. LINHA DO TEMPO DA LITERATURA PORTUGUESA

13/05/2015 05:50

A. LINHA DO TEMPO DA LITERATURA PORTUGUESA

 

1189 – A Cantiga da Ribeirinha, atribuída a Paai Soares de Taveirós ou a Martim Soares, tradicionalmente considerada o primeiro documento literário da língua portuguesa, marca o início do TROVADORISMO.

1418 – Fernão Lopes é nomeado guarda-mor da Torre do Tombo (arquivista chefe do reino), marcando o inicio do HUMANISMO.

1527 – Sá de Miranda volta da Itália, divulgando as novas formas literárias: o soneto e a medida nova (o verso decassílabo), dando início ao RENASCIMENTO ou CLASSICISMO.

1580 – Com a morte de Luís de Camões, o fim da dinastia de Avis e a perda da autonomia política para a Espanha, se inicia o BARROCO.

1756 – Fundação da Nova Arcádia Lusitana: tem início o ARCADISMO.

1825 – Almeida Garrett publica o poema “Camões”, iniciando o ROMANTISMO.

1865 – A “Questão Coimbrã” dá início ao REALISMO.

1890 – Eugênio de Castro publica Oaristos, iniciando o SIMBOLISMO.

1915 – Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro lançam a revista “Orpheu”, marco inicial do MODERNISMO.

 1927 – José Régio e Branquinho da Fonseca lançam a revista “Presença”, início do 2º MODERNISMO.

1940 – É lançado Gaibéus, de Alves Redol, primeiro romance do NEO-REALISMO.

 

B. PANORAMA DA LITERATURA PORTUGUESA

 

  1. TROVADORISMO

a.            Período: 1189 – 1434

b.            Gêneros cultivados: cantigas de amigo, de amor, de escárnio e de maldizer (poesia); novelas de cavalaria (prosa)

c.             Principais autores: D. Dinis, Martim Codax

d.            Principais características: idioma galego-português; união de poesia e música; platonismo amoroso; coita de amor; saudade; sensualidade feminina; influência provençal; moralidade influenciada pela ambientação; teocentrismo; versos redondilhos; paralelismo; uso de refrão

e.             Principais obras: Cancioneiros da Ajuda, da Biblioteca Nacional e da Vaticana (cantigas); A Demanda do Santo Graal, Amadis de Gaula (novelas ou romances de cavalaria)

f.             Leitura inesquecível: Ai flores, ai flores do verde pino (cantiga de amigo de D. Dinis)

 

2. HUMANISMO

a.            Período: 1434 – 1527

b.            Gêneros: poesia, historiografia e teatro

c.            Principais autores: Garcia de Resende, Fernão Lopes, Gil Vicente

d.            Principais características: desvinculação de poesia e música modernização dos recursos estilísticos, influência greco-latina e italiana (poesia); pesquisa da verdade histórica, estilo narrativo influenciado pela ficção, concepção regiocêntrica da história, atenção para a participação popular, análise humanística das personagens (historiografia); linguagem popular, intenção moralizadora, realismo, espontaneidade, sátira generalizada, concepção religiosa arraigadamente cristã (teatro)

e             Principais obras: Cancioneiro Geral (poesia), Crônica de D. João I (história), Trilogia das Barcas, A farsa de Inês Pereira (teatro)

f              Leitura inesquecível: O velho da horta (peça de Gil Vicente)

 

3. CLASSICISMO

a.            Período: 1527 – 1580

b.            Gêneros: poesia lírica e épica

c.             Principal autor: Luís de Camões

d.            Principais características: influências da Antigüidade greco-latina e dos humanistas italianos, neoplatonismo, o princípio clássico da imitação, antropocentrismo, racionalismo, universalismo, cientificismo, uso do soneto e do verso decassílabo (a medida nova)

e.             Principais obras: Lírica e Os Lusíadas (poesia épica)

f.             Leituras inesquecíveis: Alma minha gentil, que te partiste (soneto) e Babel e Sião (redondilha)

 

  1. BARROCO
    1. Período: 1580 – 1756
    2. Gêneros: poesia e prosa

c. Principais autores: Padre Antônio Vieira, D. Francisco Manuel de Melo, Sóror Mariana Alcoforado

  1. Principais características: influência da Contra-Reforma católica, fusão de influências medievais e renascentistas, dualismos e paradoxos, cultismo e conceptismo
  2. Principais obras: Sermões (Vieira), Cartas de amor (Sóror Mariana Alcoforado)
  3. Leitura inesquecível: terceira das Cartas de amor

 

5.ARCADISMO

  1. Período: 1756 – 1825
  2. Gênero: poesia
  3. Principais autores: Bocage, Filinto Elísio, Marquesa de Alorna
  4. Principais características: influência da Antigüidade clássica, do Renascimento e do Iluminismo, racionalismo, bucolismo, fingimento poético, pré-romantismo
  5. Principal obra: Sonetos (Bocage)
  6. Leituras inesquecíveis: Marília, nos teus olhos buliçosos e Olha, Marília, as flautas dos pastores (sonetos de Bocage)

 

6. ROMANTISMO

a. Período: 1825 – 1865

b. Gêneros: poesia, romance, teatro

c. Principais autores: Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco

d. Principais características: busca de novas formas, individualismo, sentimentalismo, a arte como expressão, nacionalismo, religiosidade, escapismo, melancolia, idealização da mulher e da natureza, volta ao passado pátrio

e. Principais obras: Folhas caídas (Garrett) (poesia); Viagens na minha terra (Garrett), Eurico, o presbítero (Herculano) e Amor de perdição (Camilo) (romance); Frei Luís de Sousa (Garrett) (teatro)

f. Leitura inesquecível: Frei Luís de Sousa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

C. PERÍODOS, AUTORES E OBRAS

 

  1. TROVADORISMO (1189-1434)

 

Nome genérico dado à primeira época da Literatura Portuguesa, que compreende desde o final do século XII ao início do século XV. A designação tem sua origem na atividade dos trovadores, a um só tempo poetas e músicos, que compunham as cantigas trovadorescas, divididas em líricas e satíricas.

Além da poesia, também foram cultivadas nesse tempo as novelas de cavalaria, os cronicões e os livros de linhagens.

A data de 1198 se refere à composição da famosa cantiga da Ribeirinha (ou da guarvaia) por Paai Soares Taveirós ou Martim Soares; o ano de 1418 marca o início do Humanismo, com a nomeação do historiador Fernão Lopes como Guarda-Mor da Torre do Tombo.

 

1.Cantigas trovadorescas

 

a. Cantiga da Ribeirinha (Martim Soares ou Paio Soares de Taveirós)

 

(Cantiga número 38 do Cancioneiro da Ajuda)

 

Tradicionalmente atribuída a Paai Soares de Taveirós, essa composição tem sido, modernamente incluída nas obras de outro trovador, Martim Soares, que privava de relações literárias com aquele.

Também conhecida como a “cantiga da garvaia”, em referência à peça de vestuário feminino nela citada, essa cantiga tem, ao longo dos séculos, desafiado classificação, por se encontrarem nela tanto características líricas, como a exaltação da figura feminina e dos sentimentos amorosos, a confissão sentimental e a vassalagem amorosa, quanto outras mais apropriadas para textos satíricos, como a indiscrição que leva o trovador a revelar sua intimidade com a dama e o desrespeito à tão importante (nas cantigas de amor) regra da mesura, já que são dadas, no texto, indicações claras da identidade da mulher em questão. Esse complexo de características contraditórias fez com que estudiosos como Celso Cunha e Massaud Moisés a classificassem como um “escárnio de amor”.

Cancioneiro da Ajuda

 

Composto em fins do século XIII, quando era Afonso III era rei de Portugal, é uma das três coletâneas da poesia medieval portuguesa. Seu nome advém do fato de encontrar-se na Biblioteca Real da Ajuda, em Lisboa. Sua primeira edição moderna data de meados do século XIX; só em 1904, entretanto, surgiu sua edição definitiva, a edição crítica preparada por Carolina Michaëlis de Vasconcelos. Contém 467 cantigas, todas de amor e provenientes da época anterior aos reis trovadores D. Afonso X, de Castela, e D. Dinis, de Portugal.
As outras duas coletâneas são o Cancioneiro da Vaticana e o Cancioneiro da Biblioteca Nacional ou Colocci-Brancuti.

 

Martim Soares

 

Viveu em meados do século XIII. Não tendo origem nobre, provinha, entretanto, de família de posses. Há indicações de que privou de relações literárias com trovadores da corte de D. Afonso X, o Sábio, de Castela, como Paai Soares de Taveirós, a quem, por muito tempo, foi atribuída a famosa “Cantiga da Ribeirinha”, que estudos recentes reconhecem como sua, o mesmo acontecendo com outras três cantigas.

Nos cancioneiros medievais, registram-se 23 cantigas de amor, 17 de escárnio e maldizer e uma tenção de sua autoria.

 

Paai Soares de Taveirós

 

As poucas informações que nos chegam a seu respeito dão-no como tendo vivido entre o final do século XII e o início do século XIII e pertencente a família de antiga nobreza.

Por muito tempo, foi considerado o autor da famosa “Cantiga da Ribeirinha”, que, atualmente, tem sido atribuída a Martim Soares.

Considerado um dos mais antigos trovadores portugueses, cultivou tanto o gênero lírico quanto o satírico.

 

No mundo non me sei parelha,[1]

Mentre[2] me for’como me vai

Ca já moiro por vos - e ai

Mia senhor branca e vermelha,

Queredes que vos retraia[3]

Quando vos eu vi en saia![4]

Mau dia me levantei,

que vos enton non vi fea!

 

E, mia senhor, des aquel di’ai!

Me foi a mi muin mal,

E vos, filha de Dom Paai

Moniz, e bem vus semelha[5]

D’aver eu por vos guarvaia[6],

Pois eu, mia senhor, d’alfaia[7]

Nunca de vos ouve nem ei[8]

Valia d’ua correa[9]...

 

Características principais:

  1. duas cobras ou coplas (estrofes) de oito versos; aparentemente, falta a terceira, que talvez esclarecesse o real sentido das palavras do trovador em relação à dama
  2. língua: galego-português
  3. ambigüidade de sentido: o homem ao mesmo tempo exalta e critica a mulher
  4. presença da coita amorosa, o sofrimento sentimental confessado pelo trovador
  5. idealização da mulher em termos físicos
  6. crítica da mulher em termos morais
  7. subjetivismo por parte do trovador

 

b. Cantiga de amor (D. Dinis)

 

D. Dinis (1261-1325)

 

Rei de Portugal entre 1279 e 1325, D. Dinis se destacou pelo desenvolvimento do comércio em Portugal e pelo prestígio que deu às atividades culturais e de educação, fundando a primeira universidade, em 1290, e tornando o português o idioma oficial do país. Além disso, era poeta renomado, autor de 138 cantigas (76 de amor, 52 de amigo e 10 de maldizer), sendo, por isso, conhecido como o Rei-Trovador.

 

Proençaes soem mui bem trobar[10],

e dizem eles que é com amor;

mais os que trobam no tempo da frol[11],

e non em outro, sei eu bem que non

ham[12] tam gram coita[13] no seu coraçom,

qual m’ eu por mia senhor vejo levar.

 

Pero que trobam e sabem loar[14]

sas senhores o mais e o melhor

que eles podem, sõo[15] sabedor,

que os que trobam quand’ a frol sazom

[16], e non ante, se Deus mi perdom,

non ham tal coita qual eu hei sem par.

 

Ca os que trobam e que s’alegrar

vem eno tempo que tem a color

a frol consig’[17] e tanto que se for

aquel tempo, log’ em trobar razom

nom ham, non vivem [em] qual perdiçom

hoj’eu vivo, que pois[18] m’há de matar.

 

Principais características:

  1. três estrofes sem refrão, o que a torna uma cantiga de maestria
  2. origem provençal, nobre
  3. ambiente fechado dos castelos
  4. amor cortês
  5. voz masculina
  6. sentimentalismo
  7. subjetivismo
  8. coita amorosa
  9. concepção platônica do amor
  10. idealização da mulher
  11. mulher comprometida, de classe superior
  12. amor adulterino
  13. vassalagem amorosa
  14. mesura[19]

 

c. Cantiga de amor (Bernal de Bonaval)

 

A dona que eu am’e tenho por senhor

Amostrade-me-a Deus, se vos en prazer for,

Se non dade-me-a morte.

 

A que tenh’eu por lume destes olhos meus

E por que choram sempre amostrade-me-a Deus,

                Se non dade-me-a morte.

 

Essa que Vós fizestes melhor parecer

De quantas sei, ai Deus, fazede-me-a veer,

                Se non dade-me-a morte.

 

Ai Deus, que me-a fizestes mais ca mim amar,

Mostrade-me-a u[20] possa com ela falar,

Se non dade-me-a morte.

 

d. Cantiga de amor (D. Dinis)

 

Hun tal home sei eu, ai bem talhada[21],

Que por vós tem a sa[22] morte chegada;

Vede quem é e seed’em nenbrada[23]:

                Eu, mia dona.

 

Hun tal home sei eu que preto[24] sente

De si morte chegada certamente;

Vede quem é e venha-vos em mente:

                Eu, mia dona.

 

Hun tal home sei eu, aquest´oide[25]:

Que por vós morr’e vo-lo en partide[26];

Vede quem é e no xe vos obride[27]:

                Eu, mia dona

 

e. Cantiga de amigo ( D. Dinis)

 

— Ai flores, ai flores do verde pino[28],

Se sabedes[29] novas do meu amigo[30]?

                Ai, Deus, e u é?

 

Ai flores, ai flores do verde ramo,

Se sabedes novas do meu amado?

                Ai, Deus, e u é?

 

Se sabedes novas do meu amigo,

Aquel que mentiu do que pôs[31] comigo?

                Ai, Deus, e u é?

 

Se sabedes novas do meu amado,

Aquel que mentiu do que mi á jurado[32]?

                Ai, Deus, e u é?

 

— Vós me preguntades polo voss’amigo?

E eu ben vos digo que é san’e vivo:

                Ai, Deus, e u é?

 

Vós me preguntades polo voss’amado?

E eu ben vos digo que é viv’e sano:

                Ai, Deus, e u é?

 

E eu ben vos digo que é san’e vivo

E seerá vosc’ant’o prazo saído[33]:

                Ai, Deus, e u é?

 

E eu ben vos digo que é viv’e sano

E seerá vosc’ant’o prazo passado:

                Ai, Deus, e u é?``

 

Principais características:

  1. oito estrofes com refrão, que é de rigor neste gênero
  2. paralelismo rigoroso
  3. leixa-pren[34]
  4. origem galego-portuguesa e popular
  5. voz feminina, autoria masculina
  6. ambientação na natureza
  7. moralidade mais aberta
  8. ausência do amigo
  9. saudade
  10. concretização do amor
  11. presença de confidente
  12. importância social da mulher, que está em ação

 

f. Cantiga de amigo (Nuno Fernandez Torneol)

 

Levad’amigo[35], que dormides as manhãs frias,

Toda’las aves do mundo d’amor dizian:

                Leda mh-and’eu[36].

 

Levad’amigo, que dormide’ las frias manhãs,

Toda’las aves do mundo d’amor cantavan:

                Leda mh-and’eu.

 

Toda’las aves do mundo d’amor dizian:

Do meu amor e do voss’en ment’avian[37]:

Leda mh-and’eu.

 

Toda’las aves do mundo d’amor cantavan,

Do meu amor e do voss’y enmentavan:

                Leda mh-and’eu.

 

Do meu amor e do voss’en ment’avian;

Vós lhi tolhestes os ramos en que sijam[38]:

Leda mh-and’eu.

 

Do meu amor e do voss’y enmentavan;

Vós lhi tolhestes os ramos en que pousavan:

                Leda mh-and’eu.

 

Vós lhi tolhestes os ramos en que sijam

E lhis secastes as fontes em que bevian[39]:

                Leda mh-and’eu.

 

Vós lhi tolhestes os ramos en que pousavan

E lhis secastes as fontes hu se banhavan:

                Leda mh-and’eu.

               

g. Cantiga de amigo (Fernando Esguio)

 

Vaiamos, irmã, vaiamos dormir

nas ribas[40] do lago, u eu andar vi

                a las aves meu amigo.

 

Vaiamos, irmã, vaiamos folgar[41]

nas ribas do lago, eu vi andar

                a las aves meu amigo.

 

Nas ribas do lago, u eu andar vi

seu arco na mão as aves ferir

                a las aves meu amigo.

 

Nas ribas do lago, u eu vi andar

seu arco na mão, a las aves tirar[42]

                a las aves meu amigo.

 

Seu arco na mão as aves ferir

a las que cantavan leixa-las guarir[43]

                a las aves meu amigo.

 

Seu arco na mão a las aves tirar

a las que cantavan non nas quer matar

                a las aves meu amigo.

 

h. Cantiga de escárnio (Pero Garcia Burgalês)

 

Rui Queimado morreu con amor,

Em seus cantares, par Sancta Maria,

Por ua dona que gran ben queria,

E, por se meter[44] por mais trobador,

Porque lh’ela non quis [o] ben fazer,

Fez-s’el en seus cantares morrer,

Mas ressurgiu depois ao tercer dia!

 

Esto fez el por ua sa senhor

Que quer gran ben, e mais vos en diria:

Porque cuida que faz i maestria[45],

E nos cantares que fez a sabor

De morrer i e desi d’ar viver[46];

Esto faz el que x’o pode fazer[47],

Mas outr’omen per ren non [n] o faria.[48]

 

E non há[49] já de sa morte pavor,

Senon sa morte mais la temeria,

Mas sabe ben, per sa sabedoria,

Que viverá, dês quando morto for[50],

E faz-[s’]en seu cantar morte prender[51],

Desi ar viver[52]: vede que poder

Que lhi Deus deu, mais que non cuidaria[53].

 

E, se mi Deus a min desse poder,

Qual oi’el há, pois morrer, de viver[54],

Jamais morte nunca temeria.

 

Principais características:

 

  1. às três estrofes tradicionais, acrescenta-se uma quarta, com número diferente de versos, mas vinculada às outras pelo esquema de rimas, que traz a moral da história: é a fiinda.
  2. intenção satírica
  3. uso da ironia
  4. crítica indireta: seu alvo não é a pessoa
  5. linguagem ainda respeitosa

 

i. Cantiga de maldizer (João Garcia de Guilhade)

 

Ai dona fea! Fostes-vos queixar
Porque vos nunca louv' en meu trobar
Mais ora quero fazer un cantar
En que vos loarei tôda via[55];
E vêdes como vos quero loar:
Dona fea, velha e sandia!

Ai, dona fea! Se Deus me perdon!
E pois havedes tan gran coraçon[56]
Que vos eu loe en esta razon[57],
Vos quero já loar tôda via;
E vêdes qual será a loaçon[58]:
Dona fea, velha e sandia!

Dona fea, nunca vos eu loei
En meu trobar, pero[59] muito trobei;
Mais ora[60] já un bem cantar farei
En que vôs loarei tôda via;
E direi-vos como vos loarei:
Dona fea, velha e sandia!

 

Principais características:

  1. três estrofes com refrão
  2. intenção satírica
  3. uso da zombaria
  4. crítica direta: seu alvo é a pessoa
  5. linguagem direta, agressiva, cortante,
  6. as características populares da estrutura, como o refrão e o paralelismo, conferem uma maior liberdade de pensamento e de língua

 

2. A prosa medieval

 

São exemplos da prosa medieval os livros de linhagens (listas de nomes das famílias nobres), as hagiografias (biografias romanceadas dos santos), os cronicões (de cunho histórico, quase sempre eram redigidos em latim) e as novelas de cavalaria.

As novelas de cavalaria, originárias da França e da Inglaterra, eram produto da prosificação das canções de gesta (de assunto épico). Conheceram três ciclos: o clássico, de temas greco-latinos, o carolíngio, cujos heróis eram o imperador Carlos Magno e os Doze Pares de França, e o bretão ou arturiano, a respeito do Rei Artur e os Cavaleiros da Távola Redonda. Em Portugal, somente se desenvolveu o ciclo arturiano, com as traduções do francês, do que resultou A Demanda do Santo Graal (século XIII). Nela, se narram as aventuras dos cavaleiros arturianos, suscitadas pela visão, no dia de Pentecostes, do Graal, cálice em que José de Arimatéia teria recolhido o sangue derramado por Jesus Cristo na cruz.

 

a. “A tentação de Galaaz” (um episódio de A Demanda do Santo Graal)

 

Aquel castelo havia nome “Brut” e era bem assentadado, se houvesse abastamento[61] de água. E o senhor daquel castelo era rei e havia nome Brutos, por amor daquel rei Brutos que o poborara primeiro. E sabede que o senhorio daquele castelo se estendia a todas partes ua jornada. Aquel Brutos, que então reinava, era um dos bons cavaleiros do mundo e mui rico à maravilha, e havia muito conquerido per sua cavalaria, e havia ua filha de XV anos, que era a mais fremosa donzela do reino de Logres. E aquela sezom[62] que os cavaleiros vieron, estava el-rei acostado a ua fresta em seu paço. E quando os viu assi armados vir e sem companha, conhoceu que eram cavaleiros andantes, e foi mui alegre com eles, ca muito amara sempre cavalaria e aqueles que se trabalhavam dela. Entam lhes enviou dizer per dous cavaleiros que viessem com ele pousar, ca non queria que posassem com outrem. Quando Galaaz e Boors ouvirom seu mandado[63], teverom que era grã cortesia e guardecerom-lho[64] muito e forom-se com os cavaleiros. E depois que foram dentro e foram desarmados, el-rei feze-os assentar a par de si e fez-lhes muita honra e começou-lhes a preguntar das suas fazendas[65]. E eles lhe disserom ende alguas cousas. E a filha del-rei Brutos, que era mui fremosa cousa, catou mui grã peça[66] Galaaz e semelhou-lhe tam fremoso e tam bem talhado, que o amou de coraçom, que nunca amou cousa no mundo tanto, que non partia del os olhos. E quanto o mais catava, mais se pagava del[67] e o mais amava.

                Assi amou a donzela Galaaz, pero nunca o vira nem soubera que cousa era amor, e catava Galaaz e prezavo-o em seu conraçom mais que todalas cousas e que nunca molher homem prezou; e por esso lhe semelhava que se o nom houvesse a sua vontade, que morreria. E por esto cuidava ela acabar mui ligeiramente seu desejo, ca o cavaleiro era mui mancebo e mui fremoso. E ela cuidava que de grado se outorgaria em tal cousa, porque ela era das fremosas molheres do reino de Logres[68]. E esto a confortava, que era ele cavaleiro mancebo. E por aquesto cuidava acabar mais toste[69] seu desejo. Mas era em seu coraçom tam triste, porque havia pavor que, se fezesse algua infinta[70] que o queria amar, que esto lhe seria a mal teúdo, se lho soubesse; e se algua cousa nom fezesse como houvesse aquelo que desejava, que o nom poderia sofrer. Esto cuidou a donzela enquanto seu padre siia[71] falando com os cavaleiros. E depois que cuidou tanto, que nom pôde mais, foi-se pera a câmara[72] e leixou-se cair em seu leito e começou a faer tam grã dó como se tevesse seu padre morto ante si. Pero nom dava vozes, mas chorava tam de coraçom, que maravilha era. E ela assi fazendo seu dó, entrou sua ama, que era dona de grã guisa[73], que a criara de pequena e a amava tanto como se fosse sua filha. E quando ela viu a donzela tam de coraçom chorar, maravilhou-se que era e disse:

                — Ai, Senhora! Que havedes? Fez-vos alguém algum pesar? Dizede, minha senhora, porque chorades, e eu vos porei i[74] conselho[75], ca jamais nom serei leda, em-mentre[76] vós fordes triste.

                E a donzela nom lhe quis dizer porque chorava. E ela começou-a a confortar, e disse-lhe:

                — Em todalas guisas[77], dizede-me que havedes e donde vos vem este pesar.

                E a donzela calou-se e leixou já quanto seu dó. E disse-lhe a ama:

                — Se me nom dizedes o que havedes, eu o direi a vosso padre. Pero será milhor que mo digades, ca se cousa é de cobrir, nom hajades medo que vos eu descubra nunca.

                Quando a donzela viu que sua ama o queria dizer a seu padre, foi muito espantada, ca[78] havia mui grã medo, ca era mui bravo e de forte coraçom.

                — Ai, dona! Por Deus, disse ela, nom vade; ante vos direi o que me preguntastes, mas per tal preito[79] que me nom descobrades.

                — Nom hajades medo, disse ela, ca pois é cousa de encobrir, eu vo-la encobrirei mui bem.

                Entom disse a donzela:

                — Eu amo tanto um destes cavaleiros andantes, que aqui som, que, se o nom houver à minha vontade, que nom chegarei a cras[80], ante me matarei com minhas mãos.

                Quando a dona esto ouvira, houve tam grã pesar, que nom soube que fezesse, ca bem sabia que se a donzela o cavaleiro houvesse à sua vontade, que nom podia ser que o el-rei nom soubesse, que tarde ou cedo; e quando soubesse que o cavaleiro com ela era, ele era tam bravo que mataria a donzela e quanto a i ajudassem.

                Entom lhe disse a dona:

                — Ai, cousa sandia e misquinha e cativa, que é esto que me dizes, ou hás o sem[81] perdido, ou é encantada, que és donzela de grã guisa e és tam fremosa, e metes teu coraçom em um tam pobre cavaleiro estranho, que nom conheces? E se esta noite  aqui for, nom será aqui de manhã nem ficará aqui por lhe dar teu padre toda sua terra. Guarda o que dizes e o que pensas e o que te poderá vir. Ai! cousa sandia, e como ousaste esto pensar? Certas[82], se o teu padre souber, todo o mundo nom te poderá valer, que te nom talhe a cabeça.

                Quando a donzela esto ouviu, foi tam espantada, que bem quisera ser morta, ca do cavaleiro nom podia tolher o coraçom em nenhua guisa, ante se trabalharia de haver em toda guisa o que pensava. Er desconfortava-a muito a braveza de seu padre. A donzela, que em estas cousas pensava, chorava todavia[83]. E quando falou, disse:

                — Ai, astrosa[84], cativa e a mais maldita cousa do mundo, maldita seja a hora em que eu naci.

                — Ora me dizede, disse a ama, semelha-vos bom conselho o que vos dei, de tolherdes vosso coraçom daquel cavaleiro?

  • Si, disse ela, a quem podesse fazer de seu coraçom o que quere.
  • Convém, disse ela, que o façades, se escarnida nom queredes ser.
  • Dona, disse ela, eu o farei, pois que vejo que al nom se guisa de ora ser.

Assi disse a donzela por se encobrir, mas al[85] tinho no coraçom e al mostrou aquel serão. Pois[86] que se ambos os cavaleiros deitarom em ua câmara, a donzela, que bem cuidava que já dormiam e que sabia o leito de Galaaz, saio de seu leito em camisa, empero mui vergonhosa e com grã pesar de que havia de fazer contra sua vontade o que lhe amor mandava, ca por sua má aventura tinha a donzela de rogar o cavaleiro. E pois ela veio à câmara u eles jaziam, entrou dentro e foi tam espantada que nom soube que fazer. E pero tornou em seu primeiro pensar que lhe o amor conselhava, e esforçou-se tanto contra sua vontade, que foi a Galaaz e ergueo o cobertor e deitou-se a cabo[87] dele. E Galaaz, que dormia mui feramente pelo trabalho que houvera, nom se espertou.

