ

Pronto! Pronto!

Sejam tais ordens cumpridas!

Reunirei meus demônios.

Saravaia, deixa os sonhos,

traz-me de boa bebida

que temos planos medonhos!

SARAVAIA

Já de nego me pintei,

ó meu avô jaguaruna,

e o cauim preparei,

verás como beberei

nesta festa da fortuna.

Que vejo? Um temiminó?

Ou filho de guaianá?

Será esse um guaitacá

que à mesa do jacaré

sozinho vou devorar?

(Vê o Anjo e espanta-se.)

E este pássaro azulão,

quem será que assim me encara?

Algum parente de arara?

AIMBIRÊ

É o anjo que em nossa mão

põe duas presas bem raras.

SARAVAIA

Meus capangas, atenção!

Tataurana, Tamanduá,

vamos com calma por lá,

que esses monstros quererão

por certo me afogar.

AIMBIRÊ

Vamos!

SARAVAIA

Ai, os mosquitos me mordem!

Espera, ou me comerão!

Tenho medo, quem me acode.

Sou pequenino e eles podem

tragar-me de supetão.

AIMBIRÊ

Os índios que não se fiam

nesta conversa e se escondem

se os mandam executar.

SARAVAIA

Têm razão se desconfiam,

vivem sempre a se lograr.

AIMBIRÊ

Cala a boca, beberrão,

só por isso és tão valente,

moleirão impertinente!

SARAVAIA

Ai de mim, me prenderão,

mas vou por te ver contente.

E a quem vamos devorar?

AIMBIRÊ

A algozes de São Lourenço.

SARAVAIA

Aqueles cheios de ranço?

Com isto eu vou mudar

meu nome, de que me canso.

Muito bem! Suas entranhas

sejam hoje o meu quinhão.

AIMBIRÊ

Vou morder seu coração.

SARAVAIA

E os que não nos acompanham

sua parte comerão.

(Chama quatro companheiros para que os ajudem.)

Tataurana,

traze a tua muçurana.

Urubu, jaguaruçu,

traz a ingapema. Sús

Caborê, vê se te inflama

pra comer estes perus.

(Acodem todos os quatro com suas armas)

TATAURANA

Aqui estou com a muçurana

e os braços lhe comerei;

A Jaguaraçu darei

o lombo, a Urubu o crânio,

e as pernas a Caborê

URUBU

Aqui cheguei!

As tripas recolherei,

e com os bofes terei

a panela a derramar.

E esta panela verei

minha sogra cozinhar.

JAGUARUÇU

Com esta ingapema dura

as cabeças quebrarei,

e os miolos comerei.

Sou guará, onça, criatura,

e antropófago serei.

CABORÊ

E eu que em demandas andei

aos franceses derrotando,

para um bom nome ir logrando,

agora contigo irei

estes chefes devorando.

SARAVAIA

Agora quietos! De rastros,

não nos viram. Vou à frente.

Que não escapem da gente.

Vigiarei. No tempo exato

ataquemos de repente.

(Vão todos agachados em direção a Décio e Valeriano que

conversam)

DÉCIO

Amigo Valeriano

minha vontade venceu.

Não houve arte no céu

que livrasse do meu plano

o servo do Galileu.

Nem Pompeu e nem Catão

nem Cesar, nem o Africano,

nenhum grego nem troiano

puderam dar conclusão

a um feito tão soberano.

VALERIANO

O remate, grão-Senhor

desta tão grande façanha

foi mais que vencer Espanha.

Jamais rei ou imperador

logrou coisa tão estranha.

Mas, Senhor, esse quem é

que vejo ali, tão armado

com espadas e cordel,

e com gente de tropel

vindo tão acompanhado?

DÉCIO

É o grande deus nosso amigo,

Júpiter, sumo senhor,

que provou grande sabor

com o tremendo castigo

da morte deste traidor.

E quer, para reforçar

as penas deste rufião,

nosso império acrescentar

com sua potente mão,

pela terra e pelo mar.

VALERIANO

Mais me parece é que vem

a seus tormentos vingar,

e a nós ambos enforcar.

Oh! que cara feia tem!

Começo a me apavorar.

DÉCIO

Enforcar?

Quem a mim pode matar,

ou mover meus fundamentos?

Nem a exaltação dos ventos,

Nem a braveza do mar,

nem todos os elementos!

Não temas, que meu poder,

o que os deuses imortais

me quiseram conceder,

não se poderá vencer

pois não há forças iguais.

De meu cetro imperial

pendem reis, tremem tiranos.

Venço a todos os humanos,

e posso ser quase igual

a esses deuses soberanos.

VALERIANO

Oh, que terrível figura!

Não posso mais aguardar,

que já me sinto queimar!

Vamos, que é grande loucura

tal encontro aqui esperar.

Ai! ai! que grandes calores!

Não tenho nenhum sossego.

Ai, que poderosas dores!

Ai, que férvidos ardores,

que me abrasam como fogo!

