Concretismo

12/05/2015 05:41

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Arnaldo Antunes

(São Paulo SP 1960)

Cursou Linguística na Universidade de São Paulo - USP, mas não chegou a concluir a faculdade; em 1980 já fazia parte da banda Performática, com a qual lançaria um álbum em 1981. No ano seguinte passaria a integrar o grupo de rock Titãs, cujos sete álbuns ganhariam vários discos de ouro e platina. Em 1983 sairia seu álbum de poemas visuais Ou E; seguiram-se várias participações em exposições, como Poesiaevidência, na PUC/SP e Palavra Imágica, no MAC/USP. Em 1992 lançou o vídeo, livro e cd Nome, projeto multimídia com poesia, música e animação em computador. Em 1995 saiu o cd Ninguém; em 1996, foi a vez do cd O Silêncio, com participação de Carlinhos Brown e Chico Science. Dois anos depois, lançou o cd Um Som. Seu último livro, 40 Escritos (2000), é uma coletânea de artigos, prefácios e releases de CDs. A obra poética de Antunes, influenciada pelo concretismo de Haroldo e Augusto de Campos e pelos hai-kais de Paulo Leminsky, explora sons, imagens, movimento, e questiona as convenções linguísticas ao utilizar a linguagem de novas mídias na construção de seus versos.

 

[Estou cego a todas as músicas,]

Estou cego a todas as músicas,
Não ouvi mais o cantar da musa.
A dúvida cobriu a minha vida
Como o peito que me cobre a blusa.
Já a mim nenhuma cena soa
Nem o céu se me desabotoa.
A dúvida cobriu a minha vida
Como a língua cobre de saliva
Cada dente que sai da gengiva.
A dúvida cobriu a minha vida
Como o sangue cobre a carne crua,
Como a pele cobre a carne viva,
Como a roupa cobre a pele nua.
Estou cego a todas as músicas.
E se eu canto é como um som que sua.

As Coisas

As coisas têm peso,
massa, volume, tama-
nho, tempo, forma, cor,
posição, textura, dura-
ção, densidade, cheiro,
valor, consistência, pro-
fundidade, contorno,
temperatura, função,
aparência, preço, desti-
no, idade, sentido. As
coisas não têm paz.

Dorme

PÁRA-RAIO, DORME
TEMPORAL, DORME

VAGA-LUME, DORME
ABAJUR, DORME

AMBULÂNCIA, DORME
CAMBURÃO, DORME

TRAVESSEIRO, DORME
MEU AMOR, DORME

LUIZ GONZAGA, DORME
LUZ DO SOL, DORME

SENTINELA, DORME
GENERAL, DORME

CARAVELA, DORME
CARNAVAL, DORME

CANDELÁRIA, DORME
CANDOMBLÉ, DORME

CAMBALHOTA, DORME
BAMBOLÊ, DORME

PENSAMENTO, DORME
SENSAÇÃO, DORME

AMANHÃ, DORME

Imagem

 

 

 

Lavar as Mãos

Uma
Lava outra, lava uma
Lava outra, lava uma
Mão
Lava outra, lava uma
Mão
Lava outra, lava uma
Depois de brincar no chão de areia
a tarde inteira
Antes de comer, beber, lamber,
pegar na mamadeira
Lava uma
Lava outra, lava uma
Lava outra, lava uma
A doença vai embora junto com a
sujeira
Verme, bactéria, manda embora
embaixo da torneira
Água uma
Água outra, água uma
Água outra, água uma
Na segunda, terça, quarta, quinta
e sexta-feira
Na beira da pia, tanque, bica,
bacia, banheira
Lava uma
Mão
Mão
Mão
Mão
Água uma
Lava outra, lava uma
Lava outra, lava uma

O Macaco

o macaco se parece com o homem
a macaca parece mulher
algumas pessoas se parecem
outras pessoas se parecem com outras
as macacas de auditório são meninas
as crianças parecem micos
os papagaios falam o que pessoas falam
mas não parecem pessoas
para os cegos os papagaios se parecem pessoas
o homem veio do macaco
mas antes o macaco veio do cavalo
e o cavalo veio do gato
então o homem veio do gato
o gato veio do coelho
que veio do sapo que veio do lagarto
então o homem veio do lagarto
o lagarto veio da borboleta
que veio do pássaro que veio do peixe
pessoas se parecem com peixes
quando nadam
pessoas se parecem com peixes
quando olham o vazio
pessoas se parecem com peixes
quando ainda não nasceram
pessoas se parecem com peixes
quando fazem bolas de chiclete
macacos desaparecem
peixes parecem peixes
micróbios não aparecem
todos se parecem
pois se diferem

Tudo

Todas as coisas
do mundo não
cabem numa
idéia. Mas tu-
do cabe numa
palavra, nesta
palavra tudo.

[Pensamento]

Pensamento vem de fora
e pensa que vem de dentro,
pensamento que expectora
o que no meu peito penso.
Pensamento a mil por hora,
tormento a todo momento.
Por que é que eu penso agora
sem o meu consentimento?
Se tudo que comemora
tem o seu impedimento,
se tudo aquilo que chora
cresce com o seu fermento;
pensamento, dê o fora,
saia do meu pensamento.
Pensamento, vá embora,
desapareça no vento.
E não jogarei sementes
em cima do seu cimento.

palavra

 

 

paisagem

 

contempla

cinema

 

assiste

cena

 

cor

 

enxerga

corpo

 

observa

luz

 

vislumbra

vulto

 

avista

alvo

 

mira

céu

 

admira

célula

 

examina

detalhe

 

nota

imagem

 

fita

olho

 

olha

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Augusto de Campos

(São Paulo SP, 1931)

Formou-se em Direito na Universidade de São Paulo, em 1953 , mesmo ano em que compôs a série de poemas em cores Poetamenos, primeira manifestação da poesia concreta brasileira. Na época, ele já integrava o Grupo Noigandres, do qual fora fundador, com Décio Pignatari e Haroldo de Campos. Em 1956 e 1957, participaria do lançamento oficial da Poesia Concreta na I Exposição Nacional de Arte Concreta, no MAM/SP e no saguão do MEC/RJ; em 1958, publicaria o Plano-Piloto para Poesia Concreta, em co-autoria com Haroldo de Campos e Décio Pignatari. Nos anos seguintes, publicou estudos críticos e teóricos, além de traduções e poesia. Em 1984, iniciou sua produção de poemas em computador e novos meios tecnológicos. Suas obras poéticas mais recentes são Despoesia e Poema Avulso (1994). Poeta fundador do movimento concretista, Augusto de Campos utiliza recursos visuais, acústicos, de movimento e de disposição espacial dos versos em diferentes suportes de leitura para propor uma nova sintaxe estrutural para a poesia.