Quando a donzela viu que dormia, nom soube que fezesse, ca, se o espertasse, teria-a por sandia e que assi soía[88] fazer aos outros que i[89] vinham; e haveria ende[90] maior espanto e maior sanha[91], quando visse que se assi desnudava sem rogo. Entam disse antre si, a voz baixa:

— Cativa, escarnida[92] som e arrafeçada[93], e jamais nunca haverei honra de rem que faça, quando por meu pecado e por meu feito e sem rogo me vim deitar com este cavaleiro estranho, que nom sabe rem da minha vida! Depois disse:

— Ai, cousa sandia e nécia, que é esto que tu dizes? Tu nom poderia fazer cousa or este cavaleiro, que te seja vergonha nen desonra.

E ela cuidava que, pois ela se deitar a par dele, que el comprisse seu coraçom[94], e em nenhua guisa nom cuidava, pois que ela era tam fremosa e de tam grã guisa que ele tam vilão fosse que nom comprisse sua vontade. Entam se chegou a ele mais que ante e pôs mão em ele mui passo[95] pelo apertar; mas, quando sentiu a estamenha[96] que o cavaleiro vestia, ca sem estamenha nunca ele era noite nem dia, ela foi tam espantada que disse logo:

— Ai, cativa, que é esto que vejo! Nem é ele cavaleiro dos cavaleiros andantes que dizem que som namorados, mas é daqueles que a sua vida e a sua lidice[97] é sempre em penitência, pela qual lhes vem grã bem para o outro mundo e perdoa Deus àqueles que erro houverem feito contra ele. E por nenhua rem[98], disse ela, nom posso eu acabar com ele o que queria. E como quer que este cavaleiro seja ledo para parecer, grande é o marteiro[99] da sua carne, mas mostra bem que o seu coraçom pensa em al, e nom em aquelo que a minha carne misquinha e cativa deseja. Este é dos verdadeiros cavaleiros da demanda do Santo Graal, e em mal ponto foi tam fremoso por mim.

Entam começou a chorar e fazer seu dó o mais baixo que ela pôde, que a nom ouvissem.

Acabo de ua peça, espertou-se Galaaz e tornou-se contra[100] a donzela, e maravilhou-se e abriu os olhos. E quando viu que era donzela, espantou-se e foi sanhudo muito e fez-se afora dela e sinou-se e disse:

— Ai, donzela! Quem vos enviou acá? Certas, mau conselho vos deu; e eu cuidava que de outra natura érades vós; e rogo-vos, por cortesia e por honra de vós, que vos vades daqui, ca, certas, o vosso fol[101] pensar nom catarei[102] eu, se Deus quiser, ca mais devo dultar[103] perigo da minha alma, ca[104] fazer vossa vontade.

Quando a donzela esto ouviu, houve tam grã pesar, que nom soube que fezesse, ca a resposta de Galaaz, que ela amava sobejo, lhe fez perder o sem e lhe fez perder todo o coraçom. E el lhe disse:

— Ai, donzela! Mal conselhada sodes; metede mentes em vossa fazenda, e catade a alteza do vosso linhagem e de vosso padre, e fazede que nom prendam desonra per vós.

Quando a donzela esto ouviu, respondeu como mulher fora de sem:

— Senhor, nom há i mester al[105], pois que me tam pouco preçades, que em nenhua guisa nom queredes senam matar-me. E a morte é migo[106] cedo, ca me matarei com minhas mãos e haveredes ende maior pecado, ca se me tevéssedes i convosco, ca vós sodes razom da minha morte, e vós ma podedes tolher, se vós quiserdes.

E Galaaz nom soube que dissesse, e disse à donzela que se se matasse como dizia e per tal razom, bem entendesse que nom daria el rem por sua morte; e de outra guisa lhe disse ca se fosse a mais fremosa que Nosso Senhor fezesse, el nom cataria[107] mais por ela. E disse-lhe ca mais lhe valeria de estar em virgindade, ca se lhe os outros fezessem tanto como ele, bem poderia ser que morreria virgem. E a donzela, que era toda como tolheita, quando viu que nom poderia de Galaaz haver seu prazer, disse:

  • Como? cavaleiro, todavia queredes ser tam vilão[108], que me nom queredes al fazer?
  • Nom, disse ele, bem vos digo e bem sede em segura.
  • Por boa fé, disse ela, esto será folia[109], ca morredes porém ante que daqui saiades.

— Nom sei, disse el, o que será, mas se esso fosse, ante eu queria morrer fazendo lealdade, ca escapar e fazer torto[110], o que nom queria.

Depois que esto ouviu, nom atendeu[111] mais, ante saiu e foi correndo à espada de Galaaz, que pendia à entrada da porta da câmara, e sacou-a da bainha e filhou-a a âmbalas mãos e disse a Galaaz:

— Senhor cavaleiro, vêdes aqui o engano que havia nos meus primeiros amores. E mal dia fostes tam fremoso, que tam caramente me converá comprar vossa beldade.

Quando Galaaz viu que ela já tinha a espada na mão e que se queria ferir com ela, saiu todo espantado e deu-lhe vozes:

— Ai, boa donzela! Sofre-te[112] um pouco e nom te mates assi, ca eu farei todo teu prazer.

E ela, que era tam coitada que nom poderia mais, respondeu per sanha:

  • Senhor cavaleiro, tarde mo dissestes.

Entam ergueu a espada e feriu-se de toda sua força per meio do peito, de guisa que a espada passou-a e pareceu da outra parte, e a donzela caeu em terra morta, que nom falou mais cousa. 

 

(fonte: A. Magne, A demanda do Santo Graal, I (1944), pp. 154-160)

 

Principais características:

 

a. estrutura: em torno do herói central (o rei Artur), se articulam os diversos episódios que narram as aventuras de seus companheiros (neste caso, Galaaz)

b. autoria coletiva, ao longo do tempo

c. aos feitos de armas, são entremeados episódios amorosos

d. influenciada pelos ideais da época: espírito de aventura, cavaleirismo e amor cortês

e. presença do maravilhoso (sobrenatural)

f. construção do perfil do herói medieval (que influenciará a composição do herói romântico)

g. exemplo da segunda fase de redação da Demanda (as três fases são: 1ª, a primitiva de Cristiano de Troyes, com heróis bem humanos, que não recusam os prazeres sensuais; 2ª, religiosa, pela influência monacal em sua redação, suprime o escândalo da aventura amorosa pela religiosidade da ascese, processo de purificação espiritual que Galaaz simboliza; 3ª, cavaleiresca, com predomínio dos feitos de armas, talvez por influência do ciclo carolíngio)

h. registro do estágio de desenvolvimento da língua: galego-português

i. registro da organização social e econômica, marcada pelo feudalismo

j. registro do prestígio da cavalaria

l. construção do ideal de mulher: nobre, rica, jovem, donzela, sentimental

m. presença do sentimentalismo típico das novelas do ciclo arturiano em sua tradução e adaptação portuguesa

n. riqueza do diálogo

o. exploração do recurso do suspense

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

II. HUMANISMO (1418-1527)

 

                Em meados do século XV, com o progressivo aparecimento da nova classe social chamada burguesia, a rígida estrutura social dos países europeus foi sendo desmantelada, ocasionando o fim da Idade Média e a transição para o Renascimento. A esse período de transição damos o nome de Humanismo, para representar a ascensão dos valores predominantemente antropocentristas, em oposição ao teocentrismo medieval.

                Em Portugal, as datas que delimitam a época do Humanismo são:

  1. 1418, quando Fernão Lopes foi nomeado Guarda-Mor da Torre do Tombo, passando, em 1434, a escrever as crônicas dos reis. Essa nomeação reflete uma mudança de mentalidade em Portugal, visto que Fernão Lopes é o primeiro historiador com uma visão científica do fato histórico;
  2. 1527, quando o poeta Sá de Miranda voltou de uma viagem de seis anos à Itália, trazendo novas idéias a respeito da arte, principalmente o gosto pela cultura clássica greco-romana. A difusão dessas idéias marca o início do Renascimento português, cujas raízes se assentam no Humanismo.

 

Originalmente, em fins da Idade Média, o termo era utilizado para designar uma visão educacional e filosófica que enfatizava o valor pessoal do indivíduo e a importância central dos valores humanos, em oposição à fé religiosa. Essa visão era influenciada pelo estudo das literatura e filosofia clássicas greco-latinas. No início, portanto, o humanismo se apresentou como um programa educacional chamado “Humanidades”, baseado nos valores seculares que eram consistentes com o cristianismo. Ao lado disso, havia o amor estético pela cultura pagã.

No final do século XIV, a expressão “studia humanitatis” (estudos das humanidades) definia um ciclo de educação que incluía o estudo da gramática, retórica, história, poesia e filosofia moral, baseando-se em autores latinos e textos clássicos. A partir do século XV, promoveu-se também o estudos dos autores gregos clássicos, com Platão, as epopéias homéricas e as antigas tragédias.

O Humanismo é também a época da criação da arqueologia clássica, com o estudo de ruínas e inscrições romanas e a descoberta de importantes textos clássicos.

 

Em termos sociais, políticos, econômicos e culturais  mais amplos, o Humanismo é um período em que se iniciam grandes transformações na Europa ocidental.

A economia de subsistência é substituída pela atividade comercial. A terra deixa de ser a única fonte de riqueza e poder. Começa a ascensão da burguesia, com o enfraquecimento da nobreza terratenente. É retomado o estudo mais amplo da cultura clássica, restrito aos mosteiros na Idade Média. Uma das conseqüências disso é a emergência do pensamento antropocêntrico, que se oporá ao teocentrismo medieval.

São fatos relevantes dessa época a crise do sistema feudal e o fortalecimento da monarquia; a escassez de mão de obra; a Peste Negra, que, em 1348, por exemplo, mata um terço dos portugueses; a Guerra dos Cem Anos, entre Inglaterra e França; a crise na Igreja, que chega a ter dois papas simultaneamente, um em Avinhão, França, outro em Roma.

Em Portugal, a monarquia, como fim da dinastia de Borgonha e a ascensão da de Avis, com D. João I, escolhido por aclamação depois de uma sublevação marcada pela inédita participação burguesa e popular, se alia à burguesia mercantilista, o que dará início à expansão marítima.

 

1. Gil Vicente (1457?-1537?)

 

São conhecidos poucos detalhes da vida do pai do teatro português. Mesmo suas datas de nascimento e morte ainda não foram estabelecidas com precisão, especulando-se que girariam em torno dos anos de 1457 e 1537; também sua cidade natal é desconhecida, listando-se Lisboa e Guimarães como possíveis. A existência de referências a um ourives, mestre da Balança da Casa da Moeda, nos tempos de D. Manuel I, chamado Gil Vicente como o teatrólogo, também foi causa de muito debate; modernamente, julga-se que o mesmo homem desenvolvia as duas atividades.

Gil Vicente foi escritor, ator, produtor e diretor em uma longa carreira de homem de teatro. Escreveu cerca de 46 peças em 34 anos de carreira, de todos os gêneros: satíricas, místicas, comédias, farsas, medievais, renascentistas. Nelas, retrata e crítica a cultura de seu tempo, convertendo-se numa espécie de espelho das transformações de valores que marcaram a época do humanismo.

Em suas obras, punha em prática um princípio da Arte poética, de Horácio: delectando pariterque monendo (deleitar e ao mesmo tempo instruir); também se atribui a seu teatro o lema castigat ridendo mores (fazendo rir, corrija os costumes). Ambos os princípios, aplicados ao teatro vicentino, destacam o caráter crítico dessa obra, que busca intervir na moralidade de sua audiência, pondo em relevo os defeitos morais, religiosos, econômicos e sociais da época por meio dos tipos que apresenta.

A sátira crítica a tudo e a todos está no cerne do teatro de Gil Vicente; entretanto, ele não atacava as instituições, mas os homens que as degradavam com suas más condutas.

Gil Vicente olha não só a sociedade em seu todo, mas também o homem: dos mais simples problemas domésticos às mais dramáticas situações morais, das alcoviteiras ao impacto econômico e cultural das grandes navegações.

É marcante também a presença de um forte lirismo, por meio de reflexões, momentos de prece ou de conquista amorosa, canções e descrições da natureza; isso pode acontecer mesmo em peças cômicas, como, por exemplo, O velho da horta.

As fontes mais distantes do teatro de Gil Vicente são as églogas ou éclogas, poemas de tema pastoril ou campestre em voga desde a antigüidade.

O teatro vicentino não pode ser classificado segundo fórmulas rígidas, já que o autor “cria segundo as solicitações de seu gênio, das circunstâncias ambientais e da matéria a ser representada” (SPINA). Gil Vicente escrevia à vontade, distanciado dos padrões arquitetônicos das peças clássicas; exemplo disso é seu desrespeito à regra das três unidades.

Em termos estruturais, podem ser detectados alguns problemas de seu teatro, como a pobreza dramática, a penúria da montagem cênica, a estrutura interna arbitrária, a execução rudimentar, sem refinamentos, o desrespeito pela geografia e a história.

Suas forças são a descrição dos tipos, a sucessão de quadros episódicos, o grande poder de observação tanto da psicologia individual quanto da coletiva, a imaginação exuberante, o domínio do diálogo rápido, vibrante, ferino.

Características igualmente importantes são o ceticismo da visão de mundo; a ironia zombeteira; o patriotismo; a concepção humanista, marcada por uma alegria sem pieguice ou fanatismo, valorizando uma vida honesta, burguesa e simples; a alusão a personalidades presentes à representação, em busca de efeitos cômicos; o bucolismo.

 

A.Notas sobre o teatro de Gil Vicente

 

  1. Nascimento e naturalidade obscuras (1457?-1537?)
  2. Profissão: dramaturgo, bobo (produtor cultural) da corte; trovador?; ourives?
  3. O que se sabe: escreveu autos de 1502 a 1536; dirigiu e interpretou (auxiliado pela filha Paula); acompanhou a corte de D. Manuel I por suas várias sedes, providenciando o divertimento teatral
  4. Critérios de divisão da obra:
  1. Lingüístico, segundo a língua de redação:
  1. Português: Autos da Alma, da Barca do Inferno, da Barca do Purgatório, do Velho da Horta
  2. Castelhano: Autos da Visitação, Pastoril Castelhano, da Barca da Glória, dos Reis Magos, Farsa das Ciganas
  3. Bilíngües: Autos da Fé, da Índia, da Lusitânia, Farsa de Inês Pereira, Floresta de enganos, Juiz da Beira

 

  1. Por períodos ou fases:
  1. 1502-1508: temas pastoris e religiosos. Sugestões de lirismo e pessimismo. Ação dramática rudimentar, hesitante em termos de organização textual e carpintaria teatral. Auto da Visitação, Auto  Pastoril Castelhano, Auto dos Reis Magos
  2. 1508-1516: temas patrióticos e de crítica social. Temas religiosos só esporadicamente (Auto da Fé). Desenvolvimento do dramatismo; perfeição e naturalidade do diálogo. Criação de efeitos cômicos principalmente pelo uso da fala popular e da língua latina. Quem tem farelos, Auto da Índia, Auto da Alma, O Velho da Horta, Auto da Fama
  3. 1516-1536: Sátira contundente dirigida a todas as camadas sociais. Desenvolvimento mais lógico e natural da ação. Diálogos mais fluídos, engraçados e mordazes. Referências cômicas a personalidades presentes na platéia. Retomada de temas religiosos. Uso da mitologia. Autos da Barca do Inferno, da Glória e do Purgatório, Farsa de Inês Pereira, Clérigo da Beira
  1. Características do teatro vicentino:
  1. pobreza de ação dramática, pelo uso de tipos e sobreposição de temas
  2. execução rude do plano inicial, sem muito refinamento cômico ou dramático
  3. desrespeito pela geografia e história, com anacronismos
  4. grande riqueza na criação de diálogos vivos, nítidos, engraçados
  5. realismo lingüístico, com diálogos adequados ao perfil social dos tipos
  6. intenção de divertir moralizando, segundo o princípio latino do Castigat ridendo mores (Fazendo rir, corrija os costumes)
  7. aguda e profunda observação da realidade social, marcada por um ceticismo diante dos comportamentos humanos
  8. ironia zombeteira
  9. amor à paisagem, usos e costumes da terra natal
  10. patriotismo
  11. concepção humanista da vida: alegre sem pieguices ou fanatismo, honesta, burguesa e simples
  12. por outro lado, a base de seu exame da sociedade é sempre católica, teocêntrica
  13. grande poder de observação da psicologia individual e coletiva
  14. imaginação exuberante
  15. uso de frases latinas para efeitos cômicos
  16. presença forte do lirismo, mesmo nas peças cômicas
  17. bucolismo

 

B.  Peças

a. O velho da horta (1512)

Esta seguinte farsa é o seu argumento que um homem honrado e muito rico, já velho, tinha uma horta: e andando uma manhã por ela espairecendo, sendo o seu hortelão fora, veio uma moça de muito bom parecer buscar hortaliça, e o velho em tanta maneira se enamorou dela que, por via de uma alcoviteira, gastou toda a sua fazenda. A alcoviteira foi açoitada, e a moça casou honradamente. Entra logo o velho rezando pela horta. Foi representada ao mui sereníssimo rei D. Manuel, o primeiro desse nome. Era do Senhor de M.D.XII.

VELHO: Pater noster criador, Qui es in coelis, poderoso, Santificetur, Senhor,nomen tuum vencedor, nos céu e terra piedoso. Adveniat a tua graça, regnum tuum sem mais guerra; voluntas tua se faça sicut in coelo et in terra. Panem nostrum, que comemos, cotidianum teu é; escusá-lo não podemos; inda que o não mereceremos tu da nobis. Senhor, debita nossos errores, sicut et nos, por teu amor, dimittius qualquer error, aos nosso devedores. Et ne nos, Deus, te pedimos, inducas, por nenhum modo, in tentationem caímos porque fracos nos sentimos formados de triste lodo. Sed libera nossa fraqueza, nos a malo nesta vida; Amen, por tua grandeza, e nos livre tua alteza da tristeza sem medida.

Entra a MOÇA na horta e diz o VELHO:

Senhora, benza-vos Deus,

MOÇA: Deus vos mantenha, senhor.

VELHO: Onde se criou tal flor? Eu diria que nos céus.

MOÇA: Mas no chão.

VELHO: Pois damas se acharão que não são vosso sapato!

MOÇA: Ai! Como isso é tão vão, e como as lisonjas são de barato!

VELHO: Que buscais vós cá, donzela, senhora, meu coração?

MOÇA: Vinha ao vosso hortelão, por cheiros para a panela.

VELHO: E a isso vinde vós, meu paraíso. Minha senhora, e não a aí?

MOÇA: Vistes vós! Segundo isso, nenhum velho não tem siso natural.

VELHO: Ó meus olhinhos garridos, minha rosa, meu arminho!

MOÇA: Onde é vosso ratinho? Não tem os cheiros colhidos?

VELHO: Tão depressa vinde vós, minha condessa, meu amor, meu coração!

MOÇA: Jesus! Jesus! Que coisa é essa? E que prática tão avessa da razão! Falai, falai doutra maneira! Mandai-me dar a hortaliça.

VELHO: Grão fogo de amor me atiça, ó minha alma verdadeira!

MOÇA: E essa tosse? Amores de sobreposse serão os da vossa idade; o tempo vos tirou a posse.

VELHO: Mais amo que se moço fosse com a metade.

MOÇA: E qual será a desastrada que atende vosso amor?

VELHO: Oh minha alma e minha dor, quem vos tivesse furtada!

MOÇA: Que prazer! Quem vos isso ouvir dizer cuidará que estais vivo, ou que estai para viver!

VELHO: Vivo não no quero ser, mas cativo!

MOÇA: Vossa alma não é lembrada que vos despede esta vida?

VELHO: Vós sois minha despedida, minha morte antecipada.

MOÇA Que galante! Que rosa! Que diamante! Que preciosa perla fina!

VELHO: Oh fortuna triunfante! Quem meteu um velho amante com menina! O maior risco da vida e mais perigoso é amar, que morrer é acabar e amor não tem saída, e pois penado, ainda que amado, vive qualquer amador; que fará o desamado, e sendo desesperado de favor?

MOÇA: Ora, dá-lhe lá favores! Velhice, como te enganas!

VELHO: Essas palavras ufanas acendem mais os amores.

MOÇA: Bom homem, estais às escuras! Não vos vedes como estais?

VELHO: Vós me cegais com tristuras, mas vejo as desaventuras que me dais.

MOÇA: Não vedes que sois já morto e andais contra a natura?

VELHO: Oh flor da mor formosura! Quem vos trouxe a este meu horto? Ai de mim! Porque, logo que vos vi, cegou minha alma, e a vida está tão fora de si que, partindo-vos daqui, é partida.

MOÇA: Já perto sois de morrer. Donde nasce esta sandice que, quanto mais na velhice, amais os velhos viver? E mais querida, quando estais mais de partida, é a vida que deixais?

VELHO: Tanto sois mais homicida, que, quando amo mais a vida, ma tirais. Porque meu tempo d’agora vai vinte anos dos passados; pois os moços namorados a mocidade os escora. Mas um velho, em idade de conselho, de menina namorado... Oh minha alma e meu espelho!

MOÇA: Oh miolo de coelho mal assado!

VELHO: Quanto for mais avisado quem de amor vive penando, terá menos siso amando, porque é mais namorado. Em conclusão: que amor não quer razão, nem contrato, nem cautela, nem preito, nem condição, mas penar de coração sem querela.

MOÇA: Onde há desses namorados? A terra está livre deles! Olho mau se meteu neles! Namorados de cruzados, isso si!...

VELHO: Senhora, eis-me eu aqui, que não sei senão amar. Oh meu rosto de alfeni! Que em hora má eu vos vi.

MOÇA: Que velho tão sem sossego!

VELHO: Que garridice me viste?

MOÇA: Mas dizei, que me sentiste, remelado, meio cego?

VELHO: Mas de todo, por mui namorado modo, me tendes, minha senhora, já cego de todo em todo.

MOÇA: Bem está, quando tal lodo se namora.

VELHO: Quanto mais estais avessa, mais certo vos quero bem.

MOÇA: O vosso hortelão não vem? Quero-me ir, que estou com pressa.

VELHO: Que fermosa! Toda a minha horta é vossa.

MOÇA: Não quero tanta franqueza.

VELHO: Não pra me serdes piedosa, porque, quanto mais graciosa, sois crueza. Cortai tudo, é permitido, senhora, se sois servida. Seja a horta destruída, pois seu dono é destruído.

MOÇA: Mana minha! Julgais que sou a daninha? Porque não posso esperar, colherei alguma coisinha, somente por ir asinha e não tardar.

VELHO: Colhei, rosa, dessas rosas! Minhas flores, colhei flores! Quisera que esses amores foram perlas preciosas e de rubis o caminho por onde is, e a horta de ouro tal, com lavores mui sutis, pois que Deus fazer-vos quis angelical. Ditoso é o jardim que está em vosso poder. Podeis, senhora, fazer dele o que fazeis de mim.

MOÇA: Que folgura! Que pomar e que verdura! Que fonte tão esmerada!

VELHO: N’água olhai vossa figura: vereis minha sepultura ser chegada.

Canta a MOÇA:

"Cual es la niña que coge las flores sino tiene amores?
Cogia la niña la rosa florida:
El hortelanico prendas le pedia sino tienes amores."

Assim cantando, colheu a MOÇA da horta o que vinha buscar e, acabado, diz:

Eis aqui o que colhi; vede o que vos hei de dar.

VELHO: Que me haveis vós de pagar, pois que me levais a mi? Oh coitado! Que amor me tem entregado e em vosso poder me fino, como pássaro em mão dado de um menino!

MOÇA: Senhor, com vossa mercê.

VELHO: Por eu não ficar sem a vossa, queria de vós uma rosa.

MOÇA: Uma rosa? Para quê?

VELHO: Porque são colhidas de vossa mão, deixar-me-eis alguma vida, não isente de paixão mas será consolação na partida.

MOÇA: Isso é por me deter. Ora tomai, e acabar!

Tomou o VELHO a mão:

Jesus! E quereis brincar? Que galante e que prazer!

VELHO: Já me deixais? Eu não vos esqueço mais e nem fico só comigo. Oh martírios infernais! Não sei por que me matais, nem o que digo.

Vem um PARVO, criado do VELHO, e diz:

Dono, dizia minha dona que fazeis vós cá té à noite?

VELHO: Vai-te! Queres que t’açoite? Oh! Dou ao demo a intrujona sem saber!

PARVO: Diz que fosseis vós comer e não demoreis aqui.

VELHO: Não quero comer, nem beber.

PARVO: Pois que haver cá de fazer?

VELHO: Vai-te daí!

PARVO: Dono, veio lá meu tio, estava minha dona, então ela, metendo lume à panela o fogo logo subiu.

VELHO: Oh Senhora! Como sei que estais agora sem saber minha saudade. Oh! Senhora matadora, meu coração vos adora de vontade!

PARVO: Raivou tanto! Resmungou! Oh pesar ora da vida! Está a panela cozida, minha dona não jantou. Não quereis?

VELHO: Não hei de comer desta vez, nem quero comer bocado.

PARVO: E se vós, dono, morreis? Então depois não falareis senão finado. Então na terra nego jazer, então, finar dono, estendido.

VELHO: Antes não fora eu nascido, ou acabasse de viver!

PARVO: Assim, por Deus! Então tanta pulga em vós, tanta bichoca nos olhos, ali, cos finado, sós, e comer-vos-ão a vós os piolhos. Comer-vos-ão as cigarras e os sapos! Morrei! Morrei!

VELHO: Deus me faz já mercê de me soltar as amaras. Vai saltando! Aqui te fico esperando; traze a viola, e veremos.

PARVO: Ah! Corpo de São Fernando! Estão os outros jantando, e cantaremos?!...

VELHO: Fora eu do teu teor, por não se sentir esta praga de fogo, que não se apaga, nem abranda tanta dor... Hei de morrer.

PARVO: Minha dona quer comer; Vinde, infeliz, que ela brada! Olhai! Eu fui lhe dizer dessa rosa e do tanger, e está raivada!

VELHO Vai tu, filho Joane, e dize que logo vou, que não há tempo que cá estou.

PARVO: Ireis vós para o Sanhoane! Pelo céu sagrado, que meu dono está danado! Viu ele o demo no ramo. Se ele fosse namorado, logo eu vou buscar outro amo.

Vem a MULHER do VELHO e diz:

Hui! Que sina desastrada! Fernandeanes, que é isto?

VELHO: Oh pesar do anticristo. Oh velha destemperada! Vistes ora?

MULHER: E esta dama onde mora? Hui! Infeliz dos meus dias! Vinde jantar em má hora: por que vos meter agora em musiquias?

VELHO: Pelo corpo de São Roque, vai para o demo a gulosa!

MULHER: Quem vos pôs aí essa rosa? Má forca que vos enforque!

VELHO: Não maçar! Fareis bem de vos tornar porque estou tão sem sentido; não cureis de me falar, que não se pode evitar ser perdido!

MULHER: Agora com ervas novas vos tornastes garanhão!...

VELHO: Não sei que é, nem que não, que hei de vir a fazer trovas.

MULHER: Que peçonha! Havei, infeliz, vergonha ao cabo de sessenta anos, que sondes vós carantonha.