DÉCIO

Oh, paixão!

Ai de mim, que é o Plutão

chegando pelo Aqueronte,

ardendo como tição

a levar-nos de roldão

ao fogo do Flegetonte.

Oh, coitado

que me queimo! Esse queimado

me queima com grande dor!

Oh, infeliz imperador!

Todo me vejo cercado

de penas e de pavor,

pois armado

o diabo com seu dardo

mais as fúrias infernais,

vêm castigar-nos demais.

Já nem sei o que hei falado

com angústias tão mortais.

VALERIANO

O Décio, cruel tirano!

Já pagas, e pagará

Contigo Valeriano,

porque Lourenço cristão

assado, nos assará.

AIMBERÊ

Ô Castelhano!

Bom Castelhano parece!

Estou bem alegre mano,

que Espanhol seja o profano

que no meu fogo padece.

Vou fingir-me castelhano

e usar de diplomacia

com Décio e Valeriano,

porque o espanhol ufano

sempre guarda a cortesia.

Oh, mais alta majestade!

Beijo-vos a mão mil vezes,

por vossa grã-crueldade

pois justiça nem verdade

guardastes, sendo juizes.

Sou mandado

por São Lourenço queimado,

levá-los à minha casa,

onde seja confirmado

vosso imperial estado

em fogo, que sempre abrasa.

Oh, que tronos e que camas

eu vos tenho preparadas,

nessas escuras moradas

de vivas e eternas chamas

de nunca ser apagadas!

VALERIANO

Ai de mim!

AIMBIRÊ

Vieste do Paraguai?

Que falais, em Carijó.

Sei todas línguas de cor.

Avança aqui, Saravaia!

Usa tu golpe maior!

VALERIANO

Basta! Que assim me assassinas,

não tenho pecado nada!

Meu chefe é a presa acertada.

SARAVAIA

Não, és tu que me fascinas,

ó presa bem cobiçada.

DÉCIO

Ó miserável de mim,

que nem basta ser tirano,

nem falar em castelhano!

Que é do mando em que me vi,

e o meu poder soberano?

AIMBIRÊ

Jesus, Deus grande e potente,

que tu, traidor, perseguiste,

te dará sorte mais triste

entregando-te em meu dente,

a que, malvado, serviste.

Pois me honraste,

e sempre me contentaste

ofendendo ao Deus eterno.

É justo pois que no inferno,

palácio que tanto amaste,

não sintas o mal do inverno.

Porque o ódio inveterado

do teu duro coração

não pode ser abrandado,

se não for já martelado

com a água do Flegeton.

DÉCIO

Olha que consolação

para quem se está queimando!

Sumos deuses, para quando

adiais minha salvação,

que vivo estou me abrasando?

Ai, ai! Que mortal desmaio!

Esculápio, não me acodes?

Oh, Júpiter, porque dormes?

Que é do vosso raio?

Por que é que não me socorres?

AIMBIRÊ

Que dizeis?

De que mal vós padeceis?

Que pulso mais alterado.

É grande dor de costado

este mal, que morreis!

Haveis de ser bem sangrado!

Há dias que esta sangria

se guardava para vós

que sangráveis, noite e dia,

com dedicada porfia

aos santos servos de Deus.

Muito desejo eu beber

vosso sangue imperial.

Oh, não me leveis a mal

que com isso quero ser

homem de sangue real.

DÉCIO

Que dizeis? Que disparate,

e elegante desvario!

Joguem-me dentro de um rio

antes que o fogo me mate,

ó deuses em que confio!

Não quereis

socorrer-me, ou não podeis?

Ó malditos fementidos,

ingratos desconhecidos,

que pouco vos condoeis

de quem fostes tão servidos!

Se agora voar pudesse,

vos iria derrocar

dos vossos tronos celestes,

feliz, se a mim me coubesse

no fogo vos projetar.

AIMBIRÊ

Parece-me que é chegada

a hora do frenesi,

e com chama redobrada,

a qual será descuidada

dos deuses a quem servis.

São armas

dos audazes cavaleiros

que usam palavrório humano.

E por isso, tão ufano,

hoje vindes acolhê-los

no romance castelhano.

SARAVAIA

Assim é.

Pensava dar, de revés,

golpes de afiados aços

mas enfim, nossos balaços

se chocaram através

com bem poucos canhonaços.

Mas que boas bofetadas

lhes reservo para dar!

Os tristes, sem descansar,

à força de tais pauladas

com cães hão de ladrar.

VALERIANO

Que ferida!

Tira-me logo esta vida

pois, minha alta condição,

contra justiça e razão

veio a ser tão abatida

que morro como ladrão!

SARAVAIA

Não é outro o galardão

que concedo aos meus criados,

senão morrer enforcados,

e depois, sem remissão,

ao fogo ser condenados!

DÉCIO

Essa é a pena redobrada

que me causa maior dor:

que eu, universal senhor,

morra morte desonrada

na forca como traidor.