 

Diálogo a Dois

“A Angústia, Augusto, esse leão de areia”

Décio Pignatari

A Angústia, Augusto, esse leão de areia
Que se abebera em tuas mãos de tuas mãos
E que desdenha a fronte que lhe ofertas
(Em tuas mãos de tuas mãos por tuas mãos)
E há de chegar paciente ao nervo dos teus olhos,
É o Morto que se fecha em tua pele?
O Expulso do teu corpo no teu corpo?
A Pedra que se rompe dos teus pulsos?
A Areia areia apenas mais o vento?

A Angústia, Pignatari, Oleiro de Ouro,
Esse leão de areia digo este leão
(Ah! O longo olhar sereno em que nos empenhamos,
Que é como se eu me estrangulasse com os olhos)
De sangue:
Eu mesmo, além do espelho.

O Vivo

Não queiras ser mais vivo do que és morto.
As sempre-vivas morrem diariamente
Pisadas por teus pés enquanto nasces.
Não queiras ser mais morto do que és vivo.
As mortas-vivas rompem as mortalhas
Miram-se umas nas outras e retornam
(Seus cabelos azuis, como arrastam o vento!)
Para amassar o pão da própria carne.
Ó vivo-morto que escarnecem as paredes,
Queres ouvir e falas.
Queres morrer e dormes.
Há muito que as espadas
Te atravessando lentamente lado a lado
Partiram tua voz. Sorris.
Queres morrer e morres.

Pós Tudo

Sim

sim

poeta

infin

itesi

(tmese)

mal

(em tese)

existe

e se mani-

(ainda)

festa

nesta

ani

(triste)

mal

espécie

que lhe é

funesta

se

tem

fome

come

fama

como

cama

leão

come

ar

al

moço

antes

doce

do

intes

tino

fino

ao

gr

osso

mais

baixo

que

o

lixeiro

que

cheira

a

lixo

mas

ao

menos

tem

cheiro

o

poeta

lagartixa

no

escuro

bicho

inodoro

e

solitário

em

seu

labor

atório

sem

sol

ou

sal

ário

poesia concreta: um manifesto

- a poesia concreta começa por assumir uma responsabilidade total perante a linguagem: aceitando o pressuposto do idioma histórico como núcleo indispensável de comunicação, recusa-se a absorver as palavras com meros veículos indiferentes, sem vida sem personalidade sem história - túmulos-tabu com que a convenção insiste em sepultar a idéia.

- o poeta concreto não volta a face às palavras, não lhes lança olhares oblíquos: vai direto ao seu centro, para viver e vivificar a sua facticidade.

- o poeta concreto vê a palavra em si mesma - campo magnético de possibilidades - como um objeto dinâmico, uma célula viva, um organismo completo, com propriedades psicofisicoquímicas tacto antenas circulação coraação: viva.

- longe de procurar evadir-se da realidade ou iludí-la, pretende a poesia concreta, contra a introspecção autodebilitante e contra o realismo simplista e simplório, situar-se de frente para as coisas, aberta, em posição de realismo absoluto.

- o velho alicerce formal e silogístico-discursivo, fortemente abalado no começo do século, voltou a servir de escora às ruínas de uma poética comprometida, híbrido anacrônico de coração atômico e couraça medieval.

- contra a organização sintática perspectivista, onde as palavras vêm sentar-se como "cadáveres em banquete", a poesia concreta opõe um novo sentido de estrutura, capaz de, no momento histórico, captar, sem desgaste ou regressão, o cerne da experiência humana poetizável.

- mallarmé (un coup de dés-1897), joyce (finnegans wake), pound (cantos-ideograma), cummings e, num segundo plano, apollinaire (calligrammes) e as tentativas experimentais futuristasdadaistas estão na raíz do novo procedimento poético, que tende a imporse à organização convencional cuja unidade formal é o verso (livre inclusive).

- o poema concreto ou ideograma passa a ser um campo relacional de funções.

o núcleo poético é posto em evidencia não mais pelo encadeamento sucessivo e linear de versos, mas por um sistema de relações e equilíbrios entre quaisquer parses do poema.

- funções-relações gráfico-fonéticas ("fatores de proximidade e semelhança") e o uso substantivo do espaço como elemento de composição entretêm uma dialética simultânea de olho e fôlego, que, aliada à síntese ideogrâmica do significado, cria uma totalidade sensível "verbivocovisual", de modo a justapor palavras e experiência num estreito colamento fenomenológico, antes impossível.

- POESIA-CONCRETA: TENSÃO DE PALAVRAS-COISAS NO ESPAÇO-TEMPO.

(publicado originalmente na revista ad - arquitetura e decoração, são paulo, novembro/dezembro de 1956, n° 20)

 

Poemóbiles, "Abre" (acima) e "Incomunicable" (abaixo)

Morituro

 

 

Código

Greve, página inferior.

 

 

Pop

Olho

 

 

Pó do Cosmos

 

 

Psiu

Reflete

 

 

Tensão

Tudo está dito

 

 

 

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Décio Pignatari

(Jundiaí SP 1927)

Publicou, em 1949, os poemas Noviciado e Unha e Carne na Revista Brasileira de Poesia. Na época, integrava o Clube de Poesia, em São Paulo SP, liderado por poetas e críticos da Geração de 45. Em 1952 fundou o Grupo Noigandres, com Augusto de Campos e Haroldo de Campos, que publicou cinco antologias poéticas. Entre 1956 e 1957 participou do lançamento oficial da Poesia Concreta na Iº Exposição Nacional de Arte Concreta, no MAM/SP e no saguão do MEC/RJ. Publicou, em 1958, o Plano-Piloto para Poesia Concreta, em co-autoria com Augusto de Campos e Haroldo de Campos, em Noigandres n.4. Nas décadas seguintes, traduziu várias obras em francês, inglês e russo. Foi um dos criadores da editora e da revista Invenção, lançada em 1962 como veículo da Poesia Concreta. Em 1964 lançou o Manifesto do Poema-Código ou Semiótico, com Luiz Angelo Pinto. Foi membro-fundador da Associação Internacional de Semiótica, em Paris (França), em 1969. Nas décadas de 1980 e 1990 colaborou em vários periódicos, entre os quais a Folha de S. Paulo, e foi professor de Semiótica e Comunicação da FAU/USP. Publicou vários livros de ensaios, entre eles Cultura Pós-Nacionalista (1998). Sua obra poética inclui os livros Carrossel (1950), Exercício Findo (1958), Poesia pois é Poesia (1977) e Poesia pois é Poesia, 1950/1975. Poetc, 1976/1986 (1986). Décio Pignatari, criador do poema-código e semiótico, é um dos principais nomes da poesia Concreta.