VELHO: Amores de quem me sonha tantos danos!

MULHER: Já vós estais em idade de mudardes os costumes.

VELHO: Pois que me pedis ciúmes, eu vo-los farei de verdade.

MULHER: Olhai a peça!

VELHO: Que o demo em nada me empeça, senão morrer de namorado.

MULHER: Está a cair da tripeça e tem rosa na cabeça e embeiçado!...

VELHO: Deixar-me ser namorado, porque o sou muito em extremo!

MULHER: Mas vos tome inda o demo, se vos já não tem tomado!

VELHO: Dona torta, acertar por esta porta, Velha mal-aventurada! Saia, infeliz , desta horta!

MULHER: Hui, meu Deus, que serei morta, ou espancada!

VELHO: Estas velhas são pecados, Santa Maria vai com a praga! Quanto mais homem as afaga, tanto mais são endiabradas!

(Canta)

"Volvido nos han volvido,

volvido nos han:

por uma vecina mala

meu amor tolheu-lhe a fala

volvido nos han."

Entra Branca Gil, ALCOVITEIRA, e diz:

Mantenha Deus vossa Mercê.

VELHO: Olá! Venhais em boa hora! Ah! Santa Maria! Senhora. Como logo Deus provê!

ALCOVITEIRA: Certo, oh fadas! Mas venho por misturadas, e muito depressa ainda.

VELHO: Misturadas preparadas, que hão de fazer bem guisadas vossa vinda! Justamente nestes dias, em tempo contra a razão, veio amor, sem intenção, e fez de mim outro Macias tão penado, que de muito namorado creio que culpareis porque tomei tal cuidado; e do velho destampado zombareis.

ALCOVITEIRA: Mas, antes, senhor agora na velhice anda o amor; o de idade de amador por acaso se namora; e na corte nenhum mancebo de sorte não ama como soía. Tudo vai em zombaria! Nunca morrem desta morte nenhum dia. E folgo ora de ver vossa mercê namorado, que o homem bem criado até à morte o há de ser, por direito. Não por modo contrafeito, mas firme, sem ir atrás, que a todo homem perfeito mandou Deus no seu preceito: amarás.

VELHO: Isso é o que sempre brado, Branca Gil, e não me vai, que eu não daria um real por homem desnamorado. Porém, amiga, se nesta minha fadiga vós não sois medianeira, não sei que maneira siga, nem que faça, nem que diga, nem que queira.

ALCOVITEIRA: Ando agora tão ditosa (louvores a Virgem Maria!), que logro mais do que queria pela minha vida e vossa. De antemão, faço uma esconjuração c’um dente de negra morta antes que entre pela porta qualquer duro coração que a exorta.

VELHO: Dizede-me: quem é ela?

ALCOVITEIRA: Vive junto com a Sé. Já! Já! Já! Bem sei quem é! É bonita como estrela, uma rosinha de abril, uma frescura de maio, tão manhosa, tão sutil!...

VELHO: Acudi-me Branca Gil, que desmaio.

Esmorece o VELHO e a ALCOVITEIRA começa a ladainha:

Ó precioso Santo Areliano, mártir bem-aventurado,

Tu que foste marteirado neste mundo cento e um ano;
Ó São Garcia Moniz, tu que hoje em dia
Fazes milagres dobrados, dá-lhe esforço e alegria,
Pois que és da companhia dos penados!
Ó Apóstolo São João Fogaça, tu que sabes a verdade,
Pela tua piedade, que tanto mal não se faça!
Ó Senhor Tristão da Cunha, confessor,
Ó mártir Simão de Sousa, pelo vosso santo amor.
Livrai o velho pecador de tal cousa!
Ó Santo Martim Afonso de Melo, tão namorado.
Dá remédio a este coitado, e eu te direi um responso com devoção!
Eu prometo uma oração, todo dia, em quatro meses,
Por que lhe deis força, então, meu senhor São Dom João de Meneses!
Ó mártir Santo Amador Gonçalo da Silva, vós, que sois o melhor de nós,
Porfioso em amador tão despachado, chamai o martirizado
Dom Jorge de Eça a conselho!
Dois casados num cuidado, socorrei a este coitado deste velho!
Arcanjo São Comendador Mor de Avis, mui inflamado,
Que antes que fosseis nado, fostes santo no amor!
E não fique o precioso Dom Anrique, outro Mor de Santiago;
Socorrei-lhe muito a pique, antes que demo repique com tal pago.
Glorioso São Dom Martinho, apóstolo e Evangelista, passai o fato em revista,
Porque leva mau caminho, e daí-lhe espírito!
Ó Santo Barão de Alvito, Serafim do deus Cupido, consolai o velho aflito,
Porque, inda que contrito, vai perdido!
Todos santos marteirados, socorrei ao marteirado, que morre de namorado,
Pois morreis de namorados.
Para o livrar, as virgens quero chamar,
Que lhe queiram socorrer, ajudar e consolar,
Que está já para acabar de morrer.
Ó Santa Dona Maria Anriques tão preciosa,
Queirais-lhe ser piedosa, por vossa santa alegria!
E vossa vista, que todo o mundo conquista,
Esforce seu coração, porque à sua dor resista,
Por vossa graça e benquista condição.
Ó Santa Dona Joana de Mendonça, tão fermosa,
Preciosa e mui lustrosa mui querida e mui ufana!
Daí-lhe vida com outra santa escolhida que tenho in voluntas mea;
Seja de vós socorrida como de Deus foi ouvida a Cananea.
Ó Santa Dona Joana Manuel, pois que podeis, e sabeis, e mereceis
Ser angélica e humana, socorrei!
E vós, senhora, por mercê, ó Santa Dona Maria de Calataúd,
Por que vossa perfeição lhe dê alegria.
Santa Dona Catarina de Figueiró, a Real,
Por vossa graça especial que os mais altos inclina!
E ajudará Santa Dona Beatriz de Sá:
Daí-lhe, senhora, conforto, porque está seu corpo já quase morto.
Santa Dona Beatriz da Silva, que sois aquela mais estrela que donzela,
Como todo o mundo diz!
E vós, sentida Santa Dona Margarida de Sousa, lhe socorrei,
Se lhe puderdes dar vida, porque está já de partida sem porquê!
Santa Dona Violante de Lima, de grande estima,
Mui subida, muito acima de estimar nenhum galante!
Peço-vos eu, e a Dona Isabel de Abreu, co siso que Deus vos deu,
Que não morra de sandeu em tal idade!...
Ó Santa Dona Maria de Ataíde, fresca rosa, nascida em hora ditosa,
Quando Júpiter se ria!
E, se ajudar Santa Dona Ana, sem par de, Eça, bem aventurada,
Podei-lo ressuscitar, que sua vida vejo estar desesperada.
Santas virgens, conservadas em mui santo e limpo estado,
Socorrei ao namorado, que vos vejais namoradas!

VELHO: Óh! Coitado!
Ai triste desatinado!
Ainda torno a viver?
Cuidei que já era livrado.

ALCOVITEIRA: Que esforço de namorado e que prazer! Que hora foi aquela!

VELHO: Que remédio me dais vós?

ALCOVITEIRA: Vivereis, prazendo a Deus, e casar-vos-ei com ela.

VELHO: É vento isso!

ALCOVITEIRA: Assim seja o paraíso. Que isso não é tão extremo! Não curedes vós de riso, que eu farei tão de improviso como o demo. E também doutra maneira se eu me quiser trabalhar.

VELHO: Ide-lhe, logo, falar e fazei com que me queira, pois pereço; e dizei-lhe que lhe peço se lembre que tal fiquei estimado em pouco preço, e, se tanto mal mereço, não no sei! E, se tenho esta vontade, não deve ela s’agastar; antes deve de folgar ver-nos morto nesta idade. E, se reclama que sendo tão linda dama por ser velho me aborrece, dizei-lhe: é um mal quem desama porque minh’alma que a ama não envelhece.

ALCOVITEIRA: Sus! Nome de Jesus Cristo! Olhai-me pela cestinha.

VELHO: Tornai logo, fada minha, que eu pagarei bem isto.

Vai-se a ALCOVITEIRA, e fica o VELHO tangendo e cantando a cantiga seguinte:

Pues tengo razón, señora,
Razón es que me laa oiga!

Vem a ALCOVITEIRA e diz o VELHO:

Venhais em boa hora, amiga!

ALCOVITEIRA: Já ela fica de bom jeito; mas, para isto andar direito, é razão que vo-lo diga: eu já, senhor meu, não posso, sem gastardes bem do vosso, vencer uma moça tal.

VELHO: Eu lhe pagarei em grosso.

ALCOVITEIRA: Aí está o feito nosso, e não em al. Perca-se toda a fazenda, por salvardes vossa vida!

VELHO: Seja ela disso servida, que escusada é mais contenda.

ALCOVITEIRA: Deus vos ajude, e vos dê mais saúde, que assim o haveis de fazer, que viola nem alaúde nem quantos amores pude não quer ver. Falou-me lá num brial de seda e uns trocados...

VELHO: Eis aqui trinta cruzados, Que lhe façam mui real!

Enquanto a ALCOVITEIRA vai, VELHO torna a prosseguir o seu cantar e tanger e, acabado, torna ela e diz:

Está tão saudosa de vós que se perde a coitadinha! Há mister uma saiazinha e três onças de retroz.

VELHO: Tomai.

ALCOVITEIRA: A benção de vosso pai. (Bom namorado é o tal!) pois gastais, descansai. Namorados de al! Ai! Não valem real!

Ui! Tal fora, se me fora! Sabeis vós que me esquecia? Uma amiga me vendia um broche de uma senhora. Com um rubi para o colo, de marfi, lavrado de mil lavores, por cem cruzados. Ei-los aí! Isto, má hora, isto si são amores!

Vai-se o VELHO torna a prosseguir a sua música e, acabada, torna a ALCOVITEIRA e diz:

Dei, má-hora, uma topada. Trago as sapatas rompidas destas vindas, destas idas, e enfim não ganho nada.

VELHO: Eis aqui dez cruzados para ti.

ALCOVITEIRA: Começo com boa estréia!

Vem um ALCAIDE com quatro BELEGUINS, e diz:

Dona, levantai-vos daí!

ALCOVITEIRA: Que quereis vós assim?

ALCAIDE: À cadeia!

VELHO: Senhores, homens de bem, escutem vossas senhorias.

ALCAIDE: Deixai essas cortesias!

ALCOVITEIRA: Não hei medo de ninguém, viste ora!

ALCAIDE: Levantai-vos daí, senhora, daí ao demo esse rezar! Quem vos dez tão rezadora?

ALCOVITEIRA: Deixar-me ora, na má-hora, aqui acabar.

ALCAIDE: Vinde da parte de el-Rei!

ALCOVITEIRA: Muita vida seja a sua. Não me leveis pela rua; deixar-me vós, que eu me irei.

BELEGUINS: Sus! Andar!

ALCOVITEIRA: Onde me quereis levar, ou quem me manda prender? Nunca havedes de acabar de me prender e soltar? Não há poder!

ALCAIDE: Nada se pode fazer.

ALCOVITEIRA: Está já a carocha aviada?!... Três vezes fui já açoitada, e, enfim, hei de viver.

Levam-na presa e fica o VELHO dizendo:

Oh! Que má-hora! Ah! Santa Maria! Senhora! Já não posso livrar bem. Cada passo se empiora! Oh! Triste quem se namora de alguém!

Vem uma MOCINHA à horta e diz:

Vedes aqui o dinheiro? Manda-me cá minha tia, que, assim como no outro dia, lhe mandeis a couve e o cheiro. Está pasmado?

VELHO: Mas estou desatinado.

MOCINHA: Estais doente, ou que haveis?

VELHO: Ai! Não sei! Desconsolado, que nasci desventurado!

MOCINHA: Não choreis! Mais mal fadada vai aquela!

VELHO: Quem

MOCINHA: Branca Gil.

VELHO: Como?

MOCINHA: Com cem açoites no lombo, uma carocha por capela, e atenção! Leva tão bom coração, como se fosse em folia. Que pancadas que lhe dão! E o triste do pregão – porque dizia:

"Por mui grande alcoviteira e para sempre degredada", vai tão desavergonhada, como ia a feiticeira. E, quando estava, uma moça que passava na rua, para ir casar, e a coitada que chegava a folia começava de cantar: "ua moça tão fermosa que vivia ali à Sé..."

VELHO: Oh coitado! A minha é!

MOCINHA: Agora, má hora e vossa! Vossa é a treva. Mas ela o noivo leva. Vai tão leda, tão contente, uns cabelos como Eva; por certo que não se atreva toda a gente! O Noivo, moço polido, não tirava os olhos dela, e ela dele. Oh que estrela! É ele um par bem escolhido!

VELHO: Ó roubado, da vaidade enganado, da vida e da fazenda! Ó velho, siso enleado! Quem te meteu desastrado em tal contenda? Se os jovens amores, os mais têm fins desastrados, que farão as cãs lançadas no conto dos amadores? Que sentias, triste velho, em fim dos dias? Se a ti mesmo contemplaras, souberas que não vias, e acertaras.

Quero-me ir buscar a morte, pois que tanto mal busquei. Quatro filhas que criei eu as pus em pobre sorte. Vou morrer. Elas hão de padecer, porque não lhe deixo nada; da quantia riqueza e haver fui sem razão despender, mal gastada.

FIM

 

b. Auto da alma (1518)

 

ARGUMENTO

 

Assi como foi cousa muito necessária haver nos caminhos estalagens, pera repouso e refeição dos cansados caminhantes, assi foi cousa conveniente que nesta caminhante vida houvesse uma estalajadeira, pera refeição e descanso das almas que vão caminhantes pera a eternal morada de Deus. Esta estalajadeira das almas é a Madre Santa Igreja, a mesa é o altar, os manjares as insígnias da Paixão. E desta perfiguração trata a obra seguinte.

Figuras: Alma, Anjo Custódio, Igreja, Santo Agostinho, Santo Ambrósio, S. Jerónimo, S. Tomás, Dous Diabos.

Este Auto presente foi feito à muito devota Rainha D. Leonor e representado ao mui poderoso e nobre Rei Dom Emanuel, seu irmão, por seu mandado, na cidade de Lisboa, nos Paços da Ribeira, em a noite de Endoenças. Era do Senhor de 1518.


Está posta uma mesa com uma cadeira. Vem a Madre Santa Igreja com seus quatro doutores: S. Tomás, S. Jerónimo, Santo Ambrósio e Santo Agostinho. E diz Agostinho:

 

AGOSTINHO
Necessário foi, amigos, que nesta triste carreira desta vida, pera os mui p'rigosos p'rigos dos imigos, houvesse alguma maneira de guarida. Porque a humana transitória natureza vai cansada em várias calmas; nesta carreira da glória meritória, foi necessário pousada pera as almas.

Pousada com mantimentos, mesa posta em clara luz, sempre esperando com dobrados mantimentos dos tormentos que o Filho de Deus, na Cruz, comprou, penando. Sua morte foi avença, dando, por dar-nos paraíso, a sua vida apreçada, sem detença, por sentença, julgada a paga em proviso, e recebida.

A Sua mortal empresa foi santa estalajadeira Igreja Madre: consolar à sua despesa, nesta mesa, qualquer alma caminheira, com o Padre e o Anjo Custódio aio. Alma que lhe é encomendada, se enfraquece e lhe vai tomando raio de desmaio, se chegando a esta pousada, se guarece.

Vem o Anjo Custódio, com a Alma, e diz:

 

ANJO
Alma humana, formada de nenhüa cousa feita, mui preciosa, de corrupção separada, e esmaltada naquela frágoa perfeita, gloriosa! Planta neste vale posta pera dar celestes flores olorosas, e pera serdes tresposta em a alta costa, onde se criam primores mais que rosas!

Planta sois e caminheira, que ainda que estais, vos is donde viestes. Vossa pátria verdadeira é ser herdeira da glória que conseguis: andai prestes. Alma bem-aventurada, dos anjos tanto querida, não durmais! Um ponto não esteis parada, que a jornada muito em breve é fenecida, se atentais.

 

ALMA
Anjo que sois minha guarda, olhai por minha fraqueza terreal! de toda a parte haja resguarda, que não arda a minha preciosa riqueza principal. Cercai-me sempre ò redor porque vou mui temerosa de contenda. Ó precioso defensor meu favor! Vossa espada lumiosa me defenda!

Tende sempre mão em mim, porque hei medo de empeçar, e de cair

 

ANJO
Pera isso sam e a isso vim; mas enfim, cumpre-vos de me ajudar a resistir Não vos ocupem vaidades, riquezas, nem seus debates. Olhai por vós; que pompas, honras, herdades e vaidades, são embates e combates pera vós.

Vosso livre alvedrio, isento, forro, poderoso vos é dado polo divinal poderio e senhorio, que possais fazer glorioso vosso estado. Deu-vos livre entendimento, e vontade libertada e a memória, que tenhais em vosso tento fundamento, que sois por Ele criada pera a glória.

E vendo Deus que o metal em que vos pôs a estilar, pera merecer, que era muito fraco e mortal, e, por tal, me manda a vos ajudar e defender. Andemos a estrada nossa; olhai: não torneis atrás, que o imigo à vossa vida gloriosa porá grosa, Não creiais a Satanás, vosso perigo!

Continuai ter o cuidado no fim de vossa jornada, e a memória, que o espírito atalaiado do pecado caminha sem temer nada pera a Glória. E nos laços infernais, e nas redes de tristura tenebrosas da carreira, que passais, não caiais: siga vossa fermosura as gloriosas.

Adianta-se o Anjo, e vem o Diabo a ela e diz:

DIABO
Tão depressa, ó delicada, alva pomba, pera onde isso? Quem vos engana, e vos leva tão cansada por estrada, que somente não sentis se sois humana? Não cureis de vos matar que ainda estais em idade de crecer Tempo há i pera folgar e caminhar Vivei à vossa vontade e havei prazer.

Gozai, gozai dos bens da terra, Procurai por senhorios e haveres. Quem da vida vos desterra à triste serra? Quem vos fala em desvarios por prazeres? Esta vida é descanso, doce e manso, não cureis doutro paraíso. Quem vos põe em vosso siso outro remanso?

 

ALMA
Não me detenhais aqui, leixai-me ir que em al me fundo.

 

DIABO
Oh! Descansai neste mundo que todos fazem assi: Não são em balde os haveres. não são em balde os deleites, e fortunas; não são debalde os prazeres e comeres: tudo são puros afeites das criaturas:

Pera os homens se criaram. Dai folga à vossa passagem d'hoje a mais: descansai, pois descansaram os que passaram por esta mesma romagem que levais. O que a vontade quiser quanto o corpo desejar, tudo se faça. Zombai de quem vos quiser reprender querendo-vos marteirar tão de graça.

Tornara-me, se a vós fora. Is tão triste, atribulada, que é tormenta. Senhora, vós sois senhora emperadora, não deveis a ninguém nada. Sede isenta.

 

ANJO
Oh! andai; quem vos detém? Como vindes pera a Glória devagar! Ó meu Deus! Ó sumo bem! Já ninguém não se preza da vitória em se salvar!

Já cansais, alma preciosa? Tão asinha desmaiais? Sede esforçada! Oh! Como viríeis trigosa e desejosa, se vísseis quanto ganhais nesta jornada! Caminhemos, caminhemos. Esforçai ora, Alma santa, esclarecida!

Adianta-se o Anjo, e torna Satanás:

 

DIABO
Que vaidades e que extremos tão supremos! Pera que é essa pressa tanta? tende vida.

Is muito desautorizada, descalça, pobre, perdida, de remate: não levais de vosso nada. Amargurada, assi passais esta vida em disparate. Vesti ora este brial; metei o braço por aqui. Ora esperai. Oh! Como vem tão real! Isto tal me parece bem a mi: ora andai.

Uns chapins haveis mister de Valença: ei-los aqui. Agora estais vós mulher de parecer Ponde os braços presumptuosos: isso si! Passeai-vos mui pomposa, daqui pera ali, e de lá pera cá, e fantasiai. Agora estais vós fermosa como a rosa; tudo vos mui bem está. Descansai.

Torna o Anjo à Alma, dizendo:

 

ANJO
Que andais aqui fazendo?

 

ALMA
Faço o que vejo fazer polo mundo.

 

ANJO
Ó Alma, is-vos perdendo! Correndo vos is meter no profundo! Quanto caminhais avante, tanto vos tornais atrás e através. Tomastes, ante com ante por mercante, o cossairo Satanás, porque quereis.

Oh! caminhai com cuidado, que a Virgem gloriosa vos espera. Deixais vosso principado deserdado! Enjeitais a glória vossa e pátria vera! Deixai esses chapins ora, e esses rabos tão sobejos, que is carregada; não vos tome a morte agora tão senhora, nem sejais, com tais desejos, sepultada.

Andai! dai-me cá essa mão!

 

ALMA
Andai vós, que eu irei, quanto puder.

Adianta-se o Anjo, e torna o Diabo:

 

DIABO
Todas as cousas com razão têm sazão Senhora, eu vos direi meu parecer: Há i tempo de folgar e idade de crecer; e outra idade de mandar e triunfar e apanhar e adquirir prosperidade a que puder.

Ainda é cedo pera a morte; tempo há-de arrepender e ir ao Céu. Ponde-vos à for da corte; desta sorte viva vosso parecer que tal naceu. O ouro pera que é, e as pedras preciosas, e brocados? E as sedas pera quê? Tende por fé, que pera as almas mais ditosas foram dados.

Vedes aqui um colar d'ouro, mui bem esmaltado, e dez anéis. Agora estais vós pera casar e namorar Neste espelho vos tereis, e sabereis que não vos hei-de enganar. E poreis estes pendentes, em cada orelha seu. Isso si! Que as pessoas diligentes são prudentes. Agora vos digo eu que vou contente daqui.

 

ALMA
Oh! Como estou preciosa, tão dina pera servir E santa pera adorar!

 

ANJO
Ó Alma despiedosa perfiosa! Quem vos devesse fugir mais que guardar! Pondes terra sobre terra, que esses ouros terra são. Ó Senhor porque permites tal guerra, que desterra ao reino da confusão o teu lavor?

Não íeis mais despejada, e mais livre da primeira pera andar? Agora estais carregada e embaraçada com cousas que, à derradeira, hão-de ficar. Tudo isso se descarrega ao porto da sepultura. Alma santa, quem vos cega, vos carrega dessa vã desaventura?

 

ALMA
Isto não me pesa nada, mas a fraca natureza me embaraça. Já não posso dar passada de cansada: tanta é minha fraqueza, e tão sem graça! Senhor, ide-vos embora, que remédio em mim não sento, já estou tal...

 

ANJO
Sequer dai dous passos ora, até onde mora a que tem o mantimento celestial.

Ireis ali repousar comereis alguns bocados confortosos; porque a hóspeda é sem par em agasalhar os que vêm atribulados e chorosos.

 

ALMA
É longe?

 

ANJO
Aqui mui perto, Esforçai, não desmaieis! E andemos, qu'ali há todo concerto mui certo: quantas cousas querereis tudo tendes.

A hóspeda tem graça tanta. far-vos-á tantos favores!

 

ALMA
Quem é ela?

 

ANJO
É a Madre Igreja Santa, e os seus santos Doutores. I com ela. Ireis d'i mui despejada, cheia do Spírito Santo, e mui fermosa. Ó Alma, sede esforçada! Outra passada, que não tendes de andar tanto a ser esposa.

 

DIABO
Esperai, onde vos isso? Essa pressa tão sobeja é já pequice. Como! Vós, que presumis, consentis continuardes a igreja, sem velhice? Dai-vos, dai-vos a prazer que muitas horas há nos anos que lá vêm. Na hora que a morte vier como se quer se perdoam quantos danos a alma tem.

Olhai por vossa fazenda tendes umas escrituras de uns casais, de que perdeis grande renda. É contenda, que leixaram às escuras vossos pais; é demanda mui ligeira, litígios que são vencidos em um riso. Citai as partes terça-feira, de maneira como não fiquem perdidos, e havei siso.

 

ALMA
Cal'-te por amor de Deus! leixa-me, não me persigas! Bem abasta estorvares os heréus dos altos céus, que a vida em tuas brigas se me gasta. Leixa-me remediar o que tu, cruel, danaste sem vergonha, que não me posso abalar, nem chegar

ao lugar onde gaste esta peçonha. Chega a Alma diante da Igreja.

 

ANJO
Vedes aqui a pousada verdadeira e mui segura a quem quer vida.

 

IGREJA
Oh! Como vindes cansada e carregada!

 

ALMA
Venho por minha ventura, amortecida,

 

IGREJA
Quem sois? Pera onde andais?

 

ALMA
Não sei pera onde vou; sou selvagem, sou uma alma que pecou culpas mortais contra o Deus que me criou à Sua imagem.

Sou a triste, sem ventura, criada resplandecente e preciosa, angélica em fermosura, e per natura, como raio reluzente luminosa. E por minha triste sorte e diabólicas maldades violentas, estou mais morta que a morte sem deporte, carregada de vaidades peçonhentas. Sou a triste, sem mezinha, pecadora obstinada, perfiosa; pola triste culpa minha, mui mesquinha, a todo o mal inclinada e deleitosa. Desterrei da minha mente os meus perfeitos arreios naturais; não me prezei de prudente, mas contente me gozei com os trajos feios mundanais. Cada passo me perdi; em lugar de merecer, eu sou culpada. Havei piedade de mi, que não me vi; perdi meu inocente ser, e sou danada. E, por mais graveza, sento não poder me arrepender quanto queria; que meu triste pensamento, sendo isento, não me quer obedecer, como soía.

Socorrei, hóspeda senhora, que a mão de Satanás me tocou, e sou já de mim tão fora, que agora não sei se avante, se atrás, nem como vou. Consolai minha fraqueza com sagrada iguaria, que pereço, por vossa santa nobreza, que é franqueza; porque o que eu merecia bem conheço.

Conheço-me por culpada, e digo diante vós minha culpa. Senhora, quero pousada, dai passada, pois que padeceu por nós quem nos desculpa. Mandai-me ora agasalhar capa dos desamparados, Igreja Madre.

 

IGREJA
Vinde-vos aqui assentar mui devagar que os manjares são guisados por Deus Padre.

Santo Agostinho doutor, Jerónimo, Ambrósio, São Tomás, meus pilares, servi aqui por meu amor o qual milhor E tu, Alma, gostarás meus manjares. Ide à santa cozinha, tornemos esta alma em si, por que mereça de chegar onde caminha, e se detinha. Pois que Deus a trouxe aqui, não pereça.

Enquanto estas cousas passam, Satanás passeia, fazendo muitas vascas, e vem outro (Diabo) e diz:

 

2º DIABO
Como andas dasassossegado!

 

1º DIABO
Arço em fogo de pesar!

 

2º DIABO
Que houveste?

 

2º DIABO
Ando tão desatinado, de enganado, que não posso repousar que me preste. Tinha uma alma enganada, já quase pera infernal, mui acesa.

 

2º DIABO
E quem t'a levou forçada?

 

1º DIABO
O da espada.

2º DIABO
Já m'ele fez outra tal burla como essa.

Tinha outra alma já vencida, em ponto de se enforcar de desesperada, a nós toda oferecida, e eu prestes pera a levar arrastada; e ele fê-la chorar tanto, que as lágrimas corriam pola terra. Blasfemei entonces tanto, que meus gritos retiniam pola serra.