Ainda se fosse lutando,

dando golpes e reveses,

pernas e braços cortando,

como fiz com os franceses,

acabaria triunfando.

AIMBIRÊ

Parece que estais lembrando,

poderoso imperador,

quando, com bravo furor,

matastes, traição armando,

Felipe, vosso senhor.

Por certo que me alegrais

e se cumpre meus anseios

ante desabafos tais,

porque o fogo em que queimais

provoca tais devaneios.

DÉCIO

Bem entendo

que este fogo em que me acendo

merece-me a tirania,

pois com tão feroz porfia

aos cristãos martirizando

pelo fogo os consumia.

Mas que em minha monarquia

acabe com tal pregão

pois morrer como ladrão

é muito triste agonia

e dobrada confusão.

AIMBIRÊ

Como? Pedis confissão?

Sem asas quereis voar?

Ide, se quereis achar

aos vossos atos perdão,

à deusa Pala rogar.

Ou a Nero,

esse cruel carniceiro

do fiel povo cristão.

Aqui está Valeriano,

vosso leal companheiro,

buscai-o por sua mão!

DÉCIO

Esses amargos chistes

e agressões

me acrescentam em paixões

e mais dores,

com tão profundos ardores

como de ardentes tições

E com isto crescem mais

os fogos em que padeço.

Acaba, que me ofereço

em tuas mãos, Satanás,

ao tormento que mereço.

AIMBIRÊ

Oh, quanto vos agradeço

por esta boa vontade!

Eu, com liberalidade

quero dar-lhe bom refresco

para vossa enfermidade.

Na cova

onde o fogo se renova

com ardores perenais,

os vossos males fatais

aí terão grande prova

das agruras imortais.

DÉCIO

Que fazer, Valeriano,

bom amigo!

Testemunharás comigo

desta pena

envolvido na cadeia

de fogo, deste castigo.

VALERIANO

Em má hora! Já são horas...

Vamos logo

deste fogo ao outro fogo eternal,

lá onde a chama imortal

nunca nos dará sossego.

Sús, asinha!

Vamos à nossa cozinha,

Saravaia!

AIMBIRÊ

Aqui deles não me afasto.

Nas brasas serão bom pasto,

maldito quem nelas caia.

DÉCIO

Aqui abrasado estou!

Assa-me Lourenço assado!

De soberano que sou

vejo que Deus me marcou

por ver seu santo vingado!

AIMBIRÊ

Com efeito

quiseste abrasar a jeito

o virtuosos São Lourenço.

Hoje te castigo e venço

e sobre as brasas te deito

para morrer, segundo penso.

(Sufocam-nos e entregam aos quatro beleguins, e cada dois

levam o seu.)

Vinde aqui

e aos malditos conduzi

para em bom queimarem,

seus corpos sujos tostarem,

na festa em que os seduzi

para cozidos bailarem

(Ficam ambos os demônios no terreiros com as coroas dos

imperadores na cabeça.)

SARAVAIA

Sou o grande vencedor,

o que as más cabeças quebra,

sou um chefe de valor

e hoje me decido por

me chamar Cururupeba.

Como eles,

mato os que estão em pecado,

e os arrasto em minhas chamas.

Velhos, moços, jovens, damas,

tenho sempre devorado.

De bom algoz tenho fama.

QUARTO ATO

Tendo o corpo de São Lourenço amortalhado e posto na tumba,

entra o Anjo com o Temor e o Amor de Deus, a encerrar a obra, e

no fim acompanham o santo à sepultura.

ANJO

Vendo nosso Deus benigno

vossa grande devoção

que tendes, e com razão,

a Lourenço, o mártir digno

de toda a veneração,

determinam, por seus rogos

e martírio singular,

a todos sempre ajudar,

para que escapeis dos fogos

em que os maus se hão de queimar.

Dois fogos trazia n'alma,

com que as brasas resfriou,

a no fogo em que se assou,

com tão gloriosa palma,

dos tiranos triunfou.

Um fogo foi o temor

do bravo fogo infernal,

e, como servo leal,

por honrar a seu Senhor,

fugiu da culpa mortal.

Outro foi o Amor fervente

de Jesus, que tanto amava,

que muito mais se abrasava

com esse fervor ardente

que co'o fogo, em que se assava,

Estes o fizeram forte.

Com estes purificado

como ouro refinado,

padeceu tão crua morte

por Jesus, seu doce amado.

Estes vos manda o Senhor

a ganhar vossa frieza,

para que vossa alma acesa

de seu fogo gastador,

fique cheio de pureza.

Deixai-vos deles queimar

como o mártir São Lourenço,

e sereis um vivo incenso

que sempre haveis de cheirar

na corte de Deus imenso.

TEMOR DE DEUS

(Dá seu recado.)

Pecador,

sorves com grande sabor

o pecado,

e não ficas afogado

com teus males!