 

beba coca cola
babe cola
beba coca
babe cola caco
caco
cola
c l o a c a

ra terra ter

rat erra ter

rate rra ter

rater ra ter

raterra terr

araterra ter

raraterra te

rraraterra t

erraraterra

terraraterra

caviar o prazer

prazer o porvir

porvir o torpor

contemporalizar

abrir as portas

abrir as pernas

abrir os corpos

um
movi
mento
compondo
além
da
nuvem
um
campo
de
combate


mira
gem
ira
de
um
horizonte
puro
num
mo
mento
vivo

O Lobisomem

O amor é para mim um Iroquês

De cor amarela e feroz catadura

Que vem sempre a galope, montado

Numa égua chamada Tristeza.

Ai, Tristeza tem cascos de ferro

E as esporas de estranho metal

Cor de vinho, de sangue, e de morte,

Um metal parecido com ciúme.

(O Iroquês sabe há muito o caminho e o lugar

Onde estou à mercê:

É uma estrada asfaltada, tão solitária quanto escura,

Passando por entre uns arvoredos colossais

Que abrem lá em cima suas enormes bocas de silêncio e solidão).

Outro dia eu senti um ladrido

De concreto batendo nos cascos:

Era o meu Iroquês que chegava

No seu gesto de anti-Quixote.

Vinha grande, vestido de nada

Me empolgou corações e cabelos

Estreitou as artérias nas mãos

E arrancou minha pele sem sangue

E partiu encoberto com ela

Atirando-me os poros na cara.

E eu parti travestido de Dor,

Dor roubada da placa da rua

Ululando que o vento parasse

De açoitar minha pele de nervos.

Veio o frio com olhos de brasa

Jogou olhos em todo o meu corpo;

Encontrei uma moça na rua,

Implorei que me desse sua pele

E ela disse, chorando de mágua,

Que era mãe, tinha seios repletos

E a filhinha não gosta de nervos;

Encontrei um mendigo na rua

Moribundo de fome e de frio:

“Dá-me a pele, mendigo inocente,

Antes que Ela te venha buscar.”

Respondeu carregado por Ela:

“Me devolves no Juízo Final?”

Encontrei um cachorro na rua:

“Ó cachorro, me cedes tua pele?”

E ele, ingênuo, deixando a cadela

Arrancou a epiderme com sangue

Toda quente de pêlos malhados

E se foi para os campos da lua

Desvestido da própria nudez

Implorando a epiderme da lua.

Fui então fantasiado a travesti

Arrojado na escala do mundo

E não houve lugar para mim.

Não sou cão, não sou gente - sou Eu.

Iroquês, Iroquês, que fizeste?

 

 

 

 

 

 

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Edgard Braga

(Maceió AL 1897 - São Paulo SP 1985)

Concluiu a Faculdade de Medicina, na Universidade do Brasil, Rio de Janeiro RJ, por volta de 1922. Nas décadas seguintes, se dedicou à profissão de médico obstetra. Foi membro-correspondente da Academia de Alagoana de Letras e publicou seu primeiro livro de poesia, A Senha, em 1935. Seguiram-se Odes (1951), Inútil Acordar (1953), Extralunário (1960), Algo (1971) e Desbragada (1984), entre outros. Em 1984 ocorreu em São Paulo SP exposição promovida pelo Centro Cultural São Paulo, com o lançamento do livro Desbragada. A poesia de Edgar Braga é concretista. Sobre sua obra, o poeta Augusto de Campos, também concretista, escreveu, no poema Algo sobre Algo: "o que espanta em edgard braga é a liberdade total da criação. que faz com que, perto de seus poemas, as mais ousadas tentativas de atualização ou rejuvenescimento de certos poetas da velha geração pareçam tímidos ensaios de recauchutagem."

 

[máquina como se fosse fazer costura]

máquina como se fosse fazer costura
nada mais fazer do que signos
)p-preto o-preto e-preto
um-m
um-a
tudo diferente de um coser qualquer
que se fechasse em pontilhado branco

máquina como quem quer desfazer
costura de coisas no papel branco
entre um hífen ponte de meditação

dedos-dados dados em lanço de pontos pretos
um lenço um cachimbo
em preto-branco espaço
remate do poema
branco

[na minha luva de ouro]

na minha luva de ouro na minha luva de prata
escondi raças e povos escondi minha vergonha

na minha luva de pedra
escondi a minha morte

na minha luva de ferro
escondi o meu silêncio

cavaleiro cavaleiro cavaleiro cavaleiro
joga tua luva ao vento joga tua luva ao vento

cavaleiro cavaleiro
joga tua luva ao vento

cavaleiro cavaleiro
guarda tua luva
e
vento

mal me quer
se mal me queres
mal

se mal me queres
bem mal queres
bem mal
se bem
queres

bem bem me queres
se bem mal queres
se bem bem mal queres

mal me queres
mal me quer
bem bem queres


mal me quer
mal me queres

bem
me

se

 

 

 

 

 

 

 

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Haroldo de Campos

(São Paulo SP, 1929 - idem 2003)

Formou-se em Direito pela Universidade de São Paulo em 1952, mesmo ano em que fundava, com Augusto de Campos e Décio Pignatari, o Grupo Noigandres, de poesia concretista. Em 1956 e 1957 participou do lançamento oficial da Poesia Concreta na I Exposição Nacional de Arte Concreta, no MAM/SP e no saguão do MEC/RJ. Em 1958, publicaria o Plano-Piloto Para Poesia Concreta, com Augusto de Campos e Décio Pignatari. Nos anos seguintes trabalhou como tradutor, crítico e teórico literário, além de Professor Titular do curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da Literatura na PUC/SP. Em 1992 foi laureado com o Prêmio Jabuti de Personalidade Literária do Ano; em 1999 o Prêmio Jabuti de Poesia foi conferido para seu livro Crisantempo: No Espaço Curvo Nasce Um (1998). Considerado o "mais barroco" dos concretistas, Haroldo de Campos tem sua obra poética intimamente ligada ao movimento. A crença em uma “crise no verso” o levou ao experimentalismo, à busca de novas formas de estruturação e sintaxe, em curtos poemas-objeto ou longos poemas em prosa.