Mas faço conta que perdi, outro dia ganharei, e ganharemos

 

1º DIABO
Não digo eu, irmão, assi: mas a esta tornarei, e veremos. Torná-la-ei a afagar despois que ela sair fora da Igreja e começar de caminhar; hei-de apalpar se vencerão ainda agora esta peleja. Entra a Alma, com o Anjo.

 

ALMA
Vós não me desempareis, Senhor meu Anjo Custódio! Ó incréus imigos, que me quereis, que já sou fora do ódio de meu Deus? Leixai-me já, tentadores, neste convite prezado do Senhor guisado aos pecadores com as dores de Cristo crucificado, redentor.

Estas cousas, estando a Alma assentada à mesa, e o Anjo junto com ela, em pé, vêm os Doutores com quatro bacios de cozinha cobertos, cantando: «Vexilla regis prodeunt». E, postos na mesa, diz Santo Agostinho:

 

AGOSTINHO
Vós, senhora convidada, nesta ceia soberana celestial, haveis mister ser apartada e transportada de toda a cousa mundana, terreal. Cerrai os olhos corporais, deitai ferros aos danados apetitos, caminheiros infernais; pois buscais os caminhos bem guiados dos contritos.

 

IGREJA
Benzei a mesa vós, senhor e, pera consolação da convidada, seja a oração de dor sobre o tenor da gloriosa Paixão consagrada. E vós, Alma, rezareis, contemplando as vivas dores da Senhora; Vós outros respondereis, pois que fostes rogadores até agora.

Oração pera Santo Agostinho.

Alto Deus Maravilhoso, que o mundo visitaste em carne humana, neste vale temeroso e lacrimoso. Tua glória nos mostraste soberana. E Teu Filho delicado, mimoso da Divindade e Natureza, per todas partes chagado, e mui sangrado, pela nossa infirmidade e vil fraqueza!

Ó Emperador celeste, Deus alto, mui poderoso, essencial, que polo homem que fizeste, ofereceste o teu estado glorioso a ser mortal! E Tua Filha, Madre, Esposa, horta nobre, frol dos céus, Virgem Maria, mansa pomba gloriosa; oh quão chorosa quando o seu Deus padecia!

Ó lágrimas preciosas, do Virginal Coração estiladas, correntes das dores vossas, com os olhos da perfeição derramadas! Quem uma só pudera ver vira claramente nela aquela dor, aquela pena e padecer com que choráveis, donzela, vosso amor! E quando vós, amortecida, se lágrimas vos faltavam, não faltava a vosso filho e vossa vida chorar as que lhe ficaram de quando orava. Porque muito mais sentia polos seus padecimentos ver-vos tal; mais que quanto padecia, lhe doía, e dobrava seus tormentos, vosso mal. Se se pudesse dizer se se pudesse rezar tanta dor; Se se pudesse fazer podermos ver qual estáveis ao cravar do Redentor! Ó fermosa face bela, ó resplandor divinal, que sentistes, quando a cruz se pôs à vela, e posto nela o filho celestial que paristes? Vendo por cima da gente assornar vosso conforto tão chagado, cravado tão cruelmente, e vós presente, vendo-vos ser mãe do morto, e justiçado! Ó Rainha delicada, santidade escurecida, quem não chora em ver morta e debruçada a avogada, a força da nossa vida?

 

AMBRÓSIO
Isto chorou Hieremias sobre o monte de Sião, há já dias; porque sentiu que o Messias era nossa redenção. E chorava a sem-ventura, triste de Jerusalém homecida, matando, contra natura, seu Deus nascido em Belém nesta vida.

 

JERÓNIMO
Quem vira o Santo Cordeiro antre os lobos humildoso, escarnecido, julgado pera o marteiro do madeiro, seu rosto alvo e fermoso mui cuspido!

(Agostinho benze a mesa.)

 

AGOSTINHO
A bênção do Padre Eternal, e do Filho, que por nós sofreu tal dor, e do Spírito Santo, igual Deus imortal, convidada, benza a vós por seu amor

IGREJA
Ora sus! Venha água às mãos.

 

AGOSTINHO
Vós haveis-vos de lavar em lágrimas da culpa vossa, e bem lavada. E haveis-vos de chegar a alimpar a uma toalha fermosa, bem lavrada co sirgo das veias puras da Virgem sem mágoa, nacido e apurado, torcido com amarguras às escuras, com grande dor guarnecido e acabado.

Não que os olhos alimpeis, que o não consentirão os tristes laços; que tais pontos achareis da face e envés, que se rompe o coração em pedaços. Vereis seu triste lavrado natural, com tormentos pespontado, e figurado Deus Criador em figura de mortal.

Esta toalha, em que aqui se fala, é o Verónica, a qual Santo Agostinho tira d'antre os bacios, e amostra à Alma; e a Madre Igreja, com os Doutores, lhe fazem adoração de joelhos, cantando: «Salve, Sancta Facies». E, acabando, diz a Madre Igreja:

 

IGREJA
Venha a primeira iguaria.

 

JERÓNIMO
Esta iguaria primeira foi, Senhora, guisada sem alegria em triste dia, a crueldade cozinheira e matadora. Gostá-la-eis com salsa e sal de choros de muita dor; porque os costados do Messias divinal, santo sem mal, foram, polo vosso amor açoutados.

Esta iguaria em que aqui se fala são os Açoutes; e em este passo os tiram dos bacios, e os presentam à Alma, e todos de joelhos adoram, cantando: «Ave, flagellum»; e despois diz:

 

JERÓNIMO
Estoutro manjar segundo é iguaria, que haveis de mastigar em contemplar a dor que o Senhor do mundo padecia, pera vos remediar Foi um tormento improviso, que aos miolos lhe chegou: e consentiu, por remediar o siso, que a vosso siso faltou; e pera ganhardes paraíso, a sofriu.

Esta iguaria segunda, de que aqui se fala, é a Coroa de Espinhos; e em este passo a tiram dos bacios e, de joelhos, os Santos Doutores cantam: «Ave, corona spinarum». E, acabando, diz a Madre Igreja:

 

IGREJA
Venha outra do teor

 

JERÓNIMO
Est'outro manjar terceiro foi guisado em três lugares de dor a qual maior com a lenha do madeiro mais prezado. Come-se com gram tristura, porque a Virgem gloriosa o viu guisar: viu cravar com gram crueza a sua riqueza, e sua perla preciosa viu furar.

E a este passo tira Santo Agostinho os Cravos, e todos de joelhos os adoram cantando: «Dulce lignum, dulcis clavus». E acabada a adoração diz o Anjo à Alma:

Anjo Leixai ora esses arreios, que est'outra não se come assi como cuidais. Pera as almas são mui feios, e são meios com que não andam em si os mortais.

Despe a Alma o vestido e jóias que lh'o imigo deu, e diz Agostinho:

 

AGOSTINHO
Ó Alma bem aconselhada, que dais o seu a cujo é: o da terra à terra! Agora ireis despejada pola estrada, porque vencestes com fé forte guerra.

 

IGREJA
Venha ess'outra iguaria.

 

JERÓNIMO
A quarta iguaria é tal, tão esmerada, de tão infinda valia e contia, que na mente divinal foi guisada, por mistério preparada no sacrário virginal. mui coberta, da divindade cercada e consagrada, despois ao Padre Eternal dada em oferta.

Apresenta S. Jerónimo à Alma um Crucifixo, que tira d'antre os pratos; e os Doutores o adoram, cantando «Domine Jesu Christe». E, acabando, diz:

 

ALMA
Com que forças, com que spírito, te darei, triste, louvores, que sou nada, vendo-Te, Deus Infinito, tão aflito, padecendo Tu as dores, e eu culpada? Como estás tão quebrantado, Filho de Deos imortal! Quem Te matou? Senhor, per cujo mandado és justiçado, sendo Deus universal, que nos criou?

 

AGOSTINHO
A fruita deste jantar que neste altar vos foi dado com amor iremos todos buscar ao pomar adonde está sepultado o Redentor.

E todos com a Alma, cantando «Te Deum laudamus»; foram adorar o moimento.

LAUS DEO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

III. CLASSICISMO OU RENASCIMENTO (1527-1580)

 

Dá-se os nomes de Classicismo e Renascimento ao período que, de meados do século XV a meados do XVI, viu florescer na Europa ocidental, a partir da Itália, um movimento de recuperação dos valores culturais greco-latinos e de desenvolvimento de uma concepção  racionalista e cientificista da existência humana e da natureza.

Em termos artísticos, o Classicismo se identifica pela imitação dos autores clássicos da antigüidade grega e romana: Homero, Virgílio, Ovídio, Horácio; o uso estético da mitologia; a busca do amor platônico, elevado, espiritual; o culto de um ideal de beleza marcado pela busca da perfeição e da harmonia. Isso leva as obras desse período a refletirem uma preocupação com o predomínio da racionalidade, expressa numa sujeição a regras rígidas de conteúdo e forma; ao uso de uma linguagem sóbria, simples, precisa, que transmite clareza e objetividade.

Destacam-se também a característica do antropocentrismo, que se contrapõe ao teocentrismo medieval por meio de uma exaltação das faculdade humanas.

Formalmente, os escritores renascentistas recuperaram o uso de formas de inspiração clássica, como a epopéia (longo poema narrativo a respeito de uma magna aventura nacional), a ode (poema de exaltação), a elegia (composição inspirada em sentimentos tristes), a écloga (composição amorosa de ambientação pastoril) e a epístola (composição poética em forma de carta). Formas recentes, surgidas no contexto do Humanismo, como o verso decassílabo (chamado de medida nova em oposição às redondilhas) e o soneto alcançaram máximo desenvolvimento e divulgação.

Em Portugal, o principal introdutor do Renascimento foi o poeta Sá de Miranda, que testemunhou o desenvolvimento das novas práticas artísticas na Itália e as divulgou em Portugal a partir de sua volta à pátria em 1525. Em termos artísticos, entretanto, o maior nome do Classicismo português é o de Luís de Camões.

 

Luís de Camões (1524?-1580)

 

Pouco se sabe ao certo sobre as origens de Luís de Camões. De família nobre empobrecida, teria ficado órfão desde menino, tendo recebido orientação de leituras clássicas da parte de um tio que era religioso. É descrito como pessoa temperamental, tendo vivido de maneira sempre agitada, em meio a brigas, dívidas, amores infelizes. Por várias vezes esteve preso; outras, entrou na vida militar por necessidade ou punição. Viveu em exílio na África, Índia e China por um total de dezessete anos. Sua obra, de caráter enciclopédico, engloba todos os temas e formas conhecidos na literatura ocidental até a época em que viveu. Escreveu redondilhas, canções, odes, epístolas, éclogas, sonetos, teatro e epopéia. Tratou de temas como o amor, o destino, a morte, a natureza, Deus, a mulher, a arte. Entretanto, viu publicados apenas Os Lusíadas e alguns poemas líricos. O ano de sua morte marcou também a perda da autonomia de Portugal para a coroa espanhola; 10 de junho, o dia em que morreu, é a data nacional portuguesa.

 

1. Camões épico

 

A. A estrutura épica de Os Lusíadas, de Luís de Camões:

 

                O poema é composto de 8816 versos decassílabos heróicos (com cesura na 2ª ou 3ª ou 4ª e 6ª e 10ª sílabas), formando 1102 estrofes em oitava rima, ou seja, de oito versos; o esquema de rimas é abababcc; as partes em que se divide, imitando a estrutura da epopéia clássica greco-latina, são as seguintes:

 

  1. PROPOSIÇÃO: Canto I, estrofes 1 a 3.
  2. INVOCAÇÃO: Canto I, estrofes 4 e 5.
  3. DEDICATÓRIA: Canto I, estrofes 6 a 18.
  4. NARRAÇÃO: do Canto I, estrofe 19, até o Canto X, estrofe 144.
  5. EPÍLOGO: Canto X, estrofes 145 a 156.

 

B. Os principais episódios do poema:

 

  1. Canto I (Proposição): os temas do poema: feitos de armas, história portuguesa, propagação da fé católica, herói coletivo
  2. Canto I (Invocação): passagem do lírico ao épico
  3. Canto I (Dedicatória): o imenso império de D. Sebastião (est. 8); as façanhas verdadeiras (est.11)
  4. Canto I (Narração): começo in media res (est. 19); Concílio dos Deuses (est. 20)
  5. Canto III: episódio de Inês de Castro (est. 118-137): lirismo e oratória
  6. Canto IV: episódio do Velho do Restelo (est. 94-104): peça de oratória que representa a voz dos que ficaram em Portugal
  7. Canto V: episódio do Gigante Adamastor (est. 37-60): os aspectos épicos e líricos do retrato da nacionalidade portuguesa no meio do livro e da viagem de Vasco da Gama
  8. Canto VI: episódio dos Doze de Inglaterra (est. 42-68): o caráter heróico dos portugueses e a veracidade de suas façanhas
  9. Canto VII: epifonema: (est. 78-87) o lamento do poeta por sua vida miserável e a reafirmação da sublimidade de seu canto
  10. Canto IX: episódio da Ilha dos Amores (est. 38-84): lirismo
  11. Canto X: episódio da Máquina do Mundo (est. 77 a 142): representação do universo conhecido (ptolomaico) e do papel central de Portugal na história do mundo

Canto X: epílogo (est. 145-156): melancolia e repto final

 

C. Os Lusíadas, Canto V (episódio do Gigante Adamastor) (1572)

 

37 - Continua a navegação

 

"Porém já cinco Sóis eram passados

Que dali nos partíramos, cortando

Os mares nunca doutrem navegados,

Prósperamente os ventos assoprando,

Quando uma noite estando descuidados,

Na cortadora proa vigiando,

Uma nuvem que os ares escurece

Sobre nossas cabeças aparece.

 

38 - O Adamastor

 

"Tão temerosa vinha e carregada,

Que pôs nos corações um grande medo;

Bramindo o negro mar, de longe brada

Como se desse em vão nalgum rochedo.

— "Ó Potestade, disse, sublimada!

Que ameaço divino, ou que segredo

Este clima e este mar nos apresenta,

Que mor cousa parece que tormenta?" —

 

39

 

"Não acabava, quando uma figura

Se nos mostra no ar, robusta e válida,

De disforme e grandíssima estatura,

O rosto carregado, a barba esquálida,

Os olhos encovados, e a postura

Medonha e má, e a cor terrena e pálida,

Cheios de terra e crespos os cabelos,

A boca negra, os dentes amarelos.

 

40

 

"Tão grande era de membros, que bem posso

Certificar-te, que este era o segundo

De Rodes estranhíssimo Colosso,

Que um dos sete milagres foi do mundo:

Com um tom de voz nos fala horrendo e grosso,

Que pareceu sair do mar profundo:

Arrepiam-se as carnes e o cabelo

A mi e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo.

 

41 - Fala de Adamastor aos portugueses

 

"E disse: — "Ó gente ousada, mais que quantas

No mundo cometeram grandes cousas,

Tu, que por guerras cruas, tais e tantas,

E por trabalhos vãos nunca repousas,

Pois os vedados términos quebrantas,

E navegar meus longos mares ousas,

Que eu tanto tempo há já que guardo e tenho,

Nunca arados d'estranho ou próprio lenho:

42 - Fala do Adamastor

 

— "Pois vens ver os segredos escondidos

Da natureza e do úmido elemento,

A nenhum grande humano concedidos

De nobre ou de imortal merecimento,

Ouve os danos de mim, que apercebidos

Estão a teu sobejo atrevimento,

Por todo o largo mar e pela terra,

Que ainda hás de sojugar com dura guerra.

 

43 - Profecias do Adamastor

 

— "Sabe que quantas naus esta viagem

Que tu fazes, fizerem de atrevidas,

Inimiga terão esta paragem

Com ventos e tormentas desmedidas.

E da primeira armada que passagem

Fizer por estas ondas insofridas,

Eu farei d'improviso tal castigo,

Que seja mor o dano que o perigo.

 

44 - Bartolomeu Dias. Naufrágios.

 

— "Aqui espero tomar, se não me engano,

De quem me descobriu, suma vingança.

E não se acabará só nisto o dano

Da vossa pertinace confiança;

Antes em vossas naus vereis cada ano,

Se é verdade o que meu juízo alcança,

Naufrágios, perdições de toda sorte,

Que o menor mal de todos seja a morte.

 

45 - Dom Francisco de Almeida

 

— "É do primeiro Ilustre, que a ventura

Com fama alta fizer tocar os Céus,

Serei eterna e nova sepultura,

Por juízos incógnitos de Deus.

Aqui porá da Turca armada dura

Os soberbos e prósperos troféus;

Comigo de seus danos o ameaça

A destruída Quíloa com Mombaça.

 

46 - Manoel de Sousa de Sepúlveda

e sua mulher dona Leonor

 

— "Outro também virá de honrada fama,

Liberal, cavaleiro, enamorado,

E consigo trará a formosa dama

Que Amor por grã mercê lhe terá dado.

Triste ventura e negro fado os chama

Neste terreno meu, que duro e irado

Os deixará dum cru naufrágio vivos

Para verem trabalhos excessivos.

 

47

 

— "Verão morrer com fome os filhos caros,

Em tanto amor gerados e nascidos;

Verão os Cafres ásperos e avaros

Tirar à linda dama seus vestidos;

Os cristalinos membros e perclaros

A calma, ao frio, ao ar verão despidos,

Depois de ter pisada longamente

Co'os delicados pés a areia ardente.

 

48

 

— "E verão mais os olhos que escaparem

De tanto mal, de tanta desventura,

Os dois amantes míseros ficarem

Na férvida e implacável espessura.

Ali, depois que as pedras abrandarem

Com lágrimas de dor, de mágoa pura,

Abraçados as almas soltarão

Da formosa e misérrima prisão." —

 

49 - Adamastor narra ao Gama sua vida

 

"Mais ia por diante o monstro horrendo

Dizendo nossos fados, quando alçado

Lhe disse eu: — Quem és tu? que esse estupendo

Corpo certo me tem maravilhado.—

A boca e os olhos negros retorcendo,

E dando um espantoso e grande brado,

Me respondeu, com voz pesada e amara,

Como quem da pergunta lhe pesara:

 

50

 

— "Eu sou aquele oculto e grande Cabo,

A quem chamais vós outros Tormentório,

Que nunca a Ptolomeu, Pompônio, Estrabo,

Plínio, e quantos passaram, fui notório.

Aqui toda a Africana costa acabo

Neste meu nunca visto Promontório,

Que para o Pólo Antarctico se estende,

A quem vossa ousadia tanto ofende.

 

51 - Guerra dos Gigantes contra Júpiter

 

— "Fui dos filhos aspérrimos da Terra,

Qual Encélado, Egeu e o Centimano;

Chamei-me Adamastor, e fui na guerra

Contra o que vibra os raios de Vulcano;

Não que pusesse serra sobre serra,

Mas conquistando as ondas do Oceano,

Fui capitão do mar, por onde andava

A armada de Netuno, que eu buscava.

 

52 - Amor de Adamastor por Tétis

— "Amores da alta esposa de Peleu

Me fizeram tomar tamanha empresa.

Todas as Deusas desprezei do céu,

Só por amar das águas a princesa.

Um dia a vi coas filhas de Nereu

Sair nua na praia, e logo presa

A vontade senti de tal maneira

Que ainda não sinto coisa que mais queira.

 

53

 

— "Como fosse impossível alcançá-la

Pela grandeza feia de meu gesto,

Determinei por armas de tomá-la,

E a Doris este caso manifesto.

De medo a Deusa então por mim lhe fala;

Mas ela, com um formoso riso honesto,

Respondeu: — "Qual será o amor bastante

De Ninfa que sustente o dum Gigante?

 

54 - Adamastor e Tétis

 

— "Contudo, por livrarmos o Oceano

De tanta guerra, eu buscarei maneira,

Com que, com minha honra, escuse o dano."

Tal resposta me torna a mensageira.

Eu, que cair não pude neste engano,

(Que é grande dos amantes a cegueira)

Encheram-me com grandes abondanças

O peito de desejos e esperanças.

 

55

 

— "Já néscio, já da guerra desistindo,

Uma noite de Dóris prometida,

Me aparece de longe o gesto lindo

Da branca Tétis única despida:

Como doido corri de longe, abrindo

Os braços, para aquela que era vida

Deste corpo, e começo os olhos belos

A lhe beijar, as faces e os cabelos.

 

56

 

— "Ó que não sei de nojo como o conte!

Que, crendo ter nos braços quem amava,

Abraçado me achei com um duro monte

De áspero mato e de espessura brava.

Estando com um penedo fronte a fronte,

Que eu pelo rosto angélico apertava

Não fiquei homem não, mas mudo e quedo,

E junto dum penedo outro penedo.

 

57 - Adamastor e Tétis

 

— "Ó Ninfa, a mais formosa do Oceano,

Já que minha presença não te agrada,

Que te custava ter-me neste engano,

Ou fosse monte, nuvem, sonho, ou nada?

Daqui me parto irado, e quase insano

Da mágoa e da desonra ali passada,

A buscar outro inundo, onde não visse

Quem de meu pranto e de meu mal se risse,

 

58 - Castigo de Adamastor

 

— "Eram já neste tempo meus irmãos

Vencidos e em miséria extrema postos;

E por mais segurar-se os Deuses vãos,

Alguns a vários montes sotopostos:

E como contra o Céu não valem mãos,

Eu, que chorando andava meus desgostos,

Comecei a sentir do fado inimigo

Por meus atrevimentos o castigo.

 

59 - Transformação de Adamastor no

Cabo das Tormentas

 

— "Converte-se-me a carne em terra dura,

Em penedos os ossos se  fizeram,

Estes membros que vês e esta figura

Por estas longas águas se estenderam;

Enfim, minha grandíssima estatura

Neste remoto cabo converteram

Os Deuses, e por mais dobradas mágoas,

Me anda Tétis cercando destas águas." —

 

60

 

"Assim contava, e com um medonho choro

Súbito diante os olhos se apartou;

Desfez-se a nuvem negra, e com um sonoro

Bramido muito longe o mar soou.

Eu, levantando as mãos ao santo coro

Dos anjos, que tão longe nos guiou,

A Deus pedi que removesse os duros

Casos, que Adamastor contou futuros.

 

Principais características:

  1. preocupação com a ciência e a veracidade da afirmações
  2. utilização estética da mitologia
  3. presença do maravilhoso (o sobrenatural)
  4. referências ao mundo clássico greco-latino
  5. referências aos perigos das viagens e ao custo humano das navegações
  6. afirmação do caráter heróico e pioneiro dos portugueses (épico)
  7. afirmação do caráter sentimental, amoroso do português (lírico)
  8. descrição da dama clássica
  9. transfiguração da realidade em arte (a convenção renascentista)
  10. concepção platônica do corpo e da vida
  11. introdução do gênero lírico na epopéia
  12. desenvolvimento de uma teoria do amor
  13. concepção de que o sentimento vence a força

 

2. Camões lírico

 

  1. “Soneto I”

 

Enquanto quis Fortuna que tivesse

Esperança de algum contentamento,

O gosto de um suave pensamento

Me fez que seus efeitos escrevesse.

 

Porém, temendo Amor que aviso desse

Minha escritura a algum juízo isento,

Escureceu-me o engenho no tormento,

Para que seus enganos não dissesse.

 

Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos

A diversas vontades! Quando lerdes

Num breve livro casos tão diversos,

 

Verdades puras são, e não defeitos...

E sabei que, segundo o amor tiverdes,

Tereis o entendimento de meus versos.

 

Principais características:

a. é um soneto

  1. versos decassílabos sáficos (cesura na 4ª, 8ª e 10ª)
  2. rimas: abba abba cdc cdc
  3. lirismo, isto é, expressão de uma subjetividade
  4. racionalismo
  5. neoplatonismo
  6. referências à mitologia
  7. apresentação da chave de leitura da obra lírica; por isso, é chamado de soneto exordial
  8. importância da experiência (sentimental) para o julgamento (da obra lírica): esse é um raciocínio renascentista
  9. a delimitação do público: só os que sentem amor

 

 

  1. “Descalça vai pera a fonte” (um exemplo de medida velha)

 

Mote

Descalça vai pera a fonte

Lianor pela verdura;

Vai fermosa, e não segura.

 

Voltas

 

Leva na cabeça o pote,

O testo nas mãos de prata,

Cinta de fina escarlata,

Sainho de chamalote;

Traz a vasquinha de cote,

Mais branca que a neve pura:

Vai fermosa, e não segura.

 

Descobre a touca a garganta,

Cabelos de ouro entrançado,

Fita de cor de encarnado,

Tão linda que o mundo espanta,

Chove nela graça tanta,

Que dá graça à fermosura:

Vai fermosa, e não segura.

 

Testo: tampa do pote; escarlata: tecido vermelho; chamalote: tecido de lã e seda; vasquinha: saia com muitas pregas na cintura, usada por cima de toda a roupa; de cote: de uso diário; encarnado: vermelho

 

Principais características:

  1. inspiração medieval: uso da redondilha maior (verso de 7 sílabas), desenvolvimento de um mote, personagem feminina, popular e trabalhador, ambientação rural, refrão,
  2. ideal de mulher renascentista: bela, loura, branca, graciosa,
  3. fixação de um quadro de beleza popular
  4. captação sensorial do cotidiano da jovem
  5. ritmo fácil, musical
  6. beleza fugaz como a da jovem que passa
  7. exemplo da vertente da poesia de pura arte, ourivesaria de sentimentos e temas

 

  1. “Um mover de olhos, brando e piedoso”

 

Um mover de olhos, brando e piedoso,

Sem ver de quê; um riso brando e honesto,

Quase forçado; um doce e humilde gesto,

De qualquer alegria duvidoso;

 

Um desejo quieto e vergonhoso;

Um repouso gravíssimo e modesto;

Uma pura bondade, manifesto

Indício da alma, limpo e gracioso;

 

Um encolhido ousar; uma brandura;

Um medo sem ter culpa; um ar sereno;

Um longo e obediente sofrimento;

 

Esta foi a celeste formosura

Da minha Circe, e o mágico veneno

Que pôde transformar meu pensamento.

 

Principais características:

  1. os motivos renascentistas: o retrato de mulher (mais espiritual que físico), a valorização do indivíduo e a busca de uma síntese universal, o equilíbrio dos diversos valores no espírito da mulher, o olhar
  2. poema filosófico
  3. mulher serena, apolínea, imperturbável, idealizada: a receita da Mulher universal
  4. a inefabilidade da mulher
  5. referências clássicas
  6. sobriedade da linguagem
  7. exemplo da vertente do lirismo confessional: a poesia de reflexão

 

  1. “Alma minha gentil, que te partiste”

 

Alma minha gentil, que te partiste

Tão cedo desta vida, descontente,

Repousa lá no Céu eternamente

E viva eu cá na terra sempre triste.

 

Se lá no assento etéreo, onde subiste,

Memória desta vida se consente,

Não te esqueças daquele amor ardente

Que já nos olhos meus tão puro viste.

 

E se vires que pode merecer-te

Alguma cousa a dor que me ficou

Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

 

Roga a Deus, que teus anos encurtou,

Que tão cedo de cá me leve a ver-te,

Quão cedo de meus olhos te levou.