E tuas chagas mortais

não sentes, desventurado!

O inferno

como seu fogo sempiterno,

Já te espera,

se não segues a bandeira

da cruz,

sobre a qual morreu Jesus

para que tua morte morra.

Deus te envia esta mensagem

com amor,

a mim que sou seu Temor

me convém

declarar o que contém

para que temas ao Senhor.

(Glosa e declaração do recado.)

Espantado estou de ver,

pecador, teu vão sossego.

Com tais males a fazer,

como vives sem temer,

aquele espantoso fogo?

Fogo que nunca descansa,

mas sempre provoca a dor,

e com seu bravo furor

dissipa toda a esperança

ao maldito pecador.

Pecador, como te entregas

tão sem freio ao vício extremo?

Dos vícios de que estás cheios

engolindo tão às cegas

a culpa, com seu veneno.

Veneno de maldição

tragas sem nenhum temor,

e sem sentir sua dor,

deleites da carnação

sorves com grande sabor.

Será o sabor do pecado

muito mais doce que o mel,

mas o inferno cruel

depois te dará um bocado

bem mais amargo que o fel

Fel beberás sem medida,

pecador desatinado,

tua alma em chamas ardida.

Esta será a saída

do deleite do pecado.

Do pecado que tu amas

Lourenço tanto escapou

que mil penas suportou,

e queimado pelas chamas,

por não pecar, expirou.

Ele a morte não temeu.

Tu não temes o pecado

no qual et tem enforcado

Lucifer, que te afogou,

e não ficas afogado.

Afogado pela mão

do Diabo pereceu

Décio com Valeriano,

infiel, cruel tirano,

no fogo que mereceu.

Tua fé merece a vida,

mas com pecados mortais

quase a tiveste perdida,

e teu Deus, bem sem medida,

ofendeste, com teus males.

Com teus males e pecados,

tua alma de Deus alheia,

da danação na cadeia

há de pagar com os danados

a culpa que a incendeia.

Pena sem fim te darão

dentre os fogos infernais

teus deleites sensuais.

Teus tormentos dobrarão,

e tuas chagas mortais .

Que mortais são tuas feridas

pecador. Porque não choras?

Não vês que nestas demoras,

estão todas corrompidas,

a cada dia pioras?

Pioras e te confinas,

mas teu perigoso estado,

na pressa e grande cuidado

com que ao fogo te destinas,

não sentes, desventurado?

Oh, descuido intolerável

de tua vida!

Tua alma está confundida

no lodo,

e tu vais rindo de tudo,

não sentes tua caída!

Oh, traidor!

Que negas teu Criador,

Deus eterno,

que se fez menino terno

por salvar-te.

E tu queres condenar-te

e não temes ao inferno!

Ah, insensível!

Não calculas o terrível

espanto, que causará

o juiz, quando virá

com carranca muito horrível,

e à morte te entregará.

E tua alma será

sepultada em pleno inferno,

onde morte não terá

mas viva se queimará

com seu fogo sempiterno!

Oh, perdido!

Ali serás consumido

sem nunca te consumir.

Terás vida sem viver,

com choro e grande gemido,

terás morte sem morrer.

Pranto será teu sorrir,

sede sem fim te abeberra,

fome que em comer se gera,

teu sono, nunca dormir,

tudo isto já te espera.

Oh, morfio!

Pois tu veras de continuo

ao horrendo Lucifer,

sem nunca chegar a ver

aquele molde divino

de quem tiras todo o ser.

Acaba já de temer

a Deus, que sempre te espera,

correndo por sua esteira,

pois não lhes vai pertencer

se não lhe segues a bandeira.

Homem louco!

Se teu coração já toco,

mudar-se-ão alegrias

em tristezas e agonias.

Olha que te falta pouco

para fenecer teus dias.

Não peques mais contra Aquele

que te ganhou vida e luz

com seu martírio cruel

bebendo vinagre e fel

no extremo lenho a cruz.

Oh, malvado!

Ele foi crucificado,

sendo Deus, por te salvar.

Pois, que podes esperar,

se foste tu o culpado

e não cessas de pecar?

Tu o ofendes, ele te ama.

Cegou-se por dar-te a luz.

Tu és mau, pisas a cruz

sobre a qual morreu Jesus.

Homem cego,

porque não começas logo

a chorar por teu pecado?

E tomar por advogado

a Lourenço que, no fogo,

por Jesus morreu queimado?

Teme a Deus, juiz tremendo,

que em má hora te socorra,

em Jesus tão só vivendo,

pois deu sua vida morrendo

para que tua morte morra.

AMOR DE DEUS

(Dá seu recado)

Ama a Deus, que te criou,

homem, de Deus muito amado!

Ama com todo cuidado,

a quem primeiro te amou.

Seu próprio Filho entregou

à morte, por te salvar.

Que mais te podia dar,

se tudo o que tem te dou?

Por mandado do Senhor,

te disse o que tens ouvido.