 

HIERÓGLIFO PARA MÁRIO SCHENBERG

o olhar transfinito do mário

nos ensina

a ponderar melhor a indecifrada

equação cósmica

cinzazul

semicerrando verdes

esse olhar

nos incita a tomar o sereno

pulso das coisas

a auscultar

o ritmo micro -

macrológico da matéria

a aceitar

o spavento della materia (ungaretti)

onde kant viu a cintilante lei das estrelas

projetar-se no céu interno da ética

na estante de mário

física e poesia coexistem

como asas de um pássaro -

espaço curvo -

colhidas pela têmpera absoluta de volpi

seu marxismo zen

é dialético

e dialógico

e deixa ver que a sabedoria

pode ser tocável como uma planta

que cresce das raízes e deita folhas

e viça

e logo se resolve numa flor de lótus

de onde

- só visível quando damos conta -

um bodisatva nos dirige seu olhar transfinito.

***

céu: pistilos

faíscas do sagrado
sob um ponteiro de diamante

escrever no vidro
sentenças de vidro

in
visíveis

Transideração

Ungaretti Conversa com Leopardi

Um leão: ruivando arde —

na voz do leão — Leopardi

(céu noturno em Recanati)

virando constelação:

Odi, Melisso... E o leão

resgata a um fausto de estrelas

caídas, a lua jamais cadente

e a Ursa, magas centelhas.

Depois, o leão (a Leopardi

tendo dado o que lhe cabe)

passa a medir o infinito

ou desmedi-lo: ao longe

daquela estrela (tão longe)

ao longe daquela estrela.

Fragmento de Galáxias:

isto não é um livro de viagem pois a viagem não é um livro de viagem pois um livro de viagem quando muito advirto é um baedeker de epifanias quando pouco solerto é uma epifania em baedeker pois zimbórios de ouro duma ortodoxia igreja russobizantina encravada em genebra na descida da route de malagnout demandando o centro da cidade através entrevista visão de cidadevelha e canais se pode casar porquenão com os leões chineses que alguém que padrefrade viajor de volta de que viagem peregrinagem a orientes missões ensinou a esculpir na entrada esplanada do convento de são francisco paraíba do oirte na entrada empedrada refluindo de oito bocas de portasportais em contidos logo espraiados degraus estendais de pedra e joão pessoa sob a chuva de verão não era uma ilha de gauguin morenando nos longes paz paraísea num jambo de sedas e cabelos ao vento pluma plúmea no verão bochorno e sentado num café

circuladô de fulô

circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie
porque eu não posso guiá e viva quem já me deu circuladô de fulô e ainda quem falta me dá

soando como um shamisen e feito apenas com um arame
tenso um cabo e uma lata velha num fim de festafeira no
pino do sol a pino mas para outros não existia aquela música não podia porque não podia popular aquela música se não canta não é popular se não afina não tintina não tarantina e no entanto puxada na tripa da miséria na tripa tensa da mais megera miséria física e doendo doendo como um prego na palma da mão um ferrugem prego cego na
palma espalma da mão coração exposto como um nervo
tenso retenso um renegro prego cego durando na palma
polpa da mão ao sol circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie porque eu não posso guiá eviva quem já me deu circuladô de fulô e ainda quem falta me dá
o povo é o inventalínguas na malícia da maestria no matreiro da maravilha no visgo do improviso tenteando a travessia azeitava o eixo do sol circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie porque eu não posso guiá eviva quem já me deu circuladô de fulô e ainda quem falta me dá e não peça que eu te guie não peça despeça que eu te guie desguie que eu te peça promessa que eu te fie me deixe me esqueça me largue me desamargue que no fim eu acerto que no fim eu reverto que no fim eu conserto e para o fim me reservo e se verá que estou certo e se verá que tem jeito e se verá que está feito que pelo torto fiz direito que quem faz cesto faz cento se não guio não lamento pois o mestre que me ensinou já não dá ensinamento circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie porque eu não posso guiá eviva quem já me deu

Provença : Motz e L. Son

contra uma luz

sem falha

o olho

se esmeralda

o olho

(contra uma luz

sem falha)

se esmigalha

o olho de esmeralda

à luz: migalha

(que esmigalha)

e concrescia a luz

som de cigarra

Rima Petrosa - 1

uma bruteza

límpida

que em nada se detém

uma crueza

lâmina

que se apaga em ninguém

uma lindeza

nítida

que a si mesma sustém

uma ingênua fereza

feita só de desdém

uma dura candura

que nem loba que nem

uma beleza absurda

sem porquê nem porém

um negar-se tão rente

que soa um shamisen

uma causa perdida

um não vem que não tem

 

 

 

 

âmago do ômega

no

â mago do ô mega
um olho
um ouro
um osso
sob
essa pe( vide de vácuo) nsil
pétala p a r p a d e a n d o cilios
pálpebra
amêndoa do vazio pecíolo: a coisa
da coisa
da coisa

um duro
tão oco
um osso
tão centro

um corpo
cristalino a corpo
fechado em seu alvor

 

 

Z

ero
ao
ênit

 

nitescendo ex-nihilo

 

 

 

 

 

 

 

 

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José Lino Grunewald

(Rio de Janeiro RJ 1931 - idem 2000)

Começou a colaborar na imprensa em 1956; nas décadas seguintes, se destacou como crítico literário e, principalmente, de cinema. Até 1993, produziu textos para o Jornal do Brasil, Correio da Manhã, O Globo, Tribuna da Imprensa, Última Hora, O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde e Folha de S. Paulo. Em 1957 tornou-se membro do grupo Noigandres, ao lado de Augusto de Campos, Décio Pignatari, Haroldo de Campos e Ronaldo Azevedo. Em 1969, organizou e traduziu A Idéia do Cinema, com ensaios de Walter Benjamin, Eisenstein, Godard, Merlean-Ponty, entre outros. Como crítico de cinema, foi o divulgador da obra de Jean-Luc Godard no Brasil. Nas décadas de 1980 e 1990 traduziu inúmeras obras, entre elas Os Cantos, de Ezra Pound, e Grandes Poetas da Língua Inglesa do Século XIX, pelas quais recebeu prêmios Jabuti de Tradução de Obra Literária em 1987 e 1989. Publicou, em 1987, o livro de poesia Escreviver, de estética concretista. Segundo os críticos Iumna Maria Simon e Vinicius de Avila Dantas, "o que José Lino Grünewald diz a respeito do cinema de Jean-Luc Godard vale para sua poesia: 'O ato de filmar (poetar) é a experiência, e, por isso, viver a vida é viver o cinema (a poesia)'. A busca de sentido existencial através da substantivação das palavras, num movimento circular de repetição, é o que singulariza boa parte de sua poesia."