 

Principais características:

  1. o tema do desconcerto do mundo
  2. o tema da brevidade da existência humana
  3. impossibilidade da realização do amor: neoplatonismo
  4. idealização da mulher
  5. espiritualização do amor: neoplatonismo
  6. aplicação da teoria platônica das reminiscências
  7. o motivo renascentista do olhar
  8. a dor como fonte de merecimento: a ascese
  9. o petrarquismo

 

* O soneto abaixo é de Francesco Petrarca (1304-1374), poeta italiano do Humanismo, considerado o mais importante lírico do ocidente; observe como ele demonstra que é nítida a influência petrarquista sobre Camões:

 

A alma minha gentil que agora parte

Tão cedo deste mundo à outra vida,

Terá certo no céu grata acolhida,

Indo habitar sua mais beata parte.

 

Ficando entre o terceiro lume e Marte,

Será a vista do sol escurecida,

Virá. depois, muita alma ao céu subida,

Vê-la — portento de natura e arte.

 

E se pousasse entre Mercúrio e Lua,

Brilhara mais do que eles nossa bela,

Como só se espalhara a fama sua.

 

A Marte certo não chegara ela.

Mas se mais alto o seu vulto flutua,

Vencera Jove e qualquer outra estrela.

 

  1. “Sete anos de pastor Jacó servia”

 

Sete anos de pastor Jacó servia

Labão, pai de Raquel, serrana bela;

Mas não servia ao pai, servia a ela,

E a ela só por prêmio pretendia.

 

Os dias, na esperança de um só dia,

Passava, contentando-se com vê-la;

Porém o pai, usando de cautela,

Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

 

Vendo o triste pastor que com enganos

Lhe fora negada a sua pastora,

Como se a não tivera merecida,

 

Começa de servir outros sete anos,

Dizendo: — Mais servira, se não fora

Para tão longo amor tão curta a vida!

 

Principais características:

  1. mimese: imitação da Bíblia (Gênese: XXIX) e de um soneto de Francesco Petrarca (poeta do Humanismo italiano)
  2. racionalismo
  3. amor platônico, espiritualizado, contemplativo,
  4. amor como uma força que engrandece o homem
  5. sobriedade lingüística

 

 

  1.  “Amor é fogo que arde sem se ver”

 

Amor é fogo que arde sem se ver;

é ferida que dói, e não se sente;

é um contentamento descontente;

é dor que desatina sem doer.

 

É um não querer mais que bem querer;

é um andar solitário entre a gente;

é nunca contentar-se de contente;

é um cuidar que ganha em se perder.

 

É querer estar preso por vontade;

é servir a quem vence, o vencedor;

é ter com quem nos mata, lealdade.

 

Mas como causar pode seu favor

nos corações humanos amizade,

se tão contrário a si é o mesmo Amor?

 

Principais características:

a.     conceituação do amor, não confissão sentimental

  1. dualismo que antecipa o Barroco
  2. intenso uso de antíteses que não chegam a uma síntese
  3. inefabilidade e paradoxo do amor

 

  1. “Busque Amor novas artes, novo engenho”

 

Busque Amor novas artes, novo engenho,

Para matar-me, e novas esquivanças;

Que não pode tirar-me as esperanças,

Que mal me tirará o que eu não tenho.

 

Olhai de que esperanças me mantenho!

Vede que perigosas seguranças!

Que não temo contrastes nem mudanças,

Andando em bravo mar, perdido o lenho.

 

Mas, conquanto não pode haver desgosto

Onde esperança falta, lá me esconde

Amor um mal, que mata e não se vê.

 

Que dias há que nalma me tem posto

Um não sei que, que nasce não sei onde,

Vem não sei como, e dói não sei por quê.

 

  1. Babel e Sião (ou “Sôbolos rios”)

 

Sôbolos rios que vão
Por Babilônia, me achei,
Onde sentado chorei
As lembranças de Sião
E quanto nela passei.

 

Ali, o rio corrente
De meus olhos foi manado;
E, tudo bem comparado,
Babilônia ao mal presente,
Sião ao tempo passado.

 

Ali, lembranças contentes
Na alma se representaram;
E minhas cousas ausentes
Se fizeram tão presentes
Como se nunca passaram.

 

Ali, depois de acordado,
Co rosto banhado em água,
Deste sonho imaginado,
Vi que todo o bem passado
Não é gosto, mas é mágoa.

 

E vi que todos os danos
Se causavam das mudanças
e as mudanças dos anos;
Onde vi quantos enganos
Faz o tempo às esperanças.

 

Ali vi o maior bem
Quão pouco espaço que dura;
O mal que depressa vem,
E quão triste estado tem
Quem se fia da ventura.

 

Vi aquilo que mais vale,
Que então se entende milhor,
Quando mais perdido for;
Vi ao bem suceder mal
E, ao mal, muito pior.

 

E vi com muito trabalho
Comprar arrependimento;
Vi nenhum contentamento,
E vejo-me a mim, que espalho
Tristes palavras ao vento.

 

Bem são rios estas águas
Com que banho este papel;
Bem parece ser cruel
Variedade de mágoas
E confusão de Babel.

 

Como homem que, por exemplo,
Dos transes em que se achou,
Despois que a guerra deixou,
Pelas paredes do templo
Suas armas pendurou:

 

Assim, depois que assentei
Que tudo o tempo gastava,
Da tristeza que tomei,
Nos salgueiros pendurei
Os órgãos com que cantava.

 

Aquele instrumento ledo
Deixei da vida passada,
Dizendo: — Música amada,
Deixo-vos neste arvoredo,
À memória consagrada.

 

Frauta minha que, tangendo,
Os montes fazíeis vir
Pra onde estáveis correndo,
E as águas, que iam descendo,
Tornavam logo a subir,

 

Jamais vos não ouvirão
Os tigres, que se amansavam;
E as ovelhas que pastavam,
Das ervas se fartarão
Que por vos ouvir deixavam.

 

Já não fareis docemente
Em rosa tornar abrolhos
Na ribeira florescente;
Nem poreis freio à corrente,
E mais se for dos meus olhos.

 

Não movereis a espessura,
Nem podereis já trazer
Atrás de vós a fonte pura,
Pois não pudestes mover
Desconcertos da ventura.

 

Ficareis oferecida
À Fama, que sempre vela,
Frauta de mim tão querida;
Porque, mudando-se a vida,
Se mudam os gostos dela.

 

Acha a tenra mocidade
Prazeres acomodados,
E logo a maior idade
Já sente por pouquidade
Aqueles gostos passados.

 

Um gosto que hoje se alcança,
Amanhã já o não vejo:
Assim nos traz a mudança
De esperança em esperança
E de desejo em desejo.

 

Mas, em vida tão escassa,
Que esperança será forte?
Fraqueza de humana sorte,
Que quanto da vida passa
Está recitando a morte!

 

Mas deixar nesta espessura
O canto da mocidade!
Não cuide a gente futura
Que será obra da idade
O que é força da ventura.

 

Que idade, tempo, o espanto
De ver quão ligeiro passe,
Nunca em mim puderam tanto,
Que, posto que deixe o canto,
A causa dele deixasse.

 

Mas em tristezas e nojos,
Em gosto e contentamento,
Por sol, por neve, por vento,
Tendré presente á los ojos
Por quien muero tan contento.

 

Órgãos e frauta deixava,
Despojo meu tão querido,
No salgueiro que ali estava,
Que pera troféu ficava
De quem me tinha vencido.

 

Mas lembranças da afeição
Que ali cativo me tinha,
Me perguntaram então:
Que era da música minha
Que eu cantava em Sião?
 

Que foi daquele cantar
Das gentes tão celebrado?
Porque o deixava de usar?
Pois sempre ajuda a passar
Qualquer trabalho passado.

 

Canta o caminhante ledo
No caminho trabalhoso,
Por entre o espesso arvoredo;
E de noite o temeroso,
Cantando, refreia o medo.

 

Canta o preso docemente,
Os duros grilhões tocando;
Canta o segador contente,
E o trabalhador, cantando,
O trabalho menos sente.

 

Eu, que estas cousas senti
Na alma, de mágoas tão cheia,
Como dirá, respondi,
Quem alheio está de si
Doce canto em terra alheia?

 

Como poderá cantar
Quem em choro banha o peito?
Porque, se quem trabalhar
Canta por menos cansar,
Eu só descansos enjeito.

 

Que não parece razão
Nem parece cousa idônea,
Por abrandar a paixão,
Que cantasse em Babilônia
As cantigas de Sião.

 

Que, quando a muita graveza
De saudade quebrante
Esta vital fortaleza,
Antes moura de tristeza
Que, por abrandá-la, cante.

 

Que, se o fino pensamento
Só na tristeza consiste,
Não tenho medo ao tormento:
Que morrer de puro triste,
Que maior contentamento?

 

Nem na frauta cantarei
O que passo e passei já,
Nem menos o escreverei;
Porque a pena cansará
E eu não descansarei.

 

Que, se a vida tão pequena
Se acrescenta em terra estranha,
E se Amor assim o ordena,
Razão é que canse a pena
De escrever pena tamanha.

 

Porém se, pera assentar
O que sente o coração,
A pena já me cansar,
Não canse pera voar
A memória em Sião.

 

Terra bem-aventurada,
Se, por algum movimento,
Da alma me fores mudada,
Minha pena seja dada
A perpétuo esquecimento.

 

A pena deste desterro,
Que eu mais desejo esculpida
Em pedra ou em duro ferro,
Essa nunca seja ouvida,
Em castigo do meu erro.

 

E se eu cantar quiser,
Em Babilônia sujeito,
Hierusalém, sem te ver,
A voz, quando a mover,
Se me congele no peito.

 

A minha língua se apegue
Às fauces, pois te perdi,
Se, enquanto viver assi,
Houver tempo em que te negue
Ou que me esqueça de ti!

 

Mas, ó tu, terra de Glória,
Se eu nunca vi tua essência,
Como me lembras na ausência?
Não me lembras na memória,
Senão na reminiscência.

 

Que a alma é tábua rasa
Que com a escrita doutrina
Celeste tanto imagina,
Que voa da própria casa
E sobe à Pátria divina.

 

Não é logo a saudade
Das terras onde nasceu
A carne, mas é do Céu,
Daquela santa Cidade
De onde esta alma descendeu.

 

E aquela humana figura,
Que cá me pôde alterar,
Não é quem se há-de buscar:
É o raio da Fermosura
Que só se deve de amar.

 

Que os olhos e a luz que ateia
O fogo que cá sujeita,
— Não do sol, mas da candeia —
É sombra daquela idéia
Que em Deus está mais perfeita.

 

E os que cá me cativaram
São poderosos afeitos
Que os corações têm sujeitos;
Sofistas que me ensinaram
Maus caminhos por direitos.

 

Destes o mando tirano
Me obriga, com desatino,
A cantar, ao som do dano,
Cantares de amor profano
Por versos de amor divino.

 

Mas eu, lustrado co santo
Raio, na terra de dor,
De confusão e de espanto,
Como hei-de cantar o canto
Que só se deve ao Senhor?

 

Tanto pode o benefício
Da Graça, que dá saúde,
Que ordena que a vida mude:
E o que eu tomei por vício
Me faz grau pera a virtude.

 

E faz que este natural
Amor, que tanto se preza,
Suba da sombra ao real,
Da particular beleza
Pera a Beleza geral.

 

Fique logo pendurada
A frauta com que tangi,
Ó Hierusalém sagrada,
E tome a lira dourada
Pera só cantar de ti;

 

Não cativo e ferrolhado
Na Babilônia infernal,
Mas dos vícios desatado
E cá desta a ti levado,
Pátria minha natural.

 

E se eu mais der a cerviz
A mundanos acidentes,
Duros, tiranos e urgentes,
Risque-se quanto já fiz
Do grão livro dos viventes.

 

E, tomando já na mão
A lira santa e capaz
Doutra mais alta invenção,
Cale-se esta confusão,
Cante-se a visão da paz!

 

Ouça-me o pastor e o rei,
Retumbe este acento santo,
Mova-se no mudo espanto;
Que do que já mal cantei
A palinódia já canto.

 

A vós só me quero ir,
Senhor e grão Capitão
Da alta torre de Sião,
À qual não posso subir,
Se me vós não dais a mão.

 

No grão dia singular
Que na lira o douto som
Hierusalém celebrar,
Lembrai-vos de castigas
Os ruins filhos de Edom.

 

Aqueles que tintos vão
No pobre sangue inocente,
Soberbos co poder vão,
Arrasai-os igualmente,
Conheçam que humanos são.

 

E aquele poder tão duro
Dos afeitos com que venho,
Que incendem a alma e engenho;
Que já me entraram o muro
Do livre alvídrio que tenho;

 

Estes, que tão furiosos
Gritando vêm a escalar-me,
Maus espíritos danosos,
Que querem como forçosos
Do alicerce derrubar-me,

 

Derrubai-os, fiquem sós,
De forças fracos, imbeles;
Porque não podemos nós
Nem com eles ir a Vós,
Nem sem Vós tirar-nos deles.

 

Não basta minha fraqueza
Pera me dar defensão,
Se Vós, santo Capitão,
Nesta minha fortaleza
Não puserdes guarnição.

 

E tu, ó carne que encantas,
Filha de Babel tão feia,
Toda de misérias cheia,
Que mil vezes te levantas
Contra quem te senhoreia,

 

Beato só pode ser
Quem com a ajuda celeste
Contra ti prevalecer,
E te vier a fazer
O mal que lhe tu fizeste;

 

Quem com disciplina crua
Se fere mais que uma vez,
Cuja alma, de vícios nua,
Faz nódoas na carne sua,
Que já a carne na alma fez

 

E beato quem tomar
Seus pensamentos recentes
E em nascendo os afogar,
Por não virem a parar
Em vícios graves e urgentes;

 

Quem com eles logo der
Na pedra do furor santo
E, batendo, os desfizer
Na Pedra, que veio a ser
Enfim cabeça do Canto;

 

Quem logo, quando imagina
Nos vícios da carne má,
Os pensamentos declina
Àquela carne divina
Que na Cruz esteve já;

 

Quem do vil contentamento
Cá deste mundo visível,
Quanto ao homem for possível,
Passar logo o entendimento
Pera o mundo inteligível,

 

Ali achará alegria
Em tudo perfeita e cheia
De tão suave harmonia,
Que nem, por pouca, escasseia,
Nem, por sobeja, enfastia.

 

Ali verá tão profundo
Mistério na suma Alteza,
Que, vencida a Natureza,
Os mores faustos do Mundo
Julgue por maior baixeza.

 

Ó tu, divino aposento,
Minha Pátria singular,
Se só com te imaginar
Tanto sobe o entendimento,
Que fará, se em ti se achar?

 

Ditoso de quem se partir
Pera ti, terra excelente,
Tão justo e tão penitente,
Que, despois de a ti subir,
Lá descanse eternamente!
 

 

 

 

 

Salmo 136 (137 na contagem Protestante),

que inspirou o poema “Babel e Sião”

 

Tradução: Pe. Leonel Franca (Edição Ecumênica da Barsa, 1975) 
  

1 Às margens dos rios da Babilônia, 
   Sentávamos e chorávamos, 
   Ao nos lembrarmos de Sião.

2 Nos salgueiros daquelas terras, 
   Penduramos as nossas harpas.

3 E ali os que nos levaram cativos 
   Pediam-nos que lhes cantássemos um canto, 
   E os que nos oprimiam, que fôssemos alegres: 
   "Cantai-nos algum dos cânticos de Sião!"

4 Como haveríamos de cantar um cântico do Senhor 
   Em terra estranha?

5 Se me esquecer de ti, ó Jerusalém, 
   Esqueça-me a minha direita.

6 Apegue-se-me a língua ao paladar 
   Se me não lembrar de ti, 
   Se não puser a Jerusalém 
   Acima de todas as minhas alegrias.

7 Contra os filhos de Edom, lembrai-Vos, Senhor 
   Do dia de Jerusalém. 
   Eles diziam: "Arrasai, arrasai-a até os fundamentos!"

8 Filha de Babilônia, a devastadora, 
   Ditoso aquele que te der o pago 
   Do mal que nos fizestes sofrer!

9 Ditoso aquele que tomar e esmagar, 
   Contra uma pedra, os teus filhos.  
 
 

 

 

 

 

 

 

 

IV. BARROCO (1580-1756)

 

O estilo barroco reflete o panorama político, econômico e religioso da Europa ao redor do século 17. O capitalismo mercantil está no seu auge. Lutero e Calvino lideram a Reforma protestante. A Igreja Católica inicia a Contra-Reforma, procurando restaurar sua autoridade atingida. A Companhia de Jesus domina o ensino, combate o paganismo e o racionalismo renascentista. O tribunal da Inquisição emite listas de obras proibidas, entre as quais estão as de Gil Vicente e Sá de Miranda.

O século 17, portanto, é um tempo de conflitos e contradições.

 

As principais características da arte barroca são:

 

  1. contraste: contraposição de temas, de assuntos, de motivos e de elementos expressivos, tais como a oposição entre a vida terrena e a vida eterna, espiritualidade e materialidade etc.;
  2. cultismo: uso exagerado de imagens de figuras de linguagem, de metáforas difíceis e de floreios literários, tudo isso com a intenção de tornar rica a expressão;
  3. conceptismo: cultivo de idéias muito sutis, argumentações complexas, raciocínios engenhosos;
  4. religiosidade: repetida freqüência de assuntos envolvendo a problemática religiosa da época;
  5. sensualismo: contraposição à característica anterior: ênfase dada aos aspectos táteis, visuais, sensitivos, tanto em relação à Natureza como ao corpo humano;
  6. pessimismo: nascido da oposição frontal feita entre o corpo e a alma, o eu e o mundo, o Catolicismo e a Reforma;
  7. culto da solidão: o artista, o poeta é um ser especial, que se isola num mundo particular, com esta característica, o Barroco está na raiz do futuro movimento romântico;
  8. transitoriedade da vida;
  9. preocupação constante com a morte, tal qual na Idade Média;
  10. gosto pelo grandioso, sangrento e espetáculo trágico;
  11. tensão emocional: o homem já não se orienta pela razão, mas sim por sentimentos e emoções violentas.

 

1. Poemas de D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666)

 

De família nobre, D. Francisco Manuel de Melo, nasceu em Lisboa. Estudou com os jesuítas, participou de campanhas militares e missões diplomáticas, freqüentou as cortes de Lisboa e Madri, foi preso e exilado, elegeu-se deputado. Pertencia à Academia dos Generosos, de espírito cortês, amaneirado, engenhoso. Escreveu poesia, teatro, historiografia, prosa doutrinária; suas principais obras são Odes métricas (1665), que reúne seus poemas em português e castelhano, e Carta de guia de casados (1650), onde discorre sobre o casamento perfeito.

 

a. “Apólogo da morte”

 

Vi eu um dia a Morte andar folgando

Por um campo de vivos, que a não viam.

Os velhos, sem saber o que faziam,

A cada passo nela iam topando.

 

Na mocidade os moços confiando,

Ignorantes da morte, a não temiam.

Todos cegos, nenhuns se lhes desviam;

Ela a todos co dedo os vai contando.

 

Então, quis disparar, e os olhos cerra:

Tirou, e errou! Eu, vendo seus empregos

Tão sem ordem, bradei: Tem-te homicida!

 

Voltou-se, e respondeu: Tal vai de guerra!

Se vós todos andais comigo cegos,

Que esperais que convosco ande advertida?

 

Principais características:

a. apólogo: narrativa curta, alegórica, contendo uma moral ou conceito a ser exposto

b. reflexão sobre a morte e a vida

c. conceptismo: a imagem (a alegoria) está a serviço da comunicação do conceito

d. temas barrocos por excelência: a fugacidade da vida, a decomposição de tudo, a irrelevância dos atos humanos

 

b. “Antes da confissão”

 

Eu que faço? que sei? Que vou buscando?

Conto, lugar, ou tempo a esta fraqueza?

Tenho eu mais que acusar, por mais firmeza,

Toda a vida, sem mais como, nem quando?

 

Se cuidando, Senhor, falando, obrando,

Te ofenda minha ingrata natureza,

Nascer, viver, morrer, tudo é torpeza.

Donde vou? donde venho? donde ando?

 

Tudo é culpa, ó bom Deus! Não uma e uma

Descubro ante os teus olhos. Toda a vida

Se conte por delito e por ofensa.

 

Mas que fora de nós, se esta, se alguma

Fora mais que uma gota, a ser medida

Co largo mar de tua graça imensa?

 

Principais características:

a. teocentrismo

b. exame de consciência à luz da religião

c. o tema barroco da dúvida

d. a existência humana como culpa

 

2.  A poesia das revistas barrocas

 

a. “Lampadario de crystal”

 

Alpe luzido, Luminar nevado,

Pompa da Regia Sala,

Thesouro no valor, brinco na gala

Onde a materia vasta, a sutil arte

Fazendo illustre excesso,

O preço abate sublimando o preço:

Confusão porém clara

Da luzida no Ceo, na terra escura

Sciencia, que reparte

Fortuna a Venus, & infortunio a Marte;

Porque quando separa

Do crystalino Ceo, Ceo estrellado

Vosso puro crystal, vossa luz pura

Une fazendo proprio o peregrino

Com estrellado Ceo, Ceo crystallino.

Lampada Soberana,

Dignissima do templo de Diana,

Mas se nelle tivera

Vossa luz sua esfera

Com tal excesso brilha,

Brilha taõ sem exemplo,

Que fora mais estranha maravilha

A lampada, que o Templo;

Que fora o Templo, emulação do polo

De Diana por si, por vós de Apollo.

 

                                                                              Jerónimo Baía - Fênix Renascida, tomo III, pp. 1-2 da I.ª ed.

 

Principais características:

a. linguagem rebuscada, preciosa, artificial, com inversões sintáticas, hipérboles, antíteses, metáforas, comparações

b. retrato exaltatório de uma beleza plástica

c. construção de uma hipérbole

d. estética dos contrários

e. estilo cultista, pelo refinamento e excesso formais, com a intenção de impressionar os sentidos, não o pensamento

f. utilização estética da mitologia

 

3. Sóror Mariana Alcoforado (1640-1723)

 

Religiosa nascida em Beja, onde também faleceu. Muito jovem, ingressou no Convento de Nossa Senhora da Conceição, de sua cidade natal, onde chegou a ser escrivã e vigária.

São-lhe atribuídas as Cartas de amor, publicadas originalmente em francês, em Paris, no ano de 1669, com o título de Lettres portugaises traduites em français e que conheceram várias edições em outros centros europeus; só viriam a ser traduzidas (ou retraduzidas?) em português em 1810.

As cartas tratam da ligação erótica de uma religiosa portuguesa com um militar francês que logo a abandona, nelas, a missivista dá vazão a seu trama íntimo, ao mesmo tempo em que o examina com uma certa dose de racionalidade e literariedade. Em seu estilo, chama a atenção a presença de figuras como a antítese e a hipérbole, tão ao gosto do Barroco, já que expressam muito a contento a gama de experiências e sentimentos contraditórios e excessivos que marcam a época.

 

 

a. Trechos da terceira das Cartas de amor

 

                Que vai agora ser de mim? Que pensas tu que eu faça? Quão longe me vejo de quanto imaginava! Esperava que me escrevesses de todos os lugares por onde passasses; que as tuas cartas fossem muito longas, que alimentasses a minha paixão com a esperança de tornar a ver-te; que uma confiança absoluta na tua fidelidade me desse uma espécie de repouso, e que ficaria assim num estado bastante suportável, sem extremos de dor. Tinha até formado uns ligeiros projetos de fazer todo o esforço, de que fosse capaz, para curar-me, se pudesse saber com certeza real que me havias esquecido inteiramente. A tua ausência, alguns rebates de devoção, o temor de arruinar inteiramente o que me resta de saúde com tamanhas vigílias, mortificações, as escassas mostras de que regressasses, a frieza do teu amor, os teus últimos adeuses, a tua ida fundamentada em projetos tão mal forjados, e mil outras razões tão boas como inúteis pareciam oferecer-me, caso houvesse mister, um refúgio seguro. Não tendo enfim que batalhar senão contra mim própria, nunca pudera suspeitar como sou fraca e quanto sofro agora.

                Ai! que lástima tão grande a minha! não partilho contigo as minhas dores; sou eu só a desgraçada! Mata-me esta idéia, e morro com terror de que nunca te desses com a suprema ternura aos nossos mais íntimos prazeres! Agora sim, conheço a ma fé de todos os teus transportes. Traíste-me todas as vezes que te disseste arrebatado por estares só comigo! Só às minhas importunações devo os teus desvelos e solicitudes; tinhas traçado a sangue-frio o teu propósito de me abrasar; consideraste a minha paixão como uma vitória, sem que o teu coração fosse jamais profundamente comovido...

                Pois tu não sentes como és desgraçado e falho de delicadeza, por não saber aproveitar doutra maneira os meus transportes? E pode ser que, com tamanho amor, eu não pudesse fazer-te feliz inteiramente?! Lastimo, por amor de ti apenas, os prazeres infinitos que perdeste. Era pois fatal que tu não quisesse lográ-los? Ah! se os conhecesses, bem por certo verias como são mais profundos que o de me haveres seduzido e experimentaras que sentimos ventura bem mais enternecida em amar com violência do que em ser amado.

                Já não sei o que sou, nem que faço, nem o que desejo! Espedaçam-me mil comoções contrárias... Há lá mais lastimoso estado! Amo-te perdidamente e modero-me o bastante para não desejar que sejas assim atribulado... Matar-me-ia ou morreria de pura mágoa, se me certificasse que não tinhas o mínimo repouso e a tua vida era só pranto, mortificação e um enojo de tudo... Já me não basto às minhas dores; como era possível suportar aquela que me dessem os teu males, mil vezes para mim mais penetrantes?... Não, porém, que eu me resolva a desejar que nunca mais penses em mim; e, diga-se a verdade, tenho ciúmes furiosos de tudo quanto possa comover-te e dar-te gosto ou alegria em França.

                Não sei bem por que te escrevo. Terás decerto por mim apenas compaixão; mas sabe que a repilo!

                Contra mim própria me enfureço, ao refletir em tudo que te sacrifiquei. Perdi a reputação; expus-me ao furor dos meus; às leis severas da minha terra contra as religiosas, e à tua ingratidão, que me parece ainda a maior das desgraças.

                (...)

                Mais me parece que inda não me contentam estas dores, nem este desvairado amor, embora, - oh! coitada de mim! - me não possa iludir de que tu me contentas. Vivi: que deslealdade a minha! e faço tanto por conservar a vida, como por perdê-la!... Morro de vergonha! pois o meu desespero está só nestas cartas? Se te amasse tanto como mil vezes tenho dito, há quanto não teria morrido? Tenho-te enganado! És tu que te deves queixar de mim! Ai! por que não te queixas tu?! Pois eu vi-te partir; não posso Ter esperanças de que voltes: e respiro ainda. Traí-te! Peço-te perdão! Mas não! Não mo concedas! Trata-me severamente! Não aches os meus sentimentos bem violentos! Sê mais difícil de contentar! Ordena-me que eu morra de amor por ti!... Sim! Conjuro-te a que me socorras, para que, excedendo a fraqueza do meu sexo, acabe tanta hesitação com um ato de verdadeiro desespero.

                Um fim trágico obrigar-te-ia a pensar muitas vezes em mim; a minha memória ser-te-ia querida; e talvez te comovesse enfim essa morte extraordinária... E não seria melhor a morte do que este estado a que tu me reduziste?