Abre todo teu sentido,

porque eu, que sou seu Amor,

seja em ti bem imprimido

(Glosa e declaração do recado)

Todas as coisas criadas

conhecem seu Criador.

Todas lhe guardam amor,

pois nele são conservadas,

cada qual em seu vigor.

Pois com tanta perfeição

sua ciência te formou

homem capaz de razão,

de todo o teu coração

ama a Deus, que te criou!

Se amas a criatura

por se parecer formosa,

ama a visão graciosa

desta mesma formosura

por sobre todas as coisas.

Dessa divina lindeza

deves ser enamorado.

Seja tua alma presa

daquela suma beleza

homem, de Deus muito amado!

Aborrece todo o mal,

com despeito e com desdém,

E pois, que é racional,

abraça a Deus imortal,

todo, sumo e único bem.

Este abismo de fartura,

que nunca será esgotado;

esta fonte viva e pura,

este rio de doçura,

ama com todo cuidado.

Antes que criasse nada

já a alma majestade

te havia a vida gerado.

e tua alma, abrasada

com eterna caridade.

Por fazer-te todo seu

com amor te cativou

e, pois que tudo te deu,

dá tu todo o maior que é teu

a quem primeiro te amou.

E deu-te alma imortal

e digna de um Deus imenso,

para que fosses suspenso

nele, esse bem eternal,

que é sem fim e sem começo.

Depois, que em morte caíste

com vida te levantou.

Porque sair não conseguiste

da culpa em que te fundiste,

seu próprio filho entregou.

Entregou-o por escravo,

deixou que fosse vendido,

para que tu, redimido

do poder do leão bravo

fosses sempre agradecido.

Para que não morras, morre

com amor bem singular.

Pois, quanto deves amar

a Deus que entregar-se quer

à morte, por te salvar.

O Filho, que o Padre deu,

a seu Pai te dá por pai,

e sua graça te infundiu,

e quando na cruz morreu,

deu-te por mãe sua Mãe.

Deu-te fé com esperança,

e a si mesmo por manjar,

para em si te transformar

pela bem aventurança.

Que mais te podia dar?

Em paga de tudo isto,

oh, ditoso pecador,

pede apenas teu amor.

Despreza pois todo o resto

por ganhar a tal Senhor.

Dá tua vida pelos bens

que Sua morte te ganhou.

És seu, nada tens de teu,

Dá-lhe tudo quanto tens,

pois tudo o que tem te deu!

DESPEDIDA

Levantai os olhos ao céu, meus irmãos.

Vereis a Lourenço reinando com Deus,

por vós implorando junto ao rei dos céus,

que louvais seu nome aqui neste chão!

Daqui por diante tende grande zelo,

que Deus seja sempre temido e amado,

e, mártir tão santo, de todos honrado.

Terei seus favores e doce desvelo.

Pois que celebrai com tal devoção

seu claro martírio, tomai meu conselho:

sua vida e virtudes tende por espelho,

chamando-o sempre com grande afeição.

Tereis, por seus rogos, o santo perdão,

e sobre o inimigo perfeita vitória.

E depois da morte vós vereis na glória

a cara divina, com clara visão.

(LAUS DEO)

QUINTO ATO

Dança de doze meninos, que se fez na procissão de São Lourenço.

1º) Aqui estamos jubilosos

tua festa celebrando.

Por teus rogos desejando

Deus nos faça venturosos

nosso coração guardando.

2º) Nós confiamos em ti

Lourenço santificado,

que nos guardes preservados

dos inimigos aqui

Dos vícios já desligados

nos pajés não crendo mais,

em suas danças rituais,

nem seus mágicos cuidados.

3º) Como tu, que a confiança

em Deus tão bem resguardaste,

que o dom de Jesus nos baste,

pai da suprema esperança.

4º) Pleno do divino amor

foi teu coração outrora.

Zela pois por nós agora!

Amemos nosso Criador,

pai nosso de cada hora!

5º) Obedeceste ao Senhor,

cumprindo sua palavra.

Vem que nossa alma escrava

de teu amor, neste dia

te imita em sabedoria.

6º) Milagroso, tu curaste

teus filhos tão santamente.

Suas almas estão doentes

deste mal que abominaste,

Vem curá-los novamente!

7º) Fiel a Nosso Senhor

a morte tu suportaste.

Que a força disto nos baste

para suportar a dor

pelo mesmo Deus que amaste.

8º) Pelo terrível que és,

Já que os demônios te temem,

nas ocas onde se escondem

vem calcá-los sob os pés,

pra que as almas não nos queimem.

9º) Hereges que este indefeso

corpo no teu assaram,

e a carne toda queimaram

em grelhas de ferro aceso.

Choremos, do alto desejo

de Deus Padre contemplar.

Venha Ele neste ensejo

nossas almas inflamar.

10º) Os teus verdugos extremos

treme, algozes de Deus.

Vem, leva-nos como teus,

que ao teu lado ficaremos

assustando estes ateus.