 

As Alienações, 1964/1985

1
nos conventos fala-se em marx
nas casernas fala-se em deus

entre a cruz e a espada paira deus
entre farda e batina paira marx

a deus o que é de deus
a marx o que é de marx

deus ex marxina

2

pingue pongue
pingue pongue
sábado domingo

pingue pongue
pingue pongue
puteiro missa

pingue pongue
pingue pongue
vagina hóstia

pinguepongue
sabadomingo
pumisseteiro
vaginóstia
 

3 (haikais/1964)

oh, "paus d'arco em flor"
bashô! 1o. de abril
pau-brasil em dor

faunos verde-oliva
desfilam na linha dura
os phalos falidos

marcha da família
com deus pela liberdade
masturbam-se hienas

desemprego em minas
porta-aviões bebe bilhões
oh, minas gerais!

filhas de maria
cardeal contra o monoquíni
filhas de biquíni

família unida
reza & rouba sempre unida
oh, tempos de paz!

reformas de base
a grama já amarelece
bashô, nada muda

castelo de cartas
castelo mal-assombrado
brasil branco, branco

 

 

1

2 2

3 3 3

4 4 4 4

c i n c o

f o r m a

r e f o r m a

d i s f o r m a

t r a n s f o r m a

c o n f o r m a

i n f o r m a

f o r m a

r i o

r i o

r i o

r a i o

r a i o

r a i o

r a i o

r a i o

r i o

r i o

r i o

 

 

 

 

 

 

 

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Mário Faustino

O Poeta Mário Faustino

Por: Gilfrancisco


A rigor, Mário Faustino dispensa apresentação, mas nunca é demais insistir na sua permanente atualidade e no seu alto nível de realização literária. Jornalista, poeta, tradutor, crítico literário e advogado provisionado, foi um dos fundadores da Associação Brasileira de Escritores do Pará,pertenceu ao Conselho Nacional de Economistas, ocupou o cargo de chefia na superintendência do Plano de Valorização Econômica da amazonas. Mário Faustino dos Santos e Silva, nasceu em Teresina-Piauí, a 22 de outubro de 1930.

Em 1956, passa a morar no Rio de Janeiro, sobrevivendo como professor de várias matérias na Escola de Administração Pública da fundação Getúlio Vargas. Concomitantemente, passou a assinar a página Poesia-Experiência do suplemento Dominical do Jornal do Brasil, mantida de 23 de setembro de 1956 até 1º de novembro de 1958. Somente em 1977 parte destes artigos foram compilados pelo crítico Benedito Nunes e publicados em livro, prefaciado por esse mesmo crítico, pela Editora Perspectiva.

Em 1959, Mário Faustino foi incorporado ao quadro de redatores do Jornal do Brasil. Em dezembro do mesmo ano, segue para os Estados Unidos para trabalhar na ONU, onde permanece até 1962. Tendo estagiado em vários jornais da América do Norte, Faustino falava fluentemente o inglês, francês, alemão, italiano e espanhol. Realizou importantes trabalhos de interpretação para o Museu de Arte Moderna e continuava ligado a ONU como diretor-adjunto do Centro de informações, em Nova Iorque.

Ainda em 1962, foi editor-geral da Tribuna de Imprensa por curto período. Sua vida, bruscamente interrompida a 27 de novembro daquele mesmo ano, quando o avião em que viajava com destino ao México, em missão jornalística, chocou-se com uma montanha em Las Palmas, subúrbio de Lima-Peru, depois de uma escala.

Suplemento Literário – Matutino fundado no Rio de Janeiro a 9 de abril de 1891, o Jornal do Brasil sofreu a primeira reforma gráfica na gestão de Rui Barbosa, que trocou o “z” de Brasil por um “s”. Seis meses depois da fundação, Joaquim Nabuco assumiu a chefia da redação e escreveu uma série de artigos (As ilusões republicanas e outras ilusões) que provocaram o empastelamento do jornal.

Em 1892, a sua propriedade passou a uma sociedade anônima. A 21 de maio de 1893, Rui Barbosa assumiu a direção de redação, que logo foi forçado a deixar, asilando-se na embaixada do Chile. O jornal passou, então, à propriedade de Fernando Mendes de Almeida, transferindo-se em 1918, para o conde Ernesto Pereira Carneiro, que o conservou até a morte em 1954, quando o controle foi assumido por sua viúva, Maurina Dunshee de Abranches Pereira. Após sua morte em 1983, assumiu a presidência M. F. do Nascimento Brito.

Mesmo o Jornal do Brasil, tradicional periódico especializado em anúncios classificados, não escaparia ao surto da modernidade desenvolvimentista do país. Desta forma, é que, em 1958, sob a responsabilidade do poeta maranhense Odylo Costa Filho (1914-1979), o JB passa por mais uma mudança.

De layout novo, teve em Reinaldo Jardim e no artista plástico Amílcar de Castro os operadores da modificação, que sob as ordens do signo construtivista, direcionavam-se para a criação de novo modelo gráfico-visual.

Lançado a 3 de junho de 1956 o Suplemento Dominical do Jornal do Brasil –SDJB, a primeira fase foi preparatória e anunciadora da reformulação geral de 1958. A segunda fase, que terminaria na virada de 1959 para 1960, sentiu o ápice de importância, ao padronizar sua diagramação e pauta em torno das questões da vanguarda concretista, da ensaística e da tradução de inéditos textos críticos acerca da literatura e das artes.

A página-seção Livro de Ensaios – dividida em boxes que representam páginas de livros – surge para prover essa rápida atualização, revelam críticos como Augusto e Haroldo de Campos, José Lino Grünewald, Ferreira Gullar, Oliveira Bastos que manifestam os seus pontos de vista. Ezra Pound, Mallarmé, Sartre, Segui Eisenstein, Henry James, Beckett, Apollinaire freqüentam, semanalmente as edições dominicais.