                Adeus. Como eu quisera nunca te haver visto. Sinto profundamente a falsidade desta idéia e conheço, no mesmo instante em que a escrevo, que bem mais prezo, do que nunca te haver visto, ser desgraçada, amando-te. Consinto, pois, sem queixa nesta minha má sorte, já que não foi do teu agrado tê-la feito melhor. Adeus! promete-me, se eu morrer de amor, ter saudades de mim, e logre ao menos a desgraça violenta da paixão, apartar-te de tudo com desgosto.

                Essa consolação me bastará; e, se é fatal que eu te abandone para sempre, era meu único desejo não te deixar a outra. Pois não é certo, meu Amor, que não serias tão cruel que te servisses desse desespero, para tornar-te mais amado, gabando-te de haver causado a maior paixão que houve no mundo?

                Adeus, mais uma vez!... Escrevo-te cartas tão compridas! Não tenho consideração por ti! Peço-te perdão e ouso esperar que tenhas indulgência por esta pobre louca, que o não era, bem sabes, antes de te amar. Adeus, parece-me que falo em demasia do lastimoso estado em que me encontro. Mas, do fundo do coração, te agradeço o desespero que me causas e detesto a tranqüilidade em que vivia antes de conhecer-te. Adeus! A minha paixão aumenta a cada hora.

                Ai! quantas coisas tinha ainda para te dizer!...

 

Principais características:

a. confessionalismo sentimental

b. linguagem emocionalmente exaltada

c. predomínio de antíteses e hipérboles

d. introdução de linguagem racional em meio à exaltação

e. conflito entre o ideal e o real

f. conflito entre a religiosidade e a sensualidade

g. influências das cantigas de amigo e de amor

h. consciência da literariedade de seus sentimentos

i. o tema barroco da dúvida

j. a morte como solução

 

* Observe como o seguinte soneto, da poetisa francesa Louise Labé (1522-1566), trata de alguns temas presentes na escritura de Mariana Alcoforado, apesar de escrito no contexto do Renascimento:

 

Nem heróis como Ulisses e outros mais
Por mais sagazes e por mais divinos
Cheios de graça e louros peregrinos
Desafios provaram aos meus iguais.

Brilho desses olhos tão sensuais
Tanto inflamou meus sonhos femininos
Que para meus ardores repentinos
Não há remédio, se vós não m'o dais.

Ó dura sorte, que me faz igual
A quem pede socorro ao escorpião
Contra o veneno do mesmo animal.

Só peço que não me venha a fenecer
Esse desejo no meu coração
Porque, sem ele, é bem melhor morrer.
 

Trad. de Sérgio Duarte

 

 

V. ARCADISMO (1756-1825)

 

O Arcadismo ou Neoclassicismo é o período que caracteriza principalmente a segunda metade do século XVIII, quando se vivia o chamado Século das Luzes, em função do amplo movimento racionalista de renovação cultural, social, científica e filosófica denominado Iluminismo, que prepara a Revolução Francesa.

O Arcadismo, por isso, tem espírito nitidamente reformista, pretendendo reformular o ensino os hábitos, as atitudes sociais, uma vez que é a manifestação artística de um novo tempo e de uma nova ideologia.

A questão da natureza é fundamental no Arcadismo, refletindo um dos princípios básicos de Rousseau (1712-1778), filósofo e escritor francês que, no Emílio, defende que o homem nasce bom, mas se corrompe no contato com a sociedade, principalmente a urbana, tendo como única solução a busca de um contato maior com a natureza.

Outro autor que influenciou sobremaneira o pensamento e as atitudes do Arcadismo foi o poeta latino Horácio[113] (68 a.C-8a.C). Seu conceito do carpe diem, que consiste em gozar o dia, aproveitar ao máximo o momento presente, pois o tempo corre célere, foi uma posição reconhecida constantemente nos autores árcades. Também por influência de Horácio, os autores do Arcadismo cultivavam as idéias de busca do equilíbrio, do meio termo, da simplicidade; tal posição de eqüidistância entre dois pólos opostos, alcançada apenas ao se viver em contato com a natureza, revela a aplicação do princípio horaciano da aurea mediocritas (mediania dourada), segundo a qual o verdadeiro valor está no equilíbrio, não no extremismo.

Os modelos seguidos são os clássicos greco-latinos e os renascentistas; a mitologia pagã é retomada como elemento puramente estético, à maneira de Camões. É por isso que o arcadismo é também chamado de Neoclassicismo.

Inspirados, ainda uma vez, por Horácio e seu fugere urbem (fugir da cidade), por um lado, e, por outro, pela idéia rousseauniana do “bom selvagem”, os árcades se voltam para a natureza em busca de uma vida simples, bucólica, pastoril. Claro está que se trata de uma fuga apenas artística, já que os principais árcades, tanto em Portugal quanto no Brasil, por exemplo, eram burgueses e profissionais citadinos. Deriva daí a técnica árcade do fingimento poético, manifestado pelo uso de pseudônimos pastoris, como o Elmano Sadino de Bocage, o Dirceu de Tomás António Gonzaga, o Glauceste Satúrnio de Cláudio Manoel da Costa.

Em resumo, as características fundamentais do arcadismo são: a volta aos padrões clássicos da Antigüidade e da Renascença; a simplicidade; a racionalidade; a poesia bucólica, pastoril; o fingimento poético e o uso de pseudônimos. Quanto ao aspecto formal, predominam o soneto e o verso decassílabo.

Em Portugal, o principal nome do Arcadismo é o de Manuel Maria L’Hedoux Barbosa du Bocage.

 

1. Poemas de Bocage (1765-1805)

 

Manuel Maria L’Hedoux Barbosa du Bocage nasceu em Setúbal, em 1765. Sua biografia, embora breve, sempre mostrou-se agitada, com amores impossíveis, dívidas, prisões, exílio, pobreza. Tendo participado da Nova Arcádia, adotou o pseudônimo pastoril de Elmano Sadino, que combina um anagrama de Manoel com uma referência ao rio Sado, o famoso rio azul que corta a região de Setúbal.

A obra poética de Bocage é bastante variada, compreendendo facetas líricas e satíricas.

Como lírico, o poeta é dos mais destacados árcades, o que se comprova em muitos sonetos de feição nitidamente clássica, influenciados pela poesia de Horácio e Camões, repletos de referências ao bucolismo vivido ao lado das musas (Marília, Gertrúria, Natércia) e a uma atmosfera de temperança racionalista; por outro lado, em outros sonetos também dignos de destaque, antecipa características do Romantismo, como o subjetivismo, a confissão sentimental, a autolamentação, a luta entre a razão e o sentimento, o desejo de morte, o cultivo de ambientes noturnos, sendo, por isso, considerado um pré-romântico.

Como poeta satírico, demonstrou uma contundente verve, poder de observação da vida em sociedade e pendor para a polêmica.

 

a. Marília, nos teus olhos buliçosos

Os Amores gentis seu facho acendem;

A teus lábios, voando, os ares fendem

Terníssimos desejos sequiosos.

 

Teus cabelos subtis e luminosos

Mil vistas cegam, mil vontades prendem;

E em arte aos de Minerva se não rendem

Teus alvos, curtos dedos melindrosos.

 

Reside em teus costumes a candura,

Mora a firmeza no teu peito amante,

A razão com teus risos se mistura.

 

És dos Céus o composto mais brilhante;

Deram-se as mãos Virtude e Formosura,

Para criar tua alma e teu semblante.

 

Principais características:

a. retrato de mulher

b. o tema do olhar

c. mulher bela, inteligente, amorosa, loura, graciosa, talentosa, equilibrada, luminosa: é a musa clássica que está de volta

d. racionalismo

e. utilização estética da mitologia

f. uso de pseudônimo

g. receita da mulher ideal, toda baseada no equilíbrio

h. exemplo da face árcade da produção de Bocage

 

b. Ó tranças de que Amor prisões me tece,

Ó mãos de neve, que regeis meu fado!

Ó tesouro! Ó mistério! Ó par sagrado,

Onde o menino alígero adormece!

 

Ó ledos olhos, cuja luz parece

Tênue raio de sol! Ó gesto amado,

De rosas e açucenas semeado,

Por quem morrera esta alma, se pudesse!

 

Ó lábios, cujo riso a paz me tira,

E por cujos dulcíssimos favores

Talvez o próprio Júpiter suspira!

 

Ó perfeições! Ó dons encantadores!

De quem sois? Sois de Vênus? — É mentira;

Sois de Marília, sois dos meus amores.

 

c.  Olha, Marília, as flautas dos pastores,

Que bem que soam, como estão cadentes!

Olha o Tejo a sorrir-se! Olha: não sentes

Os Zéfiros brincar por entre as flores?

               

Vê como ali, beijando-se, os Amores

Incitam nossos ósculos ardentes!

Ei-las de planta em planta as inocentes,

As vagas borboletas de mil cores!

 

Naquele arbusto o rouxinol suspira;

Ora nas folhas a abelhinha pára,

Ora nos ares, sussurrando, gira.

 

Que alegre campo! Que manhã tão clara!

Mas ah!, tudo o que vês, se eu não te vira,

Mais tristeza que a noite me causara.

 

Principais características:

a. o retrato da Arcádia clássica: a flauta de Pã, os pastores, a vida simples, rústica, a natureza suave, a mulher jovem e bela

b. utilização estética da mitologia

c. uso de pseudônimo

d. luminosidade racionalista

e. projeção do estado de espírito sobre a natureza: índice de romantismo

f. exemplo da transição de Bocage da fase árcade para a pré-romântica

 

d. Sobre estas duras, cavernosas fragas,

Que o marinho furor vai carcomendo,

Me estão negras paixões n’alma fervendo

Como fervem no pego as crespas vagas.

 

Razão feroz, o coração me indagas,

De meus erros a sombra esclarecendo,

E vás nele (ai de mim!) palpando e vendo

De agudas ânsias venenosas chagas.

 

Cego a meus males, surdo a teu reclamo,

Mil objectos de horror co’a idéia eu corro,

Solto gemidos, lágrimas derramo.

 

Razão, de que me serve o teu socorro?

Mandas-me não amar, eu ardo, eu amo;

Dizes-me que sossegue, eu peno, eu morro.

 

Principais características:

a. confissão sentimental

b. índices de desequilíbrio: movimento, febre, escuridão, lamento, lágrimas

c. contraste entre o equilíbrio formal e o desequilíbrio sentimental

d. assimetria

e. anti-racionalismo

f. exemplo da face pré-romântica de Bocage


e. Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,
Arrostar co'o sacrílego gigante;

Como tu, junto ao Ganges sussurrante,
Da penúria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
Também carpindo estou, saudoso amante.

Ludíbrio, como tu, da Sorte dura
Meu fim demando ao Céu, pela certeza
De que só terei paz na sepultura.

Modelo meu tu és, mas... oh, tristeza!...
Se te imito nos transes da Ventura,
Não te imito nos dons da Natureza.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

VI. ROMANTISMO (1825-1865)

A. NOTAS SOBRE O ROMANTISMO

 

                O movimento romântico é um período da vida e da arte ocidentais que compreende o final do século XVIII e a primeira metade do século XIX. Está associado às mudanças sociais e políticas que derivam da Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra na segunda metade do século XVIII, e da Revolução Francesa de 1789. Com seu tríplice ideal de “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”, a revolução quebra o império do absolutismo e difunde na Europa um clima favorável à ascensão da burguesia.

                No final do século XVIII, surgem na Europa os elementos característicos do Romantismo: primazia do sentimento e da emoção sobre a razão, retorno à natureza, ressurgimento do sentimento religioso, revalorização da Idade Média e atração pelo exótico e pelo sobrenatural.

 

 

Principais características

               

* Volta ao passado: para fugir aos conflitos do mundo atual, os românticos voltam-se para o passado, sobretudo para a Idade Média. No Brasil, que não viveu esse período histórico, os românticos buscam inspiração no índio, a quem procuram exaltar.

* Subjetivismo: de uma visão universalista do Homem (Classicismo), passa-se a uma visão individualista. A realidade é revelada pelo impulso pessoal do artista e não pela imposição dos moldes clássicos.

* Sentimentalismo: o sentimento passou a prevalecer sobre a razão, inversamente ao que ocorria no Classicismo.

* Culto da Natureza: a Natureza inspirou artistas e alimentou o sonho dos poetas, que projetavam seus estados de espírito nas paisagens que viam. O mar, a floresta, os rios, a noite, o mistério, tudo passou a ser tema poético para o romântico.

* Liberdade criadora: o ato de criação, para o romântico, é um ato de liberdade. O romântico arrogava a si o direito de julgar o que era belo e verdadeiro.

* Idealização do mundo: os escritores buscavam um mundo perfeito e ideal, no qual houvesse compensação para o seu sofrimento.

* Fé e Cristianismo: O Classicismo cultuava a mitologia pagã; no Romantismo, cultua-se a crença em Deus e nas ações grandiosas da Igreja.

* Evasão e sonho: o romântico foge da realidade para um mundo imaginário, criado a partir de sonhos e emoções pessoais.

* Linguagem popular: da linguagem erudita passou-se à valorização e uso da linguagem popular.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

B. AUTORES DO ROMANTISMO PORTUGUÊS

 

 

1) Almeida Garrett (1799-1854)

 

Nascido na cidade do Porto, João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett foi levado, ainda criança, a viver na Ilha Terceira, no arquipélago dos Açores, no contexto da invasão napoleônica em Portugal. Lá, fez-se sua educação, de verniz religioso e clássico. Cursou Direito em Coimbra, foi jornalista, diplomata, político; participou ativamente das lutas liberais, tendo sido, por isso, exilado mais de uma vez. Na Inglaterra, toma contato com as idéias românticas, lê Shakespeare, Lord Byron e Walter Scott.

Garrett, depois da ascensão do liberalismo, reorganizou o teatro português, liderando a campanha que originou a fundação do Teatro de D. Maria II e do Conservatório Dramático. No fim da vida, quando alcançara o posto de Ministro dos Negócios Estrangeiros, foram-lhe outorgados os títulos de Visconde e Par do Reino.

Seu poema Camões, de 1825, apesar de formalmente ligado ao classicismo, é considerado o introdutor do Romantismo na Literatura Portuguesa. Produziu obras extremamente significativas na poesia (Folhas caídas, 1853), teatro (Frei Luís de Sousa, 1843) e romance (Viagens na minha terra, 1846).

 

 

a.  “Este inferno de amar” (de Folhas caídas, 1853)

 

 


Este inferno de amar — como eu amo! —

Quem mo pôs aqui n’alma... quem foi?

Esta chama que alenta e consome,

Que é a vida — e que a vida destrói —

Como é que veio a se atear,

Quando — ai quando se há de ela apagar?

 

 

Eu não sei, não me lembra: o passado,

A outra vida que dantes vivi

Era um sonho talvez... — foi um sonho —

Em que paz tão serena a dormi!

Oh! que doce era aquele sonhar...

Quem me veio, ai de mim! despertar?

 

 

Só me lembra que um dia formoso

Eu passei... dava o Sol tanta luz!

E os meus olhos, que vagos giravam,

Em seus olhos ardentes os pus.

Que fez ela? eu que fiz? — Não no sei,

Mas nessa hora a viver comecei...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Principais características:

  1. descarte da forma do soneto, em busca da liberdade de expressão
  2. confissão sentimental
  3. contradições
  4. subjetivismo
  5. sentimentalismo
  6. existência como sofrimento, tortura
  7. amor=inferno=vida
  8. amor como fatalidade
  9. pontuação expressiva
  10. concepção da arte como expressão

 

 


b. Viagens na minha terra (1843)

 

CAPÍTULO 12

 

De como Joaninha desembaraçou a meada da avó e do mais que aconteceu. — Que casta de rapariga era Joaninha. — Dá o A. insigne prova de ingenuidade e boa fé confessando uma grave senão do seu ideal. Insiste porém que é um adorável defeito. — Em que se parece uma mulher desanelada com um Sansão tosquiado. — Pasmosas monstruosidades da natureza que desmentem o credo velhos dos peralvilhos. — Os olhos verdes de Joaninha. — Religião dos olhos pretos estrenuamente professada pelo A. Perigo em que ele se acha à vista de uns olhos verdes. — De como estando a avó e a neta, a conversar muito de mano a mano, chega Frei Dinis e interrompe a conversação. — Quem era Frei Dinis .

 

 

 

— Aqui estou, minha avó: é a sua meada?... Eu lha endireito. — disse Joaninha saindo de dentro, e com os braços abertos para a velha. Apertou-a neles com inefável ternura, beijou-a muitas vezes, e tomando-lhe o novelo das mãos num instante desembaraçou o fio e lho tronou a entregar.

A velha sorria com aquele sorriso satisfeito que exprime os tranqüilos gozos de alma, e que parecia dizer:

— Como eu sou feliz ainda, apesar de velha e de cega! Bendito sejais meu Deus.

Esta última frase, esta benção de um coração agradecido que espira suavemente para o céu como sobe do altar o fumo do incenso consagrado, esta última frase transbordou-lhe e saiu articulada dos lábios.

— Bendito seja Deus, minha filha, minha Joaninha, minha querida neta. E Ele te abençoe também, filha!

— Sabe que mais, minha avó? basta de trabalhar hoje; são horas de merendar.

— Pois merendemos.

Joaninha foi dentro da casa, trouxe uma banquinha redonda, cobriu-a com uma toalha alvíssima, pôs em cima fruta, pão queijo, vinho, chegou-se para o pé da velha, tirou-lhe o novelo da mão e arredou a dobadoira. A velha comeu alguns bagos de um cacho doirado que a neta lhe escolheu e pôs nas mãos, bebeu um trago de vinho, e ficou calada e quieta, mas já sem a mesma expressão de felicidade e contentamento sossegado que ainda agora lhe luzia no rosto.

As animadas feições de Joaninha refletiam simpaticamente a mesma alteração.

Joaninha não era bela, talvez nem galante sequer no sentido popular e expressivo que a palavra tem em português, mas era o tipo de gentileza, o ideal da espiritualidade. Naquele rosto, naquele corpo de dezesseis anos, havia por dom natural e por uma admirável simetria de proporções toda a elegância nobre, todo o desembaraço modesto, toda a flexibilidade graciosa que a arte, o uso e a conversação da corte e da mais escolhida companhia vêm a dar a algumas raras e privilegiadas criaturas no mundo.

Mas nesta foi a natureza que fez tudo, ou quase tudo, e a educação nada ou quase nada.

Poucas mulheres são muito mais baixas, e ela parecia alta: tão delicada, tão élancés era a forma airosa de seu corpo.

E não era o garbo seco e aprumado da perpendicular miss inglesa que parece fundida de uma só peça; não, mas flexível e ondulante como a hástea jovem da árvore que é direta mas dobradiça, forte da vida de toda a seiva com que nasceu, e tenra que a estala qualquer vento forte.

Era branca, mas não desse branco importuno das loiras, nem do branco terso, duro, marmóreo das ruivas — sim daquela modesta alvura de cera que se ilumina de um pálido reflexo de rosa de Bengala.

E doutras rosas, destas rosas-rosas que denunciam toda a franqueza de um sangue que passa livre pelo coração e corre à sua vontade por artérias em que os nervos não dominam, dessas não as havia naquele rosto; rosto sereno como é sereno o mar em dia de calma, porque dorme o vento... Ali dormiam as paixões.

Que se levante a mais ligeira brisa, basta o seu macio bafejo para encrespar a superfície espelhada do mar.

Sussurre o mais ingênuo e suave movimento de alma no primeiro acordar das paixões, e verão como se sobressaltam os músculos agora tão quietos daquela face tranqüila.

O nariz ligeiramente aquilino; a boca pequena e delgada, não cortejava nem desdenhava o sorriso, mas a sua expressão natural e habitual era uma gravidade singela que não tinha a menor aspereza nem doutorice.

Há umas certas boquinhas gravezinhas e espremidinhas pela doutorice que são a mais aborrecidinha coisa e a mais pequinha que Deus permite fazer às suas criaturas fêmeas.

Em perfeita harmonia de cor, de forma e de tom com a fina gentileza destas feições, os cabelos de um castanho tão escuro que tocava em preto, caíam de um lado e outro da face, em três longos, desiguais e mal enrolados canudos, cuja ondada espiral se ia relaxando e diminuindo para a extremidade, até lhe tocarem no colo quase lisos.

Em estilo de arte — no estilo da primeira e da mais bela das belas artes, a toilette — este é um defeito, bem sei.

Que votos, que novenas se não fazem a S. Barômetro nas vésperas de um baile para lhe pedir uma atmosfera seca e benigna que deixe conservar, até à quarta contradança ao menos, a preciosa obra de carapito e ferro quente, de macáçar e mandolina que tanto trabalho e tanto tempo, tantos sustos e cuidados custou!

Bem sei pois que é defeito, é, será... mas que adorável defeito! Que deliciosas imagens que excita de abandono — passe o galicismo — de confiança, de absoluta e generosa renúncia a todo o capricho, de perfeita e completa abdicação de toda a vontade própria!

Em geral, as mulheres parecem ter no cabelo a mesma fé que tinha Sansão: o que nele ia em lhos cortando, cuidam elas que se lhes vai lhos desanelando? Talvez; e eu não estou longe de o crer: canudo inflexível, mulher inflexível.

Os peralvilhos negam a existência do tal carnudo in rerum natura, dizem que é como a ave fênix que nasceu de nossos avós não saberem grego. Eu não digo tal, porque tenho visto descuidar-se a natureza em pasmosas monstruosidades.

Enfim, suspendamos, sem o terminar, o exame desta profunda e interessante questão. Fica adiada para um capítulo ad hoc, e voltemos à minha Joaninha.

Caíam dum lado e de outro da sua face gentil aqueles graciosos anéis; e o resto do cabelo, que era muito, ia entrançar-se e enrolar-se com a singela elegância abaixo da coroa de uma cabeça pequena, estreita e do mais perfeito modelo.

As sobrancelhas, quase pretas também, desenhavam-se numa longa curva de extrema pureza; as pestanas longas e asseadas faziam sombra na altura da face.

Os olhos porém — singular capricho da natureza, que no meio de toda esta harmonia quis lançar uma nota de admirável discordância. Como poderoso e ousado maestro que, no meio das frases mais clássicas e deduzidas da sua composição, atira de repente com um som no meio do ritmo musical... os diletantes arrepiam-se, os professores benzem-se; mas aqueles cujos ouvidos lhes levam ao coração a música e não à cabeça, esses estremecem de admiração e entusiasmo... Os olhos e Joaninha eram verdes... não daquele verde descorado e traidor da raça felina, não daquele verde mau e destinguido que não é senão azul imperfeito, não, eram verdes-verdes, puros e brilhantes como esmeraldas do mais subido quilate.

São os mais e mais fascinantes olhos que há.

Eu, que professo a religião dos olhos pretos, que nela nasci e nela espero morrer... que alguma rara vez que me deixei inclinar para a herética pravidade do olho azul, sofri o que é muito bem feito que sofra todo o renegado... eu firme e inabalável, hoje mais que nunca, nos meus princípios, sinceramente persuadido que fora deles não há salvação, eu confesso todavia que uma vez, uma única vez que vi dois dos tais olhos verdes, fiquei alucinado, senti abalar-se pelos fundamentos o meu catolicismo, fugi escandalizado de mim mesmo, e fui retemperar minha fé vacilante, na contemplação das eternas verdades, que só e unicamente se encontram aonde está toda a fé e toda a crença... nuns olhos sinceros e lealmente pretos.

Joaninha porém tinha os olhos verdes; e o efeito desta rara feição naquela fisionomia à primeira vista tão discordante — era em verdade pasmosa. Primeiro fascinava, alucinava, depois fazia uma sensação inexplicável e indecisa que doía e dava prazer ao mesmo tempo; por fim, pouco a pouco, estabelecia-se a corrente magnética tão poderosa, tão carregada, tão incapaz de solução de continuidade, que toda a lembrança de outra coisa desaparecia, e toda a inteligência e toda a vontade eram absorvidas.

Resta só acrescentar — e fica o retrato completo, — um simples vestido azul escuro, cinto e avental preto, e uns sapatinhos com as fitas trançadas em coturno. O pé breve e estreito, o que se adivinhava de perna admirável.

Tal era a ideal e espiritualíssima figura que em pé, encostada à banca onde acabava de comer a boa da velha, contemplava, naquele rosto macerado e apagado, a indizível expressão de tristeza que ele pouco a pouco ia tomando e que toda se refletia, como disse, no semblante da contempladora.

 

Principais características:

  1. mescla de romance amoroso, relato jornalístico, literatura de viagens e reflexão sobre a vida
  2. contraposição da descrição da mulher romântica com a da clássica, com vantagem para a primeira
  3. contraste entre naturalismo e artificialismo
  4. sentimentalismo
  5. nacionalismo
  6. idealização da mulher
  7. o motivo da mulher-anjo
  8. liberdade de expressão: linguagem mais natural, coloquial, espontânea
  9. uso de digressões
  10. experimentação formal
  11. busca de originalidade, desprezo a modelos
  12. busca da experiência singular, única, refletindo a visão de mundo romântica
  13. presença do mistério na existência

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2) Alexandre Herculano (1810-1877)

De família humilde, o que impossibilitou-o de freqüentar a universidade Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo era natural de Lisboa. Por questões políticas, já que se envolveu nas lutas liberais, esteve exilado na Inglaterra, onde travou conhecimento com o Romantismo de Walter Scott e seus romances históricos. De volta a Portugal, atua como jornalista, historiador e diretor de bibliotecas públicas. Suas principais obras são Eurico, o presbítero (romance histórico, 1844), Lendas e narrativas (contos, 1839-1844), História de Portugal (historiografia, 1846-1853). Ainda em vida, alcançou grande reconhecimento, inclusive pela renovação do estudo histórico em Portugal, mas desencantou-se da vida política e literária e, por volta dos cinqüenta anos, refugia-se em uma Quinta na província, onde viria a falecer;

 

 

a. Eurico, o presbítero (1844)

XVIII - IMPOSSÍVEL!


Nada neste mundo me agita o seio, senão o teu amor.
Lenda de S. Pedro Confessor , 9.

Apenas Pelágio transpôs o escuro portal da gruta, Eurico alevantou-se. Aspirava com ânsia, como se aquele ambiente tépido não bastasse a saciá-lo. O desgraçado resumia num pensamento devorador, numa síntese atroz, o seu longe e doloroso passado e o seu torvo e irremediável futuro. Como voltara àquele lugar? Como, sem lhe vergarem os joelhos, tinha ele descido das alturas do Vínio com Hermengarda nos braços? Que tempo durara essa carreira deliciosa e ao mesmo tempo infernal? Não o sabia. Imagens confusas de tudo isso era apenas o que lhe restava, - do sol, que pouco a pouco lhe viera alumiar os passos, dos ribeiros que vadeara, das penedias agras, dos recostos dos montes, das selvas que recuavam para trás dele, dos cabeços negros que, às vezes, lhe parecera debruçarem-se no cimo dos despenhadeiros, como para o verem correr. No meio destas recordações incertas e materiais, outras passavam íntimas, ardentes, voluptuosas, negras, desesperadas. Por horas, que haviam sido para ele uma eternidade de ventura, o respirar daquela que amava como insensato se misturara com o seu alento; por horas sentira o ardor das faces dela aquecer as suas, e o coração bater-lhe contra o seu coração. Depois, avultavam-lhe no espírito a imagem veneranda de Sisberto e o altar da sé de Híspalis, junto do qual vestira a pura estringe de sacerdote, e Cartéia, e o presbitério e as noites de agonia volvidas nos ermos do Calpe. E tudo isto se contradizia, se repelia, se condenava, o amor pelo sacerdócio, o sacerdócio pelo amor, o futuro pelo passado; e aquela alma, dilacerada no combate destes pensamentos, quase cedia ao peso de tanta amargura.