11º) Estes que te deram morte

ardem no fogo infernal.

Tu, na glória celestial

gozarás, divina sorte.

E contigo aprenderemos

a amar a Deus no mais fundo

do nosso ser, e no mundo

longa vida gozaremos.

12º) Em tuas mãos depositamos

nosso destino também.

Em teu amor confiamos

e uns aos outros nos amamos

para todo o sempre. Amém.

CAI O PANO

INDICAÇÕES PARA PESQUISA:

ANCHIETA, José. O Auto de São Lourenço. Introdução, seleção e notas de Walmyr Ayala. Prefácio de Leodegário A. de Azevedo Filho. Rio de Janeiro, Ediouro, s.d.

(Apostila 6 de Literatura Informativa sobre o Br

 

 

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José de Anchieta

Os Feitos de Mem de Sá

Pode ser considerado primeiro poema épico da literatura brasileira, antecedendo inclusive a Bento Teixeira. O poema tem 3.058 versos divididos em 4 livros (ou cantos) além de uma introdução de caráter laudatório. Escrito em versos decassílabos, com influência de Virgílio, narra na figura de Mem de Sá as lutas contra os índios e os franceses levadas a cabo pelo governador. Os índios são apresentados como terríveis e pecadores, mas assim que se rendem e se entregam, são tratados sob outro ponto de vista, como almas pecadoras que pedem perdão e a fé presente na ação de Mem de Sá, no poema, está pronta a mostrar sua caridade e compaixão. No Livro I se faz uma apresentação geral da situação do Brasil antes da chegada de Mem de Sá, mostrada como caótica:

“Ó que faustoso sai, Mem de Sá, aquele em que o Brasil

te contemplou! quanto bem trarás a seus povos

abandonados! com que terror fugirá a teus golpes

o inimigo fero, que tantos horrores e tantas ruínas

lançou nos cristãos, arrastado de furiosa loucura!

No livro II começa a luta de Mem de Sá contra os índios. A narrativa é carregada na descrição da ferocidade das lutas, dando contornos de caráter horrendo ao desenvolvimento da ação. Ao vencer os indígenas, destaca-se logo o processo de conversão e de abandono dos costumes anteriores:

“Assim se expulsou a paixão de comer carne humana,

a sede de sangue abandonou as fauces sedentas;

e a raiz primeira e causa de todos os males,

a obsessão de matar inimigos e tomar-lhes os nomes,

para glória e triunfo do vencedor, foi desterrada.

Aprendem agora a ser mansos e da mancha do crime

afastam as mãos os que há pouco no sangue inimigo

tripudiavam, esmagando nos dentes membros humanos.

Há pouco a febre do impuro lhes devora as entranhas:

imersos no lodaçal, aí rebolavam o fétido corpo,

preso à torpeza de muitas, à maneira dos porcos.

Agora escolhem uma, companheira fiel e eterna,

vinculada pelo laço do matrimônio sagrado

que lhe guarda sem mancha o pudor prometido.”

(Os Feitos de Mem de Sá, Livro II)

Um bom momento literário é quando Anchieta compara a luta em canoas travada entre índios no litoral com a luta de baleias:

“Como quando as baleias sobem do fundo do abismo

e se acolhem às enseadas do litoral brasileiro

na quadra em que se entregam ao serviço da espécie:

então travam combates ferozes ao soçobro das ondas

e lançam até as nuvens jatos de água espumante:

Atônitos na praia os homens assistem à luta gigante

dos monstros descomunais entre as vagas encapeladas.

Elas desfecham golpes tremendos e horrendas feridas

com as caudas e dentes agudos, até que as ondas vomitem

os cadáveres monstruosos às areias da praia.

Assim nossos índios, em pleno mar, a braços com as ondas

vibram golpes terríveis: a uns despedaçam, a outros

já semimortos puxam-nos, enlaçando-lhes os longos cabelos

com a mão esquerda, enquanto com a direita cortam as vagas

e vitoriosos arrastam até as praias a presa,

indo depor aos pés do Chefe os corpos de seus inimigos,

e despedaçando aos semivivos os crânios com os rijos tacapes.”

(Os Feitos de Mem de Sá, Livro II)

Mem de Sá, conquanto herói, destaca-se pelos valores cristãos, embora se apresenta na luta como de uma ferocidade atroz. No trecho a seguir, o herói reconhece sua ferocidade, que busca amenizar com a ação de compaixão para com o índio vencido:

“O Governador ouviu com bondade essas palavras

e respondeu: “Se vos fiz guerra cruel de extermínio,

devastando os campos e lançando em vossas moradas

o incêndio voraz, levou-me a isso vossa audácia somente.

Já agora, esquecidos os ódios, vos concedemos contentes

a aliança e a paz que quereis e sentimos vossa desgraça.

Porém, deveis vós observar as leis que vos dito.”