As mudanças aceleradas do SDJB no espaço jornalístico e da cena cultural brasileira, chegam através da arrojada página Poesia-Experiência, dirigida por Mário Faustino entre 1956 e 1958, que teve atuação importante como poeta e crítico de poesia, é um autor de feição moderna, renovador e aperfeiçoador de formas herdadas da tradição, inventor de formas novas flexíveis.

Eclética como o próprio suplemento, propõe-se promover os novos poetas e operar uma ampla revisão da poesia antiga, mostrando o moderno que existe tanto em Lucrécio quanto em Mallarmé. O lema, estampado na página, é “Repetir para aprender, criar para renovar”. Esse credo de origem poundiana “make it new”, capar de re-atualizar as formas do passado em função das exigências do presente, praticado com rigor por Mário Faustino, reveste-se de um tom grave que é próprio das diversas experiências artísticas da década.

Aprendendo e ensinando foi o principal papel da página Poesia-Experiência, uma peça importante na construção da modernidade. Pois Mário Faustino cumpriu esse papel com eficiência, estampando “exemplos” a cada semana em suas páginas, preenchendo os requisitos de racionalidade e economia para atingir a “eficácia” poética.

Poesia – Poeta circular, que se reescreve retomando os mesmos temas fundamentais, e que também reescreve a poesia, Mário Faustino tem uma obra pontilhada de referências. Não é só um dos maiores poetas contemporâneos brasileiros, mas também um poeta por excelência, modelar, por ser o poeta da experiência do poético, da essência da poesia como participação e amplicidade, como um complexo emaranhado de textos e biografias.

Considerado um poeta de síntese e de confluência de linguagem, cultor de versos inventivos, é detentor de um estilo pessoal e inconfundível, que confere unidade e esta variedade de tratamentos formais,fazendo com que cada poema sempre remeta ao conjunto, à totalidade de sua obra. Ou seja, como seu vasto campo de referências ampliando o próprio espaço da linguagem, Mário Faustino, nos remete a um tema que continua atual e presente.

Não há dúvida que o concretismo provocou uma quase radical transformação na maneira como Mário Faustino abordava o poema. E é fácil verificar tal transformação ao se confrontar os trabalhos do seu primeiro livro publicado em 1955, O Homem e sua Hora. Com suas últimas produções, reunindo toda a experiência de um poeta que se sobressai por sua cultura extraordinária e um alto sentido de pesquisa da linguagem, elevando o verso àquela tensão decorrente de um conceito de que a poesia é concentração, é alta voltagem.

Sobre essa influência, Mário Faustino esclarece: “ Não, não sou concretista. Minha formação é muito parecida com a dos poetas Décio Pignatari, Augusto e Haroldo de Campos e José Lino Grünewald, mas certos aspectos e maneira dessa mesma formação, bem como, e sobretudo, certas condições pessoais, nos colocaram e nos colocam em posição bem distintas, por mais que pareçam aproximadas aos menos informados. Os poetas acima são nitidamente inventores, no sentido poundiano, por mais que este ou aquele venha a ser também um mestre”.[1] Portanto, a poesia de Mário Faustino é leitura obrigatória a todo jovem que se disponha a exercer uma vocação para a qual não basta o talento, a inteligência, a experiência.

Livro Póstumo – Foi através do poeta/ensaísta Haroldo de Campos (1929-2003) que fiquei sabendo da existência dos originais da “Evolução da Poesia Brasileira”, publicado por Mário Faustino em Poesia-Experiência, Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, entre 31 de agosto a 21 de dezembro de 1958, em dez números consecutivos, que se encontrava em poder do escritor e professor da Universidade Federal do Pará, Benedito Nunes.

Em outubro de 1989, na qualidade de pesquisador da Fundação Casa de Jorge Amado e participante do X Encontro Nacional dos Estudantes de Letras –ENEL (9 a 13 de outubro), que se realizaria em Belém do Pará, recebi incumbência do editor desta instituição, Claudius Portugal, para convencer Benedito Nunes a ceder os originais para publicação em forma de livro, a ser incluído na coleção Casa de Palavra da FCJA.

Em 5 de janeiro de 1990, recebo a primeira correspondência de Benedido Nunes, a cerca dos originais: “... está sendo datilografado o trabalho de Mário Faustino – Evolução da Poesia Brasileira – para os cadernos. Quando estiver pronto, um amigo meu lhe enviará. Sigo amanhã para os Estados Unidos: Universidad de Vanderbilt, Nashville, Tennessee – Department of Spanish and Portuguese”. Vinte meses depois, receberia a segunda correspondência, datada de 20 de setembro de 1991: “Eis o escrito de Mário Faustino. Estou à sua disposição para esclarecer qualquer dúvida e, se for o seu interesse, apesar da demora na remessa, mando-lhe cordial abraço”.

Graças a minha insistência de baiano, após várias conversas por telefone e cartas, consegui finalmente os originais do poeta/tradutor Mário Faustino, que foram publicados em noite de autógrafo de 23 de agosto de 1993, com a presença do próprio Benedito Nunes. Evolução da Poesia Brasileira, reúne treze artigos de Mário Faustino, que de cada vez ocupava uma página inteira, ou seja, o espaço todo do folhetim Poesia-Experiência.

Como bem observou o crítico Benedito Nunes “A crítica de Mário Faustino, escrevi na apresentação de Evolução da Poesia Brasileira que a Fundação Casa de Jorge Amado acaba de editar, é uma crítica que fez de um legado poético a resguardar; anti-tradicionalista, pela sua inclinação inventiva e descobridora, ai ao encontro do presente, pondo-se a serviço da inovação que abriria essa linguagem para as suas possibilidades futuras. Talvez se possa falar nos mesmos termos, como um misto de tradicionalismo e anti-tradicionalismo – o que tentarei fazer aqui – da poesia de Mário Faustino, da obra poética desse crítico de poesia”. [2]

Obras – Embora falecido aos 32 anos de idade os apreciadores de sua obra estranham a raridade de menções para com o legado qualitativo deste poeta e crítico aguçado, tanto em relação à nossa literatura, quanto em relação as literaturas inglesa e francesa, das quais foi grande estudioso. Mário Faustino deixou-nos ricos ensinamentos, igualmente no campo jornalístico ao colaborar, desde os dezesseis anos de idade (1946), numa coluna diária no jornal Província do Pará, e na Folha do Norte, onde foi diretor de redação e publicou seus primeiros poemas e traduções da poesia norte-americana, inglesa e francesa.

Ao viajar por longo período pelos Estados Unidos da América estudioso obsessivo como era, pode colher intensa experiência literária e vivencial que, conseqüentemente, ajudou-o a elaborar uma poesia densa e elevada, forjando-o crítico audaz e seguro.