Eurico deu alguns passos e encostou-se à boca da gruta; porque os membros exaustos lhe fraqueavam, apesar de que nem um momento o abandonasse a força da sua alma enérgica. A brisa frigidíssima da madrugada consolava-o, como ao febricitante a aragem de um sol posto do outono. A seus pés estavam as trevas do vale, sobre a sua cabeça as solidões profundas e serenas do céu semeado dos pontos rutilantes das estrelas e mal desbotado ao ocidente pela última claridade da lua minguante que desaparecia. Era a imagem da sua vida. Serena e esperançosa, como o crepúsculo do luar fugitivo, lhe fora a juventude. Desde que um amor desditoso o fizera alevantar uma barreira entre si e o ruído do mundo; desde que se votara às solenes tristezas da soledade e a derramar benefícios e consolações sobre a cabeça dos miseráveis e humildes; pela alta noite do seu viver muitas vezes fulgurara uma luz de alegria, como esses astros que brilham a espaços nos abismos do firmamento. Lá, ao menos, havia instantes em que se esquecia do seu destino. Mas, depois que o frenesi das batalhas o arrastara; depois que trocara as harmonias das tempestades do Calpe e o rugido das vagas do Estreito pelo gemer de moribundos nos combates e pelo retinir dos golpes, nunca mais descera um raio de cima a alumiar-lhe o espírito. O seu presente e o seu porvir eram, como esse vale, um precipício sem fundo, indelineável, tenebroso e maldito.

E pelo céu tão plácido e melancólico; pelo céu, que ele às vezes se punha a contemplar às horas mortas no pobre presbitério de Carteia ou assentado em algum promontório, a sua imaginação voou até os desvios do sul, e as lágrimas de saudades começaram a rolar-lhe mansamente pelas faces. O desventurado tinha saudades das tristezas do ermo, porque já não podia ter desejos dos contentamentos humanos.

Engolfado naquelas cogitações dolorosas, o guerreiro conservou-se por algum tempo imóvel e com os olhos cravados nos astros cintilantes, que pareciam sorrir-lhe e chamá-lo para o seio imenso do Senhor. As lágrimas correram-lhe então mais abundantes, e o coração parecia dilatar-se-lhe com o pensamento da morte. Insensivelmente ajoelhou e estendeu as mãos para o firmamento: os seus lábios murmuravam com cicio quase imperceptível. Era a ação de alma, férvida, procelosa, que os agitava: era essa oração que todos nós sabemos no momento de suprema agonia e que nenhumas palavras, nenhuma escritura poderiam representar: oração que é um mistério entre Deus e o homem e que nem os anjos compreendem: gemido enérgico de todas as misérias terrenas, cuja intensidade só a Providência, que as acumula ou dissipa, sabe pesar nas balanças da justiça e da piedade divinas.

A morte; esta idéia, tremenda, indiferente ou formosa, segundo a vida é risonha, pálida ou negra, veio suavizar o martírio daquela alma atribulada, como em estio ardente as grossas águas da trovoada refrigeram a terra, que estua sob os raios aprumados do sol. Tinha-a buscado; buscado com a placidez horrível da desesperança; como um remédio de cuja eficácia a consciência da imortalidade o fazia duvidar. Seria não mais do que ir deitar-se em leito de dores externas? Talvez: mas a mudança podia ser refrigério: tanto bastava. A morte parecia, contudo, fugir a ele para que nem este último desejo se lhe cumprisse. Houve um instante em que lhe ocorreu o pensamento de subir ao pináculo escarpado do Auseba e despenhar-se no vale. Refugiu desta idéia, porque era covarde. Eurico, o sacerdote soldado, não devia fenecer ímpia e vilmente; devia depor o peso intolerável da vida no campo das batalhas pelejadas em nome da cruz e da Espanha. E no recontro daquele dia, uma voz íntima lhe murmurava que o havia de obter.

Este anelar pela morte era uma bem triste cobiça! E quando se lembrava de que essa mulher que aí jazia a poucos passos dele; essa mulher, em cuja adoração concentrara todos os afetos dos mais formosos dias da vida; cuja imagem sonhada nas solidões do Calpe, desenhada de contínuo diante dos olhos da sua alma, gravada com um selo de saudade e de amargura em todas as suas cogitações; essa mulher que, pouco havia, por horas de delicioso delírio, apertara contra o peito, e que pudera, outrora, torná-lo o mais feliz dos homens quando se lembrava de que sobre isso tudo ele deixara cair a campa de bronze do sacerdócio, que ninguém podia erguer, o dessentia estalarem-lhe uma a uma todas as fibras do coração, e fugir-lhe do seio um grito semelhante ao que rebenta dos lábios do condenado ao suplício do potro, no primeiro movimento da mão pesada do algoz.

E, como se quisesse ainda mais saciar-se de dor, encaminhou-se para o lado onde Hermengarda repousava. Ao clarão da tocha que espargia uma luz mortiça, o guerreiro contemplou-a naquele inquieto dormir. Era bela; mais bela que nos tempos da primeira mocidade! O seu gesto angélico, desbotado pela palidez, emagrecido pelos pesares e terrores, ganhara em expressão, em reflexo dos íntimos pensamentos o que perdera em viço e em toques de inocência. Bonina desabrochada nos campos da vida, brilhara com todas as pompas do seu vicejar à luz da manhã; o ardor intenso do meio-dia a fizera pender; a viração da tarde lhe traria, talvez, ainda frescor e viveza; mas a sua fragrância perdia-se nas auras que passavam; nas suas cores harmoniosas revia-se, apenas, o céu! Aquela alma fugia solitária pela terra num viver incompleto e volveria aos abismos da criação sem conhecer o mais profundo e enérgico dos afetos humanos, o amor, que une dois espíritos como dois fragmentos de um todo, os quais a Providência separou ao lançá-los na terra, e que devem buscar-se, unir-se, completar-se, até irem, depois da morte, formar, talvez, uma só existência de anjo no seio de Deus.

Mas quando Eurico se lembrou de que, porventura, isto era sonho; de que podia ser que essa alma não passasse na vida tão vazia e solitária como ele julgava, e que esse coração, que poucas horas antes pulsara tão perto do seu, batia, acaso, por outrem, sentiu o suor frio manar-lhe da fronte. A tocha baça e fúnebre que mal alumiava a irmã de Pelágio pareceu-lhe retinta em sangue; e, como cedro arrancado por tufão repentino, foi encostar-se à rocha lateral, cuja superfície irregular lhe escondia Hermengarda. O vê-la despertara todo o delírio do seu primeiro amor, e aquela idéia intolerável, que tantas vezes o atormentara nas solidões do Calpe, espremia-lhe agora o coração com redobrado furor.

E assim ficou por alguns momentos mudo, anelante, aniquilado. Quem era, onde estava, por que viera ali, não o saberia dizer. Os pensamentos revolviam-se-lhe na mente, como as ondas num sorvedouro marítimo, tempestuosos, rápidos e indistintos.

De repente, um ai comprimido veio acordá-lo daquela espécie de torpor doloroso. Estremeceu. Era a voz de Hermengarda. Aproximou-se manso e manso, de modo que ela não o visse. Assentada sobre o leito, demudado o gesto, e com o susto pintado no olhar, a irmã de Pelágio estendia os braços voltando o rosto para o lado, como quem tentava afastar visão tão medonha. Pelas suas palavras incoerentes e truncadas, o guerreiro conheceu que um sonho mau a agitava, até que, inteiramente desperta, essas palavras confusas se começaram a coordenar em períodos inteligíveis. O pular do coração de Eurico redobrava de violência, ao passo que o seu respirar se ia tornando cada vez mais imperceptível.

- Sempre ele! sempre esta visão de remorso! - murmurou Hermengarda. - meu pai, meu pai! Perdoe-te o céu o orgulho com que repeliste o gardingo... Perdoe-te o céu o haveres-me obrigado a sacrificar aos pés desse orgulho o sentimento de amor que se alevantara neste coração. Nós ambos assassinamos o desgraçado; mas a punição caiu inteira sobre mim! Embora. Eu não te amaldiçoarei, ó meu pai! A tua filha nunca te acusará ante o supremo juiz.

Depois, ficou por alguns instantes calada, com os olhos fitos no rochedo fronteiro, em cuja face escabrosa as sombras pareciam dane agitar-se à luz da tocha que ardia a curta distância, e que a aragem movia. Crera perceber perto de si um gemido abafado, cortando fugitivo o grande silêncio noturno.

- Vai-te, vai-te! - prosseguiu ela. - Que posso eu fazer-te, infeliz?... Bem longo e atroz tem sido o meu martírio, porque ainda não achei no mundo alma com quem me fosse dado repartir o cálix do infortúnio; a quem houvesse de contar os tormentos que há tanto tempo me varreram dos lábios o sorrir. Se vivesses, seria tua; tua esposa, tua escrava!... mas a bênção nupcial não pode descer entre o túmulo e a vida. Favila!... meu pai!... diante do trono do Senhor, onde são iguais o duque e o gardingo, jura-lhe que tua filha repeliu o seu amor por obedecer-te: dize-lhe que o pranto correu destes olhos ao ouvir a nova da sua morte. Oh, dize-lhe, dize-lhe que não fui eu que o assassinei.

E aqui, deixando pender a cabeça sobre o peito, pareceu voltar ao sentimento da realidade mas aquela espécie de terror febril, que lhe haviam gerado no espírito os transes, qual mais doloroso, por que sucessivamente passara, tornou a apossar-se dela. Favoreciam-no o lugar, a hora, o silêncio. Hermengarda alevantou de novo os olhos desvairados e, firmando-se no rochedo, tentava erguer-se.

- Era Eurico! - murmurou ela. - Depois de dez anos, bem conheci a sua voz! Mais triste, só: triste como tantas vezes a tenho ouvido nos meus sonhos de remorsos! Bem conheci o seu gesto! Mais pálido e carregado, só: pálido e carregado, como tantas vezes tem surgido do sepulcro para vir mudamente acusar-me silencioso e quedo ante mim, por longas e não dormidas noites. Era ele!... um espectro cujo coração eu sentia bater, cujos braços me apertaram por cima do abismo revolto, através da floresta, pelos recostos das serranias. Dos seus olhos caiu sobre o meu seio uma lágrima! As lágrimas dos mortos queimam... devoram a vida; porque bem sinto a morte chamar-me...

Tinha-se posto de joelhos, com as mãos estendidas, parecia implorar piedade.

- Morrer! tão cedo! Quando apenas torno a ver meu irmão?!.. Pelágio! Pelágio! por que me deixaste? Vem despedir-te da tua pobre Hermengarda. Eurico a espera para o noivado do sepulcro, e eu não posso tardar.
E desvairada, pôs-se em pé, chamando por Pelágio com voz sufocada. Apenas, porém, dera os primeiros passos, soltou  um gemido agudo e ficou imóvel. Diante dela, realidade ou fantasma, estava a origem dos seus terrores secretos. Era o gardingo que a amara, que ela cria morto, e cuja imagem vingadora vinha mais uma vez atormenta-la. O vulto cravara nela um olhar ardente, que a fascinava. Sorriso doloroso lhe pousava nos lábios. Estendeu o braço, segurando a mão de Hermengarda, que pretendeu recuar e não pôde. Como petrificada, parecia que os pés se lhe haviam enraizado no chão da caverna. Aquela mão, que segurava a sua escaldando de febre, era gelada como a de um morto. A vida do gardingo tinha-se concentrado toda no coração, que lhe despedaçavam duas idéias, horríveis porque associadas: o amor correspondido e tornado ao mesmo tempo maldito, monstruoso, impossível por uma palavra fatal, que lá estava escrita em caracteres de fogo, e que ele via, escutava, sentia - o sacerdócio!

- Oh, Deus to pague! - disse Eurico em voz baixa e lenta - que lançaste na tão longa noite da minha alma um raio fugitivo de luz, luz santa e pura de contentamento e felicidade!... Há dez anos que não me alumia, e ela é tão bela, ainda quando passa como o relâmpago! - E, depois de estar calado alguns instantes, com o gesto do íntimo e angustiado cogitar, prosseguiu: - Não, Hermengarda, não! Os vermes ainda não receberam a parte da sua herança que eu lhes retenho. Morri; porém não para isso que, na linguagem mentirosa do mundo, se chama a vida. Durante anos dei-a a devorar à desesperação e a desesperação não pode consumi-la. Pendurei-a alta noite, pela espessura das trevas, nas rochas escarpadas do mar do ocidente, à beira dos precipícios, e o mar e os precipícios não quiseram tragá-la. Atirei-a à torrente impetuosa das batalhas, e o ferro embotou-se nela. O céu guardava-me para te ouvir palavras de amor e arrependimento; essas palavras de inefável doçura que nunca esperei escutar. É que na minha fronte está gravada a maldição de cima: é que ainda me faltava o derradeiro martírio... Ao menos posso acabar o teu: o pensá-lo é um refrigério. Hermengarda, eu vivo ainda! Vivi para te salvar da desonra, e todo o meu passado esqueci-o. Só uma coisa não, porque me subverteu para sempre o futuro; porque, depois de passageira alegria, me recalcou mais violentamente esperanças que ousaram um momento agitar-se no fundo desta alma, tranqüila na desesperança. Agora, se há repouso debaixo da campa, posso ir buscar lá meu repouso. Mas dize-me; oh, dize-me ainda outra vez, que amas Eurico! Repete diante do que respira aquilo que proferiste diante da sombra criada pelo teu terror. Essas palavras, e o morrer!... O teu amor e a morte; eis para mim a única ventura possível, mas que não tem igual na terra.

E Hermengarda sentia ao contato daquela mão fria e trêmula apertando a sua, no acento dessas frases, tempestuosas como o oceano, tristes como céu proceloso, que lá, no peito do vulto que tinha ante si, havia um coração de homem vivo, onde chaga antiga e cancerosa vertia ainda sangue. A espécie de pesadelo em que se debatia desaparecera com a realidade. O repentino impulso da sua alma foi lançar-se nos braços de Eurico. Fora ele o objeto do seu quase infantil e único amor, amor condenado ao silêncio antes do primeiro suspiro, antes do primeiro volver de olhos; era o cavaleiro negro, cujo nome se tornara conhecido e glorioso por todos os ângulos da Espanha; era ele, finalmente, o homem que duas vezes acabava de salvá-la. Reteve-a, todavia, o pudor e, talvez, aquela misteriosa tristeza que escurecia as idéias desordenadas vindas de tropel aos lábios do guerreiro. Procurando asserenar a violência dos afetos que a agitavam, Hermengarda respondeu com uma voz fraca e trêmula:

- Bendita a mão do Senhor, que te salvou, Eurico, leal e nobre entre os mais nobres e leais filhos dos godos! Graças à piedade do céu, que por meio de tantas desventuras e perigos nos uniu nos paços que restam ao filho do duque de Cantábria! No devanear do terror revelei-te, sem querer, o segredo do meu coração: a sua história, ouviste-a. Perdoa à memória de meu pai, e, se de mim depende a tua felicidade, as palavras que me saíram involuntariamente da boca te asseguram que serás feliz. O orgulho que a ambos nos fez desgraçados, não o herdou Pelágio. Que o herdasse, mal caberia nestas brenhas, na caverna dos fugitivos. E depois, que nome há hoje na Espanha mais ilustre que o do cavaleiro negro, o nome de Eurico? Morreres?!... Oh, não! Salvaste Hermengarda do opróbrio: se nunca te houvera amado, ela te diria como te diz hoje: Sou tua, Eurico!

A filha de Favila, cujo profundo e enérgico sentir mal poderia compreender quem só a houvera visto no momento em que tímida recuava diante do perigo mais aparente que real das margens do Sália, proferiu estas palavras com um tom de entusiasmo, com uma expressão afetuosa tão íntima, que o guerreiro caiu a seus pés. A ventura embargava-lhe a voz. O que lhe tumultuava no coração não tem nome na linguagem dos homens; era mais que a loucura. Com um movimento delirante, apertou contra os lábios a mão da donzela. Queimavam! Depois de largo silêncio, ele murmurou enfim:

 

— Minha! ... Quem há na terra que possa roubar-ma?... Anos de tormentos, fostes como um dia de bonança e deleite! Imagem que absorveste esta existência inteira; anjo que me fazes surgir do meu inferno para o teu céu, tu foste que me salvaste a mim! Oh, como é bom ser feliz!... Tinha-me já esquecido!... Como o sol deve agora ser belo, serena a aragem da tarde, meigo o murmurar do ribeiro, viçosa a verdura do prado!... Tinha-me também esquecido! Tens razão, Hermengarda. Quero viver: o viver é delicioso, delicioso porque será contigo... ao pé de ti... a adorar-te sempre, sem me lembrar do que existe, além de ti, no universo. Vem, minha amante, minha esposa! vem jurar que me pertences, perante o altar e aos pés do sacerdote...

A esta palavra fatal, um grito semelhante ao de homem ferido de morte, rompeu agudo e rápido do seio do cavaleiro. A mão de Eurico abandonou a mão de Hermengarda, e os seus olhos brilharam com fulgor infernal. Recuou, afastando de si a irmã de Pelágio, sobressaltada por aquele gesto subitamente demudado, por aquele olhar ardente e vago. Ela não podia compreender a causa de semelhante mudança... Com o braço esquerdo estendido, o guerreiro parecia querer arredá-la de si, enquanto com a mão confrangida apertava a fronte, como se buscasse esmagar um pensamento atroz que lhe surgia lá dentro.

- Afasta-te, mulher, que o teu amor me perdeu! - murmurou enfim. - Há entre nós um abismo: tu o abriste; eu precipitei-me nele. Um crime, só um crime, pode unir-nos... - Fez uma pausa, e prosseguiu: - E por que não se cometerá ele? Talvez obtivéssemos perdão!... Perdão? Oh meu Deus, não o terias para o sacrílego... não! Afasta-te, Hermengarda. Diante de ti tens um desgraçado, um desgraçado que fizeste!

A donzela uniu as mãos lavadas em lágrimas, e exclamou:

- Eurico! Eurico! enlouqueceste?... Por piedade, explica-me este horroroso mistério? Por que me repeles? que te fiz eu... eu que te amo, que sou tua, tua para sempre?!

Mas os olhos cintilantes do cavaleiro tinham amortecido: derribado na luta que travara com o destino, o seu combater de tantos anos terminava, finalmente. Um sorriso insensato substituiu-lhe no rosto as contrações habituais de melancolia. Afigurava-se-lhe que em roda dele balouçava a caverna, e a luz fumosa da tocha que ardia segura no braço de ferro cravado na pedra parecia-lhe faiscar em fitas cor de sangue. Esvaído, vacilante, assentou-se num fragmento da rocha e, estendendo a mão para Hermengarda, pegou de novo na dela e, com um sorriso indizível, continuou em voz submissa:

- Dez anos! ... Sabes tu, Hermengarda, o que é passar dez anos amarrado ao próprio cadáver? Sabes tu o que são mil e mil noites consumidas a espreitar em horizonte ilimitado a estrela polar da esperança e, quando, no fim, os olhos cansados e gastos se vão cerrar na morte, ver essa estrela reluzir um instante e, depois, desfechar do céu nas profundezas do nada? Sabes o que é caminhar sobre silvados pelo caminho da vida e achar ao cabo, em vez do marco miliário onde o peregrino de tréguas aos pés rasgados e sana borda de um despenhadeiro, no qual é força precipitar-se? Sabes o que isto é? É minha triste história! Estrela momentânea que me iluminaste, caíste no abismo! Arbusto que me retiveste um instante, a minha mão desfalecida abandonou-te, e eu despenhei-me! Oh, quanto o meu fado foi negro!

Hermengarda contemplava-o com assombro e terror... Como o entenderia ela? Eurico prosseguiu...

- Olha tu! ao pôr do sol, no estio, ia eu assentar-me sobre um cerro marítimo, alongando a vista pelo oceano tranqüilo, e parecia divisar-te desenhada na atmosfera, a sorrir-me. Então, as lágrimas de felicidade começavam a brotar-me dos olhos: depois, lembrava-me de quem eu era, e essas lágrimas condensavam-se a meio das faces e queimavam como se fossem metal candente. A horas mortas, correndo pelos desvios, quando o vento açoitava os arbustos enfezados da montanha, cada sombra que se meneava ao luar, sobre o chão pardacento, era a tua sombra que eu via. Outras noites, em que mais tranqüilo podia, a sós comigo, engolfar-me nos pensamentos de Deus, a tua imagem vinha interpor-se entre mim e a lâmpada mortiça que me alumiava, e o hino do presbítero de Carteia, que devia, talvez, escrever-se nos hinários das catedrais da Espanha, ficava incompleto ou terminava por uma blasfêmia; porque também te via sorrir, mas a outrem, mas a homem feliz com o teu amor, e eu tinha então sede... sede de sangue... Era uma lenta agonia! E sempre tu ante mim: nas solidões das brenhas, na imensidade das águas, no silêncio do presbitério, nos raios esplêndidos do sol, no reflexo pálido da lua e, até, na hóstia do sacrifício... sempre tu!... e sempre para mim impossível!

- Mas deliras!... - interrompeu Hermengarda... - Que tens tu com o presbítero de Cartéia; com esse ilustre sacerdote, cujos hinos sacros reboavam ainda há pouco pelos templos da Espanha, e a quem, decerto, o ferro ímpio dos árabes não respeitou? A tua glória é outra e mais bela; a glória de seres o vencedor dos vencedores da cruz. A sua era santa e pacífica. Deus chamou-o para si, e tu vives para ser meu. Ninguém existe hoje no mundo que possa embaraça-lo. Esquece o passado; esquece-o por amor de mim!

O cavaleiro sorriu de novo dolorosamente e disse-lhe:

- Que tenho eu com o presbítero de Cartéia?!... Hermengarda, lembras-te do seu nome?

Os lábios da donzela fizeram-se brancos ao ouvir esta pergunta: um pensamento monstruoso e incrível lhe passara pelo espírito. Com voz afogada e quase imperceptível replicou:

- Era... era o teu, Eurico!... Mas que pode haver comum entre o guerreiro e o sacerdote? Que importa um nome... uma palavra?... que...

O cavaleiro pôs-se em pé e, deixando descair os braços e pender o rosto sobre o peito, murmurou:

- Há comum, que o guerreiro e presbítero são um desgraçado só!... Importa, que esse desgraçado é neste momento um sacerdote sacrílego. O pastor de Cartéia...

- Oh, não acabes! - interrompeu Hermengarda, com indizível aflição.

- Era Eurico, o gardingo!

Proferindo estas palavras, que explicavam o mistério da sua existência, o cavaleiro negro viu cair como fulminada a filha de Favila. E ele não se moveu. A sua imaginação tresvariada afigurou-lhe perde si o vulto suave e triste do venerável Sisberto, que estendia a mão mirrada entre ambos, como para os dividir em nome da religião, que os devia salvar, e do sepulcro, a quem pertenciam.

Neste momento uma grande multidão de crianças, de velhos, de mulheres penetraram na caverna com gritos e choros de terror. No coração das Astúrias, entre alcantis intratáveis, no fundo de um vasto deserto, repetia-se o grito que mil vezes tinha soado na devastada Espanha: "Os árabes!"

Amanhecera.

Aquele sobressalto, tão impensado, revocou o cavaleiro ao sentimento da sua situação. Ajoelhou junto de Hermengarda e, pegando-lhe na mão já fria, beijou-lha. Nas raias da vida, aquele beijo, primeiro e último, era purificado pelo hálito da morte que se aproximava: era inocente e santo, como o de dois querubins ao dizer-lhes o Criador: - "Existi!"

Depois ergueu-se, vestiu a sua negra armadura, cingiu a espada, lançou mão do franquisque e, rompendo por entre o tropel, que fizera silêncio ao vê-lo, desapareceu através da porta da gruta, cujas rochas tingia cor de sangue a dourada vermelhidão da aurora.

 

 

Principais características:

  1. tema medieval e nacional
  2. influência das novelas de cavalaria
  3. conflito interior
  4. contradição entre sentimento e honra
  5. idealização da mulher
  6. o motivo da mulher-anjo
  7. a existência como tortura
  8. subjetivismo
  9. sentimentalismo
  10. herói superior moralmente e fisicamente
  11. projeção do estado de espírito sobre a natureza
  12. culto à morte
  13. escapismo: loucura, religião e morte como soluções para os conflitos pessoais

 


3) Camilo Castelo Branco (1825-1890)

 

Era natural de Lisboa. Viveu vida muito agitada, entre casamentos e abandonos, raptos e adultérios, prisões e crises religiosas, profissionais e de saúde. Foi, praticamente, o primeiro escritor profissional da Literatura Portuguesa, vivendo do que publicava, o que fazia em profusão: seus títulos contam-se às centenas. Notabilizou-se pelas novelas passionais e satíricas, mas escreveu também poesia, teatro, história, crítica, polêmica e memórias. Tradicionalmente visto no contexto da segunda geração do Romantismo, era dono de um estilo em que se destacam o casticismo da linguagem e também seu aspecto coloquial, direto, abrindo, muitas vezes, entretanto, espaço para digressões e divagações. Suas obras mais conhecidas são Amor de perdição (novela passional, 1862), Amor de salvação (novela passional, 1864) e A queda dum anjo (novela satírica, 1865). Acometido de progressiva cegueira, matou-se em 1890.

 

a. Amor de perdição (1862)

 

CAPÍTULO X

 

Apeou Mariana defronte do mosteiro, e foi à portaria chamar a sua amiga Brito.

- Que boa moça! - disse o padre capelão, que estava no raro lateral da porta, praticando com a prioresa, acerca da salvação das almas, e de umas coretas de vinho do Pinhão que ele recebera naquele dia, e do qual já tinha engarrafado um almude para tonizar o estômago da prelada.

- Que boa moça! - tornou ele, com um olho nela e outro no raro, onde a ciumosa prioresa se estava remordendo.

- Deixe lá a moça, e diga quando há de ir a servente buscar o vinho.

- Quando quiser, senhora prioresa. Mas repare bem nos olhos, no feitio, naquele todo da rapariga!...

- Pois repare o senhor padre João - replicou a freira - que eu tenho mais que fazer.

E retirou-se com o coração malferido, e o queixo superior escorrendo lágrimas... de simonte[114].

- Donde é vossemecê? - disse brandamente o padre capelão.

- Sou da aldeia - respondeu Mariana.

- Isso vejo eu... Mas de que aldeia é?

- Não me confesso agora.

- Mas não faria mal se se confessasse a mim, menina, que sou padre...

- Bem vejo.

- Que mal gênio tem!...

- É isto que vê.

- Quem procura cá no convento?

- Já disse lá para dentro quem procuro.

- Mariana, és tu?! Anda cá!

A moça fez uma cortesia de cabeça ao padre capelão, e foi ao locutório donde vinha aquela voz.

- Eu queria falar contigo em particular, Joaquina - disse Mariana.

- Eu vou ver se arranjo uma grade: espera aí..

O padre tinha saído do pátio, e Mariana, enquanto esperava, examinou, uma a uma, as janelas do mosteiro. Numa das janelas, através das reixas de ferro, viu ela uma senhora sem hábito.