Manda então que refreiem suas rixas contínuas

que expulsem do peito a crueldade e o hábito horrendo

de saciarem o ventre, à maneira de feras raivosas,

com carnes humanas. Também lhes ordena que guardem

os mandamentos do Pai celeste e a lei natural

e ergam igrejas ao eterno Senhor das alturas

em seu torrão natal; aí serão instruídos

na lei divina e de vontade abraçarão com os filhos

a fé de Cristo, porta única do caminho do céu,

Além disso, tudo quanto roubaram dos Cristãos às ocultas

ou por assalto, em tantos anos, os próprios escravos

mortos ou devorados, tudo pagarão e mais os tributos.”

(Os Feitos de Mem de Sá, Livro III)

No Livro III destaca-se também o episódio que envolveu o bispo Pero Fernandes Sardinha. Em 1556, resolve retornar à Lisboa para relatar e condenar o modo como o Padre Manoel da Nóbrega e José de Anchieta levavam o processo de catequese, tido por ele como muito complacente. Porém, sua caravela naufraga nas costas de Alagoas e o bispo chegando à praia e devorado por índios canibais. O episódio histórico foi depois reaproveitado por Oswald de Andrade no seu manifesto antropofágico. Na obra de José de Anchieta, convém destacar que apesar das diferenças entre Anchieta e o bispo, o personagem é apresentado como virtuoso e de boas intenções. No momento da morte a última fala do bispo é a que se segue:

“Sou eu, sou eu mesmo

o grande abaré! porque procurais dar-me a morte?”

mas que suspiros lhes dobrariam os loucos intentos,

que queixumes ou lágrimas? seria mais fácil

comover leões da África ou leopardos ferozes

do que com rios de prantos dobrar esses selvagens

acostumados a fartar o ventre com carnes humanas”

(Os Feitos de Mem de Sá, Livro III)

Os Franceses entram na história como os grandes vilões. Representantes da igreja Protestante, identificados com Lutero e Calvino, são os grandes infiéis na estrutura do poema. A luta contra os franceses é destacada a partir do Livro III. No Livro IV a luta contra os franceses e os índios finda com a vitória de Mem de Sá. No trecho abaixo lemos os preparativos para a batalha final:

“O sol mergulha seu carro luzente nas ondas,

e Vésper desdobrara seu manto noturno de trevas

e na abóbada celeste brilhavam mil luzes de estrelas.

Não se dormia no acampamento; cada qual preparava

suas armas. Da colina das palmeiras o falcão continuava

a bater o alto da torre, arrotando bolas de fogo.

Ressoam vozes e gritos de mulheres nas casas.

Manda entretanto o governador fortificar por inteiro

as trincheiras. Uns contra as balas enchem de pedra e terra

grandes canastras tecidas de vime flexível.

Outros retiram das naus os canhões e os arrastam

com o fragor gigantesco de suas rodas pesadas,

e os colocam em postos escolhidos erguendo em redor

um parapeito de terra. Depois esperam impaciente

as batalhas temerosas do dia seguinte.

Já os primeiros clarões afastavam as trevas da noite

e a aurora tingia o mar com seus raios serenos,

já o sol da orla do horizonte se lançava à corrida

que espalharia mais uma vez a luz pelo mundo:

quando refulgem no alto as falanges francesas

armadas de espadas e longas lanças; os corpos

cobertos de reluzentes couraças. Armados de flechas

aí se acham também os selvagens que tinham voado

à aguada, para derramar o sangue dos lusos,

quando nossas naus voltaram e deixaram as praias

com as águas, ajuntando-se aos seus e enganado

o inimigo cruel que nutria feliz esperança.

(Os Feitos de Mem de Sá, Livro IV)

O poema Os Feitos de Mem de Sá ainda aguarda melhores estudos no sentido de avaliar seu gênero e sua inserção como obra literária na Literatura Brasileira. Podemos inicialmente já prenunciar elementos comparativos entre este poema e A Confederação dos Tamoios de Gonçalves de Magalhães.

(Apostila 7 de Literatura

 

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O CONCEITO DE LITERATURA BRASILEIRA

A MISTURA CULTURAL

“A condição de país colonizado determinou para o Brasil a situação, comum aos demais países do Novo Mundo, de criar uma literatura nova do transplante de uma literatura já formada, a do povo colonizador. O processo de criação resultou da submissão da herança recebida a toda uma nova experiência viva, decorrida em meio geográfico e social diferente, no contacto com outras culturas –a negra e índia. O laboratório formidável que se instalou no continente americano não se limitou ao melting-pot racial, mas também à mescla de culturas, de que resultou, desde o início do contacto, o amálgama intenso e profundo da nova cultura.

Esse fato deu lugar a um problema de historiografia literária: o de saber-se onde reside o divisor de águas entre a velha literatura geradora e o novo rebento ultramarino. É o problema da origem da literatura brasileira, questão que se impôs a toda a historiografia literária brasileira.