Mário Faustino continua sendo subestimado, pois raros foram os artigos publicados até hoje a respeito deste poeta. Após sua morte foram publicados cinco livros que ajudam a revelar sua grandeza: O Homem e sua Hora, Ed. Civilização Brasileira, 1955; Cinco ensaios sobre Mário Faustino, ( texto: Assis Brasil), Série Coletânea, nº2, Editora GRD, 1964; Poesia de Mário Faustino, antologia poética (textos: Paulo Francis e Benedito Nunes), Editora Civilização Brasileira,1966; Poesia-Experiência, (Texto: Benedito Nunes) Editora Perspectiva, coleção Debates nº136, 1977; Poesia Completa-Poesia Traduzida (texto: Benedito Nunes), Editora Max Limonad, 1985; Os Melhores Poemas de Mário Faustino (texto: Benedito Nunes), Global, 1985, 2ª ed. 1988; Ezra Pound- Poesia (tradução Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari, J. L. Grünewald e Mário Faustino), Editora da Universidade de Brasília, 1983; Evolução da Poesia Brasileira (texto:Benedito Nunes), Fundação Casa de Jorge Amado, 1993.

Dentre os trabalho publicados sobre o poeta Mário Faustino, destacamos: Mário Faustino-Poeta e Crítico, J.L. Grünewald. Rio de Janeiro, Correio da Manhã, 15.dez.1962; Cinco ensaios sobre poesia, J.L. Grünewald. Suplemento Literário O Estado de São Paulo, 19.dez.1964; O poeta e sua vida, Haroldo Maranhão. Suplemento Literário O Estado de São Paulo, 9.jul.1966; Introdução ao Fim, Benedido Nunes. Suplemento Literário O Estado de São Paulo, 9.jul.1966; A poesia de Mário Faustino, Foed Castro Chamma. Rio, Leitura, Ano XXIV, nº106/107 –mai/jun. 1966; Últimos Livros, Wilson Martins. Suplemento Literário O Estado de São Paulo, 14.jan.1967; A Nova Literatura-II Poesia, Assis Brasil (A tradição da Imagem). CEA/MEC, 1975; Oficina da Palavra – Ensaio intertextual, Ivo Barbieri. Rio de Janeiro, Edições Achiamé, 1979; Tradição & Modernidade em Mário Faustino, Albeniza de Carvalho e Chaves (tese de Mestrado em teoria literária). Piauí, 1986; Mário Faustino ou a importância órfica, Haroldo de Campos. Cadernos de Teresina, Ano I, nº1 abr.1987; Uma peça na construção da Modernidade, Antônio Manoel Nunes. Rio de Janeiro, Jornal do Brasil (idéias Ensaios), 7. jan.1990; Mário Faustino, J.L. Grünewald. Folha de São Paulo, 2.dez.1992; Literatura Piauiense no Vestibular, Alcenor Candeira Filho. Parnaíba –Piauí, 1995; Poesia de Mão Dupla, Benedito Nunes. Salvador, Exu Documento – Fundação Casa de Jorge Amado, 1997; Mário Faustino, poeta e crítico subestimado, Carlos Frydman. São Paulo, O Escritor, fev.1998.

 

[1] Mário Faustino, Poesia-Experiência. São Paulo, Editora Perspectiva, col. Debates nº136, p. 279, 1977.

[2] Benedito Nunes, Poesia de Mão Dupla. Salvador, Exu Documento, Fundação Casa de Jorge Amado, 1997.

Aracaju. Jornal da Cidade, 25/26.dez.2003.

Sobre o autor:

Gilfrancisco é jornalista, pesquisador, escritor, com alguns trabalhos publicado, e professor universitário.

E-mail: gilfrancisco.santos@ig.com.br

Fonte: http://kplus.cosmo.com.br/materia.asp?co=251&rv=Literatura

A Reconstrução

(...)
E nos irados olhos das bacantes
Finalmente descubro quem procuro.
Não eras tu, Poesia, meras armas,
Pura consolação de minha luta.
Nem eras tu, Amor, meu camarada,
Às costas me levando, após a luta.
Procurava-me a mim, e ora me encontro
Em meu reflexo, nos olhares duros
De ébrios que me fuzilam contra o muro
E o perdão de meu canto. Sobre as nuvens
Defronte mãos escrevem numa estranha,
Antiquíssima língua estas palavras
Que afinal compreendo: toda vida
É perfeita. E pungente, e raro, e breve
É o tempo que me dão para viver-me,
Achado e precioso. Mas saúdo
Em mim a minha paz final. Metade
Infame de homem beija os pés da outra
Diva metade, enquanto esta se curva
E retribui, humilde, a reverência.
A serpente tritura a própria cauda,
O círculo de fogo se devora,
Arrasta-se o cadáver bem ferido
Para fora do palco:
este cevado
Bezerro justifica minha vida.

Alba

Enquanto o rouxinol à sua amante
Gorjeia a noite inteira e o dia entrante
Com meu amor observo arfante
Cada flor,
Cada odor,
Até que o vigilante lá da torre
Grite:
"Levanta patife, sus!
Vê, já reluz
A luz
Depressa, corre,

Carpe Diem

Que faço deste dia, que me adora?
Pegá-lo pela cauda, antes da hora
Vermelha de furtar-se ao meu festim?
Ou colocá-lo em música, em palavra,
Ou gravá-lo na pedra, que o sol lavra?
Força é guardá-lo em mim, que um dia assim
Tremenda noite deixa se ela ao leito
Da noite precedente o leva, feito
Escravo dessa fêmea a quem fugira
Por mim, por minha voz e minha lira.

(Mas já de sombras vejo que se cobre
Tão surdo ao sonho de ficar — tão nobre.
Já nele a luz da lua — a morte — mora,
De traição foi feito: vai-se embora.)

Romance

Para as Festas da Agonia
Vi-te chegar, como havia
Sonhado já que chegasses:
Vinha teu vulto tão belo
Em teu cavalo amarelo,
Anjo meu, que, se me amasses,
Em teu cavalo eu partira
Sem saudade, pena, ou ira;
Teu cavalo, que amarraras
Ao tronco de minha glória
E pastava-me a memória,
Feno de ouro, gramas raras.
Era tão cálido o peito
Angélico, onde meu leito
Me deixaste então fazer,
Que pude esquecer a cor
Dos olhos da Vida e a dor
Que o Sonho vinha trazer.
Tão celeste foi a Festa,
Tão fino o Anjo, e a Besta
Onde montei tão serena.
Que posso, Damas, dizer-vos
E a vós, Senhores, tão servos
De outra Festa mais terrena —

Não morri de mala sorte,
Morri de amor pela Morte.