- Será aquela? - perguntou Mariana ao seu coração, que palpitava - Se eu fosse amada como ela!...

- Sobe aquelas escadinhas, Mariana, e entra na primeira porta do corredor, que eu lá vou - disse Joaquina.

Mariana deu alguns passos, olhou novamente para a janela onde vira a senhora sem hábito, e repetiu ainda:

- Se eu fosse amada como ela!...

Mal entrou na grade, disse à sua amiga:

- Olha lá, Joaquina, quem é uma menina muito branca, alva como leite, que estava ali agora numa janela?

- Seria alguma noviça, que há duas cá muito lindas.

- Mas ela não tinha vestimenta nenhuma de freira.

- Ah! já sei; é a D. Teresinha de Albuquerque.

- Então não me enganei - disse Mariana, pensativa.

- Pois tu conhece-la?

- Não; mas por amor dela é que eu cá vim falar contigo.

- Então que é?! Que tens tu com a fidalga?

- Eu cá, por mim nada; mas com uma pessoa que lhe quer muito.

- O filho do corregedor?

- Esse mesmo.

- Mas esse está em Coimbra,

- Não sei se está, nem se não. Faz-me tu um favor?

- Se eu puder...

- Podes... Eu queria falar com ela.

- Ó dianho! Isso não sei se poderá ser, porque a trazem as freiras debaixo de olho, e ela vai-se embora amanhã.

- Para onde vai?

- Vai para outro convento, não sei se de Lisboa, se do Porto. Os baús já estão preparados, e ela está morta por sair. E tu que lhe queres?

- Não to posso dizer, porque não sei... Queria dar-lhe um papel... Faze com que ela venha cá, que eu dou-te chita para um vestido.

- Como tu estás rica, Mariana!... - atalhou, rindo, Joaquina. - Eu não quero a tua chita, rapariga. Se eu puder dizer-lhe que venha, sem que alguém me ouça, digo-lho. E agora é boa maré, porque tocou ao coro... Deixa-me ir lá...

Joaquina saiu-se bem da difícil comissão. Teresa estava sozinha, absorvida a cismar, com os olhos fitos no ponto onde vira Mariana.

- A menina faz favor de vir comigo depressinha? - disse-lhe a criada.

Seguiu-a Teresa, e entrou na grade, que Joaquina fechou, dizendo:

- O mais breve que possa bata por dentro para eu lhe abrir a porta. Se perguntarem por vossa excelência, digo-lhe que a menina está no mirante.

A voz de Mariana tremia, quando D. Teresa lhe perguntou quem era.

- Sou uma portadora desta carta para vossa excelência.

- É de Simão! - exclamou Teresa.

- Sim, minha senhora.

A reclusa leu convulsiva a carta duas vezes, e disse:

- Eu não posso escrever-lhe, que me roubaram o meu tinteiro, e ninguém me empresta um. Diga-lhe que vou de madrugada para o convento de Monchique, do Porto. Que se não aflija, porque eu sou sempre a mesma. Que não venha cá, porque isso seria inútil, e muito perigoso. Que vá ver-me ao Porto, que hei de arranjar modo de lhe falar. Diga-lhe isto, sim?

- Sim, minha senhora.

- Não se esqueça, não? Vir cá, por modo nenhum. É impossível fugir, e vou muito acompanhada. Vai o primo Baltasar e as minhas primas, e meu pai e não sei quantos criados de bagagem e das liteiras. Tirar-me no caminho é uma loucura com resultados funestos. Diga-lhe tudo, sim?

Joaquina disse fora da porta:

- Menina, olhe que a prioresa anda lá por dentro a procurá-la.

- Adeus, adeus - disse Teresa, sobressaltada. - Tome lá esta lembrança como prova de minha gratidão.

E tirou do dedo um anel de ouro, que ofereceu a Mariana.

- Não aceito minha senhora.

- Por que não aceita?

- Porque não fiz algum favor a vossa excelência. A receber alguma paga há de ser de quem cá me mandou. Fique com Deus, minha senhora, e oxalá que seja feliz.

Saiu Teresa, e Joaquina entrou na grade.

- Já te vais embora, Mariana?

- Vou, que é pressa; um dia virei conversar contigo muito. Adeus, Joaquina.

- Pois não me contas o que isto é? O amor da fidalga está perto daqui? Conta, que eu não digo nada, rapariga!...

- Outra vez, outra vez; obrigada, Joaquininha.

Mariana, durante a veloz caminhada, foi repetindo o recado da fidalga; e, se alguma vez se distraia deste exercício de memória, era para pensar nas feições da amada do seu hóspede, e dizer, como em segredo, ao seu coração: "Não lhe bastava ser fidalga e rica: é, além de tudo, linda como nunca vi outra!" E o coração da pobre moça, avergando ao que a consciência lhe ia dizendo, chorava.

Simão, de uma fresta do postigo do seu quarto, espreitava ao longo do caminho, ou escutava a estropeada da cavalgadura.

Ao descobrir Mariana, desceu ao quinteiro, desprezando cautelas e esquecido já do ferimento, cuja crise de perigo piorara naquele dia, que era o oitavo depois do tiro.

A filha do ferrador deu o recado, e sem alteração de palavra. Simão escutara-a placidamente até ao ponto em que lhe ela disse que o primo Baltasar a acompanhava ao Porto.

- O primo Baltasar!... - murmurou ele com um sorriso sinistro - Sempre este primo Baltasar cavando a sua sepultura e a minha!...

- A sua, fidalgo! - exclamou João da Cruz. - Morra ele, que o levem trinta milhões de diabos! Mas vossa senhoria há de viver enquanto eu for João. Deixe-a ir para o Porto, que não tem perigo no convento. De hora a hora Deus melhora. O senhor doutor vai para Coimbra, está por lá algum tempo, e às duas por três, quando o velho mal se precatar, a fidalguinha engrampa-o, e é sua tão certo como esta luz que nos alumia.

- Eu hei de vê-la antes de partir para Coimbra - disse Simão.

- Olhe que ela recomendou-me muito que não fosse lá - acudiu Mariana.

- Por causa do primo? - tornou o acadêmico ironicamente.

- Acho que sim, e por talvez não servir de nada lá ir vossa senhoria - respondeu timidamente a moça.

- Lá, se quer, - bradou mestre João - a mulher, vai-se-lhe tirar ao caminho. Não tem mais que dizer.

- Meu pai, não meta este senhor em maiores trabalhos? - disse Mariana.

- Não tem dúvida menina - atalhou Simão - eu é que não quero meter ninguém em trabalhos. Com a minha desgraça, por maior que ela seja, hei de eu lutar sozinho.

João da Cruz, assumiu uma gravidade de que a sua figura raras vezes se enobrecia, disse:

- Senhor Simão, vossa senhoria não sabe nada do mundo. Não meta sozinho a cabeça aos trabalhos, que eles, como o outro que diz, quando pegam de ensarilhar um homem, não lhe deixam tomar fôlego. Eu sou um rústico; mas, a bem dizer, estou naquela daquele que dizia que o mal dos seus burrinhos o fizera alveitar. Paixões... que as leve o diabo, e mais quem com elas engorda. Por causa de uma mulher, ainda que ela seja filha do rei, não se há de um homem botar a perder. Mulheres há tantas como a praga, e são como as rãs do charco, que mergulha uma, e aparecem quatro à tona da água. Um homem rico e fidalgo como vossa senhoria, onde quer topa uma com um palmo de cara como se quer e um dote de encher o olho. Deixe-a ir com Deus ou com a breca, que ela, se tiver de ser sua, não lhe há de vir dar, tanto andar para trás como para diante: é ditado dos antigos. Olhe que isto não é medo, fidalgo. Tome sentido, que João da Cruz sabe o que é pôr dois homens duma feita a olhar o sete-estrelo, mas não sabe o que é medo. Se o senhor quer sair à estrada e tirar a tal pessoa ao pai, ao primo, e a um regimento, se for necessário, eu vou montar na égua, e daqui a três horas estou de volta com quatro homens, que são quatro dragões.

Simão fitara os olhos chamejantes no do ferrador, e Mariana exclamara, ajuntando as mãos sobre o seio:

- Meu pai, não lhe dê esses conselhos!...

- Cala-te aí, rapariga! - disse mestre João. - Vai tirar o albardão à égua, amanta-a, e bota-lhe seco. Não és aqui chamada.

- Não vá aflita, senhora - disse Simão à moça, que se retirava, amargurada. - Eu não aproveito alguns dos conselhos de seu pai. Ouço-o com boa vontade, porque sei que quer o meu bem; mas hei de fazer o que a honra e o coração me aconselharem.

Ao anoitecer, Simão, como estivesse sozinho, escreveu uma longa carta, da qual extratamos os seguintes períodos:

"Considero-te perdida, Teresa. O Sol de amanhã pode ser que eu o não veja. Tudo, em volta de mim, tem uma cor de morte. Parece que o frio da minha sepultura me está passando o sangue e os ossos.

Não posso ser o que tu querias que eu fosse. A minha paixão não se conforma com a desgraça. Eras a minha vida: tinha a certeza de que as contrariedades me não privavam de ti, Só o receio de perder-te me mata. O que me resta do passado é a coragem de ir buscar uma morte digna de mim e de ti. Se tens força para uma agonia lenta, eu não posso com ela.

Poderia viver com a paixão infeliz; mas este rancor sem vingança é um inferno. Não hei de dar barata a vida, não. Ficarás sem mim, Teresa; mas não haverá ai um infame que te persiga depois da minha morte. Tenho ciúmes de todas as tuas horas. Hás de pensar com muita saudade no teu esposo do céu, e nunca tirarás de mim os olhos da tua alma para veres ao pé de ti o miserável que nos matou a realidade de tantas esperanças formosas.

Tu verás esta carta quando eu já estiver num outro mundo, esperando as orações das tuas lágrimas. As orações! Admiro-me desta faisca de fé que me alumia nas minhas trevas.!... Tu deras-me com o amor a religião, Teresa. Ainda creio; não se apaga a luz, que é tua; mas a providência divina desamparou-me.

Lembra-te de mim. Vive, para explicares ao mundo, com a tua lealdade a uma sombra, a razão por que me atraíste a um abismo. Escutarás com glória a voz do mundo, dizendo que eras digna de mim.

A hora em que leres esta carta..."

Não o deixaram continuar as lágrimas, nem depois a presença de Mariana. Vinha ela pôr a mesa para a ceia, e, quando desdobrava a toalha, disse em voz abafada, como se a si mesma somente o dissesse:

- É a última vez que ponho a mesa ao senhor Simão em minha casa!

- Por que diz isso, Mariana?

- Por que mo diz o coração.

Desta vez, o acadêmico ponderou supersticiosamente os ditames do coração da moça, e com o silêncio meditativo deu-lhe a ela a evidência antecipada do vaticínio.

Quando voltou com a travessa da galinha, vinha chorando a filha de João da Cruz.

- Chora com pena de mim, Mariana? - disse Simão, enternecido.

- Choro, porque me parece que o não tornarei a ver; ou, se o vir, será de modo que oxalá que eu morresse antes de o ver.

- Não será, talvez, assim, minha amiga...

- Vossa senhoria não me faz uma coisa que eu lhe peço?

- Veremos o que pede, menina.

- Não saia esta noite, nem amanhã,

- Pede o impossível, Mariana. Hei de sair, porque me mataria se não saísse.

- Então perdoe a minha ousadia. Deus o tenha da sua mão.

A rapariga foi contar ao pai as intenções do acadêmico. Acudiu logo mestre João combatendo a idéia da saída, com encarecer os perigos do ferimento. Depois, como não conseguisse dissuadi-lo, resolveu acompanhá-lo. Simão agradeceu a companhia, mas rejeitou-a com decisão. O ferrador não cedia do propósito, e estava já preparando a clavina, e arraçoando com medida dobrada a égua - para o que desse e viesse - dizia ele, quando o estudante lhe disse que, melhor avisado, resolvera não ir a Viseu, e seguir Teresa ao Porto, passados os dias de convalescença. Facilmente o acreditou João da Cruz; mas Mariana, submissa sempre ao que o seu coração lhe bacorejava, duvidou da mudança, e disse ao pai que vigiasse o fidalgo.

As onze horas da noite, ergueu-se o acadêmico, e escutou o movimento interior da casa: não ouviu o mais ligeiro ruído, a não ser o rangido da égua na manjedoura. Escorvou de pólvora nova as duas pistolas. Escreveu um bilhete sobrescritado a João da Cruz, e ajuntou-o à carta que escrevera a Teresa. Abriu as portas da janela do seu quarto, e passou dali para a varanda de pau, da qual o salto à estrada era sem risco. Saltou, e tinha dado alguns passos, quando a fresta, lateral à porta da varanda, se abriu, e a voz de Mariana lhe disse:

- Então adeus, senhor Simão. Eu fico pedindo a Nossa Senhora que vá na sua companhia.

O acadêmico parou, e ouviu a voz intima que lhe dizia: - "O teu anjo da guarda fala pela boca daquela mulher, que não tem mais inteligência que a do coração alumiado pelo seu amor."

- Dê um abraço em seu pai. Mariana - disse-lhe Simão - e adeus... até logo, ou...

- Até ao juízo final... - atalhou ela.

- O destino há de cumprir-se... Seja o que o céu quiser.

Tinha Simão desaparecido nas trevas, quando Mariana acendeu a lâmpada do santuário, e ajoelhou orando com o fervor das lágrimas.

Era uma hora, e estava Simão defronte do convento, contemplando uma a uma as janelas. Em nenhuma vira da clarão de luz; só a do lampadário do Sacramento se coava baça e pálida na vidraça duma fresta do templo. Sentou-se nas escaleiras da igreja, e ouviu ali, imóvel as quatro horas. Das mil visões que lhe relancearam no atribulado espírito, a que mais a miúdo se repetia era a de Mariana suplicante, com as mãos postas; mas, ao mesmo tempo, cria ele ouvir os gemidos de Teresa, torturada pela saudade, pedindo ao céu que a salvasse das mãos de seus algozes. O vulto de Ta deu de Albuquerque, arrastando a filha a um convento, não lhe afogueava a sede da vingança; mas cada vez que lhe acudia à mente a imagem odiosa de Baltasar Coutinho instintivamente as mãos do acadêmico se asseguravam da posse das pistolas.

As quatro horas e um quarto, acordou a natureza toda em hinos e aclamações ao raiar da alva. Os passarinhos trinavam na cerca do mosteiro melodias interrompidas pelo toque solene das Ave-Marias na torre. O horizonte passara de escarlate a alvacento. A púrpura da aurora, como labareda enorme, desfizera-se em partículas de luz, que ondeavam no declive das montanhas, e se distendiam nas planícies e nas várzeas, como se o anjo do Senhor, à voz de Deus, viesse desenrolando aos olhos da criatura as maravilhas do repontar dum dia festivo.

E nenhuma destas galas do céu e da terra enlevara os olhos do moço poeta.!

As quatro horas e meia, ouviu Simão o tinido de liteiras, dirigindo-se àquele ponto. Mudou de local, tomando por uma rua estreita, fronteira ao convento.

Pararam as liteiras vazias na portaria, e logo depois chegaram três senhoras vestidas de jornada, que deviam ser as irmãs de Baltasar, acompanhadas de dois mochilas com as mulas à rédea. As damas foram sentar-se nos bancos de pedra, laterais à portaria. Em seguida abriu-se a grossa porta, rangendo nos gonzos, e as três senhoras entraram.

Momentos depois, viu Simão chegar à portaria Tadeu de Albuquerque, encostado ao braço de Baltasar Coutinho. O velho denotava quebranto e desfalecimento a espaços. O de Castro-d'Aíre, bem composto de figura e caprichosamente vestido à castelhana, gesticulava com o aprumo de quem dá as suas irrefutáveis razões, e consola tomando a riso a dor alheia.

- Nada de lamúrias, meu tio! - dizia ele. - Desgraça seria vê-la casada! Eu prometo-lhe antes de um ano restituir-lhe curada. Um ano de convento é um ótimo vomitório do coração. Não há nada como isso para limpar o sarro do vício em corações de meninas criadas à discrição. Se meu tio a obrigasse, desde menina, a uma obediência cega, tê-la-ia agora submissa, e ela não se julgaria autorizada a escolher marido.

- Era uma filha única, Baltasar! - dizia o velho soluçando.

- Pois por isso mesmo - replicou o sobrinho. - Se tivesse outra, ser-lhe-ia menos sensível a perda, e menos funesta a desobediência. Faria a sua casa na filha mais querida, embora tivesse de impetrar uma licença régia para deserdar a primogênita. Assim, agora, não lhe vejo outro remédio senão empregar o cautério à chaga; com emplastros é que se não faz nada.

Abriu-se novamente a portaria. e saíram as três senhoras, e após elas Teresa.

Tadeu enxugou as lágrimas, e deu alguns passos a saudar a filha, que não ergueu do chão os olhos.

- Teresa... - disse o velho.

- Aqui estou, senhor - respondeu a filha, sem o encarar.

- Ainda é tempo - tornou Albuquerque.

- Tempo de quê?

- Tempo de seres boa filha.

- Não me acusa a consciência de o não ser.

- Ainda mais?!... Queres ir para tua casa, e esquecer o maldito que nos faz a todos desgraçados?

- Não, meu pai. O meu destino é o convento. Esquecê-lo nem por morte. Serei filha desobediente, mas mentirosa é que nunca.

Teresa, circunvagando os olhos, viu Baltasar, e estremeceu, exclamando:

- Nem aqui!

- Fala comigo, prima Teresa? - disse Baltasar, risonho.

- Consigo falo! Nem aqui me deixa a sua odiosa presença?

- Sou um dos criados que minha prima leva em sua companhia. Dois tinha eu há dias, dignos de acompanharem a minha prima, mas esses houve aí um assassino que mos matou. A falta deles, sou eu que me ofereço.

- Dispenso-o da delicadeza - atalhou Teresa, com veemência.

- Eu é que me não dispenso de a servir, à falta dos meus dois fiéis criados, que um celerado me matou.

- Assim devia ser - tornou ela também irônica - porque os cobardes escondem-se nas costas dos criados, que se deixam matar.

- Ainda se não fizeram as contas finais..., minha querida prima - redargüiu o morgado.

Este diálogo correu rapidamente, enquanto Tadeu de Albuquerque cortejava a prioresa e outras religiosas. As quatro senhoras, seguidas de Baltasar, tinham saído do átrio do convento, e deram de rosto em Simão Botelho, encostado à esquina da rua fronteira.

Teresa viu-o... adivinhou-o, primeira de todas, e exclamou:

- Simão!

O filho do corregedor não se moveu.

Baltasar, espavorido do encontro, fitando os olhos nele, duvidava ainda.

- É incrível que este infame aqui viesse! - exclamou o de Castro-d'Aire.

Simão deu alguns passos, e disse placidamente:

- In[ame... eu! e por que?

- Infame, e infame assassino! - replicou Baltasar. - Já fora da minha presença!

- É parvo este homem! - disse o acadêmico. - Eu não discuto com sua senhoria... Minha senhora - disse ele a Teresa, com a voz comovida e o semblante alterado unicamente pelos afetos do coração. - Sofra com resignação, da qual eu lhe estou dando um exemplo. Leve a sua cruz, sem amaldiçoar a violência, e bem pode ser que a meio caminho do seu calvário a misericórdia divina lhe redobre as forças.

- Que diz este patife?! - exclamou Tadeu.

- Vem aqui insultá-lo, meu tio! - respondeu Baltasar, - Tem a petulância de se apresentar a sua filha a confortá-la na sua malvadez! Isto é de mais! Olhe que eu esmago-o aqui, seu vilão.

- Vilão é o desgraçado que me ameaça, sem ousar avançar para mim um passo - redargüiu o filho do corregedor.

- Eu não o tenho feito - exclamou enfurecidamente Baltasar - por entender que me avilto, castigando-o na presença de criados de meu tio, que tu podes supor meus defensores, canalha!

- Se assim é - tornou Simão, sorrindo - espero nunca me encontrar de rosto com sua senhoria. Reputo-o tão cobarde, tão sem dignidade, que o hei de mandar azorragar pelo primeiro mariola das esquinas.

Baltasar Coutinho lançou-se de ímpeto a Simão. Chegou a apertar-lhe a garganta nas mãos; mas depressa perdeu o vigor dos dedos. Quando as damas chegaram a interpor-se entre os dois, Baltasar tinha o alto do crânio aberto por uma bala, que lhe entrara na fronte. Vacilou um segundo, e caiu desamparado aos pés de Teresa.

Tadeu de Albuquerque gritava a altos brados. Os liteireiros e criados rodearam Simão, que conservava o dedo no gatilho da outra pistola. Animados uns pelos outros e pelos brados do velho, iam lançar-se ao homicida, com risco de vida, quando um homem, com um lenço pela cara, correu da rua fronteira, e se colocou, de bacamarte aperrado, à beira de Simão. Estacaram os homens.

- Fuja, que a égua está ao cabo da rua - disse o ferrador ao seu hóspede.

- Não fujo... Salve-se, e depressa - respondeu Simão.

- Fuja, que se ajunta o povo e não tardam aí soldados.

- Já lhe disse que não fujo - replicou o amante de Teresa, com os olhos postos nela, que caíra desfalecida sobre as escadas da igreja.

- Está perdido! - tornou João da Cruz.

- Já o estava. Vá-se embora, meu amigo, por sua filha lho rogo. Olhe que pode ser-me útil; fuja...

Abriram-se todas as portas e janelas, quando o ferrador se lançou na fuga. até cavalgar a égua.

Um dos vizinhos do mosteiro, que, em razão do seu ofício, primeiro saiu à rua, era o meirinho geral.

- Prendam-no, prendam-no, que é um matador! - exclamava Tadeu de Albuquerque.

- Qual? - perguntou o meirinho geral.

- Sou eu - respondeu o filho do corregedor.

- Vossa senhoria! - disse o meirinho, espantado; e, aproximando-se, acrescentou a meia voz: - Venha, que eu deixo-o fugir.

- Eu não fujo - tornou Simão. - Estou preso. Aqui tem a minhas armas.

E entregou as pistolas.

Tadeu de Albuquerque, quando se recobrou do espasmo, fez transportar a filha a uma das liteiras, e ordenou que dois criados a acompanhassem ao Porto.

As irmãs de Baltasar seguiram o cadáver de seu irmão para casa do tio.

 


Principais características:

  1. ultra-romantismo
  2. personagens marcadas pelo passionalismo
  3. inflexibilidade de caráter
  4. sentimentalismo
  5. subjetivismo
  6. exagero sentimental
  7. conflito entre a sensibilidade individual e as regras sociais
  8. idealismo
  9. fatalismo
  10. amor platônico
  11. idealização da mulher
  12. escapismo
  13. o motivo ultra-romântico do noivado do sepulcro
  14. o motivo da mulher-anjo

 



[1] No mundo não conheço ninguém igual a mim

[2] Enquanto

[3] Interpretação ambígua: tanto pode ser “quereis que vos retrate” como “quereis que me afaste de vós”

[4] Em trajes menores

[5] Bem vos parece

[6] Se eu vos der um manto (de luxo)

[7] Presente, prenda

[8] Tive nem tenho

[9] O que valesse uma correia (ou seja, nada)

[10] Provençais costumas trovar muito bem

[11] Flor

[12] Têm

[13] Sofrimento, dor amorosa

[14] Louvar, elogiar

[15] Sou

[16] Quando a flor está na sua estação, na sua época

[17] No tempo em que a flor tem sua cor

[18] Depois

[19] Mesura: princípio filosófico da moderação e do equilíbrio a ser observado pelo trovador nas suas atitudes diante do objeto de seu amor e na expressão poética de seus sentimentos; para um trovador, é a mais valiosa de todas as qualidades. Uma de suas manifestações mais significativas está no fato de o trovador abster-se de revelar a identidade da dama a quem cultua em suas cantigas de amor.

[20] Onde

[21] Bem feita, bela

[22] Sua

[23] Seja lembrada, lembre-se

[24] Perto

[25] Ouça isto

[26] Vós o deixais partir

[27] Não se olvide, não se esqueça

[28] Pinheiro

[29] Sabeis

[30] Namorado, amado

[31] Combinou

[32] Do que me jurou

[33] E estará convosco saído antes do prazo

[34] Deixa-e-pega, solta-e-prende

[35] Levante, amigo

[36] Alegre fique eu

[37] Tinham em mente

[38] Quebrastes os ramos em que estavam (ou pousavam)

[39] Bebiam

[40] Margens

[41] Descansar

[42] Atirar

[43] Deixa-as viver

[44] Mostrar

[45] Porque pensa que demonstra aí maestria (talento)

[46] Depois reviver

[47] Isso faz ele que só ele pode fazer

[48] Mas outro homem por nada o faria

[49] Tem

[50] Desde que esteja morto

[51] Morte tomar (ou seja, morrer)

[52] Depois reviver

[53] Mais do que pensaria

[54] Igual hoje ele tem, de viver depois de morrer

[55] De todas as maneiras, completamente

[56] Tendes tão grande vontade

[57] Maneira

[58] Louvação, louvor, elogio

[59] Mas

[60] Mas agora

[61] abastecimento, provisão

[62] época, momento

[63] recado

[64] Agradeceram-lhe

[65] atividades

[66] Observou longamente

[67] gostava dele

[68] Inglaterra

[69] cedo, rapidamente

[70] demonstração

[71] estava

[72] quarto

[73] de grande posição social

[74]

[75] remédio

[76] enquanto

[77] de todas as maneiras

[78] porque

[79] sob tal condição

[80] amanhã

[81] siso, juízo

[82] certamente

[83] muito, completamente

[84] infeliz, desgraçada

[85] outra coisa

[86] depois

[87] ao lado

[88] costumava

[89] ali

[90] por isso

[91] raiva

[92] ludibriada

[93] aviltada, rebaixada, desonrada

[94] vontade

[95] bem devagar

[96] tecido áspero de lã

[97] alegria

[98] coisa

[99] martírio

[100] virou-se para

[101] louco

[102] entenderei

[103] temer, recear

[104] que

[105] não há necessidade de outra coisa

[106] comigo

[107] daria mais

[108] rústico, rude, deselegante

[109] loucura

[110] cometer uma ofensa

[111] ouviu

[112] contém-te, pare

[113] “Carpe diem”a

 

(Ode XI do Livro de Odes I do poeta latino clássico Quinto Horácio Flaco; tradução do escritor português contemporâneo David Mourão-Ferreira)

 

Não procures, Leuconoe,b — ímpio será sabê-lo —
que fim a nós os dois os deuses destinaram;
não consultes sequer os números babilônicos :
Melhor é aceitar! E venha o que vier!
Quer Júpiter te dê ainda muitos invernos,
quer seja o derradeiro este que ora desfaz

 

nos rochedos hostis ondas do mar Tirreno,
vive com sensatez destilando o teu vinho
e, como a vida é breve, encurta a longa esp'rança.
De inveja o tempo voa enquanto nós falamos:
trata, pois, de colher o dia, o dia de hoje,
que nunca o de amanhã merece confiança.

 

a Originalmente, a expressão significa “chore o dia” (porque ele passa e não volta); posteriormente, passou a ser entendida como “colha o dia”, “aproveite o dia”, “aproveite o momento”.

b Leuconoe é o nome da ninfa a quem o poeta se dirige.