(Afrânio Coutinho, A Tradição Afortunada, p.9)

A TESE PORTUGUESA:

“Mui distinto lugar obteve entre os poetas portugueses desta época Cláudio Manuel da Costa: o Brasil o deve contar seu primeiro poeta (‘em antiguidade’, acrescenta em nota de rodapé), e Portugal entre um dos melhores”(GARRETT, Almeida. Parnaso Lusitano).

“E agora começa a literatura portuguesa a avultar e enriquecer-se com as produções dos engenhos brasileiros. Certo é que as majestosas e novas cenas da natureza naquela vasta região deviam Ter dado a seus poetas mais originalidade, mais diferentes imagens, expressões e estilo, do que neles aparece: a educação européia apagou-lhes o espírito nacional: parece que receiam de se mostrar americanos, e daí lhes vem uma afetação e impropriedade que dá quebra em suas melhores qualidades.”(GARRET, Almeida. Op.cit.)

A TESE NACIONALISTA:

“Razão tiveram José Veríssimo e Oliveira Lima em procurar reconhecer o desenvolvimento do sentimento nativista, ainda que tenham incorrido na deformação da visão histórica do conjunto pro força da preponderância quase unilateralizadora, que lhe atribuíam. Por causa dele é que José Veríssimo, que só sumariamente aprecia o século XVI, aponta como primeiro prosador da literatura brasileira, no período colonial, a Frei Vicente de Salvador (História do Brasil, 1627), como poeta, a Bento Teixeira (Prosopopéia, 1601). E Oliveira Lima, indicando o mesmo poeta, recua o início da prosa para fins do século XVI, com Gabriel Soares de Sousa (Notícia do Brasil e Tratado Descritivo do Brasil, 1587).”(CASTELLO, José Aderaldo. Manifestações Literárias do Brasil Colonial)

“De um lado, os escritores coloniais não raro se postavam como súditos da Coroa, encaravam o Brasil como América Portuguesa (...) O próprio ufanismo de seus escritos decorria mais de fatores imediatistas, visando à exploração da terra, que o simples amor ao solo de nascença. De outro, sem prejuízo da situação anterior, tínhamos o caso de Gregório de Matos, (...) A par do talento incomum, trazia um canto novo, brasileiro pelo menos nos motivos e modos de expressão. (...) Nada há que se lhe compare no século XVII em Portugal.”

(MOISÉS, Massaud. História da Literatura Brasileira, v.I, p.12-13)

A INFLUÊNCIA DE PORTUGAL:

“Em virtude dessas condições gerais rapidamente entrevistas, surgem três perguntas fundamentais para o historiador:

1º) Como distinguir o escritor do Brasil-Colônia do escritor português do momento correspondente? Ou em suma, a literatura do Brasil-Colônia da de Portugal colonizador?

2.º) Quando ela principia?

3.º) Como devemos enfrentar o problema dos espaços históricos da nossa literatura no Brasil-Colônia?

As respostas são demasiado complexas e só poderemos dá-las no desenvolvimento deste panorama da literatura brasileira, confinado nos limites do período colonial de nossa formação. Contudo, já deixamos aqui, embora sumária, a definição do critério ou da interpretação que nos orienta. Insistimos no conceito histórico da literatura brasileira, em função de nossa formação colonial, da qual resultam as suas características coloniais. Elas surgem com as próprias origens da nossa literatura que é,inquestionavelmente, o reflexo ou o efeito de influências diretas e preponderantes, vigiadamente exercidas, e portanto, constrangedoras, da cultura do país-colonizador.” (CASTELLO, José Aderaldo. Manifestações Literárias do Período Colonial, p. 12)

A TESE SOCIOLÓGICA DE A. CÂNDIDO:

"Com efeito, entendemos por literatura (...) fatos eminentemente associativos; obras e atitudes que exprimem certas relações dos homens entre si, e que, tomadas em conjunto, representam uma socialização dos seus impulsos íntimos. Toda obra é pessoal, única e insubstituível, na medida em que brota de uma confidência. um esforço de pensamento, um assomo de intuição, tornando-se uma 'expressão'. A literatura, porém, é coletiva, na medida em que requer uma certa comunhão de meios expressivos (a palavra, a imagem), e mobiliza afinidades profundas que congregam os homens de um lugar e de um momento - pra chegar a uma 'comunicação'.

Assim, não há literatura enquanto não houver essa congregação espiritual e formal, manifestando-se por meio de homens pertencentes a um grupo (embora ideal), segundo um estilo (embora nem sempre tenham consciência dele); enquanto não houver um sistema de valores que enforme a sua produção e dê sentido à sua atividade; enquanto não houver outros homens (um público) aptos a criar ressonância a uma e outra; enquanto, finalmente, não se estabelecer a continuidade (uma transmissão e uma herança) que signifique a integridade do espírito criador na dimensão do tempo."

(CÂNDIDO, Antônio. Literatura e Sociedade, p. 127-128)