Sextina: Altaforte

Loquitur: En Bertrans de Born
Dante Alighieri pôs este homem no inferno por
tratar-se de um provocador de desordens.

Eccovi!
Julgai-o vós!
Será que o desenterrei de novo?

A cena é em seu castelo, Altaforte. "Papiols" é seu jongleur.
"O Leopardo", a device de Ricardo Coeur de Lion.



I

Tudo prós diabos! Todo este Sul já fede a paz.
Anda cachorro bastardo, Papiols! À música!
Só sei que vivo se ouço espadas que ressoam.
Mas ah! Com os estandartes ouro e roxo e vair se opondo
Por cima de amplos campos encharcados de carmim
— Uiva meu peito então doido de júbilo.

II

Se é verão quente, encho-me então de júbilo
Quando a tormenta mata a horrenda paz,
E do negro os relâmpagos reboam seu carmim,
E os tremendos trovões rugindo-me, que música!
Doidos ventos e nuvens ululando e se opondo
Céu rachando e teus gládios, Deus, ressoam.

III

Praza aos diabos de novo que ressoem!
E os corcéis na batalha relinchando de júbilo,
De espigão na peitarra às peitarras se opondo:
Melhor o tremor de uma hora do que meses de paz
Mesa gorda, fêmeas, vinho, débil música!
Não há vinho como o sangue e seu carmim!

IV

E adoro ver o sol subir sangue-e-carmim.
E contemplo-lhe as lanças que no escuro ressoam
E transborda meu peito, dilatado de júbilo,
E rasgo minha boca de ágil música
Quando o vejo zombar, desafiando a paz,
Seu poder solitário contra o escuro se opondo.

V

Esse que teme a guerra e se acocora opondo-
Se ao que digo, não tem sangue carmim,
Só serve pra feder em feminina paz
Longe donde as aspadas trazem glória e ressoam
— Vossa morte, cadelas, recrudesce-me o júbilo
E por isso encho o ar com minha música.

VI

Papiols! papiols! Música, música!
Não há som como espadas às espadas se opondo,
Não há grito como na batalha o júbilo,
Cotovelos e espadas gotejando carmim,
Quando contra "O Leopardo" nossas cargas ressoam.
Deus maldiga quem quer que grite "Paz!"

VII

Que a música da espada os cubra de carmim!
Praza ao diabo, de novo, espadas que ressoam!
Praza ao diabo apagar o pensamento "Paz!"

O SOM DESTA PAIXÃO ESGOTA A SEIVA

O som desta paixão esgota a seiva
Que ferve ao pé do torso; abole o gesto
De amor que suscitava torre e gruta,
Espada e chaga à luz do olhar blasfemo;
O som desta paixão expulsa a cor
Dos lábios da alegria e corta o passo
Ao gamo da aventura que fugia;
O som desta paixão desmente o verbo
Mais santo e mais preciso e enxuga a lágrima
Ao rosto suicida, anula o riso;
O som desta paixão detém o sol,
O som desta paixão apaga a lua.
O som desta paixão acende o fogo
Eterno que roubei, que te ilumina
A face zombeteira e me arruína.

O MÊS PRESENTE

Sinto que o mês presente se assassina,
As aves atuais nascem mudas
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre homens nus ao sul de luas curvas.
Sinto que o mês presente me assassina,
Corro despido atrás de cristo preso, |
Cavalheiro gentil que me abomina
E atrai-me ao despudor da luz esquerda
Ao beco de agonia onde me espreita
A morte espacial que me ilumina.
Sinto que o mês presente me assassina
E o temporal ladrão rouba-me as fêmeas
De apóstolos marujos que me arrastam
Ao longo da corrente onde blasfemas
Gaivotas provam peixes de milagre.
Sinto que o mês presente me assassina,
Há luto nas rosáceas desta aurora,
Há sinos de ironia em cada hora
(Na libra escorpiões pesam-me a sina)
Há panos de imprimir a dura face
A força do suor de sangue e chaga.
Sinto que o mês presente me assassina,
Os derradeiros astros nascem tortos
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre o morto que enterra os próprios mortos.
O tempo na verdade tem domínio.
Amen, amen vos digo, tem domínio.
E ri do que desfere verbos, dardos
De falso eterno que retornam para
Assassinar-nos num mês assassino.

SONETO

Necessito de um ser, um ser humano
Que me envolva de ser
Contra o não ser universal, arcano
Impossível de ler

À luz da lua que ressarce o dano
Cruel de adormecer
A sós, à noite, ao pé do desumano
Desejo de morrer.

Necessito de um ser, de seu abraço
Escuro e palpitante
Necessito de um ser dormente e lasso

Contra meu ser arfante:
Necessito de um ser sendo ao meu lado
Um ser profundo e aberto, um ser amado.

 

 

 

 

 

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Pedro Xisto

(Limoeiro PE, 1901 - São Paulo SP, 1987)

Cursou a Faculdade de Direito, em Recife PE, por volta de 1918 e 1922. Nos anos de 1950, publicou haicais, poemas concretos e criações visuais na revista concretista Invenção. Seu primeiro livro de poesia, Haikais & Concretos, foi publicado em 1960. Aliou a produção poética ao exercício das profissões de procurador do Estado e adido cultural em embaixadas brasileiras nos EUA, Canadá e Japão. Sua obra poética inclui os livros 8 Haikais de Pedro Xisto (1960), Caderno de Aplicação (1966), Logogramas (1966), a e i o u; ou Vogaláxia (1966), Caminho (1979) e Partículas (1984). Os críticos Vinicius de Avila Dantas e Iumna Maria Simon afirmaram, sobre a obra de Xisto: "não tendo participado do Grupo Noigandres, Pedro Xisto aderiu ao Concretismo no final da década de 50, através da preocupação comum com a cultura oriental e com a Física Moderna. Sua obra está cindida entre acompanhar as últimas experiências concretas e produzir um verdadeiro manancial de haikais (...).".

 

Haicai

1

ao lado da lua

neste pinheiro vetusto

uma ave noturna

2

abro após as sombras

de par em par as vidraças:

alçam vôo as pombas

 

 

 

astro star

ostra rats

"Labirinto" (acima) e "Longing" (abaixo)